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31.8.17
Memorabilia - Bilhetes (27) - Houseware Experience - Central Tejo - 1999
HOUSEWARE EXPERIENCE 99 (experimentadesign99)
Explorations in live mixmedia, 18 September, Central Tejo, Lisboa
Participantes: João Paulo Feliciano // Dub Video Connection // Helder Luis // Joe Fossard // Rafael Toral // T.V.T // Luis Miguel // RevDesign // D-Fuse // The Apolloprogram // Nonplace Urban Field // Amon Tobim // David Toop // I’m Sore // Zzzzzzp! // Major Eléctrico // Lisburn // Peterman // Dreamlab
3.8.15
Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (118) - Monitor #55
Monitor
Nº 55
Ano V
Abril de 99
III série
24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal
Assinaturas - 12 números - 2000$00
Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Vasco Durão
Jorge Mantas
Jorge Saraiva
«A música é uma actividade do cérebro»
entrevista com Rafael Toral
por Rui Eduardo Paes
Depois do sucesso, além-fronteiras, de «Wave Field», o ex-Pop Dell'Arte e fundador dos No Noise Reduction tem novo disco editado em Chicago, «Aeriola Frequency». Tempo, pois, para um balanço.
- «Aeriola Frequency», é «tocado» exclusivamente com um delay, consistindo num loop que continuamente se alimenta a si próprio. Desde há algum tempo, aliás, que a sua música parece estar cada vez menos
ligada à guitarra. Os gadgets electrónicos, o sintetizador modular e o theremin vêm substituindo o seu instrumento principal. O que se passa?
. Penso que, para mim, a guitarra é incontornável. Como fonte sonora inesgotável e como ícone cultural, e também pela minha formação ligada ao rock, este instrumento tornou-se uma presença constante. Isso não
faz, no entanto, com que veja como «guitarrista», ou seja, uma pessoa que toca guitarra. Quando estou a fazer música, posso gravar um take de guitarra numa tarde e depois estar três meses a trabalhar nesse
material, com processamentos diversos e operações de montagem e mistura no computador. O crítico Bill Meyer descreveu a minha peça electrónica «Liveloop» com esta expressão genial: «A guitarless composition
for guitar effects». Na verdade, fui tão longe na transformação electrónica dos sons da guitarra que dei por mim a fazer coisas para as quais a guitarra era já irrelevante. Lembremo-nos que, do ponto de vista
electrónico, uma guitarra é como um microfone. «Cyclorama Lift», a peça que constitui «Aeriola Frequency», é baseada em feedbacks e ressonâncias - coisas, afinal, bem do mundo dos guitarristas. Podia ter feito «Aeriola Frequency» com a guitarra, mas queria concentrar-me na ressonância pura, e a guitarra acabaria por ser um entrave, mais do que um meio para lá chegar. Digamos que fui directo «ao assunto».
Quando uma guitarra entra em feedback, existe um circuito de ressonância que entra em auto-oscilação, gera um tom, uma onda, logo comporta-se como um sintetizador rudimentar. Posso fazer muitas coisas com
feedbacks de guitarra, mas se quiser trabalhar com oscilação e der um passo à frente, porque não trabalhar directamente com osciladores e moduladores? Por acaso, o uso principal que dou ao meu sistema modular
é o processamento de sons... de guitarra. Digamos que por vezes tenho necessidade de ultrapassar completamente o instrumento.
- Define o seu trabalho como música ambiental, mas refere-se a esta aludindo a um modo de escuta («com níveis variáveis de atenção», como acrescenta no press release de «Aeriola Frequency»). Ou seja, não
enquanto uma tipologia da música em si e por si mesma, mas consoante o modo como é ouvida. Gostaria que me falasse sobre o modo como entende o ambientalismo...
. O modo como a música é ouvida faz parte da própria definição de ambient, tal como a enunciou Brian Eno. a música ambiental deve ser capaz de acomodar diferentes níveis de atenção. É o princípio-chave as
ignorable as interesting. Claro que o uso da música não a define, mas esta enuncia-se como sendo passível de ser usada de diferentes modos, especialmente a possibilidade de abdicar de uma fruição musical
consciente, tornando-se a música uma presença sonora integrada no ambiente acústico. Por outro lado, há a necessidade de oferecer uma experiência de escuta minimamente rica, sob pena de ficarmos com um
papel de parede vazio e estéril. É importante que haja alguma complexidade de informação, mas ao mesmo tempo uma certa sensação de imobilidade. Um curso de água, por exemplo, tem padrões de turbulência
infinitamente complexos, mas se nos sentamos à sua beira parece-nos que não está a acontecer grande coisa.
