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23.3.26

LP - Jornal de Música - nº 24


 

Diretor: João Pedro Costa

ANO I

Nº 24

75$00

Semanário

13 de Abril de 1989


Capa: Telectu

+

A Split Second - Novas Frentes De Ataque Da Música Belga - pg. 10, artigo por João Correia;

Telectu - Arbeit - 2 páginas, 20 e 21, Entrevista, por Paulo Eno



























28.7.22

Elliott Sharp e Telectu - "Concerto De Elliott Sharp E Telectu Na Gulbenkian - Sementes De Violência"


 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 3 OUTUBRO 1990 >> Cultura


Concerto de Elliott Sharp e Telectu na Gulbenkian


Sementes de violência


FOI O concerto da brutalidade. Elliott Sharp e os Telectu iam rebentando os tímpanos a uma assistência que encheu, segunda-feira, por completo a sala polivalente do CAM, siderada pela violência sonora e pelo inusitado da combinação.

As notas da guitarra e do saxofone soprano de Sharp e a panóplia eletrónica dos Telectu explodiram literalmente num caos apocalíptico que teve entre outras a virtude de fazer pensar sobre algumas das vias encetadas pela chamada “nova música”, designação demasiado lata que não chega para abarcar a pluralidade de correntes que em comum apenas têm a repulsa nutrida em relação às “mafias” para as quais a música não passa de negócio.

Mestre da guitarra

A primeira parte do programa foi preenchida por Elliott Sharp em solo absoluto. Uma guitarra de dois braços e um saxofone bastaram-lhe para produzir um caudal de sons violentíssimos, para muitos insuportável logo alguns segundos após a vibração da primeira corda, para a maioria um excitante delírio virtuosístico, com o guitarrista a dar mostras de um domínio absoluto do instrumento. Sonoridades distorcidas até ao limite do tolerável, as notas e ruídos entrechocando-se num combate monstruoso, em “clímaxes” criados com a ajuda de pedais de efeitos, mas sobretudo graças ao modo superior como o músico consegue dominar a massa sonora, domando-a como se de uma fera se tratasse.

Solou indiscriminadamente com as duas mãos e com uma terceira feita em arame, raspou as cordas, agrediu a caixa do instrumento, pôs os olhos e ouvidos em bico a quem estivesse à espera de uma prestação convencional. Explosões, ruído branco, sequências e automatismo rítmicos complexos, sobreposição de frases melódicas e soluções tímbricas arrojadas, mostraram à saciedade por que razão Sharp é hoje considerado um dos grandes mestres contemporâneos da guitarra elétrica. Durante os 45 minutos ininterruptos de risco e provocação auditiva em que Sharp atuou só, ruíram os alicerces do velho mundo.

Subversão a três

Os Telectu entraram a seguir, acrescentando uma dose extra de agressividade ao tom orgiástico da noite. Jorge Lima Barreto percutia o seu DX7, criando uma selva digital entre a qual gritavam as guitarras desvairadas do nova-iorquino e de Vítor Rua. Por trás do palco eram projetadas imagens vídeo computorizadas acrescentando à “performance” o estímulo visual. Onde se esperaria talvez que os Telectu se espraiassem pelas paisagens mais rigorosas de “Digital Buiça”, como ponto de apoio para as intervenções de Elliott Sharp, aconteceu ao invés uma improvisação a três, um pouco à maneira da praticada pelo coletivo AMM, na mesma tentativa de subversão e reconversão dos códigos estéticos e pressupostos éticos subjacentes ao jazz e à música contemporânea. A um espetáculo que se anunciava integrado nas celebrações do Dia Mundial da Música, não se podia pedir melhor.


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26.7.22

Telectu & Elliott Sharp - "Elliott Sharp E Os Telectu Atuam Hoje Na Sala Polivalente Do CAM, Às 18h30 E 21h30 - A Matemática Do Caos" (concerto | antevisão | artigo de opinião)


 PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 1 OUTUBRO 1990 >> Cultura


Elliott Sharp e os Telectu atuam hoje na Sala Polivalente do CAM, às 18h30 e 21h30

A matemática do caos


O guitarrista nova-iorquino Elliott Sharp e o duo português Telectu tocam juntos, numa prova de que a “nova música” também tem lugar entre nós. A violência eletrónica, em plena atividade de “sabotagem” cultural.

Nova Iorque – capital de mil perigos e deformidades. Há músicas que traduzem essa monstruosidade. Sons que avisam e perturbam. Nos clubes e nas caves. Na penumbra do fumo, longe das luzes do dia e dos hipermercados.

Elliott Sharp resiste, luta, provoca a cidade, nas suas convulsões guitarrísticas. Loucura artística contra a loucura institucionalizada. Integra hoje a elite dos impulsionadores e inovadores da vanguarda nova-iorquina, ao lado de nomes como John Zorn, Glenn Branca, David Fulton, David Linton, Rhys Chatham, Wayne Horvitz, Ned Rothenberg, Samm Bennett, Scott Johnson, Robert Previte, David Weinstein ou David Garland, muitos deles colaboradores regulares nos seus trabalhos.

Guitarra telúrica

Especialista em abordagens revolucionárias do instrumento, possui uma habilidade inata para despedaçar os códigos estéticos e as posturas técnicas tradicionais, a par de uma capacidade analítica capaz de unir as pulsões inconscientes, físicas e emocionais ao rigor estrutural. O cérebro mestre do telurismo. Matemática do caos.

Exemplo desta atitude é a utilização, em discos como “Marco Polo’s Argali”, “Tessalation Road” ou “Larynx”, de um complexo sistema algorítmico denominado “séries Fibonacci”, através do qual se torna possível gerar diferentes tipos de afinação, bem como novas soluções harmónicas e melódicas.

Elliott Sharp caminha sobre o fio da navalha, ao longo de uma já vasta e diversificada discografia que integra experiências que vão da composição (ou decomposição...) da música para cordas (em “Tessalation Road”, com os Soldier String Quartet, equivalente intuitivo e esquizofrénico dos seus congéneres Kronos Quartet), o brutalismo rítmico tribal realizado em computador (“Virtual Stance”), a “canção” eletrónica demencial (“In the Land of the Yahoos”, ao lado de Sussan Deyhim, Christopher Anders, David Fulton, Shelley Hirsch e Christian Marclay), à transfiguração do ruído, ordenado sequencialmente (“Looppool”) ou a interpretação orquestral dos cantos “Inuit” e “hoomii”, respetivamente das regiões árticas do Canadá e da Mongólia (“Larynx”, com Samm Bennett, David Fulton, David Linton, Robert Previte, Jim Staley e, de novo, os Soldier String Quartet), Capítulos importantes da sua discografia são também “Rhythm and Blues”, “Escape Clause”, “I/S/M:R”, e “Carbon” e “Fractal”.

