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4.4.23

Jorge Lima Barreto - "Solo Sobre Vítor Rua" (artigo de JLB sobre VR na revista anarquista A Ideia #30-31, 1983


Jorge Lima Barreto

Solo sobre Vítor Rua

Este meteórico músico Português é um talento precoce que caminha na via láctea dos sons, estrelando de melodias misteriosas o horizonte provável da música do mundo: Vítor Rua.

Analisar a sua música é descrevê-lo em acção, inebriar-se com a sua persona introvertida (intimista por natureza) é perceber que todas as estratégias da sua vida são assumidas em função do seu único e verdadeiro amor: a guitarra. Podemos falar das suas guitarras eléctricas inspirados na tensão com que as toca, as acaricia ou as erotiza como que fazendo transparecer através delas todo o seu sentimento: há a «Morris» que usou em CTU/TELECTU que é versátil e mesmo adúltera (com ela pode Vítor Rua fazer tudo desde um baixo pontilístico ao fraseado insinuante e melódico até aos experimentalismos mais ousados).

Na «Gibson», da qual se orgulha ser model usado por John Abercombie, fez correr os seus dedos delicados (toda a mão é fina e frágil, apenas a força de ser lírica); escalas mas escalas e outras escalas, escalando os domínios da sabedoria musical, até ao momento em que o gesto será perfeitamente o resultado da ideia musical. Nesta praxis, ele torna o trabalho no deleito da aprendizagem (de manhã inundado de sol, à tarde iludido pela solidão e à noite envolto no sonho).

É também um exímio guitarrista baixo; aqui embrenha-se no funky, marcado de límpidas rítmicas isocrónicas, expurgando timbres arrojados e viris; inultrapassável na sua qualidade, muito americano.

A «Jaguar» (Fender), um instrumento apreciável pela raridade e pela leveza, monopolizou o seu saber: parece-nos, ao vê-lo tocar, que a conhece desde a sua existência, a mão segura no braço em subtis movimentos e a palheta tacteia evanescente pelas cordas, enunciando frases, figuras, notas simples, uma empatia tal que pensamos que a guitarra é uma extensão física do seu corpo magro e aristocrático.

Os olhos negros, brilho de inteligência, contemplam viciosamente a «Dom de Louise» uma lito-slide-guitar, oferecida pelo seu maior admirador, que foi feita à mão por um expert de Brooklin e é peça única: um amplificador primitivo, as armações em porcelana branca e uma pedra-mármore polido a servir de corpo. Obra artesanal para as elocubrações electrónicas do Vítor; esperam-se daí milagres como estamos certos que a ciência deste solista irá oferecer-nos o luxo computacional na «Roland» com sintetizador. Embora Vítor Rua experimente sintetizadores variados (tem um fraco pelo electrónico realizarão todas as suas ficções. A «Roland» é um plano realizado em «Belzebu» (Jorje).

De tez cigana o Vítor Rua lembra, e a propósito de encarnações, uma metempsicose alucinada de Django cujo mundo ambiente são os contos electrizantes dasa aparelhagens (o misturador, os amplificadores, o rockman, os auscultadores, o equalizador, os gravadores, as cassettes e os discos – enfim, a parafernália maravilhosa da música contemporânea. Hoje Boulou Ferré magnetizou este manouche Vítor como um íman sobre limalha de ferro.

Catalogado, apressadamente como músico pop (os seus êxitos adolescentes do «GNR», os serviços prestados em favor de quase inevitáveis oportunismos) Vítor Rua situou-se na cimeira da pop nacional e projectou a sua autoridade de líder na estética do rock (a eminênciaoculta de «avarias», os arranjos pertinazes de «INDEPENDANÇA») até culminar a carreira em «TELECTU», onde se excede no artifício dos experimentalismos e na virtuosidade das dobragens, obra que ele considera cumular a sua criatividade no rock. Mas o Vítor Rua é insatisfeito, a sua ambição não pode ter fronteiras (para quê as fronteiras se ele é tido como o melhor solista do rock português?) quer abolir com os convencionalismos (porque não, se ele levou ao extremo uma estética pop?) e não hesita: inicia já neste crepúsculo magnífico de adolescência o incêndio do convencional e a beleza da maturidade elabora uma síntese intelectual de todos os desejos de infância.

É a sua idade de ouro: filigranas preciosamente elaboradas pelos seus dedos, arte sonora que vibra das cordas, habilidades electrónicas que a curiosa esperteza congemina; fios que entram num aparelho e surgem noutro, plugs e jacks, pequenas magias, insignificantes segredos que subentendem a idiossincrasia dum estilo. Nestes inventos edificam os grandes solistas a sua marca musical – por isso, os músicos medíocres (falsos músicos, logo a música é uma verdade) não trabalham na própria linguagem apenas se divertindo em decalcar os outros, utilizando o que a tecnologia lhes apresenta, plagiando o que está feitio.

Vítor Rua, mesmo quando se comprometeu com a música ligeira, nunca copiou ou extirpou o trabalho alheio: donde o imenso sentimento de frustração e erro ao analisar esse compromisso, jamais assumido, mas a certeza da criatividade não poderá permitir de futuro qualquer espécie de prostituição.

É um juramento que Vítor Rua fez perante a música e depois dum concerto de Derek Bailey, na «Kitchen», New York.

Havia sido na «Kitchen» que se revelou também o seu ídolo: Robert Fripp. Numa fase em que Fripp condena as suas ideias musicais so sistema «Frippertronics» e se recusa a tocar para mais de 250 pessoas, admitindo dez iluminados como assistentes e acusa o regime do rock com o epíteto de desportivo. É este Fripp que o seduz. Foi este Fripp que o avassalou no concerto King Crimson do Restelo.

Desde essa noite entre espectadores promíscuos de circo romano ele aderiu à luta de Spartacus e pôs termo à alienação a que os sedentos de vedetismos televisivos, os comerciantes do som, os empresários ávidos de lucro o haviam querido condenar.

Vítor Rua revelou-se ao ouvir Robert Fripp.

É um ser hiper-sensível, muitas vezes amedrontado com a saúde, pacifista e duma generosidade que raia o prodigalismo.

Foi manipulado pelos interesses da mais-valia, mas nem foi a «consciência política» nem a «raiva insana» que o fizeram tomar uma posição: só podia ser um grande guitarrista a motivá-lo: Robert Fripp. Vítor Rua só pode ser sensibilizado por um músico, ou por alguém que estude música. Fripp apontou-lhe não só a nova semiologia do rock mas também lhe forneceu os elementos necessários para uma disciplina musical. O Vítor ouve diariamente os discos de Fripp, procura arduamente repetir as suas frases, estuda atentamente o ataque das notas, investiga estupefacto a sistematização rigorosa deste mestre da guitarra eléctrica, sonda com avidez o contexto metódico, extasia-se perante a genialidade do modelo. Gosta de tomar café no Penguin Café ouvindo a Orchestra local.

Vítor Rua havia tocado blues com a «King Fisher Band» ainda muito novo e Jimi Hendrix catapultou-o para a realidade psicadélica do rock. Houve unitemas a marcarem ancestralmente a sua técnica: os «Yes» ou os «Pink Floyd». Depois a revolução da New Wave fê-lo aderir à nova tecnologia do rock e os «Talking Heads», «Joy Division», os «Devo», os «Sparks», David Bowie, o «Disco Sound», estão como mais significativos, embora um a um sejam contestados pela sua própria evolução, mesmo levados até ao desprezo ou à indiferença.

 

Lições clássicas fugazes deixaram-lhe o conhecimento do dedilhado da guitarra erudita e a nominação de alguns compositores estereotipados pelo ensino académico.

Então e após o seu êxito com «INDEPENDANÇA» passa a tratar do progresso estilístico o que o leva a ultrapassar significativamente as directrizes iniciais do seu próprio grupo «GNR». Neste clima de tensões pessoais muito fortes, nem uma só vez o vi exasperado com os concorrentes do rock nacional. Ao contrário das estrelas cadentes (cujo brilho ofusca as mentalidades mais pobres) Vítor Rua não adere ao regime mercantilista que vigora localmente; qualquer dessas microcósmicas «vedetas» ao vê-lo de imediato o reverencia; até porque não é possível nenhuma hostilidade pessoal. Ele está verdadeiramente acima desse nível que os media (TV, Rádio, Jornais, Discos) impingem às massas e está assim sem elitismos repressivos porque já viveu essa realidade entre os considerados melhores e numa idade pouco comum.

Trabalhou um «GNR» táctico para o festival de Vilar de Mouros e angariou com «Anar Band» o primeiro prémio na Bienal de Vila Nova de Cerveira em contacto com performers e artistas plásticos no atelier musical do projecto «TELECTU».

Ash Ra Temple, melhor: Manuel Gotsching seduziu-o de forma totalitária; o regime melódico das repetições indu-lo a ouvir as escalas repetitivas americanas de música erudita. Steve Reich e Terry Riley interessaram-lhe de sobremaneira.

A rotura com a pop estava instaurada.

Ralph Towner, Metheny, Ryptall e a escola dos virtuosos neomelodiastas da guitarra interessam-lhe cada vez mais. Ouvira Tony Conrad e John Surman, este repetitivos esquisitos.

O Jazz insinua-se com Jim Hall, Joe Pass, Gabor Szabo, Mahavishnu, Coryell e tantos outros; mas é no contacto directo com grandes músicos (ele esteve ao lado de Cecil Taylor, Ed Blackwell) que o cativa em definitivo.

A repetição como estrutura estilística é um novo passo a dar pelo artista.

Já em Steve Hillage interessa-lhe o fraseado da repetição, unidas melódicas obsessivas ou discursos de conexão com obstinados e rasgos de improvisação (e aqui estão Harsall, Zappa, Hendrix, Eno ou os progressive lisergicamente projectando os delírios electrónicos nos rituais da guitarra, e o seu maxime: Robert Fripp).

Escutou atentamente música electrónica (de Stockhausen, Bério, Xenakis) para parâmetro de organização das escolas sonoras, sempre resultantes do solo de guitarra.

O Free-Jazz (Ornette) libertou-o de noções restritivas do tonalismo e a etnográfica (indiana e africana) salvou-o da imbecilidade binária da pop ou do infantilismo tonal do rock ligeiro. A escola da GRM de Paris dominou o critério sonoro.

Para o deliciar fale-se em Ash Ra ou Fripp ou Hendrix ou Hillage ou Bellow ou Frith (ele não se interessa muito por Clapton ou Page e abomina Alvin Lee e todo o hard rock, bem como exacra visceralmente o folk ou a canção ligeira ideológica).

