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21.3.25

Escritos de Fernando Magalhães - Volume Extra


 












21.7.22

Escritos de Fernando Magalhães - Volume 1.2 - 1991 (Edição Revista e Aumentada) - Acabado de Sair


 Acabado de sair

Escritos de Fernando Magalhães

Volume 1.2 - 1991 

(Edição Revista e Aumentada)

Prefácio de Mário Ferreira (Mundo da Canção | Intercéltico)

Continuando a saga da "Obra Completa", agora que temos todos os textos escritos pelo FM (se detetarem que algum tiver escapado, digam, por favor), houve necessidade (devido ao elevado número de páginas a que daria origem) de desdobrar o inicial Volume 1 - editado na Lulu - por 2 volumes, 1.1 e 1.2

O mesmo caminho estamos agora a seguir para 1992 e o mesmo processo se repetirá até ao Volume 6 (1998). A partir de 1999 e até ao fim (2005) não haverá reedição pois não foram descobertos mais textos.

Os volumes anteriores (1 a 12) foram editados na Lulu. AS novas edições/desdobramentos, com novos textos - edições revistas e aumentadas - serão editadas na "portuguesa" Bubok. O preço de edição é praticamente o dobro da Lulu :-( mas, devido aos portes, julgamos que o preço final andará mais ou mesmo pelo mesmo valor.

Vão passando por aqui para actualizações

https://www.bubok.pt/livros/267281/Escritos-de-Fernando-Magalhaes---Vol-12-1991-edicao-revista-e-aumentada 






21.5.22

Fernando Magalhães no "Fórum Sons" - Intervenção #1 - "Bem, lá terá que ser..."


Aqui se abre mais um espaço para os "escritos do Fernando Magalhães", agora na sua componente digital. As pérolas abundam também aqui, quiçá noutro estilo, menos institucional, mas não menos brilhante.

Vale a pena, como sempre, ir acompanhando.

Para saber mais vá AQUI.

#1

Fernando Magalhães

23.07.2001 170500

 


No capítulo das novidades discográficas: MELHOR ÁLBUM ROCK DO ANO: "Temporary Shelter", de JOHNNY DOWD. O cabaré negro de Tom Waits + as liturgias demoníacas de Nick Cave + som americana em 16 rpm + rock industrial a la E. Neubauten, c/ ambiente de cortar à faca.

FM tosco






9.5.22

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #95: Escritos de Fernando Magalhães - Volume 1.1. (1988/1990) (edição revista e aumentada) - BUBOK - em Portugal



autor: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação)
título: Escritos de Fernando Magalhães - Volume 1.1: 1988/1990
editora: Bubok
nº de páginas: 399

isbn: N/A
data: 2022
prefácio: Vítor Junqueira
formato: A4

Escritos de Fernando Magalhães - Volume 1.1. (1988/1990) (edição revista e aumentada) - BUBOK - em Portugal


Como o título indica, trata-se de uma versão revista e aumentada do anterior volume I, que abarcava os anos 1988 a 1991. (Ver Aqui).

Face ao novo material encontrado, tornou-se necessário dividir esse 1º volume em 2 partes. A parte 1.1, que abarca os anos 1988 a 1990 já está publicada, e esse é o motivo deste post. A parte 1.2, que versará o ano de 1991 será publicada em breve e aqui também anunciada.

Seguir-se-ão os volumes seguintes, um por cada ano, desde 1992 a 2005.

Desta vez garantimos que não haverá mais atualizações e que os livros a publicar contêm mesmo todos os textos publicados pelo crítico. Qualquer texto que não faça parte dos livro s será mesmo uma excepção.

Desta vez publicamos na portuguesa Bubok, ainda em sistema de print-on-demand, que sendo, à partida, mais cara que a Lulu, no final, depois de incluídos os portes e, tendo em atenção que não haverá mais taxas e paragens na alfândega, ficará mais barato e de entrega mais rápida (aproximadamente 1 semana).





sinopse:  

Prefácio

Textos de autor

«Decerto repararão que desta lista constam muitos nomes estranhos e desconhecidos. A culpa não é minha. Procurem-nos e talvez cheguem à conclusão que nem sempre a melhor música é a mais badalada.»
(in Blitz, 16 de janeiro de 1990, lista dos melhores discos da década de 80)

