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terça-feira, 30 de março de 2021

Amarcord (Amarcord) 1973

Retrato da cidade natal de Fellini, Rimini, assim como ele a conheceu, nos anos 30. Mostra o quotidiano de diversos personagens da vila durante um ano, entre as travessuras da adolescência, um rigoroso inverno, a passagem de um transatlântico e a ascenção do fascismo.
"Amarcord" é um olhar peculiar de Federico Fellini sobre a sua infância, durante a década de 30. Mas, sendo um filme de Fellini, dificilmente é um olhar directo para o passado. Fellini evita a nostalgia de detalhes autobiográficos e troca-os por elementos cartoonescos e carnavalescos do surreal e do peculiar.  É menos sobre um passado específico do que sobre como alguém pode lembrar-se e entender esse passado, filtrado pelas experiências da vida. O tom geral do filme é de humor confuso misturado com uma sátira mordaz da vontade da vida provinciana se vergar ao fascismo.
O argumento, escrito pelo próprio Fellini e Tonino Guerra, com quem o realizador trabalhou várias vezes, está estruturado à volta de eventos individuais, em vez de ligações causa e efeito, que uniriam todos esses eventos numa narrativa coerente. Isso não quer dizer que o filme não tenha forma. Considerando a maior parte da produção do realizador durante a década de 70, até é dos seus filmes mais acessíveis.
Fellini já tinha ganho uma vez em Cannes com "La Dolce Vita". Uma vez que o filme já estava em circulação desde o final de 1973, e assim já estava ilegível para concorrer para qualquer prémio, acabou por ser o escolhido para abrir o festival, fora de competição. Venceria o Óscar de Melhor Filme em língua estrangeira no ano seguinte.   

quarta-feira, 15 de abril de 2020

40 dias 40 filmes – Cinema em Tempos de Cólera: "A Cidade das Mulheres", de Federico Fellini

O Jornal do Fundão, os Encontros Cinematográficos, o Lucky Star – Cineclube de Braga e o My Two Thousand Movies associaram-se nestes tempos surreais e conturbados convidando quarenta personalidades, entre cineastas, críticos, escritores, artistas ou cinéfilos para escolherem um filme inserido no ciclo “Cinema em Tempos de Cólera: 40 dias, 40 filmes”, partilhado em segurança nos ecrãs dos computadores de vossa casa através do blog My Two Thousand Movies. O décimo quinto convidado é o escritor H.M.S. Pereira, que escolheu A Cidade das Mulheres de Federico Fellini.


Sinopse: Num compartimento dum comboio, Snaporaz sai da sua sonolência para seduzir uma bela desconhecida. Segue-a pela floresta até um hotel fantasmagórico onde decorre um congresso de feministas. Intimidado pela agressividade exuberante das militantes, ele refugia-se no seu papel de conquistador nato…

A escolha de H.M.S Pereira: Pelo sonho das aventuras que não podemos ter em casa  Sem a sua permissão mas com toda a minha admiração, aqui cruzo a poética da prosa da Adília Lopes com a poesia das prosaicas mulheres do Fellini:
«Em 81 disse à Drª Manuela Brazette, psiquiatra, “Eu sou feia”. Ela disse-me “Não é ser feia. Não há pessoas feias. Não tem é atractivos sexuais”. Lembrei-me então do homem que em 74, tinha eu 14 anos, se cruzou comigo no Arco do Cego. Lembrei-me do homem, da cara do homem vagamente, mas lembrei-me muito bem do que ele me tinha dito ao passar por mim. Tinha-me dito “Lambia-te esse peitinho todo”. Lembrei-me também da meia-dúzia de outros homens que durante a minha adolescência me tinha dito quando eu passava “Coisinha boa” e “Borrachinho”. Ainda hoje me sinto profundamente agradecida a esses homens. Pensei que eles estavam a avacalhar, que eram uns porcalhões. Mas quem estava a avacalhar era a Drª Manuela Brazette, ela é que é uma porcalhona. Acho que um homem nunca consegue ser mau para uma mulher como outra mulher.» [“Irmã Barata, Irmã Batata”, Angelus Novus, 2000]

Amanhã, a escolha de Vanessa Duarte.