Uma definição possível para esta música arrebatadora pode ser encontrada nas próprias palavras do guitarrista, relativamente a “Larynx” mas perfeitamente aplicáveis a toda a sua obra: “Música que dança sobre permutações constantes entre uma geometria derivada das séries Fibonacci e uma geometria fractal de turbulência, caos e desordem”.

Eletrónicos

Os Telectu, grupo de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, com o qual Elliott Sharp tocará hoje no CAM (Centro de Arte Moderna da Gulbenkian), são pioneiros da música eletrónica no nosso país, passando do minimalismo inicial, para posteriores incursões nas sonoridades ambientais (em álbuns como “Rosa Cruz”, e “Halley”), a música “mimética” (“Mimesis”, “Cameratta Electronica”) ou, atualmente, aproximações a um expressionismo digital no qual se incluem músicos como Jeff Greinke, Robert Rich, Peter Frohmader ou, por vezes, o próprio Elliott Sharp, influência evidente em alguns temas de “Live at the KnittingFactory” e “Digital Buiça”.

A conjunção da eletrónica dos Telectu com a guitarra explosiva de Elliott Sharp pode fazer estragos. Espera-se que esta não seja uma iniciativa isolada e que as “músicas alternativas” ocupem, no nosso meio musical, o lugar de destaque a que têm direito.





25.7.22

SYNTORAMA - nº 16 / 1989 - "ELECTRÓNICOS LUSITANOS" (parte 1/4) - TELECTU -


 

             ELECTRÓNICOS LUSITANOS

Já era altura de dedicarmos um espaço ao que se faz no país vizinho. Tudo o que se segue surgiu-nos na ideia após a audição de um concerto dado pelos TELECTU a propósito da bienal de Barcelona 87.

Apesar de deixar algumas coisas para outra ocasião, isto é, de momento, o que compilei relacionado com a música electrónica portuguesa. Seguir-se-á mais informação nos próximos números.

TELECTU

Surgiram no ano de 1982 em Lisboa. Eles começaram no Jazz e na música Rock, cada um por seu lado. VÍTOR RUA foi um dos fundadores dos GNR (Grupo Novo Rock), um dos grupos mais inovadores neste campo. Jorge Lima Barreto já faz música desde 1968 (Jazz e música electrónica).

Além de se dedicarem a tocar desenvolvem outras actividades, como a crítica, vídeo-arte, programas de rádio. Colaboraram com uma grande diversidade de gente; Por isso não vou continuar a contar a sua trajectória, já que a mesma se encontra reflectida na entrevista que fizemos a um dos responsáveis, Jorge Lima Barreto e que aparecerá mais à frente.

 

TELECTU. – Música multimédia, electronic live, jazz mimético, música minimal repetitiva. Música para vídeo, performance, teatro, cinema e dança.

 

JORGE LIMA BARRETO. – Piano, sintetizadores, electrónica, saxofone digital, sampler.

VÍTOR RUA. – Guitarra electrónica, electrónica, engenharia de som, vídeo, guitarra digital, sampler.

ANTONIO PALOLO. – Diapositivos, vídeo, artes gráficas.

 

VÍDEOS DE VÍTOR RUA:

1985 – HALLEY (50 min)

1986 – EBRAC (30 min); AUTO LOOP (10 min)

1987 – ALIENADO (20 min); AS AVENTURAS DO CARRO AMARELO (25 min)

1988 – COMPGRAF 2 (30 min); MIMESIS (37 min. 50 seg)

 

DISCOGRAFIA TELECTU

- “CTU TELECTU” – EMI 1982

- “BELZEBU” – CLICHÉ 1983

- “OFF-0FF” (duplo) – 3 MACACOS 1984

- “PERFORMANCE” – 3 MACACOS 1984

- “TELEFONE” – LIVE IN MOSCU 1985

- “ROSA-CRUZ”. LIVE GULBENKIAN 1985

- “HALLEY” – ÁLBUM DE LUXO COM TEXTO E SERIGRAFIA DE a. PALOLO – CENTRO NACIONAL DE CULTURA / ALTAMIRA 1986

- “DATA” – (MÚSICA PARA VÍDEO) 1986

- “CAMERATA ELETTRONICA” (DUPLO) - AMA ROMANTA 1988

- “MIMESIS” (LP e CD) – TRANSMEDIA 1988

- “BEM JOHNSON (DUPLO LP e CD) – 1989

 


VICTOR RUA

SINGLES: Com GNR – “Portugal na CEE” e “Sê Um GNR”

LP’s: Com GNR – “Independança – EMI Valentim de Carvalho, 1981

                               “Pipocas” – Ama Romanta, 1988

                               “Mimi” – Transmedia, 1989

 

JORGE LIMA BARRETO

“Anar Band” – Alvorada, 1976

“Encounters”, com Sahed Sarbid – Alv, 76

 

TELECTU

JORGE LIMA BARRETO

R/da Imprensa Nacional, 83-2ºD

1200-Lisboa (Portugal)

 

ENTREVISTA TELECTU

ROGELIO PEREIRA – Seria interessante se nos contasses como começaram.

JORGE LIMA – Primeiramente temos que considerar que os TELECTU provêm da reunião de dois músicos diferentes, na concepção musical e na vivência.

Eu toco desde 1968, primeiro em grupos de jazz-off, depois tendo fundado com CARLS ZÍNGARO a ASSOCIAÇÃO DE MÚSICA COCEPTUAL que abriria novos rumos à música portuguesa contemporânea, no sentido de uma investigação em electrónica-live (sintetizadores, piano electronicamente preparado, banda magnética), desde logo com uma actividade paralela como crítico musical e musicólogo (escrevi já 87 livros sobre música, que vão desde “REVOLUÇÃO DO JAZZ” a “MUSICÓNIMOS” (este último sobre filosofia da música e intensas observações sobre o rock).

VÍTOR RUA tinha formado em 1978 o grupo GNR (grupo novo rock) que era sem dúvida o melhor grupo de rock nacional.

Nesse tempo eu andava entre os EUA e o Brasil e quando regressei, conheci-o. Eu tinha gravado ANAR BAND (música experimental para piano, sintetizador e banda magnética) e “ENCOUNTERS” com o grande músico português de jazz, SAHEB SARBIB (música para contrabaixo, flauta e electrónica).

O VÍTOR tinha gravados vários singles de grande êxito e o LP “INDEPENDANÇA”, sempre com os GNR.

Formámos um grupo com o baterista dos GNR, um vocalista e fizemos uma obra de fusão “CTU TELECTU” pioneira na sua linguagem de ART-ROCK. A partir daí e depois de uma grande controvérsia com os princípios da multinacional para quem gravávamos, decidimo-nos pela edição independente. Introduzimos o minimalismo em Portugal, escrevi “música minimal repetitiva” e fizemos uma série de obras minimais como “BELZEBU”, “OFF-OFF”, “PERFORMANCE”, “TELEFONE”, “FUNDAÇÃO”, “ROSA CRUZ”, “HALLEY”, “DATA” e, recentemente, sintaxes repetitivas em “MIMESIS” e “BEN JOHNSON”.




