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Programas
e Nomes da Rádio Portuguesa – Uma história pessoal de ouvinte, ao
sabor da memória (1976-2002)
70’s
– O DESPERTAR DO ENCANTO
Sobre as Marcas da Revolução, a Música Continua a Progressão
Humberto Boto - “Dois Pontos” – Rádio Comercial
ver ainda, sobre este ponto, as preciosas informações complementares prestadas por um visitante desta página, bem como os comentários e informações de um outro visitante.
Os ecos mais distantes que ainda permanecem na minha memória relativamente à paixão da rádio remontam a finais da década de 70 e ao programa “Dois Pontos”. Relembro perfeitamente a parte (variável) falada do indicativo que, sobre um fundo musical, emergia, provocando uma expectativa enorme, a maioria das vezes recompensada. Era qualquer coisa como isto: “Dois Pontos hoje vamos ficar, nesta primeira parte, com a audição integral do álbum dos Hawkwind – ...” , ou dos Wire, ou de Jacques Higelin, ou de tantos outros, de que já não recordo, mas sempre na linha da qualidade, pertinência e actualidade sugerida pelos nomes mencionados. A voz (excelente, por sinal) que me lembro era de Humberto Boto, de quem perdi completamente o rasto desde essa altura. Lembro-me que outros realizaram o programa, mas a névoa do tempo passado não me deixa focalizar os seus nomes. Apenas a impressão que um deles era Jorge Lopes, hoje na RTP, departamento de desporto, secção de Atletismo. Para além do prazer imenso que era sempre ouvir o programa, completamente alheado do resto do mundo durante 2 horas (11h00-13h00), cultivando um gosto e uma exigência musical que me marcaram indelevelmente para resto da vida; era-nos propiciada a possibilidade de gravação integral dos trabalhos (LPs), naquela altura em K7. Confesso que poucas coisas gravei e que nenhuma delas sobreviveu aos tempos, mas a marca permanece cá dentro. O motivo de tão parcas gravações prendiam-se apenas com a prosaica razão de falta de verba na altura, o que me levava a comprar (poucas) K7s, de ferro (porque mais baratas) e, depois, na falta de disponibilidade de fitas virgens, proceder à gravação sobre gravação, o que conduzia, passado algum tempo, à destruição da fita que ficava completamente enleada dentro do aparelho rasca da altura, um Silvano, de mala, 3 em 1 (gira-discos, rádio e leitor/gravador de cassetes). Outros tempos. Com a fúria e voragem dos tempos, os sound bytes e a publicidade tudo tomaram e deixou rapidamente de ser possível ouvir programas destes na rádio portuguesa; programas de 2 horas com interrupção apenas a meio, para sinal horário e serviço noticioso, e em que o locutor/realizador do programa apenas intervinha, sintética e objectivamente, no início e no fim de cada hora, ora para informar sobre o que iríamos ouvir ora para dizer o que tínhamos escutado, para os retardatários. Se bem me lembro, o programa passava na Rádio Comercial (antigo Rádio Clube Português), na altura estatal, entre as 11 e as 13 horas dos dias úteis. ver ainda, sobre este ponto, as preciosas informações complementares prestadas por um visitante desta página, bem como os comentários e informações de um outro visitante. Quando a RDP Antena 1 era Serviço Público do Melhor
Jorge Lopes –Aníbal Cabrita – Maria José Mauperrin - José Manuel Nunes - “Fórum” – “Café Concerto” – RDP Antena 1
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Da mesma altura, ou talvez um pouco mais tarde, recordo, na Antena 1 da RDP, o programa “Fórum”, este sim, com toda a certeza, com realização de Jorge Lopes, com apoio de uma equipa. Ainda relembro o indicativo: sobre um pano de fundo musical, “Fórum”, um trabalho de equipa com a realização de Jorge Lopes”. Tratava-se de um tipo de programa diferente do “Dois Pontos”. Decorria, se não estou em erro, diariamente entre as 21 e as 24 horas, de 2ª a 6ª, e embora o seu ponto forte fossem os debates que levava a cabo, sobre os mais diversos temas candentes da actualidade, a música que passava primava também pela qualidade iniludível. Será daqui que lembro pela 1ª vez a presença do excelente animador de rádio Aníbal Cabrita? Tenho uma ténue ideia que sim, mas não posso assegurar. Aníbal Cabrita que me voltou insistentemente a acompanhar ao longo dos tempos. Trata-se de um animador radiofónico da “velha guarda”, com um bom gosto extremo a nível musical e sempre a par das novidades mais importantes desse mesmo circuito musical. Não recordo um programa da sua autoria (mea culpa?), antes o preenchimento por si de inúmeros espaços radiofónicos, na RDP, na Rádio Comercial, na XFM, na TSF, sempre aprazíveis para os apreciadores da música de qualidade e actual. Depois do “Fórum”, lembro-me do substituto “Café Concerto” realizado por Maria José Mauperrin, mais ligado às artes e com formato semelhante ao “Fórum”. Se calhar o Aníbal Cabrita “vem daqui”... Também deste período de ouro da RDP, salta à minha memória o nome de José Manuel Nunes, um dos homens que mais sabe do média rádio, Presidente da RDP até há pouco tempo (2002), cargo que ocupou durante cerca de 6 anos. O nome dele paira sobre os programas que referi antes, embora não possa assegurar se foi responsável por algum deles ou apenas participante, ou ainda se realizou outro programa da altura. Sei apenas que ouvi, com agrado, programas que o mesmo realizou ou participou activamente. ver ainda, sobre este ponto, as preciosas informações complementares prestadas por um visitante desta página, bem como os comentários e informações de um outro visitante. 80’s
– O AUGE DA MAGIA
Águas Paradas Não Movem
Moinhos
António Sérgio – “Som Da Frente” – Rádio Comercial
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Se tudo o que foi referido antes se passou na adolescência, com a chegada da idade adulta, coincidente com a entrada na Universidade e consequente abertura de horizontes a todos os níveis, um nome e um programa tornaram-se todo um mundo de novas descobertas musicais: O “Som da Frente” e o seu mentor António Sérgio. Coincidiu tudo com a transformação do punk (que nunca me disse nada e que aliás via como o principal responsável pelo ensombramento dos meus anteriores heróis progressivos) em new wave. Dessa
época relembro as tardes passadas fechadas no quarto, sem quaisquer
obrigações, estudando e aguardando pelas 16 horas para escutar o
programa religiosamente em silêncio absorvendo todos os sons emitidos
pelo rádio. A
voz rouca e mágica do apresentador, as músicas de nomes como Joy Division,
Cure, Feelies, Sisters of Mercy, REM,
U2, Comsat Angels, Altered Images, Dead
Kenedys, Bow Wow Wow, Pig Bag, Yello Magic
Orchestra, Gang Of Four, Echo &
The Bunnymen, New Order, The The, Teardrop
Explodes, Simple Minds (de então), Smiths, John
Cale, entre muitos outros. Todos nós, nas fases da vida em que estamos mais susceptíveis à absorção de influências marcantes para o resto da nossos dias, apanhamos com alguma coisa. Eu apanhei com o “Som da Frente” pela frente. Ainda bem. É sobretudo devido a ele que ainda hoje adquiro carradas de música, sempre à procura, qual graal, da batida, da melodia, do efeito, do ruído, enfim... do som perfeito. O sistema de armazenamento continuava artesanal, como anteriormente, em que as K7s de ferro desempenhavam o papel principal, não tendo sobrevivido nenhuma para contar como foi. Para quem quiser apreciar os sons dessa época, a compilação, no formato de CD Duplo, “António Sérgio apresenta Som da Frente 1982-1986”, editada em 2002 é um bom ponto de partida, valendo também como recordação nostálgica para aqueles que, como eu, ouviram as músicas na altura da sua edição.
