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3.3.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (36) - Mondo Bizarre - Nº 3 - Maio de 2000


Mondo Bizarre
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Nº 3 - Maio de 2000
40 páginas p/b



Entrevista
Einstürzende Neubauten
(Blixa Bargeld)

Na confortável sala panorâmica de um hotel de Lisboa, Blixa Bargeld falou à Mondo Bizarre. O mais recente disco dos Einstürzende Neubaute, "Silence Is Sexy", foi o mote de saída, mas a conversa estendeu-se às outras actividades do músico e ao seu gosto por canções populares escritas para mulheres.

. O press-release de "Silence Is Sexy" diz que este é o trabalho mais complicaod e fascinente da história dos Neubauten. Em que sentido?
- Não li o press-release. Penso que o disco parece ser mais acessível a quem o ouve. É mais fácil obter prazer com este trabalho. Mas, se se for mais fundo, descobre-se que é o nosso disco mais hermético. Está cheio de referências cruzadas, de conotações profundas.
. Como interpreta e vê o silêncio? Há muitas maneiras de ouvir e sentir o silêncio como o posição ao som e ao ruído (John Cage é uma maneira de entender o silêncio). No álbum, canta "silence is sexy" e logo a seguir diz "your silence is not sexy at all"...
- A primeira coisa que surge, em termos musicais, ao falarmos de silêncio é John Cage. O seu 4'33", em que alguém se senta ao piano e durante esses minutos não se ouve uma única nota. Na sua típica aproximação zen, John Cage tenta criar uma peça na qual, de repente, nos apercebemos de todos os sons que nos rodeiam, durante uma determinada altura. Nesse sentido, o que fiz em "Silence Is Sexy" é um antídoto ao tema de John Cage. Eu queria que se ouvisse que o silêncio é tenso. Que o silêncio se relaciona mais com a ausência do que com a unidade do universo. Foi um longo processo de pesquisa até saber como gravar o que pretendia. O grande impacto dá-se quando o acender de um cigarro, quase imperceptível, se ouve, se torna tenso. Tinha a ideia nuclear para "Silence Is Sexy". No processo de composição, juntamente com as letras, cheguei à conclusão de que o silêncio é muito pouco sexy. O silêncio sexy está ligado à morte e não sou necrófito. A morte não me dá prazer nenhum. Daí veio o "your silence is not sexy at all".
. Conhece o Instituto de Som de Estocolmo, no qual existe um compartimento, totalmente isolado, onde tudo o que se ouve é o asustador som produzido pelo bater do coração?
- Não conheço o Instituto de Estocolmo, mas sei o que é uma Camara Silens. Essa é outra das coisas sobre as quais se pode ler nos apontamentos de John Cage. É muito estranho entrar numa. É um laboratório de som, onde apenas se ouvem dois sons, um alto e outro baixo. O alto é o ruído produzido pelo nosso sistema nervoso e o baixo o sangue a correr no nosso corpo. Por isso, em "Silence Is Sexy" falo de Tinnitus (zumbidos nos ouvidos), uma doença muito comum de que sofro. É como uma campainha constante nos ouvidos. O nível de ruído é inconstante. Há alturas em que nem me apercebo e outras em que o volume é bastante alto. Pensei em trabalhar numa Camara Silens para este álbum, mas acabei por abandonar a ideia.
. Musicalmente, "Silence Is Sexy" paraece ser mais introspectivo e menos potente que os discos anteriores dos Neubauten. Há menos experimentalismos radicais e mais construções harmoniosas, próximas do tradicional formato de canção. Vinte anos de carreira permitem-lhe uma maior serenidade para expressar o que pretende?

