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30.6.17

Dead Can Dance - Dossier - "Na Terra Dos Sonhos"


DNMAIS
Sábado, / Junho 2003

DEAD CAN DANCE
Na Terra Dos Sonhos

O lançamento de um ‘best of’ convida a um reencontro com a música dos Dead Can Dance, projecto de Brendan Perry e Lisa Gerrard que marcou pela diferença o panorama alternativo dos anos 80 e vincou a identidade de uma das vertentes do som da 4AD.
Nuno Galopim


É uma música nova ou uma amálgama de músicas antigas? É world music ou pop/rock? As questões não são novas e, na verdade, recorrentes sempre que os Dead Can Dance se apresentam na berlinda. Ao reencontrar a sua memória, através de uma selecção de temas apresentados em Wake, um best of que nos convida a (re)descobrir a aventura sem tempo nem fronteiras da música deste projecto que nos revelou Brendan Perry e Lisa Gerrard, estas questões e memórias saudáveis dos dias de ouro da 4AD regressam à ordem do dia.
Banda de referência do catálogo da editora independente britânica 4AD, os Dead Can Dance definiram, disco após disco, um percurso entre o antigo e o contemporâneo, doseando tonalidades e sabores renascentistas, trovadorescos ou clássicos, juntando aromas mediterrânicos, africanos, do Leste europeu, do médio oriente, da Ásia. Entre canções de forma mais tradicional e uma requintada tecelagem de ambientes, a música oferece uma ideia de sonho sem tempo nem lugar, de apelo suave aos sentidos... E decididamente difícil de traduzir por palavras.
Começaram por ser um colectivo alargado, na clássica tradição da banda pop/rock, mas ao segundo álbum era já uma dupla, repartindo entre si as responsabilidades de composição e interpretação. Brendan Perry sempre foi a voz herdeira da tradição pop/rock alternativa, entoando formas concretas. Por seu lado, a Lisa Gerrard desde cedo coube o papel da libertação dos espartilhos da arquitectura vocal pop/rock, trabalhando ao longo dos anos um registo de vocalização decididamente pessoal que muito contribuiu para o definir de uma identidade característica nos Dead Can Dance.
OS PRIMEIROS DIAS. Tanto Lisa Gerrard como Brendan Perry têm ascendência anglo-irlandesa, remontando o encontro de ambos aos dias em que viviam em Melbourne (Austrália), em 1980. Brendan revelava então sinais de contaminação pela revolução punk que mudara a face da música no hemisfério Norte poucos anos antes. Lisa, por seu lado, educada e crescida no melting pot cultural de um bairro de emigrantes oriundos de regiões mediterrânicas, mostrava já uma evidente predisposição para abraçar os sabores «exóticos» das músicas desses muitos vizinhos... Curiosamente, depois de estabelecida uma amizade e traçado um desejo de futuro na música, passaram ambos pela cozinha de um restaurante libanês em Melbourne, no qual lavaram pratos a troco de um sonho de partida para Londres. Assim foi. Fizeram as malas, e na bagagem traziam já as primeiras canções. Mal imaginando que os aromas que traziam das vivências em Melbourne vinham já nas entrelinhas das intenções musicais. Entre essas primeiras composições encontrava-se já o hoje mítico Frontier, resultado de uma sessão de trabalaho baseada na improvisação, que agora é incluído no alinhamento de Wake.

NA CASA DE IVO. Os Dead Can Dance aterram em Londres em 1982, sem horizontes nem projectos concretos, mas donos de uma insistente vontade em fazer a sua música. Esses primeiros dias não foram fáceis, vivendo Lisa e Brendan do dinheiro do subsídio de desemprego, habitando um magro apartamento num bloco na Isles of Dogs, a Leste de Londres e recebendo, uma após outra, as recusas das mais diversas editoras...
Uma das cassetes foi deixada nos escritórios da recentemente criada 4AD, uma operação paralela da editora Beggars Banquet, formada para desenvolver emergente talento, e sob a direcção de Ivo Watts Russel, um antigo discotecário. A editora, que tinha assegurado a estreia em álbum dos Bauhaus e que era então «casa» de nomes como os Modern English e Dif Juz, encontrou na proposta de Perry e Gerrard uma das suas pérolas, definindo assim, em poucos anos, uma identidade muito peculiar de som e imagem, através de uma mão cheia de edições dos p´roprios Dead Can Dance, Cocteau Twins e This Mortal Coil, este último um projecto transversal às bandas da editora, reunindo a colaboração de membros de vários grupos sob a batuta do «patrão» Ivo Watts Russel.
Depois de um primeiro álbum menos característico, a música dos Dead Can Dance mostra então, ao longo da segunda metade da década de 80, um percurso de evolução linguística, atingindo a definição clara de identidade em Within The Realm Of A Dying Sun, e assinando as obras-primas da sua discografia nos seguintes  The Serpent’s Egg e Aion. O grupo mostrava já ter-se liberto dos rumos mais clássicos da tradição da canção pop/rock, optando antes por um labor centrado nos discorrer de ambientes e cenários. Estas marcas de identidade contribuíram rapidamente para o definir de uma admiração generalizada entre uma população jovem de horizontes musicais mais exigentes, vincando assim um culto que abraçou não só os Dead Can Dance, como também os restantes parceiros da «via ambiental» da 4AD.
Em poucos anos os Dead Can Dance tornam-se num nome com exposição global. Quando chegam ao circuito universitário norte-americano em inícios de 90 trazem na mala os sons de Aion, que fazem das actuações ao vivo um palco de encontro de fontes diferentes de som, permitindo o encontro dos sintetizadores com instrumentos de outras geografias e outros tempos. É de então que data o seu período de aposta mais evidente na estrada, assinando diversas digressões (uma delas mais tarde registada num DVD agora disponibilizado entre nós).
Tudo muda na vida dos Dead Can Dance quando, nos anos 90, Brendan Perry se muda para uma residência na Irlanda rural e Lisa Gerrard se instala numa casa de montanha na Austrália. O afastamento não impede a continuação do trabalho, mas determina uma progressiva separação de tendências e intenções que acabará por determinar o fim do grupo e a inevitável continuação dos percursos individuais, em carreiras a solo. Lisa Gerrard, depois de trabalhos nas bandas sonoras de O Informador, Gladiador e Ali, é hoje, mais que Brendan Perry, dona de nova carreira em ascensão.


DVD
Dead Can Dance
«Towards The Within»
4AD/MVM
Concerto: ***
Extras: ***
Originalmente lançado em vídeo por alturas da edição do álbum ao vivo com o mesmo título, este documentário sobre a digressão de 1993 cruza excertos de uma actuação no Mayfair Theatre em Santa Monica (Los Angeles, EUA) com momentos de conversa com Brendan Perry e Lisa Gerrard. O alinhamento live apresenta inúmeros inéditos, tal e qual a versão em disco. O melhor do DVD está, contudo, nos cinco extras nele incluídos, nada mais nada menos que videoclips, dois deles (The Host Of Seraphim e Yulunga) extraídos do filme Baraka (de Ron Fricke), que contou com a contribuição dos Dead Can Dance na respectiva banda sonora. O histórico Frontier e The Protagonist surgem em clips rodados por Nigel Grieson, uma das almas da 23 Envelope, companhia de design que definiu a imagem da 4AD.

Dead Can Dance
«Wake»
4AD/MVM
****
O segundo best of dos Dead Can Dance propõe, num CD duplo, um percurso de memórias captadas ao longo da discografia, não esquecendo o registo ao vivo de 1994. Para os admiradores em busca de novidade, Wake inclui o mítico Frontier, a primeira maquete dos Dead Can Dance, gravada ainda em Melbourne.

