Mostrar mensagens com a etiqueta Luis Buñuel. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luis Buñuel. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de junho de 2021

A Idade do Ouro (L'âge d'or) 1930

Um dos lendários filmes de Luis Buñuel ,"A Idade do Ouro" seria, à primeira vista, uma história de frustração sexual numa sociedade reprimida. Um homem e uma mulher apaixonados tentam consumar a sua paixão mas sofrem a oposição das suas famílias, da Igreja Católica e da classe média. À medida que o filme prossegue, no entanto, emerge a natureza radical do trabalho de Buñuel, este faz numerosos ataques à religião organizada, além de criticas intransigentes da sociedade.  Par dar ironia às já perturbantes e contraditórias imagens o realizador completa o filme com música clássica de Richard Wagner, Beethoven e Claude Debussy.
Escrito em colaboração com o pintor surrealista Salvador Dalí, o filme é extremamente desarticulado e bombardeia os espectadores com imagens bizarras e irracionais. Quando o casal aparece pela primeira vez, a tentar fazer amor a rolar na lama enquanto uma multidão, representando a sociedade, está de costas. Membros da multidão, culturalmente variada, situados de acordo com a sua classe social, ficam fascinados ao assistir a uma comemoração bem-humorada de quatro homens que morreram de forma mais sem sentido. Mais  perto do espectáculo estão os representantes da classe alta, que usam gravatas, joias e cartolas. Os membros da classe media estão mais distantes e vestem de forma mais moderada. A classe trabalhadora está no fundo, e mal consegue ver os eventos. Quando os membros da classe trabalhadora vêm os amantes levantam os punhos e chamam a polícia.
Quando o filme estreou em 1930 foi criticado pela falta de moral. A insinuação sexual e a natureza foram temas de acalorados debates, e os 6 primeiros dias de exibição, em Paris, tiveram sempre salas esgotadas. Depois da primeira semana, grupos conservadores patrocinados pela igreja católica w grupos de pressão da direita protestaram em frente ao cinema e atacaram publicamente o realizador e o argumentista na imprensa. O que levou ao banimento do filme durante 49 anos, no entanto, foi o desdém que Buñuel e Dali demostraram para com a igreja, no seu apoio ao sexo antes do casamento, a representação de Jesus como um impostor assassino, e as mensagens anti-católicas prokectadas por um slide no filme. Apesar de ter passado em cineclubes e casas privadas, só viria a ter uma estreia oficial nos Estados Unidos em 1979.

 

sábado, 22 de agosto de 2020

Tristana - Amor Perverso (Tristana) 1970

Pouco depois da morte da sua mãe, uma mulher jovem e inocente encontrará refugio na casa do seu guardião aristocrático de meia idade, que em breve a submeterá aos seus avanços sexuais. 
"Tristana", filmado já na fase final da carreira de Luis Buñuel, passa-se em Toledo, em Espanha, e é baseado num livro do Século 19 do escritor Benito Pérez Galdós. Buñuel tinha começado a trabalhar na adaptação do livro em 1962, depois dos censores espanhóis terem rejeitado um argumento que ele enviou. No entanto, ainda demorariam alguns anos para que ele pudesse começar a ver o projecto ganhar vida. Neste período, e como era contra a ditadura espanhola, continuou no México, onde passaria por um período de alta produtividade. 
Tornou-se num dos filmes mais elogiados do realizador, tendo sido nomeado para o Óscar de Melhor Filme em língua estrangeira, embora não seja tão chocante como outros filmes do realizador. Uma das partes mais memoráveis do filme é a jovem a ter pesadelos recorrentes sobre Don Lope, onde a sua cabeça decapitada substitui a corda de um sino da igreja que não pára de tocar. A religião é um tema óbvio no filme, e, curiosamente, Don Lope é uma personagem nada decente, apesar de partilhar alguns dos valores e opiniões do realizador. É ateu, evitado pela irmã profundamente religiosa, e despreza a burguesia, e a fora como ela trata os trabalhadores decentes. Como o próprio Don Lope pertence à classe média/alta, existem muitas contradições nesta personagem. 
Os ataques que Buñuel dirige à igreja católica através desta personagem deviam ter sido suficientes para revoltar os censores, mas a história, como um todo, onde a luxúria e a exploração são seguidas de amargura e malícia também devem ter revoltado bastante a igreja. Além disso, o filme também encena confrontos fascinantes entre a juventude e a velhice, e reflete uma frustração que provavelmente é sentida por pessoas com deficiência, simbolizado aqui por um menino surdo e mudo, e o eventual destino de Tristana. 

