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sábado, 11 de maio de 2024

Contrato Para Matar (The Killers) 1964

“Os Assassinos” (The Killers), de 1964, é a terceira adaptação do conto de Ernest Hemingway. As outras duas foram as de Robert Siodmak, de 1946 – um clássico noir -, e a segunda um curta metragem de Andrei Tarkovsky (em co-direção com Alexander Gordon e Marika Beiku), de 1957, mas nenhum deles se iguala a essa versão dirigida por Don Siegel. Como se sabe, o filme foi produzido originalmente para a televisao, mas por causa de sua brutalidade foi exibido nos cinemas.
Se o conto de Hemingway, e consequentemente as suas adaptações cinematográficas, mostra dois assassinos que vão a um restaurante rural para eliminar um homem marcado. Don Siegel subverte muda completamente o ponto da história, mostrando Charlie Strom (Lee Marvin) e Lee (Clu Gulager) como os dois assassinos contratados para eliminar Johnny North (John Cassavetes) que, ao ficar frente a frente com o seu destino, o aceita. A sua passividade diante da morte, aceitando-a sem implorar, choca a dupla. Os dois, após investigar o motivo de tanta submissão, descobrem que Johnny North estava envolvido com Sheila Farr (Angie Dickinson), namorada de Jack Browling (Ronald Reagan). 
Don Siegel fez um trabalho e tanto com seu elenco. Conhecido por sua direção de atores econômica e eficiente, ele arranca performances memoráveis de Dickinson e Reagan. Ela, uma femme fatale na mais pura acepção do termo; ele, na performance de sua vida, a sua ultima atuação antes de se dedicar à política. “Os Assassinos” é um filme que se sustenta pelo olhar, seja na cena de abertura em que o rosto do personagem de Lee Marvin aparece refletido nas lentes dos óculos escuros de Clu Gulager, assim como os olhos de John Cassavetes que não saem da cabeça de seus executores. 
Don Siegel é um realizador que fez muito a minha cabeça como cinéfilo em formação: títulos como “Meu Nome é Coogan” (Coogan’s Bluff), de 1968; “Os Abutres Têm Fome” (Two Mules For Sister Sara), de 1970; “Perseguidor Implacável” (Dirty Harry), de 1971; e “O Homem Que Burlou A Máfia” (Charley Varrick), de 1975, da mesma forma que este “The Killers” formaram o meu gosto estético por filmes que Rogério Durst, crítico de cinema do jornal O Globo, nos anos noventa, alcunhou de Cine-Machão. Filmes secos, diretos, crus. Todos os títulos acima citados foram vistos na televisão, em madrugadas passadas em claro esperando a próxima atração do Coruja Colorida. 
* Texto da autoria do Alexandre Mourão. 

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A Grande Burla (Big Trouble) 1986


John Cassavetes sempre lutou longa e duramente contra a preferência pelos filmes mainstream. E assim, é preocupante queseu último filme, Big Trouble, seja uma obra que segue esse tipo de fórmula. 
À primeira vista, Big Trouble parece ser uma ode irregular ao filme de Billy Wilder, Double Indemnity (1944). Como no filme de Wilder, temos uma femme fatale, Blanche Rickey (Beverly D'Angelo), que convence um vendedor de seguros, Leonard Hoffman (Alan Arkin), a assassinar o seu marido, Steve (Peter Falk), a fim de recolher um seguro no valor de 5 milhões dólares . Mas um investigador de fraudes, O'Mara (Charles Durning), frustra  os seus planos, enquanto Hoffman descobre que Steve nunca morreu realmente. E é nesta viragem da trama, que Big Trouble inicia o tema que atravessa toda a obra do realizador, isto é, o seu interesse pelas decepções ruinosas e as relações fracassados.
Como é típico na sua obra, Cassavetes fornece-nos personagens complexas, de quem nunca gostamos inteiramente, e recusa-se a explicar plenamente as suas motivações. Big Trouble, no entanto, só se preocupa em investigar o engano básico. A realidade íntima que se encontra  por baixo desta intrigante história, permanece invisível. 
Muito do humor do filme vem das suas paródias aos estereotipos.  Mas, apesar de tais momentos de humor e perspicácia, o filme é fraco, mesmo quando faz referência a filmes anteriores de Cassavetes. Na pior das hipóteses, o filme parece menos ser o trabalho de um realizador experiente emais o de um estudante de cinema pretensioso. Triste final de carreira para Cassavetes, mas o filme cá está para os curiosos. 
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Amantes (Love Streams) 1984