DISCOGRAFIA
A discografia dos Dead Can Dance está integralmente reeditada em CD pela 4AD (representada entre nós pela MVM). O ‘best of’ agora editado pode perfeitamente servir de cartão de visita a quem não conhecer a obra do grupo, assim como assegurar um bom retrato completo da sua obra para os mais velhos fiéis de 80 e 90. Wake é, todavia, um primeiro passo num processo de (re)descoberta que, para obter uma representação mais completa da obra deverá, depois, passar por discos-chave como Within The Realm Of A Dying Sun, The Serpent’s Egg e Aion, os melhore desta «safra». O álbum ao vivo de 1994 é um bom retrato das artes do palco de um grupo que nunca chegou a actuar entre nós (o DVD Towards The Within acrescenta depois o complemento directo visual). Para carteiras mais recheadas, a caixa de 2001 oferece uma belíssima visão de conjunto. Completar, depois, com os discos dos This Mortal Coil e, porque não, um olhar atento pelo catálogo da 4AD (ver página 14 desta edição).


 1984. «Dead Can Dance»
Mais «convencional», inclui o EP Garden Of Arcane Delights na edição em CD.
1985. «Spleen And Ideal»
Começa aqui o percurso de definição da linguagem muito peculiar do grupo.
1986. «With The Realm Of A Dying Sun»
Lisa e Brendan dividem o disco ao meio e cada um canta num dos lados.
1988. «The Serpent’s Egg»
Este é um dos dois discos obrigatórios do grupo, na plenitude da sua linguagem.
1990. «Aion»
Dominado por referências renascentistas, outro episódio fundamental.
1991. «A Passage In Time»
A primeira antologia, pensada para apresentar o grupo nos EUA e Canadá.
1993. «Into Labyrinth»
O retomar do percurso, em forma, mas sem a mesma surpresa.
1994. «Towards The Within»
Disco ao vivo registado em Los Angeles durante a digressão de 1993.
1996. «Spiritchaser»
Derradeiro registo de originais, muda azimutes, para o hemisfério Sul.
2001. «Dead Can Dance 1981-1998»

Caixa antológica com 3 CDs e o DVD de Towards The Within».






3.5.17

Kraftwerk - Crítica de Discos - "Minimum Maximum"


DNm: 10 de Junho de 2005

A MÁQUINA AO VIVO





O Documento áudio da inesquecível digressão mundial dos Kraftwerk que nos visitou em 2004 chega em ‘Minimum Maximum’. Um verdadeiro ‘Best Of’ de 36 anos de carreira gravado ao vivo.
T: N.G.
Apesar de terem protagonizado algumas digressões históricas nos anos 70 e inícios de 80 (está de resto registada em disco a Autobahn Tour de 1974, mais concretamente nos álbuns não oficiais Concert Classics e Autobahn Live), os Kraftwerk não foram, durante uma série de anos, grandes “amigos” da estrada. Nos últimos tempos, porém, têm corrido o mundo, com a mais espantosa experiência audiovisual de alta tecnologia que os palcos pop/rock alguma vez assistiram. Uma experiência que agora, a meio de uma digressão que continua na estrada, se regista em álbum.
Há um ano, a dias da sua estreia em concerto em Portugal, numa inesquecível noite de música no Coliseu dos Recreios, Ralf Hutter explicou ao DN que só agora a tecnologia disponível lhes permite concretizar em palco uma velha visão de conceito multimédia que há muitos anos alimentavam como cenário de sonho para os seus espectáculos. “Temos o nosso próprio estúdio, o Kling Klang Studio, que é como que um instrumento para os Kraftwerk. E agora, no seu novo formato digital, é mais portátil, pode viajar...”, contou. “Pela primeira vez podemos tocar a nossa música em sincronismo com gráficos gerados por computador ou imagens de vídeo, pinturas electrónicas... Tudo o que a tecnologia hoje permite! Estamos muito felizes porque nesta digressão mundial, podemos apresentar, finalmente, as coisas que queremos segundo uma visão que há muito tínhamos. Essa visão é, agora, para nós, uma realidade”.
Tendo o grupo nascido nos dias de 70 com uma filosofia e imagem de clara oposição aos padrões tradicionais pelos quais se edificavam os mitos rock’n’roll, a sua postura em palco nunca visou quaisquer intenções de assimilar os hábitos performativos do rock. Pelo contrário, os quatro elementos do grupo sempre se mantiveram quase inertes por detrás dos seus teclados e consolas, deixando que o movimento necessário ao acompanhamento da música se fizesse através do desenho de luz e de projecções. A digressão mundial que o ano passado vimos em Lisboa e, depois, num serão acidentado no Sudoeste, e que agora registam em disco, recorre ao que designam por protótipo móvel Kraftwerk 2002, um conjunto complexo de computadores e outras máquinas que gerem em sincronismo a performance musical e o lançamento no espaço de imagens e gráficos gerados por computador. Hutter sublinhou aqui que, desta maneira, a tecnologia do século XXI deu assim a resposta a velhas Ânsias do grupo: “Deu-nos ferramentas para poder tornar reais certas visões nossas. E também mobilidade, movimento... Sempre nos interessámos bastante pelo movimento, daí a conhecida velha fascinação pelo ciclismo.” Hutter recordou ainda que a busca deste sentido de mobilidade das suas ferramentas electrónicas representou uma das demandas fundamentais desde os primeiros tempos de vida do grupo. “Eu e o meu amigo Florian Schneider criámos o nosso Kling Klang Studio em 1970 e dispendemos então muito tempo na sua construção para que assim conseguíssemos ser independentes e autónomos”, lembrou.
“Mas os nossos primeiros sintetizadores eram enormes e estavam constantemente a desafinar. Eram muito caros... O nosso primeiro sintetizador foi tão caro como o meu Volkswagen, que é o que está na capa de Autobahn. Sendo estudantes, tínhamos então os nossos problemas naturais... O Florian desenvolveu então o nosso primeiro instrumento electrónico de percussão, a partir de um outro órgão meu. Um amigo nosso, que era pintor, trabalhava connosco pintando as capas dos discos... Envolvíamo-nos em inúmeros projectos além da música, num contexto multimédia electrónico. E agora estamos a fazer a rodagem mundial do nosso protótipo móvel Kraftwerk 2002. Hoje podemos viajar e ser como pilotos de ensaio para software electrónico relacionado com a música. Continuamos, hoje, a trabalhar com o mesmo engenheiro musical que nos acompanha, desde o The Man Machine... É um processo de continuidade...”.
Quem viu os concertos, sabe que fala verdade.
Com precisão germânica, os concertos começam sempre à hora marcada (o que no caso da actuação no Sudoeste acabou por não dar tempo para a reparação de uma má comunicação entre os computadores que geram as imagens e os ecrãs). Uma voz robótica anuncia que o espectáculo vai começar. E logo as cortinas se abrem para, ao som de The Man Machine, revelar os quatro elementos do grupo estáticos frente aos seus teclados. E, por detrás, um gigantesco ecrã por onde evoluem imagens digitalmente criadas, filmes vintage, referências claras às capas dos discos, palavras cantadas... Extensão directa do conceito total que é a arte dos Kraftwerk, o concerto materializa mais uma ideia de instalação musical electrónica, uma vez mais reinventando os Kraftwerk como um espaço de afirmação de uma identidade oposta à iconografia tradicional da cultura rock’n’roll. O alinhamento, invariável, passa por momentos do recente Tour De France Soundtracks (como Vitamin, Aero Dynamic, Elektro Kardiogramm e diversas variações em torno do clássico Tour DE France), como proporciona um coerente mergulho por um passado mítico, através da recuperação de peças-chave da história da música como Autobahn, Radioactivity (versão mista entre a original, de 1975, e a remistura de 1991), Trans Europe Express (com adenda Metal On Metal), The Model, Neon Lights, Computer World (e o complemento Home Computer), Numbers, It´s More Fun To Compute, Pocket Calculator, Dentaku, Music Non Stop ou o mais recente Expo 2000, na versão Planet Of Visions. No primeiro dos encores abandonam o palco deixando-o entregue aos seus célebres robots, numa magistral celebração do tema The Robots (novamente em versão “actualizada”, segundo a norma aplicada no álbum The Mix, de 1991).

