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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Cria Corvos (Cria Cuervos) 1976

 "Cria Corvos e eles te arrancarão os olho", diz o provérbio espanhol em que Carlos Saura se baseou para realizar este filme. Seguimos a perspectiva de uma criança para retratar os últimos dias da ditadura de Franco. A filha do meio de três irmãos, Ana de oito anos (um papel feito de propósito para Ana Torrent, igualmente a jovem protagonista de "O Espírito da Colmeia") que acreditava ter nas suas mãos um misterioso poder sobre a vida e a morte dos seus familiares. Assim, teria causado a morte do pai, um militar franquista depois do doloroso martírio da sua mãe. 
Carlos Saura não faz distinção entre passado presente e futuro (Geraldine Chaplin também interpreta Ana vinte anos depois, falando directamente para a câmara sobre toda a tristeza da sua infância), e, portanto, vivemos a narrativa com o próprio fluxo de consciência de Ana, com o presente a ser moldado para nossa compreensão da memória do passado.  
"Cria Corvos", a obra-prima política e psicológica de Carlos Saura foi filmada no Verão de 1975, quando o ditador Francisco Franco estava a morrer, e estreou a 26 de Janeiro de 1976, quarenta anos depois do inicio da Guerra Civil. Saura dificilmente poderia ter escolhido um momento mais importante para a sua meditação sobre história e memória. 
Nascido no seio de uma família burguesa, mas uma do lado perdedor da guerra, Saura estudou na escola do regime, e fez dez longas metragens alcançando uma posição única na altura da libertação com "Cria Corvos". Aclamado pela critica espanhola como o único cineasta no seu país a alcançar uma carreira plena neste período do franquismo, e por isso foi o realizador mais em destaque, do qual vimos todos os seus filmes até esta altura, e terminamos aqui este longo e fantástico ciclo, com um filme muito especial. Espero que tenham gostado, já que foi um ciclo muito especial.

sábado, 29 de agosto de 2020

A Prima Angelica (La Prima Angelica) 1974

Luis, morador em Barcelona, um homem solteiro de meia idade, viaja para Segovia depois da morte da sua mãe para tratar do enterro. A tia Pilar leva-o para a sua antiga casa, onde morou quando jovem. Lá, ele encontra a prima Angelica, que foi o seu primeiro amor, e hoje mora com o marido e a filha no mesmo lugar. As lembranças ressurgirão à medida que os seus sentimentos pela prima se confundem com os que tinha antigamente.
Um dos mais sensíveis e importantes filmes de Carlos Saura, filmado em 1974, um dos momentos mais transcendentais da história espanhola, devido ao desastre do franquismo. É um retrato maravilhoso dos efeitos da Guerra Civil espanhola numa família, e do amor que luís sente pela sua prima angélica. A infância, a adolescência de ambos, e o amor proibido, é visto no passado e no presente com uma grande nostalgia. 
Saura cria uma grande história de amor com um pano de fundo histórico, a guerra civil espanhola, e mostra ao público um jogo passional entre a realidade passada e a presente. Concorrendo para a Palma de Ouro em Cannes, acabou por ganhar o prémio do Juri, num ano em que a concorrência era pesada.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Ana e os Lobos (Ana y os Lobos) 1972

Ana (Geraldine Chaplin) é uma jovem inglesa contratada para trabalhar como governanta numa mansão no campo, em Espanha. Mas a sua beleza aguça o desejo reprimido de três irmãos que vivem nessa casa : o místico Fernando (Fernando Fernán Gómez), que representa a Igreja Católica; José (José Maria Prada), o Exército e Juan (José Vivo), o sexo oprimido. Em silêncio, Ana nada faz para impedi-los e passivamente se submete aos desejos dos seus senhores, assim como o inocente povo espanhol durante o período franquista.
Carlos Saura não esconde a alegoria que está muito pouco escondida neste filme. Esta família representa claramente as forças espanholas controladas por Franco: a ditadura, a elite moralmente corrompida, e a igreja católica. Ana é a intrusa estrangeira, e as suas reações aos absurdos e crueldades aproximam a família, para uma postura defensiva que só agrava a situação. Ela também representa o papel das mulheres na Espanha franquista, que perderem muitas possibilidades de emprego e viverem muito tempo sob o domínio dos homens. 
Nomeado para a Palma de Ouro em Cannes, não é dos melhores filmes de Saura, mas ainda assim é uma obra muito acessível, mesmo para quem não está familiarizado com a ditadura em Espanha.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O Jardim das Delícias (El Jardín de las Delicia) 1970