Os princípios que geraram a nossa música foram muito diversos e de foro estético multifacetado; vão desde a investigação em texturas tímbricas, coordenação de dispositivos sonoros, banda magnética, instrumentos acústicos tratados (guitarra e piano), estruturas miméticas, inclusão de computador, processos multifónicos, mistura de média, multimédia, aproveitamento de novos sentidos da improvisação, nova notação musical, enfim, um processo que não deveria ajustar-se a uma definição normalizadora de tantas e tão díspares actividades.

O VÍTOR RUA trabalha essencialmente com a guitarra e engenharia de som e eu em teclados e percussão electrónica.

R. PEREIRA – Nos poucos anos que levais como duo, já garavaram um bom número de LP’s, e apesar disso na altura de editar os vossos discos recorreram, na maioria dos casos, à autoprodução e autoedição. Neste último disco “MIMESIS” gravado numa etiqueta tão importante como é a TRANSMEDIA. Pensma que, finalmente, encontraram uma editora estável para futuras gravações?

JORGE LIMA – O problema da edição independente não se pode pôr nesses termos. Como somos independentes não temos proprietários. Assim estamos livres para fazer a música que queremos e editá-la onde nos pode dar mais acessibilidade e dignidade.

R. PEREIRA – A vossa música serviu de suporte a bandas sonoras de filmes. Para que filmes contribuíram com a vossa música?

JORGE LIMA – Fizemos uma banda sonora para o filme experimental de ANTONIO PALOLO “OHM”, mas fundamentalmente fizemos músicas funcionais para performances (no CENTRO POMPIDOU de Paris), para vídeo, poesia, teatro.

O VÍTOR RUA é um vídeo-artista inovador e as nossas realizações musicais têm sido sempre uma interacção musical com o vídeo, a instalação e a performance (prémio AICA no ano de 86 pela instalação “EBRAC” com Câmara Pereira). O ANTÓBIO PALOLO é parte dos TELECTU (diapositivos, capas de discos, vídeo-arte…)

R. PEREIRA – Na vossa obra “CAMERATA ELETTRONICA” escutamos uma música mais próxima do jazz, abandonando de certa forma a formas minimalistas de anteriores álbuns. Pensam seguir nesta linha ou foi apenas mais uma experiência?

JORGE LIMA – Como já disse, eu também sou musicólogo de Jazz. Em obras como “PERFORMANCE”, “TELEFONE”, e especialmente na peça “BAKU RESTAURANT”, gravada em Moscovo, abordámos mimetismos do Jazz. Dizemos mimetismos porque não sendo músicos de Jazz, pretendemos simular a partir de instrumentos acústicos e electroacústicos, a linguagem do Jazz.

Consideramos em 87 que poderíamos ultrapassar-nos, sem abandonar os processos minimalistas, e inflectimos a nossa música para um tipo de Jazz-Off electrónico, dando mais relevo à improvisação electrónica ao vivo.

A segunda parte da pergunta tem como resposta evidente que nós continuaremos num Work In Progress das nossas concepções musicais, sem qualquer compromisso determinado com esta ou aquela tipologia musical. O futuro nasce da própria acção criativa, depende das circunstâncias tecnológicas e de novas percepções sonoras, ou seja, para além do disco e do concerto temos muitas outras situações para compor e executar a nossa música.

R. PEREIRA – Aparte de fazer música, também se dedicam a escrever em semanários musicais. Por outro lado, tu, Jorge, tens escrito algum outro livro? Tens projectos no campo literário?

JORGE LIMA – Apenas escrevo em semanários musicais. Tenho 12 livros escritos, todos no âmbito da musicologia, estou a iniciar o meu doutoramento na Universidade Nova de Lisboa, em música e mass media, tenho livros e textos já traduzidos (espanhol, italiano, inglês e francês). Neste momento estou a elaborar a minha tese e paralelamente estou a escrever um livro sobre Novas Músicas. Dei também conferências sobre este tema tão aberto, em Paris, Nova Iorque, Rio de Janeiro, São Paulo, Cuzco, Moscovo, Macau, Génova, …

R. PEREIRA – Como avalias o panorama da música electrónica Portuguesa?

JORGE LIMA – Temos de verificar que a minha opinião não pode ser encarada como a opinião de um músico apenas. Como musicólogo tenho reflectido desde sempre sobre a electrónica na música portuguesa, fui pioneiro na Electric live neste país. Escrevi um “breviário de música electrónica” onde está escrito o que penso sobre a música electrónica portuguesa. Consideremos dois tipos: 1 de estúdio, 2 ao vivo. Na electrónica de estúdio, músicos como JORGE PEIXINHO, FILIPE PIRES e sobretudo EMANUEL NUNES (residente na Alemanha), fizeram abordagens electrónicas sobre serialismo, tape music, computação, electro-acústica e, ultimamente, novos valores têm-se revelado.


Na “electrónica live” temos o CARLOS ZÍNGARO que toca com TEILTELBAUM, TELECTU, TÓ-ZÉ FERREIRA e toda uma série indiscriminada de culturas dentro de músicas mais dirigidas a uma massificação estética que inclui o rock, pop, new age e ambientes e funcionalismos musicais. Num panorama pobre, sem um estúdio de música electrónica, e que provém da própria iniciativa dos músicos, sem um eco notório na imprensa musical, praticada normalmente por ignorantes de música, tirando uma ou outra excepção.

R. PEREIRA – Há um par de anos chegaram a actuar na bienal de Barcelona, actuação da qual usaram uma parte em “CAMERATA ELETTRONICA. Têm vontade de tocar de novo em Espanha?

JORGE LIMA – Não temos apenas vontade, queremos profundamente fazer uma tournée em Espanha. Parece impossível que, tendo tocado em todos os continentes, não tenhamos quase conseguido tocar em Espanha, que é o nosso país vizinho. Temos um monte de propostas que incluem concertos, instalação, vídeo musical, performance, conferências, edição de traduções dos meus livros, mas tudo é muito difícil de concretizar; é que o governo português está muito longe de se interessar pela música portuguesa e muito menos por música portuguesa a ser tocada no estrangeiro, lugar que não interessa para captar votos para as eleições. Mas oxalá esta entrevista possa servir como incentivo para essa realizações.

