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sábado, 26 de setembro de 2020

Um Clube só para Cavalheiros (The Cheyenne Social Club) 1970

Do nada, um cowboy recebe uma carta inesperada de um advogado desconhecido na distante cidade de Cheyenne, a dizer que acaba de herdar o Cheyenne Social Club, depois da morte do seu antigo proprietário, seu irmão. Ansioso por trocar as paisagens empoeiradas do Texas por uma vida fácil de empresário, John parte numa longa viagem com o seu melhor amigo, Harley. Acontece que o estabelecimento que ele acaba de herdar, não tem a melhor das reputações..
A carreira de Gene Kelly como realizador foi seriamente subestimada no período pós MGM, embora ele tenha sido responsável pela brilhante versão cinematográfica de "Hello Dolly". Toda a sua sagacidade ganha rédeas soltas neste western cómico sobre uma dupla de cowboys que herda um bordel. Mesmo tendo em conta que o assunto é um bordel, Kelly consegue contornar os duplos sentidos e apresetar uma comédia com bom gosto e que não ofende ninguém. Seria o seu último trabalho como realizador. 
Dois actores de peso como protagonistas, James Stewart e Henry Fonda, uma dupla que se manteve amiga durante mais de 50 anos na vida real, e que se reunia aqui pela ultima vez. Claramene um western esquecido, que lembramos aqui neste ciclo.


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

O Homem das Pistolas de Ouro (Warlock) 1959

A cidade de Warlock é atormentada por um gang, levando os moradores a contratarem Clay Blaisdell, um pistoleiro famoso, para interceder como marshall. Quando Blaisdell chega, vem acompanhado pelo amigo Tom Morgan, um jogador que é extraordinariamente protetor da vida e da reputação de Blaisdell. Entretanto, Johnny Gannon, um dos antigos fora-da-lei, oferece-se para aceitar o cargo de xerife oficial por rivalidade com Blaisdell, e uma mulher chega à cidade acusando Blaisdell e Morgan de terem assassinado o seu noivo. O palco está montado para um conjunto complexo de conflitos morais e pessoais. 
Apesar dos seus primeiros filmes lidarem mais com diversas questões sociais, o trabalho posterior de Edward Dmytryk, particularmente as produções de grande orçamento em CinemaScope, muitas vezes apresentavam elementos de injustiça em escala mais épica. "Warlock" lida com os habitantes insignificantes de uma pequena cidade, mas o brilho de uma grande fotografia em widescreen trai um pouco a verdadeira intimidade do drama. A realização de Dmytryk, no entanto, mantém um equilíbrio sólido de ação, tensão constante, e o tumulto de duas linhas de personagens específicos: Henry Fonda com a sua raça de homem da lei contratado, e Richard Widmark a superar a pressão dos colegas, assumindo na comunidade uma vital posição para o benefício da cidade. Adaptado da novela de Oakley Hall, pelo argumentista Robert Alan Authur, este é um western agradável evocando generosamento os conflitos e a ação do incidente de OK Corral, embora por outras palavras. 
O elenco é magnifico, e conta com caras conhecidas, como Richard Widmark, Henry Fonda, Anthony Quinn, Dorothy Malone, e Dolores Michaels.

domingo, 19 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “As Vinhas da Ira”, de John Ford

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My Two Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O décimo nono convidado é o presidente da Câmara Municipal do Fundão, Paulo Fernandes, que escolheu As Vinhas da Ira de John Ford.

Sinopse: "As Vinhas da Ira" adapta o romance homónimo de John Steinbeck, vencedor do Pulitzer, sobre a odisseia dos oakies, os agricultores do Oklahoma arruinados pela desastrosa seca da década de 1930 e expulsos das suas terras pelos brancos, que buscam a Califórnia como a "terra prometida". Uma das maiores interpretações de Henry Fonda no papel de Tom Joad, o novo Moisés que vai servir de guia e não poderá entrar nessa terra. Jane Darwell, arquétipo das mães fordianas, ganhou também um Óscar. Texto: Público.


Paulo Fernandes descreveu-nos a obra como «um filme de todas as nossas vidas do mestre John Ford, quem melhor entendeu e filmou a condição humana, que aqui adapta o não menos fabuloso e actualíssimo romance de John Steinbeck. Para o presente e para o futuro, depois de tantas e tantas privações, recordo livremente o discurso da Mãe: “Durante muito tempo parecia que estávamos derrotados, totalmente derrotados. Sentia-me mal e estava assustada. Como se estivéssemos perdidos sem amigos que nos valessem… Mas o rio continua a fluir. Uma mulher vê assim as coisas… Sei que sofremos um grande golpe mas é isso que nos torna fortes. Reis, ricos, políticos, nascem e morrem. Mas nós continuamos a viver. Não podem erradicar-nos, não podem derrotar-nos. Nós viveremos para sempre porque nós somos o povo.”
"Como tenho escrito a propósito de outros filmes de Ford, talvez seja preciso recuar à pintura holandesa do século XVII para encontrar uma tão funda adequação entre os valores duma sociedade e a representação dessa sociedade, entre o olhar dum artista que a simboliza e o olhar dos homens e mulheres que, simbolizando-a também, neles foram retratados.” 

Amanhã, a escolha de Paulo Faria.

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sábado, 11 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: “Spencer’s Mountain”, de Delmer Daves

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My Two Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O décimo primeiro convidado é o realizador José Oliveira, que escolheu Spencer's Mountain de Delmer Daves.

Sinopse: Um pequeno proprietário de terras, enérgico, generoso e independente tem de enfrentar inúmeros obstáculos para juntar dinheiro suficiente para construir uma casa capaz de acomodar a sua mulher e os seus nove filhos.