- Queria que todos os bocados deste disco fossem uma canção, que tudo fosse passível de reprodução em concerto. Não há nenhum tema neste disco que tenha, a 100%, o formatoo tradicional de canção. Todos continuam a ser muito desconstruídos de dentro para fora. Deixei de ter vergonha de utilizar instrumentos convencionais, apesar de continuarmos a trabalhar com novos e velhos instrumentos e também com bocados de materiais. Já explorámos tudo o que tínhamos de explorar. Não é necessário continuarmos a repetir o mesmo modelo de disco para disco. Avancei para um terreno ainda pouco explorado por nós: as progressões harmónicas, sobre as quais ainda sei muito pouco.
. Ouvindo os discos mais antigos com atenção, é fácil descobrir que a linha desconstrutiva não é anárquica. De certo modo, os velhos temas dos Neubauten têm uma linha contínua, às vezes quase dançável.
- Sim. No início dos anos oitenta e até meados dessa década, trabalhámos com estruturas parcialmente dançáveis. Não vejo nenhum obstáculo entre os discos mais antigos e as nossas abordagens recentes. Os primeiros discos eram mais ritualistas, intensos e enérgicos. Este é uma espécie de inversão dessas sonoridades. "Silence Is Sexy" é uma continuação do que temos vindo a fazer. Se pusermos os trabalhos lado a lado, vemos que se completam.
. Três anos - desde "Ende Neu" - para fazer um álbum não é demasiado tempo para si? Foi difícil o processo criativo de "Silence Is Sexy"?
- O processo é sempre complicado para nós. Criamos problemas musicais que temos que ir resolvendo à medida que o tempo passa. Dizemos sempre "temos um ano para fazer o disco". Mas isso nunca resulta. Deparamo-nos com muitos becos sem saída. É como fazer um filme. Filma-se 10.000 metros e só 5000 são utilizados na montagem final. Este disco é muito longo. Podíamos ter parado aos 40 minutos, mas havia ideias que tinham que ser trabalhadas até ao fim. Tínhamos que criar totalmente este micro-cosmos. Nos Bad Seeds nunca teria estes problemas.
. Qual é a diferença do Blixa dos Einstürzende Neubauten e o Blixa dos Bad Seeds?
- É como falar duas línguas diferentes. Tocar com os Einstürzende Neubauten, como qualquer pessoa que tenha tocado connosco pode provar, é como falar uma língua estrangeira. Quando toco com o Nick Cave regresso a uma linguagem comum a várias pessoas. É mais fácil uma outra pessoa tomar o meu lugar nos Bad Seeds, mas já não se passa o mesmo com os Neubauten. O processo construtivo é completamente diferente nas duas bandas.
. É-lhe difícil mudar de uma banda para a outra?
- Não.
. Actualmente, a música electrónica e as remisturas são bastante populares, mesmo fora da "club Scene". Pensa que a fusão entre música electrónica e outras tipologias musicais (como a vossa), é um modo de criar novas e interessantes formas de música?
- Eu deixei de ouvir coisas novas, não porque me tenha deixado de interessar por música, mas porque o discurso corriqueiro que lhe está associado não me diz nada. Sei que a música electrónica se tornou muito visível. Eu cresci com os Can - Holger Czukai / Herman Schimt (sic) -, Kraftwerk, etc. Para mim, a música electrónica sempre foi vital, sempre foi normal. A Alemanha sempre teve uma grande tradição electrónica e não me surpreende que o techno seja, aí, tão forte.
. Vai deixar que "Silence Is Sexy", à semelhança de "Ende Neu", seja remisturado por outros músicos ou dj's?
- Não. Se voltarmos a remisturar alguma coisa seremos nós a fazê-lo.
. Costumam oferecer-lhe bandas para remisturar? Que banda gostava de remisturar?
- Estão sempre a oferecer-nos coisas para remisturar. Em especial bandas polacas estranhíssimas. [risos] Não tenho grande interesse em fazer remisturas, apercebi-me que esse processo é totalmente contrário à minha ideia de remistura. As remisturas tornaram-se numa desculpa para aplicar as nossas ideias no trabalho de outro artista. Para mim uma remistura é isso mesmo: voltar a remisturar as misturas originais. No nosso disco poucos o fizeram. Só o Jon Spencer e o Barry Adamson aceitaram trabalhar com as fitas originais e voltar, de facto, a misturá-las, mas mais ninguém o fez.
. Os Einstürzende Neubauten foram uma das mais importantes, seminais e admiradas bandas de Berlin dos anos 80. Olhando para o passado, como avaliaria a vossa carreira e trabalho, desde os princípios da música industrial?
- Quando nós aparecemos, no início dos anos 80, o termo música industrial, significava uma coisa totalmente diferente. Não se aplicava a nós. Era uma coisa utilizada para designar grupos como Throbbing Gristle e demais amigos de Genesis P Oridge. Agora aplica-se a grupos como Rammstein, Nine Inch Nails, Marylin Manson...
. Que não são, na realidade, grupos industriais.
- Exactamente. Isso faz com que exista um problema com a definição "industrial". Devia-se especificar se nos estamos a referir à primeira ou à segunda vaga de música industrial. No meio, entre meados dos anos 80 e 90, desapareceu totalmente. O termo renasceu na América e tenho que viver com essa falsa designação adoptada pelos media. Os discos dos Neubauten são enfiados na secção de música industrial. Não era isso que nós queríamos, mas é o que acontece.
. Em que categoria colocaria a música dos Neubauten?
- Na secção de folk ou de música sacra.
. Uma das coisas que aprecia são as percussões africanas.
- Em períodos em que nada se passava em termos musicais, e incluo 1977 e a revolução punk nesse nada, quando a world music ainda não tinha sido inventada, ouvia coisas como grupos de tocadores de tambores etíopes ou do deserto, coros galêses ou sons do extremo oriente.
. Então não gosta de punk...
- Não. Gosto muito do efeito social que o punk despoletou e também do que significou em termos de mudança da indústria. O poder-se fazer as coisas por nós próprios foi muito mais importante para mim, para os Neubauten, do que as guitarras ou os Sex Pistols como símbolo musical.
. Parece gostar de cantar papéis femininos. Em "Sand" faz as duas vozes e quando os Bad Seeds tocaram no Porto, em 1997?, cantou a parte da Kylie Minogue de "Where The Wild Roses Grow".
- Sim, gosto de cantar canções que foram escritas para mulheres. Quanto à parte da Kylie Minogue, quando gravámos o original de "Where The Wild Roses Grow", fui eu que cantei a parte dela. Ela recebeu uma cassete, para aprender a partir do que eu tinha gravado. Acabou por cantar exactamente com a minha fraseologia. Por isso, no Porto, eu não estava a imitar a Kylie Minogue. Estava a imitar-me a mim mesmo. [risos] Também já cantei "Johnny Guitar", originalmente cantada por Peggy Lee, que faz parte da banda sonora do filme homónimo. É o único western onde os homens não têm armas. Todas as armas estão na mão de mulheres. É um filme fantástico.
. E a Joan Crawford é sublime.
- É o melhor papel dela. Genial. Eu também gostava de cantar alguma coisa da Marlene Dietrich. Pensámos em gravar "Where All The Flowers Gone" para este disco, mas tivemos bastantes problemas com "Die Befindlichkeit des Landes", na qual eu só consegui introduzir a voz a seis de Janeiro, pois só nessa altura tive a melancolia necessária para o fazer. Foi necessário incutir a raiva através de uma terceira pessoa, de modo a não ser apenas um comentário cínico, ou uma versão moderna do cantor de protesto. "Where All The Flowers Gone" fazia parte desse jogo, mas acabou por não entrar no disco.
. O facto de gostar de cantar papéis femininos reflete-se, de algum modo, no seu trabalho? Tem alguma empatia especial com o seu lado feminino?
- Nunca pensei muito na razão dessa empatia. Tenho uma certa indiferença em relação aos papéis masculinos no mundo da música. Quando toco guitarra com o Nick Cave represento o papel tradicional. Uma guitarra é um símbolo fálico, um instrumento de poder, de machismo, de todas as coisas de que, musicalmente, não gosto. O meu modo de tocar guitarra é, geralmente, o oposto disso. Nasce do meu ódio a essas metáforas e conotações. Uma vez, o New York Times disse que eu tocava guitarra como quem espera um autocarro, para mim foi um elogio. Julgo que a minha falta de empatia com o cliché tradicional do rock faz com que me interesse mais pelas canções escritas para serem cantadas por mulheres. Mas não cantaria "This Boots Are Made For Walking" que é uma canção de homem cantada por uma mulher. É esse o fascínio da canção e eu só a tornaria estéril.
. De onde lhe veio a ideia do questionário onde interroga as pessoas sobre as suas recordações? Nunca o utilizou em Portugal pois não?
- Não, nunca o utilizei cá. O questionário serve-me de base a uma série de representações. Já as apresentei em: Berlin, Osaka, Buenos Aires, Londres, Estocolmo, Nova Deli e nos Camarões. São sempre feitas na língua nativa e resultam dos questiona´rios preenchidos anonimamente. Há sempre um cenário diferente, oradores e músicos.

. O que sente quando usa uma língua que não domina? Como reagem as pessoas?
- Era inútil ir ao Japão e ler a tradução das recordações dos japoneses em alemão. A reacção é sempre diferente. É muito estranho ouvir alguém ler as nossas próprias recordações. É um momento de transformação. Quando se entregam essas recordações, essas "Memórias Queridas" por escrito, elas ganham distância, tornam-se ficção, quase literatura. Passei dez dias nestas palestras e fiquei muito agarrado a algumas dessas memórias. Tornaram-se quase minhas.
. Nessas memórias, as dos japoneses eram mais chegadas à natureza e as dos ocidentais mais ligadas à pornografia.
- Porque diz que os japoneses estão mais ligados à natureza?
. Por várias razões. Os japoneses estão muito ligados à neve, à água, às flores, aos insectos. Aqui em Lisboa, no Museu da Gulbenkian, há um grande espólio de caixas usadas para guardar insectos.
- De facto, o mais curioso nas recordações japonesas era uma enorme ligação aos insectos. Mas nas memórias africanas, nos Camarões, não existe nenhuma ideia de natureza. Falam da aldeia, da selva. Mas quando lhes perguntamos se têm alguma "Memória Querida" ligada à natureza, respondem: "a morte da minha avó".
. Porque ela regressa ao solo.
- Não. A nossa ideia de natureza é muito eurocentrista. O conceito de natureza em África, é totalmente diferente. Não consideram as árvores, os pássaros, a floresta, natureza. Natureza são os ciclos da vida. Essa descoberta foi muito interessante, porque me mostrou que as p´roprias perguntas eram muito eurocentristas.
. Já fez trabalhos para teatro: Heiner Müller, Werner Schawab.
- Heiner Müller é um amigo da banda. Em vinte anos de Einstürzende Neubaute apenas fizemos música para duas peças, o que não é muito.
. Já pensou em fazer ou em escrever teatro?
- Estou a pensar encenar algo que não seja meu. Sempre que faço as "Memórias Queridas" enceno todo o espectáculo.
. Lembra-se do concerto de há seis anos em Lisboa?
- sim. Gostei da assistência e do local do concerto. Lembro-me de sair do local e toda a gente me saudar. Foi muito agradável.
Raquel Pinheiro / Vitor Afonso
 






2.3.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (35) - Mondo Bizarre - Nº 10 - Fevereiro de 2002


Mondo Bizarre
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Nº 10 - Fevereiro de 2002
80 páginas a p/b, com capa e contracapa a cores.