Com o esperado perfeccionismo áudio que caracteriza todas as gravações do grupo, Minimum Maximum traduz em disco o mais espantoso concerto que os palcos nos deram nos últimos anos. E consegue, talvez pela força do alinhamento best of, resistir à ausência da imagem (afinal, o concerto era, como se afirmou já, uma experiência audiovisual). A possibilidade de edição do DVD que documenta esta mesma digressão está na agenda imediata do grupo. Seguir-se-á a reedição remasterizada da obra editada entre 1974 e o presente. Hutter explicou que este trabalho de restauro lhes ocupou parte do tempo nos últimos anos: “estivemos a trabalhar na adaptação aos formatos digitais de toda a música dos Kraftwerk. Tínhamos fitas muito antigas que se estavam a degradar e havia muito trabalho para fazer. Estivemos a transformar 33 anos de trabalho de arquivo dos Kraftwerk em formato digital. Hoje todos os sons originais estão disponíveis e vamos brevemente lançar versões remasterizadas de todos os nossos álbuns desde Autobahn. Essa edição vai chamar-se The Catalog. E o grafismo dos discos vai incluir ideias que não pudemos usar no passado”, adiantou. Venham elas!





21.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (19)



DN - Diário de Notícias
3 Agosto 2002

Discos Pe(r)didos


Apesar da curta expressão e limitada duração em que se manifestou entre nós, a «new wave» chegou mesmo assim a conhecer alguns dignos representantes. Um deles, foi caso inesperado, nascendo de um grupo com importante projecção no panorama «progressivo» na recta final de 70: os Tantra.
Uma das maiores forças da música rock feita em Portugal na segunda metade de 70, os Tantra surgem em 1976 da reunião de Manuel Cardoso (que tinha já passado pelos Beatnicks), Armando Gama, Américo Luís e Tozé Almeida, editando logo nesse ano o single «Alquimia da Luz». Um ano depois, o álbum «Mistérios e Maravilhas» (já disponível em CD) revelava a maioridade de um som rock de cenografia sinfónica e alma «progressiva», constituindo imediatamente um fenómeno, que se cimenta num tempo de desertificação na cultura pop/rock lusitana.
São, ainda nesse ano, o primeiro grupo rock português a encher o Coliseu dos Recreios, feito que repetem, em 1978, no concerto de apresentação do segundo álbum, «Holocausto» (recentemente reeditado em CD), evolução natural do disco de 1977.
Quando o grupo regressou ao Coliseu, em 1978, já Armando Gama havia saído (para formar os Sarabanda, com Kris Kopke), sendo então substituído, nas teclas, por Pedro Luís. Segue-se então um tempo de longo silêncio, durante o qual se começam a manifestar sinais de mutação interna, que levam ao afastamento de Américo Luís.
Estávamos na viragem de década, e nomes como os de Rui Veloso, UHF, Salada de Frutas, GNR, Jáfumega e Táxi começavam a mostrar um novo som rock cantado em português ao qual aderiam, como nunca antes, as rádios e público. Numa decisão contra-corrente, tal como então se verifica em grupos como os Roxigénio e Arte e Ofício (estes já com tradição no recurso ao inglês), os Tantra abandonam a língua portuguesa. E, reduzidos a três elementos, contando com a colaboração de «Dedos Tubarão» (Pedro Ayres Magalhães), dos Corpo Diplomático, editam em 1981 o terceiro álbum, «Humanoid Flesh».
O disco causou acesa polémica, sobretudo por acender a chama da discórdia na classe «crítica» de 70, mais dada a elogiar os sinfonismos de «Mistérios e Maravilhas» e «Holocausto» que as novas canções de dinâmica rítmica mais evidente e recorte «new wave» com o qual o grupo se apresentava. Todavia, a rejeição não chegou apenas da «crítica», já que o público acabou também por ignorar este terceiro disco dos Tantra, que pecava por «erro» estratégico de «timing» ao adoptar o inglês numa altura em que as multidões descobriam e abraçavam um novo rock (mesmo mais «quadrado») cantado em português. A opção pelo inglês foi então justificada por Manuel Cardoso (já a responder como Frodo) numa entrevista ao «Se7e», onde explica que uma luzinha lhe dissera que Deus não passaria os discos dos Tantra no Paraíso, se estes cantassem em Português.
«Humanoid Flesh» tem os seus méritos. Musicalmente é um interessante manifesto estético de um movimento tangencial Às linhas de força pop/rock lusitanas na alvorada de 80. E não só exibe um lote de canções interessantes (algumas a revelar uma proximidade estranha com o som dos Classix Nouveaux), como ousa transformar os «Verdes Anos» de Carlos Paredes, naquela que é uma das mais interessantes manifestações de homenagem do rock português ao grande mestre.
O fracasso do álbum acabaria por determinar o fim do grupo. Frodo seguiu carreira a solo. Tozé Almeida juntou-se aos Heróis do Mar. E Pedro Luís formou os Da Vinci.
N.G.

TANTRA
«Humanoid Flesh» 
LP Valentim de Carvalho, 1981
Lado A: «Girl In My Head», «Crazy Rock’N’Roll», «What Have Your Eyes Done To Me?», «Magic», «Verdes Anos»; 
Lado B: «Dangerous Works», «Humanoid Flesh», «Just Another Lie», «African Sands»

Produção: Tantra e SR






20.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (18)


DN - Diário de Notícias
29 Junho 2002

Discos Pe(r)didos


Emigrado para França depois de uma recusa em combater na Guerra Colonial, Luís Cília é um entre uma “família” de músicos portugueses que desviam de Lisboa para Paris o palco de criação de alguns dos mais importantes discos que a língua portuguesa conheceu na década de 60. É em Paris que conhece figuras como as de Paco Ibanez, Colette Magny, Georges Brassens, Luigi Nono... É também em Paris que enceta a sua obra discográfica, com o fundamental “Portugal-Angola: Chants de Lutte” (editado em 1964 pela Chant du Monde).
Ainda durante a década de 60 edita “Portugal Resiste” (um EP) e os três álbuns da série “La Poèsie Portugaise”. Em 1969 assina “Avante Camarada”, canção que, gravada por Luísa Basto, se transformaria depois no hino do PCP. E, ainda antes do regresso a Portugal, grava e edita “Contra A Ideia da Violência, a Violência da Ideia”, disco que assinala o seu reencontro com a Le Chant du Monde.
Quatro dias depois do 25 de Abril, Luís Cília regressa a Portugal e logo causa polémica ao afirmar que Alfredo Marceneiro era um cantor revolucionário. A ligação que era feita, pela turba revolucionária, entre o fado e o regime deposto, não permitia a aceitação deste tipo de opinião de bom grado.
A demarcação mais efectiva ainda de Luís Cília face a alguns excessos desses tempos ganhou forma naquele que foi o primeiro álbum editado após a revolução. Sem embarcar na multidão que então fazia do canto de intervenção a linguagem musical do Portugal de todos os dias, Luís Cília procura reunir num disco uma colecção de romances antigos, os mais recentes datados do século XIX, os mais remotos do século XIII!
Para o processo de recolha não recorreu aos trabalhos de Michel Giacometti e Lopes Graça (duas referências já devidamente reconhecidas), mas antes a uma busca em nome próprio, para tal socorrendo-se do acervo da biblioteca da Fundação Gulbenkian em Paris, na qual consultou uma série de cancioneiros. De uma série de trabalhos de recolha que vinham de antes do 25 de Abril nasceu a ideia de um álbum que, no agitado 18«974, rumou então contra a corrente.
Para a concretização do projecto, Luís Cília regressou a Paris. Por companhia levara, de Portugal, o produtor executivo José Niza, nomeado pela Orfeu, com quem o músico havia assinado. Na capital francesa tinha todos os músicos que julgara necessários para dar forma ao projecto. Em primeiro lugar o guitarrista clássico Bernard Pierrot, que Cília conhecia por ter sido, também, aluno do seu professor de composição Michel Puig. Pierrot assinou os arranjos e, com o seu grupo de música antiga, participou na gravação de “O Guerrilheiro”, cujas sessões tiveram lugar nos estúdios Sofreson, em Paris.
Disco esquecido, importante registo de referência de uma atitude muito particular perante a recolha do legado da música tradicional portuguesa, “O Guerrilheiro” deu à Intersindical o seu hino, mais concretamente na música do tema-título (originalmente uma canção alentejana do século XIX, aparecida em 1852, por ocasião das lutas civis de Patuleia e Maria da Fonte).
Oito anos depois (em 1982), Luís Cília voltou ao estúdio, onde regravou as partes vocais do álbum que, então, a Sassetti reeditou com o título “Cancioneiro”. Todavia, nem esta versão de 1982, nem a histórica versão original, tiveram ainda luz verde para a reedição em CD.
Teremos ainda de esperar muito?
N.G.