Era a altura dos “vanguardistas”, figuras vestidas preferencialmente de negro, com a imprescindível gabardina preta ou cinzenta sempre presente, deslizando subrepticiamente pelas ruas da cidade, num mimetismo importado da enevoada Londres. Segundo me lembro, o programa manteve o formato 16h-18h na Rádio Comercial por vários anos. O António Sérgio esse não era um novato nestas andanças da rádio. Antes tinha realizado o famoso “Rotações” na Rádio Renascença, onde a inovação foi já nessa altura a palavra chave, passando música que mais nenhum programa da rádio portuguesa passava, designadamente o emergente punk. Seguiu-se o “Rolls Rock” já na Rádio Comercial, entre as 0H e as 2H da madrugada. Depois do “Som da Frente”, o John Peel português seguiu o seu caminho e ainda hoje possui o seu programa “A Hora do Lobo” dedicado ao rock que se vai fazendo por estes dias. Este seu humilde admirador alterou significativamente os seus gostos musicais, a sua vida pessoal também foi sempre mudando, como é natural, e o acompanhamento da carreira do mestre deixou de ser efectuada. ver ainda, sobre este ponto, as preciosas informações complementares prestadas por um visitante desta página. Nem
Praxe, Nem Fitas, a Universidade Pode Ser Uma Coisa Diferente Paulo Somsen, Fred Somsen, Eugénio Teófilo – “ O Crepúsculo dos Deuses” – “DDD60M” – R.U.T. + Manuela Paraíso
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A ligação forte seguinte aconteceu com o advento das rádios piratas, na década de 80, sobretudo da RUT – Rádio Universidade Tejo. Sediada no edifício da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico e herdeira do pioneirismo da secção Sonora que emitia internamente aquando da minha passagem por aquele estabelecimento de ensino, foi, do ponto de vista de influência pessoal, a estação mais importante de todos os tempos, tendo contribuído duma forma incomensurável para o gosto e formação musical que nunca mais esmoreceram. Nessa altura, a maior parte do tempo que passava em casa, estava a ouvir música (sobretudo, mas não só) na RUT. E digo ouvir mesmo, não apenas como música de fundo mas com uma atenção e concentração totais e prazer imenso. Os programas excelentes sucediam-se em catadupa. A todas as horas passava música excelente, nova, original, que não conseguíamos ouvir em mais lado nenhum, a não ser, um pouco, no “Som da Frente”. Mas este ocupava apenas 2 horas diárias, enquanto na RUT havia uma continuidade difícil de acreditar. E não se pense que os programas eram todos iguais. Realmente nunca mais (a única comparação será a futura XFM, de que falarei adiante) houve uma tal concentração de programas tão originais, pessoais, diversos. Ainda por cima, feitos exclusivamente por amadores, ou quase. Bom, querem nomes. Tenho imensa pena de não ter escrito este artigo há mais tempo. Os nomes que me lembro, obviamente porque me marcaram mais, são o “Crepúsculo dos Deuses” dos irmãos Paulo e Fred Somsen e ainda do hoje, segundo julgo saber, médico Eugénio Teófilo. A par do “Dois Pontos”, do “Som da Frente” este foi um dos 3 programas estruturantes da forma como hoje aprecio a arte musical, a nível ideológico, formal e de conteúdo. Foi com este programa que descobri a cena industrial e os seus nomes mais importantes como Nurse With Wound, Coil, Death In June, Esplendor Geométrico, Cabaret Voltaire, In The Nursery, Whitehouse e tantos outros, que passaram a fazer parte do meu dia a dia. Lembro-me que o programa passava todas as noites, no horário nobre, e que nessa altura, obviamente não via muita televisão. A minha memória relembra vários programas a abrir com o 3xLP dos Nurse With Wound – “Soliloquy For Lilith”, um disco composto por Steve Stapleton para a sua filha e que é formado por 6 partes completamente minimalistas com um “drone” lento e leve, mas obscuro, sobre o qual sobrevinham ao longo do tempo alguns esparsos efeitos eléctrónicos e pequenas variações, num estilo completamente contemplativo e hipnótico . Aquilo que muitos pode considerar “uma grande seca”, mas que, na altura, fazia as minhas delícias e que ainda hoje revisito amiúde. Recordo ainda os programas especiais dedicados a editoras como “Cramned Discs”, “Some Bizarre”, “Play It Again Sam”, etc. Infelizmente o movimento das rádios piratas foi abafado e a RUT desapareceu ao fim de uns poucos anos. Alguns dos seus elementos, como por exemplo os citados responsáveis pelo “Crepúsculo dos Deuses”, ainda realizaram outros programas noutras pequenas estações, como o saudoso “DDD60M”, na Rádio Mais ou na Rádio Nova (só me lembro que ficava ali antes do Príncipe Real, do lado esquerdo de quem sobe) mas, neste momento, não tenho conhecimento que algum deles esteja no activo. Foram eles que criaram depois, a partir de casa, a Ananana, loja de discos e editora hoje no Bairro Alto, herdeira do Monitor, iniciado aquando da actividade da RUT. Também penso que já não estão ligados a esta loja especializada em importações e edições musicais menos comerciais. Mas a RUT não era só o “Crepúsculo...”