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28.7.22

Elliott Sharp e Telectu - "Concerto De Elliott Sharp E Telectu Na Gulbenkian - Sementes De Violência"


 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 3 OUTUBRO 1990 >> Cultura


Concerto de Elliott Sharp e Telectu na Gulbenkian


Sementes de violência


FOI O concerto da brutalidade. Elliott Sharp e os Telectu iam rebentando os tímpanos a uma assistência que encheu, segunda-feira, por completo a sala polivalente do CAM, siderada pela violência sonora e pelo inusitado da combinação.

As notas da guitarra e do saxofone soprano de Sharp e a panóplia eletrónica dos Telectu explodiram literalmente num caos apocalíptico que teve entre outras a virtude de fazer pensar sobre algumas das vias encetadas pela chamada “nova música”, designação demasiado lata que não chega para abarcar a pluralidade de correntes que em comum apenas têm a repulsa nutrida em relação às “mafias” para as quais a música não passa de negócio.

Mestre da guitarra

A primeira parte do programa foi preenchida por Elliott Sharp em solo absoluto. Uma guitarra de dois braços e um saxofone bastaram-lhe para produzir um caudal de sons violentíssimos, para muitos insuportável logo alguns segundos após a vibração da primeira corda, para a maioria um excitante delírio virtuosístico, com o guitarrista a dar mostras de um domínio absoluto do instrumento. Sonoridades distorcidas até ao limite do tolerável, as notas e ruídos entrechocando-se num combate monstruoso, em “clímaxes” criados com a ajuda de pedais de efeitos, mas sobretudo graças ao modo superior como o músico consegue dominar a massa sonora, domando-a como se de uma fera se tratasse.

Solou indiscriminadamente com as duas mãos e com uma terceira feita em arame, raspou as cordas, agrediu a caixa do instrumento, pôs os olhos e ouvidos em bico a quem estivesse à espera de uma prestação convencional. Explosões, ruído branco, sequências e automatismo rítmicos complexos, sobreposição de frases melódicas e soluções tímbricas arrojadas, mostraram à saciedade por que razão Sharp é hoje considerado um dos grandes mestres contemporâneos da guitarra elétrica. Durante os 45 minutos ininterruptos de risco e provocação auditiva em que Sharp atuou só, ruíram os alicerces do velho mundo.

Subversão a três

Os Telectu entraram a seguir, acrescentando uma dose extra de agressividade ao tom orgiástico da noite. Jorge Lima Barreto percutia o seu DX7, criando uma selva digital entre a qual gritavam as guitarras desvairadas do nova-iorquino e de Vítor Rua. Por trás do palco eram projetadas imagens vídeo computorizadas acrescentando à “performance” o estímulo visual. Onde se esperaria talvez que os Telectu se espraiassem pelas paisagens mais rigorosas de “Digital Buiça”, como ponto de apoio para as intervenções de Elliott Sharp, aconteceu ao invés uma improvisação a três, um pouco à maneira da praticada pelo coletivo AMM, na mesma tentativa de subversão e reconversão dos códigos estéticos e pressupostos éticos subjacentes ao jazz e à música contemporânea. A um espetáculo que se anunciava integrado nas celebrações do Dia Mundial da Música, não se podia pedir melhor.


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26.7.22

Telectu & Elliott Sharp - "Elliott Sharp E Os Telectu Atuam Hoje Na Sala Polivalente Do CAM, Às 18h30 E 21h30 - A Matemática Do Caos" (concerto | antevisão | artigo de opinião)


 PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 1 OUTUBRO 1990 >> Cultura


Elliott Sharp e os Telectu atuam hoje na Sala Polivalente do CAM, às 18h30 e 21h30

A matemática do caos


O guitarrista nova-iorquino Elliott Sharp e o duo português Telectu tocam juntos, numa prova de que a “nova música” também tem lugar entre nós. A violência eletrónica, em plena atividade de “sabotagem” cultural.

Nova Iorque – capital de mil perigos e deformidades. Há músicas que traduzem essa monstruosidade. Sons que avisam e perturbam. Nos clubes e nas caves. Na penumbra do fumo, longe das luzes do dia e dos hipermercados.

Elliott Sharp resiste, luta, provoca a cidade, nas suas convulsões guitarrísticas. Loucura artística contra a loucura institucionalizada. Integra hoje a elite dos impulsionadores e inovadores da vanguarda nova-iorquina, ao lado de nomes como John Zorn, Glenn Branca, David Fulton, David Linton, Rhys Chatham, Wayne Horvitz, Ned Rothenberg, Samm Bennett, Scott Johnson, Robert Previte, David Weinstein ou David Garland, muitos deles colaboradores regulares nos seus trabalhos.

Guitarra telúrica

Especialista em abordagens revolucionárias do instrumento, possui uma habilidade inata para despedaçar os códigos estéticos e as posturas técnicas tradicionais, a par de uma capacidade analítica capaz de unir as pulsões inconscientes, físicas e emocionais ao rigor estrutural. O cérebro mestre do telurismo. Matemática do caos.

Exemplo desta atitude é a utilização, em discos como “Marco Polo’s Argali”, “Tessalation Road” ou “Larynx”, de um complexo sistema algorítmico denominado “séries Fibonacci”, através do qual se torna possível gerar diferentes tipos de afinação, bem como novas soluções harmónicas e melódicas.

Elliott Sharp caminha sobre o fio da navalha, ao longo de uma já vasta e diversificada discografia que integra experiências que vão da composição (ou decomposição...) da música para cordas (em “Tessalation Road”, com os Soldier String Quartet, equivalente intuitivo e esquizofrénico dos seus congéneres Kronos Quartet), o brutalismo rítmico tribal realizado em computador (“Virtual Stance”), a “canção” eletrónica demencial (“In the Land of the Yahoos”, ao lado de Sussan Deyhim, Christopher Anders, David Fulton, Shelley Hirsch e Christian Marclay), à transfiguração do ruído, ordenado sequencialmente (“Looppool”) ou a interpretação orquestral dos cantos “Inuit” e “hoomii”, respetivamente das regiões árticas do Canadá e da Mongólia (“Larynx”, com Samm Bennett, David Fulton, David Linton, Robert Previte, Jim Staley e, de novo, os Soldier String Quartet), Capítulos importantes da sua discografia são também “Rhythm and Blues”, “Escape Clause”, “I/S/M:R”, e “Carbon” e “Fractal”.

Uma definição possível para esta música arrebatadora pode ser encontrada nas próprias palavras do guitarrista, relativamente a “Larynx” mas perfeitamente aplicáveis a toda a sua obra: “Música que dança sobre permutações constantes entre uma geometria derivada das séries Fibonacci e uma geometria fractal de turbulência, caos e desordem”.

Eletrónicos

Os Telectu, grupo de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, com o qual Elliott Sharp tocará hoje no CAM (Centro de Arte Moderna da Gulbenkian), são pioneiros da música eletrónica no nosso país, passando do minimalismo inicial, para posteriores incursões nas sonoridades ambientais (em álbuns como “Rosa Cruz”, e “Halley”), a música “mimética” (“Mimesis”, “Cameratta Electronica”) ou, atualmente, aproximações a um expressionismo digital no qual se incluem músicos como Jeff Greinke, Robert Rich, Peter Frohmader ou, por vezes, o próprio Elliott Sharp, influência evidente em alguns temas de “Live at the KnittingFactory” e “Digital Buiça”.

A conjunção da eletrónica dos Telectu com a guitarra explosiva de Elliott Sharp pode fazer estragos. Espera-se que esta não seja uma iniciativa isolada e que as “músicas alternativas” ocupem, no nosso meio musical, o lugar de destaque a que têm direito.





25.7.22

SYNTORAMA - nº 16 / 1989 - "ELECTRÓNICOS LUSITANOS" (parte 1/4) - TELECTU -


 

             ELECTRÓNICOS LUSITANOS

Já era altura de dedicarmos um espaço ao que se faz no país vizinho. Tudo o que se segue surgiu-nos na ideia após a audição de um concerto dado pelos TELECTU a propósito da bienal de Barcelona 87.

Apesar de deixar algumas coisas para outra ocasião, isto é, de momento, o que compilei relacionado com a música electrónica portuguesa. Seguir-se-á mais informação nos próximos números.

TELECTU

Surgiram no ano de 1982 em Lisboa. Eles começaram no Jazz e na música Rock, cada um por seu lado. VÍTOR RUA foi um dos fundadores dos GNR (Grupo Novo Rock), um dos grupos mais inovadores neste campo. Jorge Lima Barreto já faz música desde 1968 (Jazz e música electrónica).

Além de se dedicarem a tocar desenvolvem outras actividades, como a crítica, vídeo-arte, programas de rádio. Colaboraram com uma grande diversidade de gente; Por isso não vou continuar a contar a sua trajectória, já que a mesma se encontra reflectida na entrevista que fizemos a um dos responsáveis, Jorge Lima Barreto e que aparecerá mais à frente.

 

TELECTU. – Música multimédia, electronic live, jazz mimético, música minimal repetitiva. Música para vídeo, performance, teatro, cinema e dança.

 

JORGE LIMA BARRETO. – Piano, sintetizadores, electrónica, saxofone digital, sampler.

VÍTOR RUA. – Guitarra electrónica, electrónica, engenharia de som, vídeo, guitarra digital, sampler.

ANTONIO PALOLO. – Diapositivos, vídeo, artes gráficas.

