Diretor: João Pedro Costa
ANO I
Nº 24
75$00
Semanário
13 de Abril de 1989
Capa: Telectu
+
A Split Second - Novas Frentes De Ataque Da Música Belga - pg. 10, artigo por João Correia;
Telectu - Arbeit - 2 páginas, 20 e 21, Entrevista, por Paulo Eno
Diretor: João Pedro Costa
ANO I
Nº 24
75$00
Semanário
13 de Abril de 1989
Capa: Telectu
+
A Split Second - Novas Frentes De Ataque Da Música Belga - pg. 10, artigo por João Correia;
Telectu - Arbeit - 2 páginas, 20 e 21, Entrevista, por Paulo Eno
PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 3 OUTUBRO 1990 >> Cultura
Concerto de Elliott Sharp e Telectu na Gulbenkian
Sementes de violência
FOI O concerto da brutalidade. Elliott Sharp e os Telectu iam rebentando os tímpanos a uma assistência que encheu, segunda-feira, por completo a sala polivalente do CAM, siderada pela violência sonora e pelo inusitado da combinação.
As notas da guitarra e do saxofone soprano de Sharp e a panóplia eletrónica dos Telectu explodiram literalmente num caos apocalíptico que teve entre outras a virtude de fazer pensar sobre algumas das vias encetadas pela chamada “nova música”, designação demasiado lata que não chega para abarcar a pluralidade de correntes que em comum apenas têm a repulsa nutrida em relação às “mafias” para as quais a música não passa de negócio.
Mestre da guitarra
A primeira parte do programa foi preenchida por Elliott Sharp em solo absoluto. Uma guitarra de dois braços e um saxofone bastaram-lhe para produzir um caudal de sons violentíssimos, para muitos insuportável logo alguns segundos após a vibração da primeira corda, para a maioria um excitante delírio virtuosístico, com o guitarrista a dar mostras de um domínio absoluto do instrumento. Sonoridades distorcidas até ao limite do tolerável, as notas e ruídos entrechocando-se num combate monstruoso, em “clímaxes” criados com a ajuda de pedais de efeitos, mas sobretudo graças ao modo superior como o músico consegue dominar a massa sonora, domando-a como se de uma fera se tratasse.
Solou indiscriminadamente com as duas mãos e com uma terceira feita em arame, raspou as cordas, agrediu a caixa do instrumento, pôs os olhos e ouvidos em bico a quem estivesse à espera de uma prestação convencional. Explosões, ruído branco, sequências e automatismo rítmicos complexos, sobreposição de frases melódicas e soluções tímbricas arrojadas, mostraram à saciedade por que razão Sharp é hoje considerado um dos grandes mestres contemporâneos da guitarra elétrica. Durante os 45 minutos ininterruptos de risco e provocação auditiva em que Sharp atuou só, ruíram os alicerces do velho mundo.
Subversão a três
Os Telectu entraram a seguir, acrescentando uma dose extra de agressividade ao tom orgiástico da noite. Jorge Lima Barreto percutia o seu DX7, criando uma selva digital entre a qual gritavam as guitarras desvairadas do nova-iorquino e de Vítor Rua. Por trás do palco eram projetadas imagens vídeo computorizadas acrescentando à “performance” o estímulo visual. Onde se esperaria talvez que os Telectu se espraiassem pelas paisagens mais rigorosas de “Digital Buiça”, como ponto de apoio para as intervenções de Elliott Sharp, aconteceu ao invés uma improvisação a três, um pouco à maneira da praticada pelo coletivo AMM, na mesma tentativa de subversão e reconversão dos códigos estéticos e pressupostos éticos subjacentes ao jazz e à música contemporânea. A um espetáculo que se anunciava integrado nas celebrações do Dia Mundial da Música, não se podia pedir melhor.
... mais aqui ...
PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 1 OUTUBRO 1990 >> Cultura
Elliott Sharp e os Telectu atuam hoje na Sala Polivalente do CAM, às 18h30 e 21h30
A matemática do caos
O guitarrista nova-iorquino Elliott Sharp e o duo português Telectu tocam juntos, numa prova de que a “nova música” também tem lugar entre nós. A violência eletrónica, em plena atividade de “sabotagem” cultural.
Nova Iorque – capital de mil perigos e deformidades. Há músicas que traduzem essa monstruosidade. Sons que avisam e perturbam. Nos clubes e nas caves. Na penumbra do fumo, longe das luzes do dia e dos hipermercados.