LUÍS CÍLIA 
“O Guerrilheiro” 
LP ORFEU, 1974
Lado A: “O Adeus d’um Proscrito”, “O Conde Ni#o”, “Flor de Murta”, “A Guerra do Mirandum”, “O Conde de Alemanha”; 
Lado B: “D João da Armada”, “Canção do Figueiral”, “D. Sancho”, “O Guerrilheiro”
Produtor delegado: José Niza






19.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (17)



DN - Diário de Notícias
13 Julho 2002

Discos Pe(r)didos



Os cenários de explosão rock que os portugueses viveram entre os finais de 70 e inícios de 80 representaram, por si, as razões fundamentais pelas quais se explica o fraco desenvolvimento dos fenómenos de ligação das electrónicas à música pop entre nós. Com uma cultura pop/rock a viver, em jeito de concentrado de acontecimentos, 20 anos de desenvolvimento atrasado, os primeiros dias da década de 80 conheceram um estranho efeito de salada russa na produção discográfica nacional, juntando estéticas já antigas a fracções mais discretas de modernidade.
E é entre alguns destes mais ousados projectos que irrompem as electrónicas, usando-as uns como mero tempero para uma refeição pop/rock com guitarra, baixo e bateria, poucos tendo sido os que apostaram de facto numa identidade «electro pop», que então conhecia messias não só nos alemães Kraftwerk, mas na interessante multidão de projectos que entrava em cena em Inglaterra (Human League, OMD, Depeche Mode, Yazoo, entre outros, todos eles com considerável exposição na rádio portuguesa de então e grande aceitação entre os mais novos). Nesta localização temporal convém ainda recordar que, na época, os teclados e electrónicas eram olhados de soslaio pelos partidários das guitarras, estes acusando as novas tecnológicas de ser música fácil, automática, o que conferia às bandas electrónicas uma espécie de alvo imediato do gozo dos espíritos mais duros de ouvido... Birra hoje resolvida, naturalmente.
É certo que os Tantra usavam já sintetizadores (particularmente no derradeiro «Humanoid Flesh», de 1980). O mesmo se verificava nos Salada de Frutas («Robot», 1980), nos Heróis do Mar («Brava Dança dos Heróis» / «Saudade», single de estreia em 1981), assim como em alguns outros mais projectos. As electrónicas tomaram até protagonismo evidente em «Foram cardos Foram Prosas» de Manuela Moura Guedes (produção de Ricardo Camacho para um belo single em 1981).
Em 1982, uma série de projectos exclusivamente electrónicos entram em cena no panorama português, reflectindo não só uma maior abertura da rádio e editoras a estas estéticas, como sublinhando o que fora a adesão dos portugueses a canções como «Just Can’t Get Enough» dos Depeche Mode ou «Open Your Heart» dos Human League no ano anterior. Com «Lisboa Ano 10 Mil» e «Fantasmas», os Da Vinci apresentam-se com um projecto esteticamente coerente e musicalmente apoiado pela experiência de um ex-Tantra e de um músico de Jazz. No mesmo ano apresentam-se ainda Tó Neto (o Jarre português, com o álbum «Láctea»), Carlos Maria Trindade (Heróis do Mar) edita, a solo, «Princesa», Frodo lança «Zbaboo Dança»... Mais tarde haverá ainda que ter em conta o single «Estou Além» de António Variações (1983), «Como Um Herói» (1984) do projecto Stick (de Sérgio Castro e António Garcês), os Poke, de Quico, que em 1984 editam o fundamental máxi-single de pop electrónica «Digitalmente Afectivo», e a aventura pop de Ana Paula Reis «Utopia» (1984).
Formados também em 1982, os Ópera Nova começaram por ser um trio constituído por Luís Beethoven, Manuel Andrade Rodrigues e Pedro Veiga, todos eles estudantes, entre os 18 e 20 anos. Com imagem apurada pelo costureiro Zé Pedro apresentam-se em 1983 com o máxi-single «Sonhos», que juntamente com o disco dos Poke e o álbum «Caminhando» (1983) dos Da Vinci, representa a essência do breve movimento electro pop português de 80. Os Ópera Nova apresentam uma música tecnicamente apurada, na qual se cruzam referências dos OMD e Visage (atenção ao «lettering» na capa). Braunyno da Fonseca substitui, pouco depois, Manuel Rodrigues. Luís Beethoven afasta-se mais tarde. Editam ainda «México», single menor de 1984, e desaparecem do mapa.
N.G.

ÓPERA NOVA 
«Sonhos» 
máxi-single, Polydor, 1983

Lado A: «Sonhos» (versão longa); 
Lado B: «Luar», «Palavras» 
Produção: Carlos Maria Trindade









18.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (16)



DN - Diário de Notícias
27 Julho 2002

Discos Pe(r)didos


Tal como o californiano Darin Pappas nos anos 90 (ver entrevista ao lado), Sheila Charlesworth encontrou em Portugal os estímulos que a levaram a encetar uma carreira na música. Nascida em Toronto (Canadá) em 1949, viveu parte da infência e juventude em Montreal, onde conheceu os primeiros sucessos como actriz e modelo.
Por ocasião de uma viagem a França, em 1970, assiste em Paris a uma representação do musical «Hair», e algum tempo depois faz parte do elenco, como actriz. É aí que conhece Sérgio Godinho, com quem terá uma relação pessoal e em quem conhecerá um importante parceiro musical. Em 1971, Sheila participa nas gravações de «Os Sobreviventes», álbum de estreia de Sérgio Godinho, no qual surge depois creditada com «coros, sanduíches e amor».
Com Sérgio Godinho vive, então uma série de episódios históricos. Juntam-se ao Living Theatre (com o qual vivem o «caso» brasileiro de 71, com dois meses de prisão em Ouro Preto), residem temporariamente em Amsterdão, regressam a Paris para gravar «Pré-Histórias» e, em 1972, partem para o Canadá onde casam e se dedicam ao teatro.
Já com a filha Jwana, o casal regressa definitivamente a Portugal. Sheila colabora então numa série de discos: «À Queima-Roupa» (Sérgio Godinho, 1974), «Semear Salsa Ao Reguinho» (Vitorino, 1975), «De Pequenino Se Torce O Destino» (Sérgio Godinho, 1976), «Fernandinho Vai Ao Vinho» (1976)...
Em 1977 grava finalmente, então já com o nome artístico de Shila, um álbum de canções que conta com um lote de colaboradores de luxo já que, além de Sérgio Godinho, estão presentes Fausto, Carlos Zíngaro, Júlio Pereira, Paulo Godinho (ex-Pop Five Music Incorporated), Guilherme Scarpa, Francisco Fanhais e uma bem jovem Eugénia Melo e Castro. O disco, que receb por título «Doce de Shila» é um magnífico conjunto de canções, a maior parte delas da autoria de Sérgio Godinho (duas em colaboração com Carlos Zíngaro, uma num trabalho conjunto de adaptação de um tema popular com Fausto), uma de Júlio Pereira e uma de Fausto (sobre poema de Reinaldo Ferreira). Os arranjos são assinados por Godinho e Fausto, à excepção de «Entre a Flor e a Enxada», de Júlio Pereira.
Tiveram particular exposição os temas «Chula» (tradicional, com letra adaptada e transformada por Sérgio Godinho e Fausto, dando origem ao conhecido refrão «P’ra melhor está bem está bem / P’ra pior já basta assim») e «Mais Um Filho». Contudo, o «caso» deste álbum será inevitavelmente o tema de abertura: «Espectáculo». Esta corresponde à primeira gravação de um tema que Sérgio Godinho gravou, mais tarde em «Canto da Boca» e que, recentemente, conheceu nova leitura na colaboração com os Clã para o espectáculo (e disco) «Afinidades». Um ainda suave e delicioso «sotaque» pontua, todavia, esta versão original de Shila, num momento histórico ainda à espera de passaporte para a era digital.
Nos anos seguintes, Shila gravaria ainda o álbum «Lengalengas e Segredos» (editado em 1979) e ainda alguns singles. Dedica-se essencialmente ao teatro antes de, já em 1990, abandonar definitivamente a vida artística.
N.G.