. Aliás a grelha era completamente louca mas duma qualidade, energia e criatividade como nunca se alcançou em Portugal (lá perto apenas chegaria a XFM). A aposta forte era na música, em que se ouvia tudo o que era inovador no campo da música popular e onde não passava nada do que as outras 1358 estações passavam. A inteligência, espontaneidade e diversidade grassavam naquela estação universitária. Durante este período de relevo da RUT nos meus hábitos radiofónicos, num jornal musical de relativamente curta duração (comparado com o Blitz), o LP, deliciava-me com as palylists de um programa conduzido por uma senhora (raro neste meio, ainda hoje) de seu nome Manuela Paraíso. O seu programa, de que não recordo o nome, ia para o ar na setubalense Rádio Azul que, infelizmente não conseguia captar. As Playlists semanais eram compostas por nomes como 93 Current 93, Coil, Nurse With Wound, Danielle Dax, Wiseblood, Foetus, o que me deixava sempre a salivar e com imensa pena de não poder ouvir o programa. Entretanto ela saiu da estação e foi trabalhar para a Rádio Marginal, que eu conseguia apanhar. Embora nessa altura, por força da vida de estudante já ter terminado e assim as responsabilidades serem outras, não pudesse acompanhar a programação radiofónica como pretendia, lembro-me de ouvir algumas vezes o seu programa, sempre com música excelente. Ainda cheguei a gravar alguns programas em K7, que preservo. A propósito, vou agora ouvir algumas delas para rememorar alguns dos nomes e músicas aí presentes. Desde essa altura, já lá vão mais de 10 anos, nunca mais ouvi falar da Manuela Paraíso. Alguém sabe se ainda continua ligada aos meandros radiofónicos? (novo) 12-04-2006 Através de um reparo feito por um visitante desta página fui chamado à atenção para o imperdoável esquecimento da referência a um dos programas mais importantes e inovadores da rádio portuguesa, no ar na Rádio Comercial FM, se não estou em erro, entre meados da década de 80 e inícios da década de 90. Trata-se do programa "Musonautas" da autoria do músico das vanguardas da música electrónica improvisada e experimental, musicólogo e professor universitário, crítico e escritor, professor universitário, entre outras actividades. Falo, obviamente, de Jorge Lima Barreto. E o que lembro agora sobre a audição assídua e sempre ansiosamente esperada do seu programa. Bom, recordo os longos (no bom sentido do termo) e completos intróitos à música que nos iria apresentar na sequência, verdadeiros enquadramentos históricos e teóricos sobre a música e os autores da música que emergiria no éter logo de seguida. mas estas introduções ainda tinham mais sal e pimenta pois o autor conseguia ainda encaixar, em pleno discurso erudito, diversos comentários políticos e sociais irónicos, ácidos e certeiros, para além de frequentes outras diatribes sobre a música comercial em geral e sobre a música e os músicos que vogavam pelo Portugal desse tempo. Consigo lembrar-me, por exemplo, de uma crítica em que "desancava" completamente os GNR, particularmente o músico daquela banda pop, Jorge Romão, ou antes uma crítica em que o músico era classificado de músico hiperactivo e hiperenergético, ou algo do género, em que Jorge Lima Barreto questionava "o que é isso de um músico hiparactivo" eh, eh; isto a propósito, se bem me lembro, do lançamento de um álbum de Vitor Rua, como PSP, na altura das polémicas guerrilhas sobre a legitimidade do uso do nome GNR entre aquele músico e a banda de Rui Reininho. Polémicas, bastas, à parte, recordo, quando o programa passou a ser transmitido em horário para guardas-nocturnos (madrugada), de, com enorme sacrifício (pois trabalhava e levantava-me muito cedo), esperar ansiosamente pelo programa. Muitas vezes acabava por perdê-lo porque entretanto me deixava dormir; outras vezes conseguia estar acordado na hora do seu início, o suficiente para colocar o gravador de K7s no REC e ouvir o programa, ou parte dele, no dia seguinte. Era um programa de divulgação das músicas mais experimentais, avantgarde, e em que a música pop comercial não tinha qualquer hipótese de ser adimitida. Foi lá que consegui tomar conhecimento da existência e da beleza de movimentos como o minimalismo (música minimal repetitiva), a música improvisada, as franjas mais avançadas do jazz e ouvi, pela primeira vez músicos como Philip Glass, Wim Mertens (o "Maximizing The Audience", a sua obra-prima, em minha opinião, foi lá que contactei em priomeira mão), Glenn Branca, etc. Lembro-me ainda, penso que após a partida dos Musonautas para outro planeta, de ouvir mais ou menos regularmente um outro programa similar, da autoria do Rui Neves. Aqui a memória trai-me completamente e não consigo sequer recordar o noma do programa. Segundo informação de um visitante desta página, poderá tratar-se do "mesmo" Musonautas herdado de Jorge Lima Barreto ou realizado em regime de "conluio". Ou terá sido isso e depois terá havido também um outro programa? Bem, não consigo precisar, apelando à vossa prestimosa ajuda para esclarecer estes pontos nebulosos. Muito agradeço se alguém conseguir completar esta informação, fornecendo mais elementos sobre esse programa (nome, horário, estação, anos em que foi transmitido, etc.) ou outros dados sobre o que (não) digo no parágrafo anterior. ver ainda, sobre este ponto, as preciosas informações complementares prestadas por um visitante desta página. 90’s