R. PEREIRA – Conheces alguma da música electrónica feita em Espanha?

JORGE LIMA – Evidentemente. Tive contactos pessoais e entrevistei para o meu livro “Musicónimos” o LUIS DE PABLO, gosto muito especialmente da peça “Chaman”, também obras acústicas de BENGUEREL, MESTERES QUADRENY, SOLER, TALTABULL, POLONIO …

Em Espanha, como em Portugal, não há um importante Centro de Música Electrónica e são poucas as multinacionais do disco, que são evidentemente as mesmas que dominam o mercado musical português, que mostrem algum interesse por esta estética musical. E claro que se entendemos o termo música electrónica como toda e qualquer prática instrumental electrónica (ligada ao rock, Jazz, novas músicas, e a música comercial), torna-se muito difícil poder apreciar a música electrónica espanhola, já que os instrumentos não fazem a música sem os músicos. Gostaria de poder aprofundar o meu conhecimento, que é tão superficial, da música electrónica espanhola…

R. PEREIRA – Que outros LPs editaram separadamente?

JORGE LIMA – Eu gravei “ANAR BAND” (76) e “ENCOUNTERS” com o SAHEB SARBIB (77). Por seu lado o VÍTOR tem três LPs: Com os GNR, sob o nome de PSP-PIPOCAS (87) e MIMI (89).

R. PEREIRA – Quais são as vossas preferências musicais?

JORGE LIMA – É um campo vasto de desejo: etnográficas, clássica (que engloba obras orquestrais e de carácter solístico), electrónica, acusmática, concreta, Jazz, rock, pop, música de massas, sons naturais, obras para banda magnética, colagem musical… enfim, somos observadores conscientes de toda a música sem excepção, a não ser uma indiferença e até uma repulsa pelo comercialismo e pela indecorosa conduta das editoras e dos pseudo-músicos que contaminam, com propostas anti-estéticas, todo o consumo musical. É como dizer que se prefere BACH a CAGE, MONK a FRIPP, TEATRO CAGAKU (Japão) a uma RAGA HINDU, se todos são mundos tão maravilhosos para ouvirmos.

R. PEREIRA – Algo que queiras acrescentar?

JORGE LIMA – Penso que numa entrevista o mais importante é o que fica por dizer. Assim, poderíamos estar horas e horas a falar de música, da experiência literária, das novas notações, dos meios de comunicação, de uma composição, de um solista, de um concerto… enfim, seria uma infinidade de considerações a tecer sobre o que se ama: a música.

O desejo de poder ir, tocar e mostrar a nossa criatividade em Espanha, como interesse primordial.

E finalmente, que nos seduz imensamente o movimento estético-musical da vossa revista SYNTORAMA, que denota uma qualidade cultural e gráfica, como também pelo carácter de intervenção que revela.

Esta entrevista com JORGE LIMA BARRETO, membro dos TELECTU, foi realizada por correio, em Abril de 1989.




SLYNKTORAMA16




28.12.20

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #84: Vítor Rua - "Eu Só Queria Dizer O Seguinte..."


autor: Vítor Rua
título: eu só queria dizer o seguinte...
editora: asoka miau house
nº de páginas: 214
isbn: 978-989-20-4310-4
data: 2013






Vítor Rua - eu só queria dizer o seguinte..."

texto: Vítor Rua
Ilustrações: Ilda Teresa Castro
edição de 100 exemplares [livro feito à mão]
este é o #011 - autografado e numerado pelo autor.
uma edição asoka miau house
© 2013 Vítor Rua & Ilda Teresa Castro
ISBN: 978-989-20-4310-4

prefácio e resumo biográfico dos autores, por António Duarte, on demand.



71. 45 & 33 rotações

… uma vez, pouco depois do 25 de Abril, o Jorge Lima Barreto, foi convidado a participar num colóquio sobre Jazz; estavam lá todos os do Jazz: o José Duarte, o Jorge Curvelo, o Raúl Bernardo, etc.; O Jorge queria falar de Free Jazz e das novas tendências do Jazz; enquanto os outros ainda estavam todos no BeBop; a determinada altura, eles começam todos a dizer ao Jorge que o Free Jazz não era música; e o Jorge diz-lhes: “Então ouçam isto e digam-me o que pensam”; e mete um disco a tocar; no final, começam todos a dizer que aquilo é só gritos, e barulheira e que, portanto se comprovava que o Free Jazz era “ruído”; então, o Jorge pega no disco que meteu a tocar, mostra-o ao público e diz: “A obra que eles estão a criticar e a dizer mal, é um disco do Thelonious Monk, só que o meti em 45 rotações quando é um LP de 33 rotações; ora, estes imbecis, nem sequer foram capazes de reparar nisso. Nem distinguiram que os instrumentos estavam a ser tocados a uma velocidade diferente; agora, querem continuar este colóquio comigo, ou com estes tipos?”; e o público em uníssono disse o nome do Jorge e os outros tiveram de abandonar a sala…

 

92. chocolate & chocolate

… uma vez eu e o Jorge Lima Barreto, fomos a Londres para dar um concerto Telectu; encontramos os nossos amigos Gonçalo Falcão e a Inês W Carmo; e andamos a passear por Londres os quatro; eu e a Inês fomos a uma gelataria assim para o chic; sentámo-nos e veio um empregado; era preto; eu peço um “ice cream” e ele pergunta “What flavour?”, e eu digo em português “chocolate”; e ele “Sorry?”; e eu “chocolate” e o gajo “I don’t understand”; até que eu, já nervoso, aponto para a cara dele, e digo-lhe “Chocolat… Chocolat”; aí ele entendeu. Depois, estávamos no metro, nas escadas rolantes, e o Jorge em vez de se meter do lado direito, estava no lado esquerdo; ora, isso fazia com que as pessoas passassem a todo o gás por ele, e dissessem “Please Sir” ou “Sorry Sir”; e o Jorge parado, olhava com estranheza, pensando porque estariam aquelas pessoas a andar numa escada rolante; até que, passa, um muito irritado com ele e diz-lhe “Go to your right”, e vira-se o Jorge para ele, em português: “Estás com muita pressa, tu… Até parece que vais apanhar o metro”…

 

5. Telectu na china

#01 – “o subsídio de cachet”

… fomos à China através do nosso amigo António Duarte; fomos lá tocar; tocámos, por exemplo, no maior clube de jazz de hong kong; tocámos num show multimédia na Casa de Macau; mas o que o António Duarte nos arranjou foi uma outra coisa única; sermos os primeiros ocidentais a gravar na China Record Company. Mas era necessário dinheiro para as viagens de Macau para Pequim; então fomos falar com o presidente do Instituto Cultural de Macau; já não me recordo se falámos com o Monjardino ou com o João Amorim; o que importa é que, a determinada altura, o presidente diz: “Nós não temos cachet para os Telectu”, e o Jorge, olha para ele e diz: “Mas nós não vimos aqui pedir-lhe cachet nenhum!”, e o outro: “Então, o que pretendem?”, e o Jorge: “O que nós estamos a pedir não é um cachet, isso sabemos que vocês não podem dar, o que nós queremos é apenas um subsídio de cachet!”, o presidente do instituto olha para o Jorge e pergunta: “Um subsídio de cachet? O que é isso?”, e o Jorge: “O nosso cachet seriam uns mil contos, ora nós só lhe vamos pedir trezentos contos, logo, o que estamos a pedir-lhe é apenas um subsídio de cachet!” o gajo riu-se e deu-nos o subsídio de cachet!





