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14.12.18

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #76: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - "Escritos de Fernando Magalhães - Volume XII: 2004/2005"


autor: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - Prefácio: Vitor Joaquim
título: Escritos de Fernando Magalhães - Volume XII: 2004/2005
editora: Lulu Publishing
nº de páginas: 476
isbn: none
data: Dezembro de 2018


PREFÁCIO

À escuta no MARR
Por Vitor Joaquim

É com grande prazer e uma imensa gratidão que dedico estas minhas palavras ao fugaz amigo Fernando Magalhães. Há já algumas semanas que o Tiago Carvalho me convidou para escrever o prefácio de mais uma série de escritos do FM. Ao longo deste tempo, tenho pensado no que dizer sobre ele. Na verdade, sinto que era capaz de estar horas a fio a falar do FM, porque para falar dele é preciso metermos o mundo todo na conversa, implica não deixar nada de fora e ter tudo em consideração. É pensar em tudo e em nada ao mesmo tempo. Daí que me tenha sido tão difícil começar. Não por não querer, mas por não saber como começar ou sequer saber sobre o que falar.
Tendo ele escrito palavras que se viriam a revelar fundamentais para mim, sobre discos meus, o processo fica imediatamente contaminado pela subjectividade de um olhar que nunca poderá ser neutro. Devo-lhe mais do que muito por tudo o que escreveu sobre o meu trabalho, e só por isso, já lhe fico eternamente grato. Mas depois de muito revolver as memórias que dele transporto, acho que muito mais importante do que falar sobre o que ele escreveu sobre mim é falar daquilo que tínhamos em comum, eu como músico e ele como ouvinte: o prazer de ouvir e descobrir o mundo através da música. Esse prazer que parece começar a perder-se na forma desenfreada como hoje se ouve música e que aproxima a relação muito mais a um processo de consumo do que a um processo de fruição. Muito se tem escrito sobre a forma desenfreada e a rapidez com que actualmente se ouve música. Sendo certo que uma elevada percentagem das músicas tocadas não são ouvidas na sua totalidade até ao fim, começa a ser por demais evidente que a tendência tende a acentuar-se a cada ano que passa. Fruto de uma insatisfação e de uma inquietação permanente, as novas gerações de ouvintes de música, vêem-se muito mais a si próprios como consumidores do que como amantes da escuta.
Nesse sentido, a memória do FM impõe-se-me imediatamente sobretudo pela forma como cultivava a atenção pela escuta e pela ponderação proporcionada pelo momento de ouvir. Um momento que se intuía mágico e simultaneamente reflexivo. Quase como se fosse um momento religioso.
E é justamente a esse propósito que gostaria de recordar uma noite de escuta partilhada que jamais esquecerei. Não me recordo do dia de semana ou sequer do ano. Tenho como certo que não terá sido muito antes da sua morte, mas é tudo o que recordo em termos temporais.