O filme que hoje vamos ver foi realizado por um dos mais talentosos e prolíferos classicistas de Hollywood, Delmer Daves. Hoje um pouco esquecido, tocou em praticamente todos os géneros, do filme de guerra e de aventuras (Destination Tokyo, a sua estreia em 1943) ao filme noir (o mítico Dark Passage, baseado no romance do misterioso David Goodis, usando o olhar subjectivo de Humphrey Bogart durante um tempo considerável), concluindo a sua carreira no ano de 1965 em Itália e com Maureen O'Hara, em mais uma das muitas adaptações literárias que levou a cabo pelo próprio punho, ficando nos anais a história da actriz ter detestado o trabalho do operador de câmara que segundo ela a não beneficiou, torcendo então pela equipa Italiana que depois de cada dia de filmagens jogava uma partida de futebol contra a parte americana da equipa de filmagens; The Battle of the Villa Fiorita, chamou-se a empreitada. Realizador e argumentista que possuía verdadeiramente o material que escolhia, não um tarefeiro que aceitava qualquer material para muito bem ou mal o despachar, visto em retrospectiva abriu muitos caminhos para a nova Hollywood reclamar autorias nos anos 70, até chegar a Quentin Tarantino ou Paul Thomas Anderson.
Mas foram os westerns a comporem a parte mais brilhante da sua carreira. Broken Arrow abriu e surpreendeu os fifties e é um dos filmes mais importantes desse período, pois tal como The Last Wagon, de 1956 e talvez a sua obra-prima, Daves vai fundo na complexa questão racial da fundação dos Estados Unidos, a mestiçagem e a eterna questão da pertença, aprimorando ainda o seu portentoso talento para filmar paisagens de um modo inteiro que o coloca ao lado de John Ford ou de Anthony Mann. Mas imediatamente no ano seguinte, o expressionista 3:10 to Yuma (imbatível adaptação do escritor pulp Elmore Leonard) é um novo marco, carregado de suspense e terrífico, fechando logo depois esse ciclo fascinante com o vertiginoso e abissal The Hanging Tree, auscultando um Gary Cooper tão torturado e cansado como no terminal Man of the West. Daves sempre foi muito respeitado pelos seus pares, mas nunca teve grandes favores da crítica nem prémios, nem em França, onde os rebeldes da futura nouvelle vague nunca lhe prestaram a atenção merecida.
Faltou referir imensa coisa ao longo dos seus trinta filmes, nomeadamente o lado Shakespeariano de algumas obras, mas vamos então para Spencer's Mountain, o seu antepenúltimo filme e um dos pontos altos do cinema americano. Precisoso pois junta Henry Fonda com Maureen O'Hara nas montanhas, nas verduras, nas neves e nos lagos do Wyoming, envoltos num sereno esplendor transcendental que só Michael Cimino seria capaz de estar à altura nos grandes espaços contíguos de Heaven's Gate. «Over 100 years ago, my grandpa come into this land. Grandpa climbed this mountain and said, "this is it' and he built him a sod house' got himself a wife'and they named the whole mountain after him. Spencer's mountain it is to this day.» E logo vamos ver que quem profere orgulhosamente estas palavras, o filho Clay Spencer de Fonda, esteve à altura do legado do pai que primeiramente conquistou a montanha e pronunciou o "this is it'", com os seus nove filhos, desde o recém-nascido até ao primeiro dos Spencer que está prestes a ser graduado e tem em vista a faculdade.
Spencer's Mountain é um conto, quase ou mesmo um conto de fadas, sob a égide da abundância: crias, natureza, os diversos elementos, os acasalamentos vários, as dádivas e os legados de mãos vazias, muitos pais, muitos filhos, muitos ciclos. O eterno-retorno e todos esses milagres em filigrana. Com aquela luz também bíblica que rasga as nuvens do genérico para cair sobre a terra prometida. Vamos reparar, talvez hoje em dia anacronicamente, que todos se tratam por irmãos, todos parecem reconhecer-se irmãos, semelhantes, ajudando-se mutuamente, dividindo esforços, sem superioridades por aí além. É neste Paraíso Perfeito, porventura hoje irremediavelmente perdido ou bastante remoto, que se continuarão a desenrolar problemas semelhantes aos de todas as gerações em todas as épocas. E como sempre, tudo passa. Aqui numa respiração que tudo relativiza.
Os sonhos «maiores do que a vida» que presidem à construção de uma segunda casa no topo do mundo que jamais sairá do esqueleto; a dificuldade que o «rapaz do campo» tem em entrar para o ensino superior, apesar de ter aprendido as diversas matérias à maneira de Abraham Lincoln; o ostracismo mesmo que sub-reptício a quem não está inserido no campo religioso de uma comunidade; enfim, as eternas ciumeiras e vinganças perpetradas pela flutuante instituição do amor e sobretudo do amor não correspondido. Temos no início aquele momento sublime onde na casa em perpétua construção Fonda mostra ao filho a vista que pensou oferecer à amada no acordar de todos os dias, e será essa bela ambição desmesurada o preço a pagar por não ter entendido que todo esse maravilhamento já estava inteiro na sua casa actual, no desfilar proporcional dos nove filhos, do bebé às loirinhas do meio, do intelectual às adolescentes com sangue na guelra.
Fonda aceitará que todo esse maravilhamento, esse lar comum e magnânimo, esse privilégio incomparável, essa posse, não se medem em mais quatro paredes mas sim em toda a envolvência a perder de vista, transformadora, transcendental, e sagrada. Por instantes esqueceu-se, como por instantes todos nós nos podemos esquecer do essencial, mas irá vender tudo isso sem remorso a favor desse primoroso portal que pela primeiríssima vez um membro do clã poderá abrir para todos os outros. Com tal no espírito, tanto irá estar à altura da sua palavra severa aquando do assinar da candidatura do filho à faculdade, como nas mesmas elevações do seu Pai que tragicamente morre nesse hiato mas que no testamento pede ao neto: «Aim for the stars».
«If I had my way, you'd be president of these United States. Clayboy, it was like reaching for the sun and the moon and the stars, wasn't it, dear?», idealizou temerariamente a mãe. E assim foi, e assim poderá ser mais uma vez. Em Spencer's Mountain todos já nasceram com a mais sublime das dádivas, e todos os encontros e desencontros reservados ao factor humano e ao seu perene grito existencialista começam a entrar nos eixos e a colherem a verdadeira luz quando se olha simplesmente em volta, se respira, se limpa o olhar. Acolhendo e agradecendo toda essa abundância, até às estrelas. Um filme tão simples como genial, tão elementar como complexo. E um cineasta no domínio absoluto dos seus meios e da abertura ao outro grande meio natural: a cerimónia de graduação aglutina o hino nacional e a nostalgia da Americana, o discurso apaixonado e confessional da professora-mãe, as lágrimas e o orgulho, com os planos contra-picados que elevam tudo isso até alturas celestiais, tornando o cerimonial uma síntese de todo o trabalho paciente, meio invisível e dedicado de anos, condensando-o pelas formas cinematográficas.
Tudo o resto, e que resto, é a consumada e natural comunhão entre a técnica e esse espírito imperturbável original, nomeadamente nas operações com as gruas que Daves foi apurando em sequências vertiginosas nos westerns para aqui as usar subtilmente, muitas vezes na intimidade, unindo os habitantes à sua terra: no funeral do patriarca, depois de perscrutar os rostos e a mágoa de um modo quase documental, a câmara olha a disposição dos presentes de cima, move-se muito lentamente até enquadrar as montanhas e os céus gigantescos, acalmando e diluindo aí as nossas dores, infinito que nos ultrapassa; pouco depois, já no meio urbano, da primeira vez que vemos o jovem Clayboy na faculdade e ele diz que esse é o mais bonito lugar do mundo, a grua entra em acção e mostra-nos os relvados, as flores e sobretudo um novo mundo que espera o elemento que ousou sair da casca. As gruas que fazem fluir levemente o movimento, tornando-o a um tempo claro e cintilante, combinadas com o ecrã rasgado (o CinemaScope…), fundindo as horizontais das planícies com a verticalidade dos seus habitantes, numa perfeita rotação complementar. Muitos exemplos deste trabalho extremamente maleável e não maquínico poderiam ser dados, dos inícios de sequências em novos espaços ou descrevendo e dramatizando eventos fortes ou significativos, até a instantes fugazes e aventureiros, ficando mais um desafio para se estar atento no riquíssimo rol de possibilidades deste grande cineasta, cheio de coração.
Spencer's Mountain é a abundância, a regeneração e o estado de graça sempre possíveis a quem decide tomar atitudes (como Fonda a ir falar com o reitor, olhos nos olhos, como deve ser), não se desinteressando pelo que o rodeia. Agradecendo, como faz uma das mais novas na oração à mesa, por cada insignificância, desde os pássaros que cantam à comida no prato à fofura do mundo que para ela ainda é tudo. THE WORLD STEPS ASIDE TO LET ANY MAN PASS IF HE KNOWS WHERE HE IS GOING, assim mesmo em capitais, é outro presente da professora ao seu filho. Obrigado, montanha.
* texto da autoria do José Oliveira, há que salientar.