Devo ter começado a ler o Fernando Magalhães na altura em que os seus textos começaram a aparecer em jornais como o Blitz ou o LP, em finais da década de 80, como aqueles que encontramos nesta coletânea. Mas julgo que terei ainda deixado virar a década antes de começar a reparar com olhos de ver no seu nome na assinatura – ou tão só a sigla «FM». Sei porém que desde cedo aquela assinatura se tornaria para mim um selo de qualidade, uma garantia de que ali iria encontrar uma abordagem profunda, incisiva, abrangente, ora apaixonada, ora destrutiva, quase sempre divertida. Eram, se a expressão existisse, verdadeiros «textos de autor».
Dizia que a abordagem era profunda, porque não se reduzia à identificação do óbvio e do superficial. Ele encontrava os substratos que não se liam habitualmente nas críticas assinadas por outros. Era incisiva, porque quase sempre encontrava aquilo que realmente importava dizer, permitindo ir ao fundo do tema mesmo quando tinha meia dúzia de linhas como limite. Era abrangente, porque conseguia inserir o objeto de análise em vários planos contextuais, no tempo, na história da música, nas artes em geral, no plano dos afetos, nos diferentes terrenos culturais, na religião. O crítico que encontramos nestes textos de 88 a 91 já era um nerd da música, perdão, das músicas, mas um nerd com vistas muito largas. Coisa rara, pois.
Facilmente se vê – e podemos voltar a senti-lo nestes textos iniciais – que o Fernando escrevia com paixão e boa disposição. Com o tempo, creio que veio a sentir-se cada vez mais à vontade para impregnar os seus escritos de humor e até de doses bastas de ironia e alguma malícia servida em jogos de palavras que não raras vezes me deixavam de sorriso na cara, jornal aberto à frente, mesmo quando não concordava. Poucos críticos conseguiam entrar na graça sem se deixar cair em desgraça. Anos mais tarde, sempre que havia algo em disputa nas nossas conversas infindáveis sobre música e sobre tudo o resto, tentava desarmá-lo com argumentos que julgava fortes – nem sempre, admito – e o Fernando, tranquilo, mandava-me ir ouvir um qualquer grupo obscuro dos anos 60 ou 70, trazia a filosofia à mesa ou ridicularizava o assunto em discussão de tal maneira que acabávamos em gargalhadas e a pedir mais uma rodada de canecas. Mistas. E, claro, ele até tinha a sua razão.
Não posso dizer que o Fernando fosse absolutamente único. Nas páginas dos jornais ou nas ondas hertzianas havia mais um punhado de gente boa e conhecedora a saber expressar-se, a saber motivar-nos, a saber instigar-nos e guiar-nos para descobrir o que de mais interessante se fazia no mundo da música. Ou o para o que havia sido feito naquelas décadas passadas que não tinham chegado a nós ou aos nossos pais e irmãos mais velhos com o relevo que mereciam. Os apaixonados pela música da minha geração, adolescentes à data da publicação dos textos que compõem este volume, seguiam estas vozes públicas com toda a atenção. As novas gerações terão que imaginar o que era um mundo desprovido de informação imediata e à distância do visor dos apêndices ciborgues que hoje são o telemóvel ou o computador.
Gosto de reconhecer o valor nos vários professores que tive ao longo da vida, em diferentes áreas de conhecimento. E o Fernando foi um desses pedagogos, mais do que um mero crítico. Pelo punho do Fernando, muitos de nós terão entrado nas cenas folk portuguesa e europeia, terão aprendido o que era o kraut rock e a kosmische muzik, ou quem eram Peter Hammill e os Van Der Graaf Generator, seus velhos favoritos: «Hammill nunca alcançou a glória que já há muito merece. A sua obra é conhecida apenas por um clube de iniciados, felizmente com cada vez mais sócios.» (in Blitz, 21 de novembro de 1989). A propósito, oiço o “Pawn Hearts” enquanto escrevo isto. Descobri-o, e lembro-me perfeitamente disso, através do Fernando.
Assim era. Leitores como eu tornavam-se sócios deste clube de melómanos iniciados. Deve ser sublinhado que aquela era uma sociedade de apreciação que não se fechava numa corrente ou numa cultura musical específica. Habituei-me desde cedo – e acredito que o Fernando pode ter tido uma influência marcante nisto – a não me satisfazer num género, não por regra, mas porque facilmente ficava encantado na folk, no rock, na eletrónica, onde quer que alguém fosse fiel à sua musa. Esta abertura de horizontes estava patente na coleção de discos, nos textos e nas paixões musicais do Fernando. É fácil de reparar como nesta compilação de textos, e citando apenas alguns casos, convivem nomes como os de Tuxedomoon («esta ‘sonata fantasmagórica’ demonstra até que ponto os Tuxedomoon são hoje dos grupos mais importantes da cena alternativa situada na convergência do rock com a música erudita»), de Neil Young («Ouve-se ‘Weld’ com a sensação de se assistir ao cataclismo iminente, à erupção de um vulcão, ao colapso de qualquer coisa que não ousamos interiorizar»), de Legendary Pink Dots («Herdeiros legítimos da música progressiva dos anos 70, os Legendary Pink Dots representam uma das vertentes mais heterodoxas e estimulantes da cena alternativa actual»), de R.E.M. («Com ‘Out of Time’ os R.E.M. tocam o céu da perfeição»), de Negativland («são os maiores inimigos da Coca-Cola, da Levi’s e dos mísseis Patriot. Só pelo nome se vê que são do contra. Vêm da contracosta americana. Voltam tudo de pernas para o ar.»), de Naked City («Os cinco intérpretes, não se duvide, são fabulosos, independentemente de conseguirem ou não alguma vez condensar a história completa da música numa única espira») ou do Grupo de Cantares de Manhouce.
Como se vê, o Fernando tinha sempre coisas interessantes para dizer sobre gente tão díspar. Desde que estas (ou os seus trabalhos, para ser mais rigoroso) o encantassem. Mas o Fernando não tinha também quaisquer papas na língua para destilar críticas destruidoras a quem ou ao que o aborrecia. Acredito que essa faceta, essencial a qualquer crítico que queira desempenhar o seu papel em justiça para com o mundo que descreve e para consigo mesmo, lhe dava um certo gozo (e aos seus leitores, pelo menos a mim). Descobri-lhe, anos depois, que toda esta acutilância e este descaramento faziam afinal parte essencial do seu próprio carácter divertido e irreverente, particularmente notado na forma como se dava com as pessoas que conhecia e com as que não conhecia, como daquela vez, em que à porta da ZDB dizia a quem passava pela rua que ali ia tocar uma «banda pop francesa», os... Dat Politics. Tal como a vontade de picar os que o ouviam. Uma vez, enquanto víamos a bola na cervejaria onde nos encontrávamos regularmente, confessava-me: «sabes que às vezes penso que sou mais anti-benfiquista do que sportinguista?». Talvez sirva de algum propósito aqui dizer que, além da preferência clubística, ambos partilhávamos um fascínio muito especial pela “How To Irritate People”, uma série televisiva diabólica do John Cleese, precursora dos Monty Python (dos quais passávamos aliás noites e noites a percorrer de memórias todos os sketches). O Fernando não tinha quaisquer problemas em entrar neste jogo potencialmente perigoso nas críticas que escrevia. Mesmo quando o artista ou grupo em causa fosse português, o que também o distinguia face a outros críticos ou, em episódios decorridos posteriormente às datas da presente coleção de textos, quando a editora de alguns dos discos visados era importante para as receitas de publicidade do suplemento em que escrevia.
Não resisto a citar alguns trechos de textos deste volume, onde o Fernando já discorria alguma da sua, digamos, alegre truculência:
«Mas o pior de tudo foi o final, quando os Duplex se afundaram no seu próprio pretensiosismo. Subiram ao palco uns instrumentistas ‘da clássica’, com instrumentos ‘a sério’ como o violoncelo, a flauta e o trompete e, finalmente, um coro de senhoras, todos juntos para um final pretensamente grandioso. O resultado foi assistirmos a uma aula de alunos do Conservatório, com todos os participantes desunhando-se para não desafinarem ou saírem do compasso.» (In Blitz, 17.10.89, reportagem de concerto dos Duplex Longa)
«Chapéus há muitos. Bons músicos portugueses já há menos. Bons músicos portugueses a trabalhar na área da música popular contam-se pelos dedos. (...) Musicalmente são dados vários passos atrás, mais parecendo ter-se voltado aos tempos de Pedro Homem de Mello e aos ranchinhos de acordeão e vozes esganiçadas para turista ouvir e comprar.» (In Pop Rock, suplemento do Público, 1 de maio de 1991, crítica a álbum de Maio Moço, “Histórias de Portugal, de Dom Afonso Henriques a Dom Sebastião”)
«Começa a fartar, a década de 60. Tudo o que é ‘Sixties’ é bom. Nesse tempo é que era. Os ideais, a luta contra o ‘establishment’, gozar à brava, enfim, a grande farra. A música desses anos conturbados reflecte a confusão. Desde os percursores aos mártires, passando pelos oportunistas, há de tudo um pouco.» (In Pop Rock, suplemento do Público, 29 de maio de 1991, crítica às reedições dos Jefferson Airplane)
Os músicos continuavam a respeitá-lo, tanto quanto sei. Uma vez, terá ido a casa de um músico com créditos firmados (e merecidos) na nossa praça. Antes mesmo de passar a porta de entrada, se ainda me recordo da história, terá exclamado “oh pá, este teu novo disco é uma merda!”. Alegadamente, continuaram amigos.
Conheci, como se percebe de alguns parêntesis que não consegui deixar de ir abrindo e fechando neste prefácio, o Fernando-crítico e o Fernando-amigo. Tenho uma imensa saudade de ambos. Esta compilação de textos, edição rara no panorama português, a que o Tiago e o Luís dedicaram tanto trabalho de pesquisa e pelo qual aquele clube de melómanos de que o Fernando falava a propósito do Hammill deve toda a gratidão, vai ajudar a matar saudades do Fernando-crítico. Na maior parte dos casos, continuam a ser textos sem data, válidos para as gerações daquela altura, para as novas e para as futuras. Venham daí mais volumes.
Lisboa, 14 de dezembro de 2014
Vítor Junqueira


«Como certamente repararam, estive ausente desta página a passada semana. Outros deveres jornalísticos impuseram que me deslocasse à República do Alto Volta para fazer a reportagem sobre os pequenos-almoços de Paul McCartney nessa mesma República.

«Mas eis que regresso são e salvo, já refeito do choque McCartney e pronto para mais prosas sobre os «Valores», talvez não tão interessantes como as refeições do ex-Beatle, mas olhem, faz-se o que se pode.»
(in Blitz, 21 de novembro de 1989)



Outros textos de outros anos, no meu blogue: http://www.profelectro.info/fm/

Quem quiser o pdf free, basta solicitá-lo para o meu email.









14.12.18

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #76: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - "Escritos de Fernando Magalhães - Volume XII: 2004/2005"


autor: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - Prefácio: Vitor Joaquim
título: Escritos de Fernando Magalhães - Volume XII: 2004/2005
editora: Lulu Publishing
nº de páginas: 476
isbn: none
data: Dezembro de 2018