John Cassavetes começou "Love Streams" a saber que estava a morrer, e enquanto é um filme tão difícil e tão perturbador como o resto da sua obra, também é um filme bastante sentimentalista.
Cassavetes é o protagonista como Robert Harmon, um escritor de romances "trashy" sobre sexo e mulheres. Para "pesquisa", ele sai - e muitas vezes dorme - com todos os tipos de mulheres, mas principalmente prostitutas. Para ele, o amor só existe num momento fugaz, e não muito mais. A irmã, Sarah (Gena Rowlands), tem uma visão muito diferente. Por ser uma pessoa que sufoca toda a gente, leva-a  a um divórcio do marido (Seymour Cassel), e a filha (Margaret Abbott) escolheu viver com ele.
Depois de uma viagem pela Europa, a fim de recuperar duma depressão, Sarah decide, então, ir viver com o irmão.
Enquanto isso, ao irmão foi atribuído um filho (provavelmente um "erro" a partir de uma experiência sexual há muito esquecida), durante o fim de semana.
Robert vê-se a braços com uma estranha e inesperada família em casa, que o obriga a mudar todos os hábitos, nomeadamente, em relação às mulheres.
Baseado numa peça de Ted Allan, "Love Streams" é um estudo assustador, provocante, e brutalmente honesto sobre o amor, a necessidade emocional, solidão e a saudade. Em contraste com o trabalho de câmera activo e de confronto dos seus filmes anteriores (mais notavelmente em Faces), John Cassavetes cria um retrato mudo, e objetivo, capturado com compaixão subjacente a vidas vazias e emocionalmente à deriva, personagens que agem em confronto com dor e o desespero.
O olhar suave e profissional deste filme (praticamente sem o uso de câmera de mão) é a principal diferença entre este e os seus filmes dos anos 70, algum do trabalho de câmera é absolutamente elegante. Mas a temática e a narrativa, são muito no estilo de "Husbands" ou "A Woman Under the Influence" - para o melhor e para pior. Se Cassavetes encontrou um modo de fundir o seu estilo solto com a narrativa tradicional no seu filme anterior, "Gloria", aqui ele está de volta aos velhos tempos.
Brilhou no festival de Berlim, onde conquistou o Leão de Ouro, e o Prémio FIPRESCI.

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Gloria (Gloria) 1980


Depois de todo o experimentalismo, depois de tanto estudar os recantos obscuros da alma, depois de tantos exercicios de interpetação auto-indulgentes, Cassavetes tem um dos seus melhores filmes, e também o seu mais convencional. Gloria é a história de uma mulher resistente e um jovem rapaz, condicionados dentro de um filme de gângsters, que ao mesmo tempo é um filme de perseguição.
Gena Rowlands interpreta a personagem do título,ex-namorada de um gangster que acaba por ajudar a fugir um jovem vizinho (John Adames), depois de toda a sua família ser assassinada; o pai do jovem era um contador da máfia, e entregou o livro da contabilidade ao filho antes de tudo acontecer. O motor do filme é a tentativa de Gloria para fugir da cidade antes de ambos serem mortos. 
Rowlands é electrizante como Gloria, sabe usar uma pistola ou a língua afiada com a mesma habilidade. Adames é encantador e simpático, e a galeria de durões deste filme é mais do que credível. 
"Gloria" é dos melhores filmes de Cassavetes, filme altamente subestimado que transforma o género do filme de gângsters num retrato comovente e memorável da maternidade de substituição e a natureza da dependência, perfeitamente envoltos num manifesto feminista que prova que as mulheres podem ser tão inteligentes, fortes e determinadas como os homens, e igualmente hábeis no uso de uma arma.
Embora seja verdade que a maioria dos filmes de Cassavetes estejam fora do mainstream convencional, ele fez este com a clara intenção de atrair e agradar outro tipo de público.
Rowlands, que recebeu uma nomeação ao Óscar por este papel, era uma das melhores actrizes daquele período, trazendo uma profundidade natural e uma dignidade a cada personagem bastante tocante. Como ex-glamour girl, sempre esteve disposta a assumir papéis não glamorosos, algo que outras actrizes de topo nem sequer consideravam.