Os Melhores do Ano 2001
1 - White Stripes - "White Blood Cells" (Sympathy For The Record Industry / MVM)
2 - Zen Guerrilla - "Shadows On The Sun" (SubPop / Música Alternativa)
3 - Strokes - "Is This It" (BMG)
4 - Stephen Malkmus - "Stephen Malkmus" (Domino / Ananana)
5 - Mark Lanegan - "Field Songs" (Beggars Banquet / MVM)
6 - Nick Cave - "No More Shall We Part" (Mute / Zona Música)
7 - Sparklehorse - "It's A Wonderful Life" (Capitol / EMI)
8 - Ryan Adams - "Gold" (Lost Highway / Universal)
9 - Mercury Rev - "All Is Dream" (V2 / Zona Música)
10 - Lift To Experience - "The Texas Jerusalem Crossroads" (Bella Union / Symbiose)
11 - The (International) Noise Conspiracy - "A New Morning, Changing Weather" (Burning Heart / Música Alternativa)
12 - New Order - "Get Ready" (London / Warner)
13 - Smog - "Rain On Lens" (Domino / Ananana)
14 - Rufus Wainwright - "Poses" (Dreamworks / Universal)
15 - Radiohead - "Amnesiac" (EMI)
16 - Dirtbombs - "Ultraglide In Black" (In The Red)
17 - Jim White - "No Such Place" (Luaka Bop / EMI)
18 - Fugazi - "The Argument" (Dischord / Sabotage)
19 - Bonnie "Prince" Billy - "Ease Down The Road (Domino / Ananana)
20 - Tool - "Lateralus" (Zomba / EMI)

Entrevista
Rafael Toral
Guitarra, Frequências e Sons
Há pelo menos 15 anos que Rafael Toral vem desenvolvendo criações e pequisas que tem por base a guitarra eléctrica. Um pouco por causa dos recentes concertos com Lee Ranaldo, aproveitou-se uma antiga ideia de fazer uma breve mostra do trabalho de Rafael Toral, cujo resultado aqui se mostra.
. e ainda mantem o seu emprego "diurno", como conjuga isso com a sua actividade de músico/compositor?
- É por essa razão que sou tão lento e o meu trabalho tão escasso em quantidade. Mas não vejo outra opção.
. O seu nome é reconhecido e admirado por muitos músicos estrangeiros - Lee Ranaldo, Thurston Moore, Jim O'Rourke, Mike Patton, Duane Denison, etc. -, e elogiado sem reservas por publicações como a Wire ou a Révue e Corrigé. Por cá a relevância do seu trabalho parece passar mais ou menos ao lado. Isso aborrece-o?
- É um hábito português, ou, pelo menos, lisboeta, o encontrar conforto na mediocridade. Enquanto formos todos medíocres, está tudo bem. Agora se alguém começa a ganhar notoriedade, torna-se um problema, uma pedra no sapato. Gera-se um distúrbio na mediocridade e há que fazer tudo para que ela regresse. Já senti muitas vezes que alguns sucessos que eu tenha tido criaram incómodo e mal estar por aqui. Não me afecta nada, mas é triste, naturalmente. Felizmente, existem "ilhas" que funcionam noutro patamar, mais internacional e iluminado, como a Fundação de Serralves.
. Acha que um dia lhe acontecerá o mesmo que a Emmanuel Nunes e finalmente, verá a sua obra condignamente divulgada?
- Não faço ideia nem quero pensar nisso. A música que faço é para o planeta todo, não me preocupo com essa dimensão local.
. Olhando para a sua carreira, que tem sido rica em experiências, qual a relevância que dá a estas duas apresentações (Casa de Serralves, Gulbenkian) com Lee Ranaldo?
- Há já vários anos que tínhamos esta ideia de tocar ao vivo em duo, e houve várias ocasiões apontadas, que nãos e realizaram por uma ou outra razão. Sinto que é um passo importante, porque o Lee foi uma figura influente e importante no meu percurso, e agora (salvo a diferença dos caminhos percorridos) cheguei a um estado de maturação que permite estarmos num palco em confronto directo, de igual para igual.
. Chicago é vista como uma cidade emblemática da música experimental. Que visão tem da chamada "Chicago Scene"?
- É uma das cidades que melhor me acolheu e com a qual ainda mantenho laços muito fortes. Para além da sua concentração de músicos excelentes por metro quadrado, aquilo que torna Chicago tão especial será, com certeza, a qualidade do público.
. Boa parte do seu trabalho tem residido na ressonância. Primeiro com a guitarra e depois em Cyclorama Lift - Aeriola Frequency - apenas com um circuito vazio. O que lhe resta para descobrir nesse capítulo?
- Sendo a minha atitude criativa baseada na descoberta, não sei o que tenho ainda para descobrir, só mesmo descobrindo - passe a redundância ... mas considero-me satisfeito com o que já realizei nesse campo.




