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9.5.26

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #120: José António Moura - "Cadernos De Divulgação - Teoria E Prática 1.4"


 

autor: José António Moura
título: Cadernos De Divulgação - Teoria E Prática 1.4
editora: Marte Instantânea
nº de páginas: 100
isbn: N/A
data: 2025
1ª Edição - Primeira tiragem de 50 exemplares




«A Canção da Família surgia agora atrás de Kino. E o ritmo da canção da família era a pedra de moer onde Juana trabalhava o milho para os blocos matinais (…) Juana cantou suavemente uma canção antiga que só tinha três notas e no entanto infindável variedade de intervalos. E isto também era parte da canção da família. Tudo era parte. Por vezes ascendia a um acorde doloroso que apanhava a garganta, dizendo isto é segurança, isto é calor, isto é o Todo.»

 

John Steinbeck, The Pearl, 1947

 

 

Todas as imagens digitalizadas para escala de cinza a partir de objectos de arquivo pessoal.

 

José António Moura: textos (excepto onde creditado ou óbvio), recolha e manipulação de imagens, composição gráfica, paginação, tradução, revisão (assistida por Pedro Santos).

 

Na face: Aspecto da capa do LP Schafttjdsamba (De Fabriek, 1982).

Página 2: Reprodução da grelha na capa do LP Gold Is The Metal (Coil, 1987).

Página 99: Repetição do nome do projecto do LP Escorts And Models (Borghesia, 1989).

 

Impresso em risografia no estúdio DESISTO. Primeira tiragem de 50 exemplares.

 

Marte Instantânea, 2025.

 

 

Páginas de texto e imagens que assinalam muitos anos de divulgação de música. Demonstra-se como, a partir da perspectiva de fã, se circula para outros papéis mais activos. Nada se inventa, propriamente, mas tudo se ergue do nada. Como em outros percursos, são as ligações que se fazem que identificam a personalidade, são as escolhas de umas coisas em detrimento de outras, incontáveis vezes, que distinguem o nosso percurso de outros. Curiosidade, anotações, cópia, iniciativa e aprendizagem com quem já fazia o mesmo. Benefício da generosidade de pessoas que abriram portas, facilitaram contactos, gravaram e emprestaram música, deram oportunidades. Sem elas, tudo seria mais difícil e menos interessante.

 

O arquivo espelha o percurso e as sensações com bastante evidência e, por isso, o texto está a o seu serviço, não funciona em autonomia nem se reclama biográfico. Por isso, também, encontra-se fragmentado de acordo com a sequência cronológica / temática das imagens, frequentemente como legenda. Ainda assim, espera-se fluído e suficientemente elucidativo.

 

Segunda temporada do programa de rádio Refúgio. 19 emissões, respectivas playlists mensais e folhas de trabalho ilustradas com património real: arte, cartas e infos relacionadas com a música transmitida. Tempo ainda de colagens e letras decalcadas para formar as composições gráficas. A passagem de Almada para Lisboa sugeriu necessidade de conceptualização mais apurada e um certo peso de responsabilidade. Avançar no terreno e ter de lidar com maior fluxo de solicitações.

 

 

 

PARTE 5

Refúgio na Rádio Univeridade Tejo, Front de L’Est, Front Line Assembly, Johnson Engineering Co., 400 Blows, Sprung Aus Den Wolken, etc.

 

Em Julho de 1988 começava a segunda temporada do programa de rádio Refúgio, agora acolhido na Rádio Universidade Tejo, com estúdio no Instituto Superior Técnico, Lisboa.

Objectivo concretizado, fazer parte da grelha de uma rádio que emitia programas que respeitava. Explicado o Refúgio ao coordenador Rui Brazuna, não parece ter existido resistência de maior. Algum excesso de zelo na apresentação, procurar fundamentos teóricos sobre o tipo de música a divulgar, algo que parecesse sério e empenhado. Foi entregue um pequeno dossier dedicado à Máquina, deixando claro que se trataria sobretudo de música electrónica. Trabalho caseiro de corte e colagem, na apresentação visual , e confiança de que a proposta era original, apesar de pontuais semelhanças com um dos pilares da RUT, o Crepúsculo dos Deuses.

