Mostrar mensagens com a etiqueta Vítor Junqueira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vítor Junqueira. Mostrar todas as mensagens

16.7.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 21 - Dezembro de 2004


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
64 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano VI
Nº 21
Dezembro de 2004



JOHN PEEL, Music Lover
25 de Outubro de 2004. Na cidade inca de Cuzco, no Peru, um ataque cardíaco rouba a vida a John Peel. De todo o mundo chegam lágrimas dos seus órfãos: os ouvintes semanais, entre um auditório que extravasava as ilhas britânicas, as bandas que deram os primeiros passos nos seus programas, os colecionistas de “Peel Sessions” de todo o mundo, ou, em abstracto, a música popular, de todas as cores e feitios. Aquela voz nem sempre perceptível, mas entusiasta, rebelde, britanicamente sarcástica e apaixonada não volta mais aos microfones da rádio. As novas bandas, para as quais Peter Hook, numa reacção à morte do radialista, prevê vidas difíceis, não vão poder ter no seu curriculum uma sessão gravada para o programa de Peel, nem tão pouco vão poder dizer, inchadas de orgulho, coisas como “o Peel ouviu-nos e gostou!”.
John Robert Parker Ravenscroft começou a fazer rádio nos EUA, em 1962. Cinco anos depois, regressou a  Inglaterra, para realizar na estação pirata Radio London o programa “The Perfume Garden”. Foi aí que se viu obrigado a mudar de nome: Ravenscroft era demasiado longo para os directores da Radio London e um funcionário sugeriu-lhe o nome Peel. Curiosamente, o novo apelido viria a tornar-se uma imagem de marca da BBC Radio One (em cujos quadros ingressou no mesmo ano do regresso a Inglaterra) devidos às Peel Sessions, sessões de estúdio exclusivas com bandas e artistas das mais diversas proveniências, tanto geográficas como estéticas, para posterior emissão nos seus programas. O obituário da BBC lembra que “quase toda a gente que é alguém no mundo da música gravou uma sessão para Peel”. Dos Pink Floyd aos Lightning bolt, dos Pixies aos Franz Ferdinand, de Marc Bolan aos Napalm Death, dos Joy Division aos Autechre, meio mundo gravou para Peel. A origem das Peel Sessions remonta ao tempo do “needletime” (tempo de agulha) dos anos 60, quando o sindicato dos músicos britânicos fixava uma quota de música gravada que as rádios podiam passar, conforme relata Ken Garner, autor do livro “In Session Tonight”. As novas Radio 1 e Radio 2, da BBC, especialmente orientadas para a música, tinham entre elas, em 1967, apenas sete horas de “needletime”. Para ultrapassar os limites, a programação via-se obrigada a incluir nas suas grelhas a emissão de música tocada ao vivo, e o novo programa de John Peel, “Top Gear”, mais tarde “John Peel Show”, não fugia à regra. Ao longo destes quase quarenta anos, o ouvido atento de Peel descobriu e ajudou a disseminar milhares de novos projectos e de revoluções estéticas que foram acontecendo. O punk, a new wave, o reggae, o hip hop e as electrónicas, para citar apenas alguns dos campos em que Peel se movimentava sem precisar de mapa, num saudável ecletismo, que contrasta fortemente com a ideia de rádios formatadas trazidas nos anos 90, nunca poderiam ter sido os mesmos se não tivesse um amigo tão esforçado e tão apaixonado quanto Peel. E muitos ouvintes encontravam aí uma prova de que é capaz de se ser simultaneamente aberto e crítico, e ainda melhor, surpreendente: quando o punk estava a rebentar em Inglaterra, e ele próprio era um dos instigadores dessa explosão, lembrou-se de gravar a cantora folk June Tabor para emitir num dos seus programas…
Era o único que até há poucas semanas, aos 65 anos de idade, continuava a apresentar novos sons com o mesmo entusiasmo que teria nos anos 60 e 70. “I may be old but the programme isn’t”, dizia numa entrevista realizada há poucos anos. Não é de estranhar que no obituário de uma revista como a Economist apareça, logo na linha por baixo de “Yasser Arafat, Leader Of The Palestians”, a seguinte inscrição: “John Peel, Music Lover”. Que bem que lhe cai o epíteto.

CURIOSIDADES
- Em 1967, Peel foi o primeiro homem da rádio a passar “Sergeant Pepper’s Lonely Heart Club Band”, dos Beatles.
- Era fanático pelos Fall. Entre as declarações que foram lembradas no funeral, ouviu-se uma onde Peel dizia: “Sou sortudo. Tenho tudo o que queria em miúdo (…). Se morrer amanhã, não terei nada de que me queixar – a não ser o facto de haver um álbum dos Fall no ano seguinte.”
- Clube favorito: Liverpool. Era habitual começar os DJ sets para os quais era convidado com uma gravação em vinil do relato do golo de Alan Kennedy ao Real Madrid, em 1981, quando o Liverpool ganhou a sua terceira Taça dos Campeões.
- Tema favorito: “Teenage Kicks”, dos Undertones. Peel Chegou a passa-lo duas vezes seguidas na rádio, algo de inédito até então. No seu funeral, ouviu-se “Teenage Kicks” e o hino do Liverpool, “You’ll Never Walk Alone”.
- Concerto favorito: The Faces, em Sunderland, 1977.
- John Peel tinha perto de trinta mil LPs em casa. Uma estação de rádio norte-americana já ofereceu um milhão de libras pelo espólio e existe também o interesse da British Library.
- O palco de novos talentos do festival de Glastonbury, de onde todos os anos Peel fazia reportagens, vai passar a ter o seu nome.
- John Peel tornou-se, em 1998, um OBE, ou seja, cavaleiro da Rainha de Inglaterra, e possuía vários doutoramentos honoris causa atribuídos por universidades britânicas.
Vítor Junqueira