– O CONTACTO MAIS SUPERFICIAL
XFM
– Para Uma Imensa Minoria
XFM – José Carlos Tinoco – “Auto-Retrato Sobre Transístor Molhado” – Aníbal Cabrita – Ricardo Saló
ver ainda, sobre este ponto, as preciosas informações complementares prestadas por um visitante desta página,
Seguidamente há um hiato da minha relação com a rádio portuguesa derivado e ter estado a trabalhar 2 anos e meio fora do país. Quando regressei, embora a vida já não permitisse um acompanhamento intensivo, entusiasmei-me ainda com o projecto da XFM, onde pontuavam nomes enormes da nossa rádio, como Aníbal Cabrita, António Sérgio e Ricardo Saló, entre outros. Se a escuta foi esporádica e errante no que toca à maioria dos programas, pela sua regularidade semanal, a horas em que podia ouvir, e porque a música era muito do meu agrado, acompanhei sistematicamente o programa “Auto Retrato Sobre Transístor Molhado” da autoria de José Carlos Tinoco. A programação consistia na evolução natural de programas como o “Crepúsculo dos Deuses”, acompanhando as novas edições dos músicos que cultivavam a música electrónica de cariz mais ambiental industrial e sombrio. O programa tinha o patrocínio da discoteca portuense “A Orelha de van Gogh”, especializada nessa área. Passado pouco tempo, a XFM fechava as suas portas. ver ainda, sobre este ponto, as preciosas informações complementares prestadas por um visitante desta página, VOXX
– ESPECIALISTAS EM KARATE COLOMBIANO VOXX – Carlos Cardoso – Rui Vargas – Ricardo Saló – “Radar” – “Gerente Comercial” – “Casa, Bateria & Baixo” - “Galinhas no Horizonte”
ver ainda, sobre este ponto, as preciosas informações complementares prestadas por um visitante desta página.
Bom, nesta fase da minha vida ( e a curva, por enquanto, tem tido sempre o mesmo sentido) ouvia cada vez menos rádio. O único projecto que, apesar de todos os altos e baixos que vem revelando já há alguns anos, depois do fecho da XFM, vale a pena manter debaixo de olho, é a Voxx. Nos seus tempos áureos, há cerca de 2 anos, chegou a contar no seu seio com a participação de Ricardo Saló, Rui Vargas, Carlos Cardoso, Miguel Quintão, Silvia Alves e outros, que asseguravam uma programação moderna e de grande qualidade. Hoje a coisa está um bocado em piloto automático e, apesar de ainda por lá se ouvir música que não se ouve nas outras estações, é tudo um bocado anódino, sem, praticamente, programas de autor, limitando-se a passar música a metro (ainda que acima da média) durante a esmagadora parte do dia. Parece-me que o único programa que ainda vale a pena é o “Galinhas no Horizonte” do Ricardo Saló, uma sumidade em tudo o que diz respeito a música soul/dance/electrónica. Da fase áurea da Voxx e porque o horário coincidia com o final da tarde, início da noite, altura para um pequeno período de relaxe após a chegada de um dia de trabalho, acompanhei com assiduidade e prazer enorme o programa “Radar” (18h-21h) , sobretudo quando a responsabilidade do mesmo esteve a cargo de Carlos Cardoso, um DJ que caracterizo como tendo um extremo bom gosto. Se para alguns a música de dança soa toda ao mesmo, a prova de como as coisas não são bem assim podia ser tirada ouvindo diariamente o programa Radar. É que embora eu próprio reconheça que, hoje em dia, com a avalancha de produtos musicais (“dançáveis”) que sai cá para fora, a maioria deles de duvidosa qualidade, se corre o risco de nos perdermos nesse labirinto de edições e de as músicas poderem começar a parecer todas idênticas, anódinas, sintéticas e inócuas, o “Radar” era um programa que nos orientava nesta selva editorial, com uma selecção extremamente criteriosa e deliciosa. O Carlos Cardoso, fez também, por essa altura, durante um período considerável, o programa “Gerente Comercial” e a sua influência era por demais notória, perdendo o programa todo o seu fulgor sempre que era substituído, fruto da indecisão editorial, motivada pela falta de meios que sempre caracterizou a estação. É ainda de salientar o programa “Casa, Bateria & Baixo” que veio ocupar o espaço do “Radar” e que, embora menos do meu gosto, especialmente devido à maior variedade de estilos apresentados, isto é, dentro do panorama das edições de música de dança, a selecção nunca foi tão criteriosa como a do programa seu precedente; manteve sempre uma bitola acima da média, contando com a responsabilidade, principalmente, de Rui Vargas. ver ainda, sobre este ponto, as preciosas informações complementares prestadas por um visitante desta página, Planando
Sobre o Rio Judeu
Rádio Baía – Desidério Murcho – “Opus Nigrum” – “Refúgio”ver ainda, sobre este ponto, as preciosas informações complementares prestadas por um visitante desta página.
