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sábado, 30 de maio de 2020

Os Novos Monstros (I Nuovi Mostri) 1977

"Os Novos Monstros" é um filme em sketchs composto por 14 contos com uma característica em comum entre eles: são sobre circunstâncias da vida real onde, de alguma forma, os personagens principais assumem uma conduta perturbadora, transformando-se em monstros da vida real e como eles colocam os seus interesses acima de tudo.
Realizado quase 15 anos depois de "I Mostri" de Dino Risi, um dos melhores exemplos de comédias em sketchs saídos dos estúdios italianos, era uma espécie de sequela, onde Risi se vê reforçado de dois dos maiores realizadores da "commecia all'italiana": Mario Monicelli e Ettore Scola, além dos ilustres argumentistas Age e Scarpelli, e um elenco de luxo que incluía Vittorio Gassman, Alberto Sordi, Ugo Tognazzi e Ornella Muti, sendo por isso quase um best of deste género. 
Mais do que uma selecção, era quase uma despedida do género que vinha a ser tão popular quase há vinte anos. O último sketch (um funeral) é simbólico. Representa a morte da "commédia all'italiana" que ajudou a Itália durante muitos anos a ser o segundo país com mais produções cinematográficas no mundo. Terminamos também assim este ciclo. Espero que tenham gostado. 
Nomeado para o Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

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quinta-feira, 28 de maio de 2020

Oh! Amigos Meus... (Amici Miei) 1975

A história de quatro amigos, playboys cinquentões - depois tornam-se cinco - que cultivam o antigo gosto toscano das brincadeiras, às vezes burlescas, às vezes cruéis. Mantêm-se juntos pela vontade de gozar e de não levar nada a sério, nem a si próprios.
"Amici Miei" deveria ter sido o último filme de Prieto Germi, um dos mestres da comédia italiana. Escreveu o argumento, mas não conseguiu dirigir o filme por causa da doença ir já em estado avançado. Faleceu em 1974, um ano antes da estria deste filme, que acabou por ir parar ás mãos de Mário Monicelli, que acabou por fazer um óptimo trabalho. O filme fez um enorme sucesso de bilheteira, que acabou por gerar mais duas sequelas, em 1982 e 1985.
Passado na Toscânia, uma região na Itália conhecida pelo seu humor cruel e sarcástico, o filme segue quatro amigos interpretados por Ugo Tognazzi, Gastone Moschin, Phillipe Noiret, e Duílio Del Petre, aos quais depois se junta outro interpretado por Adolfo Celli, no  seu dia a dia de pregar partidas cada vez mais grotescas. Todos na casa dos cinquenta, eles têm dificuldade em lidar não apenas com as suas esposas, mas também com os seus filhos e familiares, que consideram o seu humor infantil e fútil. Porque muitas das suas piadas dependem da linguagem nonsense italiana, muitas das suas piadas são difíceis para serem percebidas para alguém com conhecimento limitado da língua italiana.

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sexta-feira, 22 de maio de 2020

Queremos os Coronéis (Vogliamo i Colonnelli) 1973

Uma sátira à política, a partir de uma tentativa imaginária de golpe de Estado por alguns militares do tempo do fascismo. Convencidos de que precisam salvar a Itália da fragilidade da democracia, os militares da reserva planeiam tomar o poder, cantando hinos como se a Segunda Guerra Mundial ainda não tivesse acabado e como se Mussolini não estivesse morto. Não podem imaginar que os seus esforços serão amplamente manipulados pelos políticos italianos, que pretendem tirar proveito da desastrada tentativa de golpe em interesse próprio.
A partir de meados da década de sessenta, o cinema italiano tradicionalmente escapista começou cada vez mais a incluir conotações de natureza politica, com referências abertas, ou ocultas, a eventos reais. É o caso deste filme, que retrata não uma, mas duas, tentativas de golpe de estado que foram planeados em Itália entre 1964 e 1970, que quase foram postas em funcionamento, falhando apenas por razões que não foram muito claras. 
Mário Monicelli, é claro, interpreta estes eventos ao puro estilo "comédia à italiana" gozando com todo o exército italiano e os seus mais altos escalões senis, expondo o oportunismo e o amadorismo do personagem italiano, com Ugo Tognazzi, no papel principal, a roubar o show. O filme foi exibido no Festival de Cannes de 1973.