 

Investimento e dedicação durante os seis meses de vida do Refúgio (Julho a Dezembro), em entrevistas exclusivas, emissões especiais, passatempos com ofertas, experimentação formal na organização das emissões, elaboração de playlists e uma assinatura gráfica que começou com um carimbo desenhado por António Carvalho, progressivamente co-autor e co-apresentador do programa. O carimbo destinava-se, em primeira instância, a marcar as cartas que seguiam para artistas e editoras; as playlists mensais, com grafismo “a rigor”, seguiam também nas cartas como prova de que a música desses artistas e editoras estava efectivamente a ser divulgada. Um dos pontos fulcrais na apresentação do projecto à RUT foi, aliás, a correspondência já mantida no estrangeiro como base e fonte para emissões distintas, com música e informações exclusivas.

 

(p.6 a p.11) Amostras de envelopes recebidos durante cerca de 7 anos de correspondência regular.




Johnson Engineering Co. - Block Mania

Prima Linea 'Nitchevo' video clip. 1986

Ǝ!Truncheon - Afghan Washed Brain

Total Beat Factor 1988 Side B +Mix Total+

Perennial Divide ~ Beehead




24.7.25

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #117: José António Moura - "Cadernos De Divulgação - Teoria E Prática 1.2"


 

autor: José António Moura
título: Cadernos De Divulgação - Teoria E Prática 1.2
editora: Marte Instantânea
nº de páginas: 100
isbn: N/A
data: 2024
1ª Edição - Primeira tiragem de 60 exemplares



P2

THE SOUND OF THE DRUM

DRIVES OUT THOUGHT. FOR

THAT REASON IT IS THE

MOST MILITARY OF INSTRUMENTS.

 

P3

«Querem discorrer sobre o slogan ‘Conformar Para Desformar’?

 

Não, isso foi o Stevo… não tem nada a ver connosco! Isso foi uma coisa que lixou tantas bandas. Tantas bandas disseram ‘Temos óptimas ideias, vamos ser mesmo diferentes e vamos mudar as atitudes das pessoas… mas o que faremos é seguir a norma, conseguir que as pessoas se interessem e depois então desviá-las’. Em 90% dos casos, as pessoas que se conformam nunca chegam à fase do desvio porque têm de manter o seu público. A noção de ‘Conformar Para Deformar’ é maioritariamente uma treta.»

 

Stephen Mallinder (Cabaret Voltaire) em conversa com Richard Jevons para a revista Overground, 1984

 

«O prazer é uma coisa que o escuro não tem. Tem doer; faz doer. A música do escuro é o som de um sofrimento que se ouve e se condói consigo mesmo. Não fala da simples tristeza, do arrependimento, da chuva, do Outono no coração. Não fala – grita. Grita para que doa ouvir o grito do que lhe dói. Como as imagens de uma morte alheia, no grão intocável de um «écran» de televisão. E deste escuro, deste desespero que não se conteve, nenhuma luz, nenhuma saída se consente ou espera.»

 

Miguel Esteves Cardoso, “A Noite Nacional”, jornal Blitz, 19 de Novembro 1985

 

 

Todas as imagens digitalizadas para escala de cinza a partir de objectos de arquivo pessoal.

 

José António Moura: textos (excepto onde creditado ou óbvio), recolha e manipulação de imagens, composição gráfica, paginação, tradução, revisão (assistida por Pedro Santos).

 

Na face: Rascunho de carta para Mike Keane (Royal Family And The Poor), 1988.

Página 2: Cassette Ecstasy Under Duress (Test Dept, 1984).

Página 99: Composição a partir do papel de carta da Antler Records.

No verso: 12” Junk Funk (SPK, 1984).

 

Impresso em risografia no estúdio DESISTO. Primeira tiragem de 60 exemplares.

 

Marte Instantânea, 2024.

 

P4

Imagem dos TEST DEPT.