Para terminar não queria deixar de falar numa rádio local aqui da zona do Seixal, ou antes de um ou dois programas (sobretudo um) que o seu proprietário sempre permitiu, apesar do notório deslocamento que manifestavam face à restante programação. Falo da Rádio Baía, onde recordo, há algum tempo já, a audição do programa “Refúgio” da autoria de Zé Moura (José António Moura), nome ligado à cena da RUT que descrevi acima (é bem possível que também tenha realizado algum ou alguns programas naquela estação – a memória atraiçoa-me). O programa, musical, passava essencialmente música dita electrónica, tipo mais industrial, entre outras vanguardas da música popular. Nomes como Front 242, Front Line Assembly, Cabaret Voltaire, Klinik, Memorandum, Mental Destruction, e outros menos conhecidos, eram presença assídua nas antenas daquela estação, por via do "Refúgio". O programa, ao que julgo saber teve uma passagem relativamente curta pela programação da estação. Pelo contrário o “Opus Nigrum”, da autoria de Desidério Murcho manteve-se no ar durante cerca de 7 anos, numa regularidade metronómica, todos as noites de sábado para domingo, das 0 às 2 horas da madrugada. Embora num registo mais especializado, o programa repetiu em certa medida o espírito do saudoso “Dois Pontos” no que toca à passagem frequente de discos completos, sem interrupções para publicidade ou de qualquer outra espécie. Conheço quem tenha aproveitado para fazer umas boas gravações. A
temática do programa era a música electrónica de pendor mais relaxante
e ambientalista, mas sem nunca cair na xaroposa new age. Nomes
como Kraftwerk, Klaus Schulze, Pete Namlook,
STOA, Radio Massacre International, Red
Shift, Dweller of the Treshold, entre outros,
marcavam regularmente presença. O programa terminou a sua actividade há cerca de 2 anos, por força da ida do seu mentor para fora do país, para aí seguir uma carreira académica. ver ainda, sobre este ponto, as preciosas informações complementares prestadas por um visitante desta página. (a continuar e a completar, num processo iterativo e incremental) Estes apontamentos devem ser entendidas como um “work in progress”. Regurgitações de memória serão acrescentadas ao sabor da disponibilidade. Apela-se ainda à colaboração externa no sentido de corrigir imprecisões, clarificar ideias, acrescentar dados/informações, contraditar opiniões, e tudo o mais que vos ocorrer. Obrigado.
FEEDBACK__________________________________________________________________ 1. Pedro Miguel Pereira - Almada - 02.04.2006 Caro Luís, 2. Domingos - Guimarães 05-03-2004 Viva
Luis! Caro Luís
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| 12 Abr 2006 | © Luis Jerónimo - mig.pand@netc.pt |
14.6.24
Já Agora...
28.7.22
Elliott Sharp e Telectu - "Concerto De Elliott Sharp E Telectu Na Gulbenkian - Sementes De Violência"
PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 3 OUTUBRO 1990 >> Cultura
Concerto de Elliott Sharp e Telectu na Gulbenkian
Sementes de violência
FOI O concerto da brutalidade. Elliott Sharp e os Telectu iam rebentando os tímpanos a uma assistência que encheu, segunda-feira, por completo a sala polivalente do CAM, siderada pela violência sonora e pelo inusitado da combinação.
As notas da guitarra e do saxofone soprano de Sharp e a panóplia eletrónica dos Telectu explodiram literalmente num caos apocalíptico que teve entre outras a virtude de fazer pensar sobre algumas das vias encetadas pela chamada “nova música”, designação demasiado lata que não chega para abarcar a pluralidade de correntes que em comum apenas têm a repulsa nutrida em relação às “mafias” para as quais a música não passa de negócio.
Mestre da guitarra
A primeira parte do programa foi preenchida por Elliott Sharp em solo absoluto. Uma guitarra de dois braços e um saxofone bastaram-lhe para produzir um caudal de sons violentíssimos, para muitos insuportável logo alguns segundos após a vibração da primeira corda, para a maioria um excitante delírio virtuosístico, com o guitarrista a dar mostras de um domínio absoluto do instrumento. Sonoridades distorcidas até ao limite do tolerável, as notas e ruídos entrechocando-se num combate monstruoso, em “clímaxes” criados com a ajuda de pedais de efeitos, mas sobretudo graças ao modo superior como o músico consegue dominar a massa sonora, domando-a como se de uma fera se tratasse.
Solou indiscriminadamente com as duas mãos e com uma terceira feita em arame, raspou as cordas, agrediu a caixa do instrumento, pôs os olhos e ouvidos em bico a quem estivesse à espera de uma prestação convencional. Explosões, ruído branco, sequências e automatismo rítmicos complexos, sobreposição de frases melódicas e soluções tímbricas arrojadas, mostraram à saciedade por que razão Sharp é hoje considerado um dos grandes mestres contemporâneos da guitarra elétrica. Durante os 45 minutos ininterruptos de risco e provocação auditiva em que Sharp atuou só, ruíram os alicerces do velho mundo.
Subversão a três
Os Telectu entraram a seguir, acrescentando uma dose extra de agressividade ao tom orgiástico da noite. Jorge Lima Barreto percutia o seu DX7, criando uma selva digital entre a qual gritavam as guitarras desvairadas do nova-iorquino e de Vítor Rua. Por trás do palco eram projetadas imagens vídeo computorizadas acrescentando à “performance” o estímulo visual. Onde se esperaria talvez que os Telectu se espraiassem pelas paisagens mais rigorosas de “Digital Buiça”, como ponto de apoio para as intervenções de Elliott Sharp, aconteceu ao invés uma improvisação a três, um pouco à maneira da praticada pelo coletivo AMM, na mesma tentativa de subversão e reconversão dos códigos estéticos e pressupostos éticos subjacentes ao jazz e à música contemporânea. A um espetáculo que se anunciava integrado nas celebrações do Dia Mundial da Música, não se podia pedir melhor.
... mais aqui ...
26.7.22
Telectu & Elliott Sharp - "Elliott Sharp E Os Telectu Atuam Hoje Na Sala Polivalente Do CAM, Às 18h30 E 21h30 - A Matemática Do Caos" (concerto | antevisão | artigo de opinião)
PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 1 OUTUBRO 1990 >> Cultura
Elliott Sharp e os Telectu atuam hoje na Sala Polivalente do CAM, às 18h30 e 21h30
A matemática do caos
O guitarrista nova-iorquino Elliott Sharp e o duo português Telectu tocam juntos, numa prova de que a “nova música” também tem lugar entre nós. A violência eletrónica, em plena atividade de “sabotagem” cultural.
Nova Iorque – capital de mil perigos e deformidades. Há músicas que traduzem essa monstruosidade. Sons que avisam e perturbam. Nos clubes e nas caves. Na penumbra do fumo, longe das luzes do dia e dos hipermercados.
