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3.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (126) - Música & Som #71


Música & Som
Nº 71
Março de 1982
Publicação Mensal
Esc. 80$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.

A Renovação da Música Popular Portuguesa (II), por António Candeias

O Rock Em Portugal

Penetrando na espiral de confusões, em que nos encontramos, estaremos nós a tentar separar coisa difíceis de separar, ou juntar coisas impossíveis de juntar?
Talvez a ideia que nós quiséssemos sublinhar e deixar bem claro, é que uma sociedade não pode existir como uma junção de bocados, estilos, culturas e ideias estanques entre si, sendo um dos aspectos mais importantes que definem a flexibilidade, maleabilidade e riqueza desta sociedade de que tanto se fala, o grau de permeabilidade e troca existente entre os diversos componentes que a definem.
A rotura entre determinados tipos de fenómenos sociais, culturais e políticos no seio de uma sociedade, existe e é por vezes, historicamente necessária.
Sem negar a especificidade, por exemplo, de um tipo de cultura, especificidade essa que se prende, entre outros aspectos e variáveis sociais etnológicas e de meio, será também necessário evidenciar o papel de combate político que a palavra «cultura» tem subjacente.
Esse papel é intensificado em tempos históricos determinados, em tempos históricos em que a palavra se vira para uma acção de combate, uma acção quase pedagógica, palavra extremamente dúbia e perigosa neste contexto. Mas é preciso compreender que fora destas alturas uma acção de combate cultural directa e imediatista, corre frequentemente o risco de se esvaziar em estereótipos que pouco t~em a ver com a realidade do dia-a-dia, num quotidiano em que a revolução imediata deixa de ter sentido, numa época em que a pausa e o questionamento crítico de um passado recente são tão necessários, como a tentativa de compreensão, de novos fenómenos sociais que crescem numa desordem para nós aparente e caótica.
Novas coisas, não previstas, tidas como ridiculamente proféticas e desprovidas, portanto, de um mínimo de credibilidade, acontecem e desabrocham rompendo tecidos e malhas de ideias ideológicas e esquemas, que, estafadamente, com a língua de fora tentam desesperadamente, integrá-las e assimilá-las, para talvez melhor as destruir.
Só que a realidade não é facilmente passível de ser destruída pelas ideias ao passo que o contrário talvez seja mais fácil, óbvio e necessário.
As pessoas que tinham dezoito anos no 25 de Abril, têm hoje 26, as pessoas que tinham 18 anos no Maio de 68 têm hoje 32 e as pessoas que hoje têm dezoito anos tinham 4 no Maio de 68 e 10 no 25 de Abril. Brinquemos! Brinquemos com números, datas, somas multiplicações e subtracções. Dividamos tudo isto por 0 (zero) e teremos um resultado inexistente e impossível.
0 (zero) foi o que muitos de nós tivemos mas sobretudo o que muitos de vós desta nossa querida terra tiveram, ao verem a Primavera de 68 por um binóculo censurado, ao som vago e distante do «Blonde on Blonde» e do «Sgt. Pepers Lonely Heart Club Band», tudo isto misturado com o ruído fragoso duma cadeira partida que determinou o começo do fim da pré-história das cerejas e das Cerejeiras.
Mas as palavras vêem, e a confusão parece instalar-se num artigo que tenta falar de música, e, que existe numa revista de divulgação musical. Sim, porque, que histórias são essas, de permeabilidade social, cultura de combate, roturas, torturas, números, idades, subtracções, divisões e cerejas?
É que isto é música! (É de mais!). Quer dizer, não é bem música, mas são coisas que aconteceram a muitas pessoas que fizeram, fazem, ouviram e ouvem música.
Questões como permeabilidade, troca, cultura e outras quejandas, podem começara a ser percebidas neste contexto, de uma forma muito simples. Por exemplo, através de uma conversa amena que fomos ouvindo, durante um não menos ameno jantar, em que havia músicos, críticos, amigos e outras coisas do género. Nesse jantar, às tantas o vocalista e compositor de um dos melhores grupos de Rock em Portugal, dizia o seguinte: «... Os músicos de rock, são os músicos que, hoje, em Portugal, ouvem mais tipos de música diferentes. Ouço os Telephone, os Clash, os Rolling Stones, a Brigada Victor Jara, os Trovante, o Sérgio Godinho; Zeca Afonso, Fausto, etc... Duvido muito que eles nos ouçam a nós...»
Pois é! É mesmo provável que os «outros» os não ouçam a eles! É mesmo provável que as pessoas que na década de 60-70, mais contribuíram para a renovação da música popular portuguesa, não ouçam alguns dos mais importantes compositores e eles próprios renovadores, da música portuguesa contemporânea, actual, de HOJE.
Mas como chamar música portuguesa a essa música que adopta a estrutura da música rock, estrutura essa, que como é óbvio, pouco tem a ver com a música portuguesa TRADICIONAL?
Bom, tenhamos um pouco de calma e sejamos realistas! Esta música que nos vem dos anglo-saxões lá de cima e dos seus descendentes e ex-escravos do lado de lá do Atlântico, é um tipo de música que existe em Portugal há já muitos anos, e que por cá deixou qualquer coisa, talvez não tanto como os romanos, mas... ainda assim, ficou cá qualquer coisa.