Legendas em espanhol.


Amanhã, a escolha de Ana Petrucci.

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terça-feira, 30 de abril de 2019

As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath) 1940

Quando Tom Joad (Henry Fonda), regressa para a sua quinta no Oklahoma, depois de quatro anos na prisão, descobre que já nada é o que era. Estamos na década de 30, vive-se a depressão, e a sua família perdeu a casa e a quinta para o banco. Assim começa uma jornada incrível para Tom, ao ver a injustiça social à sua volta, ele muda de um pequeno criminoso para um sindicalista.
"As Vinhas da Ira" é um filme monumental feito por um realizador monumental, John Ford, baseado num livro brilhante de outra figura monumental, John Steinbeck. As verdades estabelecidas no livro e no filme, podem ser tão verdadeiras hoje como eram então. Tom leva a sua família em busca de trabalho e a promessa de uma vida melhor, na califórnia, mas tudo o que encontra são mentiras, corrupção policial, e exploração empresarial dos trabalhadores desesperados. Uma situação muito parecida com a dos trabalhadores migrantes provenientes do México e América Central, em busca do suposto sonho americano. Interessante, o argumento, adaptado por Nunnally Johnson, é, na realidade, muito mais optimista que o livro. O filme oferece alguns vislumbres de esperança ao clã Joad, e oferece alguma cor à escuridão que é o livro (assim como a algumas idéias políticas mais extremas). 
Há um toque de sentimentalismo em "As Vinhas da Ira". É apenas uma sugestão, e nunca é um factor detractor dentro do filme. Os actores nunca permitem que o argumento de Johnson se torne demasiado sentimental. Os olhos sondantes de Henry Fonda, a mágoa do sorriso de Jane Darwell, o olhar vago de Dorris Bowden, e o rosto de derrotado de Frank Darien estão sempre presentes para atirar qualquer sentimentalismo para o lado. Ou, pelo menos, para garantir que o sentimentalismo seja merecido. Se houver qualquer sentimentalismo é gerado pela dureza que os seus personagens enfrentam em cada frame. 
John Ford ganhou com este filme o seu segundo Óscar para melhor realizador, e, "As Vinhas da Ira, está certamente, entre as melhores obras do realizador.