Elliott Sharp resiste, luta, provoca a cidade, nas suas convulsões guitarrísticas. Loucura artística contra a loucura institucionalizada. Integra hoje a elite dos impulsionadores e inovadores da vanguarda nova-iorquina, ao lado de nomes como John Zorn, Glenn Branca, David Fulton, David Linton, Rhys Chatham, Wayne Horvitz, Ned Rothenberg, Samm Bennett, Scott Johnson, Robert Previte, David Weinstein ou David Garland, muitos deles colaboradores regulares nos seus trabalhos.
Guitarra telúrica
Especialista em abordagens revolucionárias do instrumento, possui uma habilidade inata para despedaçar os códigos estéticos e as posturas técnicas tradicionais, a par de uma capacidade analítica capaz de unir as pulsões inconscientes, físicas e emocionais ao rigor estrutural. O cérebro mestre do telurismo. Matemática do caos.
Exemplo desta atitude é a utilização, em discos como “Marco Polo’s Argali”, “Tessalation Road” ou “Larynx”, de um complexo sistema algorítmico denominado “séries Fibonacci”, através do qual se torna possível gerar diferentes tipos de afinação, bem como novas soluções harmónicas e melódicas.
Elliott Sharp caminha sobre o fio da navalha, ao longo de uma já vasta e diversificada discografia que integra experiências que vão da composição (ou decomposição...) da música para cordas (em “Tessalation Road”, com os Soldier String Quartet, equivalente intuitivo e esquizofrénico dos seus congéneres Kronos Quartet), o brutalismo rítmico tribal realizado em computador (“Virtual Stance”), a “canção” eletrónica demencial (“In the Land of the Yahoos”, ao lado de Sussan Deyhim, Christopher Anders, David Fulton, Shelley Hirsch e Christian Marclay), à transfiguração do ruído, ordenado sequencialmente (“Looppool”) ou a interpretação orquestral dos cantos “Inuit” e “hoomii”, respetivamente das regiões árticas do Canadá e da Mongólia (“Larynx”, com Samm Bennett, David Fulton, David Linton, Robert Previte, Jim Staley e, de novo, os Soldier String Quartet), Capítulos importantes da sua discografia são também “Rhythm and Blues”, “Escape Clause”, “I/S/M:R”, e “Carbon” e “Fractal”.
Uma definição possível para esta música arrebatadora pode ser encontrada nas próprias palavras do guitarrista, relativamente a “Larynx” mas perfeitamente aplicáveis a toda a sua obra: “Música que dança sobre permutações constantes entre uma geometria derivada das séries Fibonacci e uma geometria fractal de turbulência, caos e desordem”.
Eletrónicos
Os Telectu, grupo de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, com o qual Elliott Sharp tocará hoje no CAM (Centro de Arte Moderna da Gulbenkian), são pioneiros da música eletrónica no nosso país, passando do minimalismo inicial, para posteriores incursões nas sonoridades ambientais (em álbuns como “Rosa Cruz”, e “Halley”), a música “mimética” (“Mimesis”, “Cameratta Electronica”) ou, atualmente, aproximações a um expressionismo digital no qual se incluem músicos como Jeff Greinke, Robert Rich, Peter Frohmader ou, por vezes, o próprio Elliott Sharp, influência evidente em alguns temas de “Live at the KnittingFactory” e “Digital Buiça”.
A conjunção da eletrónica dos Telectu com a guitarra explosiva de Elliott Sharp pode fazer estragos. Espera-se que esta não seja uma iniciativa isolada e que as “músicas alternativas” ocupem, no nosso meio musical, o lugar de destaque a que têm direito.
ELECTRÓNICOS LUSITANOS
Já era altura de dedicarmos um espaço ao que se faz no país vizinho. Tudo o que se segue surgiu-nos na ideia após a audição de um concerto dado pelos TELECTU a propósito da bienal de Barcelona 87.
Apesar de deixar algumas coisas para outra ocasião, isto é, de momento, o que compilei relacionado com a música electrónica portuguesa. Seguir-se-á mais informação nos próximos números.
TELECTU
Surgiram no ano de 1982 em Lisboa. Eles começaram no Jazz e na música Rock, cada um por seu lado. VÍTOR RUA foi um dos fundadores dos GNR (Grupo Novo Rock), um dos grupos mais inovadores neste campo. Jorge Lima Barreto já faz música desde 1968 (Jazz e música electrónica).