PREFÁCIO

À escuta no MARR
Por Vitor Joaquim

É com grande prazer e uma imensa gratidão que dedico estas minhas palavras ao fugaz amigo Fernando Magalhães. Há já algumas semanas que o Tiago Carvalho me convidou para escrever o prefácio de mais uma série de escritos do FM. Ao longo deste tempo, tenho pensado no que dizer sobre ele. Na verdade, sinto que era capaz de estar horas a fio a falar do FM, porque para falar dele é preciso metermos o mundo todo na conversa, implica não deixar nada de fora e ter tudo em consideração. É pensar em tudo e em nada ao mesmo tempo. Daí que me tenha sido tão difícil começar. Não por não querer, mas por não saber como começar ou sequer saber sobre o que falar.
Tendo ele escrito palavras que se viriam a revelar fundamentais para mim, sobre discos meus, o processo fica imediatamente contaminado pela subjectividade de um olhar que nunca poderá ser neutro. Devo-lhe mais do que muito por tudo o que escreveu sobre o meu trabalho, e só por isso, já lhe fico eternamente grato. Mas depois de muito revolver as memórias que dele transporto, acho que muito mais importante do que falar sobre o que ele escreveu sobre mim é falar daquilo que tínhamos em comum, eu como músico e ele como ouvinte: o prazer de ouvir e descobrir o mundo através da música. Esse prazer que parece começar a perder-se na forma desenfreada como hoje se ouve música e que aproxima a relação muito mais a um processo de consumo do que a um processo de fruição. Muito se tem escrito sobre a forma desenfreada e a rapidez com que actualmente se ouve música. Sendo certo que uma elevada percentagem das músicas tocadas não são ouvidas na sua totalidade até ao fim, começa a ser por demais evidente que a tendência tende a acentuar-se a cada ano que passa. Fruto de uma insatisfação e de uma inquietação permanente, as novas gerações de ouvintes de música, vêem-se muito mais a si próprios como consumidores do que como amantes da escuta.
Nesse sentido, a memória do FM impõe-se-me imediatamente sobretudo pela forma como cultivava a atenção pela escuta e pela ponderação proporcionada pelo momento de ouvir. Um momento que se intuía mágico e simultaneamente reflexivo. Quase como se fosse um momento religioso.
E é justamente a esse propósito que gostaria de recordar uma noite de escuta partilhada que jamais esquecerei. Não me recordo do dia de semana ou sequer do ano. Tenho como certo que não terá sido muito antes da sua morte, mas é tudo o que recordo em termos temporais.
Por iniciativa de uma série de amigos, entre os quais se inclui o Tiago Carvalho, o Luis Marvão e o Silva, realizou-se no bar MARR, em Setúbal, uma sessão de escuta da autoria do FM. Aquilo a que hoje em dia se poderia considerar um verdadeiro trabalho de curadoria contemporânea.
A sessão consistia em estar num bar a fazer duas coisas, basicamente: beber (uma inevitabilidade) e ouvir. Sendo um bar com um sistema de som razoável, não havia propriamente nada de estranho na proposta. É aliás algo que se faz habitualmente em bares. O que este programa tinha de inovador é que quase ninguém falava enquanto a música desfilava. Quase toda a atenção era dedicada a ouvir e circular pelo espaço de uma forma que mais parecia de deambulação do que de se querer ir a algum lado. Conforme o momento, uns circulavam lentamente, outros ficavam parados a ouvir e a contemplar o som. Se é que se pode contemplar o som.
Havia ainda assim, um pormenor filho da mãe nesta produção: antes de iniciar a sessão, o FM distribuía a cada um dos presentes uma folha A4 com os temas que iam desfilar durante a noite. No entanto, havia um elemento surpresa: uma das músicas tocadas não constava da lista. Ou seja, a lista não estava realmente completa. No final, quem a conseguisse identificar (na realidade, descobrir) recebia das mãos do próprio FM um disco por ele oferecido. Este pózinho de perlimpimpim era o suficiente para deixar toda a gente com as antenas no ar durante o tempo de escuta e ouvir passava a ser uma ocupação a tempo inteiro.
Não menos importante era naturalmente o alinhamento dos temas. Era muito comum, depois de um tema dos Panasonic (ou Pan Sonic, conforme) poder-se ouvir um tema de Bach. Ou ao contrário. O inesperado fazia parte da receita e a imprevisibilidade tornava cada momento um verdadeiro deleite de audição. Cada um de nós, com um copo numa das mãos e uma folha A4 na outra, espremia-se até ao tutano por identificar cada um dos novos temas que iam desfilando, gozando cada momento de escuta ao máximo, alimentado pela vaga esperança de vir a descobrir o tema escondido da sessão.
Enquanto isso, o FM passeava-se pelo bar, olhando-nos com um misto de curiosidade, desafio e deleite. Largava uma dica aqui, uma dica ali e lá ia sorrindo, passeando-se de pessoa em pessoa, de forma a que a conversa não pudesse nunca ganhar raiz e retirar peso à escuta. Ficou-me a sensação de que nesses momentos nos sentíamos todos nas suas mãos, da mesma forma que estamos nas mãos de quem opera um comboio de uma montanha russa, totalmente vulneráveis e simultaneamente entusiasmados com a viagem.
Nesses momentos tudo era simples e cada um de nós era como uma criança, sempre de ouvidos abertos e à descoberta do mundo. Para todos os efeitos, só existia aquilo, ouvir.
Acabada a sessão, o entusiasmo era geral, desatava tudo à conversa a tentar revisitar o alinhamento e a descortinar o tema escondido. O bar Marr, esse, passava a ser aquilo que era normalmente: um bar igual a tantos outros. As nossas cabeças é que não eram nada iguais ao normal, fervilhavam pela noite dentro ressoando muito para além daquelas escassas horas de deleite. E provavelmente, sem que o percebamos, ainda hoje ressoam a esse momento.

Vitor Joaquim
                                                                                                                        29-11-2018



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3.7.18

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #74: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - "Escritos de Fernando Magalhães - Volume XI: 2003"


autor: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - Prefácio: Victor Afonso (Kubik)
título: Escritos de Fernando Magalhães - Volume XI: 2003
editora: Lulu Publishing
nº de páginas: 592
isbn: none
data: Julho de 2018

 Vol 11

PREFÁCIO

Fernando Magalhães – O Espírito Inquieto
Por Victor Afonso

Fernando Magalhães era um espírito inquieto. Para já, adorava o que fazia, que era ouvir música e escrever sobre ela. Ir a concertos e partilhar opiniões com os amigos. Ouvir discos e falar deles apaixonadamente até altas horas num bar do Bairro Alto. A sua inquietação dizia respeito ao prazer de descobrir constantemente música nova e a satisfação (quase pueril) de a dar a conhecer aos seus leitores.  Ou evocar a boa música do passado (anos 70 e 80). Gostava de muitos géneros musicais diferentes, e abria o espectro da curiosidade estética até ao limite do horizonte, que é como quem diz, até à plena diversidade artística. Interessava-lhe primeiramente a qualidade da arte musical. Só depois surgiam os rótulos, quase sempre necessários para etiquetar este ou aquele disco, este ou aquele estilo.
Mas este sempre foi um país que liga muito pouco à crítica de arte. Os críticos que escrevem para a imprensa generalista ou especializada, sejam de música, cinema, artes plásticas, literatura, ou de teatro, têm a nobre função de divulgar e promover os objetos culturais que analisam. Mas para quem escrevem os críticos? A verdade é que, na esmagadora maioria dos casos, os críticos escrevem para o próprio umbigo, para uns quantos iniciados e para... os outros críticos. É um círculo vicioso que em nada beneficia o leitor médio de jornais ou revistas. O exercício da crítica deve conter tanto de informativo como de emissão de juízo de valor e, tendencialmente, elaborada numa linguagem o menos técnica e hermética possível. Ora, no caso do Fernando Magalhães, a sua tónica era a de tornar percetível a toda a gente o seu discurso crítico. Não queria nada com linguagens académicas ou herméticas, queria que a sua análise chegasse ao maior número de pessoas possível. Talvez esta sensibilidade se devesse ao facto do Fernando ter sido formado em filosofia, e só mais tarde enveredaria pelo jornalismo por manifesta paixão. A filosofia deu-lhe ferramentas para saber escrever com superior qualidade, quer no conteúdo, quer na forma. Assim como certamente lhe abriu diferentes portas de perceção analítica, de abordagem crítica e de pensamento discursivo.
Durante anos escreveu para diversas publicações, mas foi no (então) semanário Blitz e no diário Público que a escrita de Fernando Magalhães se fez notar e granjeou uma pequena legião de seguidores. Para além do grande domínio da língua portuguesa, o jornalista tinha uma vasta e diversificada cultura musical, que lhe permitia dissertar com a mesma desenvoltura sobre fado, krautrock, eletrónica experimental, folk ou jazz (foi a ler muitas das suas críticas que desenvolvi o gosto pelas mestiçagens estéticas). Depois, detinha um sentido de humor férreo e sarcástico, sobretudo quando fazia reportagens de concertos ao vivo, com aquele seu olhar tão atento aos pormenores e às relações improváveis que estabelecia entre matérias como literatura, história, filosofia, cinema e, naturalmente, música. Tanto revelava valores musicais emergentes e obscuros como escrevia longas recensões sobre artistas consagrados como Frank Zappa, Residents, King Crimson, Anthony Braxton, Dead Can Dance, Tom Waits, Kepa Junkera ou (o seu muito amado) Peter Hammil. Muitas vezes se queixou que o Público não lhe dava rédeas soltas para escrever sobre aquilo que queria realmente escrever (dado que privilegiava as correntes musicais marginais e alternativas), facto que lhe proporcionava uma angústia crescente enquanto profissional da escrita jornalística. A crítica musical de Fernando Magalhães era cirúrgica, extremamente bem construída, inteligente, pragmática e pedagógica (a tal premissa importante mas desprezada por muitos críticos). Outra das suas características particulares: adorava elaborar listas. Listas dos melhores discos de cada ano e de cada género musical. Fez muitas dezenas de listas que divulgava nos jornais e na internet – como nesse magnânimo e insurreto fórum SONS, sítio online de boa memória com quem partilhava e discutia descontraidamente com muitas dezenas de amigos (muitos deles virtuais).