Tento usar isto como um modelo para a música.
Para mim, a música é uma actividade do cérebro, uma experiência estética sobre o som. Para que exista uma tal experiência musical, é irrelevante se os sons que escutamos tenham ou não sido produzidos com
intenção musical. Podemos ouvir um disco ou ir a um concerto, mas também podemos ouvir musicalmente um avião a passar. Nenhuma dessas experiências é mais válida do que a outra em termos musicais, a
única diferença é que o avião não tencionava fazer música. Há sempre um ambiente sonoro, um «pano de fundo» sónico nas nossas vidas e tento sempre que as minhas peças funcionem como um fundo sonoro, de
modo que as pessoas possam alternar livremente entre uma escuta «musical» e uma escuta «não musical» - ou seja, que esta música possa ser ouvida atentamente mas que também possa estar no mesmo plano
que o zumbido das ruas ou o murmúrio dos bosques. Interessa-me muito esbater essa fronteira, poder ouvir sons do ambiente como música e música como sons do ambiente.
- A improvisação desempenha um papel importante na sua música, mas sei que tem uma relação difícil com a chamada música improvisada. Diga-me porquê e explique-me como concilia a linguagem da
improvisação (e digo «linguagem» porque julgo haver uma adesão estética sua, mais do que uma apropriação de técnicas e processos) com algo que, em princípio, lhe é estranho, apesar de excepções como os AMM: o ambientalismo. A verdade é que parece ter um défice em ambos esses domínios: quando improvisa mais é menos ambiental e quando cria ambientes musicais parece deixar de ser um improvisador. Basta, de resto, comparar «Chasing Sonic Booms» com «Wave Fields» e este «Aeriola Frequency». Como é, então?
. Se existe uma «linguagem da improvisação», e se esta tem técnicas e processos, deve ter a ver com a tal «música improvisada» que, sendo assim, será um «estilo» musical, mais do que um exercício de
improvisação em si. Improvisar é resolver situações em tempo real. Se tenho um problema para resolver, há que equacionar esse problema e descobrir a solução. Ou seja, essa solução há-de ter uma forma, mas
enquanto a solução não é encontrada não se sabe que forma vai ter! No estilo «música improvisada» as soluções estão já codificadas num âmbito formal pré-estabelecido. Portanto, a forma primeiro, a solução
depois. Isto torna a música muito mais previsível e nada tem a ver com improvisação. Continuo a achar importante a distinção que Jim O'Rourke faz entre «improvisar» e «tocar música improvisada». Mas não tenho uma relação difícil, não há mal nenhum nisso. Só não digam é que estão a «improvisar»...
A improvisação implica uma predisposição para lidar com o indeterminismo, a aceitação de acontecimentos imprevisíveis, a abertura a muitas e diferentes variáveis. A rapidez com que por vezes é necessário reagir, a
surpresa de situações novas, a descoberta instantânea de novos sons, tudo isso tem uma carga de um certo dramatismo e mesmo de violência, e o desenrolar desses acontecimentos sobre um palco é algo de
espectacular. Afinal é um espectáculo o que se está a fazer, e como tal, requer atenção. Num palco existe uma situação teatral - há que inventar soluções perante um público, mas não é só no encontrar de soluções
que está o seu interesse. Espera-se que essas soluções sejas implementadas ao vivo de uma forma esteticamente interessante e estimulante, pois de contrário seria uma espécie de workshop em palco. Há um
factor de aprendizagem na prática da improvisação, sem dúvida, mas por que haveriam as pessoas de pagar bilhete para ver isso? Sinto a responsabilidade de dar sempre ao público algo que «valha a pena», e fazer
isso sem improvisação é muito difícil. Só o consegui duas vezes, em concertos de improvisação a solo. Tudo isto nos remete para longe do uso ambiental da música que daqui possa resultar, e daí também a
violência que se encontra disseminada por «Chasing Sonic Booms». Ainda assim, não é possível separar as coisas: em «CSB» tem também improvisação com uma forma praticamente ambiental, o «Wave Field» ao
vivo tem muito de improvisação e o «Aeriola Frequency» é inteiramente improvisado na sua execução. Não vejo «défice» algum, está tudo integrado... Mas, salvo excepções especiais, não posso pretender realizar
música puramente ambiental ao vivo, o ambientalismo e o palco são incompatíveis. Para uma fruição ambiental verdadeira temos de ter a possibilidade de nos esquecermos que estamos a ouvir música, e não é de certeza isso que fazemos quando decidimos ir a um concerto!...