sábado, 11 de julho de 2020

Viridiana (Viridiana) 1961

Viridiana, uma jovem noviça prestes a fazer os seus votos finais como freira, aceita, movida puramente pelo senso de obrigação, um pedido do seu tio para visitá-lo. Agitado pela semelhança da sobrinha com a sua falecida esposa, tenta seduzi-la, e a tragédia segue-se...
Depois de quase vinte anos sem filmar em Espanha, Luis Buñuel resolveu enfrentar o desafio de voltar à sua terra natal para fazer "Viridiana", que segundo Victor Fuentes, se tornou na "maior e mais divina orgia erótica do cinema". A decisão do realizador em filmar em Espanha provocou fortes críticas de republicanos espanhóis no exilio. Aos olhos de muitos exilados Buñuel cedia nas suas críticas ao regime de Franco, e voltou a Espanha abandonando a sua postura política radical. No entanto, é precisamente neste filme que Luís Buñuel produziu a sua crítica mais forte aos elementos mais emblemáticos promovidos durante o franquismo. A sua irreverência pelo simbolismo católico rendeu-lhe a condenação do Vaticano quando "Viridiana" estreou.
O regresso de Buñuel a Espanha é o resultado de circunstâncias complicadas. Duas importantes produtoras convergiram durante a produção de "Viridiana", a UNINCI e a Films 59, de Pere Portabella, juntamente com o produtor mexicano Gustavo Alatriste. A UNINCI foi a primeira produtora a tentar ir além dos parâmetros ditados pelo regime, produziu "Sonatas", um filme que Juan António Bardem fez no México em 1959, e queriam atrair realizadores envolvidos politicamente. Foi ainda no México que fizeram o convite a Buñuel. Por outro lado, Pere Portabella tinha produzido "Los Golfos", o primeiro filme de Carlos Saura, e conheceu Buñuel no festival de Cannes de 1960, propondo que fizessem um projecto juntos. O mexicano Alatriste também se envolveu no projecto, em parte porque a sua esposa Silvia Pinal queria trabalhar com um realizador de prestígio, como Buñuel, acabando por ficar com o papel da protgonista.
O Director Geral da Cinematografia, José Muñoz Fontán, escolheu "Viridiana" para representar Espanha no Festival de Cannes, com a intenção de obter reconhecimento internacional por ter recuperado o grande exilado do cinema espanhol, Luís Buñuel. Este gesto representa um dos muitos paradoxos do periodo de abertura na Espanha de Franco. O filme ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e recebeu uma ovação unânime do público e do júri, no entanto levantou uma onda de questões, porque apresentava imagens para os costumes espanhóis da época. Tornou-se imediatamente num objecto de debate internacional, atacado pela igreja, e proibido pelos censores espanhóis, (só seria visto em Espanha em 1977), não obstante o grande sucesso internacional que conseguia. As furiosas denuncias da igreja forçaram a renúncia do Fontán do cargo que ocupava, ele que tinha aceitado pessoalmente o prémio em Cannes, a conselho de Partabella e Juan António Bardem. Como resultado do escândalo, Buñuel afastar-se-ia novamente do país.

Link
Imdb

quarta-feira, 1 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “O Anjo Exterminador” de Luis Buñuel

O “Jornal do Fundão“, os “Encontros Cinematográficos”, o “Lucky Star – Cineclube de Braga“, o “My Two Thousand Movies” e “A Comuna” associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blogue “My Two Thousand Movies”. O primeiro convidado é o escritor Manuel da Silva Ramos, que escolheu El Ángel Exterminador de Luís Buñuel e justificou a sua escolha com um “porque ninguém CONSEGUE sair de casa.”

Sinopse: “A melhor explicação para El Angel Exterminador é que, racionalmente, não tem nenhuma”. Assim “explica” Luis Buñuel a sua obra-prima e o penúltimo filme que dirigiu no México, fábula feroz sobre a burguesia presa dos seus conceitos, preconceitos e ideias feitas, onde um grupo de pessoas é misteriosamente impedido de sair de uma festa.