Por iniciativa de uma série de amigos, entre os quais se inclui o Tiago Carvalho, o Luis Marvão e o Silva, realizou-se no bar MARR, em Setúbal, uma sessão de escuta da autoria do FM. Aquilo a que hoje em dia se poderia considerar um verdadeiro trabalho de curadoria contemporânea.
A sessão consistia em estar num bar a fazer duas coisas, basicamente: beber (uma inevitabilidade) e ouvir. Sendo um bar com um sistema de som razoável, não havia propriamente nada de estranho na proposta. É aliás algo que se faz habitualmente em bares. O que este programa tinha de inovador é que quase ninguém falava enquanto a música desfilava. Quase toda a atenção era dedicada a ouvir e circular pelo espaço de uma forma que mais parecia de deambulação do que de se querer ir a algum lado. Conforme o momento, uns circulavam lentamente, outros ficavam parados a ouvir e a contemplar o som. Se é que se pode contemplar o som.
Havia ainda assim, um pormenor filho da mãe nesta produção: antes de iniciar a sessão, o FM distribuía a cada um dos presentes uma folha A4 com os temas que iam desfilar durante a noite. No entanto, havia um elemento surpresa: uma das músicas tocadas não constava da lista. Ou seja, a lista não estava realmente completa. No final, quem a conseguisse identificar (na realidade, descobrir) recebia das mãos do próprio FM um disco por ele oferecido. Este pózinho de perlimpimpim era o suficiente para deixar toda a gente com as antenas no ar durante o tempo de escuta e ouvir passava a ser uma ocupação a tempo inteiro.
Não menos importante era naturalmente o alinhamento dos temas. Era muito comum, depois de um tema dos Panasonic (ou Pan Sonic, conforme) poder-se ouvir um tema de Bach. Ou ao contrário. O inesperado fazia parte da receita e a imprevisibilidade tornava cada momento um verdadeiro deleite de audição. Cada um de nós, com um copo numa das mãos e uma folha A4 na outra, espremia-se até ao tutano por identificar cada um dos novos temas que iam desfilando, gozando cada momento de escuta ao máximo, alimentado pela vaga esperança de vir a descobrir o tema escondido da sessão.
Enquanto isso, o FM passeava-se pelo bar, olhando-nos com um misto de curiosidade, desafio e deleite. Largava uma dica aqui, uma dica ali e lá ia sorrindo, passeando-se de pessoa em pessoa, de forma a que a conversa não pudesse nunca ganhar raiz e retirar peso à escuta. Ficou-me a sensação de que nesses momentos nos sentíamos todos nas suas mãos, da mesma forma que estamos nas mãos de quem opera um comboio de uma montanha russa, totalmente vulneráveis e simultaneamente entusiasmados com a viagem.
Nesses momentos tudo era simples e cada um de nós era como uma criança, sempre de ouvidos abertos e à descoberta do mundo. Para todos os efeitos, só existia aquilo, ouvir.
Acabada a sessão, o entusiasmo era geral, desatava tudo à conversa a tentar revisitar o alinhamento e a descortinar o tema escondido. O bar Marr, esse, passava a ser aquilo que era normalmente: um bar igual a tantos outros. As nossas cabeças é que não eram nada iguais ao normal, fervilhavam pela noite dentro ressoando muito para além daquelas escassas horas de deleite. E provavelmente, sem que o percebamos, ainda hoje ressoam a esse momento.