A produção discológica apaixona-o. No estúdio discorre musicalmente entre as consolas, experimenta efeitos electro-acústicos e grande parte do seu êxito discográfico deve-se ao conhecimento empírico dos estúdios. Neste prisma do saber, Vítor Rua segue Eno e Rundgren para trabalhar a tessitura das vozes, estruturar as misturas, os replayings e as escalas disco-sound não lhe são alheias. O Free-Jazz tornou-o mais louco, arrebatado, sensual/frenético.

Esse empirismo é sobrepujado pela lógica improvisativa dos solos de guitarra. O destino da sua música está na guitarra e nos diálogos que a guitarra possa fazer com outros instrumentos (sintetizadores e caixas de ritmo têm a preferência).

Leão ou Caranguejo isso depende dos critérios astrológicos limítrofes. O seu corpo magérrimo de Cristo ou Mahatma é um fulcro impressionante de energia musical sempre produzido, em inovação constante.

Quando o pensamos abstraído, é por certo uma abstracção musical que o arranca à realidade. Muito reservado e calmo, inesperada loquacidade, esporadicamente eleva-se em psicotropia que excitam o seu ser sensível e levam a imaginação aos abismos da loucura. Tal um solista tribal, encara a música como uma imanência estupefaciente da realidade sonora.

Na nossa vagem a Nova York visitou, como disse, o oráculo da música contemporânea improvisada: a «Kitchen»! Aí ouviu e viu Derek Bailey Company. Bailey impressionou-o na música contemporânea improvisada para guitarra. Pessoalmente conotou as libertinagens deste virtuoso, a capacidade de criar dissimetrias rítmicas e explorar experimentalismos tímbricos.

Se Fripp o tornou um escravo revoltado, Bailey deu-lhe as armas da revolta. Mas talvez mais poderosa ainda foi a influência de Fred Frith, que na «Kitchen» fazia parte da Bailey Company. O prospecto da Company, distribuído à entrada, incutiu nele a ideia de poder um dia tocar junto a estes músicos. Frith surgiu com o seu arsenal home made, instrumentos artesanais, entrados sobre uma desmontagem virtual da guitarra que se extrapolava de um instrumental de percussão. Os discos de Frith, então, tornavam-se oráculos perante os quis Vítor Rua exercita a sua alma musical, beliscando com a palheta as cordas das suas guitarras, em emulação.

Como compositor é intuitivo. Conhecendo apenas rudimentos da musicografia (que o tempo irá transformar em ciência) tem para os eus modelos, os Faust, os Kraftwerk e a Penguim Café Orchestra (não escreveu Satie para orquestras de café?), Monk, Ellington, certa Soul Music; paradoxalmente não perfilha a estética de Zappa mas seduzem-nos os hits da história do rock (e agora do Jazz). Uma sinalética aberta (Cage) fundamenta «Belzebu» como escrita minimal, periódica.

Podemos situá-lo, como português e improvisador solista, na senda de Paredes ou Sarbib e estamos na espectativa do seu futuro apocalíptico.

Poder-se-á falar de um músico com apenas 21 anos de idade? Porque não se Mozart aos 6 jera já um notável compositor ou Charley Christian, que morreu com 22 anos?

A sua obra discográfica tem perceptíveis aberturas de talento em «Independança» GNR e fantásticas invenções tecno-melódicas em «Telectu Ctu», que faz desfilar os melhores solos da história do Rock em Portugal.

O caminho está rasgado entre o prazer da música (Rock ou não rock) e a força interior anima todos os gestos da forma musical.

Conheça-o quem o quiser amar.

 

P.S. – Agosto de 1983 –

 

A escrita desenvolveu-se em Telectu numa grafia deveras original. Qualquer guitarrista electrónico tem obrigação de consultar os esquematismos musicográficos de Vítor Rua da obra «Belzebu».

Agora pratica quase exclusivamente na Roland 808, no sentido de sobredeterminar a fase das guitarras acústicas electrificadas.

Num complexo regime minimal-repetitivo, que se filia na escola de Robert Fripp, arqueologicamente em Hillage, este guitarrista instaurou já uma sonoridade singular num fraseado económico, sintético, arrebatamento visceral.

Apoiando-se em esquemas repetitivos, regulares, dos fundos do sintetizador, Rua liberta-se em improvisações que merecem uma cuidadosa atenção e onde um jogo de tecnicismos electrónicos vanguardistas subscrevem a progressiva alteração melódica, impondo mesmo um novo conceito de melodia.

A escrita, por ele adoptada, garante que esse sistema de improvisação, constituído por unidades sonoras electrónicas, se perpetue como uma possibilidade, entre outras, de criação sonora.

O rock está bem longe; novos mitos, novos ritos: Reich, Riley, Glass estão sempre a girar, repetitivamente, no prato do gira-discos.

Esta situação obrigou-o também a uma revisão radical dos métodos de interconexão eletrónica da diversificada aparelhagem sonora.

Na Roland 808 Vítor Rua distanciou-se do pelotão de guitarristas nacionais e isolado elevou a sua música a um estatuto só reconhecível por um público exigente, que escasseia neste país.

Na Roland 808 é simultaneamente, um técnico de som e um improvisador e tornou-se possível o surgimento em Portugal, paralelamente a Carlos Zíngaro, da música minimal repetitiva.

O projecto de Telectu define perfeitamente essa linha evolutiva de sintaxes repetitivas improvisadas (em Ctu Telectu) para uma linguagem paradigmática repetitiva (Belzebu) até um regime de valores minimais repetitivos, que a prática amadureceu, para o plano do disco futuro «off-off».

P.S. – Numa luta aberta e decidida contra o fascismo (na persona do administrador da Valentim de Carvalho que decidiu despedi-lo: ou ele tocava música ligeira e lhe dava lucro ou não interessava a «música», rua com o Rua), grava Telectu/Belzebu na única editora independente portuguesa.

Também de frisar, e após um contacto fundamental com António Palolo, a pluridisciplinaridade do discurso (música/vídeo), em que utiliza processos de sincronia, contiguidade e colagem, concomitantes à música minimal periódica.









A IDEIA anartista

N.º 30-31 TRIMESTRAL 170$00 OUTUBRO 1983

120 páginas

 

A IDEIA – revista de cultura e pensamento anarquista

Director e Proprietário: João C. O. M. Freire.

Redacção e Administração: Apartado 3122 – 1303 Lisboa Codex – Portugal

Execução Gráfica: Gráfica 2000, Cruz Quebrada.

Editores: João Freire, Maria G. Oliveira, J. Paulo Oliveira, Teresa Silva, M. Alexandre Lousada e Conceição Vieira.

Colaboradores permanentes: Domingos Amaro, Manuel A. Oliveira, Rogério Souza, Carlos Reis, José Francisco, Artur Modesto, J. M. Carvalho Ferreira e Miguel Serras Pereira.

Correspondentes: Santarém – José M. Leandro; Porto – Pedro Almeida; Inglaterra – Claude Moreira; Brasil – Edgar Rodrigues.

Capa e arranjo gráfico: Vasco Rosa

Coordenaram este número: Hermínio Monteiro, João Freire, Manuel P. Silva, M. Alexandre Lousada, Miguel Serras Pereira e Vasco Rosa.

Distribuidora: Dijornal, R. Joaquim António de Aguiar, 64-2.º - 1000 Lisboa – Telefones 657550 – 657450 – 657870.

Condições de assinatura: Assinatura anual (2 números duplos) – 300 Escudos; Assinatura de apoio – 400 Escudos ou superior; Estrangeiro – 300 Pesetas / 20 Francs F. / 5000 Lire / 2 Pounds / 5 US Dollars.

Nº de Depósito Legal: 3276/83

Nº de Reg. Título: 104197

Nº de Reg. Prop.: 207384

 

A IDEIA Anartista 30-31 Índice

Alberto Pimenta / Acerca da poética ainda possível / 7

Eduardo Colombo / Do Desejo À Utopia / 12

Kenneth White / Notas sobre o pensamento anarquista / 27

Marianne Enckel / Digressão inacabada sobre o movimento perpétuo / 30

Nuno Félix da Costa / A fotografia e a perversão do olhar / 35

Alexandra Vasilikian / Teoria de uma exposição / 40

Pedro Borges / O cinema ou o espelho que cega / 44

Fiama Hasse Pais Brandão / História: o direito á alucinação / 46

Susan Margaret Brown / O banqueiro anarquista ou o poeta anarquista mascarado? / 49

Mário Cesariny / Carta do Shaman / Nomenclatura para depois do último Katun / 55

Fernando Alves dos Santos / Jogo / 56

Miguel Serras Pereira / «El Angel Exterminador» / 57

António Maria Lisboa / Quatro Poemas / 58

Mário Cordeiro / Em maio… / 60

António Macedo / «Mágico do Tempo…» / 61

Isabel de Sá / A tarde falecia… / 62

Rogério José / Viagens / 64

Manuela Silva / Apocalipse, Agora / 65

Aura Amaral / Era maio… / 66

Gabriel Bonito / À Tona de Água / 67

José Bebiano / Duas Cartas de Para Cá das Aves III / 68

Eugénio de Andrade / Rosa do Mundo / 69

Eduardo Guerra Carneiro / Ano Novo, Vida Nova / 70

Helder Moura Pereira / Claroescuro / 72

Manuel Hermínio Monteiro / Semana Santa… / 78

Joaquim de Oliveira Caetano / Três Cartas de Beja / 80

Mário Cláudio / In extremis ou elegia a Rudolph Valentino / 81

Maria Carlos Radich / Bárbara / 84

José Dinis Fidalgo / Olhos gaios / 88

Regina Louro / O carro do lixo passa às sete da manhã / 94

Almeida e Sousa / Linhas do horizonte / 98

Jorge Lima Barreto / Solo sobre Vítor Rua / 101

António Brandão Moniz / Santos Barros: poeta da minoria / 107

Evocação:

Edgar Rodrigues / José Oiticica / 111

Maria da Conceição / Ferreira de Castro / 113

Miscelânea / 114

 

Desenhos de

António Palolo, Pedro de Sousa, Mário Botas, Jean-Jacques Dauben, Ilda David, Isabel de Sá, Manuel Rosa e Graça Martins
















18.12.18

Memorabilia: Tops Música & Som


Música & Som
Ano IX
Nº 109 

Janeiro de 1986

Top de Dezembro de 1985


Música & Som
Ano IX
Nº 108 - Especial Natal 85

Novembro / Dezembro de 1985

Top de Outubro / Novembro de 1985


Música & Som
Nº 105

Agosto de 1985

Top de Junho / Julho de 1985








31.10.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (254) - Fazedores de Letras - Magazine


Fazedores de Letras

Jornal da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Mensal
Ano VII
Fevereiro de 1999
Nº 25

32 páginas A4 (A3 dobrado e agrafado) a preto e branco e com papel pesado.
Fotocopiado mas de aspecto cuidado...