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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Noite de Estreia (Opening Night) 1977


Desde o início de "Opening Night", que o realizador John Cassavetes situa-nos firmemente, tanto como a audiência de um filme, como na plateia da vida real de uma peça. Myrtle Gordon, interpretada convincentemente por Gena Rowlands, é a estrela do filme e da peça. Quando ela testemunha uma jovem fã ser atropelada na rua, na busca de um autógrafo, Myrtle quebra completamente. A morte da jovem trás à tona sentimentos de culpa, mas também uma viagem vertiginosa no tempo, destacando o que significa viver numa única direção no tempo.
Myrtle já não é jovem, e  o facto de ser escolhida como uma mulher mais velha na peça, traz-lhe um dilema em que ela não têm nenhum caminho de volta: se ela desempenhar o papel bem, a sua carreira vai ser catapultada para o sucesso, e se ela aceitar as implicações do papel para as mulheres em geral, elas serão sempre delegadas a uma vida sem esperança. 
Nona longa-metragem de John Cassavetes, concluída em 1977, mas ignorada nos EUA até depois da sua morte, é a mais auto-reflexiva das suas principais obras. Enquanto outros grandes filmes de Cassavetes são modelos de imediatismo, aqui tal já não sucede. A insistência habitual do cineasta sobre a inseparabilidade entre actor e personagem (da arte e da vida) reverbera aqui nos corredores assombrados de um melodrama de bastidores. O envelhecimento de Myrtle é um alter ego do realizador. O que quer dizer, "Opening Night" dramatiza o que outros filmes de Cassavetes encarnam - a radical ruptura de um meio de expressão verdadeiro. Sem filhos, solteira e ressentida, escolhida para uma peça intitulada "The Second Woman", Myrtle cai num estado depressivo depois de testemunhar a morte de uma adolescente.
Cassavetes mostra que para sermos alguém plenamente, precisamos de reconhecer, através da perda, a dor e a tristeza. Paradoxalmente, lutando com essas questões e limitações fornece uma forma de crescimento pessoal. Myrtle recusa-se a exorcizar os seus demónios, excepto através do trabalho das suas próprias mãos, tornando o processo de transformação de uma dialética dentro de si, em vez de uma imposição de forças externas.

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A Morte de Um Apostador Chinês (The Killing of a Chinese Bookie) 1976


The Killing of a Chinese Bookie é, pelo menos superficialmente, uma facada de John Cassavetes no thriller de gangsters. Na verdade, as armadilhas do filme de género são incidentais ao propósito central, um estudo de personagem do carismático loser Cosmo Vitelli (Ben Gazzara), dono de um clube de strip que se imagina um artista. Cosmo é uma espécie de showman vaudeville, organizando espectáculos grandiosos em que as meninas giram no palco enquanto "Mr. Sophistication" (Meade Roberts), um homem gordo e careca, canta fora do tom e conta histórias. É tudo tão triste, tão evidentemente amador e chato, e Cosmo ainda acredita que é um artista. Ele preocupa-se profundamente com o seu clube, ama as suas bailarinas, e presta atenção e cuidado com cada detalhe dos seus shows. Na sua própria maneira estranha, é um perfeccionista, só que a sua ideia de perfeição é mal encenado nos shows de strip.
Uma partida dos melodramas mais orientados internamente, "The Killing of a Chinese Bookie" tem diversas vezes sido saudado como uma análise brilhante da identidade masculina, uma tentativa do realizador no mais nebuloso dos géneros, o filme noir, e uma simples imagem de um gangster. Independentemente de quaisquer filiações ao género, é principalmente um estudo de uma personagem, um veículo para o seu actor principal para escorar os seus talentos consideráveis​​.
Com um actor regular de Cassavetes, Ben Gazzara como Cosmo Vitelli, um sedutor pretenso e o proprietário infeliz de um clube de strip, que se encontra em circunstâncias terríveis depois de acumular uma dívida de jogo considerável para uns gangsters. Como muitos filmes de Cassavetes, desdobra-se mais interessantemente nos espaços da sua narrativa, e a câmera é dada a espaços e tempo para ficar do lado do mais fraco, o loser. Num filme altamente crítico sobre a masculinidade, Gazzara imbui Cosmo com uma incerteza, frágil, bravura masculina, e coberto de arrogância
Um filme que até ter sido lançado em DVD, em 2004, era muito difícil de ser visto.   