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segunda-feira, 29 de abril de 2019

Ouvem-se Tambores ao Longe (Drums Along the Mohawk) 1939

Henry Fonda é um camponês que durante a Guerra Revolucionária se casa com uma rapariga da cidade (Claudette Colbert), e tenta se estabelecer no Mohawk Valley. Infelizmente a guerra irá bater à sua porta, quando os ingleses conseguem convencer os índios a lutarem por eles. Os nossos dois personagens principais vão superar as dificuldades da agricultura, evitando ataques, depois reconstruindo, para serem atacados novamente.
O ano de 1939 foi um ano histórico para o cinema de Hollywood. Foram produzidos filmes tão importantes como "Gone with the Wind", "The Wizard of Oz", "Mr. Smith Goes to Washington", "Goodbye, Mr. Chips", "Wuthering Heights", "Ninotchka", "Of Mice and Men", "Love Affair", "Dark Victory", entre tantos outros, e também foi um ano histórico para John Ford, que viu ver a luz do dia 3 das suas maiores obras-primas. Depois de Stagecoach" (êxito instantâneo) e "Young Mr. Lincoln" (êxito tardio) chegava agora a vez de "Drums Along the Mohawk", o seu primeiro filme em Technicolor, onde apesar do Technicolor o realizador evitou um visual explosivamente colorido, talvez por querer ficar com as sombras e os tons cinza inerentes aos seus filmes a preto e branco.
"Drums Along the Mohawk" apesar de ser um filme de período tem o sentimento de um western, cobrindo o período imediatamente anterior e posterior à Guerra Revolucionária. É um filme digno de nota pelos seus detalhes realísticos e um nível de dificuldade e brutalidade que não era vulgar ser visto num filme de Hollywood, mas que expunha quão difícil e frágil era a vida dos primeiros colonizadores americanos.
O filme não romantizava a guerra pela independência, nem faz com que a eventual vitória dos americanos seja uma conclusão para as pessoas que retrata. Os colonos do Vale Mohawk estão com problemas desde o início, isolados, vagamente organizados e em menor número, e quando todos os combatentes qualificados são convocados para a guerra, são informados que quem não se apresentar para a guerra será enforcado.
Curioso que seria o segundo de uma série de três filmes de Ford interpretados por Henry Fonda. 

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sábado, 27 de abril de 2019

A Grande Esperança (Young Mr. Lincoln) 1939

Dez anos na vida de Abraham Lincoln, antes dele se tornar conhecido pela sua nação e pelo mundo. Muda-se de um gabinete em Kentucky para Springfield, Illinois, para começar a prática de advocacia. Defende dois homens acusados de assassinato numa luta política, sofre a morte da namorada Ann, corteja a sua futura esposa Mary Todd, e concorda entrar na política.
"Young Mr. Lincoln", hoje considerado uma das obras-primas de Ford - para muitos, mesmo, a sua obra-prima - foi um filme que, à época, passou quase completamente despercebido. Feito no mesmo ano de "Stagecoach" (a que se segue cronologicamente, o primeiro estreado em Março de 1939, o segundo em Julho) foi completamente eclipsado pelo sucesso do lendário western e, durante muitos anos, poucas referências lhe foram feitas. Só foi designado para os Óscares numa única categoria (melhor argumento original) e nem nessa ganhou: "Mr. Smith Goes to Washington" de Capra, venceu-o. Sucedeu, contudo, que por altura dos primeiros intercâmbios de filmes entre os Estados Unidos e a União Soviética, "Young Mr. Lincoln" se contou entre as poucas obras americanas distribuídas na U.R.S.S. Foi lá que Eisenstein o viu e escreveu sobre ele as frases que hoje se tonaram um lugar comum publicitário desta obra: "Há filmes mais sumptuosos e mais ricos. Há filmes mais divertidos e cativantes. Há mesmo filmes mais comoventes na obra de Ford (…) E, no entanto, de todos os filmes realizados era este que eu gostaria de ter feito (…). Se uma fada ociosa chegasse a minha casa e me dissesse: "Sergei Mikhailovich, neste momento não tenho nada para fazer. Queres que te mostre um numerozinho de magia? Queres transformar-te, com um pequeno gesto da minha varinha de condão, no autor de um dos muitos filmes americanos realizados até hoje? Eu indicaria imediatamente o filme que gostaria de ter feito: "Young Mr. Lincoln", realizado por John Ford""
Este texto só foi conhecido na Europa e na América nos anos 50 e a crítica, pasmada perante tão insólita valorização, começou então a rever "Young Mr. Lincoln". A crítica de esquerda, sobretudo, seguiu o "Papa" Eisenstein e há quatro décadas que não param os hiperbólicos elogios a esta obra-prima durante tanto tempo votada ao esquecimento."
Palavras de João Bénard da Costa, que exemplificam bem q beleza deste filme, que hoje é considerado um dos seus melhores. Mas nem sempre foi assim.

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segunda-feira, 20 de abril de 2015