Além de se dedicarem a tocar desenvolvem outras actividades, como a crítica, vídeo-arte, programas de rádio. Colaboraram com uma grande diversidade de gente; Por isso não vou continuar a contar a sua trajectória, já que a mesma se encontra reflectida na entrevista que fizemos a um dos responsáveis, Jorge Lima Barreto e que aparecerá mais à frente.
TELECTU. – Música multimédia, electronic live, jazz mimético, música minimal repetitiva. Música para vídeo, performance, teatro, cinema e dança.
JORGE LIMA BARRETO. – Piano, sintetizadores, electrónica, saxofone digital, sampler.
VÍTOR RUA. – Guitarra electrónica, electrónica, engenharia de som, vídeo, guitarra digital, sampler.
ANTONIO PALOLO. – Diapositivos, vídeo, artes gráficas.
VÍDEOS DE VÍTOR RUA:
1985 – HALLEY (50 min)
1986 –
EBRAC (30 min); AUTO LOOP (10 min)
1987 – ALIENADO (20 min); AS AVENTURAS DO CARRO AMARELO (25 min)
1988 –
COMPGRAF 2 (30 min); MIMESIS (37 min. 50 seg)
DISCOGRAFIA TELECTU
- “CTU TELECTU” – EMI 1982
- “BELZEBU” – CLICHÉ 1983
- “OFF-0FF” (duplo) – 3 MACACOS 1984
- “PERFORMANCE” – 3 MACACOS 1984
- “TELEFONE” – LIVE IN MOSCU 1985
- “ROSA-CRUZ”. LIVE GULBENKIAN 1985
- “HALLEY” – ÁLBUM DE LUXO COM TEXTO E SERIGRAFIA DE a. PALOLO – CENTRO NACIONAL DE CULTURA / ALTAMIRA 1986
- “DATA” – (MÚSICA PARA VÍDEO) 1986
- “CAMERATA ELETTRONICA” (DUPLO) - AMA ROMANTA 1988
- “MIMESIS” (LP e CD) – TRANSMEDIA 1988
- “BEM JOHNSON (DUPLO LP e CD) – 1989
VICTOR RUA
SINGLES: Com GNR – “Portugal na CEE” e “Sê Um GNR”
LP’s: Com GNR – “Independança – EMI Valentim de Carvalho, 1981
“Pipocas” – Ama Romanta, 1988
“Mimi” – Transmedia, 1989
JORGE LIMA BARRETO
“Anar Band” – Alvorada, 1976
“Encounters”,
com Sahed Sarbid – Alv, 76
TELECTU
JORGE LIMA BARRETO
R/da Imprensa Nacional, 83-2ºD
1200-Lisboa (Portugal)
ENTREVISTA TELECTU
ROGELIO PEREIRA – Seria interessante se nos contasses como começaram.
JORGE LIMA – Primeiramente temos que considerar que os TELECTU provêm da reunião de dois músicos diferentes, na concepção musical e na vivência.
Eu toco desde 1968, primeiro em grupos de jazz-off, depois tendo fundado com CARLS ZÍNGARO a ASSOCIAÇÃO DE MÚSICA COCEPTUAL que abriria novos rumos à música portuguesa contemporânea, no sentido de uma investigação em electrónica-live (sintetizadores, piano electronicamente preparado, banda magnética), desde logo com uma actividade paralela como crítico musical e musicólogo (escrevi já 87 livros sobre música, que vão desde “REVOLUÇÃO DO JAZZ” a “MUSICÓNIMOS” (este último sobre filosofia da música e intensas observações sobre o rock).
VÍTOR RUA tinha formado em 1978 o grupo GNR (grupo novo rock) que era sem dúvida o melhor grupo de rock nacional.
Nesse tempo eu andava entre os EUA e o Brasil e quando regressei, conheci-o. Eu tinha gravado ANAR BAND (música experimental para piano, sintetizador e banda magnética) e “ENCOUNTERS” com o grande músico português de jazz, SAHEB SARBIB (música para contrabaixo, flauta e electrónica).
O VÍTOR tinha gravados vários singles de grande êxito e o LP “INDEPENDANÇA”, sempre com os GNR.
Formámos um grupo com o baterista dos GNR, um vocalista e fizemos uma obra de fusão “CTU TELECTU” pioneira na sua linguagem de ART-ROCK. A partir daí e depois de uma grande controvérsia com os princípios da multinacional para quem gravávamos, decidimo-nos pela edição independente. Introduzimos o minimalismo em Portugal, escrevi “música minimal repetitiva” e fizemos uma série de obras minimais como “BELZEBU”, “OFF-OFF”, “PERFORMANCE”, “TELEFONE”, “FUNDAÇÃO”, “ROSA CRUZ”, “HALLEY”, “DATA” e, recentemente, sintaxes repetitivas em “MIMESIS” e “BEN JOHNSON”.