Inclui suplemento musical Subcave - 8 páginas centrais, de onde foi extraído o texto abaixo.



Ficha Técnica
Direcção:
Anick Ribeiro
Francisco Amaral Frazão
Omar Dutra
Pedro Barros
Direcção de Internet:
Luís Pedro Fernandes
Grupo de Trabalho:
Ana Dupont
Ana Sofia Bacalhau
Claúdia Neves
Dália Barreto Lopes
Inês Fernandes
João Carlos das Neves Figueiredo
Luís António Coelho
Mariana Vieira
Mário Gomes
Sílvia Prazeres
Solange Cosme
Escrevem:
Artur Marcos
Eduard Fão
Francisco Frazão
José fer
Jota
Luís Pedro Fernandes
Maria João Soromenho
Patrícia Espinha
Ricardo Faria
Rui Pedro Saraiva
Susana A. R. Alves
Zé Maria

Tiragem:
5000 exemplares

Custo total do número – 372.500$00
Percentagem suportada por patrocínios e subsídios: 59,7%


Distribuição Gratuita



Hertzoskópio
Em estreia

HERTZOSKÓPIO é o nome do espaço que irá procurar, no Subcave, retractar objectivamente o horizonte da música electrónica contemporânea (erudita e não erudita).
Todos os meses serão seleccionados pelo HERTZOSKÓPIO, um ou mais trabalhos, que pelo seu conteúdo, unicidade e originalidade merecem uma análise cuidada e descritiva, visto representarem algo de incontornável dentro da facção musical em que se inserem. Serão igualmente focados neste espaço trabalhos de edição recente.
As abordagens realizadas pelo HERTZOSKÓPIO pretenderão abranger diversos motivos dentro da música electrónica, sendo exemplo disso a seguinte descrição de géneros, ou “subgéneros”, que irão, certamente, figurar em números próximos: Trip-Hop, Drum & Bass, Pós-Rock, Dub, electro-acústico contemporâneo, electrónica experimental, etc...
Neste primeiro HERTZOSKÓPIO as selecções escolhidas têm por objectivo estimular os ouvintes para as composições electrónicas criadas pelos OVAL, com o álbum 94diskont e por David Tudor, com a peça musical Rainforest Parts ! & IV.
O primeiro registo a destacar, 94diskont, foi editado em 1995 pela mille plateaux, tendo sido composto na Alemanha (Colónia) por Markus Popp, Sebastian Oschatz e Frank Metzger.
OVAL é o nome que descreve o carácter musical deste (ex)trio alemão que, através do tratamento electrónico de vários “samples”, isto é, de várias amostras de sons, consegue criar paisagens, ambientes e cenários idílicos, carregados de uma simbologia subjectiva e mística. A desconstrução do som e a sua transmutação e saturação constituem os métodos com os quais, os OVAL criam os seus sons, métodos estes que têm, essencialmente, por instrumentos o sampler e o computador (com o software adequado).
94diskont apresenta-se como sendo um convite a uma profunda e especulativa viagem pela existência. O seu primeiro tema, do while assim o sugere. Durante 24 minutos e 4 segundos temos a hipótese de apreciar uma estranha viagem por uma paisagem rica em cores e movimento, sendo particularmente interessanate entender que a complexidade da evolução melódica, ao longo do tema, é o resultado do tratamento diverso de um mesmo “sample” ou “loop” melódico. As delícias do stereo balance, evidentes com o constante despertar e aflorar de pratos metálicos electronicamente tratados ao longo de toda a faixa, serão mais perceptíveis se se proceder a uma audição relaxada e com auscultadores, o mesmo se recomendará para uma melhor audição das opacas, vaporentas e disformes ressonâncias presentes em do while.
Os restantes quatro temas, a saber store check, line extension, cross selling e do while (short version), completam adequadamente o itinerário desta turbulenta viagem. Sem dúvida que 94diskont é um pequeno grande disco (dura apenas 42 minutos e 10 segundos).
Rainforest é uma peça musical que foi originalmente criada por David Tudor em 1968 em chocorua, New Hampshire. Esta peça realizada pela primeira vez num celeiro da localidade acima referida, consistia num amplo espaço onde estariam estrategicamente dispostos e suspensos ao nível do ouvido da altura média de um adulto, vários objectos como: bidões, grelhas metálicas, madeiras várias, etc... com a particularidade de todos esses objectos estarem munidos de microfones de contacto, o que permitia a Tudor captar as vibrações protagonizadas pelo movimento no perímetro total da sala onde pessoas se movimentavam e interagiam directamente com os objectos. Ao captar as vibrações verificadas pelos objectos suspensos, através dos microfones, mesas misturadoras e de equipamento electrónico diverso, David Tudor, trabalha-as e reenvia-as para o ar criando assim um ambiente electro-acústico rico biodiversidade sonora.
Esta peça criada em 1968, foi destinada a um bailado coreografado por Merce Cunningham, tendo sido interpretada bastantes vezes pelo mundo inteiro, por David Tudor e Takehisa Kosugi. A duração da peça é de 21 minutos e 47 segundos e é a primeira faixa do cd aqui analisado.
Rainforest existe em 4 versões ou partes distintas: a primeira é a que acima referi; da segunda não existem gravações, e a terceira consistia numa actuação simultânea de David Tudor, The Merce Cunningham Dance Company e John Cage a cantar um tema de nome Mureau (um texto adaptado, por Cage, de uma imensidão de escritos da autoria de Henry David Thoreau). A quarta versão foi o resultado de um grupo de compositores nascido de um “workshop” realizado em 1973 (John Driscoll, Phil Eldstein, Bill Viola, Andre Zravic e Michael Quigly) que teve lugar no mesmo celeiro onde em 1968 teria sido criada a 1ª versão de Rainforest. Esta 4ª versão de Rainforest tem uma duração bastante extensa (aprox. 52 minutos), mas representa de uma forma diferente e inventiva a peça original de David Tudor. A descrição mais fiel a este trabalho é a que se pode ler no folheto do cd: “... it is a timeless sonic environment, full of rich textures, offering the listener an infinite variety of aural densities and spacial effects.”.
João Pinto

Discografia dos OVAL
Wohnton / Ata Tak 1993
Systemish / mille plateaux 1994
94diskont / mille plateaux 1995
Dok / thrill Jockey 1997
Distribuição Ananana

Discografia de David Tudor
Rainforest Parts I e IV / Mode records 1998
Neural Synthesis nos. 6-9 / Lovely Music 1995






26.5.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (209)



O ROCK EM PORTUGAL .... nº 1
- suplemento de um dos Pop_Clube que foram recenseados em posts anteriores
- localizado na parte traseira das páginas centrais, que eram um poster do Cliff Richard.

O ROCK EM PORTUGAL .... nº 1
por: Juvêncio Pires e Carlos Lobo


Entrevista com o grupo TANTRA

PC - Em primeiro lugar, porquê Tantra, o nome do grupo?
T - O nome de Tantra tem muito a ver com o espírito do conjunto e da música. A ideia que está por detrás do nome, é mais ou menos a nossa. É, digamos, uma forma de YOGA que era praticada antigamente na Índia, hoje em dia está praticamente morta, e que se baseia exactamente em estar num estado constante de êxtase, e que era utilizado principalmente pelas artistas, e por todos aqueles que procuravam uma forma sublimada de experiência da realidade, portanto a música é uma forma tantrica, uma forma de extase. E todo o espírito do nosso conjunto está em comunicar esse exatse, que nós tentamos conseguir em nós, ao tocarmos, comunicá-lo a todos os que nos ouvem.
PC - Vocês sempre tocaram Rock?
T - Nós sempre tocámos Rock em português, embora tenhamos dois temas em inglês, um é um tema de country, é mais um tema simbólico não representativo da nossa música, e temos um outro tema cantado em inglês (por acaso), porque a letra foi feita em princípio em inglês, e ainda não nos demos ao trabalho de a pormos em português.
PC - Vocês só interpretam música vossa?
T - Sim, e quase na totalidade portuguesa.
PC - E porquê música portuguesa?



T - Nós partimos do princípio que a lírica portuguesa serve e dá.
Sendo a música Rock universal, nós somos absorvidos por isso, e como somos portugueses, a lírica é em português.
PC - Qual é o género de Rock que vocês adoptaram, e se possível comparem a algum conjunto conhecido internacionalmente.
T - Nós estamos a procurar uma forma de Rock progressiva, isto é, no sentido em que, de termos para tema hoje uma progressão tanto em qualidade como em técnica, em riqueza harmónica ou melódica, portanto a todos os níveis. Por isso é bastante difícil, dizer que nós nos comparamos com um conjunto, ou com outro.
PC - Quais são as influências de cada um de vós?
T - António José Almeida - baterista. Não cheguei a participar no disco, no meu lugar estava um percussionista e um baterista que saíram, (Sicóio e Lindo) por razões particulares.
Sou um aluno do Conservatório, já há alguns anos, e agora estou a tentar juntar o que sei, com o que estou a aprender.
Manuel Cardoso - viola e sintetizador. Comecei pelo folk depois passei aos blues, rock, jazz, tenho também algumas influências clássicas, não há nenhuma influência específica.
Luís Silva - baixo. Tenho algumas influências de Rock.
Hermando Gama - teclas. Influências clássicas e rock.
PC - Quem compõe as vossas letras? São todos ou algum em especial?
T - Até agora têm sido o Manuel Cardoso e Hermando Gama, mas agora há mais um compositor que é o baterista.
PC - A hipótese do disco, terá sido alguém conhecido no V.C., ou foram vocês que contactaram o V.C.?
T - Fomos nós, fizemos algumas gravações e levámos ao Mário Martins, ele gostou, e apareceu a possibilidade do disco.
PC - Essa gravação vocês antevêm que seja comercial ou isso não vos preocupa como primeiro disco?
T - Nós preocupamo-nos que seja comercial, pois é isso que pretendemos, ir até às pessoas e mostrar um pouco o que nós somos.
PC - Vocês dedicam-se apenas à música? Ou estudam, trabalham?
T - Não estamos todos entregues a vida profissional de músicos. Trabalhamos 8 horas por dia.
PC - Têm alguém que vos financie?
T - Não, foi à custa de cada um de nós, que pudemos comprar uma aparelhagem que em princípio será a melhor aparelhagem dum conjunto Rock português, para podermos em qualquer sítio que formos actuar, termos o som mais aproximado do disco.
PC - As letras são em português! Isso não vos leva, apesar de ser Rock, introduzirem-se em política?
T - A vossa política é a música, nós queremos que a nossa música seja uma «ponte» que ligue tudo o que está separado, seja a que nível for.
PC - Individualmente, qual o grupo ou artista preferido?
T - Gama - Principalmente Chick Corea embora haja mais.
Luís Silva - Genesis.
Manuel Cardoso - Jimmy Hendrix.
António Almeida - Chick Corea.
PC - Vocês querem acrescentar mais alguma coisa que não tenham dito, e achem que tem interesse?
T - Sim, um apelo à malta nova, e não só. Que procurem colaborar dentro do nível de corresponderem às tentativas que há, e que estão a ser feitas, por uma certa camada de músicos.
Entrevista conduzida por: Juvêncio Pires e Carlos Lobo