. Depois, com "Violence Of Discovery And Calm Of Acceptance", encerrou um período de 15 anos durante os quais foi trabalhando meticulosas peças para guitarra...
- É um disco que atravessa todos os outros, reúne todos os caminhos percorridos em trabalhos anteriores e abre novas abordagens. É o meu disco mais importante de sempre, e creio que mais importante que os próximos também.
. Agora edita um disco com trabalhos antigos. A ideia que dá é que tem vindo a encerrar ciclos criativos. Isso permite-lhe avançar para novas experiências - abandonando o que está para trás ou simplesmente integrando o passado na criação de algo novo?
- Penso que tenho mais tendência para integrar o caminho percorrido até ao presente, uma vez que o meu campo de acção é muito preciso e específico. Esta próxima edição, "early Works", tem, curiosamente, o efeito de marcar justamente o início do percurso que se conclui com "Violence of Discovery...". Colocados lado a lado, nota-se uma continuidade entre eles.
. Pontes metálicas lembram-me sempre essas pontes de ferro, em particular para combóios, de que existem vários exemplos em Portugal. Foi nelas que se baseou para "Bridge Music"?
- Esse projecto ainda não arrancou. É inteiramente baseado em pontes rodoviárias. Tenho já cerca de oito horas de gravações em pontes de todo o mundo, desde a 25 de Abril à Golden Gate. É um trabalho em que quero explorar a ressonância nas suas estruturas. Mas sabe-se lá quantos anos se passarão até começar a produzir... É um projecto que tenho desde 1992.
. "Love" é a sua homenagem a John Cage. Parece evidente que o considera um compositor essencial. Mas até que ponto é possível dizer que Cage está presente nos seus trabalhos?
- Talvez essa influência não se revele muito a nível formal. Sempre mantive que aundo somos inspirados pelo trabalho de alguém, essa influência pode ter resultados mais interessantes se se manifestar a nível conceptual - desse modo, a mesma ideia pode ter expressões muito diferentes. Quando dizemos que "A" soa a "B", isso revela uma influência a nível formal, o que indica uma influência mal resolvida criativamente, um nível de exigência pobre, ou ambos. Cage está presente nos meus conceitos de som, ruído, controlo. E em muitos outros níveis que são já praticamente subconscientes. O projecto "Love" também está em suspenso, falta realizar uma peça ou duas. As peças dele exigem um grau de disciplina e rigor inimagináveis, mesmo que não pareça...
. "Early Works" tem apenas peças suas ou também alguns dos temas que faziam parte do reportório dos S.P.Q.R.?
- Não, são apenas trabalhos compostos depois da dissolução desse projecto. Não faria sentido editar esses materiais, por não terem consistência conceptual.
. Tem alguns planos para "ressuscitar" os S.P.Q.R.? Digamos que o projecto deixou uma, muito pequena, mas adorardora minoria saudosa.
- Não. O projecto desapareceu porque os restantes elementos optaram claramente por outros caminhos (a outra "metade" continuou como baixista dos Mão Morta, está bem longe em termos estéticos) e eu limitei-me a continuar sózinho. Mas, sinceramente, reconheço muito mais valor no trabalho que desenvolvi a partir daí.
. Vê a sua passagem pelos "Pop Dell'Arte como uma "experiência" de laboratório? O que levou dos Pop Dell'Arte para as suas peças a solo?
- Quando entrei para os Pop Dell'Arte já tinha iniciado claramente o meu percurso de pesquisa com a guitarra, assim como já havia iniciado algumas práticas experimentais, que levei para o grupo e no qual as desenvolvi. Foram importantes, nessa altura, o contacto com o Nuno Rebelo e Nuno Canavarro.
. E os No Noise Reduction, que papel têm na sua aprendizagem / capacidade de criação?
- NNR é, ou foi, um projecto sem contornos definidos, antes um espaço criativo onde o Paulo Feliciano e eu nos dedicámos a abordagens e desafios radicais, resultando em trabalhos que nenhum de nós faria sózinho. Uma espécie de laboratório experimental, de onde resultaram muitas práticas e técnicas que integrámos nos nossos respectivos trabalhos. Essa relação de cumplicidade mantém-se, agora absorvida por projectos desenvolvidos com outro enquadramento e noutra escala, como o projecto Houselab (com Rui Gato, Helder Luís e Rui Toscano).
. Lembra-se de um antigo projecto, que se não me engano se chamava Optimistic Kheops onde, entre outras coisas, se faziam sons com o soprar de bolinhas de sabão, aspiradores e máquinas de lavar?
- Já me tinha esquecido disso! Existe uma cassete, agora me lembro, mas foi gravada depois das invasões napoleónicas e espero que já se tenha desfeito em pó.
. O seu trabalho em nome próprio não tem as características geralmente dadas como as do rock. No entanto, como produtor trabalhou com vários grupos rock. O rock, como linguagem não lhe interessa?
- Já não é a primeira vez que me fazem essa pergunta. O meu trabalho tem o rock como ponto de partida, e é ao mesmo tempo um derivado longínquo e uma síntese abstracta e essencial. Isto aplica-se principalmente aos meus trabalhos principais, "Wave Field" e "Violence of Discovery". Interessa-me mais, é claro, ocupar uma posição em relação ao rock que mais ninguém tem do que tentar fazer rock, que é muito mais simples tecnicamente e é um território super-povoado.
. Está-se a ver a editar um disco como "Insignificance", de Jim O'Rourke - que parte dos clichés do rock sulista (linha Lynyrd Skynnyrd), ou fazer versões dos AC/DC?
- Fazer versões dos AC/DC?? Hmm, não, obrigado... embora deva admitir que fui um grande fã desse grupo, quando tinha 10 ou 11 anos. Um disco como "Insignificance", só mesmo um Jim O'Rourke para o fazer. Mas tenho um projecto para um disco de canções - não faço é ideia se alguma vez pensarei nele a sério.
. A tecnologia tem evoluído ao longo dos anos até que ponto se reflete essa mesma evolução no seu trabalho e abordagem sonora?
- A minha abordagem aos materiais concretiza-se com recurso à tecnologia, mas é esta que serve aquela e não o contrário. A minha evolução é idependente da evolução tecnológica, embora esta possa introduzir novas opções que serão de considerar...
. Numa recente entrevista à revista Wire, a contrabaixista Joelle Léandre dizia que, actualmente, os compositores já não são como há um quarto de século, pois agora estudam composição e harmonia mas não tocam instrumentos. Concorda com essa afirmação?
- Acho que essa afirmação está pelo menos uns bons três quartos de século atrasada. A harmonia como elemento estruturante da composição começou a ser "demolida" no princípio do século passado. Também o conceito de "instrumento" já foi expandido há muito, muito tempo, e continua a sê-lo. Mas isso foi com certeza dito num meio académico mais restrito (e mais parado no tempo, também).
. Acha que isso - o facto de não se tocar instrumentos - se reflete na qualidade e na inventividade da música?
- Acho que a falta de uma prática qualquer sobre a criação sonora seria uma séria limitação à criação musical. É como construir algo sem conhecer os materiais de construção, ou conhecê-los apenas por catálogo...
. Voltando a John Cage. A ausência de som, ou o silêncio como obra de arte, cujo ponto alto é 4'33", é uma coisa real? O silêncio existe mesmo? É que, mesmo dentro de uma "Camara Silens", diz-se, ouvem-se duas coisas: o nosso coração (e o sangue que corre nas veias) e os nossos nervos...
- Ausência de som e silêncio são coisas totalmente diferentes. Ausência de som é aquilo que poderemos experimentar depois de falecermos, mas claro que não vamos poder contar a ninguém como foi. O silêncio, realmente, não existe. Cage conseguiu esta inversão fabulosa em 4'33", em que compôs um silêncio que consiste na ausência de sons emitidos por um músico, mas cujo conteúdo musical é tudo o que se ouve durante essa duração. O silêncio transformou-se no infinito do som.
Raquel Pinheiro






27.12.14

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (10) - Mondo Bizarre - Nº 13 - Novembro de 2002


Mondo Bizarre
Nº13
Novembro de 2002 (96 páginas)
Revista Trimestral - Portugal

Prosseguindo com a divulgação da Mondo Bizarre...

A apresentação deste fanzine / magazine / revista já foi feito neste post.

Desta vez ficamos com uma entrevista a Alan Vega dos Suicide; e outra entrevista a elementos dos Projectos This.co e Sonda.

Suicide
Regenerados de Nova Iorque
Os tempos mudam e as pessoas transformam-se. É esta a verdade banal que enforma a actual postura do duo Suicide. Os tempos em que aterrorizavam a audiência com as suas actuações, recebendo em troca o medo ou a violência, acabou. Hoje é uma maturidade distanciada que dita a sua abordagem musical. Reunindo elementos de diferentes géneros da música electrónica em busca de uma ideia de contemporaneidade que sendo polémica não deixa de ser corajosa e desafiadora. Como o comprova “American Supreme”, o último disco do grupo, e a conversa que a Mondo Bizarre teve com Alan Vega.