Voltando ao início e reiterando esta ideia: Fernando Magalhães exercitava com enorme prazer o seu gosto pela música, qual criança que descobria um brinquedo novo e excitante. Era um fervoroso militante no exercício da divulgação musical e não fazia concessões de gosto. Escrevia com prazer, e com prazer dissertava sobre as sonoridades que o fascinavam. Como diria o também saudoso radialista António Sérgio, o Fernando tinha esse poder de “incendiar o imaginário dos leitores”, o que não é dizer pouco. Pelo contrário, é dizer tudo, e só podia ser assim vindo de um espírito inquieto.


ÍNDICE


indiceVol11 by luisje on Scribd




29.3.16

Escritos de Fernando Magalhães, Volume IV - 1996 - novo livro 330 páginas -


Já saiu o Volume 3 das obras (quase completas) do crítico musical Fernando Magalhães, precocemente desaparecido do nosso convívio.
A homenagem continua com mais este volume, que podem adquirir aqui

http://www.lulu.com/shop/lu%C3%ADs-jer%C3%B3nimo/escritos-de-fernando-magalh%C3%A3es-vol-4-1996/paperback/product-22626788.html


O índice da obra pode ser visto aqui, ou abaixo





27.3.16

Escritos de Fernando Magalhães, Volume III - 1995 - novo livro 330 páginas -


Já saiu o Volume 3 das obras (quase completas) do crítico musical Fernando Magalhães, precocemente desaparecido do nosso convívio.
A homenagem continua com mais este volume, que podem adquirir aqui

http://www.lulu.com/shop/lu%C3%ADs-jer%C3%B3nimo/escritos-de-fernando-magalh%C3%A3es-vol-iii/paperback/product-22647517.html




O índice da obra pode ser visto aqui, ou abaixo






23.8.15

Escritos de Fernando Magalhães, Volume II - 1992/1994 - novo livro 460 páginas -


post do Facebook de Miguel Augusto Silva - autor do prefácio e amigo de Fernando Magalhães:

O Fernando Magalhães (5/2/1955 - 15/5/2015) - Espaço dedicado ao legado de Fernando Magalhães - foi um crítico musical que muito me influenciou e de quem tive a sorte de ser amigo durante uma dúzia de anos. O Luis Jeronimo e o Tiago Carvalho, também eles seus seguidores, têm dedicado grande parte do seu tempo - num exercício de amor a uma causa - a recuperar os textos que o Fernando escreveu. O último volume, recentemente publicado, reporta ao período entre 1992-94. Foi uma honra poder participar deste trabalho. Obrigado ao Luís, ao Tiago, e, claro, ao Fernando. O livro está disponível aqui:

No site da Lulu, onde o livro está à venda no formato "em papel" por menos de 10€ (+ portes), poderá explorar (cerca de metade - quem quiser saber o índice na sua totalidade envie email, pf) o índice do mesmo. Também está disponível a versão ebook (pdf).

Também aí está disponível o Volume I, que abarca os escritos iniciais do grande crítico e que cobrem os anos 1988 a 1991.

Entretanto aqui deixo o prefácio de Miguel Augusto Silva para este volume II:
 
O PÓ DAS ESTRELAS

Devia ser um daqueles fins de tarde como o de hoje, em que um Verão atrevido nos dá uma vontade terrível de ir estudar para os exames de fim de semestre… Deixei a Alameda e rumei ao Príncipe Real. Nesse tempo – 1992 ou 1993 – já havia poucas edições naquele formato grande, com capa de cartão… Por entre um lote fabuloso de novas edições de música tradicional em CD – distribuídas pela Etnia, Mundo da Canção ou Megamúsica –, na VGM ainda restavam alguns exemplares em LP de etiquetas irlandesas ou escocesas, como a Claddagh ou a Springthyme.

Detivera-me nos discos mais pequenos, com caixa de plástico. Ao meu lado estava um garimpeiro mais velho. Todos sabemos como vemos aqueles que já passaram os 30 quando nós ainda andamos nos 20; nisso os ingleses são os mais radicais, e lapidam-nos o “teen” antes de lá chegarmos. Os dedos deste colega de aventuras deslizavam rapidamente pelos CDs, como se tivesse com eles uma relação antiga… Mas poderia haver qualquer coisa nova lá pelo meio, que tivesse escapado na última jornada. Não era, para mim, um comportamento estranho. Quando encontrou Kaksi!, de uns tais Hedningarna, falou comigo: “Este é muito bom!”. Parecia saber o que dizia. Acho que apenas sorri. De facto devia ser um belo disco… O Fernando Magalhães já tinha feito uma crítica muito boa no suplemento “Pop/Rock” do Público.

Quando deixou a loja perguntei ao Orlando quem ele era. “Não sabes?”, respondeu. “A sério?!”, perguntei. Talvez a cara me fosse familiar, não sei… Ele tinha trabalhado na Contraverso no final da década de 80, altura em que eu estive no liceu mais bonito de Lisboa, o Passos Manuel. A Travessa da Queimada era logo ali e a Contraverso uma aventura. Os seus textos – nos jornais LP, Blitz e Público – uma alegria que aguardava ansiosamente.
Passados uns tempos voltei a cruzar-me com ele. Achei estranho por estar a apanhar o autocarro na paragem onde eu morava… Recordei-lhe esse dia e fiquei a saber que a sua casa era num prédio atrás do meu. Fomos a caminho de Entre Campos, a falar de música e de discos. Música tradicional, da Hungria, Sebő Ensemble, Muzsikás e Márta Sebestyén… Ficámos amigos. Eram tempos apaixonados em relação às músicas tradicionais, que os festivais Cantigas do Maio, Encontros da Tradição Europeia e, principalmente, o Intercéltico, no Porto, contribuíam para complementar a forte distribuição de discos e consolidar uma paixão. A viagem durou menos do que habitualmente.
Recordo-me quando fomos jantar à Taverna dos Trovadores, em S. Pedro de Sintra. Ao balcão, disse-me que aí preparavam uma bebida especial, em que misturavam Irish whiskey, azeite… Quando viu que eu estava a acreditar, desatou a rir, incrédulo; no fim um sorriso de criança. Almoçámos juntos mais vezes quando o século decidiu mudar. No Mercado do Peixe, nas Picoas, um empregado fazia lembrar o grande José Mário Branco (que ambos muito admirávamos). E dizia-me com um sorriso matreiro: “Ó Sr. José Mário Branco! Pode trazer-nos a ementa, por favor?”. Era o mesmo sentido de humor dos seus amados Monty Python.

Do outro lado do espelho do universo do seu ecletismo musical, onde habitavam todas as músicas, estava aquele que ele mais admirava. Lembro-me que fomos vê-lo uma vez ao Teatro São Luís, em Lisboa. Ele e a Filipa, eu e a Ana. O meu amigo parecia muito ansioso, tal como eu estava – nesse tempo, agora e sempre nos seus concertos. Um dos seus textos que sempre recordarei foi precisamente sobre ele, na coluna “Valores Selados” do Blitz, a 7 de Novembro de 1989. 11/11 estava próximo. “É difícil escrever sobre a perfeição. É difícil, sobretudo, relatar em pormenor e com um mínimo de distanciação aquilo que de essencial existe na música dos Van Der Graaf Generator e de Peter Hammill em particular. Será talvez difícil para os leitores, confundidos por tanta veneração, acreditar na palavra do crítico. Pois é, aqueles que desde o início têm acompanhado o percurso de Hammill e companhia sabem decerto do que se trata. Para esses, na posse de todos os segredos, a música e poesia da banda representam muito mais do que o habitual nestas coisas dos discos, quase se revestindo com as roupagens do sagrado.”