Festival de Outono

Por iniciativa do grupo «PERSPECTIVA» realizou-se no Barreiro no passado mês de Outubro o 2º Festival de Outono. Com a elaboração de um programa diverso e atraente, tudo fazia antever um verdadeiro sucesso musical, um verdadeiro sucesso comercial para esta iniciativa musical: Conjuntos «Sequência», «Apolo» e «Sound Five», o grupo «Araripa e Very Nice», Paco Bandeira, o grupo Pandemónio e o grupo organizador - «Perspectiva».
Inicialmente previsto o começo para as 21H30, o espectáculo apenas se iniciou uma hora depois, com o recinto completamente «pelas costuras».
O programa abriu com uma primeira parte dançante a cargo dos grupos, «Apolo» e «Sound Five». Uma primeira parte de alegria e franco convívio. Seguiu-se-lhe a actuação de Paco Bandeira, artista muito desejado pela população daquela simpática vila, que actuou com pleno agrado.
Veio depois a «sensação» deste II Festival de Outouno, a actuação do grupo organizador - Perspectiva. Ultrapassando todas as nossas perspectivas, o «Perspectiva» provou o seu extraordinário poder de criação e interpretação demonstrando que em Portugal existem bons grupos de Rock que deveriam ser executados e acarinhados pelas nossas editoras discográficas. «Perspectiva» é um grupo sensacional, com a extraordinária particularidade de só ter interpretado composições originais e de língua portuguesa!
«Perspectiva» merece a tua atenção, leitor. O máximo da tua atenção! Eis a composição do grupo: António Manuel - viola (elemento de um poder criador maracnte), Luís Miguel - baixo, Vítor Ferrão - bateria e Vítor e José Manuel - vocais.



Esperava-se ansiosamente a actuação do grupo «Araripa» com Very Nice. Chegado que foi a altura da sua actuação, começaram a ouvir-se, pouco depois, alguns protestos que, a pouco e pouco aumentariam, chegando a atingir momentos de franco repúdio pela actuação do grupo. E porquê? Que fazia com que o público apufane um dos melhores grupos portugueses? Muito simples. A hora era já muito avançada, qualquer coisa como quatro da madrugada, por outro lado há cerca de três horas que os espectadores se encontravam sentados ouvindo Paco Bandeira e depois o grupo Perspectiva. Surgiu-lhes então um grupo interpretando Afro-Jazz o que exigia a sua atenção e concentração.
Eles desejavam neste momento como é hábito dizer-se, «desopilar»! Desejavam algo como música para dançar.
Foi assim, num ambiente de franca hostilidade que o grupo Araripa e Very Nice, demonstrando enorme clama e respeito por quem o não respeitava, actuou cumprindo o seu contrato. Por tudo isto o grupo seguinte - Pandemónio, recusou-se a actuar por concluir que a sua música não era a mais desejada pelo público presente.
Deste modo, fazendo das «tripas coração», o grupo Perspectiva teve de voltar ao palco para interpretar alguns números de dança (?). E foi a primeira vez que vimos tanta gente dançar (satisfeita!) numa colectividade ao som de músicas de Pink Floyd e Camel.
Eram seis da madrugada quando abandonámos o recinto e... a «farra» continuava!
Juvêncio Pires
e Jorge Marreiros






Saga - Homo Sapiens

Saga é o nome do grupo vocal que nos aparece como responsável pelo 33 rotações recentemente divulgado - «HOMO SAPIENS»! Mas... a verdade é que este trabalho nacional é quase da inteira responsabilidade de JOSÉ LUÍS TINOCO, homem inteligente e de uma concepção poética extraordinária. JOSÉ LUÍS TINOCO é um arquitecto, pintor, músico e compositor. Não é um desconhecido para o leitor, pois são dele algumas das canções presentes em Festivais da TV e, em 1975 «MADRUGADA», interpretada por Carlos Mendes, chegou a Estocolmo. No presente ano eram dele as composições «OS LOBOS», «NO TEU POEMA» e «NINGUÉM». Para se conhecer JOSÉ LUÍS isso não é suficiente, torna-se necessário ouvir agora este magnífico trabalho e, então sim... ficar-se-á a conhecê-lo um pouco melhor.


Falemos agora dos restantes elementos que colaboraram neste trabalho de longa duração. Ainda integrados no grupo SAGA, encontramos os nomes de ZÉ DA PONTE (baixo) e FERNANDO FALÉ (baterista); o primeiro é já nosso conhecido através da gravação de um single que surgiu no mercado em Novembro de 1975, integrado no grupo vocal - «OS AMIGOS DO ZÉ»; o segundo é o ex-baterista do agrupamento «INÉDITUS».
Passemos agora à extensa lista de colaboradores: ZÉ T. BARATA e CLARA são duas vozes que também fizeram parte do ex-grupo vocal «AMIGOS DA ZÉ»; CARLOS RODRIGUES foi um dos fundadores do agrupamento vocal - «EFE 5», pertencendo posteriormente aos «AMIGOS DO ZÉ»; JOSÉ FARDILHA e DULCE NEVES são os únicos elementos novos nestas andanças, pois não temos conhecimento que tivessem anteriormente qualquer experiência em outro grupo; FERNANDO GIRÃO (mais conhecido por VERY NICE) é um nome sobejamente conhecido que ainda muito recentemente esteve presente no Festival de Jazz de Cascais e participou no longa duração de RÃO KYAO - «MALPERTUIS»; VASCO HENRIQUES é um jovem que toca para prazer pessoal e para os amigos, o que de modo algum quer significar que seja inexperiente, é um bom músico! Finalmente aparece-nos RÃO KYAO, o saxofonista, tenor, alto e soprano e flautas. Começou a tocar saxofone em 1963 e desde 1965 que se apresenta em público. Um dos nomes mais conhecidos e famosos do novo JAZZ.



Depois da apresentação dos componentes deste trabalho, falemos agora sobre o disco em si. Que é, afinal, HOMO SAPIENS?
Não é mais que um trabalho muito bem imaginado e executado sobre o Homem. O Homem/HUMANIDADE.
Em resumo: um bom disco a adquirir sem falta. Um enriquecimento para a canção portuguesa.
Carlos Lobo





5.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (128) - Música & Som #78


Música & Som
Nº 78
Janeiro de 1983

Publicação Mensal
Esc. 100$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.


O Leitor Escreve
A Paixão Heróica Dos Anos 80
"What are we fighting for?"

Marianne Faithfull in "Broken English"
O Rock, nas suas díspares emoções, sempre se tem comportado como um movimento flexível, sujeito a amores fugazes, a modas estranhas, a ciclos destemidos, a concepções flutuantes. Quando o rock, nos primeiros anos da década de 70, se começou a disciplinar, tornando-se uma execução ritual de sons que assim haviam sido baptizados, a paixão generosa dos jovens achou-se momentaneamente órfá, sem a vocação de insubmissão que marcava o rock, como mais do que um qualquer movimento musical.
Assim, essa imagem enevoada a que ainda se chama rock (mais até por uma questão de definição), foi perdendo a inocência que os jovens movimentos loucos e nihilistas transportam. Ginsberg e Warhol, Velvert Underground e Jefferson Airplane passaram a fazer unicamente parte de um mito que alguns (já poucos) reverenciam e que a maior parte olha como se de uma cicatriz adiada se tratasse. O rock havia-se tornado uma indústria obcecada pela perfeição, gingando entre correntes amorfas e doentias (a primeira metade de 70 é de uma pobreza quase confrangedora) e opções que se identificavam com uma evolução negativa.
Quando em 1976 rebenta o fenómeno Punk, há finalmente a clara demarcação de eixos tendenciais da evolução da música. O Punk, mais do que uma sacudidela na saturação que o rock apresentava, foi uma opção, em termos de novas vias, para o percurso musical dos nossos dias. O Punk trouxe à música rock aquilo que ela há muito tempo já não conhecia: inquietação. Ignorou a harmonia, mas saudou o imediatismo rítmico. Mas, mais do que isso, trouxe-lhe o esclarecimento profissional que, curiosamente, havia sido a base de contestação sonora punk (é espantoso como um movimento que nasce nas ruas, de jovens sedentos, da recusa de tecnicistas, será hegemonizado pelos futuros tecnocratas que hoje pululam pelas maiores editoras conhecidas e dos quais Malcolm McLaren, no seu exotismo, é o mais conhecido).
No fundo, o punk estabeleceu novas opções, não só musicais, mas, fundamentalmente, traduziu-se em propostas inovadoras no savoir-faire comercial (vide as editoras que conhecem o seu salto, a Virgin e a Stiff, e a nova geração de "independentes" que se lançam no rescaldo do pandemónio punk), ao chocar com as concepções musicais dominantes nas editoras estabelecidas. Mas, a insubmissão punk (curioso como as suas "eminence grise" estão hoje no topo do universo musical britânico) durou pouco tempo. Depois disso, quase todas as bandas, estrangulando o movimento, se dirigiram para uma área bem mais frutuosa: o pop.
Não gostar, pelo menos minimamente, do som que hoje as ilhas britânicas produzem é um passo muito tentador, a que só os resignados defensores da geração hippie ainda têm a coragem de opor o dogma da nostalgia. É impossível resistir ao fascínio que emana das bandas pop de hoje e da sua ideologia (simples) de lazer e prazer. O nosso cepticismo face ao valor da simplicidade que elas nos trazem é o discurso possível para quem (como nós) se recusa cada vez mais a seguir unicamente os ímpetos racionais (não gostar) e se lança numa aproximação incómoda porque unicamente emocional (gostar). Mas isto é algo que geralmente se sente em cada meteórica pista de dança e que não ultrapassa a mera paixão idiota. Na verdade, a lírica pop é insípida e o seu imediatismo musical é esquecível a curto prazo. As suas propostas sedativas são trabalho excelente de produtores (Trevor Horn, Martin Rushent) e, cada vez menos, de músicos. Mas, as correntes pós-punk a que a sua raiz ainda consegue dar uma consistência mínima, debatem-se hoje com o pavor quase chocante de serem ultrapassados pela Moda. No fundo, na sua renovada arqueologia de um exotismo esclarecido, caem (ressalvando as diferentes causas e efeitos) nos erros que os esforçados (mas pouco convincentes) defensores do paradigma hippie também caíram: o serem ultrapassados pelas circunstâncias.
A crise, apesar de tudo, é visível, mas as distracções são ainda mais evidentes. Hoje já não se mete em questão a problemática da vanguarda musical e o pop é antes vocacionado para receber juízos apressados. Gosta-se e gasta-se. E é isso: crítica de música hoje (assim como o consumidor) já não pensa o que ouve (apenas julga que ama). Mas o nosso amor compreende, hoje, um período bastante restrito. O pop é de tal maneira efémero que surpreende como os discos vulgarmente designados de importantes se sucedem vertiginosamente nos nossos pick-ups. Hoje, a originalidade é algo que se procura incessantemente, através de rasgos de exotismo, geralmente desastrosos (vide os Modern Romance ou os Blue Rondo à la Turk). Felizmente, nos últimos dois anos, surgiram algumas propostas que ultrapassaram a banalização de sons gerada pela secura de opções com que se debatia o rock: o caso da Joy Division, dos Specials, dos Young Marble Giants ou, agora, de Rupert Hine, Peter Gabriel, Durutti Column, New Order ou Dexys prova que ainda existe encanto inovatório. O que não deixa de ser reconfortante...
Porque, não nos iludamos, o rock, hoje (sobre)vive através de um novo paradigma: a venda. Mas nem por isso é correcto falar apressadamente (e pejorativamente) de "comercialismo". O sempre honesto Kevin Rowland dizia, recentemente, que dava entrevistas porque estas eram razão sine qua non para vender os seus discos e que continuara  trabalhar para meia dúzia de iluminados não valia a pena, já que era necessário que todos conhecessem os seus trabalhos (e todos sabemos que assim deveria ser). O comercialismo tem sido um tabu que artistas (geralmente falhos de imaginação) sempre t~em combatido. E outro tabu, não menos incrível, é o da defesa das editoras independentes. E ambos têm servido enquanto alibi vulgarmente chamado de ideológico.
Tomemos o caso das "independentes" britânicas: a sua táctica é simples (descrevia há tempos um dos seus homens de ponta: uma mistura de Marx - analisar as movimentações de infra-estrutura - e de Maquiavel - como conseguir os tops e lá se manter). No fundo, muitos dos discos das independentes (vide Joy Division, Depeche Mode ou Yazoo!) vendem mais que os das grandes editoras (o único óbice é sua entrada nos tops normais é o sítio onde vendem). Ora, se se seguir a lógica (sedutora e, ainda que nos custe, correcta) de que tanto se suja as mãos com lucro, seja este muito ou pouco, vale mais aderir às grandes editoras. As "independentes" têm assim funcionado como verdadeiros indicadores de mercado, conseguindo lucro onde e como as "gtrandes" nunca conseguira (devido à sua estrutura burocrática e pouco adaptável a conjunturas que as ultrapassem), devido à sua elasticidade num mercado móvel como é o actual (ao contrário do que havia sido no período anterior à revolução punk). As linhas de força da compreensão do fenómeno rock residem hoje em como vender (segundo os modelos tradicionais ou segundo os alternativos) e em fazer produtos que resistem ao tempo, como abstracção possível da moda que hoje nos submerge. E é só isso que conta.
Dizia Malcolm McLaren que "um homem que se senta no seu escritório, vendendo discos, não é um homem muito criativo". E nós, pragmaticamente, não podemos deixar de concordar.
Fernando Almeida Sobral