LISTA
2004 – OS MELHORES DO ANO
1 – FRANZ FERDINAND: “Franz Ferdinand” (Domino / Edel)
2 – DEVENDRA BANHART: “Rejoicing In The Hands” (XL Recordings)
3 – SONIC YOUTH: “Sonic Nurse” (Geffen / Universal)
4 – MORRISSEY: “You Are The Quarry” (Attack / Sanctuary)
5 – ANIMAL COLLECTIVE: “Sung Tongs” (Fat Cat / Ananana)
6 – BLUES EXPLOSION: “Damage” (Mute / EMI-VC)
7 – TV ON THE RADIO: Desperate Youth, Blood Thirsty Babes” (4AD)
8 – TOM WAITS: “Real Gone” (Anti / Edel)
9 – TORTOISE: “It’s All Around You” (Thrill Jockey / Ananana)
10 – MARK LANEGAN BAND: Bubblegum” (Beggars Banquet)
11 – LORETTA LYNN: “Van Lear Rose” (Polydor / Universal)
12 – BLONDE READHEAD: “Misery Is A Butterfly” (4AD)
13 – FIERY FURNACES: “Blueberry Boat” (Rough Trade)
14 – INTERPOL: Antics” (Labels / EMI)
15 – THE STREETS: “A Grand Don’t Come For Free” (679 / Warner)
16 – EINSTURZENDE NEUBAUTEN: “Perpetuum Mobile (Mute / EMI)
17 - !!! – “Louden Up Now (Warp)
18 – NICK CAVE & THE BAD SEEDS: “Abattoir Blues / The Lyre Of Orpheus” (Mute / EMI)
19 – cLOUDDEAD: “Tem” (Big Dada / Ananana)
20 – COMETS ON FIRE: “Blue Cathedral” (Sub Pop)
21 – THE DATSUNS: “Outta Sight / Outta Mind” (V2 / Edel)
22 – BLANCHE: “If We Can’t Trust The Doctors (Loose / Ananana)
23 – DEAD COMBO: “Vol 1” (Transformadores) 
24 – RTX: “Transmaniacon” (Drag City / Ananana)
25 – WRAY GUNN: “Eclesiastes 1.11” (Nortesul)
26 – THE DILLINGER ESCAPE PLAN: “Miss Machine” (Relapse)
27 – PJ HARVEY: “Uh hu Her” (Island / Universal)
28 – THE MAHARAJAS: “Unrelated Statements” (Low Impact)
29 – FENNESZ: “Venice” (Touch)
30 – ONEIDA: “Secret Wars” (Rough Trade)
31 – THE PONYS: “Laced With Romance” (In The Red / Sabotage)
32 – N.E.R.D.: “Fly Or Die” (Virgin)
33 – WILCO: “A Ghost Is Born” (Nonesuch)
34 – AMERICAN MUSIC CLUB: “Love Songs For Patriots” (Cooking Vinyl / Farol)
35 – SHANNON WRIGHT: “Over The Sun” (Quarterstick / Sabotage)
36 – LAMBCHOP: “Aw C’mon – No, You C’mon (City Slang / EMI)
37 – ENTRANCE:  “Wandering Stranger” (Fat Possum)
38 – THE BLACK KEYS: “Rubber Factory” (Fat Possum / Edel)
39 – THE ICARUS LINE: “Penance Soirée” (V2 / Edel)
40 – FANTÔMAS: “Delirium Còrdia” (Ipecac / Sabotage)
41 – PAN SONIC: “Kesto” (Mute)
42 – COCOROSIE: “La Maison De Mon Rêve” (Touch & Go / Sabotage)
43 – LAURA VEIRS: “Carbon Glacier” (Bella Union / Symbiose)
44 – LIARS: “They Were Wrong So We Drowned” (Mute / EMI)
45 – THE MAGNETIC FIELDS: “I” (Nonesuch / warner)
46 – MR. DAVID VINER: “This Boy Don’t Care” (Loog)
47 – RADIO 4: “Stealing Of A Nation” (City Slang)
48 – GRAHAM COXON: “Happiness In Magazines” (parlophone)
49 – X-WIFE: “Feeding The Machine” (Nortesul)
50 – ROGUE WAVE: “Out Of The Shadow (Sub Pop / Musicactiva)



ANN SHENTON / ANA DA SILVA
Anas Em Colisão Electrónica Feminina (Versão 2004)