Talvez de uma forma algo confusa, que teve a ver com sentimentos ambíguos de identificação a uma realidade imaginada de liberdade e criação que se misturava a uma recusa difusa de ver e agir sobre o que à nossa volta se passava.
Quase que em determinada altura, em que o sectarismo cego face a outras formas musicais, era bem patente em muita gente, quase diríamos nós, que se poderia falar de uma subserviência colonial face ao que vinha cantando em língua inglesa.
Era, talvez, qualquer coisa do género da actual subserviência face àquela manta de retalhos em crise que insiste em chamar-se Comunidade Económica Europeia (C.E.E.).
Era tudo muito estranho e parecia existir em sonhos, visto que nessas produções se falavam de problemas que no nosso caso, aqui em Portugal, só poderiam existir ao nível do imaginário. Mas talvez o desejo de que existissem fosse tão grande, que valesse a pena alucinar. E creio que, a princípio, tratava-se de facto de uma alucinação, de uma miragem, de qualquer coisa bela e longínqua, de uma verdadeira e patológica alucinação. A princípio!
E talvez porque a alucinação e o imaginário são de facto necessários, o facto é que a música que era associada a essas alucinações, foi por cá ficando, continuando quase sempre, no entanto, a vir-nos de fora.
Os grupos de rock, vegetavam entre os concertos de finalistas onde tentavam reproduzir os «Rolling Stones» com fracos e patéticos resultados, mergulhados num amadorismo hesitante, com algumas pretensões a algo mais, sem no entanto se perceber bem em que é que consistia esse algo mais.
Que se passou para que isso se modificasse?
É difícil hoje, analisar esta questão sem nos arriscarmos a limitar e a deturpar os fenómenos sociais, que, na nossa opinião contribuíram para que esta situação se alterasse.
Apontemos, como pistas possíveis de trabalho, três tipos de questões a ter em conta, e que aparecem amplamente ligadas entre si.
A falência a nível de propostas políticas, sociais e culturais da esquerda portuguesa do 25 de Abril, que não soube dar vazão à generosidade e entusiasmo que a juventude lhe cedeu, o que acabou por se traduzir, entre outras coisas, pelo aparecimento em força do rock, apoiado na chuva de concertos de grupos estrangeiros. Lembremo-nos da avalanche de concertos dos anos 77/78/79, e os autênticos fenómenos de massas, que a nível da juventude, se deram, face a esses mesmos concertos.
A par de programas de Rádio (o «Rotação» da R.R., o «Soltem o Rock» e, mais tarde, o «Rock em Stock») cuja audiência e qualidade constituíram verdadeiras inovações, esses concertos, que deram á juventude portuguesa a sensação de que, finalmente, esse fenómeno que nos anos 60 se passava lá longe, lhes estava agora à mão de semear, foram extremamente importantes para que o rock, a nível musical e fenomenológico, fosse introjectado, adaptando-se a uma vivência extremamente problemática que «encaixava» perfeitamente com a violência das atitudes e sons que caracterizavam tal tipo de música.
E aqui, entramos no segundo aspecto que consideramos essencial para a compreensão desse fenómeno que foi a «instalação» do Rock em Portugal.
Do ponto de vista da evolução de uma estrutura social, um dos problemas mais graves que se põe, é a irrupção de um processo revolucionário que não consegue levar até ao fim a sua própria lógica e programa. Sem entrarmos em conta com apreciações sobre o próprio conteúdo desse programa, o facto, em si, de uma revolução inacabada, revela-se quase sempre catastrófico, face àqueles que não puderam acompanhar o aparecimento e evolução de tal fenómeno.
Ao ir suficientemente longe para destruir uma parte importante das estruturas do «Antigo Regime», faltando-lhe, no entanto, o «fôlego», a razão ou a força, para a construção do seu próprio programa, um processo deste tipo, acaba por dar origem a um vazio e a um impasse que se traduz a nível institucional, por uma confusão totalmente falha de coerência, cujas primeiras vítimas são precisamente as gerações que não puderam acompanhar, e portanto compreender a «Revolução».
E, uma das primeiras instituições a sentir o peso das ambiguidades e confusões que advêm deste tipo de situações, é sem dúvida a escola. A escola onde se encontra a maior parte da juventude deste País.
A escola deixa de ter saída para a Universidade, em que pouco se tocou, e o desemprego acentua-se, atingindo sobretudo os que ainda não estão a trabalhar, nem têm habilitações para ocupar cargos médios e superiores da estrutura social de um País.
Suportados financeiramente por famílias, que organizaram o seu pecúlio nos finais da década Marcelista e que com a revolução vêem o seu poder económico momentaneamente acrescido, esses jovens subsistem, com um vazio de perspectivas, mas com a necessidade de preencherem o seu futuro seja de que forma fôr, e quanto mais fácil e imediato, melhor: é aquilo que poderemos chamar necessidade de um escape, que a função, de início alienante, do rock, veio preencher.
De qualquer forma, como oposição a uma situação globalmente difícil e hostil, o jovem afirma-se filiando-se numa corrente de «atitudes» de contestação global, e por isso mesmo, de início, vaga, em que a identificação com os seus «pares» toma um papel de importância decisiva.