Concerto de Peter Hammill
Para Além De Todas As Palavras

por Ana Rocha
Fotos: José Tavares

Há nomes que nunca mais se esquecem. Há figuras que se libertam da lei do esquecimento, pela qualidade das obras que transportaram a sua chancela. Peter Hammill faz parte desse Panteão de Heróis. Distancia-se do grupo de funcionários que faz música para vender, para entreter, para se escutar enquanto se deglute o almoço no snack. A sua música exige uma concentração total. Não é possível estar a ler um livro enquanto se escuta os VDGG. Uma actividade exclui a outra. Opta-se. Impreterivelmente.
Fazendo progredir a sua música, extirpando-lhe arremedos sinfónicos, Peter Hammill, muito inteligentemente, constrói música dos anos 80, mantendo-lhe no entanto uma dimensão muito pessoal (quase mística), sem ceder a modas e tendências de momento. É actual e moderno sem estar na moda. Soube terminar os VDGG num momento em que tal decisão se impunha. Soube encetar uma carreira a solo sem recorrer aos conceitos expressos nos LPs dos Van Der Graaf Generator.
O último concerto de Dezembro foi o seu. A temporada de 82 fechou-se com chave de oiro.
Milhares de adeptos dos VDGG e de Peter Hammill reuniram-se no Pavilhão de Alvalade para escutar ao vivo um dos mais interessantes músicos destes últimos 12 anos. E não saíram desiludidos. Interpretando temas dos seus três últimos LPs (PH7, Sitting Targets e Enter K), acompanhado por dois ex-Van Der Graaf Generator - na bateria Guy Evans, um veterano, e no baixo Nic Potter - e por um terceiro elemento vindo dos lados de Peter Gabriel, o guitarrista John Ellis, Peter Hammill agarrado à sua guitarra, seca e nervosa, envolto numa camisola com o Frank Sinatra gravado, a todos envolveu na sua aura de mistério e emoção, atingindo momentos de verdadeiro delírio num Pavilhão cheio de adeptos e convertidos. Três calorosos encores - por exigência do público, que nestas coisas, manda - terminaram uma actuação límpida e grandiosa.
A primeira parte foi preenchida pela actuação da Lena D'Água & Banda Atlântida, que, em tempo breve, interpretaram seis dos seus temas mais conhecidos do público. Deu direito a um encore.







Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. artigo sobre os Magazine, de autor não identificado
. artigo / coluna: Prosas de Fogo e Água - "O Rock e a Droga: Elogio do Quotidiano (2ª parte)"
. Discos em Análise:
.. The Durutti Column - «LC» [Factory VFACT 111-18], por Carlos Marinho Falcão
.. Kate Bush - «The Dreaming» [AMI IIC 078 64589], por Manuela Paraíso





4.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (127) - Música & Som #75


Música & Som
Nº 75
Setembro de 1982
Publicação Mensal
Esc. 100$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lsª
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4
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interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.



Entrevista Com Os Durutti Column
por: Ana Rocha

Suaves Revoluções




Bastante antes da sua actuação, já Vini Reilly (guitarrista, teclista e responsável por todos os temas) e Bruce Mitchell (baterista) se passeavam pelos bastidores do palco montado em Vilar de Mouros. Tony Wilson, o patrão da Factory, e o manager da Coluna de Durutti seguiam constantemente Vini, um jovem enfezado e tímido, de pequeninos olhos azuis, enfiado numas colossais pantalonas de ganga, nervoso e pálido. Bruce Mitchell, um quarentão jovial e jocoso, procurava garrafas de vinho nacional à falta de melhor. Só no dia seguinte é que conseguiria arranjar umas ervinhas muito procuradas pelos agentes da Judiciária.
Depois de muita insistência junto do manager de Vini Reilly, conseguimos que ele se sentasse a um canto. Vini não parecia contrariado ou enfadado por ir dar uma entrevista. Mostrava, sobretudo, um certo alheamento relativamente ao que se passava à sua volta.

M&S - Gostava que falasses sobre a parte inicial da tua carreira como músico, antes de Durutti Column.
Vini Reilly - No início eu fiz parte de uma banda que se intitulava The Noise Please. Trabalhei em programas de televisão. Fazia música de filmes. Foi por essa altura que eu conheci o Tony Wilson. Eu já tinha ideia de que a música pop passava por um momento de crise, que a indústria tinha tomado conta dela e que a tinha totalmente destruído. O pop tinha-se tornado num verdadeiro negócio. Não valia a pena ser tocado. E eu comecei a sentir-me tremendamente deprimido. Tive de passar a depender de comprimidos. O médico receitava-me imensos. Eu sofro de falta de apetite e o médico que me acompanhou é de opinião que os comprimidos de LSD estimulam os aminoácidos. Portanto eu tenho autorização de consumir desse tipo de coisas, com receita médica. Entretanto, o Tony viu que a música me podia safar desse estado depressivo e pensou que seria bom eu formar uma nova banda. Depois de muita hesitação, finalmente concordei em reunir um guitarrista, um baixista e um baterista. Começámos a trabalhar e comecei a notar que eles tinham a mania que eram estrelas. Eles insistiam no seu estatuto de estrelas e eu resolvi abandonar o grupo. Escrevi um bilhete ao Tony Wilson a informá-lo desse facto. Mas o Tony veio ter comigo e disse-me que estava interessado em trabalhar comigo e não queria nada com os restantes elementos da banda. Despediu-os e fiquei eu.
M&S - Isso aconteceu por volta de 1979.
Vini Reilly - Pois. Eu já estava a escrever pequenas composições. Mas como o punk e o Malcolm McLaren estavam na berra, o Tony e eu pensámos que seria pouco correcto lançar um álbum de temas muito suaves, com música de piano, tudo muito doce.
M&S - O Malcolm McLaren teve alguma coisa a ver contigo?
V.R. - Ele sempre teve umas ideias muito concretas sobre a situação que se estava a viver no momento. Ele era situacionista.
M&S - E que é que isso teve a ver contigo?
V.R. - Basta dizer-te que escolhi o nome Durutti Column em homenagem a um tipo que era anarquista e que foi abatido por volta de 1920; chamava-se Durutti, claro.
M&S - E isso quer dizer que os Durutti Column são anarquistas?
V.R. - (sorrindo ligeiramente) - Não somos activos...
M&S - Essa medalha que trazes pendurada ao peito o que representa?
V.R. - Deu-ma a minha irmã no dia dos meus anos. É uma moeda antiga. Dum lado tem o signo e do outro tem a efígie do rei.
M&S - Porque motivo andas com a imagem do rei pendurada ao peito? Isso tem a ver com qualquer posição a favor da monarquia?
V.R. - Não quero responder a isso.
M&S - Como é que foi gravado o teu LP?
V.R. Eu não queria pactuar com a indústria discográfica. E ia fazendo os meus temas, distanciado dela. Aliás penso que a indústria discográfica é verdadeiramente patética. Já levava para o estúdio cerca de trinta temas acabados, e em apenas duas sessões, o álbum ficou pronto. O Tony e o Martin Hannett decidiram quais é que eram os temas adequados.
M&S - Tencionas voltar a trabalhar com o Martin Hannett?
V.R. - Não. Quero ser eu a produzir os meus trabalhos. Não quero mais nada com ele em termos de produção. Sou eu o único responsável pelos temas dos Durutti Column. Sou eu que componho, interpreto, toco todos os instrumentos, escrevo as letras...
M&S - E o Bruce Mitchell?
V.R. - Ele faz a parte da percussão e da bateria. No palco só estamos nós os dois. Eu ando dum lado para o outro a tocar os restantes instrumentos.
M&S - Quais são os teus planos para já?
V.R. - Eu estou a escrever música para alguns filmes de televisão. Durante cinco semanas vou-me dedicar a isso e depois vou preparar o meu novo álbum. Vai ser totalmente diferente do que aquilo que tenho feito até agora. Mas os temas continuarão a ser muito pessoais. Vou tentar aventurar-me mais, sendo menos tecnicista.
M&S - Sentes muita necessidade de criar, de escrever música? Isso liberta-te da tua depressão?
V.R. - Eu penso que compor música é a única justificação que eu encontro para continuar a viver. Acho que, a todos nós são dados uns tantos anos para fazer alguma coisa, para viver. E eu tenho que justificar a minha existência. Eu vejo que as pessoas que me rodeiam, a sociedade em que eu vivo nada faz para merecer viver. Eu sinto necessidade de fazer coisas.
M&S - Gostas mais de actuar em Inglaterra ou em países que não sejam de expressão inglesa?
V.R. - Penso que é um desafio maior vir tocar para pessoas que não conhecem a minha música. Em Inglaterra, a imprensa procura dar cabo dos grupos. Passam a vida a aborrecer os músicos. A imprensa cheira mal, tresanda... E esquece-se que, apesar de todas as críticas que ela produz, os discos continuam a vender-se. A indústria discográfica está corrupta. É necessário empreender uma revolução para alterar o estado das coisas.
M&S - E os Durutti Column estão dispostos a estar na vanguarda desse movimento revolucionário, a fazer a revolução?
V.R. - Estamos preparados para o fazer de uma maneira muito suave, muito calma.
M&S - Encontraste uma boa recepção na América?
V.R. - Fiz concertos em Boston, Nova Iorque, Toronto e Montreal e posso afiançar-te que fiquei agradavelmente surpreendido com a boa recepção que por lá tive. Poucas pessoas conheciam a minha música e no entanto reagiram muito bem.
M&S - Preocupa-te o tamanho do recinto onde actues? Preferes actuar em salas pequenas ou grandes?
V.R. - Para mim, não interessa nada o tamanho do recinto onde actuo. Depende das músicas que interpreto. Se vejo que há mais público a encher a grande área, recorro a um material mais excitante. Principalmente se noto que as pessoas estão a impancientar-se...
M&S - Tens alguma preferência relativamente à música que se faz na Grã-Bretanha?
V.R. - Há centenas de grupos que não são comerciais e que fazem boa música. Eu tive a sorte de me encontrar com o Tony Wilson e de poder gravar a minha música. Há muito mais pessoas criadoras que ainda não tiveram essa chance. Ouço os A Certain Ratio, por exemplo... mas não ouço muita música desta que se faz actualmente... Ouço aquele material maçador (That boring stuff) do Tchaikovsky... do Benjamin Britten... Isto que eu estou a dizer pode parecer preconceituoso, mas, na realidade, eu tenho muita dificuldade em concentrar-me e não escuto muito a música que os outros fazem.
M&S - Quando sobes para o palco, sentes-te deprimido?
V.R. - Durante 50 minutos, esqueço o meu estado de espírito, a depressão.