Elliott Sharp resiste, luta, provoca a cidade, nas suas convulsões guitarrísticas. Loucura artística contra a loucura institucionalizada. Integra hoje a elite dos impulsionadores e inovadores da vanguarda nova-iorquina, ao lado de nomes como John Zorn, Glenn Branca, David Fulton, David Linton, Rhys Chatham, Wayne Horvitz, Ned Rothenberg, Samm Bennett, Scott Johnson, Robert Previte, David Weinstein ou David Garland, muitos deles colaboradores regulares nos seus trabalhos.
Guitarra telúrica
Especialista em abordagens revolucionárias do instrumento, possui uma habilidade inata para despedaçar os códigos estéticos e as posturas técnicas tradicionais, a par de uma capacidade analítica capaz de unir as pulsões inconscientes, físicas e emocionais ao rigor estrutural. O cérebro mestre do telurismo. Matemática do caos.
Exemplo desta atitude é a utilização, em discos como “Marco Polo’s Argali”, “Tessalation Road” ou “Larynx”, de um complexo sistema algorítmico denominado “séries Fibonacci”, através do qual se torna possível gerar diferentes tipos de afinação, bem como novas soluções harmónicas e melódicas.
Elliott Sharp caminha sobre o fio da navalha, ao longo de uma já vasta e diversificada discografia que integra experiências que vão da composição (ou decomposição...) da música para cordas (em “Tessalation Road”, com os Soldier String Quartet, equivalente intuitivo e esquizofrénico dos seus congéneres Kronos Quartet), o brutalismo rítmico tribal realizado em computador (“Virtual Stance”), a “canção” eletrónica demencial (“In the Land of the Yahoos”, ao lado de Sussan Deyhim, Christopher Anders, David Fulton, Shelley Hirsch e Christian Marclay), à transfiguração do ruído, ordenado sequencialmente (“Looppool”) ou a interpretação orquestral dos cantos “Inuit” e “hoomii”, respetivamente das regiões árticas do Canadá e da Mongólia (“Larynx”, com Samm Bennett, David Fulton, David Linton, Robert Previte, Jim Staley e, de novo, os Soldier String Quartet), Capítulos importantes da sua discografia são também “Rhythm and Blues”, “Escape Clause”, “I/S/M:R”, e “Carbon” e “Fractal”.
Uma definição possível para esta música arrebatadora pode ser encontrada nas próprias palavras do guitarrista, relativamente a “Larynx” mas perfeitamente aplicáveis a toda a sua obra: “Música que dança sobre permutações constantes entre uma geometria derivada das séries Fibonacci e uma geometria fractal de turbulência, caos e desordem”.
Eletrónicos
Os Telectu, grupo de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, com o qual Elliott Sharp tocará hoje no CAM (Centro de Arte Moderna da Gulbenkian), são pioneiros da música eletrónica no nosso país, passando do minimalismo inicial, para posteriores incursões nas sonoridades ambientais (em álbuns como “Rosa Cruz”, e “Halley”), a música “mimética” (“Mimesis”, “Cameratta Electronica”) ou, atualmente, aproximações a um expressionismo digital no qual se incluem músicos como Jeff Greinke, Robert Rich, Peter Frohmader ou, por vezes, o próprio Elliott Sharp, influência evidente em alguns temas de “Live at the KnittingFactory” e “Digital Buiça”.
A conjunção da eletrónica dos Telectu com a guitarra explosiva de Elliott Sharp pode fazer estragos. Espera-se que esta não seja uma iniciativa isolada e que as “músicas alternativas” ocupem, no nosso meio musical, o lugar de destaque a que têm direito.
25.7.22
SYNTORAMA - nº 16 / 1989 - "ELECTRÓNICOS LUSITANOS" (parte 1/4) - TELECTU -
ELECTRÓNICOS LUSITANOS
Já era altura de dedicarmos um espaço ao que se faz no país vizinho. Tudo o que se segue surgiu-nos na ideia após a audição de um concerto dado pelos TELECTU a propósito da bienal de Barcelona 87.
Apesar de deixar algumas coisas para outra ocasião, isto é, de momento, o que compilei relacionado com a música electrónica portuguesa. Seguir-se-á mais informação nos próximos números.
TELECTU
Surgiram no ano de 1982 em Lisboa. Eles começaram no Jazz e na música Rock, cada um por seu lado. VÍTOR RUA foi um dos fundadores dos GNR (Grupo Novo Rock), um dos grupos mais inovadores neste campo. Jorge Lima Barreto já faz música desde 1968 (Jazz e música electrónica).
Além de se dedicarem a tocar desenvolvem outras actividades, como a crítica, vídeo-arte, programas de rádio. Colaboraram com uma grande diversidade de gente; Por isso não vou continuar a contar a sua trajectória, já que a mesma se encontra reflectida na entrevista que fizemos a um dos responsáveis, Jorge Lima Barreto e que aparecerá mais à frente.
TELECTU. – Música multimédia, electronic live, jazz mimético, música minimal repetitiva. Música para vídeo, performance, teatro, cinema e dança.
JORGE LIMA BARRETO. – Piano, sintetizadores, electrónica, saxofone digital, sampler.
VÍTOR RUA. – Guitarra electrónica, electrónica, engenharia de som, vídeo, guitarra digital, sampler.
ANTONIO PALOLO. – Diapositivos, vídeo, artes gráficas.