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segunda-feira, 23 de março de 2020

Boccaccio 70 (Boccaccio '70) 1962

Quatro adaptações modernas de contos para adultos de Giovanni Boccaccio com 4 realizadores de luxo.
1-Renzo e Luciana. Luciana, a secretária, e Renzo, o jovem paquete, amam-se; mas as regras da sociedade na qual trabalham proíbem-nos de se casarem e terem filhos.
2-A Tentação do dr. António. Um puritano lança-se numa cruzada contra um cartaz publicitário, onde uma sensual mulher faz publicidade ao leite.
3-O Emprego. Um aristocrata é protagonista de um escândalo e a sua mulher vinga-se obrigando-o a pagar-lhe os seus deveres conjugais.
4-As Rifas. Uma bela mulher sujeita-se a um sorteio de rifas numa feira, mas recusa-se a acompanhar o vencedor, um sacristão, pelo facto de estar apaixonada por outro homem. 
´Boccaccio 70´ é um dos mais marcantes exemplos dos filmes em sketches, um tipo de cinema que floresceu na Europa, sobretudo em França e Itália, nas décadas de 60 e 70. A fórmula consistia em reunir um punhado de importantes realizadores, um grande elenco e um tema recorrente que cada segmento trataria segundo o estilo e a sensibilidade de cada cineasta. Aqui, sob o espírito e a livre evocação de Boccaccio, embora nenhum dos episódios seja adaptado de qualquer das suas obras, 4 grandes cineastas italianos, Fellini, De Sica, Monicelli e Visconti, abordam situações de pura ironia acerca do sexo, do desejo e das fantasias eróticas. Fellini é exuberante e fantasioso no sketch com Anita Ekberg a publicitar leite e a incendiar a libido de um puritano. Visconti adopta um realismo amargo na história da condessa que obriga o marido a tratá-la como se fosse uma prostituta. De Sica constrói um quadro de sabor revisteiro e colorido sobre a rapariga das rifas que recusa os clientes. Monicelli fala do amor proibido entre uma secretária e um paquete. 
São 4 estilos, 4 cineastas e 4 abordagens distintas do tema do sexo e das suas implicações, num filme que conta com um admirável elenco, dominado pela presença de três grandes actrizes: Anita Ekberg, Romy Schneider e Sophia Loren. 
* Texto RTP

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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Capítulo 4 - Drama

A prateleira dos filmes de Drama era sempre das mais preenchidas, mas nem por isso das mais concorridas. Normalmente quem se deslocava a um clube de vídeo para procurar um filme em VHS procurava um filme de género, não que o Drama não fosse um género, mas era sempre dos menos procurados. Todavia, depois de uma pesquisa, mesmo pouco minuciosa, encontrava-se por lá belas surpresas. Havia um pouco de tudo nos lançamentos em vídeo, muitos clássicos de Hollywood, poucos filmes em língua não inglesa. "Casablanca", "O Mundo a Seus Pés", a trilogia "O Padrinho", e tantas outras pérolas. Começamos hoje aqui a selecção dos dramas.

O Navio (E La Nave Va) 1983
Orlando é um velho jornalista que embarca no luxuoso navio Glória N., que parte de Nápoles para o ritual do enterro da famosa cantora de ópera Edmea Tetua. Nele também estão amigos e conhecidos da diva, colegas de trabalho e pessoas importantes da época, que escondem as suas disputas internas em prol do funeral. Tudo corria bem, até o capitão resgatar do mar dezenas de refugiados sérvios, que fugiam do seu país e assinalavam o início da primeira Grande Guerra.
Fellini realizou este filme já na fase final da sua carreira, os três últimos seriam "Ginger e Fred", "Entrevista" e "A Voz da Lua". O grande foco do filme é o absurdo das classes altas e a sua ignorância sobre o que se passa no mundo, e isto reflecte-se bem na entrevista do Orlando ao grão duque austríaco. Do brilhante inicio, filmado no estilo de um velho filme mudo, gradualmente misturando som e cor enquanto os passageiros embarcam no navio, até ao grande final operático, "O Navio é um puro deleite visual.
Fellini era dos realizadores italianos mais bem representados em VHS, e mesmo assim tinha apenas cinco obras lançadas no mercado. Apenas uma do seu período neorealista, "La Strada".

Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon) 1975
Em 1972, numa tarde quente de Agosto em Brooklyn, dois zés-ninguém demasiado optimistas decidem assaltar um banco. Sonny é o cérebro da operação, e Sal é o seu cúmplice. O plano é conseguir dinheiro para uma operação de mudança de sexo, mas o resultado é um desastre. Não tarda que a rua em frente do banco se tenha transformado num circo de polícias, câmaras de televisão, multidões e até um rapaz de entrega de pizzas.
Por vezes o conceito mais simples pode ser o mais atraente e interessante. Era algo que Sidney Lumet já tinha feito antes com "12 Angry Men", e conseguia de novo com "Dog Day Afternoon", que provavelmente era o filme de assalto mais simples de todos os tempos. Tal como em "12 Angry Men" no território dos filmes de tribunal, é a partir dessa simplicidade que emerge a complexidade, criando um número interessante de personagens, idéias e conflitos.
Foi um dos melhores filmes dos anos setenta, e uma das melhores personagens de Al Pacino.
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As Coisas Mudam (Things Change) 1988
Um humilde engraxador, Gino (Don Ameche), concorda em confessar um crime e apanhar de três a cinco anos na cadeia. O crime foi na verdade cometido por um mafioso, que em troca lhe dará uma compensação financeira que lhe dará a chance de realizar o seu sonho: ter um barco de pesca na Sicília. Jerry (Joe Mantegna), um capanga encarregado de vigiá-lo até ao dia do depoimento, decide levá-lo para se divertir no fim de semana antes de Gino ser preso.
O argumentista e realizador David Mamet, que já tinha lidado com o engano em "House of Games", foca-se aqui na importância ética de manter a palavra. Gino recusa-se a voltar com a palavra atrás a Mr. Green (Mike Nussbaum) é como o Thomas Moore de "A Man for All Seasons", quando explica que não pode quebrar um julramento: "when a man makes a promise, he puts himself in his own hands like water. And if he opens his fingers to let it out, he need not hope to find himself again." 
É também um filme sobre a solidão, e o valor de manter a palavra num mundo onde tudo é flúido e fugaz.

As Montanhas da Lua (Mountains of the Moon) 1990
As Montanhas da Lua descreve a expedição levada a cabo em 1854 por Richard Burton e John Hanning Speke em busca da nascente do Nilo. Burton é um explorador polifacetado, culto e dinâmico. Fala mais de 40 idiomas e é também poeta e antropólogo. Speke, mais jovem, é um aventureiro. O seu sonho é viajar para África para explorar terra desconhecidas. Baseado nas suas biografias e nos artigos escritos pelos dois exploradores ingleses, As Montanhas da Lua é uma aventura de descobrimentos, amizade, ambição, traição e arrependimento.
Bob Refelson era um dos realizadores mais emblemáticos dos anos setenta, em parte por causa de "Five Easy Pieces", e realizava apenas o terceiro filme em 10 anos, e num registo muito diferente do que era habitual ver nele. Rafelson conta-nos aqui uma grande história, muito pesada e comovente, mas um pouco afastada da realidade. Era baseado no livro "Mountains of the Moon" de William Harrison, que também escreveu o argumento do filme em conjunto com Rafelson, sendo o livro baseado no próprio diário de Burton e Speke, servindo também de inspiração para o filme. 
Um grande destaque para a beleza da fotografia de Roger Deakins e para a iterpretação de Patrick Bergin, em foco neste inicio dos anos noventa, e de quem já vimos neste ciclo um filme, "Robin Hood".
Link a ser substituido