Os discos. Sempre os discos. Um dia disse-me que era “em discos” que lhe pagavam na Contraverso. Mais tarde, vim a saber que a vida dele tinha mudado quando uma amiga lhe ofereceu Liege & Lief dos Fairport Convention. Sobre a diva Shirley Collins, a propósito de For As Many As Will (o disco que tem a mais bela capa de sempre da folk inglesa), só ele teve o dom de conseguir descrever a sua voz: “Uma voz sem grandes predicados técnicos mas que guarda em si uma sabedoria acumulada de séculos. Uma voz com a textura de pano antigo, musgo, mel e madeira”.

Um dia, no início do século XXI, veio ter connosco. Saiu do comboio no Tamariz e veio pelo paredão ao nosso encontro, até ao Jonas. Era um fim de tarde, quente, como o de hoje… Vislumbrei-o ainda ao longe, num tempo em que o Estoril-Sol ainda forçava o entardecer. Ao ombro a gaita-de-foles galega que tinha ficado de trazer; um amigo tinha-lha arranjado em Ourense, no Obradoiro dos Seivane. Era uma imagem surreal à beira-mar. Dizia-me que era um instrumento telúrico, mas o único que mantinha uma ligação constante entre o céu e a terra.

Depois foi embora. Há sempre tempo para partir. No seu caso, chegou demasiado cedo, fez ontem dez anos. Os seus textos continuam a ecoar por aí. Talvez no Castelo dos Mouros, no solstício ou no equinócio – quando o vento leva as cinzas do Verão –, uma gaita-de-foles anime as noites quentes de festins Druidas.

Ao Fernando.

https://www.youtube.com/watch?v=lurkbaKAikY

Miguel Augusto Silva, 17 Maio 2015







14.10.14

Rui Eduardo Paes - Entrevista


Entrevista a Rui Eduardo Paes, publicada na revista Número Magazine #020, de Janeiro de 2004.
No fim deixa-se ainda o link para o site pessoal do crítico / escritor musical, para além de um link para mais uma lista, a sua lista pessoal dos melhores 100 discos de sempre.




Entrevista a Rui Eduardo Paes

José Marmeleira

Fotos de Mário Alexandre
Rui Eduardo Paes é um autor que personifica uma excepção no contexto da nossa escrita sobre música. As razões são óbvias: interessa-lhe identificar a arte que nesta pode existir e é detentor de uma curiosidade irresistível face às margens de todas sonoridades, desde o rock mais heterodoxo até à sound art. É partir destes princípios que em cada obra nos propõe interrogações políticas inesperadas, ligações de ordem estética fascinantes e leituras inquietas. Sempre sem  uma conclusão definitiva. Porque cada livro abre a porta para outra. Paulatinamente distante da boçalidade que os mass media vão disseminando.

. É um dos poucos autores que publica, regularmente, em Portugal, livros sobre música contemporânea. O que o fez avançar na aventura que é escrever sobre o tema?
- Para responder a essa pergunta devo recuar no tempo. Comecei a escrever sobre música em meados dos anos 80, no “Diário de Lisboa”, onde trabalhava na secção de cultura e espectáculos e abordava várias temáticas. A música era uma delas e já há muito tempo que me interessava. O meu pai era um velho fã de jazz sem qualquer tipo de pruridos em relação às formas mais vanguardistas do género, pelo que desde muito jovem me vi rodeado. de diferentes sons musicais. Quando comecei a escrever no “Diário de Lisboa”, porém, o que me interessava mesmo era receber os discos de promoção. Nessa época não considerava a minha escrita sobre música mais séria do que os meus textos sobre literatura, artes plásticas ou outra qualquer manifestação artística. Agradavam-me a cultura e os espectáculos em geral. Ainda nos anos 80 acabei por me especializar nas áreas da dança e da perfomance art mas, com a continuação da minha actividade profissional, a escrita sobre música foi-se tornando mais séria. Nesta fase do meu percurso escrevia essencialmente sobre jazz e só mais tarde fui abarcando outras áreas musicais, como o rock dito alternativo, a música contemporânea e os diferentes experimentalismos. Entretanto, fui-me dando conta que já possuía, depois de anos de produção de escrita e já depois de o “Diário de Lisboa” ter fechado as portas, um determinado património que não desejava perder. Tinha uma série de textos publicados em diversos jornais e pensei em publicá-los. Bati a algumas portas que ou não manifestaram qualquer interesse, ou exigiram que arranjasse patrocinadores. A minha primeira tentativa – uma monografia sobre Carlos Zíngaro – ficou assim sem publicação, mas Jorge Lima Barreto sugeriu-me a Hugin Editores e pôs-me me contacto com ela. Proporcionou-se assim a edição do meu primeiro livro, Ruínas, que apresentei como um balanço das músicas do final do século XX e que consistia essencialmente na reunião e na selecção do meu acervo de textos. Assim surgiu a minha oportunidade de me lançar como autor, publicando livros até hoje.

. Questionava-se sobre quem é que seriam os seus leitores?
- De facto, nos primeiros anos de profissão jornalística, fazia muito esse tipo de pergunta. Interrogava-me sobre quem seriam os meus leitores... reflectia sobre a velha questão filosófica: “escrevemos para quem”? Chegou a ser naquela altura uma preocupação um bocado obsessiva. De qualquer modo, e reflectindo sobre essa questão, devo dizer que apesar de o meu trabalho, designadamente aquele que está contido nos livros, ser, até certo ponto, pedagógico, vai mais além. Ou seja, escrevo sobretudo para pessoas que já têm um interesse pelas novas músicas, o que facilita a entrada num campo de maior especulação. Não esqueço, no entanto, a vertente informativa, que coloco na base de tudo. Aquilo que procurei fazer sempre foi lançar pontes. Para outras artes, por exemplo, pois penso que há paralelismos óbvios em termos estéticos, mas também filosóficos, sociológicos e antropológicos, com outros campos. São muitos os casos em que verificamos a existência de movimentos e tendências organizadas que sublinham coincidências entre a música e as artes plásticas. Tento também projectar ligações para o campo das ideias, pelo que nos meus livros se podem encontrar “chaves de pensamento” como o nihilismo, a teoria do caos, o desconstrucionismo, etc. Finalmente, procuro lançar pontes para a vida quotidiana, abordando questões que nos preocupam de forma global. Considero, portanto, que aquilo que escrevo, tendo à partida sido pensado para “iniciados”, pode perfeitamente ser lido por pessoas pouco ou nada familiarizadas com estas músicas. O que escrevo está aberto à compreensão, presumo, de qualquer um...
. Daí o seu enfoque sobre a intertextualidade.
- Exactamente. Julgo que se trata de permitir a entrada às pessoas que não estão dentro de um determinado domínio musical, despertando, por exemplo, a sua curiosidade para determinado tipo de assuntos através de associações, inter-relações. Aquilo que procuro fazer nas minhas obras é, em primeiro lugar, algo a que chamo, meio a brincar, compilação e tratamento da informação. Os meus livros são extremamente informativos e julgo que é a partir da informação e do seu grau de síntese que podemos em seguida correlacionar os dados, de modo a mais facilmente descobrir transversalidades, localizar cruzamentos e perceber relações. Penso que assim conseguimos ter, mais facilmente, uma visão global do que nos rodeia e perceber que nada acontece por mero “acidente”, ou pelo menos que nada acontece isoladamente. Na verdade, procuro contar histórias, o que explica o facto de nunca fazer uso de índices remissivos. Não quero que os meus livros tenham um carácter enciclopédico, de simples consulta. Não quero que as pessoas os procurem para ler a minha opinião sobre determinado músico. Estou interessado antes em que encontrem uma narrativa em que haja uma perspectiva de pensamento. Digamos que pego numa ponta de um fio e depois vou desenrolando até obter uma visão global das coisas, mas sempre por meio de parcialidades. Os meus livros são reflexões, especulações, num registo híbrido entre a escrita jornalística e a escrita ensaística...

. Como procede a essa junção, tendo em conta que ainda tem de ouvir primeiro a música? Trata-se de um processo sincrónico, diacrónico?
- Possuo um forte sentido histórico, ainda que não de uma forma “clássica”, em termos de sucessão de acontecimentos. Diria que é um processo simultaneamente sincrónico e diacrónico. Descobri muito depressa que para escrever ou falar sobre música era necessário ter uma perspectiva geográfica e histórica bastante razoável, o que implica estar atento a todas as músicas que nos rodeiam, as nossas contemporâneas e as outras, as que já cá estavam quando nascemos... Carregamos a Terra e o passado às costas.