Ann e Ana, Ana e Ann. Uma esteve nos Add N To (X), a outra nas Raincoats. Este ano editaram respectivamente “The Electronic Bible Chapter 1” e “The Lighthouse”, dois discos onde a electrónica assume muitas formas.
A música electrónica tem sido um género em que poucas mulheres se têm aventurado – apesar da forte expansão que o género conheceu nos anos 90 -, ao contrário da área do pop-rock, onde a presença feminina sempre foi uma constante. Certamente este fenómeno tem muito a ver com o facto da música electrónica ser essencialmente instrumental, recorrendo muitas vezes a um imaginário tipicamente masculino, quer no culto do DJ nas pistas de dança, quer na presença fortemente maquinal que acontecia nos Kraftwerk. Simplesmente não parecia haver muito espaço para uma sensibilidade que fugisse ao simples apelo à dança ou ao fascínio das máquinas. Ainda assim, ao longo do tempo, diversas produtoras foram aparecendo com novas propostas, como Mira Calix, Neotropic ou Andrea Parker. As coisas só começaram verdadeiramente a mudar quando a pop começou a apropriar-se novamente da electrónica, na onda de revivalismo dos anos 80, que caracteriza o electroclash. As Chicks On Speed, estiveram, de certa forma, na liderança desse movimento feminista, trazendo grupos como as Le Tigre ou os DAT Politics para uma ribalta quase a raiar o mainstream. No lado mais intrspospectivo da indietrónica, apareceram também os Lali Puna liderados por Valerie Trebeljahr, e tornou-se óbvio que as mulheres tinham chegado à electrónica e estavam a trazer algo de novo. Chegamos a 2004 e surgem álbuns de Ann Shenton [ex-Add N To (X] e Ana Da Silva (ex-Raincoats, agora amadrinhada pelas Chicks On Speed).
Ann Shenton foi certamente uma das pioneiras femininas na electrónica. Ex-membro do trio Add N To (X), Ann é uma exímia instrumentista fascinada por instrumentos electrónicos antigos como os Moog ou o Theremin. Mais importante ainda, os Add N To (X) foram uma banda fundamental na integração do rock mais experimental da época (pós-rock?) num contexto electrónico, buscando inspiração no krautrock dos Neu! Ou Can; na electrónica divertida de Jean Jacques Perrey ou de Raymond Scott; no underground sórdido das bibliotecas de sons de filmes pornográficos e no rock de uns Cramps e de uns Suicide (se não no som, pelo menos na atitude). A extinção dos Add N To (X) foi o resultado natural de um projecto que explorou o que tinha para explorar, e Ann Shenton virou-se imediatamente para um projecto a solo adaptando o nome de Large Number (título de uma canção dos Add N To (X), lançado no ano passado “Spray On Sound”. Neste primeiro álbum de originais o fascínio pelo retro é exacerbado por sons que parecem vir directamente de um estranho clube nocturno dos anos 70. Com muitos ecos de Raymond Scott pelo meio, é um álbum simultaneamente experimental e divertido quanto baste para o tornar quase pop. Este ano, e depois da aparição no Festival Número, em Lisboa, Ann Shenton propõe uma colectânea ironicamente chamada de “The Electronic Bible Chapter I”, o que parece ser uma espécie de resposta à compilação de temas antigos de electrónica “Connectors” do ex-companheiro dos Add N To (X), Barry 7. Só que para Ann Shenton faz tanto sentido o presente / futuro quanto o passado, e é assim que na sua compilação marcam presença nomes como Sean O’Hagan dos High Llamas (e colaborador assíduo dos Stereolab) ou Richard H Kirk, dos Cabaret Voltaire (sob o pseudónimo Pat Riot). Entre o retro e o noise futuristas Ann Shenton não conhece barreiras, apontando diferentes perspectivas musicais.
A presença de Ana da Silva na editora das Chicks On Speed é uma daquelas coisas que deve dar mais prestígio à editora que à artista. Presença fundamental da new-wave no início dos anos 80 através das Raincoats, a portuguesa Ana da Silva atravessou uma fase de semi-obscurantismo até que um dia Kurt Cobain a redescobriu numa livraria de Londres. De pioneira da new-wave a exploradora de novos sons com um instrumento electrónico digital, que lhe caiu nas mãos, vai apenas um pequeno passo. E é fácil de perceber que algo assim seria inevitável acontecer quando se ouve “The Lighthouse”, o seu novo álbum. Pegando num passado que não se deita para trás assim tão facilmente, a sonoridade das Raincoats e dos Young Marble Giants aparece recontextualizada num novo mundo digital, explorando as possibilidades de fazer canções dentro das perspectivas que o novo brinquedo abriu para Ana da Silva. Curiosamente, em muitas canções, “The Lighthouse” lembra “Scary World Theory” dos Lali Puna, e não só por causa de algumas canções serem cantadas em português. Tal como os Neu! E os United States Of America foram bandas importantíssimas para os Stereolab e Broadcast, os Young Marble Giants e Laurie Anderson são a grande fonte de inspiração dos Lali Puna e de Ana da Silva. Os arquétipos do passado são usados então em “The Lighthouse”, permitindo a produção de um som mais acessível para os ouvintes desejosos por canções e pouco adeptos das paisagens sonoras da música instrumental.
Até que ponto o impacto da sensibilidade feminina vai ser importante na electrónica só o futuro dirá. Para já as duas An (n)as distinguem-se por um universo pessoal completamente aparte dos seus pares. No fundo a boa música não conhece géneros sexuais: brota de pessoas que sentem que têm algo para dizer ao mundo.
César A. Laia