Essa identificação processa-se de diversas formas, tais como o tipo de indumentária adaptada, e, neste caso específico, a música que se ouve e que se discute. E essa música como atrás foi dito, adapta-se perfeitamente à vivência quotidiana da juventude dos nossos dias, e é por isso que ela a escolhe e integra. E uma das razões porque ela é escolhida, é pelo aspecto que ela toma, um aspecto de combate e luta que se traduz nas atitudes dos seus intérpretes e na violência mesmo a nível sonoro e de estrutura que a caracteriza. É portanto o começo de uma música de protesto. O começo, dizíamos nós. Porque, aqui vem o 3º componente de que atrás falávamos: as palavras.
Quando o Rui Veloso, autor que se considera apolítico, publica o seu primeiro álbum, onde retrata irónica mas «acidamente» o «freak da cantareira» e a «menina do shoping» e produz modelos de identificação, modelos esses que se caracterizam pela ambiguidade de sentimentos como o carinho implícito pelo «freak», e a descrição algo dura da «menina do shoping», ele produz uma revolução político-musical importante a nível de quem o ouve: As palavras são acessíveis, quanto mais não seja porque escritas em português, o texto tem uma certa qualidade, a realidade descrita nesses textos é uma realidade do quotidiano, e esses textos, quer o autor queira ou não, são tudo menos passivos.
Trata-se aqui, na nossa opinião, do primeiro passo para a construção de textos de combates, num combate que toma formas diferentes de combate tradicional, antigo e estafado, e que, por isso mesmo, se torna mais eficaz e importante.
E ao mesmo tempo que o Rui Veloso era ouvido na rádio, os UHF, insistindo na sua longa caminhada pelas estradas deste país, popularizavam esses históricos «Cavalos de Corrida», texto mais combativo e ácido, que se encaixava num grupo que se queria marginal, marginal face a tudo menos aos jovens que os ouviam; formavam-se os Salada de Frutas, e temas como o «Chui de Choque» e «Robot» eram assimilados e ouvidos por toda essa gente que queria ter entrada nos concertos de Cascais e que tinha levado com um chui de choque em cima para lhe mostrar que o rock também é político. Político, no sentido em que a juventude assusta e atemoriza os guardiões do Dogma (seja ele qual for) que não hesitam em lhe atirar com os seus cães de guarda para cima.
E os grupos formam-se, os textos desenham-se e a música rock, que nos anos 70, nada mais parecia senão um escape, vai-e de facto definindo como uma música de combate, dum novo, irónico e ácido combate que não perdoa instituições e guardiões das nossas queridas ideias e morais: os GNR aparecem, cáusticos, cínicos, com textos corrosivos, e a Guarda tenta boicotar-lhes os concertos. Tudo incomoda neste novo tipo de músicos: as atitudes provocatórias, a adesão que mostra que eles não estão sózinhos, a música algo violenta e que sempre provocou arrepios de cólera mal disfarçada por parte das cabeças bem pensantes que há muito que deixaram de pensar, e esses textos que não perdoam aquilo que nós sempre detestámos, e que melhor que nós, eles sabem denunciar, despir e ridicularizar.
Os G.N.R. atiram com o mito da C.E.E. para a lama, e deitam a língua de fora aos bonés salazaristas dos Guardas; os «Street Kids» fazem um realíssimo e desdenhoso manguito à tropa, e assim vai a música rock em Portugal, em gincanas bem humoradas e destrutivas, entre os escolhos das instituições, e os urros coléricos dos bastões da felicidade cobertos de flores sangrentas e podres dos que os empunham e impunemente os usam nas costas de quem não é (nem quer ser) como eles.
Portanto, claramente, e como é ÓBVIO, o chamado rock português, não é português visto que os seus textos se referem a países tal como o Burundi, Camarões, Filipinas e Madagáscar; é uma música alienante e reaccionária que tem como modelo o «Horst Wessel», o hino da Falange e canta loas ao Pinochet, ao Staline e aos outros todos; trata-se finalmente de uma importação do estrangeiro, tal como os Romanos, Cartagineses, Celtas e Árabes, que, como todos sabemos, nunca por cá estiveram, nem deixaram o que quer que seja em termos de produções e influências culturais e linguísticas; além do mais como ninguém ouvia rock cá em Portugal, antes destes estrangeirados pagos pela C.I.A. cá apareceram, torna-se óbvio que temos que recuar às músicas tocadas por Viriato e o seu alegre grupo e que para cúmulo e desgraça do nosso amor patriótico, está OH DESGRAÇA! sepultado em Espanha!
Portanto, e para acabar, resumamos e concluamos:
a) O «Rock» português, existe, é português, e é popular.
b) Nasce de uma série de influências musicais de origem anglo-saxona e os seus textos têm referências e ligações com a canção de protesto, de origem universal.
c) É um óptimo revelador social de uma parte viva e importante da população portuguesa: a juventude.
d) É uma das formas musicais mais actuantes, e renovadoras desse todo dividido em partes, que poderemos chamar de Música Popular Portuguesa.
Se este tipo de coisas o interessam, não perca, portanto a próxima provocação sobre a mundialmente famosa M.P.P.


