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domingo, 4 de dezembro de 2016

Capítulo 9 - Guerra

Estado de Guerra (Southern Comfort) 1981
Uma equipa da Guarda Nacional, num fim-de-semana isolado, em manobras nos pântanos da Louisiana tem de lutar pelas próprias vidas quando enfurecem os habitantes locais ao roubarem-lhes as canoas. Sem armas de fogo e numa terra estranha, a experiência do grupo começa a assemelhar-se à que alguns tiveram na guerra do Vietname.
Provavelmente o melhor filme de Walter Hill até ao momento,  "Southern Comfort" funciona de duas formas, como puro cinema de acção e entretenimento e como uma alegoria extremamente eficaz do envolvimento dos Estados Unidos no Vietname. Vagamente reminiscente de "Fim de Semana Alucinante", de John Boorman, o filme segue um grupo da Guarda Nacional em manobras nos pântanos do Louisiana. Brilhantemente fotografado por Andrew Lazlo, e uma excelente banda sonora de Ry Cooder que inclui música cajum, "Southern Comfort" é um filme emocionante com uma atmosfera perturbadora. Sem se esforçar muito para passar a sua mensagem, Hill evoca a luta americana no sudoeste asiático, colocando um grupo de recrutas sem direcção num terreno desconhecido contra guerrilheiros invisíveis e conhecedores do terreno.
Um elenco muito seguro, embora com diversos actores de segunda linha: Keith Carradine, Powers Boothe, Fred Ward, Peter Coyote, seria a partir deste filme que surgiu toda a idéia deste ciclo.

Corações de Aço (Casualities of War) 1989
Em 1966, durante a Guerra do Vietname, Meserve (Sean Penn), um sargento, jura vingança, porque outro soldado, que era seu amigo, foi morto pelos vietnamitas. Assim decide "requisitar" uma jovem para ser uma fonte móvel de prazer. Ao comandar uma patrulha de cinco soldados raptam uma jovem e quatro dos soldados violam-na, mas um deles, Eriksson (Michael J. Fox), recusa-se a praticar tal acto e tenta proteger a prisioneira, que acaba por ser assassinada pelos outros. Indignado com tal acontecimento, ele decide denunciar o facto para que os responsáveis sejam julgados.
Onde "Apocalypse Now" de Francis F. Coppola e "Deer Hunter" de Michael Cimino tentam retratar os as ferramentas psicológicas da guerra usando os seus personagens e situações para implicar um contexto maior, Brian de Palma tenta retratar os mesmos problemas aproximando as personagens de pessoas reais. "Casualities of War" não é obrigatoriamente um filme anti-guerra, porque ao contrários dos dois filmes referidos atrás, não se esforça nada para sugerir o que a guerra fez a Meserve ou a Erickson. O ponto é que, más pessoas existem em todo o lado, o caos da guerra apenas lhes deu desculpas para fazerem coisas que não fariam em tempo de paz. De Palma tem como alvo um certo tipo de personalidade, e insinua que as infraestruturas militares permitam que elas permaneçam ocultas ou ignoradas.
Estreou um pouco antes de um outro famoso filme sobre o Vietname, "Born on the 4th of July", e não lhe fica nada atrás.

A Colina dos Heróis (Hamburger Hill) 1987
Durante dez dias do mês de maio de 1969, entre 11 e 20, ocorreu no Vietname uma batalha apelidada de Hamburger Hill, em que soldados norte-americanos batalhavam pela derrocada da fortificada colina chamada HILL 937. O filme acompanha um pelotão de 14 soldados do exército dos EUA que participou dessa feroz batalha.
Não são apenas as balas que passam através das árvores que levam os soldados juntos nas batalhas. Por vezes os seus companheiros de batalha são tudo o que eles têm. Esposas que os traíram, familiares que se tornam estranhos, para muitos dos homens que sobem Hamburger Hill esta é a recompensa vazia que os espera em casa. Escusado será dizer que "Hamburger Hill" é um filme sombrio que tenta recriar o horror da guerra juntamente com os momentos calmos entre as lutas. É uma representação muito menos ostentosa do que "Full Metal Jacket" ou "Apocalypse Now", obras muito mais badaladas que contam a guerra de uma  forma muito mais operística.
Realizado por John Irvin, contava com um elenco de actores então desconhecidos. Alguns deles vieram a destacar-se mais tarde, como Don Cheadle, Dylan McDermott, ou Courtney B. Vance.

