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terça-feira, 19 de outubro de 2021

Viva Maria! (Viva Maria!) 1965

"Viva Maria!" é um western cómico que relata as aventuras de um circo itinerante e uma troupe de música no fictício país de San Miguel. O filme apresenta inúmeras sequências cómicas, incluindo granadas de mão lançadas por um pombo, Brigitte Bardot a balançar por entre as árvores com uma corda, um presidente corrupto, revolucionários ineptos cujos comportamentos põem em causa a sua capacidade de se conduzirem. O filme caricatura a infância revolucionária de Maria O´Malley, desde 1891 na Irlanda até 1907, na América Central, quando a jovem Maria explode uma ponte que o soldados coloniais britânicos estão a cruzar enquanto tentam alcançar o seu pai, um anarquista irlandês. Ela foge dos soldados e junta-se a um grupo itinerante em San Miguel. Durante uma perfomance, acidentalmente faz um número de striptease, que a torna muito famosa na região.
"Viva Maria" não se levou muito a sério, mas os censores do Texas, sim. O distribuidor submeteu o filme para a MPCB, em Dallas, para solicitar licença de exibição. Oito membros do MPCB votaram no filme como impróprio para menores, enquanto um nono membro se absteve. Uma portaria local permitia que o MPCB pudesse fazer esta classificação se acreditasse no seu julgamento que um filme "descrevesse ou retratasse brutalidade, violência criminal ou depravação de forma a incitar os jovens ao crime, delinquência ou promiscuidade sexual". A lei previa também que se um exibidor não aceitasse as regras, a MPCB devia entrar com um processo judicial para impedir a exibição do filme. O exibidor, neste caso, não aceitou a avaliação do filme, e fez uma exposição por escrito alegando que o filme tinha sido mal avaliado. 
O juiz da primeira instância alegou que o filme tinha duas ou três cenas que poderiam influenciar negativamente os jovens, mas o exibidor voltou a apelar até o caso ser julgado na Suprema Corte dos Estados Unidos, que deu razão ao filme realizado por Louis Malle, num caso que levaria a indústria de Hollywood a abandonar o Production Code. 


sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Os Amantes (Les Amants) 1958

 Baseado num livro do século 19 chamado "Point de Lendemain" , escrito por Dominique Vivant, mas o filme passa a história para o Século 20. Jeanne Tournier, uma mulher de 30 anos aborrecida com a vida,  casada com um rico editor, sente-se presa e inquieta na província de Lyon, infeliz no casamento porque o marido a ignora. Seguindo o conselho da amiga Maggy, começa um caso em Paris com o playboy Raoul Flores, um homem culto e atraente, que em breve também a aborrece.
"Os Amantes" era um filme intensamente sensual, mas a sua principal objecção não era a visão romantizada do adultério. Em vez disso, os censores de várias cidades opuseram-se à prolongada cena de amor dos últimos 20 minutos. Embora a nudez seja reduzida ao mínimo, a cena entre uma mãe casada de 30 anos, e o arqueologista mais novo foi bastante polémica na sua época. Na Virginia e em Maryland os censores apresentaram aos donos dos cinemas uma lista de cenas a cortar para que o filme fosse mostrado, ao que os donos dos cinemas preferiram não mostrar o filme. Em Nova Iorque tiveram que ser retirados alguns segundos aos 20 minutos finais para que o filme tivesse autorização, e em Memphis, Boston e Providence  o filme foi mesmo mostrado sem os minutos finais, a intensa cena de amor. 
A ocorrência mais famosa em relação a este filme, foi o longo que opôs em tribunal Nico Jacobellis e o Estado do Ohio, um caso que alterou as regras da proibição de filmes para sempre. Em 1959, Jacobellis um gerente de um cinema que passava filmes de arte foi preso sob a acusção de posse e exibição de um filme obsceno. Quando o caso foi a julgamento a acusação era baseada inteiramente na cena de amor dos minutos finais do filme, sendo o exibidor condenado. O advogado apelou da decisão, chegando a ser discutido perante a Suprema Corte do Estados Unidos que decidiu em 1964, cinco anos depois, que o filme não era obsceno perante os padrões dos Estados Unidos. Uma decisão que teve um grande impacto em futuras disputas em tribunal por causa da censura de filmes.

terça-feira, 21 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Nathalie Granger”, de Marguerite Duras

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My Two Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O vigésimo primeiro convidado é Mathilde Ferreira Neves, que escolheu Nathalie Granger de Marguerite Duras.