. Calculo que não é alheio a essa realidade o facto de possuir uma extensa colecção de discos...
- Sim, quando se começa a ter uma discoteca bastante grande torna-se mais fácil perceber as relações existentes entre este ou aquele disco, este ou aquele músico, compositor, grupo musical. O que importa é explicar, ou fazer ver às pessoas, que aquele objecto [o disco], ou sujeito [o músico ou o agrupamento], apresenta relações e ligações inesperadas com outros objectos e sujeitos. Por vezes, até as mais insuspeitas...

. Tendo em conta que os seus livros falam de novas músicas, como consegue estabelecer essas ligações em plena contemporaneidade?
- Em termos temporais podemos dizer que o espectro destas novas músicas está sobretudo balizado entre os anos 60 do século passado e a actualidade, este tempo a que alguns vão chamando de pós-contemporaneidade. Tudo aquilo que hoje se faz remete invariavelmente para as décadas de 60 e 70, que foram períodos absolutamente seminais para o desenvolvimento da criação musical. Essa é a razão porque encontramos hoje muitas práticas neo-modernistas e pós-modernistas [às vezes confundem-se os seus preceitos] que usam os métodos da colagem e da repescagem, citando ou até reproduzindo elementos dessas épocas, o que é um fenómeno bastante curioso e que me deixa grandes dúvidas, mesmo que o resultado seja bastante interessante. Isso chega a ser verdade até nas práticas musicais que apostam no futuro e até na inovação, apesar de este conceito ser cada vez mais discutível. Ora, dentro deste intervalo de quatro décadas [está agora a iniciar-se a quinta] as coisas avançaram e recuaram inevitavelmente, o que nos permite ter uma perspectiva histórica. E é por via dela que podemos encontrar conexões com o que os movimentos vanguardistas, principalmente os futuristas, fizeram na primeira metade do século XX. Estamos, portanto, inevitavelmente a lidar com conceitos e práticas que atravessam o tempo para a frente e para trás...

. Voltando à questão da prática auditiva dos discos... como passa da audição para a escrita? O processo passa por etapas tais como pesquisa, comparação de dados, colocação de hipóteses?
- Não, nada de tão científico. Aliás, a maneira como organizo a minha discoteca julgo que explica as coisas de forma simples. Não ordeno os discos por famílias musicais, pois isso equivaleria a acreditar na sua definição como entidades estanques, como também não as organizo por ordem alfabética. Nestas áreas, sobretudo quando se trata de improvisação, os músicos estão sempre em trânsito, ora tocam com este, ora tocam com aquele, pelo que é impossível fazer essas separações. De maneira que a minha discoteca é anárquica. Está organizada anarquicamente nas prateleiras, apesar de eu saber exactamente onde cada coisa fica. A minha mente também é assim... Não se trata, de facto, de um processo científico – não me considero um “musicólogo” – e, quando essa tentação surge procuro sempre contrariá-la. Limito-me a comprar, a ouvir os discos e a escrever sobre eles. Trata-se de um exercício reactivo à audição e que se vai repetindo periodicamente ao longo dos anos. Isto faz com que encontre formas de estruturar a recepção de coisas tão diferentes como uma reedição dos Canned Heat e o último disco de electroacústica lower case de Steve Roden. É evidente que faço pesquisa, que estudo, que desenterro e escarafuncho, mas não tenho pretensões “laboratoriais”.

. Podemos dizer que o Rui Eduardo Paes tem uma preferência por um determinado género de música? Ou não discrimina nenhuma?
- Não discrimino nenhuma. Talvez possa dizer que a música que oiço com mais frequência e à qual presto mais atenção seja a improvisada, mas isso acontece, essencialmente, porque o fenómeno da improvisação me interessa de forma particular. Em termos intelectuais deu-me mais gozo entrar por aí. Recordo, contudo, que a música improvisada tem grandes e íntimas relações com a música clássica contemporânea, com todas as vanguardas ou com o jazz e até com o rock, no caso das mais jovens gerações de improvisadores. Gosto de explorar estas relações.

. Fala da música usando o substantivo arte e ao mesmo tempo cita nomes vindos das áreas da pop e da rock, termos muito associados com a esfera da baixa cultura. Como lida com este dado?
- Acho que não existe nem baixa cultura, nem alta cultura. Se os dois termos ainda permanecem algo actuantes é por razões sociológicas. Por exemplo, na Gulbenkian, o Serviço de Música privilegia essencialmente a música clássica. Em termos de contemporaneidade, o mais longe que vai é a compositores como Xenakis ou Morton Feldman, e mesmo assim de forma discreta. Só muito recentemente, por exemplo, é que parecem ter-se apercebido da existência de um Steve Reich ou de um Terry Riley. Ora, estamos a falar de um tipo de música que a Gulbenkian considera como “alta cultura”. Para mim, contudo, isto não passa de um conceito ou de um preconceito que está muito relacionado com mecanismos dos sistemas de ensino e de reprodução musical. É verdade que a Gulbenkian tem tido o Jazz em Agosto, mas isso nasceu de uma estrutura interna algo especial e mais preocupada com a actualidade – ainda que até nesse contexto não seja habitual ver as coisas mais actuais, as que estão a acontecer neste exacto momento. Recuso-me a hierarquizar as músicas dessa forma. Oiço com a mesma atenção e igual gosto e respeito um compositor como Xenakis ou um grupo de rock extremo como os Lightning Bolt. Talvez me interessem de maneiras diferentes, mas não parto do princípio de que uma é mais “séria” do que a outra.

. Mas diferencia a arte do entretenimento?
- Sem dúvida. Arte e entretenimento são coisas bem diferentes, ainda que a arte possa conter uma dose de entretenimento, não sendo verdade o inverso. Ainda não encontrei forma de entretenimento alguma que fosse efectivamente artística. Para mim, a música de forma geral é hoje em dia entendida como entretenimento, o que é lamentável. Quando falo de música de arte e música de entretenimento abordo a questão em termos horizontais. Aquilo que faço é escrever sobre músicas oriundas de géneros associados ao entretenimento, como seja a pop ou o rock, em que a arte fala mais alto. Existem nas áreas da música experimental e da música improvisada vozes radicais que consideram até as expressões mais marginais do rock e da pop como laboratórios de experimentação da música de entretenimento, mas não concordo com tal visão, pois essas músicas também são marginalizadas. Como não entretêm, não interessam ao sistema.

. Porquê?
- A música, ou a sua maior parte, é uma indústria e esta, nas sociedades de capitalismo desenvolvido em que vivemos, tem de ser de massas. Ora, as margens dessas expressões mais populares não são músicas de massas, ainda que possam ser mais consumidas que as músicas experimentais tout court – aliás, devo dizer que o experimentalismo musical deve muito a essas margens da música popular, muito mais do que à Academia. Quando uma obra musical se apresenta como sendo de alta cultura fio imediatamente desconfiado. As músicas académicas, “clássicas”, são-nos habitualmente apresentadas com um estatuto, um status, uma aura...



. Entrevistou no seu site os SunnO))) enquanto grupo de artistas que deve tanto a La Monte Young, um nome da música experimental, como aos Black Sabbath, um grupo claramente identificado com a música popular. Como concilia estas diferenças na sua abordagem?
- Julgo que os SunnO))) são o claro produto de um encontro de influências musicais, na maior parte dos casos até intermediadas. Ou seja, em muitos casos os músicos não vão à origem dos materiais que utilizam. Há uma forte vertente do minimalismo norte-americano, designadamente dos anos 60, na obra dos SunnO))) mas estes não vão directamente à fonte. Na verdade nem conhecem La Monte Young, paesar de a música deste estar muito presente no que fazem.

. Como explica isso?
- Digamos que o que eles ouviram e lhes interessou foram práticas mediadas. Ou seja, práticas que receberam a influência do minimalismo e que os levaram a fazer este tipo de música, como foi o caso de um grupo de rock experimental chamado Earth. Nos SunnO))) encontramos também o heavy-metal, na sua vertente nórdica, com a sua mística muito particular. Sei que descobriram também recentemente coisas do free-jazz, do John Coltrane na fase “música estática”. Os SunnO))) são um exemplo muito concreto dos cruzamentos possíveis entre músicas que supostamente vêm da alta cultura (ainda que seja muito duvidoso que o minimalismo norte-americano venha propriamente da alta cultura) e os da baixa cultura. Sob o signo de algo que é muito interessante: a utilização da electricidade, em termos literais, pois usam guitarras eléctricas, e até simbólicos, sons em curto-circuito...