 

VÍDEOS DE VÍTOR RUA:

1985 – HALLEY (50 min)

1986 – EBRAC (30 min); AUTO LOOP (10 min)

1987 – ALIENADO (20 min); AS AVENTURAS DO CARRO AMARELO (25 min)

1988 – COMPGRAF 2 (30 min); MIMESIS (37 min. 50 seg)

 

DISCOGRAFIA TELECTU

- “CTU TELECTU” – EMI 1982

- “BELZEBU” – CLICHÉ 1983

- “OFF-0FF” (duplo) – 3 MACACOS 1984

- “PERFORMANCE” – 3 MACACOS 1984

- “TELEFONE” – LIVE IN MOSCU 1985

- “ROSA-CRUZ”. LIVE GULBENKIAN 1985

- “HALLEY” – ÁLBUM DE LUXO COM TEXTO E SERIGRAFIA DE a. PALOLO – CENTRO NACIONAL DE CULTURA / ALTAMIRA 1986

- “DATA” – (MÚSICA PARA VÍDEO) 1986

- “CAMERATA ELETTRONICA” (DUPLO) - AMA ROMANTA 1988

- “MIMESIS” (LP e CD) – TRANSMEDIA 1988

- “BEM JOHNSON (DUPLO LP e CD) – 1989

 


VICTOR RUA

SINGLES: Com GNR – “Portugal na CEE” e “Sê Um GNR”

LP’s: Com GNR – “Independança – EMI Valentim de Carvalho, 1981

                               “Pipocas” – Ama Romanta, 1988

                               “Mimi” – Transmedia, 1989

 

JORGE LIMA BARRETO

“Anar Band” – Alvorada, 1976

“Encounters”, com Sahed Sarbid – Alv, 76

 

TELECTU

JORGE LIMA BARRETO

R/da Imprensa Nacional, 83-2ºD

1200-Lisboa (Portugal)

 

ENTREVISTA TELECTU

ROGELIO PEREIRA – Seria interessante se nos contasses como começaram.

JORGE LIMA – Primeiramente temos que considerar que os TELECTU provêm da reunião de dois músicos diferentes, na concepção musical e na vivência.

Eu toco desde 1968, primeiro em grupos de jazz-off, depois tendo fundado com CARLS ZÍNGARO a ASSOCIAÇÃO DE MÚSICA COCEPTUAL que abriria novos rumos à música portuguesa contemporânea, no sentido de uma investigação em electrónica-live (sintetizadores, piano electronicamente preparado, banda magnética), desde logo com uma actividade paralela como crítico musical e musicólogo (escrevi já 87 livros sobre música, que vão desde “REVOLUÇÃO DO JAZZ” a “MUSICÓNIMOS” (este último sobre filosofia da música e intensas observações sobre o rock).

VÍTOR RUA tinha formado em 1978 o grupo GNR (grupo novo rock) que era sem dúvida o melhor grupo de rock nacional.

Nesse tempo eu andava entre os EUA e o Brasil e quando regressei, conheci-o. Eu tinha gravado ANAR BAND (música experimental para piano, sintetizador e banda magnética) e “ENCOUNTERS” com o grande músico português de jazz, SAHEB SARBIB (música para contrabaixo, flauta e electrónica).

O VÍTOR tinha gravados vários singles de grande êxito e o LP “INDEPENDANÇA”, sempre com os GNR.

Formámos um grupo com o baterista dos GNR, um vocalista e fizemos uma obra de fusão “CTU TELECTU” pioneira na sua linguagem de ART-ROCK. A partir daí e depois de uma grande controvérsia com os princípios da multinacional para quem gravávamos, decidimo-nos pela edição independente. Introduzimos o minimalismo em Portugal, escrevi “música minimal repetitiva” e fizemos uma série de obras minimais como “BELZEBU”, “OFF-OFF”, “PERFORMANCE”, “TELEFONE”, “FUNDAÇÃO”, “ROSA CRUZ”, “HALLEY”, “DATA” e, recentemente, sintaxes repetitivas em “MIMESIS” e “BEN JOHNSON”.




Os princípios que geraram a nossa música foram muito diversos e de foro estético multifacetado; vão desde a investigação em texturas tímbricas, coordenação de dispositivos sonoros, banda magnética, instrumentos acústicos tratados (guitarra e piano), estruturas miméticas, inclusão de computador, processos multifónicos, mistura de média, multimédia, aproveitamento de novos sentidos da improvisação, nova notação musical, enfim, um processo que não deveria ajustar-se a uma definição normalizadora de tantas e tão díspares actividades.

O VÍTOR RUA trabalha essencialmente com a guitarra e engenharia de som e eu em teclados e percussão electrónica.

R. PEREIRA – Nos poucos anos que levais como duo, já garavaram um bom número de LP’s, e apesar disso na altura de editar os vossos discos recorreram, na maioria dos casos, à autoprodução e autoedição. Neste último disco “MIMESIS” gravado numa etiqueta tão importante como é a TRANSMEDIA. Pensma que, finalmente, encontraram uma editora estável para futuras gravações?

JORGE LIMA – O problema da edição independente não se pode pôr nesses termos. Como somos independentes não temos proprietários. Assim estamos livres para fazer a música que queremos e editá-la onde nos pode dar mais acessibilidade e dignidade.

R. PEREIRA – A vossa música serviu de suporte a bandas sonoras de filmes. Para que filmes contribuíram com a vossa música?

JORGE LIMA – Fizemos uma banda sonora para o filme experimental de ANTONIO PALOLO “OHM”, mas fundamentalmente fizemos músicas funcionais para performances (no CENTRO POMPIDOU de Paris), para vídeo, poesia, teatro.

O VÍTOR RUA é um vídeo-artista inovador e as nossas realizações musicais têm sido sempre uma interacção musical com o vídeo, a instalação e a performance (prémio AICA no ano de 86 pela instalação “EBRAC” com Câmara Pereira). O ANTÓBIO PALOLO é parte dos TELECTU (diapositivos, capas de discos, vídeo-arte…)

R. PEREIRA – Na vossa obra “CAMERATA ELETTRONICA” escutamos uma música mais próxima do jazz, abandonando de certa forma a formas minimalistas de anteriores álbuns. Pensam seguir nesta linha ou foi apenas mais uma experiência?

JORGE LIMA – Como já disse, eu também sou musicólogo de Jazz. Em obras como “PERFORMANCE”, “TELEFONE”, e especialmente na peça “BAKU RESTAURANT”, gravada em Moscovo, abordámos mimetismos do Jazz. Dizemos mimetismos porque não sendo músicos de Jazz, pretendemos simular a partir de instrumentos acústicos e electroacústicos, a linguagem do Jazz.

Consideramos em 87 que poderíamos ultrapassar-nos, sem abandonar os processos minimalistas, e inflectimos a nossa música para um tipo de Jazz-Off electrónico, dando mais relevo à improvisação electrónica ao vivo.

A segunda parte da pergunta tem como resposta evidente que nós continuaremos num Work In Progress das nossas concepções musicais, sem qualquer compromisso determinado com esta ou aquela tipologia musical. O futuro nasce da própria acção criativa, depende das circunstâncias tecnológicas e de novas percepções sonoras, ou seja, para além do disco e do concerto temos muitas outras situações para compor e executar a nossa música.

R. PEREIRA – Aparte de fazer música, também se dedicam a escrever em semanários musicais. Por outro lado, tu, Jorge, tens escrito algum outro livro? Tens projectos no campo literário?

JORGE LIMA – Apenas escrevo em semanários musicais. Tenho 12 livros escritos, todos no âmbito da musicologia, estou a iniciar o meu doutoramento na Universidade Nova de Lisboa, em música e mass media, tenho livros e textos já traduzidos (espanhol, italiano, inglês e francês). Neste momento estou a elaborar a minha tese e paralelamente estou a escrever um livro sobre Novas Músicas. Dei também conferências sobre este tema tão aberto, em Paris, Nova Iorque, Rio de Janeiro, São Paulo, Cuzco, Moscovo, Macau, Génova, …

R. PEREIRA – Como avalias o panorama da música electrónica Portuguesa?

JORGE LIMA – Temos de verificar que a minha opinião não pode ser encarada como a opinião de um músico apenas. Como musicólogo tenho reflectido desde sempre sobre a electrónica na música portuguesa, fui pioneiro na Electric live neste país. Escrevi um “breviário de música electrónica” onde está escrito o que penso sobre a música electrónica portuguesa. Consideremos dois tipos: 1 de estúdio, 2 ao vivo. Na electrónica de estúdio, músicos como JORGE PEIXINHO, FILIPE PIRES e sobretudo EMANUEL NUNES (residente na Alemanha), fizeram abordagens electrónicas sobre serialismo, tape music, computação, electro-acústica e, ultimamente, novos valores têm-se revelado.


Na “electrónica live” temos o CARLOS ZÍNGARO que toca com TEILTELBAUM, TELECTU, TÓ-ZÉ FERREIRA e toda uma série indiscriminada de culturas dentro de músicas mais dirigidas a uma massificação estética que inclui o rock, pop, new age e ambientes e funcionalismos musicais. Num panorama pobre, sem um estúdio de música electrónica, e que provém da própria iniciativa dos músicos, sem um eco notório na imprensa musical, praticada normalmente por ignorantes de música, tirando uma ou outra excepção.

R. PEREIRA – Há um par de anos chegaram a actuar na bienal de Barcelona, actuação da qual usaram uma parte em “CAMERATA ELETTRONICA. Têm vontade de tocar de novo em Espanha?

JORGE LIMA – Não temos apenas vontade, queremos profundamente fazer uma tournée em Espanha. Parece impossível que, tendo tocado em todos os continentes, não tenhamos quase conseguido tocar em Espanha, que é o nosso país vizinho. Temos um monte de propostas que incluem concertos, instalação, vídeo musical, performance, conferências, edição de traduções dos meus livros, mas tudo é muito difícil de concretizar; é que o governo português está muito longe de se interessar pela música portuguesa e muito menos por música portuguesa a ser tocada no estrangeiro, lugar que não interessa para captar votos para as eleições. Mas oxalá esta entrevista possa servir como incentivo para essa realizações.