SHILA
«Doce de Shila» 
LP, Lá Mi Ré (1977)
Lado A: «Espectáculo», «Chula», «Doce de Shila», «Mais Um Filho», «Entre a Flor e a Enxada»;
Lado B: «Rapa Tira Deixa e Põe», «Parteira do Mar», «Dança de Amargar», «Rosie», «Gente Assim».

Engenheiro de Som: José Fortes






DN - Série: Discos Pe(r)didos (15)



DN - Diário de Notícias
08 Junho 2002

Discos Pe(r)didos



Da revolução de 1980/81, quando na sequência dos êxitos de Rui Veloso, dos UHF, GNR, Trabalhadores do Comércio e Salada de Frutas se instituiu uma espécie de nova ordem de gostos e prioridades, colocando o novo pop/rock cantado em português na primeira linha dos objectivos, nasceu um verdadeiro cenário de explosão demográfica no panorama musical lusitano.
Grande parte das carreiras emergentes usavam o single como veículo de exposição ideal para as suas canções, raros sendo os casos de grupos e artistas que apostaram em primeiro lugar no formato de álbum. Rui Veloso, Táxi e Opinião Pública são raros casos de apostas no LP, dele nascendo, depois, os inevitáveis singles.
O clima de euforia colectiva que o meio pop/rock então vivia levou a que muitas pequenas editoras se aventurassem na edição de rock português. Afinal, nada mais que a aplicação (à nossa escala) de princípios que a revolução punk e a continuidade via new wave tinham impresso recentemente À bem nutrida indústria discográfica inglesa. Entre as pequenas editoras que então entram em cena destaca-se a Rotação, na qual o homem do leme era António Sérgio (já então um conhecido divulgador na rádio e com provas já prestadas na edição discográfica, nomeadamente como co-produtor, em 1979, de «Música Moderna», o álbum dos Corpo Diplomático, isto sem esquecer a «famosa» compilação «Punk Rock 77»).
A «bandeira» da Rotação era, naturalmente, a estreia discográfica dos Xutos & Pontapés, que ali editaram os dois primeiros singles «Sémen» (1981) e «Toca e Foge» (1982), bem como o álbum de estreia «78/81» (também em 1982). Perante o cenário de investimento que caracterizava todos os pólos de edição na altura, a Rotação avança pelo ano de 1982 com uma série de novos nomes: Mau Mau, com o single «Xangai», Tânger, com o single «Zé, Zé Ninguém», Manifesto com o single «Nuclear (À Beira Mar)». A estes juntam-se ainda os Malaposta e os Sub-Verso... Todavia, nenhum dos grupos da Rotação, à excepção dos Xutos & Pontapés, conhecem tamanha expectativa interna e alguns resultados concretos como os Opinião Pública, uma banda, de certa forma, «apadrinhada» pelos UHF.
No quarteto, constituído por Carlos Estreia (voz, guitarra), Pedro Lima (guitarra), Luís Fialho (baixo, teclas) e Carlos Baltasar (bateria), António Sérgio identificara um caso de possível complementaridade pop aos Xutos & Pontapés. A estreia faz-se com «Puto da Rua», canção que imediatamente chega à rádio e tira os Opinião Pública do anonimato e apresenta o álbum «No Sul da Europa», com o qual o grupo faz a sua estreia (encetando uma discografia que receberia depois, apenas, o single «Puto da Rua»).
Se nos Xutos & Pontapés António Sérgio «ousara» um lugar na produção, com os Opinião Pública cede a cadeira a António Manuel Ribeiro (dos UHF) e à própria banda. De som seguro e muito característico. Das estéticas da altura, «No Sul Da Europa» é um interessante (e quase esquecido) documento do rock português de inícios de 80, dividindo as canções entre momentos de puro prazer de uma pop lúdica (como «Ritmo de Vida» ou «Walkman», e alguns retratos de cenas do quotidiano urbano de então (de que são bons exemplos «Puto da Rua» e «Subúrbio»).
Apesar de coerente e significativamente mais interessante que grande parte dos demais estreantes seus contemporâneos, os Opinião Pública, tal como todo o restante catálogo da Rotação (à excepção dos Xutos & Pontapés), desapareceram entre as primeiras vítimas da crise de 1982/84, uma das mais «mortais» da história pop/rock cantada em português.
N.G.

OPINIÃO PÚBLICA
«No Sul da Europa»
LP Rotação
Lado A: «Ritmo de Vida», «Sem Destino», «Sul da Europa», «Puto da Rua», «Na Terra»;
Lado B: ««Walkman», «Cumprindo As Regras», «Duplo Controle», «Subúrbio»
Produção: António Manuel Ribeiro e Opinião Pública






17.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (14)



DN - Diário de Notícias
25 Maio 2002

Discos Pe(r)didos


A alvorada de uma cultura alternativa na música portuguesa é uma das mais importantes conquistas da segunda geração de 80. Depois de aberto o espaço à explosão de uma cena pop/rock local, em grande parte cantada em português (mesmo que plena de referências estéticas importadas), a segunda «leva» de acontecimentos no Portugal musical de 80 fez coexistir um tempo de ressurgimento de músicas de raiz tradicional com um surto de criatividade urbana ciente de uma vontade em romper as formas mais imediatas pelas quais se haviam definido os primeiros traços de uma identidade pop/rock lusitana.
Graças ao aparecimento de novos espaços de ensaio e apresentação pública de projectos (e aqui é inevitável a referência a um Rock Rendez Vous em Lisboa e um Luís Armastrondo no Porto), fruto também da abertura de estúdios de gravação, e, muito importante, a criação de alguns programas (poucos) na rádio e novos veículos de jornalismo musical escrito, uma cultura alternativa começa a brotar de forma evidente entre nós.
Sob a batuta de João Peste, na altura já um nome de respeito ca cena «alternativa» local, graças ao trabalho dos Pop Dell’Arte, a Ama Romanta é uma entre as várias editoras independentes que se aventuram no mercado discográfico português de meados de 80. DE 1986 a 1991 a actividade da editora será irregular nos tempos de agenda, mas determinante no lançamento e abertura de horizontes. De resto, ao revisitar o seu catálogo contamos com discos dos Pop Dell’Arte (o máxi «Querelle», o single «Sonhos Pop» e o LP «Free Pop», em 87, o máxi «Illogik Plastik», em 89, e o CD «Arriba Avanti! Pop Dell’Arte», em 91), Mão Morta (o álbum «Mão Morta», em 88), Mler Ife Dada (o single L’Amour Va Bien Merci», em 86), Cães Vadios (o single «Cães Vadios», em 87), Anamar (o máxi «Amar Por Amar», em 87), Projecto Som Pop (com o álbum «Pipocas», em 88), Sei Miguel (os álbuns «Breaker», em 88, «Songs About Terrorism», em 89) e «The Blue Record», também em 89), Telectu (o álbum «Camerata Electronica», em 88), Tozé Ferreira (o álbum «Música de Baixa Fidelidade», em 88), Nuno Canavarro (o fundamental «Plux Quba, em 89), Santa Maria Gasolina em Teu Ventre (o álbum «Free Terminator», em 89) e João Peste e o Axidoxibordel (o único EP, em 90).
O catálogo da Ama Romanta abriu, contudo, com uma compilação. Uma espécie de carta de intenções na qual tanto encontrávamos projectos e nomes que depois permaneceram ligados à editora, como projectos expressamente gerados para as gravações ali registadas e casos que seguiram, depois, vida própria, em outras paragens.
Nomes de proa da cena «alternativa» portuguesa de meados de 80 juntam-se no disco (duplo) que mais fielmente ilustra movimentações diferentes, algumas com descendência, outras episódios únicos.
Momento inesperado e curioso na compilação, uma entrevista de João Peste a Paquete de Oliveira (com música do próprio João Peste) conduz-nos por uma série de importantes reflexões, hoje incrivelmente ainda com mais sentido que em 86. Com texto e contexto, «Divergências» é «o» retrato mais completo da cultura musical alternativa do Portugal de meados de 80, com algumas das suas faixas entretanto reeditadas na compilação «Sempre», retrato de fragmentos da história da Ama Romanta editada pela Música Alternativa em 1999.
N.G.