. Diz-se que, nos últimos seis anos, Nova Iorque tem vindo a tornar-se numa cidade mais pacata. Como se encontra agora, principalmente depois dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001?
. Não sei se tornou mais pacata, até porque continua muito barulhenta (risos). Vivo na área dos atentados, no Ground Zero, e essa zona de facto está mais calma. Há menos pessoas, pois muita gente perdeu o emprego e houve uma desertificação.
. É uma cidade muito diferente daquela que existiu nos anos 70?
- Curiosamente em alguns aspectos tem semelhanças com os anos 70. Nessa época, Nova Iorque era uma cidade muito dura e nas décadas seguintes, na minha opinião, não mudou muito. Agora, em plena recessão económica, parece que estamos a regressar à década de 70, o que me agrada particularmente, porque sempre gostei desses tempos.
. Como artista e músico, nos Suicide, a sua obra ajudou a mudar a vida das pessoas. Thurston Moore, por exemplo, confessou ter ficado particularmente assombrado com uma das suas actuações. Enquanto membro da audiência, que músicos ou artistas mudaram a sua vida?
- Houve tantos! Por exemplo o Iggy Pop e os Stooges tiveram em mim um impacto tremendo. Mas também posso citar o Jimi Hendrix, o Jack Kerouac, o Jackson Pollock, o John Coltrane, os Velvet Underground ou o Andy Warhol. A lista é imensa e inclui artistas, poetas, músicos, escritores...
. Iniciou a sua carreira como artista plástico, mas depois escolheu o trilho da música. Porquê?
- Se calhar desejava efectivamente ser músico mas continuo a trabalhar como artista plástico e a expor. Mantenho, pois, duas carreiras. A música sempre me agradou, mas em parte tudo se deveu ao facto de um dia ter assistido a um concerto dos Stooges. Descobri que aquilo que faziam era arte. A actuação do Iggy Pop, nessa noite, em 1969, fez-me perceber que para me afirmar como artista tinha que intervir musicalmente num palco. E nesse aspecto isso também está relacionado com as artes visuais. O acto da perfomance detém também uma dimensão visual muito forte.
. Os Suicide nas suas actuações usavam muito a ideia de confronto. O que estava por detrás dessa abordagem?
- Simplesmente não queíamos divertir as pessoas. Estas fugiam daquilo que viam nas ruas e nós dávamos-lhes a rua de volta. Daí surgiu a ideia de confronto. Incomodávamos as pessoas nos concertos, não só com os gestos, mas também com o som que nessa altura era muito intenso. Era novo e eléctrónico e deixava o público louco. A agressão era o passo seguinte.
. Como interpretava as reacções da audiência nesses tempos?
- A primeira coisa que queria era conseguir sair vivo dessas situações. Havia motins a toda a a hora e pessoas a tentar matar-me...
. Isso era algo positivo ou negativo?
- As duas coisas. Devo dizer que não gosto de violência, mas ao mesmo tempo acontecia aquilo que desejava: ver pessoas a participarem, a fazerem parte do espectáculo, da arte.
. E agora?
- Agora não acontece nada. Somos apenas músicos que divertem as pessoas. Já não conseguimos deixar ninguém louco (risos). As pessoas vêm-nos ver por aquilo que somos. Já não fazemos as primeiras partes de outras bandas e o público é menos hostil e mais jovem. Está interessado em saber como surgimos, gostam de nós e da nossa música. Não sei como, mas a verdade é que está a acontecer. às vezes é estranho subir ao palco e saber que não vou ser atacado quando há vinte anos atrás chegava a interrogar-me se ia sobreviver aos concertos. É de facto uma sensação diferente, mas que ainda assim me agrada. Na verdade já não estou mais interessado no confronto ou na violência.
. O que é que aconteceu ao certo em Glasgow, nos finais dos anos 70, quando fez a primeira parte dos Clash?
- Essa foi uma noite muito violenta e a certa altura alguém atirou um machado sobre a minha cabeça. Contei o sucedido e ninguém acreditava até que alguns anos depois, em Leeds, depois de ter dado um concerto a solo, apareceram os tipos dos Jesus and Mary Chain que corroboraram a minha versão. Eles tinham visto o machado! As pessoas que não acreditavam na história ficaram estarrecidas com a confissão. Na verdade aquele concerto teve um ambiente muito devedor dos Westerns: houve machados, setas, cowboys, índios. Nunca me hei-de esquecer. Aquilo passou-me mesmo ao lado da cara. Atiraram-me com muitas coisas, mesas, cadeiras, sapatos, facas, mas o machado nunca hei-de esquecer.
. Nos anos 70 sentia afinidade com as outras bandas de Nova Iorque?
- Claro. Gostava da maioria das pessoas da época, como o Alex Chilton ou a Debby Harry, apesar de musicalmente não me sentir muito próximo dos grupos. Com os Television não sei porquê nunca nos demos muito. Acho que nunca gostaram muito de nós. Mas, de resto, dei-me lindamente com a maioria das pessoas. Musicalmente penso que era uma cena um pouco conservadora. Ainda usavam os mesmos instrumentos de sempre (baixo, bateria e guitarra) enquanto nós já usávamos teclados. Mas adorava as individualidades que existiam por detrás dos músicos e elas adoravam-nos. Foram tempos maravilhosos que não sei se alguma vez se repetirão.
. Como vê a actual cena musical de Nova Iorque?
- Tenho ouvido algumas coisas que me agradam. Gosto especialmente de uma banda que são ARE Weapons e há outras que me parecem interessantes. A maioria porém parece limitar-se a regurgitar coisas que já foram feitas nos anos 60 e 80. Na verdade actualmente saio pouco e não vou a muitos concertos. Agora sou pai e não posso deitar-me muito tarde (risos). Normalmente descubro as coisas em segunda mão ou há alguém que me empresta um CD. Nos últimos tempos tenho ouvido muito rap que é o tipo de música que, nos dias de hoje, mais me agrada. Por outro lado os tempos mudaram. Os putos actualmente são mais espertos, têm mais dinheiro e estão mais bem preparados. Ou seja mais bem maquilhados e vestidos. No nosso tempo só queríamos fazer música. Não pensávamos no dinheiro, as coisas eram menos previsíveis, e chegávamos a passar fome. Por exemplo a Debbie Harry imediatamente antes de conseguir o seu primeiro contrato tinha sido despejada do seu apartamento. Ela estava na rua quando o sucesso lhe bateu à porta. Na verdade fazíamos o que podíamos.
. Os Suicide, enquanto banda dos 70, nunca namoraram os ritmos do disco. Em vez disso preferiram o rockabilly. Porquê?
- Possivelmente porque tanto eu como o Martin (Rev) sempre gostámos muito de rockabilly. Mas, e apesar da cena disco nunca me ter interessado, penso que está enganado relativamente à ausência de elementos de disco-sound na nossa música. De qualquer modo sempre adorei rock ‘n’ roll. O meu primeiro disco a solo, por exemplo, é um trabalho de rockabilly futurista. Por outro lado o Martin gosta muito do som dos anos 50, principalmente de música do-wop. Mas isto foram coisas que surgiram sem estarem pensadas. Ou seja surgiram por acaso, na sequência de experimentações com diferentes sons apesar de reconhecer que sempre gostei muito da voz do Elvis Presley.
. Neste último trabalho, “American Supreme”, surgem elementos de outros géneros electrónicos como tecno, funk, hip hop. Porquê?
- Porque esse é o tipo de música com o qual vivemos. Encontra-se nos cinemas, na rádio, na rua. É o que Nova Iorque actualmente reflecte: uma realidade multicultural feita de várias línguas. Todos os países, assim como todos os géneros musicais, estão nesta cidade. Há uma constante de circulação de sons e isso acaba por entrar no nosso sangue. É impossível ignorá-lo. Basta respirar e vivermos para passar a fazer parte da nossa música.
. Podemos dizer que, com este disco, afasta-se de uma experimentação mais radical com a música electrónica?
- Não. Penso que American Supreme vai ser mais influente e vanguardista do que as pessoas poderão agora reconhecer. Há pessoas que vão achá-lo mais comercial, mas é preciso ouvi-lo algumas vezes e à medida que o vamos fazendo mais interessante e complexo ele se torna. Eu próprio ainda o estou a ouvir e continuo a descobrir coisas novas. Trabalhámos nele durante cinco anos e penso que vai ser influente naquilo que as próximas gerações vão fazer. Em certos aspectos, é ironicamente mais vanguardista que alguns dos nossos discos anteriores, com excepção para os primeiros que ainda hoje soam contemporâneos...
. Numa entrevista para a revista Wire, há uns anos atrás, disse que gostava de música com alma, com blues. Este disco tem blues?
- Bom... sempre achei que os Suicide eram uma banda de blues (risos). Já identificaram aquilo que fazemos como sendo punk, techno e electro mas na verdade sempre achei que éramos mais uma banda de country ou de blues. É isso que somos. Porque tocamos a partir e com o coração. E é isso o que os cantores e músicos do blues fazem. Mostramos a nossa versão daquilo que achamos que é a verdade de uma maneira forte e apaixonada. Por isso acho que a maioria das novas bandas não podem ser comparáveis aos Suicide. Não tocam o blues, limitam-se a fazer techno ou outra coisa qualquer.
. E a música electrónica pode ter blues?
- Claro. Tudo o que nasça do coração pode ter blues. Depende, é claro, de certas condições. Se for o dinheiro a ditar a música então não há blues. Recentemente terminei um disco com os Pansonic e a música deles aparentemente fria, a dado momento é extremamente bluesy. Até encontrei neles elementos de rockabilly. A primeira vez que os vi reparei que tinham algo de visceral e apeteceu-me logo trabalhar com eles. No fundo tudo o que possui sentimento e integridade artística tem blues. E é isso o que procuro. O blues é também algo que aprendemos a descobrir.
. Nos últimos anos tem surgido nos EUA a chamada electronic tape underground scene onde pontuam bandas como os Nautical Amanac, Wolf Eyes e Mammal? Já ouviu alguma coisa destes grupos?
- Não. Na verdade devo dizer que ando mais a ouvir-me a mim mesmo. Há uns anos atrás estava a par de tudo o que estivesse relacionado com a minha música. Agora, porém, limito-me a estar comigo mesmo. E isso foi uma das poucas coisas que aos poucos, ao fim de 30 anos, aprendi a fazer. Quando alguém me cede um disco para ouvir ou me fala de uma banda já não presto a mesma atenção. As pessoas dizem que eu as influenciei e isso basta-me. É um pouco como esta cena do electroclash, da qual dizem que somos os padrinhos. Sejamos então. A minha disponibilidade já não é a mesma. Tenho um filho de quatro anos e essa é uma condição que me transformou muito. Passei a ver o mundo não só com os meus olhos, mas também pelos olhos dele. Ao mesmo tempo sinto que o meu trabalho está a melhorar. Mas voltando ao que ando a ouvir posso dizer que o Mozart, o Miles Davis, e o John Coltrane me têm acompanhado bastante. É curioso porque sempre apreciei mais o Beethoven mas há três anos para cá comecei a ouvir Mozart com regularidade e descobri coisas fantásticas. Agora soa-me de uma maneira completamente diferente.
. Acha que é possível uma banda voltar a repetir uma situação como aquela que os Suicide viveram com “23 Minutes Over Brussels”?
- Não. Isso é totalmente impossível. Hoje já não se pode fazer ou dizer nada que consiga provocar as pessoas até esse ponto. Isso é, pelo menos, aquilo que eu penso. Não me parece que tal possa voltar a acontecer. A violência está em todo o lado, as pessoas vêem de tudo e já nada as pode salvar... (riso). Vivemos num mundo louco, repare na televisão e naquilo a que os miúdos estão expostos...
. Já não há então a possibilidade da música provocar um motim?
- Duvido. O que se pode fazer ainda?
. Se calhar permanecer quieto. Não fazer nada.
- Sim, é uma hipótese. Por falar nisso os Sex Pistols, num concerto em Nova Iorque, fizeram algo que eu sempre quis fazer. Permaneceram nos camarins enquanto eram filmados e no palco estava um écran que mostrava o que eles estavam a fazer. E isso era o concerto: os Sex Pistols sentados a conversar nos bastidores da acção. Nunca chegaram a aparecer em palco e provocaram, naturalmente, um motim. Portanto essa ideia é uma possibilidade: permanecer quieto no palco, um pouco como o John Cage. Eu porém não o faria. As pessoas pagam para nos ver e não vale a pena desapontá-las.
. Vão fazer digressões para promover o disco?
- Sim, vamos começar em Novembro com concertos em Londres, Berlim e Paris. Depois segue-se a Itália e mais tarde iniciaremos uma digressão pela América, que passará pelo Midwest e por Texas, onde já chegámos a tocar. Na verdade já não posso fazer tantas digressões como antigamente, devido às minhas responsabilidades paternais.