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

8 e Meio (8 1/2) 1963



Guido Anselmi é um realizador de cinema que atravessa a maior crise da sua carreira. O seu último filme foi um enorme sucesso e o produtor espera que o sucessor seja um sucesso ainda maior. Milhões já foram gastos em cenários, atores e atrizes já foram contratados, o argumentista está pronto a começar a trabalhar ... Mas Guido não tem a mais remota idéia do que o seu próximo filme vai ser. Com o produtor a pressioná-lo, é atormentado pelas mulheres da sua vida - a amante, a esposa Luisa, e as atrizes principais. À medida que a sua vida começa a desmoronar-se, Guido recua até ao mundo da imaginação, na esperança de que os seus sonhos e experiências passadas servirem como uma fonte de inspiração...
O filme que mais merece o epíteto de "Fellini-esque", mais do que qualquer outro, é certamente "8 ½". Nesta extravagante e auto-indulgente fantasia criativa, o mestre do cinema italiano, Federico Fellini, leva-nos a uma exploração bizarra da sua arte e da sua vida. Simbolismo freudiano e imagens Dali-nescas abundam num trabalho que é ao mesmo tempo fascinante e insondável, uma obra-prima surreal que trabalha na nossa consciência como um sonho familiar que é ao mesmo tempo cómica e assombroso.
Além de ser mais o abstrato filme de Fellini, é também aquele que mais se aproxima e espelha a sua própria vida. Quando ele começou a fazê-lo, tal como o personagem principal de 8 ½, passava por um bloqueio criativo depois do sucesso internacional inesperado do seu filme anterior, La Dolce Vita (1960). Tinha ganho fama, riqueza e aclamação da crítica, mas onde é que ele poderia ir mais? Se um realizador na sua posição não tinha mais nada a dizer, como era possível fazer mais um filme? 8 ½ foi a resposta. 
O título do filme é, talvez, a sua maior auto-indulgência, e é mais um indicativo do agudo senso de ironia do seu realizador. Antes deste filme, Fellini fez sete longas-metragens (uma como co-realizador) e duas curtas-metragens - que dá por volta de sete filmes e meio. Portanto, usando a lógica matemática simples (sempre uma companheira quando tudo mais falha), o seu próximo filme seria o número oito e meio. Como melhor poderia Fellini mostrar a sua falência criativa do que nomear o seu 8 ½ º filme como "8 ½" ..? O título do filme é a maior pista para o que esta obra trata. Retrata um artista que - como Fellini poderia ter sido na altura - é apanhado nas garras de um bloqueio mental. A experiência é devastadora, já que o artista não sabe se alguma vez vai voltar a ser capaz de produzir uma obra de mérito, e isso faz com que ele se questione se tinha algum talento anteriormente. À medida que a turbulência mental, se intensifica, agravada pelas exigências egoístas das pessoas ao seu redor, o artista começa a perder a noção da realidade, e as fronteiras entre imaginação, memória e realidade começam a desaparecer.
O que o filme nos mostra não é o resultado final do processo criativo - uma obra polida com uma narrativa racional -, mas sim o processo criativo como acontece. Claro, isto tudo poderia facilmente ter acabado numa enorme confusão, uma desculpa para uma peça muito malfeita de cinema - inúmeras idéias semi-cozidas e editadas em cenários com a mesma pretensão e astúcia que é empregue em pelo menos 95% da arte moderna. Surpreendentemente, 8 ½ não é nada disso e, se alguma coisa tem, é algo com uma coerência indefinível, o que o torna completamente convincente e inequívoco. O filme pode fundir realidade e imaginação ao ponto que acabamos por não ser capaz de distinguir um do outro, mas continua a ser um dos trabalhos mais gratificantes e artisticamente talentosos do cinema.
Ganhou dois Óscares, e contava com um elenco fabuloso, onde se destacavam: Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Claudia Cardinale, e Sandra Milo.

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A Doce Vida (La dolce Vita) 1960