(tirar foto)

 

P5 col. 1

Páginas de texto e imagens que assinalam muitos anos de divulgação de música. Demonstra-se como, a partir da perspectiva de fã, se circula para outros papéis mais activos. Nada se inventa, propriamente, mas tudo se ergue do nada. Como em outros percursos, são as ligações que se fazem que identificam a personalidade, são as escolhas de umas coisas em detrimento de outras, incontáveis vezes, que distinguem o nosso percurso de outros. Curiosidade, anotações, cópia, iniciativa e aprendizagem com quem já fazia o mesmo. Benefício da generosidade de pessoas que abriram portas, facilitaram contactos, gravaram e emprestaram música, deram oportunidades. Sem elas, tudo seria mais difícil e menos interessante.

 

O arquivo espelha o percurso e as sensações com bastante evidência e, por isso, o texto está ao seu serviço, não funciona em autonomia nem se reclama biográfico. Por isso, também, encontra-se fragmentado de acordo com a sequência cronológica / temática das imagens, frequentemente como legenda. Ainda assim, espera-se fluído e suficientemente elucidativo. 

Absorver informação e reflectir sobre ela. Comunicá-la. A sua música e os discos continuavam a dar formação artística, social e política. Rasto de cassettes bem importante para primeiras abordagens, uma verdadeira fundação para o trabalho de divulgação. A correspondência com artistas e editoras, iniciada em 1987, começa neste número a ser apresentada de forma a completar a narrativa. A apresentação não é sempre integral mas sobretudo focada em certos assuntos relacionados com histórias pessoais, iluminação de algum detalhe técnico interessante ou pormenor histórico inserido na cena portuguesa da época. Este património segue em edições seguintes dos Cadernos.

 

P5 col. 2

PARTE 3

Test Dept, SPK, cassetes, correspondência, Antler, Siglo XX, The Klinik, Vomito Negro, Interrail, Electronic Body Music, etc.

Assumida a opção estética principal no gosto e na divulgação, passagem para a experiência imersiva da documentação, conhecimento, descoberta do que parecia estar do outro lado da camada de verniz que reveste a realidade consensual. Uma certa reprogramação. Escola do submundo. Contactar com aspectos feios, violentos, reprimidos na sociedade. Questionar a “normalidade”.

Muito novo para viver Throbbing Gristle e a sua doutrina de subversão do Normal, abracei com entusiasmo outros grupos com teoria suficiente sobre assuntos controversos e/ou com carga política. Na geração seguinte, Neubauten pareciam bastante directos, a sua acção e a sua música eram o programa, mas Test Dept e SPK, por exemplo, geravam explicitamente mensagens de (re)acção, revolta e esclarecimento através de textos e frases nos discos. Alguma dessa informação foi apanhada a posteriori para enriquecer programas de rádio ou textos publicados. O primeiro contacto com essas bandas foi através de cassetes gravadas com os discos. O som bateu primeiro, só depois a teoria.

A prolongada luta dos mineiros ingleses em 1984-85 gerou música de apoio e comentário sócio-político, desde a via mais tradicional de Billy Bragg ao acompanhamento electrónico de Robert Calvert (Hawkwind) e As tácticas de choque dos Test Dept. Estes últimos representavam na ideologia mas também no som o combate das classes trabalhadoras na indústria pesada. Simbolicamente, gravaram um álbum com o coro de mineiros grevistas do sul do País de Gales (Shoulder To Shoulder, 1985) mas foi em The Unacceptable Face Of Freedom (1986) que o grupo melhor expressou artisticamente a sua posição política na questão dos mineiros e outras preocupações socio-políticas da época.

A entrada no disco foi imediata, o espírito ficou cativo. Aprender sobre a luta dos mineiros em Inglaterra, quem era Enver Hoxha, tentar entender e descodificar os excertos de rádio ou TV incluídos no álbum, “The Crusher” e “Fist” como veículos de adrenalina. Saber mais para transmitir mais. Depois, descobrir que metade do single de estreia de Test Dept (Compulsion, 1983) era produção Kirk / Mallinder (Cabaret Voltaire). Beating The Retreat mais rude, sombrio, fetichista – “Sweet Sedation” com batida 4/4 que, passados 20 anos, se misturava com techno, e a voz irada que suplantava Nitzer Ebb; “Total State Machine” como protótipo da percussão industrial em forma catártica, energizante; “Spring Into Action” como comando para agir. Ecstasy Under Duress, o entusiasmo na adversidade e um monte de postais evocativos da onda. Tudo reforçado na imaginação, com o corpo a seguir em privado.