R. PEREIRA – Conheces alguma da música electrónica feita em Espanha?

JORGE LIMA – Evidentemente. Tive contactos pessoais e entrevistei para o meu livro “Musicónimos” o LUIS DE PABLO, gosto muito especialmente da peça “Chaman”, também obras acústicas de BENGUEREL, MESTERES QUADRENY, SOLER, TALTABULL, POLONIO …

Em Espanha, como em Portugal, não há um importante Centro de Música Electrónica e são poucas as multinacionais do disco, que são evidentemente as mesmas que dominam o mercado musical português, que mostrem algum interesse por esta estética musical. E claro que se entendemos o termo música electrónica como toda e qualquer prática instrumental electrónica (ligada ao rock, Jazz, novas músicas, e a música comercial), torna-se muito difícil poder apreciar a música electrónica espanhola, já que os instrumentos não fazem a música sem os músicos. Gostaria de poder aprofundar o meu conhecimento, que é tão superficial, da música electrónica espanhola…

R. PEREIRA – Que outros LPs editaram separadamente?

JORGE LIMA – Eu gravei “ANAR BAND” (76) e “ENCOUNTERS” com o SAHEB SARBIB (77). Por seu lado o VÍTOR tem três LPs: Com os GNR, sob o nome de PSP-PIPOCAS (87) e MIMI (89).

R. PEREIRA – Quais são as vossas preferências musicais?

JORGE LIMA – É um campo vasto de desejo: etnográficas, clássica (que engloba obras orquestrais e de carácter solístico), electrónica, acusmática, concreta, Jazz, rock, pop, música de massas, sons naturais, obras para banda magnética, colagem musical… enfim, somos observadores conscientes de toda a música sem excepção, a não ser uma indiferença e até uma repulsa pelo comercialismo e pela indecorosa conduta das editoras e dos pseudo-músicos que contaminam, com propostas anti-estéticas, todo o consumo musical. É como dizer que se prefere BACH a CAGE, MONK a FRIPP, TEATRO CAGAKU (Japão) a uma RAGA HINDU, se todos são mundos tão maravilhosos para ouvirmos.

R. PEREIRA – Algo que queiras acrescentar?

JORGE LIMA – Penso que numa entrevista o mais importante é o que fica por dizer. Assim, poderíamos estar horas e horas a falar de música, da experiência literária, das novas notações, dos meios de comunicação, de uma composição, de um solista, de um concerto… enfim, seria uma infinidade de considerações a tecer sobre o que se ama: a música.

O desejo de poder ir, tocar e mostrar a nossa criatividade em Espanha, como interesse primordial.

E finalmente, que nos seduz imensamente o movimento estético-musical da vossa revista SYNTORAMA, que denota uma qualidade cultural e gráfica, como também pelo carácter de intervenção que revela.

Esta entrevista com JORGE LIMA BARRETO, membro dos TELECTU, foi realizada por correio, em Abril de 1989.




SLYNKTORAMA16




28.12.20

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #84: Vítor Rua - "Eu Só Queria Dizer O Seguinte..."


autor: Vítor Rua
título: eu só queria dizer o seguinte...
editora: asoka miau house
nº de páginas: 214
isbn: 978-989-20-4310-4
data: 2013






Vítor Rua - eu só queria dizer o seguinte..."

texto: Vítor Rua
Ilustrações: Ilda Teresa Castro
edição de 100 exemplares [livro feito à mão]
este é o #011 - autografado e numerado pelo autor.
uma edição asoka miau house
© 2013 Vítor Rua & Ilda Teresa Castro
ISBN: 978-989-20-4310-4

prefácio e resumo biográfico dos autores, por António Duarte, on demand.



71. 45 & 33 rotações

… uma vez, pouco depois do 25 de Abril, o Jorge Lima Barreto, foi convidado a participar num colóquio sobre Jazz; estavam lá todos os do Jazz: o José Duarte, o Jorge Curvelo, o Raúl Bernardo, etc.; O Jorge queria falar de Free Jazz e das novas tendências do Jazz; enquanto os outros ainda estavam todos no BeBop; a determinada altura, eles começam todos a dizer ao Jorge que o Free Jazz não era música; e o Jorge diz-lhes: “Então ouçam isto e digam-me o que pensam”; e mete um disco a tocar; no final, começam todos a dizer que aquilo é só gritos, e barulheira e que, portanto se comprovava que o Free Jazz era “ruído”; então, o Jorge pega no disco que meteu a tocar, mostra-o ao público e diz: “A obra que eles estão a criticar e a dizer mal, é um disco do Thelonious Monk, só que o meti em 45 rotações quando é um LP de 33 rotações; ora, estes imbecis, nem sequer foram capazes de reparar nisso. Nem distinguiram que os instrumentos estavam a ser tocados a uma velocidade diferente; agora, querem continuar este colóquio comigo, ou com estes tipos?”; e o público em uníssono disse o nome do Jorge e os outros tiveram de abandonar a sala…

 

92. chocolate & chocolate

… uma vez eu e o Jorge Lima Barreto, fomos a Londres para dar um concerto Telectu; encontramos os nossos amigos Gonçalo Falcão e a Inês W Carmo; e andamos a passear por Londres os quatro; eu e a Inês fomos a uma gelataria assim para o chic; sentámo-nos e veio um empregado; era preto; eu peço um “ice cream” e ele pergunta “What flavour?”, e eu digo em português “chocolate”; e ele “Sorry?”; e eu “chocolate” e o gajo “I don’t understand”; até que eu, já nervoso, aponto para a cara dele, e digo-lhe “Chocolat… Chocolat”; aí ele entendeu. Depois, estávamos no metro, nas escadas rolantes, e o Jorge em vez de se meter do lado direito, estava no lado esquerdo; ora, isso fazia com que as pessoas passassem a todo o gás por ele, e dissessem “Please Sir” ou “Sorry Sir”; e o Jorge parado, olhava com estranheza, pensando porque estariam aquelas pessoas a andar numa escada rolante; até que, passa, um muito irritado com ele e diz-lhe “Go to your right”, e vira-se o Jorge para ele, em português: “Estás com muita pressa, tu… Até parece que vais apanhar o metro”…

 

5. Telectu na china

#01 – “o subsídio de cachet”

… fomos à China através do nosso amigo António Duarte; fomos lá tocar; tocámos, por exemplo, no maior clube de jazz de hong kong; tocámos num show multimédia na Casa de Macau; mas o que o António Duarte nos arranjou foi uma outra coisa única; sermos os primeiros ocidentais a gravar na China Record Company. Mas era necessário dinheiro para as viagens de Macau para Pequim; então fomos falar com o presidente do Instituto Cultural de Macau; já não me recordo se falámos com o Monjardino ou com o João Amorim; o que importa é que, a determinada altura, o presidente diz: “Nós não temos cachet para os Telectu”, e o Jorge, olha para ele e diz: “Mas nós não vimos aqui pedir-lhe cachet nenhum!”, e o outro: “Então, o que pretendem?”, e o Jorge: “O que nós estamos a pedir não é um cachet, isso sabemos que vocês não podem dar, o que nós queremos é apenas um subsídio de cachet!”, o presidente do instituto olha para o Jorge e pergunta: “Um subsídio de cachet? O que é isso?”, e o Jorge: “O nosso cachet seriam uns mil contos, ora nós só lhe vamos pedir trezentos contos, logo, o que estamos a pedir-lhe é apenas um subsídio de cachet!” o gajo riu-se e deu-nos o subsídio de cachet!





25.3.20

Vítor Rua | Telectu - "A Musicologia na Era do porquinho Babe" (livro)



Vítor Rua | Telectu: 
"A Musicologia na Era do porquinho Babe"

Este livro está à venda na Bubok por 11.11€, onde comprei. É on-demand.
Estava também à venda, na Matéria Prima, por 20.00€, mas como estava esgotado e não tinha nenhuma imagem da capa, não sei se era o mesmo, ou uma outra versão, sem se on-demand.
Na bubok, o pdf é free.

53 páginas.

A musicologia na era do porquinho Babe é um metaconto duma alegada ficção científica, muito especial como irão ver
A sua escrita é tão aliciante quanto introspectiva, tão marcada pela ironia como pelo discurso críptico e exigente; o texto fluido e pedagógico a sua leitura é sempre gostosa e carregada de recolha de informação.
lustrado de videogramas neo-subjectivistas construídos em computador; articulações visuais do subconsciente e, inclui intermitentes lapsos de pautas da própria autoria.
O livro é formado por dez pequenas histórias, de recorrente e intelectual cavaquear, inventadas numa situação espaciotemporal tríptica, no presente, no passado e no futuro; envolvidas com problemáticas cosmológicas, insinuações científicas, opinião musicográfica libreto duma dezena de quadros de opereta.
Os seus heróis são personagens da estirpe suína da mais simpática fábula, que discute diversos problemas musicológicos, teóricos e tecnomusicais de forma descontraída, ora de abrasivo cinismo ora grotesca ora de profunda reflexão, sem que qualquer postura desequilibre o divertido estilo ficcional.
Todas as matérias abordadas por Vítor Rua neste metatexto, revelam o saber historicista e pluridisciplinar, a acção vivida muito concreta e prestigiosa, a imaginação futurística.
A musicologia na era do porquinho Babe é um objecto apetecível, saboroso e rico em ideias; o metaconto mantém viva a original criatividade do escritor musical pop e supera-se na erudição.
A sua épica é um sortido de diálogos de banda desenhada ou de intrincados raciocínios sobre notação musical, e muito mais discussões espantosas este objecto é a conciliação musicológica do bom humor com a seriedade - a voz introspectiva do autor e o dissertar diletante dos porquinhos muito sofisticados vivendo em cenários paradoxais, leva-nos á Alegria da Música.
JORGE LIMA BARRETO










14.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (13)