. A propósito da contemporaneidade: como caracteriza hoje a música popular urbana?
- Não me parece que haja algo de novo a surgir. Deparamos, sim, com apropriações diversas de géneros musicais do passado e neste momento vivemos um pouco uma nova ressurgência do psicadelismo, presente aliás nas novas bandas de rock. Trata-se, portanto, de uma repescagem global de coisas que ficaram para trás. Mas este é um fenómeno que também testemunhamos nas músicas mais experimentais. Em termos de inovação absoluta poucos exemplos existem. O que encontramos com mais frequência são fenómenos de repescagem, cruzamento e perspectivação...

. Fala de um regresso do psicadelismo... em que sentido se verifica hoje?
- O regresso do psicadelismo verifica-se nalgum mainstream mas também, ou sobretudo, nas alternativas, e isso verifica-se desde a década de 90 e nada indica que seja um “movimento” prestes a desaparecer. Julgo que faz parte da enorme leva de recorrências históricas a que vimos assistindo nas artes. Recorrências, especifico, como as dos retornos do be bop e do free jazz, ou, no caso do psicadelismo, das sonoridades tipo de uns Jefferson Airplane, por exemplo, que são claramente perceptíveis nuns Yo La Tengo. É evidente que o neo-psicadelismo tem diversas matizes e vertentes, do acid mais óbvio de certas práticas ditas groovy à grande aceitação actual de um grande nome dos anos 60 como Robert Wyatt.

. Grupos como Jackie-O-Motherfucker ou Lightning Bolt também se incluem nos fenómenos de repescagem, cruzamento e perspectivação que refere?
- Sim. Se os analisarmos friamente, não há nada de absolutamente novo nesses dois exemplos. Há obras dos anos 60 e 70, principalmente, naqueles casos em que não se verifica uma grande presença da forma, que podiam ter sido feitas hoje. Isto porque há gente deste início do século XXI que está a fazer algo de muito semelhante ou pelo menos a continuar algumas das propostas então feitas. Trata-se, portanto, de algo que está muito patente hoje em dia e que é a diluição ou a neutralização do próprio conceito de inovação.

. Mas a inovação não estará sempre dependente de novas técnicas ou instrumentos? Se assim for, decerto que, mais tarde ou mais cedo, conhecerá limites...
- Não tanto. Temos casos de utilização de novos instrumentos e novas técnicas em diversos tipos de música. Estou a lembrar-me particularmente de Stanley Jordan, um guitarrista com uma técnica assombrosa e inovadora mas que tocava um jazz totalmente convencional. A utilização de novos instrumentos ou de novas técnicas em instrumentos não é, pois, condição sine qua non para existir inovação. Alguns músicos parecem ter chegado à conclusão que não é possível estar permanentemente a inovar. O último período de grandes e radicais inovações centrou-se nas décadas de 60 e 70 e aquilo que se seguiu posteriormente é ao mesmo tempo uma consagração dessas inovações e uma tentativa diferente de as perspectivar. Ou seja, fazer o mesmo mas de outro ponto de vista, de outra forma.

. E esse fazer pode ser cerebral, ou não?
- Em muitos casos é intencional. Em primeiro lugar, existe hoje um maior acesso a todas as formas musicais contemporâneas. Os músicos caracterizam-se hoje por procurar sons diferentes, ficando assim sob a influência de coisas muito diversas, tanto a nível geográfico como histórico. Trabalham com vários materiais, mesmo que não o façam numa perspectiva de fusão, como é o caso de John Zorn. Depois, temos os casos de músicos que fazem perspectivações e transversalidades que passam de facto por um exercício muito cerebral, não só na música experimental, mas também no rock e na pop. Trata-se de música feita por pessoas que também escrevem sobre música. Ou seja, têm uma actividade jornalística ou teórica, e compreendem muito bem o que acontece à sua volta. A sua abordagem não é, portanto, inocente. Por exemplo, na música experimental temos os exemplos de Alan Licht, David Toop, Dan Warburton e até de Eugene Chadburne, que foi jornalista e crítico musical. No caso do rock mainstream posso dar o exemplo de Marlyn Manson. Aquilo que ele faz nada tem de inocente ou espontâneo.

. Mas há bons músicos com essa “inocência” ...pelo menos na música rock... o que já parece mais difícil na música improvisada.
- Sim... por exemplo aquilo que os SunnO))) nos dão a ouvir é inocente, na medida em que eles não têm plena consciência do que fazem. Mas fazem-no muito bem... e se calhar até revelam mais frescura que alguns dos artistas ditos pensadores das músicas. Na música experimental, e no caso da improvisação, abundam os músicos que tiveram formação clássica ou académica. Nalguns casos são virtuosos que entraram em ruptura com essa aprendizagem, mas aquilo que fazem reflecte inevitavelmente esse passado. É música que está iluminada por tudo aquilo que aprenderam e fizeram, mesmo que eles afirmem querer destruir esse edifício que deixaram para trás. É, de facto, muito difícil ouvir música inocente na área da música experimental.

. À luz destas discussões, como vê as cenas norte-americanas do novo noise ou da free-folk?
- Há muita coisa a acontecer. O caso de um grupo como os Black Dice não me parece muito tomado pela inocência. Eles são um testemunho de como hoje em dia é muito difícil um músico não estar informado sobre aquilo que o rodeia em termos de sonoridades. Relativamente à New Weird America, como a revista “The Wire” chamou ao que se passa nos EUA, trata-se de grupos que misturam a folk com o free-jazz, a pop com experimentalismos vários ou com o krautrock, fazendo assim cada vez menos distinções entre as supostas altas e baixas músicas. Na verdade, estão-se nas tintas para isso. Fazem música popular e ao mesmo tempo música de arte.

. Então podemos falar com propriedade de uma evolução da música popular urbana...
- A questão talvez possa ser explicada de outra forma. Até aos anos 60 e 70 havia frentes musicais mais ou menos organizadas, existia determinado número de grupos, músicos e artistas que praticavam músicas com identidades próprias. Tratava-se de blocos, ou se quiser, de colectivos de gente que foi introduzindo novas tipologias de música. A partir dos anos 80, contudo, julgo que houve uma atomização da música, com a consequente individualização de práticas musicais. Quanto ao free-folk e ao new-noise parecem-me reformulações de músicas que já existiam. São híbridos, como muitas outras coisas noutras áreas. Vivemos num tempo de construção de híbridos musicais e presumo que será assim durante muitos anos.

. Voltando aos seus livros, este têm um olhar muito forte que incide não só sobre a música, mas também sobre temas como a política. Este extrapolar do campo da música para o campo mais vasto da história cultural lembra por exemplo Greil Marcus... Sente afinidades com este autor?
- A maior parte dos meus autores preferidos não escreve sobre música. Vêm das áreas da filosofia, da sociologia, da antropologia. São estas as minhas referências de pensamento. Em termos musicais não posso dizer que tenho uma refer~encia directa. Entre os críticos e teóricos Greil Marcus é talvez aquele que mais me tocou, de facto, devido sobretudo ao assombroso “Lipstick Traces”, o livro em que aborda o fenómeno punk a partir de todas as suas raízes possíveis e imaginárias, ao longo da história humana.

. Também é jornalista. Enquanto tal como vê o papel dos seus pares no contexto nacional?
- É triste dizê-lo, mas sou o único jornalista profissional a escrever sobre estas músicas. Esse é um reflexo da triste realidade em que vivemos no nosso país e m termos de comunicação social. Não existem jornalistas profissionalizados nas margens de tipologias musicais como o jazz e o rock ou em músicas sem grande ou com nenhum relevo comercial como são a livre improvisação, a electroacústica, a new music, os experimentalismos vários, a sound art. Encontramos alguns curiosos e interessados, e alguns deles com bastante qualidade, mas não são profissionais e geralmente escrevem em publicações fora do maistream porque este lhes está vedado, como aliás está para mim. Talvez a única excepção seja a de Jorge Lima Barreto que o faz desde os anos 70, mas cada vez menos de forma regular e permanente, ou o Fernando Magalhães, que entra em certas áreas sem contudo se aventurar nas músicas mais experimentais.