VÍDEOS DE VÍTOR RUA:
1985 – HALLEY (50 min)
1986 –
EBRAC (30 min); AUTO LOOP (10 min)
1987 – ALIENADO (20 min); AS AVENTURAS DO CARRO AMARELO (25 min)
1988 –
COMPGRAF 2 (30 min); MIMESIS (37 min. 50 seg)
DISCOGRAFIA TELECTU
- “CTU TELECTU” – EMI 1982
- “BELZEBU” – CLICHÉ 1983
- “OFF-0FF” (duplo) – 3 MACACOS 1984
- “PERFORMANCE” – 3 MACACOS 1984
- “TELEFONE” – LIVE IN MOSCU 1985
- “ROSA-CRUZ”. LIVE GULBENKIAN 1985
- “HALLEY” – ÁLBUM DE LUXO COM TEXTO E SERIGRAFIA DE a. PALOLO – CENTRO NACIONAL DE CULTURA / ALTAMIRA 1986
- “DATA” – (MÚSICA PARA VÍDEO) 1986
- “CAMERATA ELETTRONICA” (DUPLO) - AMA ROMANTA 1988
- “MIMESIS” (LP e CD) – TRANSMEDIA 1988
- “BEM JOHNSON (DUPLO LP e CD) – 1989
VICTOR RUA
SINGLES: Com GNR – “Portugal na CEE” e “Sê Um GNR”
LP’s: Com GNR – “Independança – EMI Valentim de Carvalho, 1981
“Pipocas” – Ama Romanta, 1988
“Mimi” – Transmedia, 1989
JORGE LIMA BARRETO
“Anar Band” – Alvorada, 1976
“Encounters”,
com Sahed Sarbid – Alv, 76
TELECTU
JORGE LIMA BARRETO
R/da Imprensa Nacional, 83-2ºD
1200-Lisboa (Portugal)
ENTREVISTA TELECTU
ROGELIO PEREIRA – Seria interessante se nos contasses como começaram.
JORGE LIMA – Primeiramente temos que considerar que os TELECTU provêm da reunião de dois músicos diferentes, na concepção musical e na vivência.
Eu toco desde 1968, primeiro em grupos de jazz-off, depois tendo fundado com CARLS ZÍNGARO a ASSOCIAÇÃO DE MÚSICA COCEPTUAL que abriria novos rumos à música portuguesa contemporânea, no sentido de uma investigação em electrónica-live (sintetizadores, piano electronicamente preparado, banda magnética), desde logo com uma actividade paralela como crítico musical e musicólogo (escrevi já 87 livros sobre música, que vão desde “REVOLUÇÃO DO JAZZ” a “MUSICÓNIMOS” (este último sobre filosofia da música e intensas observações sobre o rock).
VÍTOR RUA tinha formado em 1978 o grupo GNR (grupo novo rock) que era sem dúvida o melhor grupo de rock nacional.
Nesse tempo eu andava entre os EUA e o Brasil e quando regressei, conheci-o. Eu tinha gravado ANAR BAND (música experimental para piano, sintetizador e banda magnética) e “ENCOUNTERS” com o grande músico português de jazz, SAHEB SARBIB (música para contrabaixo, flauta e electrónica).
O VÍTOR tinha gravados vários singles de grande êxito e o LP “INDEPENDANÇA”, sempre com os GNR.
Formámos um grupo com o baterista dos GNR, um vocalista e fizemos uma obra de fusão “CTU TELECTU” pioneira na sua linguagem de ART-ROCK. A partir daí e depois de uma grande controvérsia com os princípios da multinacional para quem gravávamos, decidimo-nos pela edição independente. Introduzimos o minimalismo em Portugal, escrevi “música minimal repetitiva” e fizemos uma série de obras minimais como “BELZEBU”, “OFF-OFF”, “PERFORMANCE”, “TELEFONE”, “FUNDAÇÃO”, “ROSA CRUZ”, “HALLEY”, “DATA” e, recentemente, sintaxes repetitivas em “MIMESIS” e “BEN JOHNSON”.
Os princípios que geraram a nossa música foram muito diversos e de foro estético multifacetado; vão desde a investigação em texturas tímbricas, coordenação de dispositivos sonoros, banda magnética, instrumentos acústicos tratados (guitarra e piano), estruturas miméticas, inclusão de computador, processos multifónicos, mistura de média, multimédia, aproveitamento de novos sentidos da improvisação, nova notação musical, enfim, um processo que não deveria ajustar-se a uma definição normalizadora de tantas e tão díspares actividades.
O VÍTOR RUA trabalha essencialmente com a guitarra e engenharia de som e eu em teclados e percussão electrónica.
R. PEREIRA – Nos poucos anos que levais como duo, já garavaram um bom número de LP’s, e apesar disso na altura de editar os vossos discos recorreram, na maioria dos casos, à autoprodução e autoedição. Neste último disco “MIMESIS” gravado numa etiqueta tão importante como é a TRANSMEDIA. Pensma que, finalmente, encontraram uma editora estável para futuras gravações?
JORGE LIMA – O problema da edição independente não se pode pôr nesses termos. Como somos independentes não temos proprietários. Assim estamos livres para fazer a música que queremos e editá-la onde nos pode dar mais acessibilidade e dignidade.
R. PEREIRA – A vossa música serviu de suporte a bandas sonoras de filmes. Para que filmes contribuíram com a vossa música?
JORGE LIMA – Fizemos uma banda sonora para o filme experimental de ANTONIO PALOLO “OHM”, mas fundamentalmente fizemos músicas funcionais para performances (no CENTRO POMPIDOU de Paris), para vídeo, poesia, teatro.
O VÍTOR RUA é um vídeo-artista inovador e as nossas realizações musicais têm sido sempre uma interacção musical com o vídeo, a instalação e a performance (prémio AICA no ano de 86 pela instalação “EBRAC” com Câmara Pereira). O ANTÓBIO PALOLO é parte dos TELECTU (diapositivos, capas de discos, vídeo-arte…)
R. PEREIRA – Na vossa obra “CAMERATA ELETTRONICA” escutamos uma música mais próxima do jazz, abandonando de certa forma a formas minimalistas de anteriores álbuns. Pensam seguir nesta linha ou foi apenas mais uma experiência?
JORGE LIMA – Como já disse, eu também sou musicólogo de Jazz. Em obras como “PERFORMANCE”, “TELEFONE”, e especialmente na peça “BAKU RESTAURANT”, gravada em Moscovo, abordámos mimetismos do Jazz. Dizemos mimetismos porque não sendo músicos de Jazz, pretendemos simular a partir de instrumentos acústicos e electroacústicos, a linguagem do Jazz.
Consideramos em 87 que poderíamos ultrapassar-nos, sem abandonar os processos minimalistas, e inflectimos a nossa música para um tipo de Jazz-Off electrónico, dando mais relevo à improvisação electrónica ao vivo.