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sábado, 16 de maio de 2020

Uma Aventura nas Cruzadas (Brancaleone alle Crociate) 1970

O filme começa onde "L'armata Brancaleone" termina.  Bracaleone da Norcia, novamente interpretado por Vittorio Gassman, é um pobre mas orgulhoso cavaleiro da Idade Média, liderando o seu bizarro exército de azarados. No entanto, acaba por perder todos os seus "guerreiros" numa batalha, e encontra uma encarnação da Morte (uma parábola a "O Sétimo Selo", de Bergman). Tendo conseguido mais tempo para viver, forma mais um exército de esfarrapados, com o qual irá ter mais uma missão, e viver mais uma série de episódios hilariantes.
Depois do grande êxito que foi "L'Armata Brancaleone", era de prever que houvesse uma sequela, e foi assim que chegou "Brancaleone alle Crociate", feito pela mesma equipa: realizador (Monicelli), argumentistas e protagonista. Seguimos o nosso herói medieval quixotesco no seu caminho para a Terra Sagrada durante as Cruzadas, juntando-se a uma equipa de loucos, e pelo caminho encontra gente ainda mais louca, que inclui um cruzado alemão traiçoeiro, uma princesa disfarçada de leprosa, uma bela bruxa (Sandra Sandrelli) e um rei que fala apenas em rima (Adolfo Celli). 
Embora não esteja ao nível do primeiro filme, o que seria difícil, e embora alguns erros ao longo do caminho, este filme tem uma grande vantagem: a mistura espirituosa de falsos dialectos (que só podem ser verdadeiramente apreciados se dominarem bem o dialecto italiano). Produção de grande orçamento, filmada em exteriores na Argélia, e algumas piadas maravilhosas, algumas delas parafraseadas ou a absolutamente roubadas pelo Monty Phyton, em filmes como "The Holy Grail",  "Life of Brian", ou "The Meaning of Life".  Um exemplo, a parte do Grim Reaper é roubada directamente deste "Brancaleone".

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sexta-feira, 15 de maio de 2020

A Rapariga da Pistola (La Ragazza con la Pistola) 1968

Assunta (Monica Vitti) é uma jovem habitante da tradicional região da Sicília. Um dia, ela sucumbe ao charme de um homem conquistador, e perde a virgindade com ele. No dia seguinte, o rapaz abandona-a e parte para a Inglaterra. Furiosa, Assunta pega numa arma e segue em busca do rapaz, para forçá-lo a casar-se com ela, e manter assim a sua honra. 
O cinema italiano tem um talento especial para encontrar humor em assuntos sérios, e abordá-lo da forma mais ridícula. Em “A Rapariga da Pistola”, Mario Monicelli pega num assunto com muita virtude, e vira-o de cabeça para baixo. No centro deste filme está uma jovem cuja virtude é posta em causa, e a única forma de redimir-se aos olhos da família é ou casando ou matando o homem responsável. Embora seja este o assunto que coloca em andamento todo o filme, é no final, com a transformação de Assunta, que acaba por se revelar o mais potente. 
Uma produção bem vistosa em todos os aspectos, sobretudo com o aproveitamento de excelentes cenários. Mónica Vitti tem uma grande prestação à frente de um elenco com vários actores britânicos, como Stanley Baker, Corin Redgrave e Anthony Booth, e não esquecer que o filme seria nomeado para o Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. 