Sinopse: Crónica da vida quotidiana de uma mulher e da sua filha, que partilham a casa com uma amiga e a filha dela. Silêncios, tarefas domésticas, corredores, notícias inquietantes na rádio, telefonemas do departamento de imigração, Jeanne Moreau, Lucia Bose, Gérard Dépardieu. Marguerite Duras.

Numa entrevista a Leopoldina Pallotta della Torre publicada em La Passione sospesa (1989), e sobre o filme, Marguerite Duras disse que “eu adorava a ideia de trabalhar com duas grandes estrelas, invertendo o cliché e mostrando os corpos delas de trás, ou as mãos delas, sem me demorar nas pernas, nos rostos e nos seios delas.
"Queria fazer um filme que respeitasse o ritmo da mulher, sem apelar à feminidade habitual, tão desgastada. Tenho belas recordações deste acordo entre mulheres, elas as duas e eu. 
"Quanto a Jeanne, desde a época de Moderato cantabile que me apercebi da inteligência extraordinária do olhar dela, com a seriedade com que interiorizava os seus papéis. Enquanto rodava com Brook, vinha constantemente a minha casa para me pedir informações sobre a vida de Anne Desbaresdes, que eu própria era obrigada a inventar no momento para a contentar. 
"A Jeanne é muito parecida comigo: ambas tínhamos sido atravessadas pela força de um amor durante a nossa vida toda. Não necessariamente de um amor que já existisse, mas por qualquer coisa que ainda lá não estava, que ia chegar ou acabar." 
Mathilde Ferreira Neves escreve-nos que “para Marguerite Duras, Nathalie Granger é, antes de mais, o trabalhar da matéria do feminino: da função que as mulheres têm tido e mantido ao longo dos séculos, das angústias da mãe de Nathalie, que são, no fundo, as angústias de qualquer mãe. Mas o que é, efectivamente, importante para a realizadora é que o filme, muito para além de ser uma afirmação do feminino, é uma negação da sociedade tal como a conhecemos.” 
Uma homenagem a Lucia Bosè (extraordinária actriz neste filme), recentemente falecida devido à pneumonia covidiana. 

Amanhã, a escolha de Bruno Andrade. 

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sábado, 24 de novembro de 2018

O Tempo Que Resta (Le Temps Qui Reste) 2005

Romain é um jovem fotógrafo de moda. Com um apartamento moderno, uma relação estável e uma carreira em ascenção, nada parece faltar-lhe. Até que, durante uma sessão de fotografia, desmaia subitamente. Os receios de ter contraído a SIDA são assombrados por um diagnóstico ainda mais brutal: um cancro, em fase avançada e terminal. Com três meses de vida estimados, Romain terá que se confrontar com a sua vida... e com a sua morte. Conseguirá Romain encontrar paz interior no derradeiro momento...? Ou acabará por sucumbir a uma espiral de negação e auto-destruição?
Escrito e realizado por François Ozon, " Le Temps qui Reste" é a história de um fotógrafo da moda, de sucesso, que está prestes a morrer de um tumor no cérebro. Alienando todos na sua vida, incluindo o namorado, volta-se para a sua avó e uma empregada de mesa para reflectir sobre a vida. O que temos depois é uma reflexão sobre o mundo da morte, quando jovens enfrentam o que é inevitável.
 Francois Ozon estuda o mundo da morte do ponto de vista de um jovem de 31 anos, e em vez de criar uma história melodramática procura um estudo cínico e realista de um jovem que lida e aceita o seu destino. Ozon poderia transformá-lo numa personagem trágica, mas, em vez disso, prefere mantê-lo como uma personagem comum. Um personagem que é defeituoso como todos os outros que entram numa jornada emocional e existencial. 
Ajudando-o na parte visual está a directora de fotografia Jeanne Lapoirie, que já anteriormente tinha colaborado com o realizador e um elenco bastante trabalhador. Um destaque especial para Melvin Poupaud no papel principal e Jeanne Moreau no papel da avó, numa das suas últimas participações em longas metragens. 
Filme escolhido pela Lília Lopes.