Depois de sofrer um grave acidente de carro, o famoso empresário Antonio Cano fica temporariamente paralisado e com sequelas na sua memória. Para ajudá-lo na recuperação, a sua família começa a encenar acontecimentos da sua trajetória de vida - um teatro baseado em factos reais que começa a surtir bons efeitos para o paciente.
Carlos Saura dirigiu "El Jardin de las Delícias" em 1970, apenas cinco anos antes da tão esperada morte de Francisco Franco. Estes últimos anos do regime de Franco foram marcados por uma crise profunda que se refletiu no declínio físico do próprio ditador. Tal como o protagonista, António, o franquismo estava incomunicável, congelado no tempo e a sua estrutura estava desactualizada. Da mesma forma que os familiares de António continuaram a depender dele, os membros do regime de Franco continuaram a apoiar o ditador durante o seu declínio físico e mental, a fim de aproveitar as suas prerrogativas e garantir o seu próprio futuro. A incerteza do futuro do país rondava a sociedade espanhola, um sentimento que Saura explorou com sucesso neste filme. 
Embora a ditadura estivesse a chegar ao fim, os censores continuaram a exercer um contro estrito sobre a produção cultural, obrigando os realizadores da oposição a desenvolverem narrativas metafóricas para articular o seu descontentamento com o regime, se os filmes fossem mais explicitos não teriam sobrevivido aos cortes dos censores. Foi neste contexto que Saura fez uma crítica alegórica ao final da ditadura de Franco, com uma linha teórica que possibilita múltiplas leituras do filme.
Legendas em inglês.


sexta-feira, 14 de agosto de 2020

A Colmeia (La Madriguera) 1969

Um casal tem uma vida boa e tranquila, resultado do seu trabalho e investimento. Sem razão aparente, eles isolam-se em casa e deixam de ter qualquer contato com o mundo exterior. Começam, então, a colocar em causa a sanidade e a vida conjugal entre os dois.
Um filme que não é apenas um dos grandes resultados da união criativa e conjugal entre Carlos Saura e Geralfine Chaplin, como também um dos raros casos em que o ambiente, neste caso a casa, assume o papel principal. A enorme casa de concreto, abstrata e pré-minimalista, transforma-se durante toda a execução do filme, abrindo o caminho para a paranóia das duas personagens principais. As imagens que Saura produz são enigmáticas, surrealistas, e de uma forma estranhamente terapêutica. É provavelmente um dos filmes mais interessantes e contemporâneos do realizador, embora não seja muito reconhecido.
Estreado no festival de Berlim de 1969, era a segunda colaboração de Saura com o produtor Elías Querejeta e o argumentista Rafael Azcona, embora Chaplin também tenha dado uma mão no argumento. Esta colaboração entre Saura, Querejeta e Azcona estender-se-ia ao longo da década seguinte, em filmes mais conhecidos, como "O Jardim das Delícias" (1970), "Ana e os Lobos" (1973) ou "A Prima Angélica" (1974) todos eles cobertos por um simbolismo em que as memórias, os regressos à infância, ou as relações familiares não só definiam as personagens como também permitiam uma leitura crítica do passado e do presente, num país em que a ditadura moribunda dava os seus últimos golpes.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Em Três, Um É Demais (Stress-es tres-tres) 1968

Filme sólido sobre ciúmes, paixões, uma suposta traição, intrigas sexuais e uma interpretação extraordinária do elenco principal. Um empresário chamado Fernando (Fernando Cebrian) dirige para a costa de Almeria com a sua inconstante esposa Teresa (Geraldine Chaplin, então casada com Carlos Saura) e o melhor amigo Antonio (Juan Luis Galiardo). O paranóico Fernando pensa que está a ser enganado e que os outros dois estão começando um caso de amor. Enquanto os dois se vão envolvendo ao longo do fim de semana, Fernando continua com a fixação nos ciúmes e fica cada vez mais paranóico. 
Como o título sugere, temos um triângulo emocional bastante estranho. Grande parte da acção passa-se num carro, atravessando a árida paisagem espanhola a caminho de uma praia deserta. A lealdade muda, as identidades confundem-se, e, no final, é francamente impossível dizer quem fez (ou não) o quê a quem. 
Para tornar o filme ainda mais estranho, Carlos Saura rodou-o no mais totalmente realista dos estilos. Música minimalista, e um trabalho de câmara sólido a preto e branco, que nos faz sentir que estamos a assistir a um documentário, e isso torna a ambiguidade da acção ainda mais bizarra e perturbadora.
Não é dos trabalhos mais conhecidos de Saura, mas vale bem a pena.