Discos
LAIBACH
Anthems (CD Mute)
Os Laibach, eminentes pseudo-fascistas da Eslovénia, são herdeiros da atitude provocadora dos Throbbing Gristle e foram uma das bandas mais importantes da cena industrial dos anos 80. Com um humor corrosivo, os Laibach apropriaram-se da estética militarista fascista como meio de provocação das flores luminosas da pop de então. E não olharam a meios para o fazer, como demonstra esta compilação. Canções horripilantes como “The Final Countdown” dos Europe ou “In The Army Now” dos Status Quo foram revisitadas como uma caricatura, onde tudo o que estaria menos evidente se torna claro como água. A boçalidade foi usada como uma arma, mas também serviu para transformar canções dos Beatles como “Get Back” em hinos para fascistas desprevenidos. “Anthems” demonstra toda esta evolução, desde o passado ainda agarrado aos Throbbing Gristle, passando pela sátira, até ao presente com a excelenete canção “Tanz Mit Laibach”. Tudo isto acompanhado de um segundo CD com remisturas difíceis de encontrar, para atrair os fãs que têm os álbuns todos. Há que redescobrir os Laibach, e nada melhor do que começar por aqui.
(9/10)
CAL




STEALING ORCHESTRA
Bu! (MP3 You Are Not Stealing Records)
Os criminosos voltam sempre ao local do crime. Os maiores ladrões de samples que se conhecem em Portugal, regressam ao Far-West dos assaltos a carruagens de sons, prontos a montar, desmontar e remontar o que se apanhar. É a lógica dos irmãos Metralha aplicada à música, e qual é o melhor sítio para uma banda como esta lançar EPs? Uma netlabel, pois claro! E como se diz que ladrão que rouba a ladrão tem mil mp3 de perdão… “Bu!” é o segundo EP dos Stealing Orchestra lançado na netlabel You Are Not Stealing Records, e sucede ao irreverente “É Português?! Não Gosto!”. A forma como os Stealing Orchestra têm evoluído é notável. Quando começaram, com o álbum “Stereogamy”, tinham imensas boas ideias, mas eram ainda mal aplicadas. Eram um circo ainda com os palhaços por todo o lado e faltava um pouco de organização. Já no ano passado, contudo, “The Incredible Shrinking Band”, o segundo álbum, mostrava uma banda que preferia a ironia è piada desbragada da D. Lina, tornando-se mais refinada e atenta aos pormenores. “Bu!” é a evolução lógica do álbum do ano passado, apontando ainda mais para um imaginário cinemático underground, à procura dos monstros da série Z. Bem, não é tanto assim, afinal agora surgem textos de Miguel Torga e de Alexandre O’Neill. Marco Paulo deu lugar à literatura? Não, o que aconteceu foi uma apropriação dos textos para a criação de ambientes de terror, quase a lembrar Vincent Price ou então Mão Morta, nas declamações descritivas do terror feitas por Adolfo Luxúria Canibal. “Bu!” lembra mais filmes do que discos de outros grupos. Ou seja, este bando de malfeitores está cada vez mais a cruzar as plataformas mas entre a música e a imagem, entre o humor e o gore. O medo vai ter tudo, inclusive um excelente EP de graça.
(8,5/10)
César A. Laia

Clássicos
SCARLET STREET
Fritz Lang (USA 1945)
Fritz Lang foi reconhecidamente um dos realizadores imigrantes em Hollywood que mais se preocupou com o cariz não linear de desenvolvimento do comportamento das personagens. A sua abordagem cinematográfica passou repetidamente pela procura do lado recôndito, obscuro e pessimista da condição humana, na perspectiva da sua génese e da sua manifestação mais consequente. Esta direcção, alinhada com os principais arquétipos do filme noir, contribuiu fortemente para a caracterização desse género e para a sua solidificação e disseminação no período do pós-guerra. Scarlet Street tornou-se uma das principais marcas iconoclastas do mestre Lang e desse género transversal que é o film noir. Lang reutilizou o trio de actores do seu filme anterior “The Woman In The Window” – Edward J. Robinson, Joan Bennett e Dan Duryea -, na mesma trama triangular clássica. Robinson é Christopher Cross (excelente a sua conotação com o significado do diminutivo criss-cross), um homem de meia-idade, caixa de um banco, desiludido com a monotonia problemática da sua vida afectiva, resultado de um casamento despropositado com uma mulher anódina, tendo, no entanto, nas suas aspirações artísticas de pintor, a única fuga ao seu tormento quotidiano. O aparecimento casual de Kitty March (Joan Bennett) na sua vida facilmente se torna uma via para a sua realização pessoal e afectiva, cedendo imediatamente às suas faculdades físicas e representação de liberdade. Kitty, mulher de expedientes fáceis sempre à procura do próximo golpe, ladeada por Johnny (Dan Duryea), híbrido de namorado e chulo, aceita a relação na suposição de que Chris é um pintor rico e excêntrico de Manhattan. A preocupação psicanalítica de Lang em conferir um realismo cru, de certa forma frio, ao percurso de Chris realça e eleva o drama e a profundidade da história. A não linearidade referida no início torna-se evidente na associação que Lang trabalha entre contexto-causa-efeito: um homem com valores éticos tradicionais, uma aderência procurada ao adultério e a inusitada recorrência ao roubo, mentira e… crime. Lang como que opera uma metamorfose no triângulo de personagens da sua trama juntando imaginariamente os três vértices num mesmo ponto comum. A conclusão do filme é extraordinariamente brutal, sem concessões, mostrando os caminhos para lelos da punição como uma realidade comum e fulminante nas suas consequências e sem necessidade de promoção artificial de moral (o que nos faz pensar em “M”, outra obra-prima assinada pelo mestre ainda na Alemanha). Trata-se de um dos finais mais emblemáticos, surpreendentes e marcanteMiguel S. Leocádios da história do cinema, ao lado de “White Heat”, de Raoul Walsh, e “Kiss Me Deadly”, de Robert Aldrich. Um tour-de-force negro, frio e sem eufemismos. Para ver e rever, sobretudo para quem tem saudades de “filmes totais”, que não sucumbem na sua criatividade aos sessenta minutos.
Miguel S. Leocádio