As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath) 1940



 Quando Tom Joad (Henry Fonda), regressa para a sua quinta no Oklahoma, depois de quatro anos na prisão, descobre que já nada é o que era. Estamos na década de 30, vive-se a depressão, e a sua família perdeu a casa e a quinta para o banco. Assim começa uma jornada incrível para Tom, ao ver a injustiça social à sua volta, ele muda de um pequeno criminoso para um sindicalista.
"As Vinhas da Ira" é um filme monumental feito por um realizador monumental, John Ford, baseado num livro brilhante de outra figura monumental, John Steinbeck. As verdades estabelecidas no livro e no filme, podem ser tão verdadeiras hoje como eram então. Tom leva a sua família em busca de trabalho e a promessa de uma vida melhor, na califórnia, mas tudo o que encontra são mentiras, corrupção policial, e exploração empresarial dos trabalhadores desesperados. Uma situação muito parecida com a dos trabalhadores migrantes provenientes do México e América Central, em busca do suposto sonho americano. Interessante, o argumento, adaptado por Nunnally Johnson, é, na realidade, muito mais optimista que o livro. O filme oferece alguns vislumbres de esperança ao clã Joad, e oferece alguma cor à escuridão que é o livro (assim como a algumas idéias políticas mais extremas).
Há um toque de sentimentalismo em "As Vinhas da Ira". É apenas uma sugestão, e nunca é um factor detractor dentro do filme. Os actores nunca permitem que o argumento de Johnson se torne demasiado sentimental. Os olhos sondantes de Henry Fonda, a mágoa do sorriso de Jane Darwell, o olhar vago de Dorris Bowden, e o rosto de derrotado de Frank Darien estão sempre presentes para atirar qualquer sentimentalismo para o lado. Ou, pelo menos, para garantir que o sentimentalismo seja merecido. Se houver qualquer sentimentalismo é gerado pela dureza que os seus personagens enfrentam em cada frame.
John Ford ganhou com este filme o seu segundo Óscar para melhor realizador, e, "As Vinhas da Ira, está certamente, entre as melhores obras do realizador.

E agora a visão sobre este filme, do Bruno - convidado do M2TM:



Primeiro, agradeço desde já o convite do Chico para este ciclo. Sinto-me honrado por fazer um pouco parte do M2TM. O azar é vosso que vão gramar com alguns textos meus. Espero que gostem.

Nós, trabalhadores, somos todos operários em construção. Seja de fato-macaco ou engravatado, de tijolo ou software na mão, trolha, carpinteiro, designer, arquitecto, gestor, engenheiro, professor, agricultor, somos todos operários em construção. Tudo o que é construção humana é obra das nossas mãos. Inclusivamente o lucro dos patrões. Mas compreendê-lo não é fácil, as respostas não se encontram na superfície das coisas, é preciso reparar, pensar e ir à raiz das coisas. Muitos de nós, trabalhadores, por falta de coragem, honestidade ou de oportunidade, nunca chega sequer a construir-se e desvendar a raiz social do seu próprio ser.

Sendo um filme produzido por um grande estúdio de Hollywood e vencedor de dois Óscares, surpreendeu-me a sensibilidade demonstrada num ponto em particular. É certo que há muitos filmes que mostram as condições de vida dos trabalhadores, mesmo explicitamente, mas neste caso há um pormenor que normalmente só quem adere à luta percebe: a aprendizagem. Para tal sensibilidade, presumo, muito terá contribuído livro homónimo de John Steinbeck.

Tom Joad, personagem principal, ingénuo politicamente ao início, é também ele um operário em construção. Vítima das contradições do capitalismo num momento histórico particularmente difícil e violento à vida humana - a Grande Depressão -, ele vive com a sua família um conjunto de experiências que lhe permite ganhar rapidamente uma consciência social que o incita lutar por justiça ao lado dos oprimidos.

O filme tem uma narrativa cujo ritmo pode não agradar a um espectador mais impaciente, imediatista, mas é extremamente rico em conteúdo, e por isso, mais que poder ver e ouvir, é preciso que o espectador se desafie a reparar. É que durante o filme várias temáticas são explicita ou implicitamente abordadas: a natureza de classe das leis e das autoridades (sempre em favor do capital e da propriedade privada), a importância das greves e da união dos trabalhadores, o desenvolvimento da corrupção moral dos homens perante o medo do desemprego, da fome, da falta de habitação, pois os trabalhadores e suas famílias ficavam frequentemente a habitar nos casebres das fábricas e latifúndios, emprestados pelos patrões que os chantageavam com o desalojamento, e aborda assuntos como a jorna, a migração... E Tom Joad não chega a perceber o porquê da miséria e da injustiça, está ainda confuso, em construção. Mas percebe o suficiente para se colocar do lado certo da barricada e que é necessário lutar.

O herói deste filme chama-se Tom como se poderia chamar Joe Hill, o seu nome cantado ou não, é como um espectro que ronda onde quer que haja injustiça e alguém que a combata.
Andarei por aí no escuro. Estarei em toda a parte para onde quer que olhem. Onde houver uma luta para que os famintos possam comer, estarei lá. Onde quer que haja um polícia a espancar alguém, estarei lá. Estarei nos gritos das pessoas quando se zangam. Estarei nos risos das crianças quando têm fome e as chamam para jantar. E quando as pessoas comerem aquilo que cultivam, e viverem nas casas que constroem. Eu estarei lá, também.

por Bruno - Leitura Capital*.

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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Doze Homens em Fúria (12 Angry Men) 1957