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sexta-feira, 31 de julho de 2020

Idéia Fixa (Peppermint Frappé) 1967

Julián, médico radiologista, reencontra o seu amigo de muitos anos, Pablo, a quem conhece desde criança. O amigo está agora casado com Elena, uma linda mulher que Julián diz já ter conhecido algum tempo atrás. Julián tenta aproximar-se cada vez mais dela, mas Elena não se entrega facilmente, formando um estranha situação que envolverá inclusive a enfermeira do doutor, Ana, que tem uma intrigante semelhança com Elena.
Segundo Urso de Prata quase consecutivo para Carlos Saura, depois do seu magnifico trabalho "La Caza". Nesta sua quarta longa.metragem Saura estabeleceu a linguagem enigmática sob a qual o seu trabalho posterior seria realizado. A partir de personagens arquetípicos tentou simbolizar as repressões do espanhol médio, principalmente no aspecto sexual. 
Depois de "La Caza", Carlos Saura dedicou-se a um projecto cinematográfico que seria uma homenagem ao seu mestre espiritual: Luis Buñuel. Enquanto as pesonagens femininas contrastantes de Elena e Ana impulsionam o enredo cada vez mais preverso do filme, é Julián quem é o foco principal de "Peppermint Frappe" e a personificação do tradicional espanhol masculino, criado no regime de Franco. Numa entrevista, Saura afirmou que: "Eu percebi que a burguesia espanhola, e por extensão a do mundo, incluindo a classe média, tem uma série de imagens fixas: uma noção medieval, relativa a sentimentos, mantida principalmente pelos homens em relação às mulheres. É essa noção de mulher como objecto que as revistas de moda mostram de uma forma muito clara. No filme é um pouco mais claro, porque contém o mito do objecto da mulher mantido pelo homem tradicional com as suas noções religiosas e educação particular. Ele (Julián) pode ser um médico fantástico, mas não o deixa afastar do conceito de objecto-mulher. Todos estamos familiarizados com este problema em Espanha."
Legendas em inglês.

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domingo, 26 de julho de 2020

A Caça (La Caza) 1966

Três homens caçam coelhos durante um dia quente. O calor e as conversas sobre acontecimentos ocorridos no passado deixam os três homens com raiva, até que ficam totalmente loucos.
Com "A Caça", o terceiro filme de Carlos Saura, este inicia uma colaboração bastante frutífera com o produtor Elías Querejeta. O filme começa com uma análise profunda de uma geração espanhola que regressa repetidamente no trabalho de Saura, a saber, os sobreviventes da Guerra Civil, marcados por frustrações e fracassos. Com a excepção de Paco, José e Luis são dois remanescentes do passado. Luis é abandonado pela sua esposa e reduzido a uma paixão apocalíptica mórbida, é prisioneiro de uma medicação compulsiva e consome grandes doses de alcool. José, separado da esposa por causa de uma relação com uma jovem, está à beira da ruína. O quadro fica completo com uma ausência, Arturo, o quarto amigo do grupo que cometeu suicídio há muito pouco tempo, em estranhas circunstâncias. Quique torna-se a testemunha atordoada deste dia trágico, resultado de anos de deterioração, ressentimento e frustração. 
"A Caça" no seu tema e estilo, faz parte de uma corrente realista que Saura tinha explorado no seu primeiro filme, "Los golfos",  e lembra o romance de Rafael Sanchez Ferlosio "El Jarama" (1955), cuja acção se passa num dia e também confronta o presente e o passado da guerra. Assim, há uma rara concentração de drama passada em apenas um dia, e a um único ambiente. No entanto, essa paisagem, embora realista, também está imbuída de um simbolismo através de várias medidas: a fotografia a preto e branco de Luis Cuadrado, deliberadamente queimada, superexposta, proporciona uma atmosfera quase surreal. 
Considerado um dos filmes fundadores do chamado "Novo Cinema Espanhol", conseguiu conquistar o Urso de Prata no Festival de Cinema de Berlin, destinado ao prémio de Melhor Realizador. 