Os princípios que geraram a nossa música foram muito diversos e de foro estético multifacetado; vão desde a investigação em texturas tímbricas, coordenação de dispositivos sonoros, banda magnética, instrumentos acústicos tratados (guitarra e piano), estruturas miméticas, inclusão de computador, processos multifónicos, mistura de média, multimédia, aproveitamento de novos sentidos da improvisação, nova notação musical, enfim, um processo que não deveria ajustar-se a uma definição normalizadora de tantas e tão díspares actividades.
O VÍTOR RUA trabalha essencialmente com a guitarra e engenharia de som e eu em teclados e percussão electrónica.
R. PEREIRA – Nos poucos anos que levais como duo, já garavaram um bom número de LP’s, e apesar disso na altura de editar os vossos discos recorreram, na maioria dos casos, à autoprodução e autoedição. Neste último disco “MIMESIS” gravado numa etiqueta tão importante como é a TRANSMEDIA. Pensma que, finalmente, encontraram uma editora estável para futuras gravações?
JORGE LIMA – O problema da edição independente não se pode pôr nesses termos. Como somos independentes não temos proprietários. Assim estamos livres para fazer a música que queremos e editá-la onde nos pode dar mais acessibilidade e dignidade.
R. PEREIRA – A vossa música serviu de suporte a bandas sonoras de filmes. Para que filmes contribuíram com a vossa música?
JORGE LIMA – Fizemos uma banda sonora para o filme experimental de ANTONIO PALOLO “OHM”, mas fundamentalmente fizemos músicas funcionais para performances (no CENTRO POMPIDOU de Paris), para vídeo, poesia, teatro.
O VÍTOR RUA é um vídeo-artista inovador e as nossas realizações musicais têm sido sempre uma interacção musical com o vídeo, a instalação e a performance (prémio AICA no ano de 86 pela instalação “EBRAC” com Câmara Pereira). O ANTÓBIO PALOLO é parte dos TELECTU (diapositivos, capas de discos, vídeo-arte…)
R. PEREIRA – Na vossa obra “CAMERATA ELETTRONICA” escutamos uma música mais próxima do jazz, abandonando de certa forma a formas minimalistas de anteriores álbuns. Pensam seguir nesta linha ou foi apenas mais uma experiência?
JORGE LIMA – Como já disse, eu também sou musicólogo de Jazz. Em obras como “PERFORMANCE”, “TELEFONE”, e especialmente na peça “BAKU RESTAURANT”, gravada em Moscovo, abordámos mimetismos do Jazz. Dizemos mimetismos porque não sendo músicos de Jazz, pretendemos simular a partir de instrumentos acústicos e electroacústicos, a linguagem do Jazz.
Consideramos em 87 que poderíamos ultrapassar-nos, sem abandonar os processos minimalistas, e inflectimos a nossa música para um tipo de Jazz-Off electrónico, dando mais relevo à improvisação electrónica ao vivo.
A segunda parte da pergunta tem como resposta evidente que nós continuaremos num Work In Progress das nossas concepções musicais, sem qualquer compromisso determinado com esta ou aquela tipologia musical. O futuro nasce da própria acção criativa, depende das circunstâncias tecnológicas e de novas percepções sonoras, ou seja, para além do disco e do concerto temos muitas outras situações para compor e executar a nossa música.
R. PEREIRA – Aparte de fazer música, também se dedicam a escrever em semanários musicais. Por outro lado, tu, Jorge, tens escrito algum outro livro? Tens projectos no campo literário?
JORGE LIMA – Apenas escrevo em semanários musicais. Tenho 12 livros escritos, todos no âmbito da musicologia, estou a iniciar o meu doutoramento na Universidade Nova de Lisboa, em música e mass media, tenho livros e textos já traduzidos (espanhol, italiano, inglês e francês). Neste momento estou a elaborar a minha tese e paralelamente estou a escrever um livro sobre Novas Músicas. Dei também conferências sobre este tema tão aberto, em Paris, Nova Iorque, Rio de Janeiro, São Paulo, Cuzco, Moscovo, Macau, Génova, …
R. PEREIRA – Como avalias o panorama da música electrónica Portuguesa?
JORGE LIMA – Temos de verificar que a minha opinião não pode ser encarada como a opinião de um músico apenas. Como musicólogo tenho reflectido desde sempre sobre a electrónica na música portuguesa, fui pioneiro na Electric live neste país. Escrevi um “breviário de música electrónica” onde está escrito o que penso sobre a música electrónica portuguesa. Consideremos dois tipos: 1 de estúdio, 2 ao vivo. Na electrónica de estúdio, músicos como JORGE PEIXINHO, FILIPE PIRES e sobretudo EMANUEL NUNES (residente na Alemanha), fizeram abordagens electrónicas sobre serialismo, tape music, computação, electro-acústica e, ultimamente, novos valores têm-se revelado.
