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sábado, 12 de janeiro de 2019

Sans Soleil (Sans Soleil) 1983

Uma mulher não identificada (Alexandra Stewart) lê cartas de um cameran fictício e invisível, cujas filmagens diversas (algumas filmadas por amigos fotógrafos de Marker), junto com imagens de arquivo e sequências de vídeo sintetizadas, montadas formam um "relatório do outro mundo". Saltando entre diversos lugares em África, Japão. São Francisco, Guiné-Bissau, Islândia e as ilhas de Cabo Verde, "Sans Soleil" é estruturado entre opostos e justaposições: primeiro e terceiro mundos, felicidade e tristeza, quietude e movimento, passado e presente, fantasia e realidade. 
Explorando a sociedade japonesa, Chris Marker evita e concentração  no milagre económico do país e, em vez disso, regista cerimónias comemorativas, sejam elas para as almas dos animais de estimação que partiram, seja para os civis que morreram na Segunda Guerra Mundial. E ele caminha entre os rostos da Tóquio adormecida e os filmes de terror sexo e samurais, para mostrar a idéia da cidade como um sonho colectivo.  Existe também uma investigação sobre "Vertigo" de Hitchcock, porque para Marker é o único filme "capaz de retratar a memória impossível e insana".
"Sans Soleil", de Chris Marker, é sem dúvida muito rico e complexo, e difícil de ser digerido num só visionamento. Intrigados pelos seus estranhos ritmos, as suas imagens caleidoscópicas, e os seus aforismos filosóficos, talvez seja melhor voltarmos ao início do filme.

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quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

La Jetée (La Jetée) 1962

Viagens no tempo, fotos estáticas, o passado, o presente, e o futuro, e as consequências da Terceira Guerra Mundial. A história de um homem, prisioneiro, enviado para o passado, para encontrar uma solução para o destino do mundo. Para repor o seu decrescente stock de alimentos, remédios e energias, e ao fazê-lo, o que resulta é uma memória permanente de uma mulher solitária, a vida, a morte, e acontecimentos passados que são retratados num aeroporto.
Em 1962, Chris Marker, um documentarista francês, escreveu, realizou e fotografou uma curta experimental, La Jetée, uma alegoria de ficção ciêntifica/viagens no tempo. É composta por uma série de imagens estáticas, a preto e branco (uma a cores já no final do filme), acompanhadas por uma escassa narração. O filme de Marker, mais tarde, serviria de base para "12 Monkeys", de Terry Gilliam (e, em menor medida, para Terminator, de James Cameron). Mais de 50 anos depois, "La Jetée" continua a ser um filme evocativo, profundo e convincente para o cinéfilo explorar questões mais amplas relacionadas com a natureza e a função do cinema, para estetas interessados na complexidade temática, e até mesmo para o casual espectador que irá identificar-se com o protagonista sem nome, na busca pela memória perdida. 
"La Jetée" é passado num mundo reconhecível através de incontáveis histórias de ficção científica, um mundo devastado por uma guerra nuclear. Os últimos sobreviventes foram obrigados a viver na clandestinidade, a fim de evitar os efeitos da percipitação nuclear. Os sobreviventes estão divididos em dois grupos: os "vitoriosos", que controlam todos os escassos recursos existentes, e uma população aprisionada, totalmente dependente dos "vitoriosos" para ser alimentada. Mas a vitória, neste futuro, é insignificante, assim como os líderes desta sociedade underground parecem saber. A esperança não está na reconstrução de um mundo em ruínas, mas em viajar no tempo, para o futuro, onde os descendentes dos sobreviventes possam mandar material de primeiros socorros. Falhanço após falhanço os nossos viajantes acabam mortos ou loucos. Mas o nosso protagonista sem nome, irá ter sucesso onde os outros falharam, através da guerra e das suas desagradáveis consequências ele agarra-se a uma única memória, uma viagem de uma família ao Aeroporto de Paris, onde testemunham a morte de um estranho.

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sábado, 9 de julho de 2016

Longe do Vietname (Loin du Vietnam) 1967

No auge da contestação à guerra no Vietname, Chris Marker organizou um protesto colectivo de cineastas franceses, sob a forma de um filme. Trata-se. pois, de um filme claramente militante, directamente envolvido no conflito e claramente de apoio ao governo do Vietname do Norte e aos guerrilheiros que na parte sul do país, lutavam para expulsar o invasor americano.
Marker optou por não realizar nenhum segmento, assumindo, porém, as tarefas de coordenação e de edição. Na realização participaram Godard, Resnais, Agnès Varda, Claude Lelouch, Joris Ivens e William Klein. Por vontade expressa dos envolvidos, nenhum segmento é directamente assinado pelos directores, mas o tempo veio a revelar quem fez o quê.
Muito do interesse deste documentário é hoje meramente histórico, porque revela a forma de vida de uma época. Sem pôr em causa o carácter agressivo da intervenção americana no Vietname, os méritos do regime do Vietname do Norte, elogiados em quase todos segmentos, estão hoje claramente desvalorizados, ou mesmo desacreditados. Mas, integrado no contexto histórico da segunda metade da década de 60, o período de todos os questionamentos e de todas as contestações, as imagens fazem todo o sentido. Há imagens recolhidas no Vietname após os bombardeamentos, evocações da presença colonial francesa, uma entrevista com Fidel de Castro, excertos de discursos de militares americanos, manifestações de rua em Paris e uma reportagem com a mulher de um cidadão americano que se imolou pelo fogo, como forma de protesto pela intervenção do seu país. Há três segmentos que merecem um destaque especial: o de William Klein que cobre de forma muito extensa as manifestações Nova Iorque contra a guerra do Vietname e as contra-manifestações dos defensores da agressão americana; o segmento de Jean-Luc Godard é o único que é de imediato identificado com o seu autor, uma vez que o cineasta filma-se a si mesmo junto de uma câmara. Godard reflecte sobre a relação entre o cinema e a militância, a arte e o compromisso e a eficácia da mensagem, tomando como ponto de partida, a recusa do governo do Vietname do Norte. face à sua oferta para filmar nesse país. «Talvez não confiem em mim», afirma ironicamente o cineasta suiço, desmistificando um pouco a ideia maniqueísta instalada então na cultura ocidental; mas o segmento de Alain Resnais é o mais estranho, perturbante e estimulante momento do filme: trata-se de um monólogo de um escritor, perante uma mulher que se limita a fitá-lo, a quem é solicitado um texto sobre uma livro relacionado com a guerra do Vietname e que manifesta dúvidas e vacilações relativamente a questões de política internacional e estilhaça o politicamente correcto. Porquê o Vietname e não qualquer país de África alvo de guerras? Porquê a intervenção americana a ser contestada em contraste com o silêncio face à invasão da Hungria em 1956 (Praga seria apenas no ano seguinte)? Num percurso muito típico das primeiras obras de Resnais o escritor vai evocando as suas memórias que remontam à segunda guerra mundial, quando os americanos eram vistos como libertadores e não opressores e confessa a sua clara filiação em muitos dos valores e dos ícones da cultura americana. É um segmento absolutamente luminoso que, juntamente com o de Godard, vale o filme.
O filme teve um acolhimento triunfal em Nova Iorque na altura da sua antestreia e fez um percurso interessante na Europa, apesar das ameaças de bomba de grupos extremistas pró-americanos. Hoje é vista como uma obra militantemente generosa, mas datada, excepto os fragmentos de Resnais e de Godard que, como é típico dos génios, transcendem o tempo e as circunstâncias em que são concebidos.
*Texto de Jorge Saraiva

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