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quinta-feira, 14 de maio de 2020

O Capitão Brancaleone (L'armata Brancaleon) 1966

Os costumes da cavalaria medieval através da sátira, mostrando um jovem aristocrata chamado Brancaleone (Vittorio Gassman) que, educado no código de cavalaria da ética, deve reivindicar uma alegada herança que consiste num feudo. Por isso, Brancaleone recorre ao apoio de um punhado de bandidos mal armados e muito temerosos, que só procuram fugir das agruras do banditismo sem correr grandes riscos, e a quem o protagonista da fantasia chama seriamente de "meu exército" (chamado armata em italiano). A ingenuidade e a falta de coragem de Brancaleone e seu temido "exército" causam situações irónicas e humorísticas, enquanto o grupo de aventureiros mal equipados busca realizar a sua missão. 
Uma década antes de "Monty Phyton and the Holy Grail" , apareceu um, agora, filme obscuro, mas muito famoso na sua altura, antecipando o humor da famosa troupe de actores ingleses, e estabelecendo um novo sub-género, que poderíamos chamar de "sátira medieval". Um sucesso tão grande que, quatro anos mais tarde, viria a originar uma sequela.
Era um filme difícil de exportar para fora de Itália, porque a parte mais engraçada estava na linguagem usada, uma mistura de vários dialectos italianos com o latim da idade média, e era também mais um episódio da ascenção de Mario Monicelli como o grande poeta da comédia italiana. 

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terça-feira, 12 de maio de 2020

Casanova 70 (Casanova '70) 1965

Sejam elas mulheres fatais, ingénuas ou virtuosas que se fazem passar por mulheres perfeitas, nenhuma resiste a André, o belo oficial da NATO que salta de conquista em conquista, ao sabor das suas colocações. A par das suas fáceis conquistas, o sedutor complica o jogo acrescentando-lhe elementos de perigo. Mas o verdadeiro perigo é uma bela criatura dotada de todas as qualidades que ele virá a encontrar nas montanhas suíças. 
Uma farsa sexual extremamente datada, “Casanova 70 foi muito bem recebido na sua estreia, tendo conseguido uma nomeação para o Óscar de Melhor Argumento Original. Visto hoje, é difícil perceber porque é que o argumento foi tão elogiado, já que todo o filme se baseia numa piada – Marcello Mastroianni é impotente, a menos que haja perigo eminente em torno de qualquer escapadela sexual – e essa piada é repetida várias vezes. Mas há imaginação na forma como os argumentistas conseguem colocar Mastroianni em cada uma das situações perigosas para que ele consiga obter satisfação. 
O filme apresenta um Marcello Mastroianni numa grande interpretação, no auge da sua forma, o que ajuda bastante a manter o interesse dos espectadores, além da presença de óptimas actrizes como Virna Lisi ou Marissa Mell. Mario Monicelli está atrás das câmaras.

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segunda-feira, 23 de março de 2020