25.3.20

Vítor Rua | Telectu - "A Musicologia na Era do porquinho Babe" (livro)



Vítor Rua | Telectu: 
"A Musicologia na Era do porquinho Babe"

Este livro está à venda na Bubok por 11.11€, onde comprei. É on-demand.
Estava também à venda, na Matéria Prima, por 20.00€, mas como estava esgotado e não tinha nenhuma imagem da capa, não sei se era o mesmo, ou uma outra versão, sem se on-demand.
Na bubok, o pdf é free.

53 páginas.

A musicologia na era do porquinho Babe é um metaconto duma alegada ficção científica, muito especial como irão ver
A sua escrita é tão aliciante quanto introspectiva, tão marcada pela ironia como pelo discurso críptico e exigente; o texto fluido e pedagógico a sua leitura é sempre gostosa e carregada de recolha de informação.
lustrado de videogramas neo-subjectivistas construídos em computador; articulações visuais do subconsciente e, inclui intermitentes lapsos de pautas da própria autoria.
O livro é formado por dez pequenas histórias, de recorrente e intelectual cavaquear, inventadas numa situação espaciotemporal tríptica, no presente, no passado e no futuro; envolvidas com problemáticas cosmológicas, insinuações científicas, opinião musicográfica libreto duma dezena de quadros de opereta.
Os seus heróis são personagens da estirpe suína da mais simpática fábula, que discute diversos problemas musicológicos, teóricos e tecnomusicais de forma descontraída, ora de abrasivo cinismo ora grotesca ora de profunda reflexão, sem que qualquer postura desequilibre o divertido estilo ficcional.
Todas as matérias abordadas por Vítor Rua neste metatexto, revelam o saber historicista e pluridisciplinar, a acção vivida muito concreta e prestigiosa, a imaginação futurística.
A musicologia na era do porquinho Babe é um objecto apetecível, saboroso e rico em ideias; o metaconto mantém viva a original criatividade do escritor musical pop e supera-se na erudição.
A sua épica é um sortido de diálogos de banda desenhada ou de intrincados raciocínios sobre notação musical, e muito mais discussões espantosas este objecto é a conciliação musicológica do bom humor com a seriedade - a voz introspectiva do autor e o dissertar diletante dos porquinhos muito sofisticados vivendo em cenários paradoxais, leva-nos á Alegria da Música.
JORGE LIMA BARRETO










27.7.17

Memorabilia - Bilhetes (15) - Telectu + Nuno Rebelo, no Rock Rendez-Vous (RRV)



TELECTU + NUNO REBELO 


produção: am.ro. (ama romanta)
local do concerto: RRV (Rock Rendez-Vous) em 19.1.1990
preço: 600 paus
bilhete nº 035 (escrito a esferográfica no verso)













2.7.17

Livros sobre música que vale a pena ler (e que eu tenho) - Cromo #68: António A. Duarte - "A Arte Eléctrica De Ser Português - 25 Anos de Rock'N'Portugal"


autor: António A. Duarte
título: A Arte Eléctrica De Ser Português - 25 Anos de Rock'n'Portugal
editora: Livraria Bertrand
país: Portugal
nº de páginas: 210
isbn: none
Depósito Legal Nº 4974/84
data: 1984
esta é a primeira edição.



A ARTE ELÉCTRICA DE SER PORTUGUÊS
25 ANOS DE ROCK’N’PORTUGAL
António A. Duarte
Livraria Bertrand
Rua Garrett 73-75
1984
210 páginas
Depósito Legal Nº 4974/84
Acabou de imprimir-se em Maio de 1984
A IDADE DA MÚSICA
Colecção dirigida por Manuel Cadafaz de Matos

À memória de Rui Pipas
De Gino Guerreiro
E de Luís Garrido Costa
Pelo rock
Pela escrita
E pelo voo





PREFÁCIO

A arte jornalística de ser português e escrever sobre rock, considerada como um atentado à musicologia, e a remissão dos pecados dessa malta de drogados, malucos, filhos do mesmo tipo de mãe, que gostam de rock e até, oh!, têm habilidade para tocar rock.

1. O Jornalismo
Convém frisar que este livro foi, acima de tudo, escrito por um jornalista e não por um musicólogo.
O logos a que obedece toda a escrita é unicamente respeitante à recolha histórica de documentos vários e o que os jornais publicaram, ou não, sobre o fenómeno da música pop e do rock português.
O próprio discurso literário se formaliza na prosa jornalística e existe de per si sem mais ambições, sem pretensiosismos extravagantes, sem autoconvencimentos, como se uma Verónica tipográfica pegasse numa folha de papel, a colasse na cara do mártir Pipas e a mandasse policopiar, querendo dizer-nos que também tivemos os nossos Hendrix ou os nossos Morrisons.
O António Duarte é assim mesmo: transparente na sua simplicidade, anárquico na sua ideologia, afincado no seu trabalho.
Conquistou um lugar ao sol no jornalismo musical, é procurado por toda a espécie de vedetas e pseudovedetas que, pela sua escrita, pretendem promover-se e todos são recebidos com a mesma generosidade, o que não significa que o António Duarte não saiba perfeitamente as regras da qualidade a respeitar e dê o seu a seu dono.
Mesmo quando se recebe um elogio rasgado e desorbitado, que pode provocar uma certa indignação dos mais doutos, o António Duarte está a mostrar que esse exagero é directamente proporcional à consumilidade imediata do texto jornalístico.
Como jornalista tem a pura consciência que a história (como esta, que é uma história do rock), fundamentada heurística e hermeneuticamente no jornalismo, só pode jogar com esses valores, e querer criticar este livro pela ausência de critérios científicos ou paracientíficos, pela sintomatológica incapacidade de criticar musicalmente o objecto em análise é, numa só síntese, anular o próprio jornalismo.
Ora a verdade é que só o jornalismo pode abordar a história do rock e da pop portugueses. Pela simples razão que não houve ainda até hoje um único grupo ou um único solista capaz  de confrontar-se com a qualidade internacional ou intervir numa história geral da música pop ou da música de rock.
E note-se: todos os músicos do rock e da pop portugueses tiveram as suas glórias em páginas de jornais: jamais citados em livros daqui e muito menos dignos de serem citados em livros no estrangeiro.
Por estas razões, só um jornalista poderia escrever um livro sobre este tema e sabendo, à partida, da impossibilidade de querer ser um musicólogo.