- Há alguns (deliciosos, deverei acrescentar) paradoxos na sua abordagem da música, a começar pelas próprias referências, que t~em as origens mais díspares - John Cage, Alvin Lucier, Phill Niblock, Brian Eno, Jim O'Rourke, Sonic Youth, My Bloody Valentine... A sua música tem ingredientes, para mais, que dificilmente se julgariam conciliáveis: rock de guitarras, minimalismo, noise, música electroacústica... O que o motiva em tal diversidade de coordenadas? Trata-se simplesmente da aplicação criativa da multiplicidade dos seus gostos musicais ou decorre de um plano mais elaborado e consciente? Toca aquilo que ouve ou pretende afirmar algo em concreto?
. Não vou discutir aqui uma análise de «ingredientes» da minha música, mas... não vejo esse grupo de referências como uma multiplicidade de coordenadas, como se eu tentasse gerir um grupo de influências
incompatíveis entre si. Para mim tudo encaixa perfeitamente, como uma luva. Porém, não sejamos reducionistas ao ponto de pensar que o que faço resulta de uma soma de ingredientes. Ao longo do nosso percurso encontramos coisas que nos interessam, ideias que vale a pena aplicar e desenvolver. Naturalmente, integrei coisas muito diferentes de cada uma dessas pessoas ou grupos. Nuns casos a um nível mais racional, noutros a um nível mais emocional. Acho que a «influência» ou inspiração de alguém se tornapotencialmente mais interessante quando é assimilada ao nível conceptual. Geralmente, quando falamos em influências, dizemos que «x» soa a «y» e isso revela uma influência a nível formal. Podemos ser altamente inspirados por alguém, mas não precisamos de soar como uma imitação. Podemos ir em qualquer direcção em termos formais, uma vez assimilada a ideia de base. Por outras palavras, as mesmas ideias podem ser expressas numa variedade de formas e abordagens estéticas.
- Fez parte dos Pop Dell'Arte e de várias formações de Sei Miguel, com quem, aliás, continua a colaborar. O que ficou dessas experiências na sua música?
. Os Pop Dell'Arte eram um grupo muito aberto, cujo génio estava na sua capacidade de integração de referências, formas e abordagens díspares ou mesmo incompatíveis. A certo ponto assumi um pouco o papel de «sabotador» de serviço, mas na verdade era impossível sabotar aquela música, um caldeirão capaz de absorver praticamente tudo. O resultado era uma tensão constante e muito enriquecedora entre os elementos.
Acho que levei mais para os Pop Dell'Arte do que trouxe de lá. Ficou o envolvimento com a esfera rock, embora na altura a minha postura fosse claramente anti-rock.
O trabalho com Sei Miguel é sempre uma experiência fascinante, cada minuto de trabalho com ele vale ouro. Não teria sido capaz de me aventurar em experiências de improvisação livre sem o que aprendi com ele.
Infelizmente, não temos trabalhado muito juntos. O rigor que ele inspira na gestão do tempo e do silêncio é uma aprendizagem preciosa. Ele tem muito azar, principalmente por ser este o país em que tenta tocar.
Espero poder assistir brevemente ao reconhecimento do seu génio a nível mundial.
- Grande parte do seu trabalho é feito em solitário. A sua única colaboração permanente é com João Paulo Feliciano, nos No Noise Reduction. Entende este duo como um projecto paralelo, algo que desenvolve à
parte?
. Os No Noise Reduction são um espaço de acção em que cada um de nós faz coisas que não faria sozinho. Temos personalidades e atitudes muito diferentes e isso introduz uma química especial no nosso
trabalho. Há uma tensão saudável, ao mesmo tempo que somos muito solidários. Há uma tendência para trabalharmos em situações específicas.