4.7.18

Memorabilia / Retalhos - John Peel


Memorabilia / Retalhos
John Peel
Obituário
Por - Vítor Junqueira
Revista Mondo Bizarre Nº 21








13.3.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 25 - Março de 2006


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
48 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano VII
Nº 25
Março de 2006





POP DELL’ARTE
Arriba Avanti?

Há um grupo de admiradores que “ainda tem um sonho a dois” com os Pop Dell’Arte, quando aguarda que o longamente esperado (e prometido) regresso aos álbuns de originais seja um dia realidade. Entretanto, os novos fãs têm agora um documento fundamental para que conheçam a mais interessante das aventuras pop nacionais, numa altura em que esta celebra duas décadas de fascínio (e de muita diletância).


Na história da música popular não é propriamente hábito que uma compilação de êxitos, passe o eufemismo, saia numa fase activa e empenhada do artista em questão. Na verdade, porém, tudo indica que é desta que os Pop Dell’Arte readquiriram a vitalidade de outros tempos, demonstrando um empenho notável, facilmente testemunhável nos grandiosos concertos que a banda tem dado recentemente. Por outro lado, uma visão mais desapaixonada dirá que a compilação é ela própria um objecto essencial para que possam ser marcados mais concertos, para que através deles se adquira ritmo, para que se retome em definitivo a revolução pop que o grupo iniciou há vinte anos. E do lado do público que perdeu o acesso aos álbuns e maxis, entretanto desaparecidos dos escaparates, mesmo depois das reedições fugazes de “Free Pop” e “Arriba Avanti Pop Dell’Arte”, também se agradecerá que se possa chegar aos temas que aparecem em “POPlastik”. Nem que seja por um curto espaço de tempo, até este “POPlastik” desaparecer de novo de circulação, todos ficarão a ganhar.
Num esforço relativamente tímido para fazer deste disco mais do que uma “mirada al passado”, há três temas novos, que pouca justiça ainda farão em relação ao que se deve ou não esperar destes Pop Del’’Arte actuais. Dois desses inéditos, “(J’ai Oublié) All My Life” e “No Way Back” (versão de um êxito da house de Chicago dos anos 80), estão claramente ligados às pistas de dança, algo que esperaríamos mais por volta de um álbum como “Ready Made” e menos nesta altura em que os concertos até têm um cunho vincadamente rock. Mais bem conseguido, “Stranger Than Summertime” aponta por seu turno para o lado mais soturno dos Pop Dell’Arte, com o som sensual de um contrabaixo a conduzir os nossos sentidos por ambientes escuros e fumarentos. Na escolha dos clássicos, houve uma clara aposta nos singles e maxis da primeira fase dos Pop Dell’Arte, posteriormente recolhidos em “Arriba Avanti…”, que é aqui quase integralmente recuperado , e uma distribuição equilibrada por cada um dos álbuns, não faltando uma referência por ventura excessiva, por ser mais recente, ao EP “So Goodnight”. E, calro, cada um dos fãs de há longo tempo terá sempre a sua objecção particular ao alinhamento. Aqui, por exemplo, lamenta-se a falta de “Juramento Sem Bandeira”, manifesto idealista aclamado pelas vozes unidas, como num aparente pacto de sangue, de João Peste e Adolfo Luxúria Canibal, as duas figuras mais marcantes do underground do rock lisboeta que na segunda metade dos anos 80 montava quartel em Campo de Ourique. Significava muito do que os Pop Dell’Arte, João Peste e a Ama Romanta foram e, espera-se, serão
VJ
Vítor Junqueira






23.2.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 26 - Junho de 2006


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
56 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano VII
Nº 26
Junho de 2006


Current 93
Opereta Apocalíptica



David Tibet levou quatro anaos a preparar “Black Dogs Ate The Sky”. Reuniu uma imensa panóplia de músicos para contar o seu sonho da chegada do dia do juízo final. Após alguns álbuns descarnados, muitas complicações e discos ao vivo, “Black Dogs Ate The Sky” reconduz o nome Current 93 aos trabalhos de grande envergadura tão bem conseguidos noutros tempos.