A defesa e a acusação estão a descansar, e o júri reuniu-se na sala para decidir se um jovem hispano-americano é culpado ou inocente de ter assassinado o seu pai. O que começa como um caso aberto de assassinato, logo se torna um mini-drama para cada um dos juris despirem os preconceitos acerca da culpa ou não culpa do réu.
Entre 1955 e 1962 mais de meia dúzia de episódios de várias antologias de dramas de televisão foram adaptados para o grande ecrã, que representava um dos primeiros esforços da indústria cinematográfica americana em criar "filmes de arte" nos moldes europeus. O primeiro destes filmes, "Marty", que era adaptado de um drama de Paddy Chayefsky, e que foi realizado tanto para o grande como para o pequeno ecrã por Delbert Mann, foi apenas o segundo filme americano a ganhar em Cannes, foi um êxito tanto de crítica como comercial entre portas, como também ganhou quatro Óscares. Não admirava então, que outros o sucedessem.
 Entre os argumentistas de antologias que estavam neste grupo, encontrávamos Reginald Rose. Os dramas de Rose destacavam-se, porque em vez de seguir uma trama solta e se focarem na psicologia individual do cinema de arte europeu, escrevia dramas tensos, estruturados em torno do sistema jurídico e o seu papel crucial no apoio à justiça social.
A este respeito, Rose escrevia o argumento de 12 Angry Men, um filme incisivo e emocionante, realizado pelo estreante Sidney Lumet, e que era um exemplo perfeito da arte de Rose. Passado quase inteiramente dentro dos limites de uma pequena sala de júri, num dia quente de verão e contado em tempo real, "12 Angry Men" usa a deliberação dos jurados de um caso de assassinato, como meio de explorar tanto um olhar crítico sobre os preconceitos do ser humano, como na busca da verdade de um sistema judicial, que pode ser falível. Em "12 Angry Men" Rose mostra que o sistema judicial funciona quando as pessoas envolvidas tomam os seus papéis da forma mais humana possivel, mas deixa no ar que isso também pode não acontecer.
A resistência dos outros jurados para discutir um caso aparentemente fechado é um meio convincente para mostrar que o sistema funciona apenas quando os envolvidos aceitam o peso moral do seu papel, como acontece no caso de Henry Fonda, e que assim continuamente flexiona os outros, que começam a reavaliar o que eles achavam que sabiam, e chegam à conclusão de que a prova não é tão convincente como eles pensavam.
Elenco brilhante, além de Fonda contava com Martin Balsam, Lee J. Cobb, Jack Warden, Ed Begley, Robert Webber, entre outros. Ganhou o Leão de Ouro no Festival de Berlim.
Filme escolhido pelo Nuno Fonseca.

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sexta-feira, 6 de junho de 2014

O Dia Mais Longo (The Longest Day) 1962



Junho de 1944. As forças Aliadas, combinando militares dos Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e França, preparam uma invasão em massa da França. Os alemães preparam a defesa do ataque, sem saber exactamente de onde ele virá, e a resistência francesa na Normandia, descobre alguns problemas atrás das linhas inimigas.
Com um elenco cheio de estrelas com nomes bastante familiares, quer sejamos fãs do cinema mainstream de Hollywood, ou do cinema trash europeu. Tal como a maioria dos épicos do período, o filme foca-se nos generais e presta pouca atenção aos soldados em campo. Durante a noite de 5 de Junho, a resistência francesa (liderada pela bela Irina Demick e Maurice Poli) faz explodir comboios, e corta as comunicações dos alemães. O elenco varia de veteranos como Henry Fonda, Richard Burton, Rod Steiger, Robert Ryan, e John Wayne, a novatos, como era na altura Sean Connery. Se olharmos atentamente podemos descobrir George Segal a subir um penhasco. Até mesmo a futura estrela de "Family Feud", Richard Dawson tem um pequeno papel.
O filme é um trabalho para a Fox, do produtor tornado independente Darryl F. Zanuck, e é  baseado no livro de Cornelius Ryan, do mesmo nome, e contava a invasão da Normandia em grande detalhe, graças a muitas histórias contadas por homens que estiveram lá. O filme de Zanuck mantém esse espírito, fazendo uma releitura desse dia famoso, não apenas tão detalhadamente para satisfazer qualquer pessoa que queira saber sobre história, mas também criando um grande envolvimento na trama. Ficamos a saber todos os factos e números, nomes e horários, mas também ficamos com uma visão mais pessoal.
Para ajudar a construir este filme episódico, Zanuck contratou três diferentes realizadores. Ken Annakin dirigiu os episódios Britânicos, Andrew Marton cobriu os americanos, enquanto Bernhard Wicki filmou as sequências alemãs, não só dando-lhe uma elevada dose de realismo, (os nazis aqui falam alemão, e não em inglês como em dezenas de outros filmes da Segunda Guerra Mundial), mas também dando uma visão audaciosa dos inimigos, que são vistos como pessoas reais. Este é um rico e detalhado retrato do Dia D, que se recusa a ver apenas um dos lados da história em termos genéricos.
Apesar de um elenco de tantas estrelas, e a colaboração de três realizadores, este é inquestionavelmente um filme de Zanuck. É o tipo de épico que é produzido, e não dirigido. A coordenação deste tipo de produção, rivaliza com a do próprio Dia D, e foi a visão singular de Zanuck que levou o filme a bom porto. O próprio Zanuck orgulha-se em dizer que dirigiu algumas cenas no filme, então quando ele é referido como “Darryl F. Zanuck’s The Longest Day,” não é uma questão de ego, são créditos merecidos pois é o coroamento de uma carreira lendária no cinema.

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domingo, 1 de setembro de 2013

O Homem das Pistolas de Ouro (Warlock) 1959



A cidade de Warlock é atormentada por um gang, levando os moradores a contratar Clay Blaisdell, um pistoleiro famoso, para interceder como marshal. Quando Blaisdell chega, vem acompanhado pelo amigo Tom Morgan, um jogador que é extraordinariamente protetor da vida e da reputação de Blaisdell. Entretanto, Johnny Gannon, um dos antigos fora-da-lei, oferece-se para aceitar o cargo de xerife oficial por rivalidade com Blaisdell, e uma mulher chega à cidade acusando Blaisdell e Morgan de terem assassinado o seu noivo. O palco está montado para um conjunto complexo de conflitos morais e pessoais.
Apesar dos seus primeiros filmes lidarem mais com diversas questões sociais, o trabalho posterior de Edward Dmytryk, particularmente as produções de grande orçamento em CinemaScope, muitas vezes apresentavam elementos de injustiça em escala mais épica. "Warlock" lida com os habitantes insignificantes de uma pequena cidade, mas o brilho de uma grande fotografia em widescreen trai um pouco a verdadeira intimidade do drama. A realização de Dmytryk, no entanto, mantém um equilíbrio sólido de ação, tensão constante, e o tumulto de duas linhas de personagens específicos: Henry Fonda com a sua raça de homem da lei contratado, e Richard Widmark a superar a pressão dos colegas, assumindo na comunidade uma vital posição para o benefício da cidade. 
Adaptado da novela de Oakley Hall, pelo argumentista Robert Alan Authur, este é um western agradável evocando generosamento os conflitos e a ação do incidente de OK Corral, embora por outras palavras. O elenco é magnifico, e conta com caras conhecidas, como Richard Widmark, Henry Fonda, Anthony Quinn, Dorothy Malone, e Dolores Michaels.