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sábado, 18 de julho de 2020

A Carga dos Rebeldes (Llanto por un Bandido) 1964

José María 'El Tempranillo', perseguido pela justiça, refugia-se na Sierra Morena. Alí, depois de um período de dura aprendizagem, ele torna-se o líder de um grupo de bandidos. A sua esposa, Maria Jerónima, tenta tirá-lo dessa vida sem sucesso, e algum tempo depois, Pedro Sanchez, um político liberal, escapa de uma corda de prisioneiros e atravessa a montanha em busca de José Mari. Quando o encontra, tenta atraí-lo para a causa liberal.
Biografia do bandolero espanhol “El Tempranillo” , que nos primeiros anos do Século XIX viveu na Serrania de Ronda. Dedicado ao roubo desde tenra idade, forma o seu próprio gang, e a quem os liberais vão tentar atraír para a guerra que travam com o rei Fernando VII.
Carlos Saura competiu com a sua primeira longa-metragem, "Los Golfos" no festival de cinema de Cannes. "Llanto por un Bandido" seria a segunda longa metragem de Saura, que aceitou uma comissão para levar ao ecrã um filme sobre a vida do bandido El Tempranillo. No papel principal, ninguém menos que Francisco Rabal, que na altura já tinha trabalhado com Buñuel e era uma estrela. O próprio Buñuel tem uma pequena participação no inicio do filme como carrasco, e era uma das grandes influências de Carlos Saura. Outra das grandes influências para a produção deste filme é o pintor Francisco Goya, e curiosamente são os três aragoneses. Grande parte dos cenários vêm do trabalho do pintor, chegando a recriar directamrnte uma das suas pinturas. 
O filme foi renegado pelo realizador durante alguns anos, e foi nomeado para o Urso de Ouro no festival de Berlim em 1964.
Legendas em inglês.
Nota: o link foi alterado, porque o anterior não tinha o filme completo.

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segunda-feira, 6 de julho de 2020

Os Delinquentes (Los Golfos) 1960

Julián, Ramón, Juan, el Chato, Paco e Manolo são jovens espanhóis delinquentes a quem ninguém prestava atenção a não ser nos postos da polícia. Jovens da classe social baixa, miseráveis e desconhecidos, são um grupo de amigos que sobrevivem como podem nos subúrbios de Madrid. Juan quer ser toureiro, e os seus amigos dão pequenos golpes para ajudar na sua estreia.
Em relação aos estudantes do EOC que eu falei no post anterior, e que deram origem ao chamado Novo Cinema Espanhol, é difícil classificá-los como um grupo, já que os seus interesses variavam muito, desde as tendências introspectivas e obras altamente personalizadas de Basilio Martín Patino, até ao uso da alegoria de Carlos Saura. Não obstante, esta geração foi incomodada pela influência da ditadura política e frustrada pelos limites impostos à liberdade de expressão politica e criativa. 
O primeiro filme de Carlos Saura, "Los Golfos", produzido pela Filmes 59, de Pere Portabella, é por vezes considerado precursor do movimento, feito ainda em pleno periodo neorrealista, e com muitas características deste cinema, mas pode ser visto, estética e politicamente, como ponto de partida para o Novo Cinema Espanhol.
O filme teve um início difícil. Feito em 1959, estreado no Festival de Cannes de 1960, disputando a Palma de Ouro com filmes como "La Dolce Vitta", "A Balada do Soldado", ou "A Fonte da Virgem", de Bergman, não foi lançado em Espanha até 1962, depois de uma longa batalha com os censores e mais de 10 minutos de filme cortados. Uma tentativa consciente de romper com os filmes de estúdio da época, "Los Golfos" leva-nos até às ruas de Madrid, com algumas cenas que enfatizam o cenário urbano, enquanto que outras decorrem em locais que mostram a degradação e a pobreza. Este cenário sombrio transforma-se numa crítica social implícita, com os jovens protagonistas plenamente conscientes de que o seu ambiente social limita as suas perspecticas e contribui para a falta de objectivos das suas vidas diárias. Tornar-se alguém naquele ambiente parece um sonho impossível.
O destino deste filme, e do seu próximo trabalho ("Llanto por un Bandido", que veremos em breve neste ciclo) pelas mãos dos censores espanhóis, levaram Saura a um estilo de cinema mais opaco, ou matafórico, com o qual ele fez um nome de respeito no panorama internacional nos anos sessenta e setenta. 
Legendas em inglês.

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