La Dolce Vita é a história de um repórter italiano, cuja vida de decadência leva a consequências trágicas e depois de encontros com uma atriz, uma socialite, uma comunidade religiosa, e a sua namorada suicida. Enquanto o filme transmite realismo, Fellini também traz o caos para a tela, onde há momentos que questionam a moralidade, sexualidade, socialismo, e a própria humanidade. Filmado a preto e branco pelo diretor de fotografia Otello Martelli, o filme é reproduzido como um circo com imagens surreais que parecem dobrar o mundo da realidade e da fantasia.
Marcello Rubini (Marcello Mastroianni) é um repórter viajando num helicóptero que está carrega a estátua de Jesus Cristo por cima de Roma, para mais tarde se juntar ao amigo fotógrafo Paparazzo (Walter Santesso) numa bôite. Depois do encontro com uma socialite aborrecida, Maddalena (Anouk Aimée), Marcello leva-a a um passeio e dorme com ela para voltar para casa ao nascer do sol, e lidar com a sua namorada auto-destrutiva Emma (Yvonne Furneaux). Para fazer a reportagem sobre a chegada de uma atriz americana chamada Sylvia (Anita Ekberg), Marcello segue para uma entrevista coletiva com a atriz, que trouxe o namorado Robert (Lex Barker). Marcello leva Sylvia numa excursão por Roma, onde mais tarde irá a uma festa com a amiga Frankie Stout (Alan Dijon) e o alcóolico Robert. Deixando a festa com Marcello, Sylvia toma banho na Fonte de Trevi sem reparar que Marcello está de olho nela.  
O que torna La Dolce Vita um filme tão arrebatador é a abordagem de Fellini a levar a simples odisseia de um homem da vida através de um mundo de decadência. O filme realmente pertence a Fellini já que ele é um homem que gosta que tudo seja um espetáculo com na cena de abertura e todas as sequências no clube noturno, e na decadência dos festeiros, incluindo o final, onde Marcello força uma mulher chamada Nadia (Nadia Gray) a tirar a roupa. Cada imagem, cada quadro, cada coisa que acontece no filme pode parecer demais para um filme de três horas, mas nunca temos um momento de tédio.
Fellini, o realizador, é um homem que parece adorar a imagem. Com o diretor de fotografia Otello Martelli, o filme tem um olhar a preto-e-branco evocativo, maravilhoso, onde tudo é enorme, especialmente se estivermos a vê-lo num ecrã cinema. Martelli traz um olhar exuberante e romântico ao filme, especialmente na cena da Anita Ekberg na Fontana di Trevi com Marcello. Ainda assim, o filme é todo de Fellini, onde ele parece se apaixonar por cada imagem, e há sempre um grande shot em cada sequência, onde tudo acontece. O argumento não se perde a excessos uma vez que transporta uma história simples, expandida pelo seu excesso. O filme também aborda muitos assuntos questionáveis ​​com personagen homossexuais e e também questões de espiritualidade, da moral e da própria humanidade.
O maior e mais icónico desempenho do filme vai claramente para Marcello Mastroianni como Marcello Rubini. Mastroianni oferece-nos um desempenho cheio de carisma e coolness. Mesmo depois deste filme, Mastroianni não envelheceu, mesmo quando o vemos em filmes bastante posteriores. Mastroianni também traz profundidade emocional a um personagem que pode parecer superficial, mas na sua busca pela realização, vemos o quanto ele luta. É um desempenho que é desafiador e até ao final do filme vamos amá-lo e odiá-lo ao mesmo tempo em que ele aceita o seu próprio destino, onde no final, queremos saber o que realmente vai acontecer com ele. É um dos maiores desempenhos na história do cinema.

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

As Noites de Cabíria (Le notti di Cabiria) 1957



Giulietta Masina interpreta Cabíria, uma prostituta que ganha a vida nas ruas de Roma em meados dos anos 50. Ingénua, ela sonha com o amor perfeito e acredita na bondade das pessoas. Por isso, sofre desilusões constantemente. Nas suas andanças pela noite romana, envolve-se com uma estrela de cinema em crise conjugal e, também, com outro homem, que parece amá-la de verdade. Será que o destino só guarda desencantos para a pobre Cabíria?
Embora ofuscado pelas obras-primas cinematográficas posteriores de Fellini, Le Notti di Cabiria merece ser considerado um dos melhores trabalhos do realizador, um exame pungente da falibilidade e da resiliência do espírito humano. Um filme em intenso movimento, mostra a futilidade de uma fé cega enquanto, ao mesmo tempo, lembra-nos de que na vida, qualquer que seja o sofrimento que o destino atire para o nosso caminho, é algo a ser valorizada. Não é intencionalmente um filme religioso, mas que retrata a força do espírito humano, de suportar e superar crises pessoais devastadoras, de uma maneira que faz com que seja uma parábola da vida moderna, e assistir ao filme parece ser uma espécie de experiência espiritual.
Com um retrato corajoso da vida das prostitutas e dos pobres, Le Notti di Cabiria é mais representativo das origens neo-realistas de Fellini do que da sua era dos grandes filmes, sátiras dramáticas - embora, historicamente e tecnicamente, o filme marque a transição entre estas duas fases na carreira do realizador.
Uma das sequências mais comoventes em Le Notti di Cabiria mostra um homem taciturno a distribuir alimentos para os pobres no campo fora de Roma. A cena é importante, pois proporciona o impulso para a transformação espiritual de Cabiria, que só recentemente foi restaurada no filme. Antes do filme ser lançado em 1957, a Igreja Católica insistiu nesta sequência, que tem cerca de sete minutos, para que fosse cortada, porque implicava que a Igreja estivesse a falhar no seu dever de cuidar dos pobres.
De certa forma, "Le Notti di Cabiria" é um dos filmes menos ambiciosos de Fellini. Esta essencialmente preocupado com um único tema: a jornada espiritual de uma pessoa. Diante de nossos olhos, vemos uma prostituta de pele grossa, ignóbil, que não tem controle sobre a sua vida, a passar por uma transformação lenta, mas segura. Ela pode não alcançar os seus longos sonhos, mas onde acaba é muito melhor do que onde começou - e ela tem o potencial para seguir em frente e criar para si própria a vida que esperava. É um trabalho subtil mas profundamente comovente, que se tornou ainda mais eficaz porque Fellini não empregou os dispositivos cinematográficos que usou tão bem nos seus filmes posteriores. A estrutura narrativa é simples, a fotografia é contida, mas a história que ele conta é intrinsecamente tão poderosa que o filme destaca-se como uma das suas maiores obras.
"Le Notti di Cabiria" ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1957 e Giulietta Masina ganhou o prémio de melhor actriz no Festival de Cannes do mesmo ano.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A Estrada (La Strada) 1954