Boccaccio 70 (Boccaccio '70) 1962

Quatro adaptações modernas de contos para adultos de Giovanni Boccaccio com 4 realizadores de luxo.
1-Renzo e Luciana. Luciana, a secretária, e Renzo, o jovem paquete, amam-se; mas as regras da sociedade na qual trabalham proíbem-nos de se casarem e terem filhos.
2-A Tentação do dr. António. Um puritano lança-se numa cruzada contra um cartaz publicitário, onde uma sensual mulher faz publicidade ao leite.
3-O Emprego. Um aristocrata é protagonista de um escândalo e a sua mulher vinga-se obrigando-o a pagar-lhe os seus deveres conjugais.
4-As Rifas. Uma bela mulher sujeita-se a um sorteio de rifas numa feira, mas recusa-se a acompanhar o vencedor, um sacristão, pelo facto de estar apaixonada por outro homem. 
´Boccaccio 70´ é um dos mais marcantes exemplos dos filmes em sketches, um tipo de cinema que floresceu na Europa, sobretudo em França e Itália, nas décadas de 60 e 70. A fórmula consistia em reunir um punhado de importantes realizadores, um grande elenco e um tema recorrente que cada segmento trataria segundo o estilo e a sensibilidade de cada cineasta. Aqui, sob o espírito e a livre evocação de Boccaccio, embora nenhum dos episódios seja adaptado de qualquer das suas obras, 4 grandes cineastas italianos, Fellini, De Sica, Monicelli e Visconti, abordam situações de pura ironia acerca do sexo, do desejo e das fantasias eróticas. Fellini é exuberante e fantasioso no sketch com Anita Ekberg a publicitar leite e a incendiar a libido de um puritano. Visconti adopta um realismo amargo na história da condessa que obriga o marido a tratá-la como se fosse uma prostituta. De Sica constrói um quadro de sabor revisteiro e colorido sobre a rapariga das rifas que recusa os clientes. Monicelli fala do amor proibido entre uma secretária e um paquete. 
São 4 estilos, 4 cineastas e 4 abordagens distintas do tema do sexo e das suas implicações, num filme que conta com um admirável elenco, dominado pela presença de três grandes actrizes: Anita Ekberg, Romy Schneider e Sophia Loren. 
* Texto RTP

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sexta-feira, 20 de março de 2020

O Ladrão Apaixonado (Risate di Gioia) 1960

Na véspera de Ano Novo, em Roma, uma actriz interpretada por Anna Magnani está cheia de esperança para a noite. Ela anseia por romance, aventura e emoção, e encontra os três, mas não da forma como tinha previsto. Encontra um empresário americano de meia-idade, bêbado, interpretado por Fred Clark. Encontra outro actor da Cinecittá, interpretado por Totò, então com 62 anos de idade. E finalmente conhece Ben Gazzara, então com 30 anos, o personagem do título. 
"Risate de gioia" foi o filme que Mário Monicelli realizou logo depois dos mega êxitos de "I Soliti Ignoti" e "La Grande Guerre", duas obras que foram triunfos absolutos, tanto da crítica como do público, mas no entanto acabou por passar muito ao lado de uma boa carreira, sendo hoje um dos segredos mais bem escondidos da carreira do realizador. Monicelli captura toda a tensão que tradicionalmente acompanha a véspera do Ano Novo. uma noite em que pensamos no nosso progresso como seres humanos, e na nossa capacidade de atrair e sustentar amor na nossa própria mortalidade. 
Não houve artista que igualasse a energia vibrante da actriz italiana Anna Magnani, estrela furiosa que enfeitou algumas das melhores obras de realizadores como Rossellini, Visconti, Pasolini e Renoir, com uma perninha no cinema americano, tendo conseguido ganhar um Óscar por "The Rose Tatoo" de Daniel Mann. Aqui muito bem acompanhada por Totò, um colaborador habitual e um jovem Ben Gazarra em início de carreira, dobrado em italiano. Uma das joias perdidas a ver neste ciclo.

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segunda-feira, 16 de março de 2020

A Grande Guerra (La Grande Guerra) 1959

Itália, 1916. Oreste Jacovacci e Giovanni Busacca são recrutados, como todos os jovens italianos, para servir o exército na Primeira Guerra Mundial. Eles encontram-se no recrutamento, onde Giovanni suborna Oreste, na esperança de conseguir um adiamento médico. Oreste aceita o dinheiro, mas não cumpre com o prometido. Os dois estão destinados a servir como camaradas na mesma unidade, e encontram-se no comboio para a frente de batalha. Não é o ambiente mãos favorável para se tornarem amigos, mas vão ter de colocar as diferenças de parte.
Já tinha deixado algumas palavras sobre este filme na introdução do ciclo. Nasceu do grande sucesso de "I Soliti Ignoti", realizado pelo mesmo Mario Monicelli. Foi um projecto arrojado, uma comédia dramática de grande orçamento, que não era habitual nos tempos que corriam. "La Grande Guerre" vive, sobretudo, da grande química que existe entre o duo de protagonistas, interpretados por Alberto Sordi e Vittorio Gassman. Duas interpretações incríveis, que iriam tornar esta dupla de actores as principais faces deste género de cinema. Dois soldados que são covardes, e que em situações difíceis se tornam heróis.
Uma menção especial para Silvana Mangano, à data casada com o produtor Dino de Laurentiis, como a prostituta Constatina, que se apaixona por Giovanni. O elenco de apoio também é muito bom, como nomes como Folco Lulli , Bernard Blier , Romolo Valli , Carlo A'Angelo , Livio Lorenzon e Gerard Herter, e a fotografia evocativa de Giuseppe Rotunno, um habitual colaborador de Fellini e Visconti. A banda sonora é do grande Nino Rota.
Foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, e ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