2. Metodologia
É extremamente repugnante para um musicólogo toda e qualquer abordagem jornalística da Música (seja que tipo de música for) pela aberrativa sofreguidão com que o jornalismo abraça e acompanha o quotidiano: basta saber que a maioria esmagadora dos êxitos meteóricos dos músicos nos jornais existe enquanto precisamente eles aparecem nos jornais, e quando a Imprensa os abandona esses epifenómenos esfumam-se no olvido geral.
Ora, a arte não coincide com os valores do quotidiano, não é senso comum: pelo contrário, é contra o senso comum: e aí temos o anarquista Duarte a descarregar observações corrosivas do ponto de vista sociopolítico no sistema que deu à luz tais abortos.
Como se um jornalista resolvesse fazer uma «história da talidomida» e nos desse milhões de recortes e pontos de vista sobre o caso e nos pretendesse conduzir à seguinte conclusão: os malefícios da talomida. Eu mesmo fiquei atónito quando o Duarte me citou (e fê-lo privilegiadamente) e expôs fundamentalmente declarações minhas na Imprensa feitas em determinado momento que eu cumpria, mais ou menos, uma função jornalística e obrigou-me a uma autocrítica severa: na verdade, nada do que eu escrevi para jornais escreveria agora, o que não acontece quando sou realmente um musicólogo nos meus livros. Afinal, o jornalismo é a mentira de todos os dias, como a política dos políticos é a farsa da infra-estrutura económica.
O grande mérito do livro está então na recolha exaltante e trabalhosa que o António Duarte fez de tudo o que (se) escreveu – e não só – sobre rock.
Partilha comigo a ideia de que todas as revistas da especialidade são todas más e foram tão pobres que nunca conseguiram passar os limites do jornalismo, atingir sequer as fronteiras do ensaio, e que em Portugal o rock e a pop são tão manipulados como o futebol e com o mesmo sistema analítico.
Neste mundo, infinito como uma lista telefónica, de nomes e acontecimentos sobrevém uma ideologia, consciente ou inconscientemente conduzindo a escrita do António Duarte: é essa ideologia que vou abordar agora neste prefácio.

3. Ideologia
É postulado banal da semiologia que a própria linguagem veicula todo o sentido.
Este livro cabe naquele tipo de literatura dita juvenil, não apenas porque os seus heróis são jovens (músicos), o público consumidor de rock é a juventude e o António Duarte é jovem. Daí que o estilo da escrita seja tão empolgante e fresco quanto ingénuo, mas é, numa súmula de coerência, a verdade dum facto: o rock e a pop portugueses.
Todas as citações, todos os acontecimentos ou todas as conclusões são acessíveis, por vezes tão irrisórias que se tornam numa feroz acusação dum handicap cultural que nós, Portugueses, sofremos.
A obra situa-se deliberadamente na contracultura, enfrenta o regime dominante, ousa mesmo aliciar o leitor, pedagogicamente, para a subversão, e fá-lo tão descaradamente como todos estes anos os músicos de rock e pop a levaram aos palcos, às salas, às ruas, aos pavilhões, aos estúdios discográficos.
António Duarte é um entrevistador qualificado e recorreu neste seu livro a uma colagem (pop) de declarações de músicos, procurando trazer ao cimo a própria tomada de consciência dos músicos: se o José Cid disse algo de cavalar, foi ele e não o autor, mas também se alguém observou as qualidades dum Filipe Mendes isso deve-se ao pensamento do citado e nunca ao citador.
As opiniões de António Duarte são políticas, sociais, raro de cariz musicológico.
Como tudo no mundo da pop music corre como o vento, a uma velocidade assustadora, típica desta era electrónica acelerada, o livro pode parecer old fashioned, mas certo é que nenhum grupo de rock nacional tem capacidade para resistir ao desgaste que a tecnologia, não apenas o tempo, exerce sobre este estilo musical.
Em paralelo, o autor procura fundamentar a evolução da nossa música pop com a internacional, esclarecendo as abissais diferenças.
E ao tomar esta iniciativa o jornalista está a determinar-nos como colonizados pelo imperialismo internacional, pela língua anglo-saxónica, pela técnica ocidental, pelos signos da moda internacional.
A exacerbação gongórica dos adjectivos, patente em algumas passagens do livro, está a revelar-se um estigma ideológico típico de todo o jornalismo. Mas Estaline e Mao não passaram, dum dia para o outro, de deuses a traidores ou déspotas?
Realmente, só a musicologia, como só a ciência política, podem esclarecer o que é um músico ou o que é um político, respectivamente.
Mas o livro é sobre música, logo inerentemente refere a musicologia.

4. Musicologia
Está a obra prenhe de ilustrações e, como dissemos, de paralelismos, uns oportunos outros errados.
Por exemplo, quando o autor mete a foice nas searas alheias.
Fala-se de jazz de forma epidérmica, convocam-se músicos inúteis, e parece ignorar-se, porque a Imprensa ignorou a importância dum Carlos Zíngaro, mestre de tantos músicos de rock; dum Rão Kyao, com quem inúmeros músicos pop trabalharam; dum Jean Sarbib, hoje o grande Saheb Sarbib, que foi o melhor músico de rock português durante o início dessa estética ou, ainda, modéstia à parte, que o Anar Band apresentou pela primeira vez em disco um sintetizador e levou ao Cascais Jazz 74 banda magnética para massas pop, e trabalhou com esquemas experimentais nada longínquos de certa new wave.
Cita-se a música electrónica baseando-se na figura burlesca de Graça Moura (neste capítulo) e sonegam-se para o esquecimento os Emmanuel Nunes, Jorge Peixinho e até mesmo Cândido Lima.
Por vezes perde-se tempo traçando rumos de grupos provincianos de cuja existência histórica nada ficou senão a recordação subjectiva de terem tocado pop e cujos antigos elementos serão hoje empregados de banco, ou chulos, ou directores de firmas discográficas.
E isto acontece porque o nosso jornalismo, deficiente, nunca teve o cuidado de acarinhar os seus melhores artistas e músicos.
E por isso mesmo se justifica este prefácio, no sentido em que a minha missão, e a pedido do autor, de quem sou íntimo de longa data, é criticar a obra, fazer a releitura da fantástica quantidade de informação jornalística nela compilada.
E, a partir do próprio livro, posso fazer uma nova visão histórica da pop e do rock portugueses.
Esclareço que não há confusão entre pop music (correlativa à canção popular transposta para tecnologias eléctrica) e o rock (derivado directamente do rock-and-roll e dos rhithm-and-blues): assim, Paulo de Carvalho foi um músico pop e Zé Nabo é um músico de rock, Fernando Girão é pop e os UHF são rock.
Também, como é óbvio, houve e há estéticas simbióticas de pop e rock, não podendo estas fronteiras ser tão rígidas quanto qualquer maníaco de rótulos gostaria.