- É convidado a tocar no estrangeiro, sobretudo nos Estados Unidos, os seus discos são editados lá, «Wave Field» foi mesmo considerado um dos 100 melhores álbuns publicados em 1998 nos EUA pela
Amazon.com e representa Portugal na Music in Movement Electronic Orchestra, para além de já ter actuado ao vivo com nomes como Jim O'Rourke, John Zorn, Phill Niblock, Rhys Chatham, Jean-François Pauvros, entre outros. Como enfrenta este súbito sucesso fora de portas?
. De vez em quando, compro uma limusina! Não quero parecer pretensioso, mas o meu trabalho é sujeito a um rigor e a um nível de exigência enormes. Acho que as pessoas (fora daqui, claro) souberam reconhecer
isso. É gratificante saber que o que faço é apreciado por pessoas que admiro, e também que há pessoas a comprarem os discos e a usá-los nas suas vidas.
Não sei, acho isto natural. Também é uma questão de marketing, isso do sucesso. Ainda hoje acho que «Sound Mind Sound Body» podia vender milhares, se houvesse uma estrutura para o promover.
Enquanto tentei encontrar uma editora para o «Sound Mind...» senti-me completamente isolado, embora soubesse que havia um público que se podia interessar pelo meu trabalho, assim como outros músicos que
teriam interesses em comum comigo. Foi um longo processo de reconhecimento gradual, mas foi com o impacto da edição americana de «Wave Field» que de repente a minha música ganhou uma visibilidade que
até aí não tinha.
- Tem desenvolvido uma actividade complementar como produtor e, curiosamente, apenas de grupos rock. O rock, aliás, parece ser uma obsessão sua, apesar de não o praticar. A que se deve isso?
. Por acaso, nunca calhou eu produzir um trabalho não ligado ao rock, mas gostaria... O trabalho de produção é esgotante e muito exigente, é necessária uma atenção absoluta a todos os ínfimos pormenores.
Tenho-me retirado um pouco dessa área, por esse motivo. Quero concentrar-me no meu trabalho pessoal. Ainda assim, estou finalmente envolvido numa produção já há muito aguardada, o novo disco dos Clockwork.
Estou muito optimista em relação a este trabalho, acho que vai ser um disco excelente. O drone-rock deles é pioneiro em Portugal. Mas o orock não é nenhuma obsessão. Faz parte.
- Ganhou uma bolsa multimédia que o levou a Nova Iorque, onde «estagiou» na Experimental Intermedia Foundation e na Faculdade de Arte Electrónica de Troy e apresentou um projecto que associava som e
imagem. Era de supor que continuasse este tipo de investimentos artísticos, mas tal não sucedeu. A única excepção recente terá sido a manipulação de luzes através da música numa actuação dos No Noise
Reduction. Porquê?
. Tenho mantido uma actividade regular de produção em vídeo e ponho sempre um dos meus vídeos quando toco ao vivo. O projecto da Bolsa era baseado em interacções com osciloscópios, aparelhos que servem
para visualizar uma onda sonora, logo era uma reflexão visual sobre o som. De qualquer modo, sou um músico, acima de tudo. Não tenho pretensões a videasta nem a artista multimédia, embora possa realizar
trabalho nessas áreas, como aliás tenho feito. O trabalho de luz no concerto da Aula Magna deriva muito mais do trabalho do Paulo Feliciano que do meu.
- Seguindo uma tendência cada vez mais generalizada, tem-se interessado muito particularmente pelas máquinas analógicas, mas também utiliza o computador - este, de resto, é-lhe um equipamento imprescindível, se não para tocar, pelo menos para trabalhar postriormente a música que faz. De uma maneira ou de outra, não me parece que a cibernética musical, por assim dizer, seja uma questão para si. A tecnologia não lhe interessa, mas o que pode fazer com ela. É assim? E se é, porque não envereda também por situações acústicas?
. Pode-se enveredar por um trabalho de pesquisa sónica com instrumentos acústicos, mas isso implica uma abordagem muito avançada. Tinha de ter tido outro percurso. Outras pessoas há que percorrem esses
trilhos. Como dizia Cage com imensa sabedoria, «we get more done by not doing what somebody else is doing».
Tendo uma ideia para concretizar, vou necessitar de um dispositivo tecnológico que me permita trabalhá-la. Pode ser um software complexo ou um distorsor ferrugento, mas o importante é que os meios sirvam os
fins, e não o contrário. Pode ser importante usar a tecnologia, mas é imperativo não ser usado por ela. É tão vasto o campo de opções possíveis que se torna demasiado fácil perdermo-nos. É muito frequente ver
pessoas que compram um sampler e acham que podem fazer tudo mas acabam por dispersar-se, perdem o foco. É essencial decidir o que não queremos fazer, deixar opções de lado, delimitar o campo de acção.