A triste história de uma criança abandonada, Gelsomina, que é vendida pela sua mãe para Zampano por 10.000 liras e alguns quilos de comida. Zampano é um showman viajante que se exibe em números de força, quebrando uma corrente à volta do peito. Exibe-se em praças e de seguida, passa o chapéu para o que a pequena multidão está preparada para lhe dar. Ele ensina a Gelsomina um rufar de tambores, como parte da sua introdução. Ele não a trata bem e quando ela tenta fugir, bate-lhe. Finalmente juntam-se a um pequeno circo itinerante onde um desentendimento leva à tragédia.
Um dos filmes de mais reputação de Federico Fellini e que lhe valeu o primeiro Óscar de Filme Estrangeiro foi La Strada, um filme italiano marcante que é considerado por muitos como o maior trabalho do realizador. Com a confiança de um verdadeiro mestre, Fellini traz um filme de poesia lírica sobre as armadilhas familiares do neo-realismo italiano, e o resultado é um dos mais verdadeiros, emocionalmente ricos e gratificantes dos seus filmes. 
La Strada é um filme que está carregado de simbolismo, e a sua ambiguidade admite muitas interpretações. Uma leitura do filme é que ele é sobre a nobreza do espírito humano contra a realidade de uma existência física da terra. Esta dicotomia é cristalizada na forma dos dois principais personagens masculinos - O Louco e o bruto Zampano, os dois homens entre os quais a heroína Gelsomina se divide, como uma mariposa incapaz de escolher entre duas luzes igualmente atraentes. Enquanto Zampano representa tudo o que é simples e vulgar na existência humana, o Louco personifica tudo o que é maravilhoso - imaginação, poesia e graça. O homem forte deve passar pelo ritual de quebrar correntes no seu peito a cada dia para mostrar que ele é livre, enquanto o Louco ostenta o seu sentido de liberdade através de um acto perigoso na corda bamba. A brutalidade irracional do Zampano destrói o Louco e tudo o que ele representa tão facilmente como um homem pode destruir a vida de uma borboleta. Em nenhum outro ponto na obra de Fellini o uso da metáfora visual é tão poderoso, tão incisivo como aqui.
O papel de Gelsomina é interpretado por Giulietta Masina, esposa de Fellini, uma atriz estabelecida no mundo do cinema. Naquele que é sem dúvida o ponto alto da sua carreira (e, incidentalmente, o papel que lhe valeu o epíteto indesejável de "Chaplin feminino"), Masina consegue não para captar de forma brilhante o núcleo da sua personagem, mas também transmitir algo da natureza imperfeita da condição humana, em particular, que a relutância perversa para libertar-se dos instintos mais básicos para alcançar algum tipo de santidade pessoal.
Anthony Quinn faz um contraste marcante com Giulietta Masina. Resistente, taciturno e completamente antipático (pelo menos durante grande parte do filme), o retrato de Zampano de Quinn caracteriza tudo que é mau na natureza humana. No entanto, no parágrafo final inesquecível do filme, o actor consegue vencer a nossa simpatia quando percebemos que ele é mais uma vítima indefesa das circunstâncias como foi Gelsomina e o Louco. O retrato do Louco, de Richard Basehart, é tão eficaz, fornecendo um contraponto habilmente desenhado para o grosseiro Zampano de Quinn.  
Se há um filme que marca Federico Fellini como um génio do cinema, ele tem seguramente de ser La Strada. Não só é um filme de uma composição muito bem filmada, com base em princípios neo-realistas, sem servilmente aderir à política do movimento neo-realista. O que define La Strada como um filme à parte, como possivelmente o melhor do realizador é que, apesar da sua aparente simplicidade, parece-nos dizer muito sobre a experiência humana. Sem qualquer dos excessos e da auto-indulgência vulgar que viria a definir obras posteriores de Fellini, La Strada é uma parábola visual impressionante que toca o coração, uma obra de grande compaixão e humanidade. 