Vini parecia fatigado. Afastámo-nos para tentar encontrar o acompanhante, Bruce Mitchell. Não tardou muito que o mesmo estivesse sentado no mesmo sítio onde, meia-hora antes, tinha estado Vini. Bruce pareceu estar com vontade de falar e de contar histórias. Aqui estão elas.



M&S - Sabemos que tu também tens trabalhado com o grupo Alberto & Los Trios Paranóias. Como é, trabalhar em dois grupos tão diversos?
Bruce Mitchell - São dois estilos completamente opostos. Mas eu, essencialmente, acredito no talento, nas pessoas que o t~em. E tenho estado a trabalhar com o Vini de há um ano para cá.
M&S - Preferes trabalhar inserido nos Durutti Column ou nos Alberto & Los Trios Paranóias?
B.M. - Não sei fazer a escolha, porque são dois estilos completamente opostos. É como estar a trabalhar em dois mundos diferentes. Eu «sou» duas pessoas, mudo de personalidade. Estou sempre a trabalhar em duas esferas opostas.
M&S - Que pensas da vossa vinda a Portugal?
B.M. - Eu já vivi em Portugal há cerca de 12 anos, durante três meses, integrado num grupo, The Flame. vivi em Cascais. Adoro a comida portuguesa. E o vinho!
M&S - Como é trabalhar com o Vini Reilly?
B.M. - Penso que isso constitui um desafio muito grande para mim, dado que o Vini é um grande estilista. Nunca sei qual é a nota que ele vai tocar a seguir. E penso que nem ele próprio sabe o que vai tocar! É perfeitamente imprevisível! É a mesma sensação que eu teria se estivesse com o Ravi Shankar!!! Mas tu já topaste como é o Vini? É um tipo cheio de piada! Reparaste nas calças que ele traz?!!!
M&S - E como era trabalhar com o Alberto & Los Trios Paranóias?
B.M. - Eles são completamente chanfrados! Totalmente! São giríssimos! Já fizemos uns shows para a televisão, em que entrou também o lunático do John Cooper Clark e asseguro-te que os espectáculos foram bizarrissímos!
M&S - O Alberto já morreu há uma data de tempo, não é?
B.M. - Há cerca de três anos. Morreu com um cancro. Ele sabia que ia morrer e nas últimas semanas de vida foi visitado no seu quarto do hospital por uma data de celebridades... O Elvis Costello... o Ian Dury... muita malta da Stiff... E quando foi o enterro?!!! Então aí é que foi o fim da picada! Foi enterrado nos montes dos Peninos. O cemitério ficava no topo do monte e tivemos de transportar o Ian Dury até lá acima numa padiola! Estava um frio danado! Nevava! E agora vamos lá todos os anos dançar sobre a tumba! Nunca me diverti tanto num funeral!! Estavam montes de pessoas conhecidas! E o Alberto, como não gramava o padre e já esperava um discurso fúnebre viciado, resolveu fazer um elogio fúnebre e um comentário que depois entregou ao padre, exortando-o a lê-lo durante as cerimónias do enterro. E esse discurso fazia críticas à malta que estava presente, dava agradecimentos e cumprimentos a outros... enfim... aquilo foi um verdadeiro pandemónio! E quando ele estava no hospital, o Ian Dury foi lá para lhe cortar o cabelo! Ai, aquele Alberto!...

Já estava quase na hora da actuação. Bruce Mitchell revelou ser o oposto de Vini Reilly. Mais comunicativo, mais brincalhão, sempre com piadas na ponta da língua, com histórias mirabolantes resultado de uma longa carreira no interior do show-business, muitos contactos com vários grupos, muitos anos como baterista. Ao longo do espectáculo, era o contraponto do sisudo e alheado Vini Reilly, sempre com o sorriso nos lábios. Eis uma das facetas dos Durutti Column, uma banda verdadeiramente genial, com um mentor jovem como Vini a brindar-nos com as suas efusões musicais.



Vilar De Mouros 82:
Estranhas coisas.
Estranhos lugares.
Estranhas gentes!


Do nosso enviado especial Carlos Marinho Falcão
Fotos: Luís Ramos

«Loucura! Loucura! Loucura controlada... sem medicamentos... sem camisas de força! Loucura controlada pela vossa inteligência e pelo amor! Adeus, adeus... obrigado, obrigado!...»
Com estas palavras épicas, sem dúvida, se declarou averto o festival de Vilar de Mouros de 82, pela voz do dr. Barge, essa mistura deliciosa de português à moda antiga e de louco sem idade. Eram cerca de 22.30 e o público começava a impancientar-se...

Entre coelhos e estranguladores

Um riozinho mimoso, uma meiguice bucólica, uma paisagem campestre subitamente invadida por uma estranha romaria. Bonito e curioso, um painel cheio de contrastes - porreirinho. Sobre o palco, finalmente, Echo & The Bunnymen, a bandazinha deliciosamente atormentada de Ian McCullogh e, presentemente, uma das minhas favoritas. Não desiludiram, os Bunnymen. Capazes de transpor para o palco todo o ambiente impetuoso e lírico dos seus trabalhos em disco, eles foram justamente os primeiros heróis do festival e, como a seguir veremos, talvez os únicos da noite.



Vital e expressiva, caudalosa e explosiva, a música dos Bunnymen em Vilar de Mouros foi capaz de criar toda uma ambiência sonora, cardíaca e impetuosa, arrebatadora e empolgante, conducente directamente ao coração da festa, ao centro da paixão, à sístole e à diástole do corpo em estreita comunhão com a terra e o céu. Concentrado e conciso, tímido e neurótico, Ian McCullogh foi o mestre de cerimónias. Por vezes, o charme demasiado vivo, embora fugaz - quase sempre a melancolia. Belo e sedutor. Não faço ideia que tragédias perseguem McCullogh para este se embrenhar daquela maneira nos seus indecifráveis tormentos interiores, mas é o espectáculo que aqui importa e, como espectáculo, é indubitável que a coisa resulta. Com uma fluidez onírica feroz, caóticos e introvertidos, quase todos os temas de «Crocodiles» e «Heaven Up Here» desfilaram perante um público dividido e impaciente, já com um olho posto nos Stranglers, tidos a priori como as grandes estrelas da noite. Puro engano. E, sobretudo, uma atitude injusta para com a banda de McCullogh, que, em Vilar de Mouros, demonstrou ser, na verdade, uma das mais interessantes do rock actual.

Recebidos com pompa e circunstância de superstars, os Stranglers acabaram por ser a grande desilusão da noite. Para eles, de facto, a hora da retirada estratégica parece ter soado. Os lançadores de anátemas, sem dúvida arrefecidos pelos incidentes numerosos com a Polícia ao longo da sua carreira, acalmaram-se. Pelo menos na aparência. Terminada parece estar a época dos concertos/happening, da algazarra tempestuosa. Agora, as palavras-chaves são o rigor, a frieza, a distância. Estranguladores estrangulados pela perfeição formal. Nada de notas deslocadas, uma presença minimal, relâmpagos sóbrios e fugazes de quatro personagens que se apagam humildemente (?) por detrás da sua música. Uma sensação de ausência. Demasiado aplicados na recriação perfeita do som dos sues últimos discos, os Stranglers tornaram-se glaciais, límpidos e indiferentes como a virtude. Negligenciando todo o sentido de dinâmica, em Vilar de Mouros os temas seguiram-se uns atrás dos outros todos semelhantes, sem qualquer subida ou descida de tensão, como que apontados a um alvo (qual?) como a flecha de um arqueiro zen. Autores festejados de uma música feia, o belo-horrível por excelência, em Vilar de Mouros eles não passaram de uma desilusão. No fim, a sensação amarga de nada se ter passado. Nada. A não ser que se trate de uma nova maneira de provocar. Mais subtil...