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domingo, 15 de março de 2020

Gangsters Falhados (I Soliti Ignoti) 1958

Cosimo (Memmo Carotenuto) é um pequeno ladrão que é preso por tentar roubar um carro.  Depois de ser condenado, pede à namorada (Rossana Rory) e ao advogado que encontrem alguém que, por 100.000 liras, ocupe o seu lugar na cadeia para que ele possa fazer o assalto perfeito a uma loja de penhores. O boxeur Peppe (Vittorio Gassman) concorda trocar de lugar com Cosimo, mas o juiz não acredita na sua história, e acabam os dois presos. Na prisão, Peppe fica a saber sobre o assalto, e como sai antes de Cosimo da cadeia, resolve recrutar o gang de Cosimo para fazer o assalto.
Embora o ritmo do filme seja bastante lento, é interessante observar estes pequenos criminosos enquanto planeiam o assalto. Como previsto, como se trata de uma "Commedia all'italiana", nada corre conforme o planeado. O apartamento ao lado da loja de penhores parecia estar vazio, e de repente duas senhoras de idade mudam-se para lá, mal saindo de casa. Pelo caminho encontram uma série de situações que complicará ainda mais os seus planos.
No início "I Soliti Ignoti" funcionava como uma espécie de remake, ou paródia, de "Rififi" (1955), de Jules Dassin, visto como o pai de todos os filmes de assaltos, mas o filme italiano acaba por alcançar um lugar na história do cinema, por mérito próprio, e dar início a este novo género do cinema italiano. Personagens maravilhosas, argumento fantástico, fotografia perfeita. Um sentido de humor incrível, embora muitas das piadas não sejam percetíveis por audiências fora de Itália, porque têm a ver com trocadilhos da linguagem italiana, e também um elenco maravilhoso como podem ver a seguir. 
Vittorio Gassman era uma revelação no papel que mudaria a sua carreira. Até então era conhecido mais por papéis dramáticos, mas como verão neste ciclo tudo mudaria a partir daqui. O restante elenco inclui nomes como Marcello Mastroianni, Renato Salvatori, Claudia Cardinale (num dos seus primeiros papéis), e Totò, que é uma espécie de consultor do gang. 
Foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme em Língua estrangeira, mas acabaria por perder para outra comédia: "O Meu Tio", de Jacques Tati.

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sábado, 5 de setembro de 2015

O Pequeno Burguês (Un Borghese Piccolo Piccolo) 1977

Giovanni Vivaldi (Alberto Sordi) não tem muitas ambições. Para ele, a vida está maravilhosamente bem do jeito que está. O filho Mario tem um futuro promissor e a sua atenciosa esposa Amália(Shelley Winters) está igualmente feliz com o rumo da sua vida. No entanto, quando o rapaz é morto no assalto a um banco, Giovanni é arrancado bruscamente do seu paraíso pessoal e tomado por um incontrolável desejo de vingança.
"Mario Monicelli consegue dar muito bem um dinâmico retrato de uma mentalidade, de uma maneira de estar na sociedade, de uma classe social que fica a meio caminho entre outras duas (o proletariado e a média burguesia) que é a pequena burguesia aparentemente acomodada à sua condição, mas afirmada ao nível do comportamento quotidiano. Se, no emprego, plha os superiores com reverência e até temor, deixa para casa e para o café as tiradas de força machista como afirmação de um poder que a realidade da sua vida não contém. O mundo que cerca este pequeno burguês transpira hostilidade e violência por todos os "poros", mas ela é filtrada pelo "pai de família" cuja ambição máxima é fazer entrar o seu filho (contabilista) para a função pública, seguindo as suas peugadas, alheio à evolução dos tempos, incapaz de encarar o futuro com as transformações que pode, eventualmente, introduzir no futuro".(Mário Damas Nunes, in Se7e).