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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Forte Apache (Fort Apache) 1948



O título de John Ford "Fort Apache" promete uma aventura divertida de indios e cowboys, com muitas emoções. O filme faz, eventualmente, cumprir esta promessa, até certo ponto, mas não é a preocupação central de Ford. Ele está muito mais interessado nas rotinas da vida militar, o fluxo diário e o fluxo da vida num pequeno forte no limite da fronteira, e as psicologias dos homens e mulheres que povoam este lugar. De facto, durante a primeira hora do filme, não se encontra um índio ou um tiroteio, apenas o novo comandante do forte, Owen Thursday (Henry Fonda), que chega com a filha (Shirley Temple), e se instala na nova vida no Forte Apache. Thursday é um homem ambicioso que sente como se lhe tivesse sido dada pouca atenção para a sua nova missão, e está profundamente descontente, mas determinado a transformar este infortúnio numa nova chance para o maior avanço na sua carreira.
O que ele encontra quando chega ao forte, no entanto, não é muito promissor. Os homens no forte degeneraram em disciplina militar, sob o comando folgado, da camaradagem de Sam Collingwood (George O'Brien). Eles não são maus soldados, e muitos deles são experientes oficiais de ex-confederações, mas não conseguem atender os padrões mais exigentes de Thursday, do protocolo militar tradicional. Ford passa uma quantidade enorme de tempo desenvolvendo cuidadosamente os habitantes do forte, criando um grande elenco de personagens memoráveis que acrescentam vida e vitalidade para o retrato do filme sobre a vida militar. Além de Collingwood, há Michael O'Rourke (Ward Bond), que vem de uma subcultura irlandesa distinta, dentro do forte, que bebem quantidades prodigiosas de alcool, mas que não deixam de ser diferenciados e desenvolvidos de outras maneiras para que não se tornem meros estereótipos. O'Rourke é acompanhado no forte pelo seu filho (John Agar), um recém-graduado de West Point que, assim, supera o seu próprio pai orgulhoso, e que se apaixona imediatamente pela filha de Thursday.
Mas a presença principal no forte é a do Capitão York (John Wayne), um soldado eminentemente capaz com um conhecimento íntimo (e profundo respeito para) a cultura e as táticas dos seus inimigos Apaches. Desta forma, ele é exactamente o oposto de Thursday, que sabe pouco sobre os índios e se preocupa ainda menos com eles, a não ser como um bilhete para a sua própria glória. A rivalidade entre Fonda e Wayne é o dilema central tácito do filme, embora Ford rodeie este conflito central com uma grande variedade de subtramas e momentos de personagens. O filme move-se, não como uma narrativa linear simples, mas aos bocados, pulando entre os muitos moradores do forte e a variedade de histórias contidas nas suas paredes. Este grande elenco, forma a base para o senso da rica textura de Fort Apache, do lugar e da caracterização. Ford gasta uma hora com estas pessoas, simplesmente seguindo as rotinas diárias do forte, antes mesmo de haver o mínimo indício de conflito externo, que entra no filme através de um ataque de índios a um posto de telégrafo fora do forte. Mesmo depois deste ponto, Ford mantém o foco do filme directamente em assuntos mais mundanos dentro do forte, com apenas uma escaramuça breve e mal-mostrada com os apaches antes da batalha final, no final do filme. É este foco no caráter e na vida doméstica, ao invés da acção, que faz Fort Apache ser um filme tão profundamente gratificante.  
O filme também é interessante pela forma como lida com a representação tradicional das guerras americanas contra os habitantes nativos do continente. Ford tem sido frequentemente criticado pelas suas descrições dos nativos americanos nos westerns, e é inegavelmente verdade que os apaches não são caracterizados ou desenvolvidos, tanto como os brancos no forte. Este é um filme completamente, e disse assumidamente, a partir do ponto de vista branco, entregando-se a polarização do costume dos índios como primitivos "nobres" ou selvagens ferozes. E, no entanto, apesar dessas limitações inerentes à perspectiva de Ford, o filme quase não apresenta uma visão totalmente negativa dos Apaches, e de facto deixa claro que os nativos americanos eram explorados, manipulados e sistematicamente enganados pelos "heróis" brancos do Ocidente. Ford também não consegue resolver a tensão considerável entre a mitificação da cultura militar americana e as ordens nojentas, suicidas, e mesquinhas, muitas vezes transmitidas pelos escalões superiores. Glorifica o soldado médio, personificado aqui especialmente por Wayne, mas não lhe dá os rigores e as necessidades da disciplina militar, mesmo quando os procedimentos militares levam às mais grosseiras traições da confiança e da moralidade comum. 
O filme é assim uma apresentação altamente ambígua dos mitos do Oeste americano, e Ford parece amar esses mitos e ao mesmo tempo, aprofundar os seus contos mais escuros. Fort Apache está profundamente enraizado na América da auto-mitologia do seu passado, e Ford é capaz de explorar esta mitologia, com subtileza, do tipo de visão que só pode nascer de um verdadeiro amor para o assunto em mãos.
E claro, o filme foi todo ele rodado à volta do Monument Valley.