Entrevista, por Pedro Ferreira
Raincoats
«A Música também Pode Provocar»




Encontrámo-las na casa do João, ali para o Bairro Alto. Na altura em que entrei na sala, deliciavam-se a ver os retratos que a Cristina tinha feito delas e da sua comitiva: a lápis de cera, traço incisivo e contínuo, cores fortes, contrastantes, colocadas sobre o branco do papel pelo seu puro valor visual. Uma sensibilidade despojada, sem terceira dimensão, mais sugestiva que descritiva. Uma actividade prolífica, a julgar pelo número de desenhos incluídos no bloco. Um talento imprevisto: estamos sempre a aprender.
A entrevista era o passatempo seguinte: Eu era «o banqueiro» deste monopólio desigual. À espera que eu distribuísse as primeiras cartas, a Shirley, a Vicky, a Ana e a Gina endireitavam-se nas cadeiras, desafiando-me.
- «Estamos prontas», avisavam. Eu só queria conversar. Que tal se começássemos pelos concertos havidos no Porto, Coimbra e na Festa da «Música & Som»?
- «No Porto foi melhor, havia um público misturado; em Coimbra eram só rapazes novos. Mas foi bom - batiam palmas ao mesmo tempo, é a maneira portuguesa de participar.»
É o pouco que sabemos fazer - bater palmas. Mas não acho que seja a melhor maneira de sentir a música das Raincoats. Terão elas a consciência das limitações do público na apreensão da sua mensagem?
- «A nossa música pode ser acessível, mas não é exigível que as pessoas gostem dela à primeira. Leva o seu tempo. Não temos uma atitude vanguardista, nem a nossa música é de vanguarda. Mas também não deixamos de seguir o nosso caminho, só para nos conformarmos aos cânones vigentes. Aliás, a reacção do público depende do contexto que acompanha a música, não depende só da música. E a música pode comunicar a vários níveis, não é necessário apreendê-la a um nível predominantemente intelectual, e por isso não pensamos que o nosso público seja necessariamente intelectual; o público tem diferentes maneiras de gozar o que fazemos. Mas, sem deixar de ser acessível, a música pode também ser provocante.»
Música provocante, sem deixar de ser acessível; uma música que provoca, também, reacções negativas de profissionais da música. O que têm elas a dizer da acusação de incompetência instrumental e musical?
- «Essa crítica provém de uma atitude académica e não democrática de abordar a música, porque pressupõe a necessidade de especialização, a primazia da técnica, a restrição da competência criativa. Para nós, o principal é comunicar o que se tem para comunicar, e isto tanto pode ser feito com uma técnica primitiva, como não.»
Mas talvez esta posição tenha telhados de vidro: elas sabem, ao menos, o que se entende por técnica e por formação musicais?
Sabem, já que Vicky é música profissional. A questão é outra: como transcender a aprendizagem dos clichés? Como fazer a música servir a criação? Como emancipar a técnica? Eu confesso-me perdido nesse labirinto de tradições, lacunas, (de)formações, urgências interiores, sedes de integração, ideias de som, dúvidas quanto ao sentido, a História e a Razão, a Vida e a Paixão, o caminhar e o ser, Monteverdi e a Mãe. ESTAR EM GRUPO: qual a importância do encontro na música das Raincoats? Sozinhas, teriam chegado aonde chegaram? Não teriam sido dominadas pela música institucional? Não teriam deixado de descobrir a Arte?
Vicky - «A Ana e a Gina aprenderam música a tocar no grupo, abordaram-na do lado dos sons e dos sentimentos, não passaram pela técnica - por isso, no seu caso, só podemos especular. Mas no meu, sucedeu o contrário: tive de aprender a não tocar demasiado. Este grupo tornou-o possível - já tinha tocado noutros grupos antes, e não tinha achado a maneira de me emancipar.»
Então há uma diferença entre este e os outros grupos. Talvez as Raincoats não sejam só um grupo de música...
- «Temos uma maneira unificada de trabalhar, mas que vai para além da música. Temos uma visão geral das coisas que é comum; é assim uma espécie de humanismo, que cada um de nós sente politicamente de forma diferente. Temos um horizonte e uma comum necessidade de trabalhar nessa direcção.»
Mas isso será assim tão simples? Em Portugal, depois do 25 de Abril, todo o peso da tradição cristã se fez sentir na maneira como as pessoas se deixavam, ou não, interagir: exigiu-se um ponto de referência estável - uma ideologia política, um Bíblia, um ideal de relacionamento humano, um ideal de alimentação - e, com o julgamento / reunião / autocrítica / revisão-de-vida assim fundado, explorou-se ao máximo a polaridade dever-culpa, em detrimento da natural assimetria, da natural não universalidade, das formas de relacionamento colectivo. Um grupo eras, assim, submetido a um esquema simplificador, pretensamente alternativo, desejavelmente multiplicável, concorrente do núcleo familiar, mas assumindo, ao contrário deste, uma autoridade abstracta, facilmente corporizável em directivas de aparelho.
Foram comunidades de base, foram células de partido, foram cooperativas, foram agregados informais.
Podiam ter sido grupos de rock.
Em Inglaterra não houve tanta urgência. Mas pululam ideologias. Como tem sido convosco?
- «A atitude é não ter UMA atitude. Temos códigos de valores pessoais, não um código de grupo. Não conversamos entre nós para satisfazer uma qualquer exigência moral exterior, fazêmo-lo voluntariamente, como parte do nosso processo. E não achamos que as coisas se devam conformar a um qualquer ideal apriorístico. Temos até consciência dos riscos que envolve querer romper, a todo o custo, com os habituais modelos de comportamento, com a família; há gente que anda perdida, confusa, e acaba por criar famílias alternativas, por sentir a falta da afecção e protecção familiares. O equilíbrio entre o individual e o social é difícil de conseguir.»
Esta ausência de PRECONCEITO estende-se também, à música: pode aprender-se com toda a gente, não é preciso, nem desejável cingir-se a uma só forma de música. Mas há Pré-conceito, e Pré-visão. Haverá total coincidência entre intenção e resultado musicais? Não existirão limites à vossa capacidade criativa, motivada precisamente pela dependência entre imaginação e concretização, entre intenção e técnica? Ou esta dificuldade não se faz sentir?
VICKY - Sim, eu sinto-a.
GINA - Eu não.
ANA (aceitando o jogo) - De vez em quando.
VICKY - Mas eu sinto que o que fazemos podia ser melhor, podia...
ANA - Não se pode isolar o resultado do processo de fazer as coisas. Eu não me sinto frustrada pelo que faço no grupo, sinto o processo não como uma limitação, mas como um estádio.
GINA - Mesmo que quisesse não conseguia imaginar um LP antes de ter começado a fazê-lo.
VICKY - Eu também não, mas mesmo assim há um fosso entre intenção e resultado... Sinto-me continuamente frustrada...
SHIRLEY, ANA e GINA, em coro - OOOHHH, coitadinha!
VICKY - É como numa conversa: nunca tenho uma conversa em que não sinta que podia ter comunicado melhor.
GINA - Precisamente, eu sinto isso na conversa, mas não na música.
VICKY - É verdade que se não procurássemos realizar uma ideia, as coisas não aconteceriam... mas podiam acontecer mais satisfatoriamente.
ANA - Mas eu não sinto isso como frustração: acho é que da próxima vez será melhor ainda.
M&S - Posso sugerir que a Vicky sente isso, e vocês outras não, porque tem treino musical? Como assimilou mais profundamente a linguagem musical, pode mais facilmente pensar a música, pode mais facilmente tencionar a música, porque a intenção é a projecção de uma possibilidade concreta dada pela linguagem. Talvez o que provoque o sentimento de Vicky seja a sua maior consciência do lugar que deviam ocupar, no sistema da linguagem musical utilizada, os acontecimentos sonoros a que vocês dão origem no vosso trabalho.
VICKY - Pode ser. Pode Ser. Mas também sou eu.
ANA - Não fiques deprimida. Qualquer dia aprendes. A gente ensina-te!



Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. Barbaridades, Paixões e Ovnis, artigo de Célia Pedroso sobre os "The Passions"
. Discos em Análise:
.. Júlio Pereira - «Cavaquinho» [Diapasão DIAP 20001], por Carlos Marinho Falcão
. Siouxsie & The Banshees - «Juju» [Polydor 2383 610], por Ana Rocha
. Yes - «Yesshows» [Atlantic 60142], por José Ângelo Guerreiro
...&Som
. Princípios Dos Microfones
.. Microfone de carvão
.. Microfone electrodinâmico ou de bobina móvel
.. Microfone de fita ou de velocidade
.. Microfone piezoeléctrico ou de cristal
.. Microfone electrostático ou de condensador
.. Microfone de electreto





2.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (125) - Música & Som #70


Música & Som
Nº 70
Fevereiro de 1982

Publicação Mensal
Esc. 100$00
Especial 5º Aniversário

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
72 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.


Nós,
Vistos Por... Nós

...
Calamity Mike, por Ana Rocha



Há pouco menos de dois anos, entrou uma criatura no camarim da Lene Lovich. Copinho de leite, de branco da cabeça aos pés, um cabelo cortado à escovinha, óculos de aros dourados pousados no topo de um grande apêndice nasal, em poucos segundos já estava a trocar impressões com a Lene. Essa cena ficou-me na memória. Não sabia quem era, nem donde tinha surgido. Passados meses, o João Gobern durante o concerto do Steve Harley apontou-me a mesma figura que, desta vez, ocupava um dos camarotes do Dramático de Cascais e informou-me de quem se tratava. Cruzávamo-nos em todos os concertos, enfardávamos a pastelada que nos punham à frente em cocktails para os órgãos de imprensa, sempre que se deslocava a Portugal alguma bandazinha da estranja, cumpríamos as tarefas de que éramos incumbidos (entrevistas e/ou reportagens). A dado momento, o MEC entrou para a M&S. De quando em vez via-o, no cinema, no teatro ou na revista, com uma pastazinha zelosamente transportada, circunspecto e delicado, de uma brancura imaculada, lábio grosso esboçando um sorriso aqui e ali, olho a brilhar por detrás da lente, algo macerado devido às vigílias, pensei eu.
O Chefe, entretanto, encomendou-me uma prosa sobre o MEC. Nessa noite, durante a reunião da redacção, eu sentia-me tão enevoada e ramelosa que não teria reconhecido o Mocas Jagger nú, do outro lado da porta. Daí que assenti, não disse nem ai nem ui, pensando que era apenas mais uma das brincadeiras do Big Brother & Holding Company. Não pensei mais no assunto, Passado este tempo todo, dizem-me que, afinal, era a sério. Eu comecei a consultar a minha memória e a de algumas pessoas que conhecem o MEC. Lembrei-me de uma bruta feijoada que dei há alguns meses chez moi onde compareceu a redacção em peso da M&S e onde o MEC, tal como os outros, se refastelou com o petisco. O Guilherme Valente dizia-me que o gajo era porreiro, muito competente e muito educado (Ó Mike por esta não esperavas tu!...). Nesse mesmo dia, o António Martinho dizia-me que tu dormias uma média de duas-três horas por noite. O Jaime, o Cowboy do Meio-Dia, contava-me que tu lhe aparecias lá na rádio com uns casacos indescritíveis, de xadrez, e com umas pantalonas igualmente excêntricas! E vinha-me à memória um artigo feito na altura da estada dos Police aqui em Lisboa no qual tu bramavas, todo escamado, por uma coisa que já não me recordo. Lembro-me que quando acabei de o ler, já estava com água pelos joelhos de tantas piadas...
Não sei mais que te diga. Até porque este tipo de prosas é sempre mais ou menos embaraçoso. Ou dizemos a mais, ou a menos, ou só dizemos aquilo que não era suposto dizer. Sei (e disso não tenho a mínima dúvida) é que, por detrás desse aspecto menineiro, esbranquiçado e imberbe, fervilha uma massa cinzenta que o está sempre a contrariar. Eh pá, scusa, porca miséria, a memória não dá para mais, também não queias mais nada, já agora era de uma cajadada, fazia-te o elogio assim do pé para a mão, e não falava da tua voracidade de pastéis e canapés, bolinhos e biscoitos, bem, não digo mais nada, arriverdecci...
Ana Rocha

...


Entrevista
Nós Estamos Muito Na Moda
Entrevista com Ana Da Silva (Raincoats)
por Ana Rocha



Foi num fim de tarde chuvoso que decorreu esta conversa com Ana da Silva, um dos elementos das Raincoats. Meditativa, pesando bem todas as palavras, escolhendo os termos que ia empregando, com um sotaque ilhéu, trigueira e risonha. Ana ia deixando cair as suas afirmações, sempre atenta e bem disposta. Na mesma mesa sentavam-se, de vez em quando, os dois responsáveis da Cliché, a editora do grupo aqui em Portugal.

M&S - A que se deve a tua estada aqui em Portugal?
Ana da Silva - Vim passar férias. A minha família é da Madeira. Estive cá a passar o Natal com ela. Venho cá pelo menos uma vez por ano. Além disso, tenho cá muitos amigos. Fiz amizades quando passei pela Faculdade de Letras.
M&S - Estiveste lá a fazer o quê?
Ana da Silva - Tirei o curso de Germânicas. Paguei o diploma, mas nunca o levantei!!! (risos).
M&S - Como é que se deu essa transição de licenciada em Germânicas para o campo da música?
AS - Sempre gostei de música. A certa altura resolvi ir viver para Inglaterra. Não tinha emprego... não havia aqui nada que me prendesse... Não podia fazer o que queria fazer. E como tinha lá amigos resolvi ir até Inglaterra para ver como era. Passada uma semana já estava instalada.
M&S - Isso foi há...
AS - Sete anos.
M&S - Estás então decidida a não regressar.
AS - Não tenciono vir para cá para Portugal. Lá faço aquilo que quero fazer. Encontro compensações. Tenho uma profissão de que gosto. Conheço pessoas do mesmo meio. Dou-me com elas. Com pessoas que fazem música.
M&S - Vives exclusivamente com o que te advém dessa actividade musical.
AS - Sim. Dá para viver. Não dá é para comprar carro (risos).
M&S - Passemos ao último trabalho das Raincoats. A pintura que vem na capa é do Malévitch. Como foi isso?
AS - Quer dizer... foi assim: no ano passado, durante a tournée que fizemos pela Europa, acontece que estava em Düsseldorf uma exposição do Malévitch. O poster era exactamente esse. Comprei-o e pu-lo na minha sala. Quando se chegou à altura de fazer a capa, nós tivemos grandes conversas sobre a capa. Que capa iríamos escolher? Pensámos que esa pintura talvez desse uma boa capa, pela sua simplicidade, pela força das cores alegres, pela combinação das cores... E depois, ela representava uma forma humana, nem declaradamente homem, nem declaradamente mulher. Era uma pessoa. Achámos que era giro. Não é muito costume a simplicidade ganhar uma força assim.