Ainda sobre The Unacceptable Face Of Freedom, em artigo pára o Blitz n.º 90, (22 de Julho de 1986), Ricardo Saló descrevia «a sensação que, uma vez por outra, todos nós experimentamos quando se nos depara um disco cuja superioridade nos esmaga, deixando-nos tragicamente a meio caminho entre a impotência para desencadear uma abordagem sabida e a recusa de lhe tocarmos sequer com as pontas do dedos com receio que isso possa perturbar a sua imaculada perfeição. (…) Que corpos estranhos são estes que tão superiormente se borrifam para a música tal como a conhecemos e – pior ainda – a respeitamos?» Conseguem-nos «deixar a pensar como teria sido o Triunfo da Vontade se realizado por Eisenstein no cenário de Metropolis.»

 

THERE IS A HAIL OF EVENTS UNDER WHICH EVERY PERSON STANDS UNSHELTERED, UNABLE TO COMMAND THE STORM’S WITHDRAWAL. WHAT MINOR PROTECTIONS WE CONSTRUCT ARE EPHEMERAL, SHACKS AGAINST THE CONSTANT ONSLAUGHT. I HAVE NO PACIFIST’S DREAM OF MUSCLE. ACTION MUST BE ANSWERED BY BETTER ACTION. DECONSTRUCTION BY CONSTRUCTION. WHEN THE ENEMY ATTACKS YOU MUST INDUCE HIM TO TURN THE WEAPON AGAINST HIMSELF. ALL THE POWER WHICH STANDS AGAINST YOU IS YOUR POTENTIAL POWER AGAINST WEAKNESS BECOMES POWER AGAINST POWER; RUNNING FOR COVER IS NO SOLUTION. SAFETY CAN ONLY BE ACHIEVED BY TURNING THE STORM BACK ON IT SELF.

Test Dept, Beating The Retreat, 2LP









Cadernos de Divulgação 1.2

from Marte Instantanea

Book/Magazine

A5, 100 páginas, escala de cinza, impressão em risografia, papel de textura rude, lombada segura.

Terceiro capítulo de uma série em progresso. Conhecer processos de divulgação de música através de arquivos de gente que o faz (ou fez) com suficiente dedicação e atenção às margens. Os "Cadernos de Divulgação" não terão regularidade assente e pretendem documentar actividades e artefactos resultantes da vontade em divulgar música num país largamente periférico em relação às principais e mais excitantes movimentações do mercado e da imprensa. Por onde se começava? Como se fazia? Com que se fazia? E o que se fazia?

Nesta edição, fase de contacto com discurso político, social e psicológico, portas para um submundo de resistência e denúncia do socialmente seguro e instituído. Muita teoria consumida. Início sério de correspondência com artistas e editoras.

Série com numeração 1 entregue a José Moura, um dos sócios co-fundadores da Flur (www.flur.pt), Holuzam (holuzam.bandcamp.com), Príncipe (principediscos.bandcamp.com), também parte de Major Eléctrico e outras estruturas / equipas mais ou menos duradouras desde a década de 1980. DJ, artista sonoro com CDs editados, fez rádio, escreveu, entrevistou, programou, coleccionou, arquivou, inventou, experimentou, vendeu discos, desenhou flyers, fez a editora Marte Instantânea em 2020 e é no simbolismo desse selo que se lançam os "Cadernos de Divulgação".

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A5, 100 pages, greyscale, risograph print, rough textured paper, solid spine, Portuguese language.

Part three in a series dedicated to the act of divulging music, based on physical archives kept by people who did it with enough dedication in a country (Portugal) always largely on the periphery of the most interesting scenes and press. Where to start? And how? With what? And doing exactly what?

In this issue: a period of contact with political, social and psychological discourse, open doors to an underworld of resistance to the socially safe and established. A lot of theory was consumed. Also, the beginning of serious correspondance with artists and labels.