Amanhecer Violento (Red Dawn) 1984
Quando a cidade de oito jovens é invadida por soldados soviéticos e cubanos, e gradativamente por forças militares, eles tomam a decisão de fugirem para as montanhas. Os adolescentes adotam então o nome da equipa de futebol do colégio, os Wolverines, e formam uma guerrilha armada contra o comunismo, e em defesa da família, dos amigos e dos Estados Unidos. 
"Red Dawn" foi escrito por Kevin Reynolds (que mais tarde realizaria "Robin Hood - Prince of Thieves" e "Waterworld"), e realizado por John Milius, causando uma onda de pânico na sua estreia, com a preocupação de que fosse levado a sério demais. No entanto, a maioria das mentes mais maleáveis voltou-se para outro tipo de filmes que seria mais popular na década de oitenta, em vez de um apelo às armas. Visto agora, passados mais de trinta anos, é difícil de acreditar que o filme tenha qualquer valor de propaganda diferente do que era habitual. 
Realizado em 1984, com Ronald Regan na Casa Branca, "Red Dawn" é um filme com uma inclinação claramente conservadora. Com John Milius no leme, um realizador que era um conservador assumido, membro da NRA (National Rifle Association), que contava já, entre realizações e argumentos, com uma carreira notável ("Dillinger", "Big Wednesday", "Conan, the Barbarian"), o filme contava com uma série de jovens estrelas, algumas delas chegadas dos filmes de adolescentes realizados por Coppola no ano anterior, como era o caso de Patrick Swayze, C. Thomas Howell, ou Charlie Sheen.
Imdb

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Capítulo 2 - Acção e Aventura

O final da década de oitenta, confirmou aquilo que já vinha a ser prometido há alguns anos: acção sem parar, aventuras em terrenos misteriosos e experiências cinematográficas novas, insólitas, mas de êxito além da exploração, mesmo em filmes sem qualidade, de padrões de êxito seguro.
"Os Salteadores da Arca Perdida" tinha sido o filme de acção por excelência, mas sete anos mais tarde a palavra acção seria levada a um novo extremo, com o filme de John McTiernan, "Assalto ao Arranha-Céus".
A prateleira dos filmes de acção era sempre das mais abrangentes, pois podia incluir policiais, filmes de ficção científica, guerra, dependendo um pouco do ponto de vista do organizador do clube de vídeo. E o VHS criou os seus próprios heróis de acção, mas a eles iremos falar num futuro capítulo deste ciclo, para já vamos conhecer alguns filmes de acção e aventura que nos deliciavam.

O Dragão do Lago de Fogo (Dragonslayer) 1981
Um rei fez um pacto com um dragão, através do qual este deixa o seu reino em paz em troca do sacrifício de virgens. Um velho feiticeiro e o seu jovem aprendiz voluntariam-se para matar o dragão e salvar a próxima virgem da morte, a própria filha do rei.
Nomeado para os Óscares pelos seus impressionantes efeitos especiais da Industrial Light and Magic, "Dragonslayer" foi um filme que teve dificuldade em encontrar um público, quando do seu lançamento nas salas de cinema, em parte por ter sido comercializado como uma fantasia infantil, com uma co-produção entre a Walt Disney e a Paramont. No entanto, a nudez, a violência, alguns momentos assustadores, e uma cena particularmente gore, assustaram os mais novos, principalmente os que gostavam de aventuras do estilo "Dungeons & Dragons". Mas, "O Dragão do Lago de Fogo", acabaria por ganhar uma nova vida depois de lançado em vídeo, tornando-se num dos maiores sucessos dentro do género acção e aventura.
A realização estava a cargo de Mathew Robbins, e a dupla caçadora de dragões era formada por Peter MacNicol (estreia no cinema) e Ralph Richardson.