M&S - Então a escolha não teve nada a ver com o facto de Malévitch ser revolucionário...
AS - Bem, se o Malévitch fosse fascista não o teríamos escolhido por causa das conotações que isso teria!!
M&S - E o facto de ele ser russo disse-vos alguma coisa?
AS - Não. Nenhuma de nós é pró-russa. No primeiro disco pusemos uma pintura chinesa na capa. Poderíamos ter escolhido uma pintura de um americano ou de um francês...
M&S - O título do álbum, Odyshape, tem a ver com odisseia... forma...?
AS - A palavra não existe. Resulta de uma combinação de vários elementos: odd, que significa estranho, não aceite, body, que significa corpo e também tem a ver com odisseia... Forma de um corpo estranho... Odisseia de forma de corpo estranho... São jogos de palavras. Não é uma coisa consciente. Essa palavra era inicialmente o título de uma das músicas do álbum. Tirámos-lhe o título (ficaram só os bonequinhos a dar-lhe o nome) e pusemo-lo no álbum.
M&S - Alguém disse que tu eras uma espécie de Judy Collins desafinada. Que dizes a isto?
AS - Ah sim? Disseram isso da minha voz? (risos). Eu acho que não desafino! No disco parece-me que a minha voz não está lá muito desafinada!!!
M&S - Vocês têm uma intenção militante de carácter feminista nos vossos álbuns?
AS - Porque são mulheres a fazer uma coisa, as pessoas dizem logo que elas estão a fazer uma coisa feminista. As pessoas estão habituadas a que a mulher não faça outra coisa que não seja lavar pratos e tratar das crianças. Nós não tivemos a intenção de ser militantes quando iniciámos o grupo, mas acreditamos nas possibilidades da mulher de fazer outras coisas que não tenham a ver com o ser mãe. 'Tás a ver a diferença entre as palavras wife e woman?
M&S - Porque é que recorreram ao Charles Hayward dos This Heat e ao Robert Wyatt para as partes de bateria e percussão?
AS - A nossa baterista, a Ingrid Weiss, tinha saído do grupo. E como todas gostamos do Charles, resolvemos metê-lo no grupo. Ele fez uma tournée connosco em Inglaterra e na Europa. O Robert está mais ligado à percussão. Também gostamos muito dele.
M&S - Tem sido afirmado que vocês têm uns cheirinhos a Velvet Underground.
AS - Bem, talvez isso se deva ao facto do nosso som de violino. É um som hard. A palavra em português não seria duro... Emprega-se a mesma nota durante bastante tempo. Talvez isso dê uns ares do John Cale. Mas a nossa violinista nunca tinha ouvido os Velvet Underground. Da nossa baterista de outrora, a Palm Olive, falava-se das semelhanças entre ela e a Maureen Tucker, mas isso deve-se ao facto de serem ambas mulheres. Qualquer delas não toca na tradição masculina. São originais. Embora haja homens a tocar bateria de maneira original, o som delas é diferente. Também têm dito tanta coisa das Raincoats... Há quem encontre semelhanças entre o som das Raincoats e o da Incredible String Band! Outros dizem que o nosso som tem a ver com o reggae...
M&S - Há quem diga que a vossa música «Only Loved At Night» tem a ver com melodias dos Andes. Outros dizem que esse tema inspira-se em melodias dos Himalaias. É mesmo?
AS - Nenhuma de nós ouve música indiana. Portanto, não me parece acertado isso. Nem conhecemos a música dos Andes ou dos Himalaias. Não faz parte das nossas coisas favoritas.
M&S - E que música é que faz parte das vossas coisas favoritas?
AS - Cada uma de nós tem as suas preferências. Eu ouço os Velvet Underground, a Nico... Quando me apetece escolher discos além destes, também vou para os Beatles.
M&S - Ouviste este último álbum da Nico, Drama In Exile?
AS - Não. Há sempre tanta coisa para ouvir... Gosto muito de álbuns anteriores da Nico... Desertshore, The Marble Index, The End, Chelsea Girl...
M&S - Achas que a música das Raincoats poderia ser designada por primitiva? Primitiva no sentido de procurar partir da base, de regressar às origens... não no sentido de ser rudimentar...
AS - Talvez por ter partes étnicas. Talvez por utilizar instrumentos doutros países que não são instrumentos eléctricos. Instrumentos sul-americanos, africanos, indianos. As melodias soam diferentes. Cada instrumento está a tocar coisas diversas, mas todos se encontram.
M&S - O termo música experimental seria mais adequado?
AS - Não é bem esse o termo que eu gostaria que fosse aplicado. Gostaria que houvesse outra palavra para classificar a nossa música. Se uma pessoa está a fazer uma coisa original, até certo ponto está a a fazer algo experimental, porque está a fazer uma coisa que ninguém fez antes.