Issue 1.2 continues to focus on the archives of José Moura, co-founder of Flur (www.flur.pt), Holuzam (holuzam.bandcamp.com), Príncipe (principediscos.bandcamp.com), also part of Major Eléctrico and other structures/teams since the 1980s. DJ, sound artist with 2 CD releases (Discmen at soundcloud.com/discmen), he was a radio host, wrote about music, interviewed people, programmed, collected, archived, invented, experimented, sold records, designed flyers, did the Marte Instantânea label in 2020. Most of the activities described above are still ongoing. 
  less

Sold Out







28.3.25

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #116: José António Moura - "Cadernos De Divulgação - Teoria E Prática 1.3"


 

autor: José António Moura
título: Cadernos De Divulgação - Teoria E Prática 1.3
editora: Marte Instantânea
nº de páginas: 100
isbn: N/A
data: 2024
1ª Edição - Primeira tiragem de 50 exemplares



CADERNOS DE DIVULGAÇÃO

TEORIA E PRÁTICA 1.3

 

Capa:

DIFFERENCE.

DIFFERENCE IS A FIGHT.

WE FIGHT AGAINST THAT WORLD.

THIS WORLD.

 

A BAND.

NOT LIKE OTHER BANDS.

THEY WANT TO SAY SOME THINGS.

TO EXPRESS THEIR DEEP FEELINGS.

THEY WANT TO SPEAK TO YOU.

TO MAKE YOU FEEL THEIR HEART BEATING.

FEEL IT NOW.

LISTEN TO à;GRUHM…

NOW.


Verso da capa:

No Dread In Your Mind


Contracapa:

BRAINWAR DANCE


Todas as imagens digitalizadas para escala de cinza a partir de objectos de arquivo pessoal.

José António Moura: textos (excepto onde creditado ou óbvio), recolha e manipulação de imagens, composição gráfica, paginação, tradução, revisão (assistida por Pedro Santos.

 Na face: Folha de promoção de à;GRUHM…

Página 2: «No Dread In Your Mind», escrito no verso de uma carta de Hartmut Runge.

Página 99: Um dos vários logos usados em cartas de Suicide Commando.

Verso: Logo da editora Brainwar / Carta escrita por Johan Van Roy (Suicide Commando), 1992

 Impresso em risografia no estúdio DESISTO.

Primeira tiragem de 50 exemplares.

 Marte Instantânea, 2024

 

Páginas de texto e imagens que assinalam muitos anos de divulgação de música. Demonstra-se como, a partir da perspectiva de fã, se circula para outros papéis mais activos. Nada se inventa, propriamente, mas tudo se ergue do nada. Como em outros percursos, são as ligações que se fazem que identificam a personalidade, são as escolhas de umas coisas em detrimento de outras, incontáveis vezes, que distinguem o nosso percurso de outros. Curiosidade, anotações, cópia, iniciativa e aprendizagem com quem já fazia o mesmo. Benefício da generosidade de pessoas que abriram portas, facilitaram contactos, gravaram e emprestaram música, deram oportunidades. Sem elas, tudo seria mais difícil e menos interessante.

 

O arquivo espelha o percurso e as sensações com bastante evidência e, por isso, o texto está ao seu serviço, não funciona em autonomia nem se reclama biográfico. Por isso, também, encontra-se fragmentado de acordo com a sequência cronológica / temática das imagens, frequentemente como legenda. Ainda assim, espera-se fluído e suficientemente elucidativo.

 

Mais correspondência belga a misturar informação e foro pessoal, a vontade em interagir e opinar. Nesta edição, comendo substancial da narrativa entregue às próprias cartas reproduzidas em parte ou por inteiro, uma vez que estas contam histórias e revelam detalhes sobre música específica de quem as escreveu e sobre o funcionamento do circuito. Como tal, eram ferramentas de aprendizagem que acrescentavam valor à actividade de divulgação.


Cadernos de Divulgação 1.3

from Marte Instantanea

Book/Magazine






A5, 100 páginas, escala de cinza, impressão em risografia, papel de textura rude, lombada segura.