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sábado, 10 de dezembro de 2016

Capítulo 11 - Western

O Pistoleiro do Diabo (High Plains Drifter) 1973
Um homem chega à pequena cidade de Lago, no Arizona. Provocado, mata três pistoleiros e fica a saber que um dos homens que matou tinha sido contratado pelos moradores para defender a cidade dos bandidos violentos que vão chegar em breve. O estranho aceita assumir a tarefa, mas impõe as suas condições. Entre elas, que a cidade seja toda pintada de vermelho e que o seu nome seja mudado para Hell (inferno).
A última grande vaga de westerns, conhecida evocativamente como os "anti-westerns", e exemplificada pelos filmes de Sam Peckinpah ou Monte Hellman, chegou durante a época do Vietname, quando os mitos americanos sobre o bem e o mal foram universalmente chamados à razão. Os velhos estereótipos do western, good guy bad guy, duelos, cidades trabalhadoras da fronteira, foram interrogados até à sua hipocrisia amoral, um processo que nenhum outro filme sofreu tão explicitamente, como "High Plains Drifter", de Clint Eastwood.
Eastwood interpreta um personagem que voltaria várias vezes ao longo da sua carreira, o "homem sem nome", que aqui é um robusto pistoleiro saído da névoa do deserto, e tropeça na pequena cidade de Lago, onde pode ou não pode ter negócios inacabados, trazidos de outra vida.
Seria a segunda realização de Clint Eastwood, a primeira tinha sido "Play Misty for Me" (1971).

Soldado Azul (Soldier Blue) 1970
Quando atravessavam o território Cheyenne transportando um cofre e levando Cresta Marybelle Le (Candice Bergen) uma mulher branca que viveu com os Cheyennes, vinte e dois soldados da cavalaria são atacados por índios. Apenas Cresta e o ingénuo, idealista e desajeitado recruta Honus Gent (Peter Strauss) sobrevivem. Juntos, caminham até ao Forte Reunion, onde Cresta deverá encontrar-se com o noivo e durante esta viagem, Honus protege Cresta contra os índios Kiowa, destrói o carregamento de um traficante de armas e apaixona-se por Cresta, mas não acredita nas suas palavras quando ela o tenta convencer que os Cheyennes são pacíficos.
Com um tom antibelicista, em defesa dos índios mas, na verdade, dirigido à guerra do Vietname, que por esta altura estava no seu auge, tenta chocar o público com imagens do massacre dos índios, fazendo ligação com o incidente do massacre da aldeia vietnamita de My Lai, na qual também foram mortas mulheres e crianças pelas tropas americanas.
Realizado por Ralph Nelson, "Soldier Blue" foi um filme cercado por uma enorme controvérsia devido à brutalidade e ao sadismo documentado pelas suas imagens. A influência era de "The Wild Bunch" (1969), de Sam Peckinpah, um filme que marcou uma vaga invisível de violência, abrindo o caminho a uma série de realizadores ansiosos por empurrar os limites do gosto e da decência dentro dos limites comerciais. Tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido foi fortemente cortado, só sendo possível ser visto a sua versão integral quando o filme foi lançado em DVD.