M&S - Portanto, sem ser o termo experimental...
AS - A música experimental tem a ver com esquemas. É uma música mais racional. A nossa música é racional e emotiva, também. Isso deve-se à energia que nós pomos na música.
M&S - Vocês revezam-se com os instrumentos. Porquê?
AS - Tocar guitarra a vida inteira seria muito aborrecido. Compreendo que haja aquelas pessoas que pensem que é esse o caminho para se aperfeiçoarem. Eu nunca fui uma pessoa disciplinada para ser só uma coisa... só pintora... só qualquer coisa... Gosto de escrever as letras, compor. Existe um Livrinho Verde sobre as Raincoats. Fui eu que o fiz. Fiz os desenhos, escrevi os textos à máquina, levei-os para serem impressos, fiz a promoção do Livro e vendi-o para pagar as despesas.
M&S - Esse livrinho verde é uma alternativa ao Livro Vermelho do Mao Tsé Tung?!!!
AS (risos) - Não! É verde porque eu gostei da cor da cartolina! Não tenciona ter tantas propostas de sociedade como o livro do Mao! Deu-me gozo fazer a parte artística. Fiz tudo. Dobrei as folhas, pus os agrafos. Acompanhei o Livrinho Verde do princípio ao fim. Há certos grupos que não se preocupam com as capas dos seus discos, estão-se nas tintas para as editoras, para a promoção... Nós não somos assim. Gostamos de nos dedicar a diferentes tarefas.
M&S - Dentro da cena musical inglesa, em que lugar é que vocês se colocam?
AS - Para dizer a verdade, nós estamos muito na moda!!! (risos). As pessoas gostam de nós por razões mais profundas do que seria de pensar. Isso não tem a ver exclusivamente com os discos, com a nossa música. Os discos, no fundo, ouvem-se duas ou três semanas e depois? O facto de as pessoas gostarem de nós tem a ver com o aspecto musical e com aquilo que apresentamos. Tem a ver com os nossos concertos, com tudo aquilo que fazemos. As modas vêm e vão. Agora são os Spandau Ballett e os Duran Duran... Mas nós não fazemos parte dos conjuntos comerciais.
M&S - Mas vocês gostavam de ter mais sucesso comercial ou não?
AS - Nós gostamos daquilo que estamos a fazer, embora, é claro, gostássemos de vender mais. Penso que, de qualquer maneira, conseguimos atingir o público.
M&S - Esperavam ter uma boa receptividade aqui em Portugal?
AS - Esperava um bocadinho.
M&S - Achas que essa receptividade se relaciona com o facto de haver uma portuguesa entre as Raincoats, ou seja, por seres uma portuguesa no meio de inglesas?
AS - Pode ser que isso tenha tido alguma influência. Os Young Marble Giants não têm nenhum elemento português e também têm tido um bom acolhimento. É claro que as pessoas pensam sempre: há um português lá, deve ser uma porcaria! Se é portuguesa, deve fazer só porcarias! Mas infelizmente as Raincoats têm tido sucesso em Inglaterra. Entre os conjuntos independentes, temos um bom lugar.
M&S - Vocês têm feito muitos concertos para promover o disco?
AS - Não só para promoção do disco. Nós gostamos de tocar ao vivo. O trabalho de estúdio é mais um trabalho de construção. O tocar ao vivo é mais aquela imediatez, aquele contacto directo.
M&S - Vocês estão a pensar vir até Portugal para um concerto?
AS - Em Fevereiro.
M&S - Vocês, ao que consta não tocam em salas muito grandes.
AS - Temos tocado em salas pequenas. Preferimos fazer vários concertos para um número reduzido de público do que tocar para 4000 pessoas numa grande sala.
M&S - Muitos meses decorreram entre o vosso primeiro álbum e este segundo, Odyshape. Bastante mais de um ano. Em relação ao próximo álbum, vai decorrer assim tanto tempo?
AS - Nós somos um bocado vagarosas. Este ano, entre Janeiro e Junho, a nossa viola esteve a acabar o curso de arte. Estivemos seis meses sem trabalhar. Temos andado a actuar em espectáculos ao vivo. Muitos dos temas tiveram de ser reescritos. As músicas que tinham sido escritas para o álbum tiveram de ser modificadas, porque não podíamos estar a tocar aqueles instrumentos todos ao mesmo tempo.
M&S - Há um outro conjunto feminino ao qual o vosso nome tem sido associado, as Slits. Vocês são amigas?
AS - (reticente) Nem por isso. Conhecemos as Slits. Tivemos uma baterista em comum. Elas vivem na mesma área que nós. Mas a música das Slits é diferente da nossa. Uma delas não fala com toda a gente... Mas isso é já entrar na coscuvilhice! (risos). A nossa violinista tocou numa ou duas músicas delas. Já tocámos no mesmo concerto aí umas três vezes juntas.
M&S - Ficamos a aguardar a vossa vinda a Portugal em Fevereiro.