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence) 1974


Nick Longhetti é abrupto, emocional, fica enraivecido rapidamente, mas também tem momentos de ternura. Mabel, a sua esposa, é socialmente inepta e emocionalmente insegura. O seu comportamento é estranho e inadequado, mas ela será louca, um perigo para os seus filhos? Este filme de John Cassavetes, "Uma Mulher Sob Influência" tenta fornecer uma resposta, mas esta não é clara, e o filme pode ser visto de diferentes pontos de vista. O que está claro, no entanto, é que Peter Falk e Gina Rowlands, que interpretam o casal problemático e se amam profundamente, mas não conseguem expressar o seu amor de formas socialmente aceitáveis.
Passados nos subúrbios de Los Angeles, nem o marido nem a esposa são pessoas de posses e Nick é um trabalhador da construção civil de colarinho azul. Eles têm três filhos, Maria (Christina Grisanti), Tony (Matthew Cassel), e Angelo (Mateus Laborteaux), que amam os seus pais, mas estão perplexos pela forma como agem. 
A abordagem de John Cassavetes como cinema verité capta a honestidade e a integridade da emoção humana. Cassavetes coloca-nos no centro: um convidado à mesa de jantar, um colega de trabalho ouvindo a culpa de Nick e a negação sobre o compromisso da sua esposa. Os movimentos de câmera são deliberados, utilizando sequências de movimento para refletir o caos da situação. Inicialmente, vemos uma Mabel desorganizada a enviar os filhos para longe com a avó, e mais tarde a responder ao inquérito do médico, com resistência e histeria. No entanto, depois de enviar Mabel para fora de casa, é Nick que perde o auto-controle, instigando uma discussão que leva a um acidente infeliz. No final, depois de um regresso a casa estranho, Nick e Mabel voltam para a distração de organizar a mesa de jantar, a tentativa de trazer alguma aparência e ordem nas suas vidas interrompidas - conciliar com a sua própria culpa e falhas - sozinhos no quarto, juntos.
Mais uma das grandes interpretações de Gena Rowlands, valeu-lhe uma nomeação para o Óscar de Melhor Actriz, e outra de Melhor Realizador para Cassavetes. 

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Tempo de Amar (Minnie and Moskowitz) 1971


Depois das mediações sobre as relações raciais (Sombras) o tédio suburbano (Faces) e a natureza do machismo (Husbands), temos um tipo diferente de Cassavetes para o seu filme seguinte, uma "comédia romântica" chamada Minnie e Moskowitz. Embora as aspas em torno do género possam ser necessárias (este certamente não é um filme de Nora Ephron, ou mesmo Woody Allen), Cassavetes está claramente a desfrutar da liberdade de se sentir solto, com uma história estranha, num tom menor. Gena Rowlands (Sra. Cassavetes) e Seymour Cassel são Minnie e Moskowitz, uma curadora de museu e um empregado de um parque de estacionamento, que se cruzam e caem num estranho, e hiper-emocional caso de amor, muitas vezes conflituoso ao longo de quatro longos dias e noites.
A prestação de Rowlands é o melhor do filme. Ela está no seu papel primeiro papel central nos filmes do marido, e raramente fez um outro em que não fosse tão frontal e central, habilmente navegando entre as complexidades impossíveis da sua personagem, mesmo parecendo, algumas vezes, mudar a sua aparência física diante dos nossos próprios olhos. "Tudo usado para me fazer sorrir", diz ela, numa cena chave maravilhosa, "Eu percebi que eu não sorria tanto como costumava fazer." Uma grande parte do filme é realizado à volta dessa cena , os dois não fazem qualquer sentido juntos, mas ele a faz sorrir e rir e sentir-se viva, e algumas pessoas chegam a um ponto das suas vidas em que isso é o suficiente. O que Rowlands faz, sem medo, é mostrar-nos uma mulher que acaba de chegar a esse ponto. 
Cassel, é  agradável e interessante no início do filme, com o seu bigode e cabelo longo, mas a cerca de dois terços do filme, percebemos que o seu desempenho bate sempre na mesma nota estridente. Muitos dos personagens secundários têm o mesmo problema, particularmente Val Avery e Katherine Cassavetes (sim, a mãe do realizador), como uma mãe judaica dolorosamente estereotipada. Há coisas para gostar em Minnie e Moskowitz, o ritmo constante, a montagem ligeiramente arqueada, mas mesmo com os seus problemas é um filme indispensável.