DN - Diário de Notícias
11 Maio 2002

Discos Pe(r)didos


Tinham passado quase dez anos sobre o momento no qual os GNR conheceram a sua segunda mudança de formação. Em finais de 1982, depois de concluído e editado o fundamental e histórico «Independança» (ainda à espera de reedição em CD, tal e qual o sucessor «Defeitos Especiais», de 1984), Vítor Rua junta-se a Jorge Lima Barreto para concluir «CTU», o álbum de estreia dos Telectu, o novo duo constituído por ambos, no qual se desenhavam rumos de fuga aos passos pop/rock nos quais Vítor Rua circulara até então. Depois de editado o álbum dos Telectu, Vítor Rua e Toli iniciam o trabalho de produção de «Anjo da Guarda», o LP de estreia de António Variações, para a Valentim de Carvalho, editora dos GNR e, até esse momento, também dos Telectu. Vítor Rua abandona o trabalho no disco de Variações e parte para Nova Iorque. Ao regressar propõe uma pausa nos GNR, o que não agrada aos restantes elementos do grupo. Decide, então, afastar-se e seguir rumo próprio...
Apesar da separação, um diferendo oporá, durante anos, Vítor Rua aos restantes elementos dos GNR. Um diferendo que parte da questão da posse dos direitos do nome do grupo, que ficam pelo lado de Reininho, Toli e Alexandre Soares. A 15 de Fevereiro de 1983, Vítor Rua escreve, no «Sete», um texto no qual explica ser ele o proprietário do nome GNR e proíbe o grupo de tocar ao vivo as composições que ele escrevera para a banda...
Um novo episódio deste complicado caso tem lugar quando os GNR editam, em 1990, o duplo álbum ao vivo «In Vivo», gravado num concerto na Alameda D. Afonso Henriques. O disco incluía «Hardcore (1º Escalão)», «Portugal na CEE» e «Sê Um GNR», todos eles interditados por Vítor Rua junto da SPA. A primeira edição esgota, e é substituída por uma outra que passa a incluir «Homens Temporariamente Sós»... A primeira edição é hoje uma peça disputada no circuito de coleccionismo.
Um ano depois, num momento de pausa no trabalho dos Telectu, Vítor Rua edita um disco através do projecto Vidya e um outro através de um nome que gera nova polémica: Pós-GNR.
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja», apresentado aos media numa conferência de imprensa na sede da PolyGram, onde se voltou a levantar o velho drama dos direitos de utilização do nome GNR, é um disco no qual Vítor Rua procura um interessante reencontro com as linguagens pop/rock. Depois de quase uma década de experimentação noutros territórios, o reencontro faz-se segundo regras distintas das que os próprios GNR tomaram, procurando antes um entendimento entre formas da cultura popular e elementos da invenção «livre» característica de correntes de vanguarda, temáticas de decadência, da vida na grande cidade... De certa forma, «Mimi Tão Pequena e Tão Suja» procura ser uma herança, distante, das pistas deixads em aberto no álbum de estreia dos GNR, reencontradas e encaradas por um músico que, entretanto, acumulara outros hábitos e percursos. Esta ideia de continuidade é sublinhada por temas como «Hardcore II» e «Independança II»... Curiosamente, não se encontram aqui marcas notórias de descendência de «Avarias»...
Com alguns bons momentos em canções como «In The City» ou «City Of Love», o álbum passa a Leste das atenções, não só do público mas também de muitas estações de rádio. Exactamente o cenário oposto ao que receberia, um ano depois, «Rock In Rio Douro», dos GNR.
Em 1996, cinco anos depois deste único álbum sob o nome Pós-GNR, Vítor Rua surgia (assim como Alexandre Soares) na festa de lançamento do «best of» dos GNR. Pazes feitas, conflito sarado. A música agradece.
N.G.

PÓS-GNR 
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja» 
LP, PolyGram
Lado A: «In The City», «City Of Love», «Very Speed Song», «Hardcore II», «Speak With Me Please», «Nothing», «Independança II»; 
Lado B: «Junkie Fly», «Wars Of Fights», «Scales Of Solos», «Strange Perception», «The Next Album...» Produção: Vítor Rua






30.12.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (268) - Blitz - Jornal Musical


BLITZ 
(Jornal Musical)
Ano IX
Nº 424
15 de Dezembro de 1992
Sai às Terças-Feiras
Director: Rui Monteiro
Preço: 100$00
32 páginas
Capa e algumas páginas interiores a 3 cores, outras a preto e branco.
Suplemento Manifesto (?Mensal?) de 4 páginas. Ver abaixo autoria do mesmo, na ficha técnica


Ficha Técnica (parcial)
Redacção, administração e serviços comerciais: Av. Infante D. Henrique, 334, 1802 Lisboa
Director: Rui Monteiro
Chefe de Redacção: António Pires
Redacção:
Cristina Duarte
Miguel Francisco Cadete
Nuno Galopim
Raquel Pinheiro (Porto)
Rita Carmo (Fotografia)
Direcção Gráfica:
Cândida Teresa
Colaboradores:
Adágio Flor
Álvaro Romão
André Lepecki (Nova Iorque)
António Freitas
António Maninha
António Pedro Saraiva
Bruno Branco
Bruno Maçães
Diniz Conefrey (ilustração)
Fátima Castro Silva (Porto)
Fernando Santos Marques
Gimba
Hélder Moura Pereira
Hélder Salsinha (fotografia)
Hugo Moutinho (Porto)
Isabel Lucena (Londres)
João Correia
João Bugalho
José António Moura
José Antunes
Lili Wilde (Londres)
Luís Mateus
Luís Pinheiro de Almeida
Maria Ana Soromenho
Maria Baptista
Maria João Gouveia
Mário Correia
Miguel Cunha
Miss Ex
Monsieur Sardin
Paulo da Costa Domingos
Paulo Somsen
Pedro Esteves
Pedro Portela
Rafael Gouveia (Paris)
Rui Eduardo Paes
Sérgio Noronha
Sofia Louro
Teresa Barrau
Vítor Vasques (fotografia)

Manifesto (suplemento):
Ana Cristina
António Sérgio
Nuno Diniz
Jorge Lima Barreto
Manuel Dias

Tiragem média do mês anterior: 19 290 exemplares

Tal como disse aqui, este é um número de um período posterior em cerca de três anos e que cai naquela fase que então cataloguei como a segunda decadência, quicá o início dela, quiçá a última...
O Director continua a ser o mesmo (Rui Monteiro), alguns colaboradores são de qualidade (ver lista abaixo), mas já não era a mesma coisa. E fico-me por aqui.
Curiosamente, apesar da deriva mainstream a tiragem média decresceu.


AO VIVO
IMPROVISAÇÃO, EIS A QUESTÃO

Um ciclo de concertos dedicado ao tema «Nova Música Improvisada» apresenta inevitavelmente, para além do interesse suscitado pelos participantes, um especial aliciante, colocando-nos questões habitualmente escamoteadas no que concerne à caracterização íntima de uma música e do seu fazer. Os dois concertos em que Carlos Zíngaro foi o anfitrião deveram o seu especial sucesso ao facto de terem sido conduzidos por um quarteto de experimentados improvisadores-compositores, para além do violinista português as luminárias Frederic Rzewski, Richard Teitelbaum e Barre Philipps, indiferenciando-se no seu trabalho os dois processos de criação musical.
A música que se ouviu fez-lhes inteira justiça: da gestão minimal de sons e silêncios Às massas orquestrais providenciadas pela tecnologia montada no palco, do esquematismo dodecafónico à explosão libertadora resultante da plena integração dos instrumentistas, do impressionismo mais preciosista ao gestualismo e à visceralidade expressiva, da caixinha de música, com todos os elementos cautelosamente concertados, à parasitagem electrónica de todo o espectro audível, tudo pôde acontecer. Frederic Rzewski, o lendário autor de “The People United Will Never Be defeated”, percorreu ao piano os vocabulários com que este é conotado, detendo-se sobretudo nas referências românticas e impressionistas e introduzindo pequenos motivos, notas ou acordes isolados, exactamente nos momentos em que tinham de acontecer ou seria o abismo. Barre Phillips esteve dividido entre a sua vocação lírica (aquela mesma ilustrada pelos seus discos na ECM) e um discurso no contrabaixo construído em torno de fraseados desconstruídos. Richard Teitelbaum ora foi discreto, confirmando a sua fama como «humanizador» da informática musical, ora se responsabilizou pelos fabricos sonoros mais surpreendentes de ambas as sessões, com utilização, por exemplo, de «samples» do canto rural transmontano ou dos judeus safarditas medievais. Carlos Zíngaro, por sua vez, integrou-se na nuvem de tonalidades geral tocando acústico, com a sua linguagem violinística feita de armadilhamentos gramaticais, ou ligando o seu instrumento, via «pitch to Midi», a várias máquinas e «gadgets» electrónicos, como o «delay», o que lhe permitiu dobrar fraseados e acrescentar sentidos.
Já Azguime, no seu espectáculo a solo denominado «Ícones», com a participação do coreógrafo João Fiadeiro, lidou bastante menos com a gama de possibilidades presenteadas pelo binómio intuição/memória. Evidenciando uma técnica excelente e uma imaginação cénica cuidada, o percussionista português apresentou seis peças de música organizadas por módulos, cada um com o seu específico «set» de instrumentos, incluindo uma escada e uma dorna. Sem poder explorar devidamente as potencialidades sonoras que tinha ao dispor, foram exercícios de virtuosismo, e pouco mais, o que nos apresentou. Ora, não é a exibição de faculdades que define, no essencial, a prática processual da improvisação.
Velez, pelo seu lado, com os préstimos de Steve Gorn nas flautas bansuri e do percussionista Randy Carfton, deitou por terra toda e qualquer conotação com o jazz do acto de improvisar. A música deste agrupamento situa-se algures entre a World Music e a New Age, se bem que não se confunda com a generalidade dos produtos que exibem tais rótulos, dada a maior seriedade dos seus propósitos.
E se no caso desta formação a prática e o conceito são indissociáveis, no dos portugueses Telectu, que tocaram em duas sessões com o baterista e percussionista Chris Cutler, fundador de grupos do «art rock» com a fama dos Henry Cow ou dos Art Bears, o concerto foi tudo, obliterando a auto-suficiência performativa da música. Pretendendo enumerar as técnicas e «tendências» de dez anos de existência enquanto duo, Jorge Lima Barreto e Vítor Rua protagonizaram uma actuação descosida, durante a qual foi-lhes impossível interligar os diversos elementos («situações», chamaram-lhes) que se propuseram reunir. O espectáculo, preparado com estipulações seccionadas ao minuto e incluindo a vídeo-arte de Rua bem como a instalação e luminotecnia de António Palolo, ou pecou pela pura inércia, nada acontecendo, ou foi prejudicada pelo atabalhoamento de citações e referências, o minimalismo, o free rock, o «jazz mimético», a electro-acústica experimental atropelando-se numa desfilada incongruente.
A improvisação pode ser hiper-calculada e ainda assim falhar no momento da verdade, foi o que se ficou a saber. É pena, pois os últimos feitos dos Telectu, em particular o CD «Evil Metal», prometiam bastante mais.
Rui Eduardo Paes