Quarto capítulo de uma série em progresso. Conhecer processos de divulgação de música através de arquivos de gente que o faz (ou fez) com suficiente dedicação e atenção às margens. Os "Cadernos de Divulgação" não terão regularidade assente e pretendem documentar actividades e artefactos resultantes da vontade em divulgar música num país largamente periférico em relação às principais e mais excitantes movimentações do mercado e da imprensa. Por onde se começava? Como se fazia? Com que se fazia? E o que se fazia?

Nesta edição, regularidade de correspondência com parte considerável do underground belga (Climax Productions, Liquid G., E!Truncheon, Front 242, Suicide Commando, à;GRUMH..., Insane Music), incluindo duas editoras que rapidamente dele sairam (Antler e KK Records). Daí para De Fabriek, Esplendor Geometrico e uma visão geral do tom da correspondência, os assuntos abordados, a experiência a construir-se de improviso e uma rede de contactos a tornar a actividade de divulgação mais definitiva.

Série com numeração 1 entregue a José Moura, um dos sócios co-fundadores da Flur (www.flur.pt), Holuzam (holuzam.bandcamp.com), Príncipe (principediscos.bandcamp.com), também parte de Major Eléctrico e outras estruturas / equipas mais ou menos duradouras desde a década de 1980. DJ, artista sonoro com CDs editados, fez rádio, escreveu, entrevistou, programou, coleccionou, arquivou, inventou, experimentou, vendeu discos, desenhou flyers, fez a editora Marte Instantânea em 2020 e é no simbolismo desse selo que se lançam os "Cadernos de Divulgação".







15.4.24

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #109: José António Moura - "Cadernos De Divulgação - Teoria E Prática 1.1"


 

autor: José António Moura
título: Cadernos De Divulgação - Teoria E Prática 1.1
editora: Marte Instantânea
nº de páginas: 100
isbn: N/A
data: 2023
1ª Edição - Primeira tiragem de 70 exemplares



Capa:

Cadernos De Divulgação

Teoria e Prática 1.1

 

Pg. 3

«Tem de se viajar bastante ou mudar para outro local para se apreciar plenamente tudo o que a vida tem para oferecer. Também tem de se envelhecer. A idade e a perspectiva têm uma maneira de remodelar continuamente a nossa narrativa pessoal. As perspectiva mudam, tal como os modos como vemos a história. Quando se tenta seguir uma linha, pertencer – estás a tentar ser como toda a gente, mas és uma criança. Não tens dinheiro, mas tens capacidade de acção.»

Jon Winfield Nicholson (S.S.P.S.), The Life And Times Of Gigi Black, 2023

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 Todas as imagens digitalizadas para a escala de cinza a partir de objectos de arquivo pessoal.

 José António Moura: textos (excepto onde creditado ou óbvio), recolha e manipulação de imagens, composição gráfica, paginação, tradução, revisão (assistida por Pedro Santos).

 Na face: Aspecto de Aqua Regis / Panic / Tainted Love (Coil, 1985).

Página 2: Composição a partir de capa de Dirtdish (Wiseblood, 1987).

Página 99: The Unacceptable Face of Freedom, LP (Test Dept., 1986).

No verso: Composição a partir das capas de That Total Age (Nitzer Ebb, 1987), Come Before And Murder Love (Death In June, 1985), Shoulder To Shoulder (Test Dept., 1985).

 Impresso em risografia no estúdio DESISTO. Primeira tiragem de 70 exemplares.

 Marte Instantânea, 2023

 Pg. 4

(em baixo) ID de todas as emissões do Refúgio.

- 01: Normal.

- 02: Normal.

- 03: Mini-destaque para instrumentais.

- 04: Normal.

- 05: Normal.

- 06: Passatempo com oferta de 3 postais de bandas.

- 07: Normal.

08: Normal.

- 09: Primeira emissão com 2 horas. Rodagem integral – The Hollow Men – Tales Of The Riverbank.

- 10: Rodagem integral – The Legendary Pink Dots – Island Of Jewels. Mini-destaque “música pesadona”.

-11: Rodagem integral – Chumbawamba – Pictures Of Starving Children Sell Records.

- 12: Rodagem integral – Coil – Horse Rotorvator.