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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Maridos (Husbands) 1970


Assim como no seu filme anterior, Faces (1968), Maridos era uma produção independente de Cassavetes que nascia da convicção de que muitos casamentos da classe média são infelizes, desapaixonados, realizados pelo conforto e conformidade social, e pouco mais. "Faces" capturava o mal-estar suburbano com uma intensidade crua, que era agravada pelo uso do filme de 16mm granulado e principalmente por actores irreconhecíveis que trouxeram uma ferocidade e um sentimento de raiva genuíno nas suas performances. "Husbands" tem muitas dessas qualidades, mas é como uma cover de uma canção que alcança as notas certas, mas nunca soa muito bem. Talvez seja a côr da fotografia, talvez o argumento,ou o tema central de "Faces" já tivesse sido esgotado, mas "Husbands" não consegue alcançar a qualidade do filme anterior.
Filmado no  início dos anos 70, é imediatamente reconhecido o estilo quase documental de Cassavetes, e a história segue três melhores amigos - Harry (Ben Gazzara), Archie (Peter Falk), e Gus (John Cassavetes) - num período de quatro dias depois do funeral de um quarto amigo que morreu recentemente de um ataque cardíaco inesperado (que só vemos em fotos ainda no início do filme). Os três homens estão todos nos seus 40 anos e são profissionais de sucesso com esposas e famílias, mas a ironia do título é que o status de "maridos" é só no nome (a ironia é muito óbvia, de facto, nenhum filme chamado "Husbands" poderia ser sobre cônjuges bons). Não só vemos pouco das suas esposas e filhos, como eles se comportam de uma forma que possa ser considerada juvenil. Harry, Archie, e Gus, por outro lado, poderiam ser melhor descritos como homens seriamente desajustados. Passam a maior parte do filme, que Cassavetes considerou "uma comédia sobre a vida, morte e liberdade", perseguindo os seus próprios demónios com misantropia, álcool e agressividade descabida, que os leva a vários bares em volta das suas casas figurativas e a um destino final em Londres. Porquê Londres? Por que não?
Uma das características dos filmes de Cassavetes é a sua frouxidão enganosa, que dá a primeira impressão de algo improvisado, mas em visões repetidas revela-se algo cuidadosamente orquestrado e escrito revelando verdades internas que a maioria de nós gostaria de esconder. "Husbands" encaixa-se muito bem neste esquema, mas falta-lhe o sentido subjacente da compaixão que fez filmes anteriores de Cassavetes tão comoventes. Tendo em conta que Cassavetes começou a sua vida artística como actor, não é de estranhar que os seus filmes sejam geralmente construídos em torno de interpretações centrais poderosas, e em "Husbands" não é diferente. Ben Gazzara e Peter Falk, que colaboraram com Cassavetes em vários projetos ao longo dos anos, incorporam um sentimento de angústia masculina. Cassavetes como o terceiro amigo, um papel que está mais próximo de um mediador, um meio termo entre a relativamente suave raiva de Gazzara e o excesso de confiança de Falk.

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Rostos (Faces) 1968


Hoje em dia, "Faces" é considerado um marco no cinema americano, não só pela sua influência sobre os futuros cineastas independente, mas também pela sua estilização anti-Hollywood . A maioria dos filmes de Hollywood preocupava-se com grandes eventos, Cassavetes, no entanto, estava mais interessado em explorar as falhas comuns e as marcas da vida quotidiana, as coisas mundanas, que são muitas vezes ignorados nas produções típicas de Hollywood. 
"Faces" encarna muito do que Cassavetes sentia que era vital para o palco, e faltava no cinema. Numa ruptura com as convenções de Hollywood, o filme utiliza várias sequências de câmera na mão, cenas longas e diálogos aparentemente amorfos que, no entanto, parecem reais, não forçados, e espontâneos. Os homens e as mulheres de elenco de Faces são um reflexo da verdadeira América dos subúrbios da classe média, e cada personagem tem as suas próprias falhas e problemas pessoais. Somos apresentados, no início do filme, a duas pessoas, Richard e Freddie. Eles são amigos da faculdade, agora casados e de meia-idade. Numa noite de folia, bêbados, pegam em Jeannie, provavelmente uma prostituta, e nos próximos 13 minutos do filme, eles persuadem-na alegremente e comportam-se de uma forma desinibida. Esta sequência inteira não é essencial para o enredo, mas, uma crise de ciúmes por afeições divide Jeannie entre os homens, eventualmente, pára a folia, e a noite termina mal como os dois amigos sombriamente a seguirem caminhos opostos.
No entanto, este encontro serve como um catalisador para a insatisfação emergente de Richard. Richard (John Marley), no meio de uma crise de meia-idade, anseiando por uma fuga das pressões e da monotonia dos negócios e da vida de casado. Ele acabará por procurar Jeannie (Gena Rowlands), mais uma vez, rejeitando a sua própria jovem e dedicada esposa Maria (Lynn Carlin) no processo. É um acto egoísta, aquele que dirige a Maria, anteriormente fiel, a procurar uma liberação de suas próprias inibições.
"Faces" é sobre as nossas personas exteriores e os perigos ou dilemas que surgem quando despimos tais disfarces. Tal como acontece com muitos dos filmes Cassavetes, Faces é um filme sobre relacionamentos adultos e sobre a comunicação, ou a falta dela. A profundidade dos seus filmes, que dizem respeito às emoções complexas e muitas vezes ambivalente dos adultos, geralmente opõe-se à dos espectadores mais "crianças", de realmente compreenderem estas emoções; tal apreciação só pode ser adquirida através da maturidade e experiência, por vezes, dolorosa. Entre todos os filmes de Cassavetes , este é provavelmente o mais verdadeiro.