 Monty Walsh - Um Homem Difícil de Morrer (Monte Walsh) 1970
O triste olhar de dois velhos cowboys sobre o fim do Velho Oeste. Bebedeiras, rodeios, brigas e tiroteios começam a sair da rotina e Monte e Chet (Lee Marvin e Jack Palance) pensam em como dar um sentido às suas vidas, antes que se tornem peças de museu.
"The Wild Bunch" (1969), de Sam Peckinpah é muitas vezes considerado o último suspiro no território do western, mas o certo é que o território do velho oeste continuou a ser explorado com relativa afluência durante alguns anos. O caso de "Monte Walsh", obra de estreia de William A. Fraker, um pequeno western relativamente pouco conhecido, situa-se algures entre a fúria de "The Wild Bunch" e a calmaria de "McCabe & Mrs. Miller" (1971) de Robert Altman, mas ainda assim é um filme impressionante que beneficia muito da experiência de Fraker como fotógrafo, principalmente por ter fotografado filmes como "Rosemary´s Baby", "Bullit" ou "Paint Your Wagon".
Fraker pinta um retrato do velho Oeste que é ao mesmo tempo romantizado e surpreendentemente decrépito. Como era costume nos westerns da época, a fronteira parece sempre bonita, mas os personagens não parecem entender a sua beleza, apenas tentam sobreviver num ambiente implacável.
Contracenando com as duas estrelas principais, Lee Marvin e Jack Palance, vamos encontrar Jeanne Moreau,numa das suas primeiras incursões pelo cinema americano.

Nevada Smith (Nevada Smith) 1966
Velho Oeste, final do século XIX. Sam Sand (Gene Evans) e a sua mulher, uma índia, são torturados e mortos por três pistoleiros, que acreditam que Sam escondia uma boa quantidade de ouro. O filho do casal, Max Sand (Steve McQueen), ficou tão chocado ao ver os corpos dos pais que decidiu que não queria que ninguém mais os visse assim, queimando a casa com os corpos lá dentro. Max decide vingar-se custe o que custar, mas não sabe disparar e nem sequer escrever ou ler. Além disso não sabe o nome dos assassinos, que viu apenas uma vez por breves instantes.
Embora as prequelas sejam consideradas uma idéia moderna, apenas o nome é uma invenção recente. "Nevada Smith", estreado em 1966, conta a história de um dos personagens do filme "The Carpetbaggers", lançado em 1964, com realização de Edward Dmytryk. Ambos os filmes são baseados nos eventos do livro de Harold Robbins, mas se no primeiro a personagem de Nevada Smith é interpretada por Alan Ladd, no segundo é Steve McQueen quem salta para o papel. Apesar da ligação, não é necessário nenhum conhecimento prévio para ver qualquer um dos filmes.
McQueen era um actor carismático e talentoso, aqui em fase claramente ascendente. "Nevada Smith" funciona mais como um filme veículo do talento do actor, com uma realização segura de Henry Hathaway. O elenco de apoio também era de muito valor: Karl Malden, Brian Keith, Arthur Kennedy, Janet Margolin, Martin Landau, entre outros.

Os Comancheros (The Comancheros) 1961
Em 1843 um capitão dos Texas Rangers, Jake Cutter (John Wayne), captura o jogador Paul Regret (Stuart Whitman), que teve o azar de matar em duelo o filho de um juiz. Jake encaminha Paul para a sua cidade e durante a viagem os dois unem-se para acabar com os comancheros, brancos que vendem armas e bebidas para os índios.
"The Comancheros" foi o último filme do realizador Michael Curtiz, que faleceu no ano seguinte. Supostamente Curtiz estava constantemente doente durante a produção do filme, e Wayne teve de substitui-lo em algumas cenas, embora não apareça creditado como tal. O filme é basicamente um veículo para John Wayne, com um argumento pouco inspirado. Mas tem um ponto forte muito interessante: a introdução do cowboy bêbado de Lee Marvin, que teve continuação em filmes como "The Man Who Shoot Liberty Valance", "Cat Ballou" ou "Paint Your Wagon". Quando chegada a altura de "Cat Ballou" Marvin já era muito bom neste papel, ao ponto de ter ganho um Óscar por interpretar esta personagem.
como entretenimento funciona bastante bem.
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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Nathalie Granger (Nathalie Granger) 1972