2.11.16

Recordações (31) - Concerto - Telectu & Paul Rutherford + Ikue Mori (Festa do Avante)


Festa do Avante

Concertos

Acho que esta foi a última a que fui.
Era presença mais ou menos assídua... mas quase só para ver os Telectu, que estavam lá todos os anos e levavam sempre convidados diferentes. Aqui o Paul Rutherford.
De caminho vi a Ikue Mori :-)









23.9.16

Recordações (15) - Folhetos de Programação do Rock Rendez-Vous (RRV)


Rock Rendez-Vous
RRV
Folhetos de Programação

1 - Abril 1988






22.7.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (216) - Catálogo - Ananana (Abril de 1993)


Catálogo
Ananana - Abril de 1993










8.2.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (158) - anúncios #1








21.12.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (129) - Música & Som #80


Música & Som
Nº 80
Março / Abril de 1983

Publicação Mensal
Número Duplo
Esc. 150$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
72 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio. Neste número, também as 16 páginas centrais a cores e papel brilhante, como a capa.


A Vibração Do Ar
por Eduardo Pais Mamede
Num país pequeno como o nosso, com uma produção musical e uma actividade artística mínima, é natural que as pequenas quezílias estético-musicais ganhem um certo fôlego entre os simpatizantes das diversas correntes musicais, denotando todo o provincianismo que é inerente a este país que, além de situado na cauda da Europa, sofreu, infelizmente, 45 anos de isolamento forçado, acontecendo as coisas, por esse motivo, com dezenas de anos de atraso. Vem isto a propósito de uma certa "guerra" generalizada, aberta ou encoberta, que se instalou desde há uns anos entre os simpatizantes, consumidores e produtores de diversos estilos musicais. Tal como se viveu em política após a legalização democrática, com a partidarização de tudo e todos - só com paralelo com a "clubite" futebolística, sempre moldada por paixões extremas - o ambiente musical é, especialmente após a explosão da "nossa" onda Rock, marcado por um mau-estar provocado pelos sectarismos, invejas, etc., que se manifesta até dentro da mesma área musical. Creio que posso afirmar que não existe nenhum domínio, desde a Música Erudita ao Rock, passando pela Música Popular, o Jazz e a Música Ligeira, em que o ambiente seja de cooperação e ajuda mútua, quanto mais na relacionação destes domínios entre si. Esta situação, aliás, reflecte-se muito bem nos "mass-media", em que cada um "puxa a brasa à sua sardinha", como se "mandar abaixo" este ou aquele fosse fundamental para vender mais ou criar obras melhores. Por mim, sou da opinião que em cada estilo musical se pode fazer boa ou má música e que, quanto mais pessoas houver a fazer música, editoras, estúdios, espectáculos, etc., melhor qualidade haverá, pois esta provém, também, da selecção da quantidade.
E eis-me chegado ao ponto fundamental deste meu artigo - a qualidade. Muito se fala desta palavra, toda a gente a utiliza, usufruindo a seu bel-prazer o peso mágico que este termo encerra. Qualidade... Mas o que é que isto quer dizer ao certo? Tomemos, por exemplo, o caso de um disco. Para se dizer se ele tem ou não qualidade, independentemente do seu género musical, é preciso em primeiro lugar analisá-lo nos seus aspectos técnicos e artísticos. A captação de som com a reprodução fiel dos instrumentos sem saturações nem distorções (corte do acetato), assim como uma prensagem silenciosa e uma impressão correcta e definida das cores e acabamentos da capa, são importantes na definição da qualidade técnica do disco. Em relação à parte artística, temos ainda alguns factores a levar em conta.
Em primeiro lugar, na análise detalhada do material registado, no caso de serem canções, examinaremos inicialmente a unidade letra/música, sua conjugação, a coincidência na tónica palavra/música, etc., e, seguidamente, debruçar-nos-emos sobre os seus elementos. A qualidade poética, a construção dos versos, as palavras utilizadas e a inserção cultural da temática são pontos de análise importantes no que diz respeito à letra. Sobre a música, teremos que apreciar a sua construção tonal, a riqueza ou ausência de modulações, a dinâmica (mudança de andamento, alternância de volumes), a complexidade ou simplicidade rítmica e a harmonização. De seguida, examinaremos a interpretação vocal do(s) artista(s) em relação aos aspectos de afinação, expressividade, timbre, colocação de voz, utilização de portamentos, etc. Um conjunto de pontos cuja leitura é muitas vezes subjectiva, pois tem a ver com a estética de cada um, ou, por outras palavras, com o bom ou mau gosto das pessoas. A produção e os arranjos ou orquestrações são também definidores importantes duma qualidade artística. Assim, teremos que notar que tipo de instrumentação foi escolhido para canção, os contracantos, a dose de utilização da reverberação, os efeitos (delays, harmonizadores, etc.), o equilíbrio dos instrumentos / vozes (mistura), etc. Finalmente, veremos a embalagem do disco (capa), a harmonização com o conteúdo, o arranjo gráfico, as indicações técnicas, as notas explicativas, etc., também importantes para a qualidade artística da obra. Enfim, só depois de toda esta análise detalhada poderemos falar de qualidade ou da ausência dela em relação a um disco.

Entrevista
TELECTU
Jorge Lima Barreto Diz Dos Telectu
"A Linguagem Mais Avançada Que Se Faz Por Aqui!"
Texto e Fotos: Manuela Paraíso




Telectu - subitamente, uma proposta arrojada na predominante mediania da música nova feita em Portugal. Resultante do encontro de dois músicos - Vítor Rua (ex-GNR) e Jorge Lima Barreto (criador da Anar Band) - o projecto TELECTU teve as suas primeiras apresentações na III Bienal de Vila Nova de Cerveira e no II Festival de Vilar de Mouros, após as quais se procedeu à gravação de um álbum, "Ctu Telectu", editado nos fins de 1982. Portador de esquemas construtivos absolutamente inéditos no nosso meio musical, "Ctu Telectu" revela-se como uma alternativa ao cliché da música plastificada, assentando bases na pesquisa sonora por intermédio de esquemas repetitivos. Acerca do disco e do própiro projecto do grupo, registámos as opiniões dos seus autores, numa conversa informal.

M&S - Como é que se proporcionou a gravação deste álbum?
Vítor Rua - Eu e o Jorge convidámos o Tóli e o Dr. Puto - o vocalista - para a gravação do disco. Em Vila Nova de Cerveira, onde ganhámos o prémio da Bienal, fizemos a demonstração de como se preparava um LP. Depois, fizemos a primeira apresentação em Vilar de Mouros, como quarteto, gravámos o disco para a Valentim e agora estamos em duo.
M&S - Portanto, o Tóli e o Dr. Puto funcionaram como convidados para a gravação do álbum... como é que vocês trabalham a nível de composição?
Jorge Lima Barreto - Nós agora mudámos completamente, éramos um quarteto e passámos a duo. Entrámos noutra estética, alterou-se tudo, e não há relação possível entre as duas coisas. O que se fez, foi uma coisa trabalhada durante quase um mês, em Cerveira, todos os dias nós trabalhávamos perante o público, fomos desenvolvendo programas de sintetizadores. O Vítor tocava baixo e preparava estruturas rítmicas com o Tóli... e depois, no estúdio, escolheram-se diversas sobreposições, usando-se vários canais. Em todos os temas, nós utilizámos seis canais cada um. Aliás, há dois temas que são quase metade do disco... a batida é dada por um computador de ritmos, e não pelo baterista.
M&S - Reparei que no disco há duas partes distintas e complementares - uma dada por uma acentuada secção rítmica, a outra por uma pesquisa a nível sonoro...
JLB - ...tímbrica... Claro, essa é a nossa parte principal. De resto, o disco também tende para o rock, porque era mesmo para se encaixar dentro de uma estética rock - utilizava um baterista rock, um cantor... senão, nós nem sequer tínhamos recorrido a isso. Nós agora estamos a desenvolver a outra parte, dentro de uma estética repetitiva...
M&S - Menciona-se no disco que todos os títulos são extraídos das obras do escritor Philip Dick. Isso é relativo a alguma espécie de influência?
JLB - Olhe, por exemplo, a capa do primeiro disco da Anar Band é uma pintura do Abel Mendes e chama-se "Science Fiction". Acabei um volume (que deve estar aí a sair), e estou a fazer um segundo, ambos sobre ficção científica. O Vítor também se interessa, e nós achamos que toda a música electrónica tem relação com a ficção científica. Entretanto, o ano passado morreu Philip Dick, que tem um certo peso como escritor de vanguarda de ficção científica, e nós fizemos-lhe um memorium. Os títulos foram escolhidos também em relação a isso.
M&S - Voltando à gravação do álbum, quando entraram em estúdio vocês já tinham determinados esquemas preconcebidos em relação àquilo que fizeram em Vilar de Mouros, ou tudo funcionou mais numa base de interpretação?
VR - A diferença fundamental entre a actuação em Vilar de Mouros e o disco, é que em Vilar de Mouros as secções rítmicas e os sintetizadores já estavam programados. Na gravação do disco, por exemplo, cheguei a dobrar seis vezes a guitarra, e o sintetizador foi também dobrado. Nas últimas composições somos só nós os dois, eu toco baixo e guitarra e o Jorge toca sintetizadores, em seis pistas para cada um; por isso é como se fossem doze instrumentos; e, além disso, o Dr. Puto duplicava ou triplicava a voz.
M&S - Em relação aos seus trabalhos antigos, acha que têm alguma coisa a ver com o tipo de linha que os Telectu estão a seguir agora?
JLB - Claro, há a própria evolução de um artista. Tal como um pintor, se fizer hoje uma coisa e tiver feito outras anteriormente, com certeza há uma evolução. Ou então não há, simplesmente, evolução. Neste caso acho que houve, nós estamos mais avançados neste momento, até pela tecnologia que temos, que é mais avançada.