. Disse que os Suicide já tocaram no Texas. Como foram recebidos?
- De início pensei que nos iam matar. Fizemos lá um concerto, num festival, há cerca de uma ano e desconfiei mesmo que ia ser assassinado. Tocámos no mesmo palco que o Johnny Cash e o Willie Nelson, o que foi para nós uma honra, e descobrimos que a nossa audiência era muito jovem. Provavelmente a maioria daquele público ainda não tinha nascido quando os Suicide apareceram. Havia até pessoal envergando chapéus à cowboy e o sítio estava cheio. Nesse dia tocámos duas horas e de facto adoraram-nos. No Texas, quem diria!! E sabiam as letras das canções!! Ou seja os Suicide encontravam a sua audiência. 30 anos depois.
. Porque acha que a audiência era assim tão jovem?
- Acho que à medida que envelhecem, as pessoas acabam por assentar. Casam-se, têm filhos, arranjam empregos estáveis e deixam de ouvir música ou de seguir as bandas. A música é uma coisa jovem e rebelde que tendemos a fazer enquanto somos jovens. Quando envelhecemos deixamos de ouvir o que os putos andam a ouvir. Nos anos 70 passava horas a ouvir de tudo mas as coisas mudam. Ainda assim continuo sem saber porque razão há tantas pessoas a seguirem-nos.