VÁRIOS 
«Divergências» 
LP duplo, Ama Romanta, 1986
Lado A: Bastardos do Cardeal, Mler Ife Dada, Jorge Martins, Miguel Morgado + Nuno Rebelo + Pedro Mourão, A Jovem Guarda; 
Lado B: Entrevista a Paquete de Oliveira, Pop Dell’Arte, Os Cães A Morte e o Desejo, Mário e Peter, Maguedesi; 
Lado C: Anamar, SPQR, Croix Sainte, Nuno Rebelo, Extrema Unção; 
Lado D: Bairro, Grito Final, João Peste, Bye Bye Lolita Girl, Essa Entente, Linha Geral
Colectânea organizada por João Peste e Maria João Serra










14.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (13)



DN - Diário de Notícias
11 Maio 2002

Discos Pe(r)didos


Tinham passado quase dez anos sobre o momento no qual os GNR conheceram a sua segunda mudança de formação. Em finais de 1982, depois de concluído e editado o fundamental e histórico «Independança» (ainda à espera de reedição em CD, tal e qual o sucessor «Defeitos Especiais», de 1984), Vítor Rua junta-se a Jorge Lima Barreto para concluir «CTU», o álbum de estreia dos Telectu, o novo duo constituído por ambos, no qual se desenhavam rumos de fuga aos passos pop/rock nos quais Vítor Rua circulara até então. Depois de editado o álbum dos Telectu, Vítor Rua e Toli iniciam o trabalho de produção de «Anjo da Guarda», o LP de estreia de António Variações, para a Valentim de Carvalho, editora dos GNR e, até esse momento, também dos Telectu. Vítor Rua abandona o trabalho no disco de Variações e parte para Nova Iorque. Ao regressar propõe uma pausa nos GNR, o que não agrada aos restantes elementos do grupo. Decide, então, afastar-se e seguir rumo próprio...
Apesar da separação, um diferendo oporá, durante anos, Vítor Rua aos restantes elementos dos GNR. Um diferendo que parte da questão da posse dos direitos do nome do grupo, que ficam pelo lado de Reininho, Toli e Alexandre Soares. A 15 de Fevereiro de 1983, Vítor Rua escreve, no «Sete», um texto no qual explica ser ele o proprietário do nome GNR e proíbe o grupo de tocar ao vivo as composições que ele escrevera para a banda...
Um novo episódio deste complicado caso tem lugar quando os GNR editam, em 1990, o duplo álbum ao vivo «In Vivo», gravado num concerto na Alameda D. Afonso Henriques. O disco incluía «Hardcore (1º Escalão)», «Portugal na CEE» e «Sê Um GNR», todos eles interditados por Vítor Rua junto da SPA. A primeira edição esgota, e é substituída por uma outra que passa a incluir «Homens Temporariamente Sós»... A primeira edição é hoje uma peça disputada no circuito de coleccionismo.
Um ano depois, num momento de pausa no trabalho dos Telectu, Vítor Rua edita um disco através do projecto Vidya e um outro através de um nome que gera nova polémica: Pós-GNR.
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja», apresentado aos media numa conferência de imprensa na sede da PolyGram, onde se voltou a levantar o velho drama dos direitos de utilização do nome GNR, é um disco no qual Vítor Rua procura um interessante reencontro com as linguagens pop/rock. Depois de quase uma década de experimentação noutros territórios, o reencontro faz-se segundo regras distintas das que os próprios GNR tomaram, procurando antes um entendimento entre formas da cultura popular e elementos da invenção «livre» característica de correntes de vanguarda, temáticas de decadência, da vida na grande cidade... De certa forma, «Mimi Tão Pequena e Tão Suja» procura ser uma herança, distante, das pistas deixads em aberto no álbum de estreia dos GNR, reencontradas e encaradas por um músico que, entretanto, acumulara outros hábitos e percursos. Esta ideia de continuidade é sublinhada por temas como «Hardcore II» e «Independança II»... Curiosamente, não se encontram aqui marcas notórias de descendência de «Avarias»...
Com alguns bons momentos em canções como «In The City» ou «City Of Love», o álbum passa a Leste das atenções, não só do público mas também de muitas estações de rádio. Exactamente o cenário oposto ao que receberia, um ano depois, «Rock In Rio Douro», dos GNR.
Em 1996, cinco anos depois deste único álbum sob o nome Pós-GNR, Vítor Rua surgia (assim como Alexandre Soares) na festa de lançamento do «best of» dos GNR. Pazes feitas, conflito sarado. A música agradece.
N.G.

PÓS-GNR 
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja» 
LP, PolyGram
Lado A: «In The City», «City Of Love», «Very Speed Song», «Hardcore II», «Speak With Me Please», «Nothing», «Independança II»; 
Lado B: «Junkie Fly», «Wars Of Fights», «Scales Of Solos», «Strange Perception», «The Next Album...» Produção: Vítor Rua






13.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (12)



DN - Diário de Notícias
06 Abril 2002

Discos Pe(r)didos


Lisboa, 1984. Com quatro anos de vida, o Rock Rendez Vous (RRV) encetava um certame que se transformaria, em pouco tempo, numa espécie de ex-libris da «casa»: o Concurso de Música Moderna. Fruto de um momento de fervilhante agitação nos espaços da criação e divulgação de uma emergente ideia de música alternativa portuguesa. Resultado, por um lado, de uma natural resposta dos músicos à implosão do mercado mais «oportunista» de 1982 e, por outro, da solidificação de importantes espaços de divulgação na rádio (Comercial e Renascença) e imprensa («Sete» e, mais tarde, já em finais de 1984, a entrada em cena de uma publicação de especialidade: o «Blitz»), um novo mundo de bandas e conceitos aguardava a abertura de uma janela. E assim aconteceu, na Rua da Beneficência ao Rego.
Para a primeira edição do Concurso de Música Moderna do RRV inscreveram-se um total de 101 bandas, das quais 24 foram seleccionadas, seis delas apuradas, depois como finalistas... Na final eram jurados António Sérgio (Rádio Comercial), Ana Cristina (Rádio Comercial), Rui Pêgo (Rádio Renascença), Ana Rocha («A Capital»), João Gobern («Sete»), Amílcar Fidélis («Diário Popular»), António Manuel Ribeiro (UHF), Manuel Cardoso (Frodo), Zé Pedro (Xutos & Pontapés) e João Santos Lopes (RRV). Vencedores... os Mler Ife Dada.
Formados poucos meses antes, os Mler Ife Dada eram, nesta sua primeira formação, Nuno Rebelo (baixo), Pedro d’Orey (voz) e Kim (guitarra) e mostraram desde logo, nas eliminatórias e final do concurso do RRV, uma ideia de franca identidade e personalidade tanto no som como na imagem, deles nascendo (de facto), a mais sólida proposta em competição.
Como parte do prémio, coube ao grupo a hipótese de registar um primeiro disco, gravado pouco depois nos estúdios da Rádio Triunfo, com Paulo Junqueiro (hoje A&R nacional da EMI-VC) e produção de Nuno Canavarro (ex-Street Kids, tal como Nuno Rebelo).
«Zimpó», o máxi-single com o qual os Mler Ife Dada assinalam, em inícios de 1985, a sua estreia editorial, é um interessante representante da ponta do icebergue de uma multidão de projectos que procuravam então novas formas na vanguarda de uma «nova» música portuguesa (chamavam-lhe «moderna» na época).
O disco é constituído por apenas três temas, o primeiro dos quais (o tema-título)  ainda hoje recordado como uma das pérolas esquecidas da pop alternativa lusitana de 80, fluente na estrutura rítmica, animado e conduzido por uma guitarra que tanto citava os Durutti Column como parecia assumir a essência antiga da guitarra portuguesa. Na face B do máxi-single apresentavam-se dois temas cantados em inglês, cativantes, mas em nada comparáveis a «Zimpó».
Complemento fundamental às três canções apresentadas no disco, a capa do máxi-single é mais uma clara manifestação das intenções estéticas de um grupo com uma consciência de arte final invulgarmente apurada para o que era norma na época. Uma pintura de Mateus e Sérgio, sobre a qual se inscrevem (na contracapa) os créditos e fotografias é interessante expressão visual de um som novo, moderno, desafiante, avesso à prática d o «mais do mesmo».
O grupo não conheceu, contudo, vida longa com esta formação tanto que, alguns meses depois, apenas Nuno Rebelo se mantinha nos Mler Ife Dada, acompanhado por uma série de novos músicos, entre eles a vocalista Anabela Duarte, que se estreariam no single «L’Amour Va Bien Merci» (1986), ao que se seguiria, já em 1987, o clássico «Coisas Que Fascinam», álbum de estreia e um dos mais importantes registos da história do pop/rock lusitano.
N.G.