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A Paixão dos Fortes (My Darling Clementine) 1946



Em 1946, quando este filme foi liberado, Wyatt Earp ainda não era o personagem lendário que se tornou nos anos seguintes. Inúmeros filmes foram centrados no duelo do OK Corral, para não mencionar uma série de televisão de longa duração, mas o impulso para tudo isto foi este filme clássico de John Ford. 
O clã Earp, o ex-marshall Wyatt (Henry Fonda), Virgil (Tim Holt), Morgan (Ward Bond) e James (Don Garner) conduzem uma manada de gado para a Califórnia, quando param perto de Tombstone. Em pouco tempo, os Clantons, liderados por Walter Brennan, roubam o gado e matam o jovem James, que leva Wyatt a se voluntariar como marshall da cidade sem lei e para conseguir a vingança. O jogador e cirurgião Doc Holliday (Victor Mature) chega à cidade e forma uma amizade inquieta com Wyatt, que está em perigo de ser destruída quando a velha chama de Holliday, Clementine Carter (Cathy Downs) chega à cidade e ganha o interesse de Wyatt. Mas os Clantons ainda procuram sangue, o que só pode significar um confronto no OK Corral.
Fonda no seu habitual papel calmo, para interpretar um mais modesto Wyatt Earp do que nos tornamos habituados a ver no ecrã. Como ele o interpreta aqui, Earp anda mais preocupado em obter um bom barbear do que andar envolvido em brigas. Victor Mature parece bonito demais para Doc Holliday e não usa a parte de pistoleiro tão bem como o faz Fonda. um interlúdio estranho, onde ele começa a recitar Hamlet que é o ponto alto da sua interpretação. Walter Brennan, o Old Man Clanton, que estamos habituados a ver em papeis de bom em westerns de Ford e Hawks, rouba o show com uma maldade vil, enquanto que Ward Bond, também um dos actores de Ford, é divertido na sua pequena personagem. A personagem-título de Cathy Down não tem muita graça, ao ponto de ser uma nulidade; enquanto a rival romântica Chihuahua (Linda Darnell) é muito mais interessante, e é óbvio que Holliday iria encontrar uma melhor companhia.
Apesar de ter algumas cenas obrigatórias no Monument Valley, este filme não se parece nada com um típico western do realizador. Muito pouco tempo de acção é passado fora de portas, levando a um ar bastante claustrofóbico que parece de alguma forma inadequado e fora de escala com outros Westerns de Ford. A intimidade induzida por esta definição faz cimentar o foco para as relações interpessoais, em vez da acção prevista. Ao contrário das adaptações posteriores, o tiroteio clímax aqui dura apenas cerca de 30 segundos, tal como no verdadeiro tiroteio. Mas Ford realmente conhecia Wyatt Earp, de quem tinha sido amigo, e alardeava que teria ouvido a história do próprio Wyatt Earp. Anos depois teria admitido que nem tudo era a verdade, ao dizer algo como "Se a lenda for melhor que a realidade, filme-se a lenda", tema de um dos seus últimos grandes westerns, The Man Who Shot Liberty Valance, de 1962.

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domingo, 23 de dezembro de 2012

Missão Suicida (Fail-Safe) 1964


Depois de ter o azar de estrear menos de um ano depois do filme de Stanley Kubrick "Dr. Strangelove", que examinava a guerra nuclear com humor cáustico, este filme de Sidney Lumet é um drama dolorosamente grave de praticamente o mesmo o material que o antecessor, e foi recebido com relativa indiferença. Retirado deste contexto e visto hoje, com a Guerra Fria em retrospectiva, ardor à prova de falhas e seriedade, pode ser apreciado de uma forma muito mais objectiva. Sidney Lumet, um realizador que por vezes foi visto como um burro de carga de Hollywood, cujo génio hoje em dia lembra o grande autor, um pouco passivo, Howard Hawks, injecta um estilo cuidadosamente dinâmico no processo, uma vez que ostenta um realismo bastante corajoso.
Um dos grandes thrillers nucleares, "Fail-Safe" descreve a resposta do governo dos EUA para uma acidental implementação de jactos para o espaço aéreo soviético. Apesar de alguns momentos carismáticos de Henry Fonda, como o presidente, e Walter Matthau, como um especialista nuclear, a visão de Lumet é decididamente processual e impessoal, seguindo a paranóia silenciosa da Guerra Fria no cinema americano, o sentido perpétuo de que alguém está a ouvir. Na verdade, parte do que faz o filme radical é que Lumet filma como se o apocalipse já tivesse ocorrido "Hiroshima and Nagasaki...those actions belong more properly to World War III than to World War II." Apesar de todo o filme ser passado no subsolo, em bunkers do governo, Lumet faz a sua câmera sentir-se tão remota e distante como a tecnologia de satélite que solicita o conflito em primeiro lugar. Por vezes, essa separação pode fazer um grande filme ser intransigentemente difícil. Isto explica em parte a incorporação de found footage e notícias, que também dão ao filme um tom de Mass Observation, aumentando a sensação de que esta guerra não é iminente, mas humanamente acontece com o decorrer do filme. Isto não quer dizer que ela se desenrola em tempo real, dado que um dos pontos fortes de Lumet é distender o tempo, tirando segundos, até que eles se transformem em cenas criando uma histeria liberal que é muito mais alucinante do que qualquer coisa vista em "Dr. Strangelove".
É melhor pensar neste filme como o gémeo mais distante de Dr. Strangelove. Fail Safe é mais sóbrio e sem humor. Ambos os filmes cobrem praticamente o mesmo território, de um ataque nuclear acidental sobre a União Soviética, mas enquanto Stanley Kubrick trata o Armagedon como um assunto digno de uma farsa absurda, Sidney Lumet leva isto muito mais a sério por algum motivo. De qualquer forma, são dois filmes imperdíveis, e este de Lumet é uma das obras mais injustamente esquecidas no tempo.

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