Pessoalmente, gosto de trabalhar num campo de opções restrito, de modo a que o foco seja o mais agudo possível. Quanto maior for a limitação, mais longe se chega. Prefiro progredir «em flecha» do que em
«mancha de óleo».
- O seu expertising no que respeita às condições técnicas da audição/recepção e os seus conhecimentos sobre acústica reflectem-se claramente na música que faz - acho mesmo que a sua perspectiva não é
propriamente «musical», no sentido convencional, mas sonora. É o que me sugere, pelo menos, a forma como trabalha os harmónicos, as ressonâncias, o ruído. Concorda?
. O princípio da música, para mim, é o som. Tem de existir um som a priori antes de haver música. A música resulta das transformações a que esse som é sujeito, ou das formas que se podem construir tendo-o
como matéria-prima. Ou seja, vejo a criação musical como um processo que se passa no interior da própria matéria que constitui a música. É um pouco por isso que me interessam sons de longa duração. Prefiro
trabalhar com um único som em cujo interior evoluem acontecimentos musicais. Não me interessa o «tocar» convencional, é sempre preciso parar um som para atacar o seguinte, e quanto mais rápido, menos
interessante se torna.
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Rui Eduardo Paes
31.7.15
Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (116) - Monitor #53
Monitor
Nº 53
Ano V
Fevereiro de 99
III série
24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal
Assinaturas - 12 números - 2000$00
Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Jorge Mantas
Ivo Martins
Gonçalo Falcão
Pedro Santos
Jorge Saraiva
Rafael Toral - «Aeriola Frequency» [CD Perdition Plastics, 1998]
Começou por concretizar as suas ideias numa guitarra eléctrica armadilhada com processadores vários (nas suas duas versões de «Wave Field», em «Sound Mind Sound Body» e no disco de colaborações «Chasing Sonic Booms»), buscando aquilo a que chamou «uma destilação abstracta do rock». Revelou volta e meia o seu gosto pela «bricolage» electrónica, como ouvimos nos dois álbuns publicados pelos No Noise Reduction (o seu projecto com João Paulo Feliciano, artista visual e líder do grupo Tina and the Top Ten), «The Complete...» e «On Air», com os seus brinquedos e aparelhos (telemóveis, p. ex.) «moisturizados».
Mais recentemente, soubemos do seu interesse pelos velhos sintetizadores modulares, analógicos, e por instrumentos electrónicos do passado como o theremin. Em «Aeriola Frequency», o novo registo de Rafael Toral na editora de Chicago Perdition Plastics, explora um dos seus interesses, a ressonância, para o que recorreu a um simples «delay», à semelhança do que já tinha feito no tema que incluiu na colectânea «Way Out - New Music From Portugal», «Liveloops». O presente CD é, aliás, um bom exemplo de como é possível fazer usos imaginativos e inconformistas dos recursos existentes.
Deixo-lhe a despesa das explicações, tal como consta no «press release» que acompanhou o lançamento deste disco: «Quis dar forma à ideia de a ressonância estar por todo o lado no mundo electrónico - a música oculta dos circuitos electrónicos. Para evocar esta ideia tive de pensar num dispositivo musical que me permitisse "tocar ressonância" em vez de tocar "sons". Para trabalhar com ressonância pura num domínio puramente electrónico, precisaria de um circuito vazio, que não tivesse nada a entrar do exterior e não processasse nada a não ser a si próprio. Algo que pudesse usar para sondar o espectro de áudio pesquisando frequências, modificando larguras de banda. Acabei por usar um circuito fechado, um "delay" cuja saída está ligada À sua própria entrada, passando antes por um equalizador paramétrico (que permite manipular o espectro sonoro) e outros periféricos. O "loop" alimenta-se a si mesmo continuamente, ao mesmo tempo que se autodigere.»
