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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sacco e Vanzetti (Sacco e Vanzetti) 1971



Em 1920, os anarquistas italianos imigrantes Niccola Sacco (Riccardo Cucciolla) e Bartolomeo Vanzetti (Gian Maria Volonté), são condenados à morte, falsamente acusados de um roubo e de um assassinato. Na verdade, eles foram condenados por causa das suas convicções políticas, num dos julgamentos mais vergonhosos e hipócritas da história da humanidade. O filme é a história do julgamento.
Uma ronda de suspeitos do costume na américa dos anos 20, incluía comunistas, socialistas, e outros dissidentes políticos. Sacco e Vanzetti eram seguidores do anarquista Luigi Galleani que foi deportado por defender a violência, e cujos sócios eram suspeitos de vários atentados terroristas. Mais por causa desta associação do que propriamente evidências físicas, os dois foram presos e acusados dos crimes. A investigação policial foi uma anedota, e estava cheia de inconsistências, e desde cedo era visível que estava programada a culpa dos homens, a todo custo.
O que ninguém consegue explicar é porque é que Sacco e Vanzetti não receberam o apoio que a Constituição lhes prometeu. O calvário de ambos é um capítulo na história americana que engloba a revogação preliminar das liberdades civis garantidas a julgamento pelos mídia, e o destino do imigrante dissidente político a entrar em confronto com um todo poderoso sistema legal, dirigido por nativos que respondem apenas a eles próprios.
 Sacco e Vanzetti (1971) apresenta-nos a dramatização deste eventos, num estilo quase documental e dá destaque ao extenso julgamento dos dois homems. Contando com uma realização de um desconhecido Giuliano Montaldo, concorreu no festival de Cannes de 1971, tendo conquistado o prémio de melhor actor (Riccardo Cucciolla).

 E agora a visão sobre este filme, do Bruno - convidado do M2TM:



A vida é um caldo de ilusões e prisões. Escreveu Brecht que “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”. A ilusão de liberdade e prosperidade em terras estado-unidenses por muitos milhares de emigrados italianos no século passado, definharam rapidamente perante o choque com a realidade, mas Sacco e Vanzetti antes de emigrarem já eram anarquistas, um operário e um vendedor de peixe politizados, conscientes que a opressão burguesa existe onde quer que o capitalismo exista, seja em Itália ou nos States. Contudo havia ainda quem acreditasse nas instituições burguesas, incluindo na Justiça.

Sacco e Vanzetti, uma história apaixonante de dois anarquistas italianos confrontados com os limites da liberdade burguesa, que lutaram por uma sociedade sem exploração do homem pelo homem da melhor forma que sabiam. E foi esse o “crime” que ambos cometeram.

Julgados por um crime que não interessa à Lei se cometeram, ou não fosse uma característica do fascismo ter as leis escritas no papel como mera fachada formal, vai ficando gradualmente claro durante o desenrolar da narrativa a impostura e o lodo que é a justiça burguesa para homens do trabalho. É enquanto se desenvolve este definhamento de ilusões perante a Justiça, como se ela pudesse ser neutra e procurasse ser justa, que o filme ganha um cariz poético. Está a decidir-se a condenação à morte de dois homens apenas, ou a tentar-se algo mais?
"If it had not been for these things, I might have lived out my life talking at street corners to scorning men. I might have died, unmarked, unknown, a failure. Now we are not a failure. This is our career and our triumph. Never in our full life could we hope to do such work for tolerance, for justice, for man's understanding of man as now we do by accident. Our words--our lives--our pains--nothing! The taking of our lives--lives of a good shoemaker and a poor fish-peddler--all! That last moment belongs to us--that agony is our triumph."

Bartolomeo Vanzetti
A Lei não é igual para todos. Todos o sabem, inclusivamente aqueles que se iludem com a possibilidade de haver neutralidade. É um mito que persiste, mesmo quando quase todos os dias assistimos pela TV que a melhor forma de roubar impunemente é fazê-lo aos milhões e através da banca. Ao mesmo tempo, a condenação à prisão por se roubar comida para matar a fome inspira a arte há séculos, por exemplo, recordemos Jean Valjean em Os Miseráveis, de Victor Hugo, preso por roubar um pão. É a arte a reflectir a realidade, tal como faz o filme de Giuliano Montaldo que vamos hoje ver.

Ennio Morricone e Joan Baez oferecem o melhor das suas longas carreiras à banda sonora deste filme e complementam a poesia do filme. Envolvem de beleza o tema que evidencio nesta obra: a neutralidade é um mito, nas Leis e nos tribunais inclusivamente.
por Bruno - Leitura Capital*

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Grand Slam (Ad ogni costo) 1967



Heist movies dificilmente serão melhores do que isto, um clássico perdido do final dos anos 60 que, embora obviamente influenciado por "Rififi" de Jules Dassin (qual será o filme de assalto que não tenha sido influenciado por esta obra-prima francesa?) tem twists suficientes, e planos engenhosos para manter o mais exigente dos fãs do crime satisfeitos. Realizado por Giulano Montaldo, é uma co-produção europeia/norte-americana, filmada principalmente em exteriores no Brasil, passou despercebido por muito tempo e merece encontrar um lugar ao lado de outras grandes obras do género, como o já mencionado Rififi. 
Edward G Robinson interpreta um professor bem-educado, o professor James Anders, um trabalhador americano no Rio de Janeiro. Anders, aborrecido com anos de ensino, decide montar uma equipa para executar um roubo de diamantes durante o Carnaval do Rio de Janeiro. No crime, uma equipa de quatro especialistas internacionais estão reunidos para realizar o roubo: um especialista em segurança, um mestre ladrão, um génio mecânico, e um playboy (para seduzir a única mulher com a única chave para o edifício onde está o diamante, a bela Janet Leigh).
Dos ladrões, é Klaus Kinski quem rouba a cena como um psicótico (claro) especialista em explosivos que sempre parece estar à beira de quebrar e trair o resto do grupo. Ninguém pode fazer o olhar com os olhos arregalados de um louco tão bem como Kinksi (provavelmente devido ao facto dele ser um psicótico maluco na vida real) e aqui ele aplica toda a sua intensidade habitual. Também é óptimo ver uma lenda de Hollywood como Edward G. Robinson, mastiga o cenário como "o homem com o plano", e, embora tenha estado disponível para apenas alguns dias de filmagens (todos os exteriores com ele andando pelas ruas são de estúdio), faz sua presença ser sentida apenas como um ator da sua magnitude pode. 
O assalto clímax é uma peça incrível de cinema nervoso, levando 20 minutos de sequência de assalto silencioso (mais uma vez Rififi). O sempre confiável Ennio Morricone mantém as coisas interessantes com uma banda-sonora que faz uso pesado de batidas de samba tradicional brasileiro e uma fotografia muito bem composta por Antonio Macasoli. "Grand Slam" viria a ser considerado o primeiro filme da série dos Poliziotteschi.
Atenção que este filme não tem legendas, é falado em inglês.

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Imdb