Foi nestes termos cordiais que se desenrolou o encontro. A Ana da Silva é impec. (Impecável, ó manos!). As Raincoats são uma das bandas mais interessantes da secular Albion. Só nos resta contar ansiosamente os dias até à actuação delas aqui em Portugal.

Ana Rocha

 

Entrevista Exclusiva
Peter Hammill
"O Sobrevivente"

Texto e Fotos: Júlio Ferreira Antunes e Jean-Michel Dupont



Devemos sempre desconfiar dos «a priori».
Muitos jovens de hoje enviaram sem remissão um tipo como Peter Hammill na caravana sinistra dos velhos heróis caídos em desgraça.
No entanto, o nosso cientista não parou ainda de evoluir desde o dia em que - faz doze anos - se lançou na cena musical...

M&S - Poderás dar uma ideia de ti mesmo que seja ao mesmo tempo paralela a músicos da tua geração como por exemplo Peter Gabriel ou Robert Wyatt?
PH - Músicos como Gabriel, Wyatt ou ainda Bowie ou Fripp considero-os como sobreviventes e, por conseguinte, considero-me eu mesmo também um sobrevivente. Há dez anos que fazemos música e, creio, até hoje esse foi o nosso único objectivo. Fazer música, e não por exemplo transformar-se em estrelas.
M&S - Tenho a impressão que se todos vocês são sobreviventes é porque a um dado momento houve uma mudança na vossa carreira, uma evolução digamos...
PH - Mas justamente, a condição principal para ser um bom sobrevivente é ter um espírito aberto e em evolução perpétua.
M&S - É curioso constatar que Peter Gabriel, Fripp e tu mesmo que eram por assim dizer os leaders de grupos enormemente melódicos e com vastas influências de uma certa forma de classicismo tenham mudado subitamente, e procurado simultaneamente uma carreira a solo caracterizada ao mesmo tempo pelo carácter experimental e grandemente influenciada pela procura electroacústica...
PH - Divagar no clássico foi interessante, mas aconteceu que a um dado momento nos encontrámos com uma música exageradamente pomposa. Foi aí que realizámos que nos estávamos a afastar da nossa vocação de artista, do músico popular e da música do momento. É claro que podemos falar de coisas sérias como a emoção, o Mundo, a sociedade, mas é preciso saber ficar acessível.
M&S - O trabalho de Fripp está no entanto longe da chamada música popular...
PH - Para sobreviver é preciso guardar sempre um certo sentido de humor, e mesmo se o Robert parece muito sério, ele esconde no entanto um grande espírito humorístico.
M&S - O que é certo é que ele pratica humor a um grau de tal maneira elevado que acabamos obrigatoriamente por não saber muito bem onde estamos...
PH - Sim, é verdade que «a priori» ele não será dos mais acessíveis mas, quando me refiro a ele, a Gabriel, a Wyatt ou a mim mesmo na condição de músicos populares, refiro-me no entanto a uma música do futuro, uma música popular que eu desejo e que não é forçosamente aquela que escutamos actualmente nos charts e que é, essa sim, inteiramente imediata.
M&S - Como é que se passam as coisas quando escreves?
PH - O que me apaixona na poesia é a emoção que se liberta de repente, fortuitamente, quer a sensibilidade tenha sido provocada por uma situação normal quer por um filme ou um concerto...
Por exemplo «Strange Still» foi escrito uma manhã em Paris enquanto tomava o pequeno-almoço num café.
M&S - E como é a nível de sensibilidade? Segues uma certa linha ideológica ou pelo contrário generalizas essa mesma sensibilidade?
PH - Para quem escreve, mudar é absolutamente necessário. Ter diferentes experiências e encará-las cada dia de uma maneira diferente torna-se essencial.
M&S - Qual é a tua opinião em relação aos acontecimentos de 77?
PH - Em 77 chegou-se a qualquer coisa de académico. É fantástico ver que imensos grupos se puderam formar, as estruturas tornavam-se menos pesadas mas... ao mesmo tempo o «business» fica.
Houve uma revolução, novas caras apareceram, mas... o negócio continua.
M&S - Em relação às novas caras, quais as que mais aprecias? The Cure, UB40, The Beat, Specials... O que é que te seduz num grupo como The Cure por exemplo?
PH - Força, paixão, honestidade... Mas é difícil dizer verdadeiramente porque é que gostamos de um grupo.
M&S - Sabes que John Lyndon é um dos teus admiradores?
PH - Sei. Sobretudo dos últimos álbuns a solo. Há imensa gente em Inglaterra que nunca ouviu falar de Van Der Graaf. Creio que ele gosta dos meus álbuns por causa de uma certa honestidade e pureza existentes, e também pelo seu carácter experimental.


M&S - Qual é a tua opinião sobre o seu trabalho?
PH - Digamos que gosto mais ou menos de metade daquilo que Lyndon faz. Sabes, quando é músico, e conheces bem a maneira de como um disco é feito é difícil de dizer objectivamente o que pensas porque apesar de tudo e contra a tua vontade tens tendência a dar atenção aos detalhes técnicos.
M&S - O que pensas duma personagem como Johnny Rotten?
PH - Bem, como eu tenho uma vida privada bastante grande, tenho sempre uma enorme dificuldade em conceber que certos artistas possam viver quase eternamente sob o olhar do público. Não é por acaso que John mudou de repente e deu o nome de Public Image ao seu novo grupo.
Pessoalmente, no aspecto de vedetismo não tenho grande experiência, mas penso que se ao fim de doze anos passados posso continuar a dar concertos é porque em parte nunca tive uma verdadeira imagem pública.
M&S - Sei do teu projecto para a realização de uma ópera. Queres falar um pouco sobre ele?
PH - Bom, é um projecto que dura já há nove anos, que se vai concretizando de ano para ano e demorará ainda uns dois anos a ser terminado.
M&S - E fala de quê?
PH - Ah! Para falar disso prefiro esperar que esteja terminado.
M&S - E a instrumentalização utilizada será de que género?
PH - Actualmente ainda não sei. Neste momento ainda só as vozes e as partes de piano estão compostas. Quanto ao resto tanto poderá meter cordas, um grupo rock ou ainda música electrónica.
M&S - Para acabar, não achas que a tua música se «endureceu» um pouco neste último álbum?
PH - Sim, é verdade. Tentei também compor temas mais simples, quer dizer, temas que sem serem comerciais serão de maior impacte.




Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. Nós, Vistos Por... Nós - artigo em que cada escriba da revista escreve sobre outro - excerto acima.
. Salada à la Tulipa (Segundo Lena dos Vinhos) - artigo sobre os Salada de Frutas, de Célia Pedroso
. Tom Robinson - Adoro o Amadorismo - entrevista por Fernanda Ribeiro
. Discos em Análise:
.. Led Zeppelin - «Physical Graffiti» [Swan Song Ss 89400], por Carlos Marinho Falcão
.. Klaus Doldinger Passport - «Oceanliner» [Rádio Triunfo ATL G 50688], por Fernanda Ribeiro
...&Som, por Hermínio Duarte-Ramos
- Reflexões Sonoras e Surdas






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