O álbum é constituído por dois longos temas, na linha a que Toral já nos habituou, a de uma música estática, em suspensão, feita de harmónicos e fantasmizações sonoras, situável algures entre o ambientalismo devedor a Brian Eno, apesar de o jovem músico português estar cada vez mais distante deste, e o pós-minimalismo, sendo evidentes, por exemplo, as influências de um Phill Niblock, com quem, de resto, tem colaborado. Não é este, apenas, o universo em que o vencedor da segunda edição da Bolsa Ernesto de Sousa busca recursos: no cômputo final de «Cyclorama Lift 2» e «Cyclorama Lift 4» contribuem certos aspectos de outras tendências: o «noise» (a sua música alicerça-se, sobretudo, nos parasitas sonoros dos circuitos eléctricos), a improvisação e o aleatório (o sistema sonoro que utiliza tem uma grande margem de imprevisibilidade, aliás), a «new music» de Alvin Lucier e John Cage e as novas tendências da música para guitarra, de Jim O'Rourke a Alan Licht, passando pelos Sonic Youth mais experimentais. Tendo em conta a recente e gradual identificação de Rafael Toral com a vasta cena do pós-rock, falta identificar uma outra referência, particularmente observável em «Aeriola Frequency»: a do «krautrock» electrónico dos anos 60/70 e mesmo do chamado «space rock». Não se pense, de qualquer modo, que a música de Toral não passa de um «melting pot» ou de uma manta de retalhos, à semelhança de muitos subprodutos da pós-modernidade. Nada disso: o que apontei não são ingredientes, mas coordenadas, linhas de força, «toques», delimitações territoriais. Não é isso que mais interessa a Rafael Toral, mas a «viagem» pelo «imenso campo sonoro, sempre desdobrando-se em novas paisagens, de florestas cujas plantas crescem e mudam de forma diante dos nossos olhos». O que nos conduz ao carácter fortemente imagético, para não dizer cinematográfico deste novo álbum. Não porque esta música possa servir para acompanhar imagens (não há nela nada de ilustrativo, pelo contrário), mas por induzir a formação daquelas na mente do ouvinte, que «imagina» (no sentido mais apropriado do termo) determinados cenários a partir daquilo que ouve. A meticulosidade de Rafael Toral na gestão dos materiais sonoros (ou, melhor dizendo, das ressonâncias) a tal nos conduz, com uma paciência, um rigor e uma serenidade notáveis. «Aeriola Frequency» não tem o deslumbre que fez de «Wave Field» um sucesso internacional, mas não lhe fica muito atrás.
[REP] - Rui Eduardo Paes
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6.6.15
Memorabilia: Catálogos (3) - Ananana
Julho de 1998 - catálogo geral
198 páginas A6 / vertical
preto e branco
Actualização 1 do Catálogo Geral de Julho de 1998
24 páginas A6 / vertical
preto e branco
Actualização 2 do Catálogo Geral de Julho de 1998, já de 1999
20 páginas A6 / vertical
preto e branco
Actualização 3 do Catálogo Geral de Julho de 1998, já de 1999
24 páginas A6 / vertical
preto e branco
2.3.15
Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (35) - Mondo Bizarre - Nº 10 - Fevereiro de 2002
Mondo Bizarre
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Nº 10 - Fevereiro de 2002
80 páginas a p/b, com capa e contracapa a cores.
Os Melhores do Ano 2001
1 - White Stripes - "White Blood Cells" (Sympathy For The Record Industry / MVM)
2 - Zen Guerrilla - "Shadows On The Sun" (SubPop / Música Alternativa)
3 - Strokes - "Is This It" (BMG)
4 - Stephen Malkmus - "Stephen Malkmus" (Domino / Ananana)
5 - Mark Lanegan - "Field Songs" (Beggars Banquet / MVM)
6 - Nick Cave - "No More Shall We Part" (Mute / Zona Música)
7 - Sparklehorse - "It's A Wonderful Life" (Capitol / EMI)
8 - Ryan Adams - "Gold" (Lost Highway / Universal)
9 - Mercury Rev - "All Is Dream" (V2 / Zona Música)
10 - Lift To Experience - "The Texas Jerusalem Crossroads" (Bella Union / Symbiose)
11 - The (International) Noise Conspiracy - "A New Morning, Changing Weather" (Burning Heart / Música Alternativa)
12 - New Order - "Get Ready" (London / Warner)
13 - Smog - "Rain On Lens" (Domino / Ananana)
14 - Rufus Wainwright - "Poses" (Dreamworks / Universal)
15 - Radiohead - "Amnesiac" (EMI)
16 - Dirtbombs - "Ultraglide In Black" (In The Red)
17 - Jim White - "No Such Place" (Luaka Bop / EMI)
18 - Fugazi - "The Argument" (Dischord / Sabotage)
19 - Bonnie "Prince" Billy - "Ease Down The Road (Domino / Ananana)
20 - Tool - "Lateralus" (Zomba / EMI)
Entrevista
Rafael Toral
Guitarra, Frequências e Sons
Há pelo menos 15 anos que Rafael Toral vem desenvolvendo criações e pequisas que tem por base a guitarra eléctrica. Um pouco por causa dos recentes concertos com Lee Ranaldo, aproveitou-se uma antiga ideia de fazer uma breve mostra do trabalho de Rafael Toral, cujo resultado aqui se mostra.
