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terça-feira, 26 de novembro de 2013

Fabíola (Fabiola) 1949



O argumento de "Fabiola" é relativamente complicado, incluindo uma série de personagens secundários e uma subtrama enorme. O filme foi primeiro dividido em duas partes, quando foi exibido nos cinemas europeus.
A primeira parte chama-se "miragem de Roma". Um jovem gladiador (o atlético Henri Vidal) dirige-se para Roma, onde pensa que vai encontrar fortuna e glória. Pára na vila do senador Fabius Severe (Michel Simon) e da sua filha, a bela Fabiola (Michèle Morgan , na altura, ela e Vidal eram o casal ideal para a juventude, o amor entre eles não era apenas no filme). Estranhamente, a história toma um rumo diferente, do estilo "whodunit" com um sabor romano a Agatha Christie. Severe é assassinado a meio da noite. Em paralelo, vemos o aumento da fé cristã, principalmente entre os escravos.
A segunda parte é chamada de "o sangue dos mártires", e com toda a razão, porque o sadismo nas torturas iguala facilmente os filmes de Cecil B De Mille. Também assistimos ao martírio de um São Sebastião (Massimo Girotti), que , pouco antes de morrer, conta aos soldados uma história muito antiga, e num lugar muito distante. Esta segunda parte começa com um resumo interminável da primeira parte, o que tende a mostrar que as duas partes não foram mostrados ao mesmo tempo.
"Fabiola" é um dos melhores (talvez mesmo o melhor) peplum que a Europa já produziu, e Morgan é maravilhosamente filmada, principalmente na sequência em que Vidal a confunde com uma estátua. O ritmo é rápido, deixando o espectador sem tempo para respirar. O background histórico inclui o antagonismo entre Constantin, o imperador cristão, embora alguns historiadores afirmem que ele foi batizado pouco antes de morrer - e Maxence, o imperador pagão. Muito pouco vulgar para o seu tempo, "Fabiola" tem quase 3 horas de duração. É evidente que as suas origens não são o cinema de Hollywood, pois o grande espetáculo é secundário para os personagens que têm mais profundidade e detalhe do que é habitual nestes filmes.
Em "Fabiola", Alessandro Blasetti assume a grande tradição do épico histórico italiano, com várias reviravoltas interessantes. O filme foi uma produção ítalo-francesa e os três principais intérpretes são actores franceses. Apesar de todo o heroísmo e espectáculo os valores de "Fabiola" são anti-heróicos e humanistas, em contraste com toda a brutalidade física notavelmente explícita no filme.
Legendas em inglês.

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Coroa de Ferro (La corona di Ferro) 1941



A nova obra da Rialto era um filme italiano pré Segunda Guerra Mundial chamado "Coroa de Ferro". Para esta aventura-espetáculo dos tempos antigos foi recrutada uma boa parte da população de Itália. Guerreiros bizantinos assaltam as planícies como gafanhotos à menor provocação. Matanças, torturas e violações são o prato do dia.
Obviamente, os produtores de "Coroa de Ferro" tiveram a influência das primeiras obras de De Mille em mente. Adaptando um conto do século XIII sobre uma coroa formada por um prego fora da cruz de Cristo e da espada de metal romana, a ação começa com uma peregrinação interrompida aos portadores da coroa. Mas o filme não perde tempo em deixar cair por terra todas as implicações religiosas. Na realizadade, o filme é mais um romance, feito em cenários magníficos, com mais violência e derramamento de sangue do que o habitual.
"Coroa de Ferro" é um maravilhoso filme de fantasia que desenvolve as grandes tradições dos peplas italianos, como Cabiria. Há indícios de que Blasetti tinha visto a Branca de Neve e os Sete Anões, mas a Coroa de Ferro também antecipa - e estabelece - o modelo para filmes tão díspares como Shrek, The Princess Bride, e muitos do ciclo pepelum renovado da década de 60. O filme também é ecoado por  Cocteau, na beleza de "La Belle et la Bête".
Foi exibido na Bienal de Veneza perante uma audiência que incluía o propagandista nazi Josef Goebbels. Goebbels andava, não surpreendentemente, muito interessado em filmes por causa do seu valor de propaganda, e a sua capacidade de moldar o Weltanschaung nacional. Ficou completamente chocado com o filme, e aliviado por notar que nada parecido jamais seria feita na Alemanha. De seguida houve uma recepção onde brilhavam altos dignatários fascistas, mas isso não fez nada para apaziguar Herr Goebbels. O desgosto do Dr. Goebbels em relação ao filme é razão suficiente para verem esta obra de Alessandro Blasetti.
Legendas em inglês.

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1860 (I Mille di Garibaldi) 1934



Alessandro Blasetti conhecido por fazer alguns épicos históricos, aproveita a oportunidade para contar a história da unificação de Itália a partir de um ponto de vista pessoal de um patriota siciliano chamado Carmelo (Giuseppe Gulino) numa missão para chegar ao quartel de Garibaldi em Génova e conseguir a sua ajuda para resgatar a Sicília dos seus ocupantes espanhóis e mercenários alemães. Pelo caminho, Carmelo cruza com vários personagens italianas representando diferentes dialetos e pontos de vista sobre o clima político fervente.
1860 é uma obra-prima menor, e exerceu uma influência fundamental nos filmes épicos italianos que vieram depois: de "Senso" de Visconti, a "1900" deBertolucci, e até mesmo os westerns de Sergio Leone, todos devem algo a Blasetti na construção do espetáculo popular, algo sublinhado e minado por ironia e ambivalente melancolia.
1860 foi realizado no contexto de um regime que tentou usar o cinema para construir uma memória e uma história nacional. Começando em 1929 com o lançamento de  "History of Italy from 1871 to 1915", de Benedetto Croce, o fascismo procurou ganhar créditos como o herdeiro natural do Risorgimento.
Para Alessandro Blasetti o filme histórico era essencialmente político, e o seu objetivo era encenar o passado, a fim de falar sobre o presente. Ele escreveu sobre 1860: "O filme quer evocar a atmosfera de 1860, que é, em muitos aspectos, semelhantes à de 1920-1922. Núcleos isolados de patriotas e rebeldes, em silêncio, determinados e dedicados a morrer, sem vontade de confiar em qualquer homem que poderia canalizar os seus esforços ..."
O filme é consistente com a política fascista, em muitos aspectos,  tais como o ruralismo e a xenofobia. Mostra uma Sicília rural , onde os pastores que lutam com dignidade e coragem para libertar-se estão unidos por uma fé e um língua contra o caos da língua e da política no continente. Os soldados Bourbon são suíços, falam alemão e não italiano; os estrangeiros são os inimigos com os quais a comunicação é impossível, e a redenção da Itália só pode vir dos italianos.
Do ponto de vista historiográfico, 1860 difere da interpretação dominante do Risorgimento, que atribuiu a unificação da Itália à aristocrácia e elite burguesa. Blasetti apresenta uma visão populista em que as massas camponesas estão em revolta antes da chegada de Garibaldi, que usou o seu poder para conseguir a vitória revolucionária. As classes trabalhadoras sicilianas lideram a luta com as suas próprias demandas sócio- económicas. O filme é também uma história de reconciliação de classes, consistente como os trabalhos anteriores do Blasetti.
Legendas em inglês. 

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