Uma casa em Yveslines, nos arredores de Paris é o lar de duas mulheres(Lucia Bosé e Jeanne Moreau), de temperamento muito diferente. Uma das mulheres ocupa o tempo como dona de casa, e jardinagem, a outra preocupa-se frequentemente com o futuro da filha, Nathalie. Será que o futuro de Nathalie vai passar pelo internato, seguindo ela as aulas de música? O único som que quebra o silêncio é o do rádio, até que um vendedor (Gérard Depardieu) aparece à porta...
Marguerite Duras ("Cesarée"/"India Song"/"Woman of the Ganges") em 1959 escreveu o argumento para "Hiroshima, Mom Amour". Aqui ela escreve e dirige este retrato minimalista da vida de duas mulheres, feito quase sem diálogos, longas pausas de silêncio, e sem enredo discernível. Era o chamado anti-drama, percursor tanto de Chantal Akerman como Claire Denis, com Duras, para sentir uma sensação de conforto, a filmar na sua própria casa nos arredores de Paris.
As necessidades emocionais de Nathalie são atendidas através de reacções calmas e racionais das duas mulheres altamente inteligentes, e através do canal sublime da música, e poderia haver uma escolha melhor do que Johan Sebastian Bach para fazer a alma de uma criança mais sublime, mais pura e mais nobre?
Grandes interpretações de Bosé, Moreau e Depardieu, e também da jovem Valerie Mascolo no papel de Nathalie, naquele que foi o seu único filme até hoje.

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terça-feira, 11 de março de 2014

A Grande Pecadora (La Baie des Anges) 1963



Jean chega a Nice. Começa a interessar-se pelo jogo e encontra no casino uma jogadora, Jackie. Entre os dois nasce paixão e fascínio. São um pelo outro, ou ambos pelo jogo? Jean instrui-se emocionalmente. Jackie joga.
Jacques Demy sucede a sua primeira longa-metragem, "Lola", com este conto de amor e obsessão nas salas de jogo de Nice, um filme muito mais convencional para a época, mas ainda assim inequivocamente ligado à Nouvelle Vague. " La Baie des Anges" é um filme muito mais escuro, mais irónico, do que "Lola", mostrando-nos um lado mais sombrio da mente humana, um retrato implacável do comportamento impulsivo. Também é um filme sobre a corrupção - de como um homen decente é seduzido, primeiro pelo jogo, e depois por uma mulher mais velha e egocêntrica - e finalmente a redenção, para que haja ressonância com os filmes de Bresson.
Jeanne Moreau é uma escolha perfeita para o papel de femme fatale, que se transforma num retrato de obsessão que também é visto no filme de Truffaut, "Jules et Jim" - temos a mesma intensidade, uma espontaneidade perigosa, a sexualidade predatória e um sentido persistente de mistério. Ao lado dela, Claude Mann é um complemento ideal, um homem normal, jovem, presa fácil mas que parece saber o que é preciso para salvar Jackie, aparentemente condenada. Os dois actores trazem uma profundidade emocional, e uma poesia, que talvez façam falta no argumento. Poesia a que Michel Legrande acrescenta a música, e Jean Rabier uma bela fotografia a preto e branco. Todos estes ingredientes trabalham perfeitamente juntos, transmitindo estados alternados da euforia ao desânimo. O final do filme é cruelmente abrupto.

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quarta-feira, 5 de março de 2014