Na “electrónica live” temos o CARLOS ZÍNGARO que toca com TEILTELBAUM, TELECTU, TÓ-ZÉ FERREIRA e toda uma série indiscriminada de culturas dentro de músicas mais dirigidas a uma massificação estética que inclui o rock, pop, new age e ambientes e funcionalismos musicais. Num panorama pobre, sem um estúdio de música electrónica, e que provém da própria iniciativa dos músicos, sem um eco notório na imprensa musical, praticada normalmente por ignorantes de música, tirando uma ou outra excepção.
R. PEREIRA – Há um par de anos chegaram a actuar na bienal de Barcelona, actuação da qual usaram uma parte em “CAMERATA ELETTRONICA. Têm vontade de tocar de novo em Espanha?
JORGE LIMA – Não temos apenas vontade, queremos profundamente fazer uma tournée em Espanha. Parece impossível que, tendo tocado em todos os continentes, não tenhamos quase conseguido tocar em Espanha, que é o nosso país vizinho. Temos um monte de propostas que incluem concertos, instalação, vídeo musical, performance, conferências, edição de traduções dos meus livros, mas tudo é muito difícil de concretizar; é que o governo português está muito longe de se interessar pela música portuguesa e muito menos por música portuguesa a ser tocada no estrangeiro, lugar que não interessa para captar votos para as eleições. Mas oxalá esta entrevista possa servir como incentivo para essa realizações.
R. PEREIRA – Conheces alguma da música electrónica feita em Espanha?
JORGE LIMA – Evidentemente. Tive contactos pessoais e entrevistei para o meu livro “Musicónimos” o LUIS DE PABLO, gosto muito especialmente da peça “Chaman”, também obras acústicas de BENGUEREL, MESTERES QUADRENY, SOLER, TALTABULL, POLONIO …
Em Espanha, como em Portugal, não há um importante Centro de Música Electrónica e são poucas as multinacionais do disco, que são evidentemente as mesmas que dominam o mercado musical português, que mostrem algum interesse por esta estética musical. E claro que se entendemos o termo música electrónica como toda e qualquer prática instrumental electrónica (ligada ao rock, Jazz, novas músicas, e a música comercial), torna-se muito difícil poder apreciar a música electrónica espanhola, já que os instrumentos não fazem a música sem os músicos. Gostaria de poder aprofundar o meu conhecimento, que é tão superficial, da música electrónica espanhola…
R. PEREIRA – Que outros LPs editaram separadamente?
JORGE LIMA – Eu gravei “ANAR BAND” (76) e “ENCOUNTERS” com o SAHEB SARBIB (77). Por seu lado o VÍTOR tem três LPs: Com os GNR, sob o nome de PSP-PIPOCAS (87) e MIMI (89).
R. PEREIRA – Quais são as vossas preferências musicais?
JORGE LIMA – É um campo vasto de desejo: etnográficas, clássica (que engloba obras orquestrais e de carácter solístico), electrónica, acusmática, concreta, Jazz, rock, pop, música de massas, sons naturais, obras para banda magnética, colagem musical… enfim, somos observadores conscientes de toda a música sem excepção, a não ser uma indiferença e até uma repulsa pelo comercialismo e pela indecorosa conduta das editoras e dos pseudo-músicos que contaminam, com propostas anti-estéticas, todo o consumo musical. É como dizer que se prefere BACH a CAGE, MONK a FRIPP, TEATRO CAGAKU (Japão) a uma RAGA HINDU, se todos são mundos tão maravilhosos para ouvirmos.
R. PEREIRA – Algo que queiras acrescentar?
JORGE LIMA – Penso que numa entrevista o mais importante é o que fica por dizer. Assim, poderíamos estar horas e horas a falar de música, da experiência literária, das novas notações, dos meios de comunicação, de uma composição, de um solista, de um concerto… enfim, seria uma infinidade de considerações a tecer sobre o que se ama: a música.
