Mostrar mensagens com a etiqueta Claire Denis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Claire Denis. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Beau Travail (Beau Travail) 1999

A história de um ex-oficial da Legião Estrangeira, Galoup, a recordar a sua vida outrora gloriosa, liderando tropas no Golfo do Djibouti. A sua existência ali era feliz e rigorosa, mas a chegada de um jovem recruta promissor, Sentain, vai plantar a semente do ciúme na mente de Galoup. Sente-se compelido a impedi-lo de chamar a atenção do comandante que ele admira, mas que o ignora. O ciúme irá levar à destruição dos dois.
Os filmes de Claire Denis são frequentemente descritos como sensuais, até mesmo surrealistas, na sua falta de conformidade com as estruturas narrativas e cognitivas do cinema clássico. "Beau travail" é um exemplo de cinema que converte a narrativa clássica num evento perfomativo, encenando o seu objecto mais querido, a franca sedução do espectador sem o auxílio das personagens como agentes intermediários.
Nas mãos desta realizadora, a história torna-se o equivalente a um sonho forte e colorido, ajudado apenas pela intromissão de ocasional de diálogos e pelo facto do enredo ser a menor das preocupações, com o filme a ganhar peso num sólido núcleo emocional.
Denis Lavant, o habitual protagonista dos filmes de Leos Carax, interpreta um homem magnético que se encaixa nas suas próprias emoções, e a sua paixão é muitas vezes colocada em conflito com a secura dos rituais dos soldados. A escolha de Claire Denis de imagens dramáticas, mas nunca vazias, com uma música de apoio muito forte completam este filme invulgar.
Filme escolhido pelo Flávio Gonçalves.

Link
Imdb

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

35 Shots de Rum (35 Rhums) 2008

O viúvo Lionel (Alex Descas) vive num complexo habitacional com a sua filha, Josephine (Mati Diop), com quem tem fortes laços por tê-la criado sozinho. Enquanto Lionel atrai a atenção de uma mulher de meia-idade, um taxista que começa a andar pelo bairro envolve-se com Josephine e eles começam a sair. Quando o namorado de Josephine aceita um trabalho no exterior e se muda, deixando a rapariga sozinha, Lionel percebe que a filha está a ficar independente e que talvez esteja na hora deles confrontarem os seus passados.
Descrever as emoções que atravessam os filmes de Claire Denis é como tentar lavar os pés numa miragem. Elas estão lá, e no entanto, se lhes tentarmos tocar, a sua beleza perde-se instantaneamente. Descrever o enredo é mais simples, pois quase não há um. "35 Rhums" representa para a audiência uma jornada de um ponto de partida incerto para um destino do qual não sabemos nada.
Juntamo-nos nestas viagens de crescer, envelhecer, crescer juntos, e tentar perceber a vida. Denis declina fazer concessões, está disposta a mostrar, mas recusa-se a contar. Como tal, depende do tipo de viajante que nós somos. "35 Rhums" é sobre a condição humana, como as pessoas se ligam umas às outras, como respondemos a estas ligações, e as emoções que delas surgem. Um dos melhores trabalhos de Claire Denis.

Link
Imdb

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Trouble Every Day (Trouble Every Day) 2001



O pesquisador Shane Brown (Vincent Gallo) leva sua a nova esposa, June (Tricia Vessey), para Paris, em lua de mel. Sem a esposa saber, Shane está com problemas mentais que o obrigam a morder a sua parceira enquanto faz amor. O verdadeiro motivo para visitar Paris é para ver um cientista, Léo Semeneau, que, acredita, pode curá-lo do seu problema. Enquanto isso, a própria esposa de Léo, Coré (Béatrice Dalle), está num estado avançado da mesma doença e tem que ficar presa para impedi-la de seduzir outras vítimas...
Com uma invulgar mistura de erotismo e terror sangrento, este thriller chocante da aclamada realizadora Claire Denis foi obrigatoriamente controverso, mas poucos poderiam ter previsto a escala de reacções que teve. Desde a sua primeira exibição no Festival de Cannes em 2001, o filme provocou o público e a crítica por todo o mundo, com a maioria dos comentadores a condenarem-no violentamente pelo seu retrato explícito de canibalismo motivado sexualmente. Com muitos críticos a citarem o filme como depravado e imoral, a reputação de Denis como realizadora séria, sem dúvida que foi manchada, provavelmente sem justificação. Trouble Every Day foi vítima de um frenesim de excesso dos mídia, e provavelmente vai ser visto de outra forma, daqui a alguns anos.
Visto do modo correcto, Trouble Every Day é uma peça eficaz e instigante de cinema, sustentada por alguns valores de produção excepcionais. A fotografia lindamente melancólica e interpretações hipnotizantes (particularmente de Béatrice Dalle e Tricia Vessey) dão ao filme alguns momentos poderosos de humanidade, como a compaixão e a perversão a serem habilmente atiradas de um lado para o outro. Em contraste com a grande maioria dos thrillers americanos, o filme de Claire tem um genuíno mérito artístico e não é nada explorador. Quando filma o corpo humano, não é com um prazer lascivo perverso, mas sim para retratar a beleza, o estímulo dos nossos mais básicos desejos. Por filmar tão sumptuosamente a carne nua, como se fosse uma carcaça anónima, sugere que o desejo carnal tenha um duplo significado: a necessidade de fazer amor e comer carne são duas facetas do mesmo instinto primitivo.
Resumindo, Trouble Every Day é uma peça misteriosa de cinema que é tão convincente como é repugnante, uma variação sofisticada sobre o filme de terror convencional, com imagens que vão deixar uma impressão indelével em qualquer espectador. Embora não seja o trabalho mais completo ou satisfatório de Claire Denis, não nega as suas credenciais como uma realizadora de alto calibre com uma visão artística única. Com a cumplicidade de sua notável directora de fotografia, Agnès Godard, Denis oferece um estudo poderoso e credível do lado mais obscuro do desejo humano, uma evocação totalmente arrepiante de fantasia psicosexual e folclore do vampirismo. 

Link
Imdb