Vitor Joaquim
                                                                                                                        29-11-2018



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3.7.18

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #74: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - "Escritos de Fernando Magalhães - Volume XI: 2003"


autor: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - Prefácio: Victor Afonso (Kubik)
título: Escritos de Fernando Magalhães - Volume XI: 2003
editora: Lulu Publishing
nº de páginas: 592
isbn: none
data: Julho de 2018

 Vol 11

PREFÁCIO

Fernando Magalhães – O Espírito Inquieto
Por Victor Afonso

Fernando Magalhães era um espírito inquieto. Para já, adorava o que fazia, que era ouvir música e escrever sobre ela. Ir a concertos e partilhar opiniões com os amigos. Ouvir discos e falar deles apaixonadamente até altas horas num bar do Bairro Alto. A sua inquietação dizia respeito ao prazer de descobrir constantemente música nova e a satisfação (quase pueril) de a dar a conhecer aos seus leitores.  Ou evocar a boa música do passado (anos 70 e 80). Gostava de muitos géneros musicais diferentes, e abria o espectro da curiosidade estética até ao limite do horizonte, que é como quem diz, até à plena diversidade artística. Interessava-lhe primeiramente a qualidade da arte musical. Só depois surgiam os rótulos, quase sempre necessários para etiquetar este ou aquele disco, este ou aquele estilo.
Mas este sempre foi um país que liga muito pouco à crítica de arte. Os críticos que escrevem para a imprensa generalista ou especializada, sejam de música, cinema, artes plásticas, literatura, ou de teatro, têm a nobre função de divulgar e promover os objetos culturais que analisam. Mas para quem escrevem os críticos? A verdade é que, na esmagadora maioria dos casos, os críticos escrevem para o próprio umbigo, para uns quantos iniciados e para... os outros críticos. É um círculo vicioso que em nada beneficia o leitor médio de jornais ou revistas. O exercício da crítica deve conter tanto de informativo como de emissão de juízo de valor e, tendencialmente, elaborada numa linguagem o menos técnica e hermética possível. Ora, no caso do Fernando Magalhães, a sua tónica era a de tornar percetível a toda a gente o seu discurso crítico. Não queria nada com linguagens académicas ou herméticas, queria que a sua análise chegasse ao maior número de pessoas possível. Talvez esta sensibilidade se devesse ao facto do Fernando ter sido formado em filosofia, e só mais tarde enveredaria pelo jornalismo por manifesta paixão. A filosofia deu-lhe ferramentas para saber escrever com superior qualidade, quer no conteúdo, quer na forma. Assim como certamente lhe abriu diferentes portas de perceção analítica, de abordagem crítica e de pensamento discursivo.
Durante anos escreveu para diversas publicações, mas foi no (então) semanário Blitz e no diário Público que a escrita de Fernando Magalhães se fez notar e granjeou uma pequena legião de seguidores. Para além do grande domínio da língua portuguesa, o jornalista tinha uma vasta e diversificada cultura musical, que lhe permitia dissertar com a mesma desenvoltura sobre fado, krautrock, eletrónica experimental, folk ou jazz (foi a ler muitas das suas críticas que desenvolvi o gosto pelas mestiçagens estéticas). Depois, detinha um sentido de humor férreo e sarcástico, sobretudo quando fazia reportagens de concertos ao vivo, com aquele seu olhar tão atento aos pormenores e às relações improváveis que estabelecia entre matérias como literatura, história, filosofia, cinema e, naturalmente, música. Tanto revelava valores musicais emergentes e obscuros como escrevia longas recensões sobre artistas consagrados como Frank Zappa, Residents, King Crimson, Anthony Braxton, Dead Can Dance, Tom Waits, Kepa Junkera ou (o seu muito amado) Peter Hammil. Muitas vezes se queixou que o Público não lhe dava rédeas soltas para escrever sobre aquilo que queria realmente escrever (dado que privilegiava as correntes musicais marginais e alternativas), facto que lhe proporcionava uma angústia crescente enquanto profissional da escrita jornalística. A crítica musical de Fernando Magalhães era cirúrgica, extremamente bem construída, inteligente, pragmática e pedagógica (a tal premissa importante mas desprezada por muitos críticos). Outra das suas características particulares: adorava elaborar listas. Listas dos melhores discos de cada ano e de cada género musical. Fez muitas dezenas de listas que divulgava nos jornais e na internet – como nesse magnânimo e insurreto fórum SONS, sítio online de boa memória com quem partilhava e discutia descontraidamente com muitas dezenas de amigos (muitos deles virtuais).

Voltando ao início e reiterando esta ideia: Fernando Magalhães exercitava com enorme prazer o seu gosto pela música, qual criança que descobria um brinquedo novo e excitante. Era um fervoroso militante no exercício da divulgação musical e não fazia concessões de gosto. Escrevia com prazer, e com prazer dissertava sobre as sonoridades que o fascinavam. Como diria o também saudoso radialista António Sérgio, o Fernando tinha esse poder de “incendiar o imaginário dos leitores”, o que não é dizer pouco. Pelo contrário, é dizer tudo, e só podia ser assim vindo de um espírito inquieto.


ÍNDICE


indiceVol11 by luisje on Scribd




29.3.16

Escritos de Fernando Magalhães, Volume IV - 1996 - novo livro 330 páginas -


Já saiu o Volume 3 das obras (quase completas) do crítico musical Fernando Magalhães, precocemente desaparecido do nosso convívio.
A homenagem continua com mais este volume, que podem adquirir aqui

http://www.lulu.com/shop/lu%C3%ADs-jer%C3%B3nimo/escritos-de-fernando-magalh%C3%A3es-vol-4-1996/paperback/product-22626788.html