Jules e Jim (Jules et Jim) 1962



Em Paris, antes da Primeira Guerra Mundial, dois amigos, Jules (austríaco) e Jim (francês), apaixonam-se pela mesma mulher, Catherine. Mas Catherine ama e casa com Jules. Depois da guerra, quando se encontram de novo, ela começa a amar Jim. Esta é a história de três pessoas apaixonadas, e como o amor nunca irá afectar a amizade, e como a relação deles sobrevive ao longo dos anos.
Jules et Jim abre com uma narrativa desenvolta, música carnavalesca, e uma rápida montagem de imagens para passar para uma rápida descrição de um narrador, de como as personagens do título se encontraram e ficaram amigos. É uma situação um pouco apressada, quase desorientadora, mas é a prova do desejo de François Truffaut nos contar as informações de fundo, e passar para a história que nos interessa. Este início também faz contraste com o final, que é mais lento, mais silencioso, evocando um desejo de repensar tudo o que foi feito até então.
Apesar do título do filme ser sobre Jules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre), é realmente sobre Catherine (Jeanne Moreau) que recai a história, e é ela que nos fica mais na memória no final do filme. Uma personagem desafiadora, que quebra todas as regras, e se recusa a ter uma descrição simples (ela tanto é uma mãe amorosa como é propensa a causar sarilhos). Mesmo depois de casar com Jules, e de ser amante de Jim, ela recusa-se a fugir de perto deles, envolvendo-se em comportamentos prejudiciais, apesar de amar os dois.
Baseado na novela autobiográfica de Henri-Pierre Roché, publicada em 1953 quando já tinha 74 anos de idade, é um dos filmes mais importantes da Nouvelle Vague, retratando tão bem as inovações formais do movimento, com as preocupações temáticas. Embora não fosse tão contraditório às convenções de Hollywood como "O Acossado" de Godard, ou o segundo filme de Truffaut, "Tirez Sur le Pianiste", "Jules et Jim" frequentemente quebra as regras formais, enquanto constrói uma relação emocional entre os personagens. A fotografia de Raoul Coutard é brilhante, misturando shots suaves com um trabalho de câmara de mão muito bem conseguido.
"Jules e Jim" foi um dos filmes mais populares dos anos sessenta, e o público viu nele os seus próprios desejos e medos refletidos. Quando Catherine numa sequência salta para o rio quando sente que Jules e Jim não lhe estão a prestar atenção suficiente, é uma imagem perfeita do seu espírito livre, e ao mesmo tempo, prefigura o gesto que vai acabar o filme. 

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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Os Amantes (Les Amants) 1958



Aborrecida com o marido, aborrecida com o amante jogador de pólo, uma mulher de meia-idade parte com um jovem que lhe deu boleia quando o seu carro avariou, no caminho de volta para a sua casa de campo.
Visto tanto como revolucionário, como escandaloso, quando foi lançado no final dos anos 50 na Europa e nos Estados Unidos, Les Amants, de Louis Malle, foi um filme que não envelheceu bem, e não foi só por causa da sexualidade tão agressiva, mas inofensiva para os padrões actuais. A famosa sequência de amor, que era tão despida a mostrar a sensualidade física que o filme foi proibido nos Estados Unidos, e resultou numa lendária decisão do Tribunal Supremo. É a única sequência que ainda mantém toda a sua vitalidade.
Esta sequência primorosamente filmada e editada, deriva de uma atmosfera onírica, que sugere o esmagamento dos sentidos com paixão. Filmado num Widescreen anamórfico a preto e branco, pelo lendário director de fotografia Henri Decaë, é uma experiência visual intensa (de acordo com o realizador foi inspirado pelo pintor Caspar David Friedrich). No entanto, e apesar de toda a beleza e de tantos momentos de sensualidade, ainda é um filme curto em emoções. Mostra-nos paixão, mas esta é filmada mais como um exercício do que como uma narrativa orgânica.
A personagem de Jeanne Moreau floresce quando se entrega a Bernard, e o seu orgasmo na tela pode ser visto como um momento de puro prazer existencial, e ela é libertada. Por causa disso, o filme tem sido regularmente visto como uma obra sobre a emancipação da mulher, com Jeanne a rejeitar tanto o marido como o amante, embora seja difícil de encontrar essa liberdade, já que ela só pode ser encontrada nos braços de outro homem. Malle não sugere uma fuga simplista para o pôr do sol. Uma voice-over informa-nos do destino ambíguo para Jeanne, que pode ou não encontrar a felicidade.
Mesmo em França "Les Amants" foi escandaloso, principalmente porque reprimiu todas as acções de Jeanne (incluindo ela ter deixado para trás uma filha de oito anos), sem ter deixado o público fazer o seu próprio julgamento. É um conceito ousado (em alguns países não foram os detalhes do encontro sexual que foram censurados, mas sim a cena em que Jeanne deixa a filha), que ainda hoje tem o poder de irritar. É difícil não encontrar a personagem principal ou poderosamente livre ou repugnantemente absorvida, mas Malle pende mais claramente para a primeira.