MLER IFE DADA 
«Zimpó»
Máxi-single, Dansa do Som, 1985 
Lado A: «Zimpó»; 
Lado B: «Stretch My Face», «Spring Swing» 
Produção: Nuno Canavarro








11.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (11)



DN - Diário de Notícias
30 Março 2002

Discos Pe(r)didos



Na recta final de 70 os Tantra eram um dos raros casos de sucesso no rarefeito panorama pop rock português. A estreia, com «Mistérios e Maravilhas» (1977), seguida de um inesperado triunfo no Coliseu dos Recreios, gerava um fenómeno que nascia nas esferas de um som sinfónico, com alguma contaminação progressiva, um pouco nos caminhos sugeridos pelo eixo Genesis / Yes. Seguiu-se, no ano seguinte, «Holocausto», disco que volta a gerar um caso de popularidade no circuito «roqueiro luso», com duas noites de triunfo no Coliseu. A estes espectáculos, nos quais surge já nas teclas Pedro Luís (em substituição de Armando Gama, que partira para formar os Sarabanda), segue-se inesperado silêncio de três anos. E o grupo, que havia assumido a ideia de um som rock cantado em português, vê-se então ultrapassado pela popularidade dos novos nomes que entram em cena. Manuel Cardoso, o vocalista e um dos fundadores dos Tantra, havia já assumido o seu alter-ego de Frodo...
Quando, em 1981, é editado o derradeiro álbum dos Tantra, «Humanoid Flesh» (no qual participa, no baixo, Pedro Ayres Magalhães), o fim do grupo está à vista, sobretudo dado o fracasso de um disco talvez incompreendido, que trocava as linguagens progressivas de 70 por uma aproximação às emergentes sugestões da new wave.
Manuel Cardoso toma então definitivamente o nome do seu alter-ego Frodo e parte em busca, não de respostas sobre um anel, mas para uma carreira a solo que nos deixou dois registos dignos de referência. Estreia-se com o single «Machos Latinos» (ainda em 1981), ao qual sucede o álbum «Noites de Lisboa», no qual se conhece, de certa forma, uma lógica de continuidade face a alguns elementos da música dos Tantra, nomeadamente o prazer pela elaboração dos fundos (um pouco ao jeito das normas sinfonistas), aqui, todavia, empregando regras de maior simplicidade ao nível dos recursos, sublinhando assim critérios de contemporaneidade, aceitando as marcas de um presente onde uma nova lógica electrónica encontrava o seu espaço no contexto da canção pop.
Ao seu lado, neste «Noites de Lisboa», encontramos alguns ex-Tantra, como Pedro Luís (que então dava também os primeiros passos com o seu projecto pessoal, os Da Vinci) e António José Almeida (o baterista que seguia, então, rumo próprio com os Heróis do Mar). António Emiliano (teclas) é outro dos convidados a desenhar retratos nocturnos de Lisboa com os quais Frodo propõe uma ideia de sofisticação pop que não se enquadrava nos padrões de um momento onde se descobriam ainda as adaptações lusitanas das normas do «fast and furious».
Nem muito «fast», nem muito «furious», mas enfim...
A capa do álbum, que reflecte uma ideia de identidade teatral e lembra, de longe, a figura do austríaco Falco (na altura na berra com «Der Komissar»), é um primeiro indício de um processo de autodeterminação de uma ideia pop que conduzia Frodo na alvorada de 80. A foto interior, onde junta a si os músicos, exibe uma noção de imagem apurada no sentido de uma sofisticação chique, quase neo-romântica, embora sem maquilhagem...
Musicalmente, sem se apresentar como um álbum revolucionário, «Noites de Lisboa» é um disco curioso e competente, bem mais interessante e representativo de uma proposta individual de rumo que muitos dos pastiches que o ano de 1982 vê nascer (e morrer) entre nós. Poucos meses volvidos sobre a edição deste seu álbum de estreia, Frodo edita um sucessor, no bizarro formato de duplo (álbum + máxi) «Zbaboo Dança», uma mais directa aposta na exploração de electrónicas, mas num recuo linguístico rumo ao inglês... E, como o anel, desapareceu em Mordor...
N.G.

FRODO 
«Noites de Lisboa» 
Vadeca, 1982
Lado A: «Vou Acordar No Paraíso», «Máquinas na Multidão», «Feitiço», «Labirinto»; 
Lado B: «Noites de Lisboa», «Manhãs Submersas», «Fado Louco», «Heróis da Noite» 
Produção: Frodo










10.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (10)


DN - Diário de Notícias
09 Março 2002

Discos Pe(r)didos


Chamava-se Carlos Cordeiro, mas ficou por muitos conhecido como Farinha Master, a voz e a alma dos Ocaso Épico. Morreu no passado dia 17 de Fevereiro. E, sem querer fazer desta uma coluna de necrologia, não podemos deixar de evocar «Muito Obrigado», um dos mais interessantes e escandalosamente esquecidos dos álbuns portugueses da segunda metade de 80. Um caso ímpar na história da família pop/rock lusitana.
Farinha Master era uma figura única, conhecida no eixo dos acontecimentos da Lisboa «esclarecida» de meados de 80, figura sobretudo regular nas melhores noites do Rock Rendez Vous. Tinha passado já pelos WC quando lança as bases de um projecto que procura novas formas de explorar dados «kitsch» em linguagens urbanas. Em busca de uma nova música «foleira», cria as bases dos Ocaso Épico, colectivo musicalmente interventivo e esteticamente desbragado pelo qual passaram nomes como os de Alberto Garci (baterista dos Rádio Macau e Mler Ife Dada), Rui Fingers, Manuel Machado (Essa Entente) ou Anabela Duarte (Mler Ife Dada).
De um desafio de Mário Guia (do Rock Rendez Vous), nasce a proposta de gravação de um álbum, com edição garantida pela Dansa do Som, a etiqueta ligada à mítica sala da Rua da Beneficência ao Rego.
Gravado «em prestações» (como se lê na capa interior) entre 1987 e 88, o álbum representa uma das mais incríveis aventuras do pop/rock português de então, num espaço que lança pistas tão díspares quanto bases electropop, fraseados rítmicos beirões, teclas do melhor plástico-pop e pontuais cenografias magrebinas (como em «Cortar Ou Cortar-se»)... Tudo isto devidamente «arrumado» numa lógica quase conceptual que concentrou na face A do vinil as canções do apregoado «neo-foleirismo» urbano e, na face B, três suculentas fatias de curioso e cativante paisagismo ensaísta.
O disco é dominado por teias de programações, linhas melódicas que nasceram de fragmentos e se foram juntando em momentos de ensaio e erro... A ideia de experimentar terá certamente presidido a todos os episódios de criação, conseguindo o disco um efeito de desafio à audição atenta de cada um que, anos depois, se detenha atentamente frente aos muitos sons, linhas e ideias que encerra. Nele participaram, além de Farinha Master, nomes como os de Pedro Barrento (programações), Zé Nabo (baixo), Ricardo Camacho (piano) e Rui Fingers (guitarra), entre outros.
Farinha Master e as suas palavras (sem travão nem filtro) servem depois de lógica de unidade entre experiências lançadas em diversos rumos estéticos. No todo, «Muito Obrigado» é um coeso manifesto de versatilidade pop onde o «kitsch» deve ser entendido como mais que a mera anedota para gargalhada imediata. O humor é franco e sólido, entendido sobretudo como recurso de estilo numa linguagem que, mesmo tecnicamente debilitada pelos recursos à sua disposição, não deixa de criar um pequeno concentrado de ideias que cativaram um pequeno culto e garantiram aplausos a um disco que, todavia, passou a Leste de muitas atenções.
Uma cassete, em 1989 («Desperdícios»), representou a única sucessão registada de «Muito Obrigado», tendo o grupo desaparecido depois de pontual actuação em 1993. Farinha formou, entretanto, os Angra do Budismo, projecto através do qual gravou «Transformação», em 2001.
N.G.