A segunda parte da pergunta tem como resposta evidente que nós continuaremos num Work In Progress das nossas concepções musicais, sem qualquer compromisso determinado com esta ou aquela tipologia musical. O futuro nasce da própria acção criativa, depende das circunstâncias tecnológicas e de novas percepções sonoras, ou seja, para além do disco e do concerto temos muitas outras situações para compor e executar a nossa música.
R. PEREIRA – Aparte de fazer música, também se dedicam a escrever em semanários musicais. Por outro lado, tu, Jorge, tens escrito algum outro livro? Tens projectos no campo literário?
JORGE LIMA – Apenas escrevo em semanários musicais. Tenho 12 livros escritos, todos no âmbito da musicologia, estou a iniciar o meu doutoramento na Universidade Nova de Lisboa, em música e mass media, tenho livros e textos já traduzidos (espanhol, italiano, inglês e francês). Neste momento estou a elaborar a minha tese e paralelamente estou a escrever um livro sobre Novas Músicas. Dei também conferências sobre este tema tão aberto, em Paris, Nova Iorque, Rio de Janeiro, São Paulo, Cuzco, Moscovo, Macau, Génova, …
R. PEREIRA – Como avalias o panorama da música electrónica Portuguesa?
JORGE LIMA – Temos de verificar que a minha opinião não pode ser encarada como a opinião de um músico apenas. Como musicólogo tenho reflectido desde sempre sobre a electrónica na música portuguesa, fui pioneiro na Electric live neste país. Escrevi um “breviário de música electrónica” onde está escrito o que penso sobre a música electrónica portuguesa. Consideremos dois tipos: 1 de estúdio, 2 ao vivo. Na electrónica de estúdio, músicos como JORGE PEIXINHO, FILIPE PIRES e sobretudo EMANUEL NUNES (residente na Alemanha), fizeram abordagens electrónicas sobre serialismo, tape music, computação, electro-acústica e, ultimamente, novos valores têm-se revelado.
Na “electrónica live” temos o CARLOS ZÍNGARO que toca com TEILTELBAUM, TELECTU, TÓ-ZÉ FERREIRA e toda uma série indiscriminada de culturas dentro de músicas mais dirigidas a uma massificação estética que inclui o rock, pop, new age e ambientes e funcionalismos musicais. Num panorama pobre, sem um estúdio de música electrónica, e que provém da própria iniciativa dos músicos, sem um eco notório na imprensa musical, praticada normalmente por ignorantes de música, tirando uma ou outra excepção.
R. PEREIRA – Há um par de anos chegaram a actuar na bienal de Barcelona, actuação da qual usaram uma parte em “CAMERATA ELETTRONICA. Têm vontade de tocar de novo em Espanha?
JORGE LIMA – Não temos apenas vontade, queremos profundamente fazer uma tournée em Espanha. Parece impossível que, tendo tocado em todos os continentes, não tenhamos quase conseguido tocar em Espanha, que é o nosso país vizinho. Temos um monte de propostas que incluem concertos, instalação, vídeo musical, performance, conferências, edição de traduções dos meus livros, mas tudo é muito difícil de concretizar; é que o governo português está muito longe de se interessar pela música portuguesa e muito menos por música portuguesa a ser tocada no estrangeiro, lugar que não interessa para captar votos para as eleições. Mas oxalá esta entrevista possa servir como incentivo para essa realizações.
R. PEREIRA – Conheces alguma da música electrónica feita em Espanha?
JORGE LIMA – Evidentemente. Tive contactos pessoais e entrevistei para o meu livro “Musicónimos” o LUIS DE PABLO, gosto muito especialmente da peça “Chaman”, também obras acústicas de BENGUEREL, MESTERES QUADRENY, SOLER, TALTABULL, POLONIO …
Em Espanha, como em Portugal, não há um importante Centro de Música Electrónica e são poucas as multinacionais do disco, que são evidentemente as mesmas que dominam o mercado musical português, que mostrem algum interesse por esta estética musical. E claro que se entendemos o termo música electrónica como toda e qualquer prática instrumental electrónica (ligada ao rock, Jazz, novas músicas, e a música comercial), torna-se muito difícil poder apreciar a música electrónica espanhola, já que os instrumentos não fazem a música sem os músicos. Gostaria de poder aprofundar o meu conhecimento, que é tão superficial, da música electrónica espanhola…
R. PEREIRA – Que outros LPs editaram separadamente?
JORGE LIMA – Eu gravei “ANAR BAND” (76) e “ENCOUNTERS” com o SAHEB SARBIB (77). Por seu lado o VÍTOR tem três LPs: Com os GNR, sob o nome de PSP-PIPOCAS (87) e MIMI (89).
R. PEREIRA – Quais são as vossas preferências musicais?
JORGE LIMA – É um campo vasto de desejo: etnográficas, clássica (que engloba obras orquestrais e de carácter solístico), electrónica, acusmática, concreta, Jazz, rock, pop, música de massas, sons naturais, obras para banda magnética, colagem musical… enfim, somos observadores conscientes de toda a música sem excepção, a não ser uma indiferença e até uma repulsa pelo comercialismo e pela indecorosa conduta das editoras e dos pseudo-músicos que contaminam, com propostas anti-estéticas, todo o consumo musical. É como dizer que se prefere BACH a CAGE, MONK a FRIPP, TEATRO CAGAKU (Japão) a uma RAGA HINDU, se todos são mundos tão maravilhosos para ouvirmos.
R. PEREIRA – Algo que queiras acrescentar?
JORGE LIMA – Penso que numa entrevista o mais importante é o que fica por dizer. Assim, poderíamos estar horas e horas a falar de música, da experiência literária, das novas notações, dos meios de comunicação, de uma composição, de um solista, de um concerto… enfim, seria uma infinidade de considerações a tecer sobre o que se ama: a música.
O desejo de poder ir, tocar e mostrar a nossa criatividade em Espanha, como interesse primordial.
E finalmente, que nos seduz imensamente o movimento estético-musical da vossa revista SYNTORAMA, que denota uma qualidade cultural e gráfica, como também pelo carácter de intervenção que revela.
Esta entrevista com JORGE LIMA BARRETO, membro dos TELECTU, foi realizada por correio, em Abril de 1989.