José Marmeleira


THIS.CO
PROJECTO SONDA

Electrónica Do It Yourself
Projecto Sonda e Thisco são dois peculiares modos de estar no universo da electrónica nacional, dois portos de abrigo para uma série de projectos que, em conjunto, têm quebrado barreiras e, muito por culpa da sua atitude “Do It Yourself” (DIY), e persistência, sido capazes de inverter as regras do jogo. A Mondo Bizarre falou com Luís van S. e Fernando Cerqueira, respectivamente dos Sci-Fiction Industries e Ras.Al.Ghul, por parte da This.co e com David Banasulin, dos Ultimate Architects, em representação do projecto Sonda.







THIS.CO
. O que é a This.co?
L.v.S. - Uma editora totalmente independente nacional, por um lado. Por outro é um exercício de sado-masoquismo levado a cabo por todos os artistas que agregamos.
. O que levou à criação da This.co?
F.C. – A necessidade de dar um passo em frente, o que de certa forma veio a acontecer. Não em Portugal mas sim além fronteiras onde os Ras.Al.Ghul reforçam a sua posição e onde os Sci-Fi Industries são recebidos com excelentes críticas.
. Porquê a palavra This e porquê o simbolismo de lhe atribuem, inclusive a formas como “Thiscover” e “Thistroy”? E quanto à frase “Spread The Thisease”?
F.C. – Após vários anos infiltrado e contaminado por diferentes “caminhos” e organizações esotéricas/ocultistas bem como a minha necessidade de me comprometer socialmente, concebi This como uma alternativa consciente à vulgaridade reinante. O conceito This descreve-se como um organismo vivo de indivíduos dentro de um corpo invisível que tem como objectivo a não aceitação da alienação, conformismo, mediocridade e da apatia geral que consome os indivíduos na corrosão do desencanto, na melancolia do novo dia que nasce, numa indigna resignação, na raiva absurda de revoltas sem revolução. Spread the thisease – doença/vírus/propagação infecciosa/memes/contagioso padrão informativo que ao reproduzir-se, infecta a mente humana e altera-lhe o comportamento. Espalhem A Doença! Em This a simbologia tem a finalidade de nos fazer sentir interligados como um todo e ajudam-nos a comunicar uma ideia mais facilmente e reforçar a identidade, interpretada de forma diferentes por indivíduos diferentes.
. E porque optaram pela electrónica como modo de expressão?
L.v.S. – Quanto a mim resume-se ao facto de, após várias tentativas falhadas com bandas rock, verificar que as coisas nem sempre correm bem e que face a isso as pessoas tendem a deixar os ensaios e o trabalho do grupo para trás. Em contrapartida as máquinas não faltam aos ensaios, a criação surge espontaneamente, sem hora marcada. Mas posso assegurar que oiço muito mais rock ‘n’ roll alternativo que electrónica! A This.co está e tem estado disponível a outras formas de criação, vejam o caso de Matt Howden. Ser outsider é razão mais do que suficiente para ingressar nas nossas linhas.
. Acha que a política de “Faça Você Mesmo”, é, apesar de trabalhoso, artisticamente mais compensadora? E monetariamente?
L.v.S. – Sem dúvida! Se ficarmos à espera que alguém pegue no nosso trabalho neste país nunca sairíamos do quarto das máquinas! Gostaríamos de chegar ao maior número de pessoas possível, por isso todo o catálogo está disponível a nove euros, as vendas ainda são pouco significativas, mas o dinheiro não é motivação, ajuda apenas a concretizar sonhos.
. Como vê o facto d eo primeiro trabalho dos Sci-Fi Industries, “Dead People On Stylish Chairs” ter sido praticamente ignorado em Portugal mas extremamente louvado pela imprensa internacional mais ligada à electrónica?
L.v.S. – Portugal é o país do interruptor. Ora acende o pop desligando o rock, ora liga o house apagando o breakbeat, e assim sucessivamente, dando a ideia que o resto do mundo faz o mesmo. Lá fora as pessoas estão mais receptivas fazendo uso de critérios pessoais sem ter de fazer tábua rasa, como cá. Na corrente electrónica todos diziam ter o jazz como referência, agora não vivem sem os ritmos brasileiros, muito em breve todos dirão ter ficado marcados pelas bandas dos anos 80! Que conveniente! A imprensa internacional realçou efectivamente o facto de ser uma sonoridade nova e exótica, vinda de um país que não tem historial além fronteiras. Os Ras.Al.Ghul e Sci-Fi Industries tiram partido disso e convidam outros projectos a fazer o mesmo.
. A ignorância a que o seu primeiro disco foi votado não o impediu de lançar recentemente um segundo álbum, “Architectural Development”. A que se deve tal perseverança?
L.v.S. – Não posso desistir só porque estou invisível!! Aliás, a This.com tem primado pela invisibilidade em Portugal enquanto já goza de credibilidade na Europa. Há inclusive lojas da nossa capital, e com responsabilidade editorial, que nos vedam a venda! Sou um pintor impelido pela necessidade de criar, podendo nunca vir a vender uma tela sequer. Para agora seria dar razão aos que nos ignoram, desiludindo todos aqueles que nos apoiam cá, e especialmente, lá fora.
. Como é que os Ras.Al.Ghul chegaram até à editora espanhola Testinground?
F.C. – A Testinground andava à procura de novos grupos e como eles são amigos dos organizadores de um concerto nosso em Barcelona, os mesmos deram-lhes discos nossos, a Testinground mostrou-se interessada e o resto aconteceu naturalmente.
. Como explicaria as compilações da This.co a alguém que não está familiarizado com os projectos aí incluídos?
L.v.S. – São resultado do intercâmbio dos Ras.Al.Ghul, do Fernando em particular, com uma série de artistas e projectos mundiais, muitos deles de renome, que nos têm enviado criações suas sem qualquer tipo de condicionalismos estéticos. Poderão ficar com a ideia de alguma aleatoriedade, mas o facto é que os CDs representam uma enorme fatia da criação electrónica contemporânea, verdadeiramente underground, livre e libertária.
. Que recepção obteve a primeira compilação da This.co? Quais são as grandes mudanças entre o primeiro e o segundo volume da compilação?
L.v.S. – As reacções foram muito boas! Column One e Marc Wannabe figuraram algumas semanas (após o lançamento do CD “Thisconnected” na revista Wire), num especial sobre a nova electrónica de Berlim, o que nos realçou lá fora! A segunda compilação “Thisoriented” é mais negra e paradoxalmente mais pesada e acelerada. Penso que os trabalhos dos artistas convidados reflectem bem o estado de espírito da This.co criando uma atmosfera desconcertante. A capa volta a enganar aqueles que se deixam guiar pelas aparências: na “Thisconnected” as pessoas pensavam em metal/dark/industrial e nesta o layout sugere algo diferente, tipo “Warp”. A não existência de uma linha estética é só por si uma linha estética.
. Quais as dificuldades que têm encontrado para apresentar ao vivo os projectos da This.co?
L.v.S. – As dificuldades surgem, principalmente por não existirem locais. As salas desapareceram, os clubes nunca existiram, os bares preferem o DJ e o conceito de concerto está resumido às prestações de bandas. Um tipo com uma série de máquinas, que não põe obrigatoriamente as pessoas a dançar, não goza de muita credibilidade. Ora aqui estão mais uma série de bons motivos para continuar!