A Importância de Ser Zé Pereira

Por mais herética que passa ser esta afirmação, não me parece ter sido Vilar de Mouros o lugar ideal para um concerto clássico - pelo menos para aquele concerto clássico. No fundo, sob a capa de uma convivência entre tradições musicais e públicos diferentes reunidos num espaço comum, o que se passou, em parte, foi a simples transposição da ambiência geral de uma sala de concertos tradicional para o campo, para o ar livre.
Neste sentido, se não deixou de ser interessante apreciar o contraste cómico entre a casaca de Vitorino de Almeida e as fatiotas sem dúvida peculiares dos Claudius Qualquerius do rock, forçados ali, um pouco contra-natura, a curtir uma de clássica; se não foi menos interessante notar como essa mesma casaca contrastava com a poeirada que se erguia no ar e nos impestava a todos de alto a baixo, o certo é que, se não fossem os Zés Pereiras, os seus tambores, o seu ritmo, a sua exuberância contagiante, tão próxima do rock, afinal, talvez nos tivéssemos todos limitado a caricaturar o S. Carlos, o S. Luís ou a Gulbenkian, numa paródia burlesca a uma verdadeira convivência entre géneros e tradições musicais diversas, obviamente desejável. E depois, aquela sinfonia (des)concertante!...

A terminar, uma referência muito especial a uma curiosa intervenção de Jorge Lima Barreto (incansável no seu linguajar típico, ao longo de todo o festival...) ao microfone: «Isto que está a acontecer é importante, porque prova que o público não está aqui só para o rock, tem sensibilidade...» Querendo apesar de tudo acreditar não ser isto, exactamente, que ele queria dizer, não deixou de ter piada o dichote. Pela parte que lhe cabe, o rock agradece. Mais que não seja, por uma questão de sensibilidade...

Os Anti-Heróis

Suponho que com o objectivo - muito válido, certamente - de divulgar a cultura do Minho e a sua música, se incluiu no programa a desfolhada à minhota. Só que, efectivamente, aquilo não resultou. Não resultou, porque não podia resultar num palco daqueles, com aquelas luzes, naquele ambiente muito mais virado para outro tipo de acontecimentos. Não quero com isto dizer, atenção, que não fossem de incluir no programa diversas actividades directamente relacionadas com a cultura da região. Pelo contrário, seria até desejável que esse aspecto fosse incrementado já no próximo festival (se houver...), em 84. Mas, definitivamente, não àquela hora, com o público muito mais motivado para outro tipo de música! E, sobretudo, nunca durante duas horas! Desfolhadas à minhota, grupos folclóricos? Por que não durante o dia, como forma de preencher o tempo que, desta vez, as pessoas passaram sem qualquer tipo de ocupação? O mesmo, aliás, se poderá dizer acerca da música clássica. Mas não sinfónica, por favor! Amplificada, medonha - naquele lugar impróprio...

Uma vez desfolhada a espiga, vieram os The Gist - uma banda originada a partir dos defuntos Young Marble Giants. Os anti-heróis, por excelência. A fusão inteligente, ingénua e original do músico com a electrónica, aqui claramente posta ao serviço do homem e não o contrário. Uma experiência curiosa, uma música estranha e bela na sua ornamentação frágil e em metamorfose constante, The Gist foram em Vilar de Mouros a recusa do supérfluo, a provocação atrevida. Sublimes no seu delicioso «crew cut», rapazitos malandros fascinados pela electrónica e procurando tirar dela o melhor partido, eles foram, sobretudo, o escândalo de Vilar de Mouros, diante de um público que nunca conseguiu digerir muito bem aquele gravador «pespegado» mesmo à sua frente, bem no centro do palco. A sua música: um complexo rendilhado elaborado a partir de esquemas rítmicos muito simples, melodias banais a fazer lembrar os bailes de sábado À noite num qualquer clube de bairro, apontamentos melódicos breves, subtis e entrecruzados, acumulados em redor de um tema base. Nada daquilo tem o aparato megalítico do rock, de um certo rock. Ausentes de espectacularidade. The Gist terão sido a primeira grande surpresa de Vilar de Mouros. Apesar da discordância do público...

Você Também?

Pondo de lado a inútil e despropositada tirada antifascista de Vitorino de Almeida (outro incansável do linguajar fácil em Vilar de Mouros), a noite de terça-feira começou com a actuação banal da Orquestra (!?) Mikis Theodorakis. Entoando umas melopeias ditas de intervenção, melodias de sempre para antifascistas, a referida Orquestra (!?) sumiu-se da mesma forma como apareceu - ninguém deu por isso.
Após a actuação relâmpago de Carlos do Carmo, que afirmou estar em Vilar de Mouros com propósitos inteiramente pacíficos (numa brilhante tirada que comoveu toda a assistência), os Jafu'mega foram a primeira banda portuguesa a subir ao palco, dada a ausência dos Heróis do Mar no primeiro dia. Baseando a sua actuação essencialmente em temas do seu segundo álbum, os Jafu'mega revelaram-se aquilo que realmente são: uma banda dotada de músicos de boa craveira (com especial realce para o guitarrista Mário Barreiros - estupendo! - e para Zé Nogueira, no sax), fazendo uma música cuidada, uns quantos furos acima do que é comum nas chamadas bandas de «rock português». Criando um som aqui e ali a fazer lembrar os Police (talvez devido ao timbre vocal de Luís Portugal), no final a banda foi fortemente aplaudida, culminando-se assim uma actuação de mérito, um espectáculo dignificante.
Finalmente, a coqueluche da noite, o primeiro momento verdadeiramente alto do festival. No palco, U-2, uma banda cujo primeiro trabalho - «Boy» - se encontra editado em Portugal, embora esgotado.
Pretendem as más línguas que os irlandeses dos U-2, não são os novos Boomtown Rats, mas antes os novos Taste (lembram-se de Rory Gallagher?). Bono (o cantor) não será, talvez, o monstro do palco que ele sempre sonhou ser. The Edge (guitarrista) não é ainda Tom Verlaine, mas, não obstante, os U-2 trazem consigo o expressionismo, a potência inquieta e o lirismo negro capazes de dar um nome decente ao heavy-metal. Isso mesmo, ao heavy-metal.



Porque os U-2 são um caso único. O que é que eles tocam afinal? Qual o género em que se enquadram? Nenhum. Em todo o caso, não é nem novo nem moderno. Vestem-se como se estivessem em casa e tocam os seus instrumentos como se o mundo deixasse de existir à volta deles. Um grupo sem imagem, «Gloria», «Rejoice», «Fire» - três avalanches sonoras condensadas e envolvidas num lirismo elementar. Rod Stewart cantava assim, quando não era ainda o borregão ridículo que hoje é. Obcecada pelo público, a banda rapidamente se torna imbatível no palco: uma voz que fere e emociona, guitarras que inundam, um ritmo diabólico que vibra até à saturação. Optimistas e emocionantes, os temas vão-se sucedendo, entrecruzados de intenções por vezes ingénuas de delicadeza e meiguice. Guiando-se exclusivamente pelo instinto, é como que a um público virgem de toda a cultura rock que a banda se dirige em primeiro lugar. Um público autêntico, capaz de reagir também por instinto, por intuição. Lá, onde outros grupos se apoiam nos truques mais corriqueiros para impressionar e cativar o público, os U-2 surgem-nos armados apenas de uma honestidade humilde, desmunida, ingénua, mas cem por cento eficaz. O som: maciço, épico, cheio de souplesse e energia. Há nesta banda o mesmo deslumbramento do circo. Pequenos grandes truques como «ladies and gentlemen and now, the great!... Bono». E Bono, levado pela densidade empolgante de todo aquele ritmo explosivo, erguido no ar pela guitarra dilacerante e enorme de The Edge, vai aos poucos, através do seu lirismo instintivo, subjugando a multidão - sem se dar por isso, com uma dignidade natural, diluindo-se progressivamente no fluxo sonoro, por vezes para o exaltar, outras, em contraponto, para o «apaziguar», através de uma inflexão violentamente interior. Em suma, foi este vaivém instável, este desequilíbrio eléctrico e pungente que fez da música dos U-2 em Vilar de Mouros uma das mais combativas, persuasivas e atraentes apresentadas ao longo do festival. Uma música unidimensional, sem dúvida, mas, sobretudo, visceral.
Johnny Copeland veio a seguir. O blues do Texas. Apesar do êxito retumbante dos U-2 pouco tempo antes, não foi difícil a este bluesman soberbo agarrar o público, chamá-lo a si. O blues. Sempre o bom velho som cadenciado, aqui e ali a resvalar para o rythm'n'blues, um piano discreto mas tão rigoroso como eficaz nas suas intervenções breves e incisivas, uma guitarra tocada com a alma, uma voz quente, audível até ao pormenor. O blues de Johnny Copeland pode ser escutado como um longo apelo arrancado à alegria e à tristeza, à dor e à melancolia, qualquer coisa langorosamente sensual apontada directamente ao centro da paixão. O homem tem estilo, uma dignidade negra muito especial, cheia de humor e savoir-faire. Enfim, Johnny Copeland: a continuação desejada para o caminho anteriormente aberto pelos U-2. Musicalmente, Vilar de Mouros vibrava verdadeiramente pela primeira vez. Felizmente não seria a última...



Jazz, Jazz, Jazz...

Finalmente, o jazz. Após a ausência forçada e um tanto inesperada dos Old & New Dreams, que, dois dias antes, deixara muita gente desiludida, chegara o momento de destemperar as orelhaças com outras sonoridades, outras estéticas.
O quarteto de Saheb Sarbib foi o primeiro. Com Paul Motian (bateria), Joe Ford (sax soprano) e Booker T (sax tenor), além do próprio Saheb Sarbib no contrabaixo, estes quatro músicos encheram o recinto com uma música rigorosa, um trabalho interessante e homogéneo, com alguns momentos de rara beleza e emoção. Sarbib e Motian: o diálogo perfeito, a malha complexa e subtil sobre a qual os dois saxofones iam construindo quer em dueto, quer a solo, pequenas e (por vezes) maravilhosas viagens melódicas, gemidos orgásmicos gritados cá de dentro (Booker T, principalmente, com apontamentos notáveis nos agudos), ou, pelo contrário, doces melodias coloridas e rendilhadas, tristes e melancólicas, desenhadas com a mestria ímpar de 4 músicos acima de qualquer suspeita. No todo, um jazz muito certinho, sim, mas mais pela qualidade de cada um dos músicos individualmente considerados, do que, propriamente, pelo rasgo inovador, o tom de ruptura, o toque impetuoso da música interpretada pelo grupo. Em suma, quatro músicos de craveira técnica muito acima da média e uma música escorreita, rigorosa, feita sem grandes alardes, mas, ainda assim, recheada de pequenas pe´rolas, momento privilegiados, instantes compensadores. Uma abertura boa quanto baste, enfim, para a noite de quarta-feira...