Diz David Tibet que este álbum começou a ser pensado depois de um sonho onde vislumbrou barcos negros devorando o céu enquanto preparavam a vinda do último César (o anticristo), assim antecipando, como está escrito, a segunda vinda de Cristo.
Curiosamente, a imaginação (sublimada pelos ácidos) já lhe tinha sugerido, em 88, um Noddy a ser crucificado no céu, o que o levou a explorar a ideia do miúdo do guizo enquanto ícone gnóstico em “Swastikas For Noddy”. “Black Ships Ate The Sky” não partilhará da mesma carga de humor sinistro e macabro, se assim lhe quisermos chamar, mas ao fim de mais de vinte anos de vida do projecto, continuam os artifícios sinistros e crípticos que Tibet regularmente utiliza para contar as suas histórias. Lautréamont (e os “Cantos de Maldoror”) ou o ocultismo de Aleister Crowley já não moram aqui (embora ainda façam algumas visitas, suspeita-se). É a Bíblia, e mais ainda os evangelhos  gnósticos, na versão cóptica, que orientam hoje a poesia declamada pelo novo cristão Tibet. Este lado esotérico e obscuro da escrita de Tibet, e de todo o tipo de ambientes que rodeia a apresentação dos trabalhos dos Current 93, nunca acolheu simpatia de forma fácil fora dos círculos fechados do rock gótico, mas a música propriamente dita acabou por vir desempenhar o caminho inverso, contribuindo muitas das vezes para o desmascarar de um preconceito óbvio. A influência da folk britânica, versão The Incredible String Band, Donovan ou Shirley Collins (já agora, ela participa neste disco), temm ajudado a produzir momentos de excelência no percurso do projecto de Tibet. E este, ao contrário do que os últimos álbuns e a compensação através das reedições e compilações vinham sugerindo, é mais um desses momentos altos. Musicalmente, a alma de “Black Ships Ate The Sky” deve muito às guitarras de Michael Cashmore e de Bem Chasny (o poço de talento também conhecido por Six Organs Of Admittance), ao violoncelo de John Contreras e ao toque habitual de Steven Stapleton, dos Nurse With Wound. Acaba por ser na interpretação repetida, ao longo do disco, de “Idumea”, um obscuro hino da autoria do metodista Charles Wesley (séc. XVIII), que é mais bem conseguida a ligação ao sonho alucinado de Tibet. À vez, entrega-se a essa tarefa gente tão diferente (e tão boa) como Marc Almond, Will Oldham (que também toca banjo no tema), Baby Dee, Clodagh Simonds (voz dos Mellow Candle, um projecto de folk psicadélica dos anos 70), Pantaleimon, a eternamente venerada Shirley Collins e o próprio Tibet. “Black Ships Ate The Sky” é a obra maior dos últimos tempos dos Current 93).
VJ
Vítor Junqueira.















20.12.16

Recordações (34) - Recordação Radiofónica - Operação Drunfo, com Fernando Magalhães


Rádio: Voxx
Programa: "Operação Drunfo"
Edição Número 3
2 horas, aos Domingos à tarde...
Autores: Vítor Junqueira e João Gonçalves
Convidado: FERNANDO MAGALHÃES
Cedência da Gravação: Tiago Carvalho

Agora também no Mixcloud











19.12.16

Recordações (33) - Recordação Radiofónica - Operação Drunfo, com Fernando Magalhães


Rádio: Voxx
Programa: Operação Drunfo
Edição Número 3
2 horas, aos Domingos à tarde...








18.9.15

Livros sobre música que vale a pena ler (e que eu tenho, lol) - Cromo #54: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação) - "Escritos de Fernando Magalhães - Volume I: 1988/1991"


autor: Luís Jerónimo e Tiago Carvalho (compilação, introdução e prefácio)
título: Escritos de Fernando Magalhães - Volume I: 1988/1991
editora: Lulu Publishing
nº de páginas: 288
isbn: 5-800107-609398
data: 2014
prefácio: Vítor Junqueira


sinopse:  

Prefácio



Textos de autor

«Decerto repararão que desta lista constam muitos nomes estranhos e desconhecidos. A culpa não é minha. Procurem-nos e talvez cheguem à conclusão que nem sempre a melhor música é a mais badalada.»
(in Blitz, 16 de janeiro de 1990, lista dos melhores discos da década de 80)