PROJECTO SONDA


. Como e quando nasceu o projecto Sonda?
- A ideia já existia desde finais de 2001, entre mim e o Bernardo Barata (baixista de José Castro e manager de TV Rural). Formalizou-se em Maio de 2002.
. Porque optaram por uma edição conjunta?
- Esta edição é um sampler caseiro, que pretende dar uma amostra das diferentes vertentes de cada banda. Daí que tenhamos resolvido colocar 2 temas de cada projecto.
. O que levou à inclusão destes quatro projectos – Asiouasi, Zé Castro, The Ultimate Architects, TV Rural -, e não de outros?
- A existência de cumplicidade entre todos. Em determinada altura já todos tocámos uns com os outros e às tantas, íamos asistir aos concertos uns dos outros... até que resolvemos assumir uma forma de colectividade.
. Porquê a vertente electrónica como modo de expressão?
Para os Ultimate Architects a electrónica representa uma espécie de “ver e sentir a quatro dimensões”, em relação ao espectro normal de três dimensões que rege os nossos sentidos. É um “admirável mundo novo” à espera de ser manipulado, explorado mas, sempre com um sentido de equilíbrio.
. Quais têm sido as reacções ao disco? Acha que há espaço no mercado e no mundo da música nacional para um projecto deste género?
- As reacções que me chegam são bastante boas e faço esta medição pela quantidade de pessoas com gostos e ideologias musicais distintas que estimam este trabalho. Dá-me uma grande satisfação atingir este cruzamento de pessoas. Acho que existe um nicho de mercado em Portugal para este tipo de projecto. A electrónica tem vindo a abrir portas há três anos e a prova disso são espaços como o Frágil, Incógnito, Maus Hábitos, etc. que têm feito algumas acções com bandas desta vertente.
. Acha que a política de “Faça Você Mesmo”, é, apesar de trabalhosa, artisticamente mais compensadora? E monetariamente?
- É trabalhosa, sim. E muito mais, sem sacrifício não se vai a lado algum. É compensadora no sentido em que quando alcançamos alguma coisa, sabemos que se deve só a nós e ao nosso esforço. Sentimos o ímpeto de continuar. Quanto à parte financeira, ninguém se mete na música pelo dinheiro (pelo menos no nosso cantinho, em Portugal). Até podermos física, mental e humanamente, continuaremos a nossa luta.
. Porque optaram os Ultimate Architects pela recuperação e reactualização da electrónica de cariz mais sombrio dos anos oitenta?
- O lado negro da arte foi algo que sempre me atraiu, seja pintura, poesia, cinema. Todos nós, em maior ou menor grau, somos atraídos pelo lado mais obscuro das coisas que nos rodeiam. A questão é que nós demonstramo-lo sem preconceitos e receios. Quanto aos anos 80 (electro) é uma referência incontornável.
. O que representa para si o facto de os Ultimate Architects terem sido convidados para integrar a colectânea de projectos nacionais da This.co?
- É um sinal de que, “nas sombras da indiferença, algo se move”. É uma grande honra podermos estar presentes numa compilação feita por pessoas que, assim como nós, se deparam com imensas dificuldades. Mas, o desejo que as move é o mesmo que nos move e faremos tudo para estar e participar na divulgação da electrónica do nosso país.
. Há alguma razão especial para o modo como os Ultimate Architects se apresentam em palco – com camisas escuras meticulosamente engomadas e gravatas?
- Pretendemos recriar um imaginário que primava pelo gosto estético e representava um determinado período de grande proliferação e experimentação musical. É uma homenagem, de certa forma, aos pioneiros dos anos 80, servindo de desculpa ao mesmo tempo para cada um de nós encarnar uma personagem do universo arquitectónico.
. Quais as dificuldades que tem encontrado para apresentar ao vivo os projectos da Sonda?
- Todas e mais algumas mas, temos que agradecer a alguns media que nos têm “estendido a mão”. A FNAC surge também como um local obrigatório de passagem pela abertura e mentalidade que tem e estão a fazer o que muitos media não fazem: apoio à música portuguesa independente do género e credo. Como sabemos não há muitos espaços para apresentações ao vivo mas... vamos criá-los. Este ano vamos fechar o circuito FNAC, Frágil e Maus Hábitos. Para o ano estamos a planear fazer um Festival Sonda.

Raquel Pinheiro








10.12.14

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (8) - Mondo Bizarre - Nº 6 - Fevereiro de 2001


Mondo Bizarre
Nº6
Fevereiro de 2001
Revista Trimestral - Portugal

A apresentação deste fanzine / magazine / revista já foi feito neste post.


THE FALL

A Luta Continua

Com uma existência que remonta ao final dos anos setenta e com dezenas de álbuns no activo, o que não é coisa que se encontre todos os dias, os The Fall, de Mark E. Smith, são uma raridade. Seja pela longevidade, seja pelo carácter irascível do seu líder. "The Unutterable", saído no final do ano passado, mantêm toda a fúria dos primeiros discos.


Em 1977 Manchester era um fervilhar de bandas, ideias, acontecimentos. Rapidamente a cidade se tornou um dos centros do punk e da new wave britânica, dando ao mundo os Joy Division, os Buzzcocks, e os Fall. Com um nome tirado do livro homónimo de Camus, os Fall (ou seja, A Queda), tiveram em "Short Circuit, Live At The Electric Circus", um disco que se tornou um marco do espírito manchesteriano da altura, a sua primeira exposição pública. Seguiu-se "Live At The Witch Trial", o álbum de estreia, que era um chinfrim desenfreado e descoordenado. Depois vem "Dragnet", o primeiro mergulho dos Fall no universo da dança, aqui em estado latente. A seguinte a realização do grupo digna de nota é "Xex Induction Hour", disco onde a paranóia sonora é domesticada e transformada em canções hipnóticas e ritmadas. "Perverted By Language" e "The Wonderfull and Frightening World Of The Fall", dois trabalhos de raiz mais pop, muito influenciados pela então mulher de Mark, Brix E. Smith.
1985 é o ano de "This Nation Saving Grace", o disco mais emblemático da banda. Manifesto político, saído da cabeça de Mark ao observar a Inglaterra infeliz e quase destruída de Margaret Tatcher, "This Nation Saving Grace" é a primeira síntese coerente entre o rock áspero, visceral e sórdido dos Fall com os sintetizadores, tudo condimentado por guitarras ferozmente sónicas. E a política continua a ser o mote de "Bend Sinister" um regresso ao som sujo e pouco sofisticado dos primeiros tempos. "Extricate" de 1990 é o paraíso dos sintetizadores e caixas de ritmos e abre caminho para este "The Unutterable". "The Unutterable" saído no final do ano passado, é uma súmula dos sons praticados pelos Fall ao longo dos seus 23 anos de carreira. As guitarras rugem sob um fundo maciçamente electrónico e dançável por cima do qual Mark E. Smith continua a cuspir as suas vítriolicas letras. Os Fall nunca tiveram uma carreira de sucesso, nunca arrebataram os primeiros lugares do top mas permanecem uma referência incontornável da música britânica. Presume-se que assim será até ao dia da morte de Mark E. Smith.



Raquel Pinheiro

 





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