M&S - Aliás, vocês propõem-se criar algo absolutamente novo em relação à música que se faz em Portugal...
JLB - Não é propormo-nos... nós já fizemos alguma coisa, não é? Aliás, qualquer disco dos meus é assim - e mesmo em relação ao Vítor, também - o GNR era uma coisa muito nova em relação ao que se fazia aí em matéria de rock. E acho que estávamos indicados para nos encontrarmos os dois.
M&S - Em relação às letras, elas têm algo a ver com as obras de Philip Dick?
JLB - Não, nada. As letras são do Dr. Puto, que teve total liberdade para as escrever. Há uma faixa que é cantada em italiano, outra em inglês...
M&S - Haverá algum tipo de música que vocês ouçam e que, de uma forma ou de outra, vos possa influenciar?
JLB - (apontando uma bela e comprida colecção de discos) Ali está electrónica, daquele lado, etnográfica; depois, música clássica, jazz; além, rock; e ali, jazz clássico. Ouvimos de tudo. Quando nos conhecemos, o Vítor tinha um tipo de audição muito específico de rock - porque ele era um músico 100% de rock - e foi-se abrindo... agora estamos os dois a incidir numa estética repetitiva. No disco há dois temas assim, o "Valis" e um outro, que nós achamos que é a melhor coisa que se fez aí, e que só tem dois minutos - "Martian Time - Slip". Queríamos fazer quase um lado inteiro com essa faixa, mas não nos foi permitido.
Uma coisa que eu gostava de focar, é que os discos de rock que se fazem em Portugal normalmente não são rock: ou são pop ou música ligeira. E, no nosso caso, apresentam-se solos de sintetizador e particularmente de guitarra eléctrica, em que o Vítor Rua se mostra como um caso ímpar no nosso nível instrumental, e no rock não há nenhum que tivesse atingido este nível de qualidade. E ele, particularmente neste disco, está na forma mais exemplar que se pode imaginar. Quem possuir um disco destes tem, com certeza, um exemplo da linguagem mais avançada que se faz aqui, quer mesmo a nível de produção; também a voz, que normalmente é tratada directamente, aqui surge filtrada, incluímos diversos panos de voz... e mesmo os arranjos electrónicos são casos aqui invulgares, nesse aspecto. Mas este disco não é experimental, é formalista, porque nós adoptámos a forma de rock. Claro que há improvisação, como houve em todo o rock, mas a partir de dados iniciais que vieram quer de programas de sintetizador, quer de composições melódicas que n´so adoptámos.
M&S - A vossa música parece-me ter muitos pontos de contacto com a música planante alemã...
JLB - Sim, o rock alemão, pois claro que isso se reflecte, foi o tipo de posição adoptada. Mas a nossa música está mais avançada e tem um sentido mais vanguardista do que a música alemã, porque não é uma coisa só mecânica... é um disco muito mais emocional. Há, por exemplo, improvisações jazzísticas da minha parte, que são incluídas.
M&S - Qual o verdadeiro sentido do nome do grupo, TELECTU?
JLB - TELECTU não tem sentido, é uma palavra semântica. Foi de um poema concreto de Melo e Castro que nós tirámos o nome, CTU TELECTU... como um jogo de palavras, Telectu Ctu... e a palavra em si também não é vazia, tem um sentido poético.
M&S - ...e até pode ser conotada com outras palavras, como por exemplo, INTELECTO...
JLB - Pois, pode-se conotar com diversas coisas, por exemplo, TELE, TELEVISÃO... mas realmente cremos que a palavra tem uma carga tecnológica muito grande. Por exemplo, "água doce" não tem qualquer carga tecnológica, não é? E além disso, "Telectu" tem também uma carga mental, que é importante.
M&S - Acha que as pessoas poderão ser motivadas a pensar, ouvindo este tipo de música?
JLB - Acho que sim, pois claro, e serão motivadas para a procura de outro tipo de música. Você falou em rock alemão, há pessoas que falam em música electrónica, outras em jazz mais avançado... o disco está cheio de referências, é uma obra rica, em si. Qualquer obra que esteja bem organizada convida as pessoas a consultar outras coisas; e coisas superiores, nunca é uma chamada para coisas inferiores. A partir disto, as pessoas só poderão ter o prazer de ouvir coisas efectivamente melhores.

Ouvir TELECTU. Um convite que poderá ou não ser aceite, correndo-se, neste último caso, o risco de deixar passar ao lado um trabalho importante porque inédito no nosso país. "Ctu Telectu" - um trabalho inteligente e ousado e, acima de tudo, DIFERENTE.



Concertos
Durutti Column
Tonight's The Night




Como era de esperar, o público que enchia a sala da Aula Magna da Reitoria, ocupando calmamente sentados, era constituído por adeptos incondicionais das melopeias dos Durutti Column. Não havia curiosos. Só entendidos. Fãs convictos. Cúmplices de um repertório sobejamente conhecido que, num ambiente cool, se começavam a impacientar ligeiramente com os 10 minutos que passavam das 21e 30. Sem grandes alaridos.
A organização preocupava-se com as condições em que o som seria transmitido. E com razões de sobra, dado que a fragilidade extrema, a sensibilidade comovente e as melodias mandraxizadas deste duo não permitem distorsões de sons, brincadeiras na mesa de mistura ou processos tipo vê-se-te-vias tão característicos na maioria dos concertos.
Já há sete meses, em Vilar de Mouros, os Durutti Column tinham constituído um dos momentos-chave do Festival. Vini Reilly, o seu guitarrista solitário, separado de todas as modas ou correntes, transportando atrás de si uma reputação misteriosa, autor de um som de guitarra sublime e de uma música angélica que manipule os sentimentos mais depressivos em nome de uma melancólica sabedoria, e o veterano Bruce Mitchell, responsável por um drumming modelo de concisão espantoso, seriam os nossos guias na histórica noite de um concerto perfeito, cujo único defeito pareceu consistir no set demasiado curto, seguido de dois parcos encores.
Céus, como Vini parecia sobre o palco! Tal uma gazela assustada e receosa, anunciava despretensiosamente os seus temas que ele próprio definia como "maçadores"!... Desde a sua aparição, foi saudado com delirantes ovações por parte de um público incondicionalmente rendido.
E os temas líquidos e cheios de mágoa de album LC começaram a desfilar, em momentos hipnóticos, atravessados por flashes e alucinações, testemunhando a conjugação raríssima de uma força elementar e de uma inspiração extraordinária, sombria, lúgrube e lastimosa. Há noites em que eu gostaria de ter a força de um Gulliver. Para empurrar montanhas. De desventuras, de adversidades, de infortúnios. Mas a guitarra minimalista e lancinante de Vini Reilly tal como uma renitentíssima cicatriz mal fechada, impelia-me a permanecer neste universo de sons sedativos e fascinantes, envolvida naquela perfomance mística e fria no exterior, mantendo paradoxalmente uma chama férvida no seu interior.
Um dos grandes acontecimentos musicais deste ano ainda agora iniciado. E já sabem: o missal é o LC o missal é o LC, o missal é o LC...
Ana Rocha


Entrevista
Vini Reilly
por Manuela Paraíso

A primeira vez que vi Vini Reilly foi no ano passado, em Vilar de Mouros. A impressão que desde essa altura guardei dele, não se modificou muito neste segundo encontro. Reservado mas cordial, oferecendo a ideia de uma profunda fragilidade e vulnerabilidade a par de uma total ausência de vaidade e presunção, Vini não é, afinal, muito diferente da sua própria música, maravilhosamente bela e sensível, emotiva, como uma lágrima morna, e suave, esbatendo-se na névoa clara e delicada de um instante eterno, cinzento.