O desejo de poder ir, tocar e mostrar a nossa criatividade em Espanha, como interesse primordial.
E finalmente, que nos seduz imensamente o movimento estético-musical da vossa revista SYNTORAMA, que denota uma qualidade cultural e gráfica, como também pelo carácter de intervenção que revela.
Esta entrevista com JORGE LIMA BARRETO, membro dos TELECTU, foi realizada por correio, em Abril de 1989.Vítor Rua - eu só queria dizer o seguinte..."
71. 45 & 33 rotações
… uma vez, pouco depois do 25 de Abril, o Jorge Lima Barreto, foi convidado a participar num colóquio sobre Jazz; estavam lá todos os do Jazz: o José Duarte, o Jorge Curvelo, o Raúl Bernardo, etc.; O Jorge queria falar de Free Jazz e das novas tendências do Jazz; enquanto os outros ainda estavam todos no BeBop; a determinada altura, eles começam todos a dizer ao Jorge que o Free Jazz não era música; e o Jorge diz-lhes: “Então ouçam isto e digam-me o que pensam”; e mete um disco a tocar; no final, começam todos a dizer que aquilo é só gritos, e barulheira e que, portanto se comprovava que o Free Jazz era “ruído”; então, o Jorge pega no disco que meteu a tocar, mostra-o ao público e diz: “A obra que eles estão a criticar e a dizer mal, é um disco do Thelonious Monk, só que o meti em 45 rotações quando é um LP de 33 rotações; ora, estes imbecis, nem sequer foram capazes de reparar nisso. Nem distinguiram que os instrumentos estavam a ser tocados a uma velocidade diferente; agora, querem continuar este colóquio comigo, ou com estes tipos?”; e o público em uníssono disse o nome do Jorge e os outros tiveram de abandonar a sala…
92. chocolate & chocolate
… uma vez eu e o Jorge Lima Barreto, fomos a Londres para dar um concerto Telectu; encontramos os nossos amigos Gonçalo Falcão e a Inês W Carmo; e andamos a passear por Londres os quatro; eu e a Inês fomos a uma gelataria assim para o chic; sentámo-nos e veio um empregado; era preto; eu peço um “ice cream” e ele pergunta “What flavour?”, e eu digo em português “chocolate”; e ele “Sorry?”; e eu “chocolate” e o gajo “I don’t understand”; até que eu, já nervoso, aponto para a cara dele, e digo-lhe “Chocolat… Chocolat”; aí ele entendeu. Depois, estávamos no metro, nas escadas rolantes, e o Jorge em vez de se meter do lado direito, estava no lado esquerdo; ora, isso fazia com que as pessoas passassem a todo o gás por ele, e dissessem “Please Sir” ou “Sorry Sir”; e o Jorge parado, olhava com estranheza, pensando porque estariam aquelas pessoas a andar numa escada rolante; até que, passa, um muito irritado com ele e diz-lhe “Go to your right”, e vira-se o Jorge para ele, em português: “Estás com muita pressa, tu… Até parece que vais apanhar o metro”…
5. Telectu na china
#01 – “o subsídio de cachet”
… fomos à China através do nosso amigo António Duarte; fomos lá tocar; tocámos, por exemplo, no maior clube de jazz de hong kong; tocámos num show multimédia na Casa de Macau; mas o que o António Duarte nos arranjou foi uma outra coisa única; sermos os primeiros ocidentais a gravar na China Record Company. Mas era necessário dinheiro para as viagens de Macau para Pequim; então fomos falar com o presidente do Instituto Cultural de Macau; já não me recordo se falámos com o Monjardino ou com o João Amorim; o que importa é que, a determinada altura, o presidente diz: “Nós não temos cachet para os Telectu”, e o Jorge, olha para ele e diz: “Mas nós não vimos aqui pedir-lhe cachet nenhum!”, e o outro: “Então, o que pretendem?”, e o Jorge: “O que nós estamos a pedir não é um cachet, isso sabemos que vocês não podem dar, o que nós queremos é apenas um subsídio de cachet!”, o presidente do instituto olha para o Jorge e pergunta: “Um subsídio de cachet? O que é isso?”, e o Jorge: “O nosso cachet seriam uns mil contos, ora nós só lhe vamos pedir trezentos contos, logo, o que estamos a pedir-lhe é apenas um subsídio de cachet!” o gajo riu-se e deu-nos o subsídio de cachet!
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem
Agora em Portugal - BUBOK - clique na imagem