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terça-feira, 21 de abril de 2015

Os Camaradas (I Compagni) 1963



O cenário é uma fábrica têxtil em Turim, no final do século XIX. Cerca de 500 trabalhadores suportam turnos de 14 horas, debaixo de situações extremas, desde o calor, poeira, o perigo de sofrer um acidente de trabalho, e são mal pagos. Um dos trabalhadores fica com a mão mutilada por uma máquina, situação que serve de impulso para que os outros, pelo menos, pensem mudar as condições de trabalho. Talvez graças à sorte ou ao destino, um professor e socialista chamado Sinigaglia (Marcello Mastroianni) está de passagem pela cidade (em fuga de crimes políticos), e oferece uma ajuda na organização dos trabalhadores. Segue-se uma greve, que se arrasta por várias semanas, testando a vontade dos trabalhadores...
Esta sinopse faz o filme parecer mais um melodrama sobre as más condições das classes trabalhadoras. Na realidade, é muito mais do que isso, e o que o faz ser tão brilhante e surpreendente é a forma como é apresentado, tornando-o também numa obra de entretimento. Além da tragédia, também há um pouco de romance, comédia, farsa, comentário social. O argumento e o trabalho de realização fazem um trabalho magistral, ao desenvolver várias personagens em vários sub-plots numa história bastante multidimensional. A maioria dos filmes politicamente orientados são polémicos, o que por vezes os distancia do grande público. "I Compagni" é tão envolvente, tão animado, tão cheio de personagens vibrantes, que o aspecto da mensagem da história funciona a um nível quase sublimar.
Mario Monicelli (mais conhecido no território da comédia) e o produtor Franco Cristaldi tiveram de ir até à Jugoslávia para encontrar uma fábrica em pleno funcionamento, com as suas dezenas de teares movidos por um motor a vapor, e activados por eixos de transmissão. O edifício da fábrica parece um acidente prestes a acontecer. Com figurinos e cenários tão rigorosamente preparados e um look típico do século XIX a ser muito bem mantido, desde os quartos baratos alugados pelo trabalhadores, aos restaurantes chiques onde Niobe encontra os seus clientes.
Refira-se que o filme foi nomeado para o Óscar de Melhor Argumento Original, em 1965.

E agora a visão sobre este filme, do Bruno - convidado do M2TM:



As greves surgem e propagam-se onde surgem e se propagam grandes fábricas. E mesmo nos países desindustrializados, como Portugal, as greves são mais frequentes no locais onde há maiores concentrações de trabalhadores.

Como explicar este fenómeno? De facto o capitalismo conduz necessariamente ao choque entre os operários e os patrões, e onde a produção se torna grande produção a luta desenvolve-se necessariamente para a luta grevista.

Como e por que motivo isso ocorre? Expliquemos mais detalhadamente.