Devo ter começado a ler o Fernando Magalhães na altura em que os seus textos começaram a aparecer em jornais como o Blitz ou o LP, em finais da década de 80, como aqueles que encontramos nesta coletânea. Mas julgo que terei ainda deixado virar a década antes de começar a reparar com olhos de ver no seu nome na assinatura – ou tão só a sigla «FM». Sei porém que desde cedo aquela assinatura se tornaria para mim um selo de qualidade, uma garantia de que ali iria encontrar uma abordagem profunda, incisiva, abrangente, ora apaixonada, ora destrutiva, quase sempre divertida. Eram, se a expressão existisse, verdadeiros «textos de autor».
Dizia que a abordagem era profunda, porque não se reduzia à identificação do óbvio e do superficial. Ele encontrava os substratos que não se liam habitualmente nas críticas assinadas por outros. Era incisiva, porque quase sempre encontrava aquilo que realmente importava dizer, permitindo ir ao fundo do tema mesmo quando tinha meia dúzia de linhas como limite. Era abrangente, porque conseguia inserir o objeto de análise em vários planos contextuais, no tempo, na história da música, nas artes em geral, no plano dos afetos, nos diferentes terrenos culturais, na religião. O crítico que encontramos nestes textos de 88 a 91 já era um nerd da música, perdão, das músicas, mas um nerd com vistas muito largas. Coisa rara, pois.
Facilmente se vê – e podemos voltar a senti-lo nestes textos iniciais – que o Fernando escrevia com paixão e boa disposição. Com o tempo, creio que veio a sentir-se cada vez mais à vontade para impregnar os seus escritos de humor e até de doses bastas de ironia e alguma malícia servida em jogos de palavras que não raras vezes me deixavam de sorriso na cara, jornal aberto à frente, mesmo quando não concordava. Poucos críticos conseguiam entrar na graça sem se deixar cair em desgraça. Anos mais tarde, sempre que havia algo em disputa nas nossas conversas infindáveis sobre música e sobre tudo o resto, tentava desarmá-lo com argumentos que julgava fortes – nem sempre, admito – e o Fernando, tranquilo, mandava-me ir ouvir um qualquer grupo obscuro dos anos 60 ou 70, trazia a filosofia à mesa ou ridicularizava o assunto em discussão de tal maneira que acabávamos em gargalhadas e a pedir mais uma rodada de canecas. Mistas. E, claro, ele até tinha a sua razão.
Não posso dizer que o Fernando fosse absolutamente único. Nas páginas dos jornais ou nas ondas hertzianas havia mais um punhado de gente boa e conhecedora a saber expressar-se, a saber motivar-nos, a saber instigar-nos e guiar-nos para descobrir o que de mais interessante se fazia no mundo da música. Ou o para o que havia sido feito naquelas décadas passadas que não tinham chegado a nós ou aos nossos pais e irmãos mais velhos com o relevo que mereciam. Os apaixonados pela música da minha geração, adolescentes à data da publicação dos textos que compõem este volume, seguiam estas vozes públicas com toda a atenção. As novas gerações terão que imaginar o que era um mundo desprovido de informação imediata e à distância do visor dos apêndices ciborgues que hoje são o telemóvel ou o computador.
Gosto de reconhecer o valor nos vários professores que tive ao longo da vida, em diferentes áreas de conhecimento. E o Fernando foi um desses pedagogos, mais do que um mero crítico. Pelo punho do Fernando, muitos de nós terão entrado nas cenas folk portuguesa e europeia, terão aprendido o que era o kraut rock e a kosmische muzik, ou quem eram Peter Hammill e os Van Der Graaf Generator, seus velhos favoritos: «Hammill nunca alcançou a glória que já há muito merece. A sua obra é conhecida apenas por um clube de iniciados, felizmente com cada vez mais sócios.» (in Blitz, 21 de novembro de 1989). A propósito, oiço o “Pawn Hearts” enquanto escrevo isto. Descobri-o, e lembro-me perfeitamente disso, através do Fernando.
Assim era. Leitores como eu tornavam-se sócios deste clube de melómanos iniciados. Deve ser sublinhado que aquela era uma sociedade de apreciação que não se fechava numa corrente ou numa cultura musical específica. Habituei-me desde cedo – e acredito que o Fernando pode ter tido uma influência marcante nisto – a não me satisfazer num género, não por regra, mas porque facilmente ficava encantado na folk, no rock, na eletrónica, onde quer que alguém fosse fiel à sua musa. Esta abertura de horizontes estava patente na coleção de discos, nos textos e nas paixões musicais do Fernando. É fácil de reparar como nesta compilação de textos, e citando apenas alguns casos, convivem nomes como os de Tuxedomoon («esta ‘sonata fantasmagórica’ demonstra até que ponto os Tuxedomoon são hoje dos grupos mais importantes da cena alternativa situada na convergência do rock com a música erudita»), de Neil Young («Ouve-se ‘Weld’ com a sensação de se assistir ao cataclismo iminente, à erupção de um vulcão, ao colapso de qualquer coisa que não ousamos interiorizar»), de Legendary Pink Dots («Herdeiros legítimos da música progressiva dos anos 70, os Legendary Pink Dots representam uma das vertentes mais heterodoxas e estimulantes da cena alternativa actual»), de R.E.M. («Com ‘Out of Time’ os R.E.M. tocam o céu da perfeição»), de Negativland («são os maiores inimigos da Coca-Cola, da Levi’s e dos mísseis Patriot. Só pelo nome se vê que são do contra. Vêm da contracosta americana. Voltam tudo de pernas para o ar.»), de Naked City («Os cinco intérpretes, não se duvide, são fabulosos, independentemente de conseguirem ou não alguma vez condensar a história completa da música numa única espira») ou do Grupo de Cantares de Manhouce.