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Fim-de-Semana no Ascensor (Ascenseur Pour l'échafaud) 1958



Florence Carala e o seu amante Julien Tavernier, um ex-paraquedista, querem matar o marido dela, simulando um suicídio. Mas, depois de executar o crime perfeito, e colocar as coisas no carro, Julien descobre que se esqueceu de uma corda, e volta atrás para trazê-la. O inesperado acontece, quando ele fica preso no elevador...
O título do filme de estreia de Louis Malle, "Ascenseur pour l’échafaud", é uma espécie de piada doentia e um perfeito sumário do filme em si, e do género Film Noir, a quem presta uma honrosa homenagem. A nível literal, o elevador desempenha um papel importante no filme. Na verdade, o elevador é o eixo principal da história, a transformar-se num caixão temporário que sela o destino do protagonista, garantindo que ele não consiga completar o plano perfeito, e fugir com o seu amor. Ao mesmo tempo, é um perfeito exemplo para toda a sensibilidade dos film noirs, como eles quase sempre levam um protagonista assombrado, num passeio lento, mas inevitável, para a morte.
"Ascenseur pour l'échafaud" ficou famoso a vários níveis. Primeiro porque era o primeiro filme de Louis Malle, que trabalhou nas margens da Nouvelle Vague durante a década de sessenta, mas nunca foi um membro por completo, em grande parte porque o seu trabalho variado (nunca fazia o mesmo filme duas vezes) não cabia exactamente na teoria do filme de autor. Como o seu único "filme de género", destaca-se do resto da obra da sua obra, mas tem apenas os mais fracos traços do humanismo que definiria o resto da sua carreira. Em vez disso, é um thriller "contra-relógio" preparado e executado com uma intensidade implacável, que sugere um realizador de grande habilidade (Malle tinha apenas 25 anos quando o filme saíu para as salas).
O filme também apresenta uma grande banda sonora, improvisada pelo artista norte-americano de jazz Miles Davis, gravada numa única sessão, com um punhado de músicos. A música que acompanha o filme e agarra o centro da história, é incrível, mas depois recua em silêncio. Há uma essência de "coolness" que precorre todo o filme, que está relacionada com a música de jazz, e não seria de estranhar que muitos cineastas da Nouvelle Vague a viriam a incorporar nas suas futuras obras. No entanto, o filme funciona tão bem porque Malle não permite que ele seja apenas um exercício de estilo. Pelo contrário, Malle impregna-o com um senso de romantismo sem esperança, principalmente na personagem de Jeanne Moreau, que é forçada a vaguear pelas ruas de Paris toda a noite (fotografada lindamente por Henri Decaë). Mesmo acreditando que ele fugiu com outra mulher, ela recusa-se a desistir dele, o que dá peso às proclamações de amor que faz ao telefone nos close-ups do início do filme. Apesar de Moreau já trabalhar no cinema durante as últimas duas décadas, "Ascenseur pour l’échafaud" foi o filme que lhe deu fama, em parte porque Malle foi o primeiro realizador a saber como usar a sua intensa sensualidade.

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sábado, 14 de dezembro de 2013