5. História
Realmente, se não tivesse lido este livro não poderia jamais congeminar uma evolução histórica do pop-rock português, porque não teria a possibilidade nem a perseverança do autor em remover todas as pistas documentais que nos ficaram: resumiria uma série nebulosa de argumentos e memórias esparsas.
Falaria de rituais e de antroporacionalogia, invocaria deuses estrangeiros, nadaria num miasma ideológico irrelevante.
Podemos ver dois ramos diversos nesta pequena história:

José Cid (pop)                                             rock (made in Portugal)
                                       25 de Abril
Rui Veloso                                                   UHF  
(o chamado, jornalisticamente,              Heróis do Mar
Pai do rock português)                             GNR

A corrente Cid foi campeadora de festivais de música ligeira e descambou num aproveitamento não menos ligeiro de múltiplas influências do blue, do music-hall, tudo mal tocado, da chachada neo-realista pós-25 de Abril, tangencial à música de massas de Zeca Afonso, de Godinho às bandas kolkoses nacionais, ao controverso fenómeno do Chico Fininho, cuja música se apoia nos rhythm-and-blues em técnicas musicais e instrumentos deficientes, mas proclamando o surto da tal estética do «rock português», donde iriam sair todo o tipo de diarreias para-pop, apoiadas por um jornalismo capitalisticamente comprometido com as editoras, toda uma farsa sifilítica que vive num círculo vicioso e viciado (os empresários, os produtores, os jornalistas, os «críticos» e os homens dos media audiovisuais são, na grande parte das vezes, as mesmas pessoas no papel dessas diferentes personagens), convocando a aparente coerência estética do «rock português» como quem chama «flor rubra» a um ânus com hemorróidas.
Todos foram filhos do Veloso, em trágico edipismo, desde os UHF da Rua do Carmo aos Trabalhadores do Comércio a chamarem a polícia.
Uma segunda perspectivação, que vem dos Chichilas, inesquecíveis, dos magníficos Kama-Sutra, dos tecnicistas Objectivo, dos eloquentes Pentágono, reclamando-se do rock internacional, e prossegue nos bons flashes psicadélicos dos Tantra, «bateu» nos Táxi-disco, consolidou-se no raro profissionalismo das actuações positivas e impositivas dos UHF, nas hard-patadas do Arte & Ofício, entrou em apoteose nacionalista com os futurísticos Heróis do Mar e atingiu os píncaros da glória em Independança dos GNR.
Uma história pequena mas cheia de significados duvidosos: a conquista da pop e do rock portugueses por um lugar na História do Rock ou da Música.
Fixem-se, entre outros mais, os bateristas Pedro Taveira, Álvaro Azevedo, Zé da Cadela, Tó Li, os tecladistas Graça Moura, Kevin Hoidale, António Pinho da Silva, os guitarristas como Pipas, Zé Nabo, Filipe Mendes, os mentores ou líderes como Jean Sarbib (baixista), Serjão, Pedro Aires Magalhães, até ao cantor António Manuel Ribeiro e ao poeta-cantor Rui Reininho, avultando com um Vítor Rua, decididamente num plano internacional e a estabelecer um corte epistemorocklógico em Portugal. Cremos que sim... e como ele aparecerão mais outros, porque nos quer parecer que o rock, na década de 80, tem um futuro promissor e independente neste país.
Também não é de esquecer o vanguardismo da intervenção literária junto ao público e aos músicos do rock que representou a actividade jet-set-marginália de Manuel Castro Caldas, que reputo do mais sofisticado e especializado conhecimento sobre rock em Portugal; bem como certas tentativas frutíferas na Memória do Elefante e no Rock Week de António Duarte.
António Sérgio, por seu turno, mostrou a mais elevada qualidade no seu criterioso programa radiofónico Roll’s Rock e colocou-se à frente duma certa opinião radiodifundida bastante exigente que destruiria as barreiras miserabilistas dos totalitarismos fascista e neo-realista, desmascarando o gang de pseudoprodutores, que vivem à custa do trabalho dos músicos sem a mínima espécie de intervenção estética ou relevância cultural.
Abstenho-me da problemática, já crónica, do capital investido no rock cá em Portugal, porque não estou jamais satisfeito com a penalização pública dos custos militares e políticos, infinitamente superiores; tornei inerente, neste prefácio, o assunto e o livro que vai ler não descurou também a matéria supracitada.

6. Os Magníficos 80
Dobrada a década de 70, o rock ganha foros de primazia no mundo do comércio e do empresariato, começa a dar lucro Às firmas discográficas, que brutalmente o obrigam a uma disco-gleba com mais-valia para os pseudoprodutores, os canalhas das empresas a viverem à custa dos músicos, os nababos tiranos organizadores de festivais: desde o idílico Vilar de Mouros até às arenas dos pavilhões desportivos onde se exibem os rockers e os popers vai um abismo. O capital toma conta do rock e a Imprensa, bem como a TV e a Rádio, tiram o proveito.
A poesia, outrora controversa e esfumada desde «D. Sebastião, el-rei-cão» até «se cá mijasse fazia-se cá chichi», ganha poderes ideocráticos e começa a surgir uma onda de superpseudo-merda-vedetas como se resumiria num só poema.
«Já fumega e atira pró tecto (jazz-rock)
Abre-latas e manda pró cano (funk-cócó)
Eu qué sê um MRPP (em merengue) e cagar blues
                Band
Estorvantes, trovantes e avantes (from kremlin
                With love)
O fodro está podre e já não frodo (psicopeta)
Que bem cheiras do PI (-3,1415) e lambe-cu
                (pornoxanxada)
A lêndea d’água doce nem é pau-pau nem queijo-
                queijo (freakalhada)
o corpo diplomático não dá faísca (punk-bem)
quem apanha um táxi apanha no cu (disco-pivete)
xutos e sniffs, cagajetas e punhetas (secção
                junkie-tara)
eis o rock português, ó burguês!»

Mas os Heróis do Mar levantam a bandeira nacional e ganham a luta pela sobrevivência, os UHF são exemplarmente trabalhadores e os GNR alcandoram a nossa estética do rock new wave a um nível jamais sonhado: os bons 80 revelam finalmente as nossas qualidades e as nossas incapacidades. Estes três últimos anos foram mais importantes que tudo o que anteriormente se passou, porque o rock em Portugal se libertou da imitação e do plágio, senão leiam este livro do António Duarte só para ver a diferença entre o passado e o presente; é que a história dá-nos a razão, e mesmo se nos estivermos nas tintas para a tal «razão», temos o delírio de algum prazer com os nossos Heróis do Mar, UHF e, sobretudo, os GNR.
Se ninguém é perfeito é porque o António Duarte vasculhou toda a literatura jornalística nacional e não conseguiu vislumbrar um único génio no rock nacional (e parece-me impossível consegui-lo), mas temos de nos lembrar assim de nós mesmos para nos modificarmos; dos fracos não reza a história, muito menos esta história do rock em Portugal que o António Duarte nos oferece.

Jorge Lima Barreto













23.6.17

Memorabilia - Bilhetes (4)


Como prometido no post anterior...