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sábado, 9 de fevereiro de 2013

Prisioneiros da Noite (Too Late Blues) 1961


Entre os seus dois marcos do cinema independente, "Shadows" e "Faces", o actor que se tornou realizador, John Cassavetes, passou os anos 60 a fazer dois filmes menos conhecidos de estúdio, muitas vezes negligenciados nos estudos da sua obra. Um deles era o da MGM "A Child is Waiting", que ainda recebeu algum airplay devido à presença de Judy Garland e Burt Lancaster como protagonistas, enquanto o outro, "Too Late Blues", da Paramount raramente é reconhecido, excepto como uma rara oportunidade de protagonista para o cantor Bobby Darin.
Visto hoje, o filme (que o realizador raramente citava) é uma obra valiosa para um realizador em transição no meio de uma cultura de jazz. Alguns dos melhores talentos deste género musical podem ser encontrados providenciando música para os muitos números musicais aqui encontrados, incluindo Jimmy Rowles, Benny Carter, e Shelly Manne em músicas como ""Sax Raises Its Ugly Head" e "Look Inward Angel,", bem como uma banda sonora inspirada em jazz, pelo especialista David Raksin. 
O filme, mais como um estudo de uma personalidade do que de uma narrativa tradicional, segue o espírito criativo de "Ghost" Wakefield (Darrin), um músico determinado e dedicado à sua arte que se recusa a vender à fama. Ele liga-se a uma paixão antiga, Jess (Stella Stevens, um ano antes de aparecer ao lado de Elvis Presley em "Girls! Girls! Girls!"), e quando a deixa entrar no círculo da sua banda, todo o mundo ameaça desmoronar sobre a sua cabeça.
A idéia base do filme soa a algo que o espectador já viu inúmeras vezes, mas o que faz Cassavetes ser tão único é o foco na atmosfera e verossimilhança musical em vez do drama da história. O atrito de uma sessão de gravação, a dinâmica de um "frontman" face aos muitas vezes esquecidos restantes músicos, e os desafios de manter o corpo e a alma juntos face às dificuldades financeiras, tudo é aqui revisto de uma forma corajosa e firme, embora muitos críticos tivessem marcado o filme como "deprimente", na altura do seu lançamento. No entanto, o tempo tem sido muito bom para o filme, e enquanto é estranho ver Darrin num filme sobre o mundo da música onde ele realmente não canta, absolve-se bem num papel muito mais antipático do que seria de esperar. Também muito significativo a partir de um ponto de vista da cultura pop, o filme de 1961 também apresenta um jovem Vince Edwards, que se tornaria famoso nesse mesmo ano.
Legendado em espanhol.