A Noite (La Notte) 1961



No caminho para uma recepção para comemorar a publicação do seu mais recente romance, Giovanni Pontano leva a esposa Lidia a visitar o seu amigo Tommaso, que está a morrer de cancro, num hospital particular. A visita perturba tanto Giovanni como Lidia e faz com que eles reflitam sobre a sua relação, que está prestes a ruir...
Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau, ícones do cinema italiano e francês, entram neste retrato sombrio de um romance sobre a morte, de um dos grandes mestres do cinema italiano, Michelangelo Antonioni. La Notte é o segundo de um ciclo de três filmes feitos por Antonioni que exploram a esterilidade da vida e a futilidade do amor no mundo moderno. A trilogia começou com L'Avventura e termina com L'Eclisse, e todos os três filmes contam efetivamente a mesma história, girando em volta da falta de sentido da existência num mundo pós-industrial, onde o dinheiro e a busca insensata de prazer contam para muito mais do que o sentimento e a auto-realização. 
Antonioni é muitas vezes criticado pelo ritmo letárgico e pelo simbolismo pesado nos seus filmes, e tanto "L' Avventura" como "La Notte" foram particularmente mal recebidos por muitos críticos quando foram lançados pela primeira vez. É interessante comparar o seu trabalho com o do seu contemporâneo, Federico Fellini, cuja propensão para o espetáculo e artifício atraiu um público maior e mais saudável do que a crítica de explorações introspectivas de Antonioni sobre a psicologia humana. Os filmes de Fellini podem ser mais fáceis de assistir, porque o seu estilo visual colorido e personagens altamente emocionais são mais fáceis de nos agarrar, mas as de Antonioni são, talvez, mais profundas e ousadas, sondando mais profundamente os aspectos mais sombrios da experiência humana. São certamente mais abstratos, dando ao espectador mais espaço para refletir e interpretar o que vê. Pode-se argumentar que Michelangelo Antonioni foi o Ingmar Bergman do cinema italiano - ambos foram grandes cineastas com interesse em temas existencialistas, e morreram no mesmo dia - 30 de julho de 2007.
La Notte é um filme que é principalmente sobre um casal que se quer separar, mas que não consegue  fazê-lo. A esterilidade do mundo ao seu redor e o tédio incessante do seu meio burguês sufocante refletem o vazio do seu amor um pelo outro. Giovanni, um escritor à beira do sucesso, demonstra a sua natureza irresoluta, permitindo-se a ser tentado por uma oferta de trabalho que fará dele um escravo rico. Lidia é mais honesta sobre as suas emoções, mas mesmo ela hesita, e é preciso a morte de um ex namorado para fazê-la aceitar que a vida com Giovanni acabou. O filme termina nem com uma separação nem uma reconciliação - só uma impressão de que algo precioso morreu e naquela noite caiu algo sobre os dois personagens tragicamente ligados. Quem sabe o que a manhã pode trazer... 

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Um Homem na Sombra (Mr. Klein) 1976


Mr. Klein, de Joseph Losey, feito em França durante o exílio do realizador, é uma parábola (e fria) arrepiante sobre a identidade, o fascismo, a exploração e a opressão. Passado durante a Segunda Guerra Mundial na França ocupada, o filme centra-se em Robert Klein (Alain Delon), um negociante de arte que explora a situação no seu país, comprando quadros baratos de judeus que fugiam, e que na sua maioria procuravam obter dinheiro suficiente para escapar das regulamentações cada vez mais restritivas dos nazis. Klein é indiferente aos que explora, preocupando-se apenas com a sua vida de luxo, até que um dia recebe um jornal judeu dirigido a ele. Em breve percebe que há um outro Robert Klein, em Paris, um judeu disfarçado de francês colaboracionista, e fica obcecado em descobrir quem é este outro Klein, este alter-ego que é o espelho da sua imagem. Este outro, por sua vez, atrai a atenção da polícia de Vichy, que tornou o verdadeiro Klein também como suspeito.
A mise en scène de Losey é metódica e austera, evidenciando uma distância fria que adapta a história abstrata de um homem que se perde em descobrir um duplo que nunca conheceu. As várias cenas de Klein de pé sozinho com um casaco embrulhado e  um chapéu, sozinho mesmo em cenas de multidão, deliberadamente ecoam a imagem de hiper-cool de Delon, e do seu papel icónico em Le Samouraï. Ele vagueia, olhando com seus olhos azuis frios, encontrando várias figuras misteriosas que não conseguem ajudá-lo na sua busca - com um elenco impressionante de secundários preenchido com actores como Jeanne Moreau, Julieta Berto, Francine Bergé, Michael Lonsdale e  a musa de Rivette, Hermine Karagheuz. A cena mais impressionante do filme, no entanto, é a primeira, em que um médico examina uma paciente nua, recitando vários atributos que sugerem uma "raça inferior". O horror frio e precisão burocrática desta cena definem o tom do resto do filme, e imediatamente estabelecem o meio onde circula Klein, como se os seres humanos fossem tratados como animais, os dentes examinados como a cavalos de corrida - uma associação lembrada na cena seguinte, quando a amante de Klein examina os seus próprios dentes ao aplicar o batom. O filme de Losey inesquecível está preocupado com esse horror, e com a mentalidade indiferente que ignora essas coisas, insistindo que tudo está normal, tudo está bem, mesmo em face de uma tremenda evidência do contrário.
Ganhou três Césares em 1977, entre os quais os de Melhor Filme e Realizador.

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