Como se vê, o Fernando tinha sempre coisas interessantes para dizer sobre gente tão díspar. Desde que estas (ou os seus trabalhos, para ser mais rigoroso) o encantassem. Mas o Fernando não tinha também quaisquer papas na língua para destilar críticas destruidoras a quem ou ao que o aborrecia. Acredito que essa faceta, essencial a qualquer crítico que queira desempenhar o seu papel em justiça para com o mundo que descreve e para consigo mesmo, lhe dava um certo gozo (e aos seus leitores, pelo menos a mim). Descobri-lhe, anos depois, que toda esta acutilância e este descaramento faziam afinal parte essencial do seu próprio carácter divertido e irreverente, particularmente notado na forma como se dava com as pessoas que conhecia e com as que não conhecia, como daquela vez, em que à porta da ZDB dizia a quem passava pela rua que ali ia tocar uma «banda pop francesa», os... Dat Politics. Tal como a vontade de picar os que o ouviam. Uma vez, enquanto víamos a bola na cervejaria onde nos encontrávamos regularmente, confessava-me: «sabes que às vezes penso que sou mais anti-benfiquista do que sportinguista?». Talvez sirva de algum propósito aqui dizer que, além da preferência clubística, ambos partilhávamos um fascínio muito especial pela “How To Irritate People”, uma série televisiva diabólica do John Cleese, precursora dos Monty Python (dos quais passávamos aliás noites e noites a percorrer de memórias todos os sketches). O Fernando não tinha quaisquer problemas em entrar neste jogo potencialmente perigoso nas críticas que escrevia. Mesmo quando o artista ou grupo em causa fosse português, o que também o distinguia face a outros críticos ou, em episódios decorridos posteriormente às datas da presente coleção de textos, quando a editora de alguns dos discos visados era importante para as receitas de publicidade do suplemento em que escrevia.
Não resisto a citar alguns trechos de textos deste volume, onde o Fernando já discorria alguma da sua, digamos, alegre truculência:
«Mas o pior de tudo foi o final, quando os Duplex se afundaram no seu próprio pretensiosismo. Subiram ao palco uns instrumentistas ‘da clássica’, com instrumentos ‘a sério’ como o violoncelo, a flauta e o trompete e, finalmente, um coro de senhoras, todos juntos para um final pretensamente grandioso. O resultado foi assistirmos a uma aula de alunos do Conservatório, com todos os participantes desunhando-se para não desafinarem ou saírem do compasso.» (In Blitz, 17.10.89, reportagem de concerto dos Duplex Longa)
«Chapéus há muitos. Bons músicos portugueses já há menos. Bons músicos portugueses a trabalhar na área da música popular contam-se pelos dedos. (...) Musicalmente são dados vários passos atrás, mais parecendo ter-se voltado aos tempos de Pedro Homem de Mello e aos ranchinhos de acordeão e vozes esganiçadas para turista ouvir e comprar.» (In Pop Rock, suplemento do Público, 1 de maio de 1991, crítica a álbum de Maio Moço, “Histórias de Portugal, de Dom Afonso Henriques a Dom Sebastião”)
«Começa a fartar, a década de 60. Tudo o que é ‘Sixties’ é bom. Nesse tempo é que era. Os ideais, a luta contra o ‘establishment’, gozar à brava, enfim, a grande farra. A música desses anos conturbados reflecte a confusão. Desde os percursores aos mártires, passando pelos oportunistas, há de tudo um pouco.» (In Pop Rock, suplemento do Público, 29 de maio de 1991, crítica às reedições dos Jefferson Airplane)
Os músicos continuavam a respeitá-lo, tanto quanto sei. Uma vez, terá ido a casa de um músico com créditos firmados (e merecidos) na nossa praça. Antes mesmo de passar a porta de entrada, se ainda me recordo da história, terá exclamado “oh pá, este teu novo disco é uma merda!”. Alegadamente, continuaram amigos.
Conheci, como se percebe de alguns parêntesis que não consegui deixar de ir abrindo e fechando neste prefácio, o Fernando-crítico e o Fernando-amigo. Tenho uma imensa saudade de ambos. Esta compilação de textos, edição rara no panorama português, a que o Tiago e o Luís dedicaram tanto trabalho de pesquisa e pelo qual aquele clube de melómanos de que o Fernando falava a propósito do Hammill deve toda a gratidão, vai ajudar a matar saudades do Fernando-crítico. Na maior parte dos casos, continuam a ser textos sem data, válidos para as gerações daquela altura, para as novas e para as futuras. Venham daí mais volumes.
Lisboa, 14 de dezembro de 2014
Vítor Junqueira


«Como certamente repararam, estive ausente desta página a passada semana. Outros deveres jornalísticos impuseram que me deslocasse à República do Alto Volta para fazer a reportagem sobre os pequenos-almoços de Paul McCartney nessa mesma República.

«Mas eis que regresso são e salvo, já refeito do choque McCartney e pronto para mais prosas sobre os «Valores», talvez não tão interessantes como as refeições do ex-Beatle, mas olhem, faz-se o que se pode.»
(in Blitz, 21 de novembro de 1989)



Outros textos de outros anos, no meu blogue: http://www.profelectro.info/fm/
Livro disponível em: http://www.lulu.com/shop/lu%C3%ADs-jer%C3%B3nimo/fm-volume-1-pb/paperback/product-21956790.html . Mas quem quiser o pdf free, basta solicitá-lo para o meu email.











Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...