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Sombras (Shadows) 1959


A produção do primeiro filme de John Cassavetes, Shadows, começou impulsivamente, como um projecto de improvisação num dos workshops de representação que ele liderava. A produção foi anunciada sem o conhecimento dos seus actores no programa de rádio de Jean Shepherd, Night People, cujos ouvintes ajudaram a financiar o filme através de doações. 
O que começou como uma experiância da natureza da filmagem tornou-se no primeiro filme independente moderno, uma história surpreendentemente íntima de personagens movidas por ter as coisas nos seus próprios termos, sem nada a depender a não ser as poucas pessoas mais próximas a elas. E, se Sombras se sente como um primeiro filme - o diálogo improvisado por vezes é pesado, e as interpretações podem ser desiguais - é aquele que melhor demonstra o potencial dos realizadores por trás dele.
A relação romântica entre Lelia, uma mulher de pele negra, e Tony, o seu amante de temperamento explosivo, é muitas vezes descrito como central, mas é realmente apenas um pedaço de uma peça que explora temas não só de raça, mas de alienação e de privação de direitos. "Eu sou quem eu sou", é o grito de guerra ouvido de cada personagem num ponto ou outro, e isso reflecte não apenas as atitudes dos personagens, mas de um realizador e uma equipa determinada a mostrar que o cinema não tem que ser uma criatura de Hollywood. 
Shadows é, na sua essência, um filme pioneiro no espírito independente, dedicado a ser o que é. Não aspira a uma escala épica, e em vez de se tornar confortável para uma audiência maior, torna-se um retrato da vida das pessoas que deslizam para dentro e para fora da história, sem sentimentalismo ou espectáculo.
Alguns personagens são introduzidos por apenas uma linha, ouvindo as suas vozes, mas nunca são vistos. Em festas e jantares, várias cenas paralelas entre si, como a câmera nos leva de um personagem ou discussão para outra, sem aviso prévio, esses elementos aparentemente díspares, formam um todo maior.
Quer se trate de explorar a luz e a sombra em design ou força e vulnerabilidade na personagem de Lelia, Shadows é um estudo em contradição e contrabalanço. O jazz desempenha um papel enorme em Shadows, cuja banda-sonora foi realizada em parte pelo lendário Charlie Mingus. A música é excelente, e é colocada de modo a condizer com as livres performances de improviso no filme.
 


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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

John Cassavetes

"The most difficult thing in the world is to reveal yourself, to express what you have to. As an artist, I feel that we must try many things - but above all we must dare to fail. You must be willing to risk everything to really express it all."

John Nicholas Cassavetes nasceu a 9 de dezembro de 1929, em Nova York. Em 1950, graduou-se na American Academy of Dramatic Arts, e rapidamente agarrou pequenos papéis em vários filmes e na televisão. Em 1956, Cassavetes começou a ensinar método de interpretação no seu próprio Workshop, em Nova York. Um exercício de improvisação inspirou a idéia para o seu filme de estreia, "Shadows". Embora não conseguisse distribuição americana, o filme ganhou o Prémio da Crítica no Festival de Veneza no ano seguinte. Daqui até 1960, Cassavetes apareceu num punhado de produções de série B e produções para televisão antes de finalmente dirigir dois filmes para Hollywood: "Too Late Blues" e "A Child is Waiting". Estes filmes não lançariam a carreira de Cassavetes, mas permitiram-lhe arranjar trabalho em obras mais importantes, como os filmes, "The Dirty Dozen" em 1967, e, Rosemary's Baby", em 1968. O sucesso como actor permitiu a Cassavetes mudar-se para Los Angeles, Califórnia, e financiar, escrever, dirigir e interpretar o seu filme seguinte, chamado "Faces", com a esposa, Gena Rowlands.
Faces foi nomeado a três Óscares, e Cassavetes ganhou a atenção e o respeito que precisava para continuar a fazer filmes independentes. De 1970 a 1984, nasceram uma série de clássicos do cinema independente: "Husbands", "Minnie e Moskowitz", "A Woman Under the Influence", "The Killing of a Chinese Bookie", "Opening Night", "Gloria", e "Love Streams". Em 1984, Cassavetes foi diagnosticado com cirrose do fígado devido ao consumo excessivo de álcool, e foi lhe dado seis meses de vida. Em 1987, Cassavetes tinha desafiado este prognóstico e escreveu uma peça de três actos chamada "Woman of Mystery", que foi apresentada nesse ano no Court Theater. Cassavetes trabalhou durante 1988 para produzir um filme intitulado "She's Delovely", mas o projecto parou por causa de problemas financeiros. Infelizmente sucumbiu à cirrose do fígado a 3 de fevereiro de 1989, com a idade de 59.
John Cassavetes foi considerado um génio, um visionário, e o pai do cinema independente. Mas tal retórica ameaça obscurecer o humanismo e generosidade da sua arte.10 dos seus filmes magníficos, irão passar por aqui nos próximos dias. Espero que gostem.