- 13: Rodagem integral – Stockholm Monsters – Alma Mater.

- 14: Rodagem integral – Trisomie 21 – Chapter IV.

- 15: Rodagem integral Venus In Furs – Real More Fibre.

- 16: Destaques Play It Again Sam ! e Siglo XX.

- 17: Destaque Einstürzende Neubauten. Porcópia 1.

- 18: Mini-destaque Skinny Puppy. Porcópia 2.

- 19: Mini destaque Princess Tinymeat. Porcópia 3.

- 20: Especial Electrónica 1 (mini-destaque Neon Judgement). Porcópia 4.

- 21: Especial Electrónica 2 (Front 242). Porcópia 5.

- 22: Especial obscuro e fúnebre (mini-destaque Clair Obscur). Porcópia 6.

- 23: Destaque Poésie Noire. Porcópia 7.

- 24: Emissão fúnebre parte II. Porcópia 8.

- 25: Destaque In The Nursery. Histórias e Poesia. Porcópia 9.

- 26: Telefonemas falsos. Porcópia 10.

- 27: Especial Siglo XX.

- 28: Normal.

- 29: Especial Antler Records.

- 30: Especial Clan Of Xymox.

- 31: Destaques Bourbonese Qualk e The Klinik. Balanço 1987. Passatempo com oferta de autocolantes.

- 32: Normal.

- 33: Normal.

- 34: Normal.

35: Skinny Puppy – história e discografia. Agradecimentos 1987.

- 36: Priemira emissão aos Domingos, regresso a 1 hora (19h-20h). Spoken word misturado com música.

- 37: Spoken word misturado com música.

- 38: Spoken word misturado com música.

- 39: Especial industrial / pós-industrial.

- 40: Normal.

- 41: Normal.

- 42: Normal.

- 43: “Da submersão dos ecos à exumação dos sons”.

- 44: “Exaltação ao ruído”.

- 45: Normal.

- 46: Normal.

- 47: Normal.

- 48: Normal.

 

Páginas de texto e imagens que assinalam muitos anos de divulgação de música. Demonstra-se como, a partir da perspectiva de fã, se circula para outros papéis mais activos. Nada se inventa, propriamente, mas tudo se ergue do nada. Como em outros percursos, são as ligações que se fazem que identificam a personalidade, são as escolhas de umas coisas em detrimento de outras, incontáveis vezes, que distinguem o nosso percurso de outros. Curiosidade, anotações, cópia, iniciativa e aprendizagem com quem já fazia o mesmo. Benefício da generosidade de pessoas que abriram portas, facilitaram contactos, gravaram e emprestaram música, deram oportunidades. Sem elas, tudo seria mais difícil e menos interessante.

O arquivo espelha o percurso e as sensações com bastante evidência e, por isso, o texto está ao seu serviço, não funciona em autonomia nem se reclama biográfico. Por isso, também, encontra-se fragmentado de acordo com a sequência cronológica / temática das imagens, frequentemente como legenda. Ainda assim, espera-se fluído e suficientemente elucidativo.

O benefício da perspectiva possibilita o olhar crítico actual, utilizado com medida, sem desmanchar os avanços originais.

Fetiche na apresentação quase integral das folhas de emissão e textos de apoio para o programa de rádio Refúgio, documentando sem filtro o trabalho, erros e pequenos apontamentos do momento. Para orientação técnica no decorrer das emissões, os formatos eram escritos à frente de cada título. Regra geral, as imagens ilustram nomes nas playlists e provêm de discos que, na época, rodavam essencialmente em cassete,

 

PARTE 2

Rádio Urbana, Antler, Bourbonese Qualk, In The Nursery, Poésie Noire, Princess Tinymeat, Flux, Skinny Puppy, Perennial Divide, Sisterhood, Xymox, Gouldthorpe & Hinkler, playlists, etc.