M&S - Gostaria que começasses por falar sobre o concerto que deste na Aula Magna.
V.R. - Gostei bastante dele, mas houve muitos problemas com o PA, porque não era adequado para a amplificação de uma guitarra, de uma bateria e do piano. O som estava absolutamente terrível... E além disso nós utilizamos amplificadores de som dirigidos para o palco, de modo a que possamos ouvir o que o outro toca, e esses amplificadores estavam em condições ainda piores, e por isso não ouvíamos o que se estava a passar... não tocámos muito bem, juntos. O som estava realmente péssimo, e agora toda a gente nos pede desculpa por esse facto, mas nós já tínhamos explicado o que pretendíamos, bastante antes do concerto. De qualquer forma, e apesar disso tudo, eu gostei do concerto, porque as pessoas se sentaram e OUVIRAM verdadeiramente... gostei disso, foi óptimo. O público tornou o concerto verdadeiramente bom.
M&S - Preferes este público ou aquele que tiveste em Vilar de Mouros?
V.R. - Havia uma mistura maior, no festival. Não me importei com isso, mas acho que preferi o público desta vez. Talvez isso tenha acontecido por causa do lugar ser mais íntimo e o público mais jovem... Senti que me podia expressar melhor assim do que para pessoas mais velhas. Porque essas pessoas são provavelmente apreciadoras de jazz, e não consigo imaginar que elas gostem do que nós fazemos, porque a nossa música não é tecnicamente brilhante ou inteligente... por isso acho que para essas pessoas, a nossa música deve ser bastante maçadora, enquanto para as pessoas mais novas é muito melhor. Elas não se preocupam se tu és um tecnicista, ouvem a música.
M&S - Preferes tocar em clubes pequenos ou em algum lugar específico?
V.R. - Em qualquer lugar. Aborda-se sempre lugares diferentes de maneira diferente. Se estiver num clube pequeno, toco de modo diferente do que toquei, por exemplo, no festival. É sempre diferente. Mas eu não me importo com os sítios onde toco.
M&S - Gostas mais de tocar ao vivo ou de trabalhar em estúdio?
V.R. - São coisas muito diferentes, não prefiro uma nem outra. O trabalho de estúdio é mais criativo e há mais oportunidades de pesquisa sonora, etc. Mas eu também gosto de tocar em concertos, especialmente quando sou só eu e o Bruce, porque todas as notas têm que estar certas, tem que se tocar o melhor que se pode... porque se estás num grupo que tem mais quatro pessoas e tocas uma nota errada, não se nota tanto como se notaria se eu ou o Bruce o fizéssemos... connosco seria demasiado óbvio.






M&S - Mas tu utilizas uma certa improvisação em palco... o Bruce disse que às vezes não sabe que nota vais tocar a seguir...
V.R. - Isso é verdade, nós só ensaiámos duas vezes durante todo este tempo em que tocamos juntos... nunca ensaiamos. Por exemplo, uma das canções que tocámos neste concerto foi escrita três horas antes de termos vindo para Portugal, por isso nunca a tinha tocado ao vivo, e obviamente o Bruce nunca a tinha ouvido... Mas isso é giro porque é espontâneo e o Bruce sabe sempre exactamente o que tocar, sente-o. Nós nunca sabemos o que vai acontecer a seguir. Isso é muito melhor do que ensaiar o tema várias vezes.
M&S - Isso acontece possivelmente porque tu utilizas gravações de caixas de ritmos...
V.R. - Esta foi a primeira vez que utilizei uma gravação de fundo, e provavelmente foi também a última, porque não resultou... Especialmente quando se trata de uma gravação de fundo, é necessário ouvi-la através dos amplificadores, e tal como já expliquei, nós não nos conseguíamos ouvir a nós próprios, e por isso não sabíamos em que parte da gravação nós íamos. Por isso foi desastroso. Nós tocámos seis temas utilizando a gravação de fundo, e depois desligámo-la e continuámos sem ela. Por isso decidi não voltar a utilizá-la.
M&S - Vocês tocaram muito poucos temas de "LC", o único trabalho que foi editado em Portugal. Não te parece que o público português teria gostado que vocês tocassem mais temas desse álbum?
V.R. - Não sei. Há duas formas de encarar isso. Pode-se pensar que, se as pessoas querem ouvir temas de "LC" ou de outro álbum qualquer, podem ouvir o álbum em casa. E se querem ouvir algo diferente e novo, vêm aos concertos, porque muito do material que nós tocamos ao vivo jamais será incluído em discos - quando eu começo a pensar em fazer outro álbum, vão aparecendo novas canções.
M&S - Vocês vão gravar algum álbum brevemente?
V.R. - Acabámos de gravar um, que se tudo correr bem vai ser editado durante o próximo mês, e chama-se "Another Setting". Utilizámos um trompetista em duas faixas, um oboé noutras duas, e parte do material tem um som um bocado clássico, outra parte é experimental, e além disso há também uma sonoridade forte. É muito variável e bastante diferente de "LC". Eu sempre senti que "LC" é um álbum maçador, devido sobretudo ao facto de grande parte dele ter sido gravado no meu quarto de dormir, em casa, com o meu próprio gravador. Utilizei apenas uma caixa de ritmos e duas pistas de guitarra, e não há muito que se possa fazer nessas condições. Não me parece que "LC" seja muito bom... e o primeiro álbum, "The Return Of The Durutti Column" é horrível. Por isso espero que este terceiro álbum seja um pouco melhor, estou um bocado mais satisfeito com ele. Não sei o que o público irá achar dele.
M&S - Tu tiveste um tema teu incluído num disco editado pela companhia belga "Disques Du Crepuscule", mais precisamente "Lips That Would Kiss". Como é que aconteceu o contacto com essa editora?
V.R. - Bem, o Tony Wilson quis arranjar uma distribuidora da Factory Records na Bélgica, e encontrou lá algumas pessoas interessantes... assim, eu gravei esse disco. O trabalho de estúdio foi feito em cerca de meia hora, foi extremamente rápido. "Lips That Would Kiss" foi tirado de um poema de T.S.Elliot, e foi encontrado escrito numa das cartas que Ian Curtis deixou... foi a minha homenagem a Ian Curtis, o vocalista dos Joy Division, que morreu. Foi talvez essa a razão principal porque eu fiz esse disco.
M&S - Conhecias bem Ian Curtis?
V.R. - Não muito bem, mas começámos a conhecer-nos um ao outro e planeámos comprar uma casa juntos para nela fazermos um estúdio.
M&S - Achas que existem algumas semelhanças entre a tua pessoa e Ian Curtis? Tu tens declarado que é suma pessoa depressiva...
V.R. - Não sei, acho que é impossível afirmar-se isso.
M&S - Em que ocasiões costumas compor? Talvez quando estás deprimido?
V.R. - Estou sempre a compor. Posso escrever canções todos os dias, e por isso elas são diferentes porque reflectem a minha disposição momentânea.
M&S - Normalmente, preferes escrever sobre que temas?
V.R. Quase sempre sobre a minha vida pessoal, as coisas que me rodeiam e aquilo que me acontece, e tudo o que é importante para mim. É uma maneira de se dizer coisas que não podem ser ditas às pessoas em circunstâncias normais. Não podes ir ter com as pessoas e dizer-lhes determinadas coisas, é muito mais fácil escreveres uma música sobre isso, porque a ideia é melhor transmitida assim. E, para mim, é mais natural.
M&S - Acreditas que a música é ainda um forte meio de comunicação?
V.R. - Sim, sem dúvida, isso é o ponto fulcral da música. Quando ela deixa de comunicar algo às outras pessoas perde o seu objectivo... não há justificação para ela. E isso estende-se também a qualquer forma de arte.
M&S - Fundamentalmente, o que representa para ti criar música?
V.R. - É o meu meio de expressão, algo de muito natural. Não é nada que eu faça com o objectivo de lucrar alguma coisa com isso, é simplesmente algo que eu não posso evitar de fazer, porque TENHO que o fazer. Porquê? não sei. Acho que é como ter que comer ou que beber, é uma necessidade.