OCASO ÉPICO 
«Muito Obrigado»
Dansa do Som, 1988
Lado A: «Tinto If», «O Camelo», «Cafécucerto», «Da Beira Baixa à Extrema-Dura»; 
Lado B: «Adamastor», «Desoriental», «Cortar Ou Cortar-se»
Produção: Zé Nabo e Mário Guia

    




9.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (9)



DN - Diário de Notícias
02 Março 2002

Discos Pe(r)didos



Sinais dos tempos, o Portugal de finais de 70 vivia ainda os reflexos próximos da revolução. Na música era ainda notória a presença protagonista dos espaços de intervenção e afins, notando-se sinais de reacção apenas nas esferas de propostas mais ligeiras, que então começam a emergir. O rock vivia uma existência meio adormecida, sem Norte, com pontuais focos de agitação em aventuras próximas do som progressivo. Aventuras alheias às dinâmicas dos espaços de divulgação radiofónicos e televisivos, quase votando o tímido silêncio toda a força que eventualmente brotasse de um amplificador em ensaios de garagem.
Enquanto por aqui se ensaiavam as primeiras eleições livres da «era moderna», Londres e Nova Iorque acolhiam uma importante revolução musical que reflectia as angústias e limitações de uma nova geração de filhos de uma economia global desfavorável. Com um semelhante sentido de urgência, apesar das francas diferenças entre as manifestações em Nova Iorque (mais letradas e abraçadas pelos círculos intelectuais alternativos) ou em Londres (com origens num proletariado urbano culturalmente desfavorecido) o punk rompia os cenários da música feita teatro e negócio de meados de 70, e apresentava ao mundo uma nova forma de estar na música. Rude, rápida, viva, ansiosa, de concretização imediata, independentemente dos meios.
Apesar de pontuais faróis (um deles o fulcral programa «Rotação», de António Sérgio, na Rádio Renascença), o fenómeno ameaçava passar a Oeste do Cabo da Roca, já que nem a Phonogram (hoje universal) e Valentim de Carvalho (hohe EMI-VC) mostravam vontade de editar Sex Pistols, The Clash, X-Ray Spex...
Nos escaparates de algumas discotecas da baixa lisboeta surge, de um dia para o outro, uma compilação de capa a preto e branco, de «design» rude (onde não faltam alfinetes e lâminas de barbear). «Punk Rock / New Wave ‘77» era o título, editado pela desconhecida Pirate Dream Records... Com Zhe Guerra e Joaquim Lopes, António Sérgio havia formado a primeira etiqueta independente da indústria discográfica, destinada assim a divulgar os nomes do punk e new wave aos quais pareciam estar alheias as multinacionais do ramo. O trio regista a editora e licencia temas dos Sex Pistols, Skrewdriver, Motorhead, Eater, The Jam, London, The Rings, Generation X, The Radiators From Space, Warm Gun e Hideous Strenght, que logo reúne para esta compilação que cai no panorama nacional como uma pedrada no charco, decidida a representar e divulgar sons que ameaçavam escapar à atenção dos portugueses.
A pax lusitana é, entretanto, interrompida por uma acção judicial contra o disco, lançada pela Phonogram que acusa a editora de pirataria e afirma serem seus os direitos dos Sex Pistols. A Valentim de Carvalho despede, então, António Sérgio, que ali trabalhava emtão como promotor. A acção do director de programas da Rensacença, Albérico Fernandes, impede que semelhante cenário se repita no éter, que diariamente continua a receber as emissões de «Rotação». O julgamento prolonga-se até 1981, sendo os réus absolvidos sem que as acusações fossem provadas.
O disco, que teve uma tiragem de 500 exemplares, é hoje peça cobiçada nos circuitos de coleccionismo. Quanto Às multinacionais incomodadas com o «caso», apressaram-se a editar compilações e singles punk e new wave! A palavra tinha passado.
N.G.

VÁRIOS
«Punk Rock – New Wave ‘77»
Pirate Dream Records








7.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (8)


DN - Diário de Notícias

Discos Pe(r)didos


Lisboa, 1978. Os Tantra enchiam o Coliseu, José Cid apostava em «10 Mil Anos Depois Entre Vénus e Marte», os Petrus Castrus regressavam aos álbuns com «Ascensão e Queda»... O rock de alma sinfónica tentava borbulhar à superfície num tempo ainda dado a protagonismos nas esferas da intervenção política, suas sequelas e primeiras reacções opostas em domínios ligeiros...
Em espaços de ebulição no restrito circuito underground da capital, dois projectos encabeçaram então uma vaga de reacção ao sistema, assimilando a essência da revolução punk que varrera Londres em 76. São eles os Faíscas (de quem nasceriam os Corpo Diplomático), que acabam por não editar, e os Aqui d'El Rock.
Os Aqui d’EL Rock são uma banda nascida em filhos do proletariado urbano de 70, com uma crueza punk primordial no seu discurso, diferente dos Faíscas, filhos da classe média. A violência verbal é a arma primordial, e a seu favor pende ainda uma rodagem maior dos quatro elementos, em tempos conhecidos como Osíris, numa encarnação formal bem diferente. Com uma linguagem muito próxima das manifestações de raiz do punk londrino, os Aqui d’El Rock são o primeiro e, na absoluta verdade, o único grupo punk português a editar discos, já que os restantes praças do movimento que também chegaram ao registo discográfico o fizeram já em momentos das suas carreiras em que o punk havia já evoluído uma linguagem própria, ou no sentido da new wave (Corpo Diplomático) ou para um novo, e menos espartano, rock urbano, mais temperado (Xutos & Pontapés).
A estreia dos Aqui d’El Rock faz-se com o single «Há Que Violentar O Sistema», single que incluía «Quero Tudo» no lado B, duas canções que traduzem hoje a essência possível do punk português, fenómeno que viveu mais de boas intenções e desejos de mudança que de factos realmente consumados. A sua importância seria, sobretudo marcante ao nível da abertura de frestas na consciência de alguns divulgadores e editores, preparando, inconscientemente, o caminho para a revolução que assolaria o país musical em 1980.
Sem papas na língua e «speedados» (como se anunciam), desferem golpes no sistema, que violentam por uma música não sofisticada, directa. Todavia, estávamos em tempos de poucas atenções mediáticas por fenómenos corrosivos a um sistema que ensaiava uma ideia de democracia de facto, que só seria devidamente estabilizada (social e economicamente) depois. E excluindo timoneiros da divulgação como António Sérgio, a revolução punk ficou sem amplificação para o país real.
N.G.


AQUI D’EL ROCK 
«Há Que Violentar O Sistema» 
Metro-Som, single, 1978 
Lado A: «Há Que Violentar O Sistema»; 
Lado B: «Quero Tudo»








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