 

Primavera 1987. Idade: 18 Anos. Refúgio foi nome de programa de rádio semanal, Sábados à noite, duração de uma hora. Acontecia na Rádio Urbana (105.4 FM), em Almada, que ocupava uma loja no Centro Comercial M. Bica. Contacto feito através de uma amigo (Fernando Ferreira) que na rádio já fazia a Zona Informática. O genérico do Refúgio começou por ser Mike Oldfield, “The Trap”, depois assentou em Coil, “Clap”. Divulgação de discos comprados e muitos outros gravados em cassete por amigos e colegas. Mais tarde, também discos promocionais enviados por editoras e artistas que se contactavam por carta. Emissões em co-apresentação com Pedro Caiola.

A partir da emissão 9, o programa passa a ter 2 horas. Inicialmente, por falta de discos suficientes, adopta-se na segunda hora a rodagem integral de um álbum. Começam também a ser feitos destaques mais longos a bandas, editoras ou géneros. A partir da emissão 17, Pedro Caiola escrevia e lia ao microfone o folhetim “Os Traumas de Porcópia Apaixonada”. Postura artística própria do tempo, complemento ‘intelectual’ para a música. Durou 10 episódios. A partir da emissão 36, regresso ao formato de uma hora apenas e em novo dia e horário: Domingos, 19-20h. Última emissão registada na Rádio Urbana é a n.º 48 em 10 de Março de 1988. Nos primeiros meses, necessidade de escrever quase todas as intervenções ao microfone. Amadorismo e ingenuidade frequentes nos textos, as tentativas de aligeirar com humor o facto de a música ser frequentemente agressiva ou difícil. Ainda, erros na informação decorrentes da falta de fontes, fraqueza que viria progressivamente a melhorar com os contactos directos com publicações, artistas e editoras











24.1.24

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #106: José António Moura - "Cadernos De Divulgação - Teoria E Prática 1.0"


 

autor: José António Moura
título: Cadernos De Divulgação - Teoria E Prática 1.0
editora: Marte Instantânea
nº de páginas: 100
isbn: N/A
data: 2023
1ª Edição - Segunda tiragem de 20 exemplares



Cadernos De Divulgação

Teoria E Prática 1.0

 

Música

 

«Abaixo dos sons e dos ritmos, a música opera sobre um terreno bruto, que é o tempo fisiológico do ouvinte; tempo irremediavelmente diacrónico porque irreversível, da qual ela transmuta, no entanto, o segmento que foi consagrado a escutá-la numa totalidade sincrónica e fechada sobre si mesma. A audição da obra musical, em razão da sua organização interna, imobiliza, portanto, o tempo que passa; como uma toalha fustigada pelo vento, atinge-o e dobra-o. De modo que ao ouvirmos música, e enquanto a escutamos, atingimos uma espécie de imortalidade.

Mas, além do tempo psicológico, a música se dirige ao tempo fisiológico e até visceral, que a mitologia certamente não ignora – já que uma história contada pode ser “palpitante” – sem que o seu papel seja tão essencial quanto na música; todo contraponto proporciona aos ritmos cardíaco e respiratório um lugar silencioso.

 

Mas o facto de a música ser uma linguagem – por meio da qual são elaboradas mensagens, das quais pelo menos algumas são compreendidas pela imensa maioria, ao passo que apenas uma ínfima minoria é capaz de emiti-las, e de, entre todas as linguagens, ser esta a única que reúne as características contraditórias de se ao mesmo tempo inteligível e intraduzível – faz do criador de música um ser igual aos deuses, e da própria música, o supremo mistério das ciências do homem, contra o qual elas esbarram, e que guarda a chave do seu progresso.»

Claude Lévi-Strauss, O Cru e o Cozido, 1964

Tradução de Beatriz Perrone-Moisés

 

Todas as imagens digitalizadas para escala de cinza a partir de objectos de arquivo pessoal.

José António Moura: textos (excepto onde creditado ou óbvio), recolha e manipulação de imagens, composição gráfica, paginação, tradução e revisão (assistida por Pedro Santos).

Na face: Aspecto de “Science Fiction”, óleo de Abel Mendes reproduzido na capa de Anar Band.

No verso: Aspectos das capas de DMM Mega Mixes (Duran Duran) e W.O.R.K. (Bow Wow Wow).

Impresso em risografia no estúdio DESISTO. 

Segunda tiragem de 20 exemplares.

Marte Instantânea, 2023.

100 páginas







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