Rão Kyao foi, sobretudo, uma vítima das circunstâncias. Abstraindo-nos agora de quaisquer problemas havidos com a organização, sucedeu ter sido no momento da sua actuação que ocorreram os incidentes junto da paliçada, com o consequente desvio da atenção de grande parte do público para outro tipo de acontecimentos protagonizados pela GNR e por algumas dezenas de indivíduos que tentavam - e conseguiram - entrar sem pagar, derrubando a paliçada. Talvez por essa razão e também pelo tipo de música tocada, a actuação de Rão Kyao's Goa foi, no seu todo, bastante apagada. Faltou atenção e disponibilidade por parte do público; faltou a Rão Kyao capacidade para (re)conquistar esse mesmo público. Talvez o tipo de música escolhida para o concerto não fosse o mais indicado para aquela ocasião - em que se pediria, talvez, qualquer coisa mais «Swingante», mais festiva. É uma hipótese...
A actuação da Anar Band acabou por não ser mais feliz do que a de Rão Kyao, embora por motivos diferentes. Pomposamente fantasiada com o epíteto de «música de vanguarda», espalhafatosa na sua apresentação, aparatosa na sua redundância, no final, apenas a sensação vaga de nada ter sucedido. Tal como com os Stranglers, a sensação de vazio, de inutilidade, de uma vanguarda vã e fútil submersa e perdida nos meandros da sua auto-indulgência. Como contrapartida positiva, dois aspectos: os diaporamas projectados pelo grupo Neon - sensacionais, sem dúvida! - e a soberba actuação de Vítor Rua, no baixo, fazendo-nos amiúde esquecer o papel essencialmente rítmico normalmente desempenhado por este instrumento. Um acabou por ser só por si o motivo porque a Anar Band não teve um débito de fracasso ainda maior em Vilar de Mouros.
Por fim, e a culminar uma noite apesar de tudo positiva em termos musicais, um dos momentos mais ansiosamente esperados de todo o festival: a actuação da Sun Ra Arkestra.




A primeira conclusão a tirar é: não é possível rotular esta música, porque ela, simplesmente, foge a qualquer tipo de etiqueta. De Ellington a Count Basie, passando, sobretudo, pelo free: tambores africanos e o sax epiléptico de John Gillmore; bailado de influências ocidentais (um pouco desenquadrado de toda aquela euforia negra) e um dançarino capaz de recriar em cada movimento todo o mistério do sentir africano; por fim, a culminar, uma maestro fabulosamente negro (Sun Ra), um Gungunhana do palco, um músico que, não obstante a obesidade, acaba por ser ainda mais escorregadio que uma enguia. Eis a Sun Ra Arkestra: um espectáculo musical e uma cerimónia litúrgica. Uma forma fabulosa de entretenimento e um jazz que, englobando os mais diversos estilos, acaba por ser em si mesmo um estilo. Único. Cíclico. Fechado em si e, simultaneamente, aberto a todas as influências, não simplesmente para as reproduzir, mas, muito pelo contrário, para as recriar e incorporar no todo único e autónomo que é a Sun Ra Arkestra - um ritual pagão transposto para o palco (o altar), em que o público, mais do que nunca, é assumido como um instrumento activo do que se está a passar em palco. Uma música panteísta, uma maestro tirânico, uma enxurrada deliciosamente caótica de música tribal, de simples, primordial e excitante música tribal, o concerto da Arkestra foi a chave de ouro com que se encerrou Vilar de Mouros em termos de jazz.




A Beleza Do Silêncio

Após os episódios pitorescos de quinta-feira (invasão pacífica do palco por alguns elementos do público), que puseram mais uma vez em destaque a fragilidade da segurança (chamar àquilo segurança é já um eufemismo), sexta-feira chegou e com ela a promessa de mais rock, afinal o prato forte deste Festival de Vilar de Mouros 82.



Contratados à última hora por razões obscuras, os Renaissance vieram a Vilar de Mouros demonstrar que, apesar de fora de moda, o chamado rock sinfónico ainda reúne muitos adeptos em Portugal. Fazendo uma música que integra elementos clássicos com algumas influências folk, possuidores de um som personalizado e forte todo ele construído em volta de Jon Camp (baixo) e da voz magnífica de Annie Haslam, os Renaissance podem, na verdade, não ter deslumbrado, mas certo é que também não desiludiram. Com uma actuação bastante fria a princípio, é verdade que só no encore cedido a banda mostrou mais algum entusiasmo, alguma entrega. No baixo, Jon Camp demonstrou o seu virtuosismo espectacular, assumindo-se como o elemento impulsionador de todo o som da banda. Em suma, uma actuação apesar de tudo discreta, uma música hesitante entre a espectacularidade sumptuosa e fácil e um ou outro momento mais interessante, no fundo, fica apenas a questão: para quê trazer esta banda a Vilar de Mouros? Desnecessário e incoerente, se se tiver em conta a importância e, sobretudo, a actualidade das restantes bandas de rock trazidas ao festival.
Com o Durutti Column atingiu-se mais um momento privilegiado em Vilar de Mouros. Uma bateria e uma guitarra. De vez em quando um piano eléctrico. O uso e abuso consciente do eco, como forma de definir um estilo, uma música. O eco. Luminoso e ondulante, marítimo e interior, a utilização exacerbada do eco assume nos Durutti Column um papel fundamental. A música do tempo interior. Apaziguante e bela. Comovente e frágil - a fragilidade dos titãs. Sendo, como se disse, uma música interior, um som que, pura e simplesmente, prescinde rigorosamente de qualquer ideia de espaço, a música dos Durutti Column serve-se do eco como forma de reforçar a permanência do tempo. Neste sentido, elogio da memória por excelência, subtil e bela como só o silêncio, um longo riacho límpido e cristalino correndo serenamente em direcção ao fundo de nós, sente-se (fisicamente) esta música como uma ferida que nunca deixou, afinal, de sangrar, embora por vezes possa parecer o contrário... Memória e silêncio, jardins, flores e infância, com os Durutti Column a viagem faz-se, sim, mas para dentro. Em direcção ao tempo perdido.

O Rodopio Saboroso Do Caos

No sábado, penúltimo dia do Festival, e antecedendo o último grande momento deste Vilar de Mouros 82, tivemos em versão reduzida uma actuação (a última?) dos GNR. No fundo, uma Anar Band revisitada e (felizmente) melhorada - talvez pela presença e pela força cénica e interpretativa de Rui Reininho; talvez pela ausência (no palco) de Jorge Lima Barreto. Enfim, tocando apenas três temas, um realce muito especial para a interpretação (corajosa) de «Avarias», com um final (improvisado pelo Rui) verdadeiramente empolgante pelo seu apropósito.
Por fim, os Rip Rip and Panic...
Um baterista epiléptico, um baixo black funky com visual rasta, eis a base de sustentação rítmica sobre a qual se iria fundar cada um dos temas. Um ritmo completamente infernal, cataratas do Niagara a domicílio, servindo de ponto de partida para o delírio de cada um. Cada um: uma cantora negra, que dança como deve dançar alguém que foi educado nos altos cumes do Quénia, passando depois 5 anos numa art-school de New York - numa palavra, um truque autêntico, coreográfico, improvisado e sensual simplesmente fabuloso. Por vezes, ela canta e então é fantástica, uma voz que grita, improvisa e se transcende, a meio caminho entre o encantatório e o sublime. A seu lado, um companheiro branco em calções, tão caótico ou ainda mais que ela. Tudo isto se passa na parte da frente do palco. Atrás, há um pianista a resvalar para o free de vez em quando; um tipo a tocar trompete e outro a tocar sax e ainda o maluco branco que canta e dança, por vezes toca piano, outras clarinete, após o que vem para diante do público fazer caretas, deitar a língua de fora, incitá-lo. E tudo isto na coisa mais louca e impensável jamais vista. Servindo de pano de fundo, uma música por vezes funky, apelando irresistivelmente à dança, outras vezes free - a improvisação total, o gosto saboroso do caos. Enfim, Rip Rig and Panic: tudo aquilo que os Talking Heads da fase «Remain in Light» nunca conseguiram fazer e que, afinal, aparece aqui incrivelmente simples e louco e sedutor. Uma banda digna do seu nome...
E com os Rip Rig and Panic estava, praticamente, o Festival terminado. De facto, nem a Tom Robinson Band (chamada à última hora para substituir os Hawkwind, impedidos de vir por um dos seus elementos se ter ferido numa mão), nem A Certain Ratio, conseguiram conduzir o concerto em crescendo até ao seu final.
Tom Robinson pode ser simpático, pode ser um mestre em fazer músicas catitas para pôr toda a gente a cantar, mas está longe, muito longe, de ser qualquer coisa mais do que isso (o que já não é pouco, podem dizer-me...);



quanto aos A Certain Ratio, após tê-los visto, parece-me fazerem uma música demasiado pretensiosa, tendo em conta os resultados obtidos - que, convenhamos, foram bastante exíguos. Ideia final: um excelente baterista e um bando de rapazinhos à sua volta, todos muito senhores do seu nariz, experimentando tudo quanto é instrumento diante de um público estranhamente receptivo. Como conclusão, pelo que me foi dado a ver, sobre esta banda terminarei dizendo o seguinte: faz coisas curiosas em disco (algumas delas interessantes mesmo); ao vivo, dificilmente me tornarão a ver num concerto seu. Em Vilar de Mouros não me pareceu valer a pena...


Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. "Conversa" com Gareth Sager (Rip Rig & Panic), entrevista por Ana Rocha
. Pop Musik - artigo de fundo por Célia Pedroso
. Discos em Análise:
.. Roxy Music - «Avalon» [Polydor 2311 154] por Carlos Marinho Falcão
.. Jethro Tull - «Broadsword and the Beast» [Crysalis, 6399343], por Carlos Marinho Falcão
.. Opinião Pública - «No Sul da Europa» [Rossil Doze/998], por Carlos Marinho Falcão
.. Pigbag - «Dr. Heckle and Mr. Jive» [Y Records - CM LP-003], por Trindade Santos
.. Gang of Four - «Songs of the Free» [EMI 11C 078 64792], por Ana Rocha
.. Né Ladeiras - «Alhur» [EMI 11C 052 40594], por Carlos Marinho Falcão
. Marc Bolan «...Como Um Meteoro», artigo de José Ângelo Guerreiro






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