Como escreveu João Bénard da Costa na sua Folha da Cinemateca sobre o filme, “interpretar El Ángel Exterminador é tarefa impossível. As pistas são tantas, os despistes também, que qualquer tentativa de racionalizar o irracional está à partida condenada ao fracasso. O prodigioso é observar as pequenas mudanças, a lenta introdução do insólito, que começa em torno do caviar, das discussões dos criados e da precipitada saída de alguns deles e vai introduzir-se, pouco a pouco, na festa. Ao princípio tudo parece uma sucessão de diálogos irrisórios, paródia à burguesia ali reunida, como Buñuel já havia feito em muitos filmes anteriores (recorde-se, por exemplo, a boda de Ensayo de un Crimen). Uma convidada pergunta a um Coronel como se sente na pele de herói. Este responde que tem horror aos canhões e que a pátria não é mais do que um conjunto de rios que vão dar ao mar. “Ao mar que é a morte” continua a exaltada senhora. “É isso. Morrer pela pátria” continua o Coronel. E é só o princípio.”

Amanhã, a escolha de Mário Fernandes.

Link
Imdb

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

This Strange Passion (El) 1953

Francisco é rico, bastante rigoroso nos seus princípios e ainda é solteiro. Depois de conhecer Glória por acidente, está decidido a corteja-la até ela aceitar casar com ele, o que acaba por acontecer. Francisco torna-se num marido dedicado, mas aos poucos a sua paixão começa a revelar traços perturbadores. No entanto, Gloria encontra-se com cepticismo quando revela a sua preocupação aos conhecidos.
Em El, o realizador Luis Bunuel alega que a insanidade incontrolável pode crescer até mesmo nos homens mais racionais. Francisco imagina que o ex-amante da esposa os está a espiar. No inicio, os ciúmes manifestam-se em breves explosões de violência contra intrusos fantasmas. Mas a loucura do noivo floresce até que ela deixe de estar acessível aos outros. Bunuel alterna a desintegração de Francisco com os seus ataques normais ao catolicismo: a igreja não pode oferecer nada a este homem infeliz, a não ser mentir-lhe, que ele está curado, e no fundo todos sabemos que ele nunca estará. O critico William K. Everson acertou em cheio quando considerou o filme como "a mais cínica dissecação de um paranoico em loucura total". 
Realizado no auge do período mexicano de Luis Bunuel, "El" é um dos seus maiores filmes, apesar de ser pouco conhecido. Ironicamente, não tem nada de mexicano. É um simples retrato de um paranoico, que, como um poeta, "nasce, não é feito", diz o realizador na sua autobiografia.

Link
Imdb

sábado, 21 de novembro de 2015

Assim Nasce a Aurora (Cela s'appelle l'aurore) 1956

Numa pequena povoação de uma ilha do sul de França, Dr. Valerio (Georges Marchal) é um médico que consulta a população pobre do local, composta por pescadores e operários. A sua esposa, Angela, está insatisfeita e tenta convencê-lo a mudar-se para Nice, cidade onde vive o pai dela. Depois de uma indisposição, ela parte em viagem até aquela cidade francesa enquanto o doutor continua atarefado cuidando dos seus doentes. O doutor Valério conhece Clara (Lucia Bosé), uma jovem viúva recém-chegada de Génova, e inicia com ela um caso extraconjugal, ao mesmo tempo que tenta ajudar Sandro,o caseiro de uma quinta daquela localidade.
Foi graças ao sucesso de filmes como "Los Olvidados"(1950) e "El" (1953), feitos por Buñuel durante o exílio no México, que o realizador conseguiu elevar o seu "star profile", dando-lhe oportunidade para realizar filmes com orçamentos maiores, e co-produções para o mercado internacional, começando com "Robinson Crusué" (1954), o seu primeiro filme a cores. "Cela s'appelle l'aurore" veio pouco depois, uma co-produção franco-italiana filmada na ilha da Corsica, e o primeiro filme francês do realizador, desde "L'Age d'Or"(1930).
Luis Buñuel não era apenas um grande realizador, também era um grande humanista, e isso não poderia estar melhor demonstrado do que em "Cela s'appelle l'aurore", um melodrama de consciência social. Menos estridente e muito menos provocativo do que outros dramas sociais anteriores do realizador, como "Los Olvidados", uma crítica mordaz da pobreza no México, este "Cela s'appelle l'aurore" é atravessado pelo mesmo sentimento anti-burguesia que os seus filmes posteriores, mas tudo isto é desenvolvido com um elevado grau de compaixão e envolvimento emocional. Mesmo aqueles mais familiarizados com o estilo do realizador vão ficar surpreendidos com o humanismo demonstrado neste pequeno e pouco apreciado filme, que o próprio Buñuel considera um dos seus preferidos.
Este é dos filmes mais acessíveis do realizador, talvez por isso mesmo, dos mais desconhecidos.