O capitalismo é um sistema de sociedade em que os meios de produção (terra, fábricas, instrumentos de trabalho, etc.) são propriedade de um pequeno grupo de pessoas – agrários e capitalistas -, enquanto a grande massa do povo não possui nenhum ou quase nenhum meio de produção. Os capitalistas empregam os trabalhadores e obrigam-nos a produzir determinado produto ou serviço que vendem no mercado. Em troca os trabalhadores recebem apenas parte do valor que produziram – é o salário. A outra parte da riqueza produzida por eles, que sobra da venda do produto vendido, fica na mão do patrão. É desta parcela alienada do trabalho dos trabalhadores que resulta o “Deus” da nossa sociedade: o lucro. Todos sabemos que quanto menos um patrão pagar de salários, maior é o seu lucro. Quanto maior for o salário dos trabalhadores, melhores condições de vida estes usufruem para si e para os seus filhos. É um mundo de liberdades: o capitalista é livre de procurar o trabalhador que queira, e por isso procura o mais barato; o trabalhador é livre de vender a sua força de trabalho ao patrão que queira, e por isso procura o que lhe pague mais. Portanto, o operário está sempre a regatear com o patrão, luta com ele por causa do salário.

Contudo, pode um operário, ou qualquer outro tipo de trabalhador, travar esta luta sozinho? Por motivos que não cabe a este post desenvolver, o capitalismo torna cada vez maior a massa de seres humanos caídos em ruina. O desenvolvimento técnico não é colocado em prol da sociedade em geral, mas em prol da classe dominante que a tudo submete em nome do lucro. Por isso, o desenvolvimento técnico, e consequente aumento da produtividade, é causa de mais desemprego ao invés de proporcionar à massa trabalhadora mais tempo livre. Logo, um exército de desempregados cada vez maior e mais desesperados se predispõem a salários e condições cada vez mais degradantes.

A progressiva ruina do povo chega a um grau em que por todo o lado há sempre massas de desempregados, então o trabalhador isolado torna-se imponente perante o capitalista. Há sempre alguém com a necessidade de ocupar o seu lugar. Isolados, os trabalhadores tornam-se presa fácil. O capitalista adquire a possibilidade de esmagar completamente os trabalhadores, empurrá-los para condições de trabalho e sociais dignas do séc. XVIII, jornadas de trabalho sem limite de tempo, e de sol a sol, crianças de 8 anos a descer as minas, praças de jorna, falta de cuidados de saúde, fome…

O filme de hoje torna a resposta a esta situação evidente. O operário, vendo que sozinho cada um deles é completamente impotente, ameaçados de parecer sob jugo do capital, aprendem o valor da unidade e da greve. Os operários têm necessariamente de se defender em conjunto, organizar greves para impedir a queda dos salários ou fazê-los subir.

A princípio é frequente os operários não compreenderem muito bem o que significa, nem o que fazer numa greve. Apenas querem fazer sentir a sua indignação, sem consciência que têm o poder nas mãos, e um mundo a ganhar. A verdade dura e crua para a burguesia é esta: nenhumas riquezas trarão qualquer benefício aos capitalistas se estes não encontrarem trabalhadores dispostos a aplicar o seu trabalho aos instrumentos e materiais deles e a produzir novas riquezas. Quando a greve faz parar as máquinas, a construção das casas, o cultivo das terras, os caminhos-de-ferro e rodoviários, a importância e poder do trabalho fica à vista de todos. É então que o outrora dócil e calado operário, que nunca contradiz o patrão, proclama em voz alta as suas reivindicações e direitos, lembra aos patrões todos os tipos de perseguição de que foram alvos, e de punho fechado pensa em todos os seus colegas em greve e não apenas em si próprio.

Tal como o filme de hoje ensina, não há necessidade de hoje abdicarmos dos conhecimentos aprendidos pelos nossos antepassados em luta. É então que no filme um espectro de Tom Joad – ver post do filme anterior – surge, um professor enviado pelos “vermelhos” para ajudar a organizar a luta dos operários. Pois, sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário. Muito ajudou o saber deste experiente sindicalista vindo de fora, para elevar qualitativamente a acção grevista deste operário do filme. É que fazer uma greve não é nada fácil. Nada mais acrescentarei, o resto fica dito pelo próprio filme. E que filme! Uma verdadeira preciosidade.
por Bruno - Leitura Capital*


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