O índice da obra pode ser visto aqui, ou abaixo





27.3.16

Escritos de Fernando Magalhães, Volume III - 1995 - novo livro 330 páginas -


Já saiu o Volume 3 das obras (quase completas) do crítico musical Fernando Magalhães, precocemente desaparecido do nosso convívio.
A homenagem continua com mais este volume, que podem adquirir aqui

http://www.lulu.com/shop/lu%C3%ADs-jer%C3%B3nimo/escritos-de-fernando-magalh%C3%A3es-vol-iii/paperback/product-22647517.html




O índice da obra pode ser visto aqui, ou abaixo






23.8.15

Escritos de Fernando Magalhães, Volume II - 1992/1994 - novo livro 460 páginas -


post do Facebook de Miguel Augusto Silva - autor do prefácio e amigo de Fernando Magalhães:

O Fernando Magalhães (5/2/1955 - 15/5/2015) - Espaço dedicado ao legado de Fernando Magalhães - foi um crítico musical que muito me influenciou e de quem tive a sorte de ser amigo durante uma dúzia de anos. O Luis Jeronimo e o Tiago Carvalho, também eles seus seguidores, têm dedicado grande parte do seu tempo - num exercício de amor a uma causa - a recuperar os textos que o Fernando escreveu. O último volume, recentemente publicado, reporta ao período entre 1992-94. Foi uma honra poder participar deste trabalho. Obrigado ao Luís, ao Tiago, e, claro, ao Fernando. O livro está disponível aqui:

No site da Lulu, onde o livro está à venda no formato "em papel" por menos de 10€ (+ portes), poderá explorar (cerca de metade - quem quiser saber o índice na sua totalidade envie email, pf) o índice do mesmo. Também está disponível a versão ebook (pdf).

Também aí está disponível o Volume I, que abarca os escritos iniciais do grande crítico e que cobrem os anos 1988 a 1991.

Entretanto aqui deixo o prefácio de Miguel Augusto Silva para este volume II:
 
O PÓ DAS ESTRELAS

Devia ser um daqueles fins de tarde como o de hoje, em que um Verão atrevido nos dá uma vontade terrível de ir estudar para os exames de fim de semestre… Deixei a Alameda e rumei ao Príncipe Real. Nesse tempo – 1992 ou 1993 – já havia poucas edições naquele formato grande, com capa de cartão… Por entre um lote fabuloso de novas edições de música tradicional em CD – distribuídas pela Etnia, Mundo da Canção ou Megamúsica –, na VGM ainda restavam alguns exemplares em LP de etiquetas irlandesas ou escocesas, como a Claddagh ou a Springthyme.

Detivera-me nos discos mais pequenos, com caixa de plástico. Ao meu lado estava um garimpeiro mais velho. Todos sabemos como vemos aqueles que já passaram os 30 quando nós ainda andamos nos 20; nisso os ingleses são os mais radicais, e lapidam-nos o “teen” antes de lá chegarmos. Os dedos deste colega de aventuras deslizavam rapidamente pelos CDs, como se tivesse com eles uma relação antiga… Mas poderia haver qualquer coisa nova lá pelo meio, que tivesse escapado na última jornada. Não era, para mim, um comportamento estranho. Quando encontrou Kaksi!, de uns tais Hedningarna, falou comigo: “Este é muito bom!”. Parecia saber o que dizia. Acho que apenas sorri. De facto devia ser um belo disco… O Fernando Magalhães já tinha feito uma crítica muito boa no suplemento “Pop/Rock” do Público.