Link
Imdb

sexta-feira, 5 de junho de 2015

The Young One (La Joven) 1960

 Um guarda-caça e a sua filha de 13 anos vivem numa ilha onde chega, fugido à polícia, um negro acusado de violação. Os confrontos entre os dois homens dão lugar a uma certa cumplicidade até à chegada de outro homem para prender o negro. A jovem, cuja sexualidade desperta durante o confronto, vai ajudar o negro a fugir.
Um dos dois únicos filmes rodados por Buñuel em inglês, é uma obra provocativa, uma fascinante história de poder, engano e manipulação. É muitas vezes entendido como sendo um filme falhado, que foi assim considerado por ser uma produção atípica de Buñuel não contendo nenhuma das suas características conhecidas do cinema surreal. Como acréscimo, algumas outras características que não eram habituais no realizador: racismo, pedofilia, falsas acusações de violação, tudo isto passado numa pequena ilha da Carolina do Sul, onde ele nem precisava de apresentar uma visão tão exagerada ou inquietante.
A parte maravilhosa deste pequeno filme, e na, verdade, o filme é muito melhor do que aquilo que foi visto na altura pelos críticos e pelo público, é que apresenta estas questões no contexto dos Estados Unidos de uma maneira que muito poucos filmes no seu tempo podiam sugerir. Na altura da rodagem deste filme, um outro com preocupações semelhantes, "The Defiant Ones", foi feito. Mas o trabalho de Stanley Kramer, embora notável pela dupla (literalmente algemada), com um racista (Tony Curtis) e um homem negro (Sidney Poitier), estava muito mais ligada ao mundo de Hollywood, não declarando totalmente os seus sentimentos liberais. Esta obra de Buñuel é muito mais subtil, e preocupada pelas mesmas razões. O realizador e o filme, embora tenham claramente um ponto de vista, apresentam os seus vários personagens com grande detalhe, recusando-se a julgá-los de imediato, seja ele qual for.
O filme foi escrito e rodado por muitos antigos artistas de Hollywood, anteriormente colocados na lista negra do Macartismo, o que tornava as questões do filme ainda mais pungentes. O filme, denunciado pelo crítico do New York Times Bosley Crowther, só aponta o facto de que o filme de Buñuel só poderia ser feito fora dos Estados Unidos, neste caso México, e reitera o sentimento de que no início dos anos 60, foram ainda mais conservadores do que em vários anos da década anterior.
Ganhou uma Menção Especial no festival de Cannes de 1960.

Link
Imdb

domingo, 5 de outubro de 2014

Os Esquecidos (Los Olvidados) 1950



Um grupo de crianças brinca num terreno baldio, subindo escombros e tentando arranjar algo para passar o tempo. Já aqui sentimos a falta de direcção que a vida destes jovens está a ter, mas eis que chega Jaibo, um jovem recentemente fugido da cadeia, e por isso mesmo visto como um herói pelas outra crianças. Ele anda a recrutar jovens para outro gang, e é aqui que o impressionável Pedro vai iniciar a sua descida em direcção ao Inferno deixando de roubar por necessidade e passando a fazê-lo por prazer, tornando-se num cruel criminoso.
Luis Buñuel mostra-nos a descida de Pedro, primeiro com a sua aceitação do comportamento desnecessariamente cruel perante um velho e cego artista de rua. Testemunhamos a sua relação difícil com a mãe, e os seus sonhos surreais de sexo e morte, bom como algumas das imagens mais chocantes e desesperantes do filme, com um jovem a ser abandonado numa esquina pelo pai. Jaibo eventualmente envolve-se com a mãe de Pedro, completando o trágico círculo da sua existência disfuncional.
Estas imagens de sofrimento teriam sido lugar comum para criar algumas convenções de heróis e vilões de Hollywood, vitórias e derrotas. Mas neste filme ninguém ganha, e não existem soluções, apenas um retrato sombrio da humanidade, e a profundidade de quanto fundo pode ir o futuro destas crianças.
O ponto de vista do realizador Luis Buñuel é único e visionário. Ele foi capaz de projectar os seus ideais de vanguarda mesmo dentro de um "studio system". Apesar de "Los Olvidados" ter sido rejeitado comercialmente dentro do seu país (México), quando da sua estreia, ganhou aclamação da crítica seis meses depois, quando foi exibido em Cannes, ganhando o prémio de Melhor Realizador no festival, e assinalando o seu regresso ao topo do cinema mundial, depois dos gloriosos anos 30.

Link
Imdb