Firefox (FireFox) 1982
Os céus nunca viram nada parecido. Voa a uma velocidade 6 vezes maior que a do som, não é detectado por radares e o seu sistema integrado de armas - adaptável a armamento nuclear - é operado pelas ondas do pensamento do piloto. É a máquina de guerra mais devastadora já construída, de nome do código Firefox. Mas o Firefox pertence aos russos e para manter o equilíbrio do poder mundial, o Ocidente precisa de roubá-la. Clint Eastwood é o piloto americano escolhido para o trabalho.
Antes da reviravolta na sua carreira, com "Bird"(1988), e "Unforgiven" (1992), Clint Eastwood era um herói dos filmes de acção, por várias vezes, como aqui, dos dois lados da câmara. "Firefox" é um desses filmes, com efeitos especiais da autoria de Chuck Gaspar, o mesmo de "Ghostbusters", "Beetlejuice", "Lethal Weapon" ou "Armageddon".
É um filme político de uma ponta à outra, sendo impossível discuti-lo de outra forma. É um exemplo de uma série de filmes em que a glória do equipamento hi-tech era exaltada, um sub-género militar-industrial, que curiosamente chegaria aos cinemas com Regan no poder. Outras obras deste sub-género eram "Blue Thunder", "Wrong is Right" e "Deal of the Century".

Robin dos Bosques (Robin Hood) 1991
Na Inglaterra dividida do século XII, os normandos governam duramente, enquanto os saxões se expõem a enormes perigos para contestar a sua autoridade. Um nobre saxão, após um acto de bravura, torna-se vítima da justiça normanda e perde as suas terras além do título de nobreza. Rotulado como fora da lei sob a identidade de Robin Hood, engana os seus rivais, conquista o amor de Lady Marian e transforma-se no grande herói do povo saxão.
O verão de 1991 foi quente, com a disputa entre dois filmes, sobre o fora-da-lei Robin dos Bosques. Dois filmes sobre o mesmo assunto num curto espaço de tempo não era bom sinal, um deles iria fracassar na bilheteira. De um lado esta uma produção de Kevin Reynolds, com um Kevin Costner acabadinho de saír dos Óscares de "Dança com Lobos", e um budget de 48 milhões, um número considerável para aquele época. Do outro lado estava esta produção de John McTiernan, que esteve para realizar, mas acabaria por passar apenas para produtor, quando se apercebeu que não tinha hipóteses de competir com Kevin Costner. John Irvin ficaria na cadeira de realizador, e sem orçamento para uma estrela de primeira linha, o papel principal será de Patrick Bergin, com o papel de Lady Marian a ir parar a Uma Thurman.
É um filme muito fiel à história original, e também ao ambiente da época, mas seria completamente ignorado, e derrotado pelo filme de Kevin Costner, que até é bem inferior.

A Força dos Punhos (Three O'Clock High) 1987
Jerry Mitchell está a ter um dia daqueles: atrasou-se para a escola, o seu carro tem um pneu furado e o professor mandou-o para a sala do diretor da escola. Só que o pior ainda está por vir. Quando ele precisa de passar na casa de banho, tem o azar de tropeçar em Buddy Revell, o valentão recém-chegado à escola. Ao se desculpar, Jerry dá um tapadinha ao de leve nas costas do rapaz... Terrível erro! Buddy não suporta ser tocado e desafia-o para uma briga às três da tarde, no estacionamento da escola. Em pânico, Jerry pede ajuda à sua irmã mais nova e, juntos, eles precisam de pensar numa maneira de evitar o confronto, já que ele é um covarde de primeira. O tempo passa e as opções de Jerry vão ficando cada vez menores.
"Three O’Clock High" procurava uma resposta que vinha a atormentar os cinéfilos durante gerações: o que aconteceria se John Hughes fizesse um filme sobre "The Trial", de Franz Kafka? A resposta é alternadamente surreal, engraçada e surpreendente. Poderia ter corrido mal, mas o realizador Phil Joanou, na sua primeira obra, e o jovem Casey Siemaszko, conseguem manter um ar de honestidade emocional por todo o filme. Não importa o quão estranhas as circunstâncias se tornem, é fácil nos relacionarmos com a crescente ansiedade do personagem de Siemaszko.
Não deu nas vistas nas salas de cinema, mas tornou-se num êxito dos clubes de vídeo.