30.12.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (268) - Blitz - Jornal Musical


BLITZ 
(Jornal Musical)
Ano IX
Nº 424
15 de Dezembro de 1992
Sai às Terças-Feiras
Director: Rui Monteiro
Preço: 100$00
32 páginas
Capa e algumas páginas interiores a 3 cores, outras a preto e branco.
Suplemento Manifesto (?Mensal?) de 4 páginas. Ver abaixo autoria do mesmo, na ficha técnica


Ficha Técnica (parcial)
Redacção, administração e serviços comerciais: Av. Infante D. Henrique, 334, 1802 Lisboa
Director: Rui Monteiro
Chefe de Redacção: António Pires
Redacção:
Cristina Duarte
Miguel Francisco Cadete
Nuno Galopim
Raquel Pinheiro (Porto)
Rita Carmo (Fotografia)
Direcção Gráfica:
Cândida Teresa
Colaboradores:
Adágio Flor
Álvaro Romão
André Lepecki (Nova Iorque)
António Freitas
António Maninha
António Pedro Saraiva
Bruno Branco
Bruno Maçães
Diniz Conefrey (ilustração)
Fátima Castro Silva (Porto)
Fernando Santos Marques
Gimba
Hélder Moura Pereira
Hélder Salsinha (fotografia)
Hugo Moutinho (Porto)
Isabel Lucena (Londres)
João Correia
João Bugalho
José António Moura
José Antunes
Lili Wilde (Londres)
Luís Mateus
Luís Pinheiro de Almeida
Maria Ana Soromenho
Maria Baptista
Maria João Gouveia
Mário Correia
Miguel Cunha
Miss Ex
Monsieur Sardin
Paulo da Costa Domingos
Paulo Somsen
Pedro Esteves
Pedro Portela
Rafael Gouveia (Paris)
Rui Eduardo Paes
Sérgio Noronha
Sofia Louro
Teresa Barrau
Vítor Vasques (fotografia)

Manifesto (suplemento):
Ana Cristina
António Sérgio
Nuno Diniz
Jorge Lima Barreto
Manuel Dias

Tiragem média do mês anterior: 19 290 exemplares

Tal como disse aqui, este é um número de um período posterior em cerca de três anos e que cai naquela fase que então cataloguei como a segunda decadência, quicá o início dela, quiçá a última...
O Director continua a ser o mesmo (Rui Monteiro), alguns colaboradores são de qualidade (ver lista abaixo), mas já não era a mesma coisa. E fico-me por aqui.
Curiosamente, apesar da deriva mainstream a tiragem média decresceu.


AO VIVO
IMPROVISAÇÃO, EIS A QUESTÃO

Um ciclo de concertos dedicado ao tema «Nova Música Improvisada» apresenta inevitavelmente, para além do interesse suscitado pelos participantes, um especial aliciante, colocando-nos questões habitualmente escamoteadas no que concerne à caracterização íntima de uma música e do seu fazer. Os dois concertos em que Carlos Zíngaro foi o anfitrião deveram o seu especial sucesso ao facto de terem sido conduzidos por um quarteto de experimentados improvisadores-compositores, para além do violinista português as luminárias Frederic Rzewski, Richard Teitelbaum e Barre Philipps, indiferenciando-se no seu trabalho os dois processos de criação musical.
A música que se ouviu fez-lhes inteira justiça: da gestão minimal de sons e silêncios Às massas orquestrais providenciadas pela tecnologia montada no palco, do esquematismo dodecafónico à explosão libertadora resultante da plena integração dos instrumentistas, do impressionismo mais preciosista ao gestualismo e à visceralidade expressiva, da caixinha de música, com todos os elementos cautelosamente concertados, à parasitagem electrónica de todo o espectro audível, tudo pôde acontecer. Frederic Rzewski, o lendário autor de “The People United Will Never Be defeated”, percorreu ao piano os vocabulários com que este é conotado, detendo-se sobretudo nas referências românticas e impressionistas e introduzindo pequenos motivos, notas ou acordes isolados, exactamente nos momentos em que tinham de acontecer ou seria o abismo. Barre Phillips esteve dividido entre a sua vocação lírica (aquela mesma ilustrada pelos seus discos na ECM) e um discurso no contrabaixo construído em torno de fraseados desconstruídos. Richard Teitelbaum ora foi discreto, confirmando a sua fama como «humanizador» da informática musical, ora se responsabilizou pelos fabricos sonoros mais surpreendentes de ambas as sessões, com utilização, por exemplo, de «samples» do canto rural transmontano ou dos judeus safarditas medievais. Carlos Zíngaro, por sua vez, integrou-se na nuvem de tonalidades geral tocando acústico, com a sua linguagem violinística feita de armadilhamentos gramaticais, ou ligando o seu instrumento, via «pitch to Midi», a várias máquinas e «gadgets» electrónicos, como o «delay», o que lhe permitiu dobrar fraseados e acrescentar sentidos.
Já Azguime, no seu espectáculo a solo denominado «Ícones», com a participação do coreógrafo João Fiadeiro, lidou bastante menos com a gama de possibilidades presenteadas pelo binómio intuição/memória. Evidenciando uma técnica excelente e uma imaginação cénica cuidada, o percussionista português apresentou seis peças de música organizadas por módulos, cada um com o seu específico «set» de instrumentos, incluindo uma escada e uma dorna. Sem poder explorar devidamente as potencialidades sonoras que tinha ao dispor, foram exercícios de virtuosismo, e pouco mais, o que nos apresentou. Ora, não é a exibição de faculdades que define, no essencial, a prática processual da improvisação.
Velez, pelo seu lado, com os préstimos de Steve Gorn nas flautas bansuri e do percussionista Randy Carfton, deitou por terra toda e qualquer conotação com o jazz do acto de improvisar. A música deste agrupamento situa-se algures entre a World Music e a New Age, se bem que não se confunda com a generalidade dos produtos que exibem tais rótulos, dada a maior seriedade dos seus propósitos.
E se no caso desta formação a prática e o conceito são indissociáveis, no dos portugueses Telectu, que tocaram em duas sessões com o baterista e percussionista Chris Cutler, fundador de grupos do «art rock» com a fama dos Henry Cow ou dos Art Bears, o concerto foi tudo, obliterando a auto-suficiência performativa da música. Pretendendo enumerar as técnicas e «tendências» de dez anos de existência enquanto duo, Jorge Lima Barreto e Vítor Rua protagonizaram uma actuação descosida, durante a qual foi-lhes impossível interligar os diversos elementos («situações», chamaram-lhes) que se propuseram reunir. O espectáculo, preparado com estipulações seccionadas ao minuto e incluindo a vídeo-arte de Rua bem como a instalação e luminotecnia de António Palolo, ou pecou pela pura inércia, nada acontecendo, ou foi prejudicada pelo atabalhoamento de citações e referências, o minimalismo, o free rock, o «jazz mimético», a electro-acústica experimental atropelando-se numa desfilada incongruente.
A improvisação pode ser hiper-calculada e ainda assim falhar no momento da verdade, foi o que se ficou a saber. É pena, pois os últimos feitos dos Telectu, em particular o CD «Evil Metal», prometiam bastante mais.
Rui Eduardo Paes






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