. e ainda mantem o seu emprego "diurno", como conjuga isso com a sua actividade de músico/compositor?
- É por essa razão que sou tão lento e o meu trabalho tão escasso em quantidade. Mas não vejo outra opção.
. O seu nome é reconhecido e admirado por muitos músicos estrangeiros - Lee Ranaldo, Thurston Moore, Jim O'Rourke, Mike Patton, Duane Denison, etc. -, e elogiado sem reservas por publicações como a Wire ou a Révue e Corrigé. Por cá a relevância do seu trabalho parece passar mais ou menos ao lado. Isso aborrece-o?
- É um hábito português, ou, pelo menos, lisboeta, o encontrar conforto na mediocridade. Enquanto formos todos medíocres, está tudo bem. Agora se alguém começa a ganhar notoriedade, torna-se um problema, uma pedra no sapato. Gera-se um distúrbio na mediocridade e há que fazer tudo para que ela regresse. Já senti muitas vezes que alguns sucessos que eu tenha tido criaram incómodo e mal estar por aqui. Não me afecta nada, mas é triste, naturalmente. Felizmente, existem "ilhas" que funcionam noutro patamar, mais internacional e iluminado, como a Fundação de Serralves.
. Acha que um dia lhe acontecerá o mesmo que a Emmanuel Nunes e finalmente, verá a sua obra condignamente divulgada?
- Não faço ideia nem quero pensar nisso. A música que faço é para o planeta todo, não me preocupo com essa dimensão local.
. Olhando para a sua carreira, que tem sido rica em experiências, qual a relevância que dá a estas duas apresentações (Casa de Serralves, Gulbenkian) com Lee Ranaldo?
- Há já vários anos que tínhamos esta ideia de tocar ao vivo em duo, e houve várias ocasiões apontadas, que nãos e realizaram por uma ou outra razão. Sinto que é um passo importante, porque o Lee foi uma figura influente e importante no meu percurso, e agora (salvo a diferença dos caminhos percorridos) cheguei a um estado de maturação que permite estarmos num palco em confronto directo, de igual para igual.
. Chicago é vista como uma cidade emblemática da música experimental. Que visão tem da chamada "Chicago Scene"?
- É uma das cidades que melhor me acolheu e com a qual ainda mantenho laços muito fortes. Para além da sua concentração de músicos excelentes por metro quadrado, aquilo que torna Chicago tão especial será, com certeza, a qualidade do público.
. Boa parte do seu trabalho tem residido na ressonância. Primeiro com a guitarra e depois em Cyclorama Lift - Aeriola Frequency - apenas com um circuito vazio. O que lhe resta para descobrir nesse capítulo?
- Sendo a minha atitude criativa baseada na descoberta, não sei o que tenho ainda para descobrir, só mesmo descobrindo - passe a redundância ... mas considero-me satisfeito com o que já realizei nesse campo.
. Depois, com "Violence Of Discovery And Calm Of Acceptance", encerrou um período de 15 anos durante os quais foi trabalhando meticulosas peças para guitarra...
- É um disco que atravessa todos os outros, reúne todos os caminhos percorridos em trabalhos anteriores e abre novas abordagens. É o meu disco mais importante de sempre, e creio que mais importante que os próximos também.
. Agora edita um disco com trabalhos antigos. A ideia que dá é que tem vindo a encerrar ciclos criativos. Isso permite-lhe avançar para novas experiências - abandonando o que está para trás ou simplesmente integrando o passado na criação de algo novo?