Quando deixou a loja perguntei ao Orlando quem ele era. “Não sabes?”, respondeu. “A sério?!”, perguntei. Talvez a cara me fosse familiar, não sei… Ele tinha trabalhado na Contraverso no final da década de 80, altura em que eu estive no liceu mais bonito de Lisboa, o Passos Manuel. A Travessa da Queimada era logo ali e a Contraverso uma aventura. Os seus textos – nos jornais LP, Blitz e Público – uma alegria que aguardava ansiosamente.
Passados uns tempos voltei a cruzar-me com ele. Achei estranho por estar a apanhar o autocarro na paragem onde eu morava… Recordei-lhe esse dia e fiquei a saber que a sua casa era num prédio atrás do meu. Fomos a caminho de Entre Campos, a falar de música e de discos. Música tradicional, da Hungria, Sebő Ensemble, Muzsikás e Márta Sebestyén… Ficámos amigos. Eram tempos apaixonados em relação às músicas tradicionais, que os festivais Cantigas do Maio, Encontros da Tradição Europeia e, principalmente, o Intercéltico, no Porto, contribuíam para complementar a forte distribuição de discos e consolidar uma paixão. A viagem durou menos do que habitualmente.
Recordo-me quando fomos jantar à Taverna dos Trovadores, em S. Pedro de Sintra. Ao balcão, disse-me que aí preparavam uma bebida especial, em que misturavam Irish whiskey, azeite… Quando viu que eu estava a acreditar, desatou a rir, incrédulo; no fim um sorriso de criança. Almoçámos juntos mais vezes quando o século decidiu mudar. No Mercado do Peixe, nas Picoas, um empregado fazia lembrar o grande José Mário Branco (que ambos muito admirávamos). E dizia-me com um sorriso matreiro: “Ó Sr. José Mário Branco! Pode trazer-nos a ementa, por favor?”. Era o mesmo sentido de humor dos seus amados Monty Python.

Do outro lado do espelho do universo do seu ecletismo musical, onde habitavam todas as músicas, estava aquele que ele mais admirava. Lembro-me que fomos vê-lo uma vez ao Teatro São Luís, em Lisboa. Ele e a Filipa, eu e a Ana. O meu amigo parecia muito ansioso, tal como eu estava – nesse tempo, agora e sempre nos seus concertos. Um dos seus textos que sempre recordarei foi precisamente sobre ele, na coluna “Valores Selados” do Blitz, a 7 de Novembro de 1989. 11/11 estava próximo. “É difícil escrever sobre a perfeição. É difícil, sobretudo, relatar em pormenor e com um mínimo de distanciação aquilo que de essencial existe na música dos Van Der Graaf Generator e de Peter Hammill em particular. Será talvez difícil para os leitores, confundidos por tanta veneração, acreditar na palavra do crítico. Pois é, aqueles que desde o início têm acompanhado o percurso de Hammill e companhia sabem decerto do que se trata. Para esses, na posse de todos os segredos, a música e poesia da banda representam muito mais do que o habitual nestas coisas dos discos, quase se revestindo com as roupagens do sagrado.”

Os discos. Sempre os discos. Um dia disse-me que era “em discos” que lhe pagavam na Contraverso. Mais tarde, vim a saber que a vida dele tinha mudado quando uma amiga lhe ofereceu Liege & Lief dos Fairport Convention. Sobre a diva Shirley Collins, a propósito de For As Many As Will (o disco que tem a mais bela capa de sempre da folk inglesa), só ele teve o dom de conseguir descrever a sua voz: “Uma voz sem grandes predicados técnicos mas que guarda em si uma sabedoria acumulada de séculos. Uma voz com a textura de pano antigo, musgo, mel e madeira”.

Um dia, no início do século XXI, veio ter connosco. Saiu do comboio no Tamariz e veio pelo paredão ao nosso encontro, até ao Jonas. Era um fim de tarde, quente, como o de hoje… Vislumbrei-o ainda ao longe, num tempo em que o Estoril-Sol ainda forçava o entardecer. Ao ombro a gaita-de-foles galega que tinha ficado de trazer; um amigo tinha-lha arranjado em Ourense, no Obradoiro dos Seivane. Era uma imagem surreal à beira-mar. Dizia-me que era um instrumento telúrico, mas o único que mantinha uma ligação constante entre o céu e a terra.

Depois foi embora. Há sempre tempo para partir. No seu caso, chegou demasiado cedo, fez ontem dez anos. Os seus textos continuam a ecoar por aí. Talvez no Castelo dos Mouros, no solstício ou no equinócio – quando o vento leva as cinzas do Verão –, uma gaita-de-foles anime as noites quentes de festins Druidas.

Ao Fernando.

https://www.youtube.com/watch?v=lurkbaKAikY

Miguel Augusto Silva, 17 Maio 2015







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