. A descrição que faz parece-me muito pessimista. Foi, na sua opinião, sempre assim?
- Sim... o cenário foi sempre assim desde que me lembre. Aliás, vivo hoje permanentemente as consequências desse facto. Quando saí do “Diário de Lisboa” e mais tarde do “Independente” tive de separar a minha actividade jornalística não-musical da minha actividade enquanto crítico, pelo que passei a trabalhar quase como um saltimbanco. Rapidamente percebi que as publicações com as quais colaborava não estavam muito interessadas naquilo que fazia. Achavam que não era comercialmente vantajoso, que era demasiado elitista e estranho, pelo que ao longo de um percurso de 19 anos de escrita tive de saltar de sítio para sítio, e sempre acumulando um day job noutras áreas com uma escrita sobre música relegada para as noites, os fins-de-semana, os feriados e as férias. Actualmente, faço críticas para o “JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias” e de forma mais ocasional para outras publicações portuguesas, como a “All Jazz”. Colaboro ainda nas revistas espanholas “Oro Molido” e “Margen” e de forma intermitente na francesa “Revue & Corrigée”, para além de escrever para o website alemão Mex Text. Em Portugal escrevi também para o “Expresso”, o “Independente”, o “Blitz”, a “Promúsica”, a “Vida Mundial” e outros, nalguns casos em simultâneo. Algumas dessas publicações morreram, outras não me prenderam e não me deixaram saudades. Hoje, sou muito requisitado para escrever textos para booklets de discos ou programas de festivais portugueses e estrangeiros, e tenho o meu próprio site, http://rep.no.sapo.pt, com crítica discográfica, entrevistas e vários artigos.

. Lembra-se em particular de algum momento passado numa dessas publicações em que se tenha sentido pressionado a seguir outra orientação?
- Sim, lembro-me de uma publicação por onde passei que me pediu para aplicar o meu estilo pessoal de escrita à música pop, em vez de continuar a dedicar a minha atenção aos experimentalismos, às vanguardas e às margens do jazz e do rock. Perante essa pressão, decidi sair porque entendia que entre a música pop e a minha escrita sobre música não havia qualquer relação possível ou imaginária. A minha crítica não é uma crítica pop.

. Como definiria a crítica pop?
- Considero a crítica pop, de um ponto de vista fenomenológico, como algo que corresponde por inteiro ao fenómeno da música pop, reproduzindo as suas características: short attention span, superficialidade, estilismo. O contrário de uma escrita de tipo analítica, que procura interrelacionações e explicações. A “escrítica pop” não explica: antes pelo contrário, procura criar mitos. É verdade que alguma crítica pop existente não é pop [vide o caso de João Lisboa, em Portugal], ou não o é predominantemente [o Lisboa, quando quer, consegue ser muito pop, verdade se diga], mas essa é a excepção que confirma a regra e decorre apenas de um outro fenómeno: a tendência da “abordagem universitária” para conquistar espaço nos média. Ao longo das décadas, o “Expresso-Cartaz” instituiu este tipo de jornalismo crítico como padrão.

. O Rui Eduardo Paes teve uma experiência enquanto músico. Quer contar-nos o que aconteceu?
- Vejo-me mais como um não-músico. Comecei a estudar música [flauta, solfejo e rudimentos da composição] muito tarde, com um professor particular chamado Hélio Azevedo, e acabei por abandonar esses estudos porque não tinha tempo para tudo: preferi dedicar-me ao estudo teórico da música. Foi na qualidade de “não-músico” que fundei com Carlos Raimundo, dos Duplex Longa, os Astronauta Desaparecido, o que aconteceu na sequência de um trabalho de produção que realizei com aquele grupo de avant-pop. A minha intervenção no grupo era essencialmente como compositor ou conceptualizador, apesar de ter tocado alguns instrumentos. Utilizávamos uma série de gravadores de cassetes com sons recolhidos um pouco por todo o lado. Os gravadores estavam ligados a uma mesa de mistura, vários processadores, um rádio, um gira-discos e um leitor de CDs e usávamos um teclado Casio, uma guitarra, muitos discos, percussões, flautas. Os astronauta desaparecido foram um grupo de matriz industrial e punk que fez uma música com elementos noise, étnicos, jazzísticos, de música improvisada e outros. Não era uma música inocente, decididamente. Editámos o nosso único trabalho – “Sound And Fury” – em cassete, numa editora do Porto chamada Tragic Figures e na altura chegou a ter algum sucesso nos circuitos mais underground. Em breve vou voltar a envolver-me em trabalhos musicais. Estou a preparar com Carlos Santos, dos Vitriol e dos [des]integração, um duo no qual vou dizer textos da minha autoria, sendo que a minha voz será processada em tempo real e acompanhada por sons concretos.

. Os Astronauta Desaparecido chegaram a dar concertos?
- Não. Éramos um grupo de estúdio. Ainda que trabalhássemos o mais espontaneamente possível e habitualmente gravássemos as coisas ao segundo take, a verdade é que éramos um projecto de estúdio, de montagem, de maneira que tocar ao vivo naquele formato era praticamente impossível.

. Fez parte então da história da música portuguesa. Como caracterizaria a condição actual desta última, nas suas diferentes manifestações?
- Sobre a cena jazz devo dizer que não a tenho acompanhado. Cheguei a fazê-lo nos anos 80 mas depois afastei-me. A música estava a ficar deprimente, conservadora e medíocre, com notáveis excepções como era o caso de, entre outros, Rão Kyao. Sobre a música pop e ligeira pouco posso adiantar, pois não me interessam. No que diz respeito às músicas experimentais onde estou mais envolvido, aí sim, posso dizer que nos últimos cinco, seis anos, se verificou uma evolução muito positiva com uma série de músicos a conseguir furar a barreira das fronteiras nacionais. Nestes últimos anos, a música experimental portuguesa começou a ter uma relevância importante, ainda mais lá fora do que cá dentro, uma vez que em Portugal tende a ser completamente ignorada ou quase.
Quanto à música tradicional, e se calhar não devia dizer isto, mas acho que, de um modo geral, é muito pobre. Há poucas excepções e uma ilustre é-nos oferecida pelos Gaiteiros de Lisboa. Basta compararmos com músicas de outras regiões do globo. Sobre a música popular devo dizer que parece ter parado em plenos anos 70. Basta ouvir aquilo que Sérgio Godinho fazia antes do 25 de Abril e o que faz hoje, foi do fantástico para o banal. Já no campo do pop-rock alternativo, lembro os casos dos Pop Dell Arte, dos Ocaso Épico, dos Santa Maria Gasolina Em Teu Ventre... que infelizmente não me parece terem tido uma continuação.

. Como vai ser o seu próximo livro? Poderia desvelá-lo um pouco?
- O próximo livro será uma espécie de complemento do espectáculo Senso, de Carlos Zíngaro, que esteve no Instituto Franco-Português em Novembro. Tem o mesmo tipo de preocupações e o mesmo conceito. Vai utilizar desenhos que foram projectados no espectáculo, da autoria de Zíngaro, e espero que marque um salto estilístico no contexto do meu trabalho de escrita. Os livros que até agora publiquei foram sempre o resultado híbrido da minha escrita jornalística com uma escrita ensaística. Agora pretendo tornar a presença da primeira muito menor e acentuar uma maior dimensão literária.

. A música vai continuar a ser o objecto central?
- Sim, mas tratar-se-á de uma escrita mais especulativa e subjectiva, e que vou querer mais literária e até poética. Esta minha decisão surgiu durante a feitura de “Stravinsky Morreu”. Estive um ano a fazer pesquisa e outro a escrevê-lo, constantemente interrompido pelos meus outros afazeres, mas no meio de todo aquele processo comecei a sentir-me insatisfeito com o tipo de escrita que tenho estado a desenvolver. Desejo avançar para um registo em que a abstracção tenha uma maior presença. E o “Senso” veio permitir-me exactamente isso. O mote do espectáculo foram o violino e o violinista e procurou-se sublinhar a ideia do sofrimento físico implícito no acto de tocar o violino, um instrumento que é extremamente incómodo e que nos remete para a exarcebação dos sentidos. Uma das imagens do “Senso” era, por exemplo, um violinista todo deformado e é precisamente isso, numa analogia para a escrita, que vou fazer no meu próximo livro. Procurarei abordar questões que têm a ver com a anatomia, a psicologia, a acústica.

site do crítico - http://rep.no.sapo.pt/
lista pessoal de REP - os 100 melhores discos de sempre - "Os 100 discos da Minha Vida": 
http://rep.no.sapo.pt/Os100discos_1.htm









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