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Os Inúteis (I Vitelloni) 1953



Na cidade costeira de Rimini, cinco jovens passam o dia a divertir-se, vivendo longe dos pais, e fazendo todo o possível para evitar a responsabilidade de adultos. Ao ouvir que a namorada Sandra está grávida, o líder do grupo, Fausto, decide mudar-se para Milan. O pai intervém, e ele é obrigado a ficar e casar-se com a jovem, para preservar a honra de ambas as famílias. Mesmo quando casado, Fausto ainda não consegue deixar de dar as suas voltas. Uma tentativa de seduzir a esposa do chefe gera uma demissão humilhante. Ele vinga-se roubando uma estátua, que posteriormente é incapaz de vender. Enquanto isso, os seus amigos têm os seus próprios problemas...
I Vitelloni, o terceiro filme de Federico Fellini e o seu primeiro sucesso internacional, é uma peça envolvente que alterna entre o melodrama e a comédia na sua descrição colorida de cinco loosers que parecem incapazes de crescer. Em parte autobiográfico (é passado na cidade natal do realizador), o filme combina o aspecto neo-realista que foi predominante no cinema italiano da altura com uma despreocupação de sonho, esta última tende a dominar as obras posteriores de Fellini. Enquanto o filme não chega a ter o impacto emocional ou maturidade artística de La Strada (1954) e outros trababalhos posteriores, revela o dom do realizador para contar histórias e um total domínio do claro-escuro no seu trabalho de câmera, que é surpreendentemente fluido e vibrante para um filme desta era.
A banda-sonora de Nino Rota, que varia da vulgar exuberância ao assombroso pathos, enfatiza a poesia do filme e é um dos seus pontos mais altos (como seria o caso de muitos dos filmes posteriores de Fellini). A sequência de carnaval tipicamente Felliniesque não teria sido a mesmo sem a  apropriação atrevida da "canção nonsense" de Chaplin em Tempos Modernos. Rota traz à obra de Fellini uma noção do que é ser jovem e vivo, e nenhum filme é melhor servido pela sua música do que "I Vitelloni". Parte do sucesso de I Vitelloni deve-se também ás interpretações do seu excelente elenco. Franco Fabrizi é hilariante como o covarde Don Juan, um protótipo óbvio para o personagem de Marcello Mastroianni em La Dolce Vita (1960). Alberto Sordi combina emoção e comédia com uma sensação de tormento interior na sequência mais tocante do filme ( não é uma tarefa fácil para um homem corpulento vestido com roupas íntimas femininas).
"I Vitelloni" é um termo que se refere aos vagabundos da classe média. Enquanto muitos dos seus contemporâneos neo-realistas estavam preocupados com o lado mais sombrio da sociedade italiana (pobreza, velhice e desemprego em massa), Fellini olha para um grupo social totalmente diferente, com tanto conhecimento e paixão. As enormes mudanças sociais que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, tinham criado uma divisão quase intransponível entre as gerações, o que este filme transmite de forma brilhante. O jovem (aqueles com idade inferior a 30) têm dificuldade em encontrar trabalho e, com toda a incerteza em volta dele, procura refúgio numa infância prolongada. A geração mais velha, que têm sofrido muito nos últimos dez anos, não têm autoridade ou até mesmo a vontade de incutir nos seus filhos um senso de maturidade e compaixão altruísta para os outros. Como resultado, o que temos é uma geração de homens obcecados em se portar como crianças, sem ter idéia do que se trata a responsabilidade adulta.
No final do filme, Fellini finaliza o drama com uma nota de otimismo silenciosa. Um dos cinco Vitelloni (o pensativo Moraldo) tem alguma noção do que está errado e consegue encontrar coragem para se libertar e embarcar numa vida adulta noutro lugar.

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