M&S - Creio que declaraste uma vez que ouves sobretudo música clássica e muito pouca música moderna. Sentes-te influenciado pelos clássicos?
V.R. - Não sei ao certo. Acho que nós somos influenciados por tudo, seja de uma forma positiva ou negativa. Se ouvirmos um disco pop absolutamente idiota, até por isso somos influenciados, porque dizemos a nós próprios "Eu não vou fazer nada como aquilo". Portanto, de certo modo, somos influenciados por isso. E eu acho que sou influenciado por tudo. Mas se há vestígios dos elementos, que existem na actual música clássica, na minha própria música, eu sentir-me-ei orgulhoso por isso, embora me pareça que eu não sou suficientemente bom para poder afirmar uma coisa dessas. Acho que a minha música é muito simples e básica, porque os meus conhecimentos de música são muito básicos. Os actuais compositores clássicos fazem-me sentir envergonhado, porque parte da música que eles escrevem é incrível. Mas pelo simples facto de ser apresentada de uma forma particular, utilizando violinos e orquestras inteiras, as pessoas rejeitam essa música. E isso é devido ao facto das pessoas encararem a música pela sua forma e não pelo seu conteúdo. Se se orquestrasse a música que eu faço, as pessoas não a ouviriam sequer. Mas como eu utilizo a guitarra e o piano, isso permite uma audição mais fácil.
M&S - Mas tu disseste que neste teu último álbum resolveste incluir um oboé e outros instrumentos. Será que isso não significa uma espécie de contacto com a música clássica?
V.R. - Bem, parte deste último álbum é como que meio clássico. Eu nunca seria pretensioso ao ponto de afirmar que se trata de música clássica, porque de modo algum é tão bom como isso. Simplesmente, tem um som um bocado clássico, mas de maneira nenhuma é suficientemente inteligente para ser considerada música clássica.
M&S - Preocupas-te, de algum modo, com os problemas sociais em Inglaterra ou em qualquer outra parte do mundo?
V.R. - Sim... por exemplo, é estranho estar aqui a dar esta entrevista ou fazer um concerto.. é bom quando as pessoas nos dão atenção, toda a gente gosta de ser alvo de atenções, mas às vezes gostaria de pedir às pessoas que não levassem a música tão a sério... Embora seja bom ter-se a atenção das outras pessoas, por um outro lado é também chato. Às vezes apetece-me dizer: "Meio mundo está a morrer à fome, e afinal de contas isto é só música." O que é mais importante afinal? As pessoas deviam preocupar-se mais com o facto de meio mundo estar a morrer por falta de comida, e a distribuição do poder económico ser absolutamente estúpida, por exemplo, em Inglaterra, qualquer coisa como 2% da população detém 70% da riqueza do país, e esse tipo de coisas é totalmente absurdo. Eu preocupo-me com o que se passa à minha volta, mas não me parece que eu possa fazer muito contra isso. Afinal o que é que nós podemos fazer? A única coisa que se pode fazer é dizer isso às outras pessoas. Mas sempre que eu tento escrever letras de carácter político ou social, as palavras parecem tropeçar umas nas outras e tudo soa um bocado atabalhoado e a "slogan", e parece que estou a tentar impor as minhas ideias às pessoas... Cada um devia estar consciente dessas coisas ele-próprio. E eu acho que sou bastante egoísta e obcecado com os meus próprios problemas, e por isso escrevo sobre mim e sobre as coisas que me acontecem.
M&S - Acabaste de dizer que a música não é tão importante como diversos problemas sociais - por exemplo, o de tanta gente estar a morrer à fome. Mas disseste também que, para ti, compor música é algo tão importante como comer e beber. Não te parece que para as outras pessoas a música pode também ser tremendamente importante? Por exemplo, ouvir os teus discos pode ser um tipo de estímulo quase vital...
V.R. - ... Esse é um bom argumento... Eu penso que sim, mas não percebo porquê. Talvez isso aconteça porque, por exemplo em Inglaterra existe muita gente jovem que prefere comprar um disco a comer, e por isso não comem durante uma semana para juntarem dinheiro. Por isso acho que deves ter razão. Mas eu não sei porque é que isso acontece.
M&S - Achas que pode existir uma certa identificação da parte das pessoas que ouvem e sentem a tua música, para contigo?
V.R. - Era óptimo pensar isso. Não sei se será ou não verdade, mas se isso acontecesse seria óptimo.
M&S - Falou-se há pouco dos Joy Division. Acreditas na possibilidade de um dia aparecer um grupo capaz de retomar o espírito da música deles?
V.R. - Bem, é difícil de dizer, porque no momento actual (e eu estou a falar unicamente da situação em Inglaterra, obviamente porque é com ela que eu tenho contacto), há muitos imitadores dos Joy Division, e são todos muito, muito maus. Não se pode imitar pessoas como eles. Nunca haverá outro Ian Curtis, e essa foi uma das razões porque os Joy Division mudaram o nome para New Order quando Ian morreu. O que eles hoje fazem é totalmente diferente do que faziam os Joy Divison. Os New Order actualmente têm muito êxito e estão muito distantes do estilo e espírito original dos Joy Division. T~em um tipo de música muito própria e válida. São pessoas únicas e muito talentosas... e também há muitos imitadores deles. No último álbum dos New Order, que vai ser editado possivelmente dentro de um mês, eles mudaram de direcção uma vez mais, e consequentemente todos os imitadores ficaram para trás, e hão-de estar sempre um passo atrás. Não deixa de ser divertido. Mas ao mesmo tempo é deprimente ver que as pessoas têm necessidade de imitar porque não conseguem criar algo próprio. E isso é justamente o que está a acontecer em Inglaterra, no music business. A música continua a estar nas mãos dos "businessmen", e isso é muito triste. A única coisa que eu vi, e que me pareceu interessante, foi, para dar um exemplo, um disco de Marvin Gaye chamado "Sexual Dealing", que está a ter um enorme sucesso. Esta música é do último álbum do Marvin Gaye e de certo modo tem muito a ver com a música de um grupo que são os Orchestral Manoeuvres In The Dark, que são um grupo post-punk de música electrónica. O que parece estar a acontecer agora é uma fusão entre a músic apost-punk electrónica feita em Inglaterra baseada na soul-disco americana. Há agoar um tipo de música baseado em sintetizadores programáveis por computador, e para além disso utilizam-se técnicas de estúdio que se costumavam usar na música reggae, e obtém-se esta estranha combinação de coisas que agora está a evoluir e a dar lugar a uma forma de música bastante excitante. É a única coisa nova, que ainda dá algum sinal de vida, que eu ouvi de há algum tempo para cá. E uma das coisas mais excitantes é que um dos melhores produtores deste tipo de música, nos Estados Unidos, é um homem chamado Arthur Baker, e os New Order foram a Nova Iorque para trabalhar com ele. Talvez daí apareça alguma coisa nova. Estou bastante curioso para ouvir o resultado. Para além disso, não há nada de novo na música inglesa. Na minha opinião, é tudo bastante maçador.
M&S - Porque é que deixaste de trabalhar com o produtor Martin Hannett?
V.R. - Fundamentalmente porque eu pretendia um maior controlo. O novo álbum foi produzido por mim e por um engenheiro, porque eu queria obter maior controlo sobre o som total. Muito frequentemente acontece que entre o que é gravado e o que se ouve no fim, após a mistura, não há grandes semelhanças. O produtor pode mudar tudo. O que está errado. O Martin Hannett é muito bom nisso, mas eu não queria que as coisas se processassem dessa maneira. Pretendo uma maior honestidade, de modo a que o que as pessoas ouçam no fim seja o mesmo que eu gravei. Foi por isso que eu deixei de trabalhar com o Martin.
M&S - Bruce Mitchell disse-me que a capa de "LC" é a reprodução de uma pintura da mulher dele. Achas que existe uma identificação entre a tua música e as capas de "LC" e de "The Return Of The Durutti Column"?
V.R. - Acontece que eu gosto de artes visuais, especialmente de pintura, mas sou ignorante a esse respeito. O meu pintor preferido é um francês de quem usei três quadros na capa de "The Return Of The Durutti Column". Quando eu fui a casa de Bruce para lhe pedir que tocasse bateria comigo, reparei nos quadros pendurados na parede dos quais eu gostei muito, mas não fiz nenhum comentário a esse respeito, nem lhe perguntei de quem eles era. Mais tarde soube que a Jackie, a mulher dele, que tinha deixado de pintar algum tempo antes, recomeçou a pintar quando ouviu a minha música, porque isso fê-la ter vontade de pintar outra vez. Houve como que um encontro das duas mentes, e eu pedi-lhe imediatamente que fizesse a capa de "LC". Além disso, ela também fez a capa de um disco editado na Bélgica, "Two Triangles", e está a fazer a capa do novo álbum. Há realmente um relacionamento espiritual, e isso é óptimo.
M&S - Tu referiste-te à pintura. Tens algum tipo de interesses, para além disso e da música?
V.R. - Sim, eu gosto muito de ler. Provavelmente o meu autor preferido é Graham Greene. Gosto também de fotografia, e acabei de comprar um carro, porque adoro guiar. Mas essencialmente, o que aprecio mais é a música. Sou realmente obcecado por música.
M&S - Achas que existe relação entre a música e outras formas de arte?
V.R. - Sim, sem dúvida. Uma das coisas que eu espero poder fazer é escrever o guião de um filme, o qual está agora a ser estudado. E acho que a música completa um filme. A imagem faz com que a música soe melhor, e a música faz com que a imagem pareça melhor. Complementam-se uma à outra. E isso acontece também no caso do teatro, da pintura... Uma das coisas que eu gostava de fazer era realizar uma exposição dos quadros de Jackie, utilizando a minha música como complemento sonoro. Tenho montes e montes de música que nunca será editada em disco, é o material que eu componho no meu quarto. Por isso gostaria de gravar todo esse material que nunca há-de ser editado, numa bobina, e utilizar essa gravação numa exposição das pinturas de Jackie. Acho que isso resultaria muito bem, foi uma ideia que nós tivemos recentemente.
M&S - Gostarias de fazer um filme ou vídeo para ilustrar a tua música?
V.R. - Sim, mas não saberia como fazê-lo (ri-se). É uma ideia gira, mas para isso teria que trabalhar com especialistas de vídeo.
M&S - Gostava que me falasses sobre o teu trabalho com Bruce. Como é que aconteceu o vosso encontro?
V.R. - Foi bizarro, porque ele vive a curta distância das instalações da Factory Records e eu nem sabia disso. Um dia, quando eu estava na Factory, queixei-me de não conseguir encontrar um baterista com quem eu pudese trabalhar, e que fosse original. O único baterista que me ocorria era Bruce, que tocava na banda Alberto Y Los Trios Paranoias, e eu achava-o um músico incrível. Pensava que nunca haveria possibilidades de ele vir tocar bateria comigo. Aconteceu que eu mencionei isto, nesse dia, quando estava na Factory, e Alan, um homem que trabalha lá, telefonou imediatamente ao Bruce e disse-lhe "Vini Reilly vai aí agora. Vais ficar em casa?". Então eu dei a volta ao quarteirão e fui a casa dele, e quando lhe perguntei se queria trabalhar comigo ele disse-me imediatamente que sim. Desde essa altura tudo tem sido perfeito, não há outro baterista com quem eu possa trabalhar.
M&S - Não achas que é espantoso como duas pessoas tão diferentes uma da outra, como são tu e Bruce, podem trabalhar juntas de uma forma tão harmoniosa?
V.R. - Acho que é precisamente por causa dessa diferença que tudo resulta tão bem. Eu estou a viver em casa do Bruce até ter a minha própria casa. Por isso, além de trabalharmos juntos, nós vivemos juntos, e mesmo assim de maneira nenhuma nós temos discussões ou rixas. E eu acho que isso é devido precisamente ao facto de nós sermos tão diferentes e de ele   Acho que essa é a única explicação. Há uma grande ligação entre nós.
M&S - Que idade tens?
V.R. Idade? (ri-se) A isso não respondo...
M&S - OK, é tudo. Obrigada.
V.R. - Obrigado eu.
Manuela Paraíso 


Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. Blancmange - "Galinhas Computorizadas", artigo por Fernando Neves
. Altered Images - "A Reinvenção Do Pop", artigo por Célia Pedroso
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. Discos em Análise:
.. Blue Oyster Cult - «Extraterrestrial Live" [CBS 22203], por Nuno Infante do Carmo
.. Depeche Mode - «A Broken Frame» [MUTE 609302], por Célia Pedroso
.. Peter Hammill - «Enter K» [Mercury 6302215], por Carlos Marinho Falcão
.. Go-Go's - «Vacation» [Illegal Records ILP 85961], por Célia Pedroso 




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