- Penso que tenho mais tendência para integrar o caminho percorrido até ao presente, uma vez que o meu campo de acção é muito preciso e específico. Esta próxima edição, "early Works", tem, curiosamente, o efeito de marcar justamente o início do percurso que se conclui com "Violence of Discovery...". Colocados lado a lado, nota-se uma continuidade entre eles.
. Pontes metálicas lembram-me sempre essas pontes de ferro, em particular para combóios, de que existem vários exemplos em Portugal. Foi nelas que se baseou para "Bridge Music"?
- Esse projecto ainda não arrancou. É inteiramente baseado em pontes rodoviárias. Tenho já cerca de oito horas de gravações em pontes de todo o mundo, desde a 25 de Abril à Golden Gate. É um trabalho em que quero explorar a ressonância nas suas estruturas. Mas sabe-se lá quantos anos se passarão até começar a produzir... É um projecto que tenho desde 1992.
. "Love" é a sua homenagem a John Cage. Parece evidente que o considera um compositor essencial. Mas até que ponto é possível dizer que Cage está presente nos seus trabalhos?
- Talvez essa influência não se revele muito a nível formal. Sempre mantive que aundo somos inspirados pelo trabalho de alguém, essa influência pode ter resultados mais interessantes se se manifestar a nível conceptual - desse modo, a mesma ideia pode ter expressões muito diferentes. Quando dizemos que "A" soa a "B", isso revela uma influência a nível formal, o que indica uma influência mal resolvida criativamente, um nível de exigência pobre, ou ambos. Cage está presente nos meus conceitos de som, ruído, controlo. E em muitos outros níveis que são já praticamente subconscientes. O projecto "Love" também está em suspenso, falta realizar uma peça ou duas. As peças dele exigem um grau de disciplina e rigor inimagináveis, mesmo que não pareça...
. "Early Works" tem apenas peças suas ou também alguns dos temas que faziam parte do reportório dos S.P.Q.R.?
- Não, são apenas trabalhos compostos depois da dissolução desse projecto. Não faria sentido editar esses materiais, por não terem consistência conceptual.
. Tem alguns planos para "ressuscitar" os S.P.Q.R.? Digamos que o projecto deixou uma, muito pequena, mas adorardora minoria saudosa.
- Não. O projecto desapareceu porque os restantes elementos optaram claramente por outros caminhos (a outra "metade" continuou como baixista dos Mão Morta, está bem longe em termos estéticos) e eu limitei-me a continuar sózinho. Mas, sinceramente, reconheço muito mais valor no trabalho que desenvolvi a partir daí.
. Vê a sua passagem pelos "Pop Dell'Arte como uma "experiência" de laboratório? O que levou dos Pop Dell'Arte para as suas peças a solo?
- Quando entrei para os Pop Dell'Arte já tinha iniciado claramente o meu percurso de pesquisa com a guitarra, assim como já havia iniciado algumas práticas experimentais, que levei para o grupo e no qual as desenvolvi. Foram importantes, nessa altura, o contacto com o Nuno Rebelo e Nuno Canavarro.
. E os No Noise Reduction, que papel têm na sua aprendizagem / capacidade de criação?
- NNR é, ou foi, um projecto sem contornos definidos, antes um espaço criativo onde o Paulo Feliciano e eu nos dedicámos a abordagens e desafios radicais, resultando em trabalhos que nenhum de nós faria sózinho. Uma espécie de laboratório experimental, de onde resultaram muitas práticas e técnicas que integrámos nos nossos respectivos trabalhos. Essa relação de cumplicidade mantém-se, agora absorvida por projectos desenvolvidos com outro enquadramento e noutra escala, como o projecto Houselab (com Rui Gato, Helder Luís e Rui Toscano).
. Lembra-se de um antigo projecto, que se não me engano se chamava Optimistic Kheops onde, entre outras coisas, se faziam sons com o soprar de bolinhas de sabão, aspiradores e máquinas de lavar?
- Já me tinha esquecido disso! Existe uma cassete, agora me lembro, mas foi gravada depois das invasões napoleónicas e espero que já se tenha desfeito em pó.
. O seu trabalho em nome próprio não tem as características geralmente dadas como as do rock. No entanto, como produtor trabalhou com vários grupos rock. O rock, como linguagem não lhe interessa?
- Já não é a primeira vez que me fazem essa pergunta. O meu trabalho tem o rock como ponto de partida, e é ao mesmo tempo um derivado longínquo e uma síntese abstracta e essencial. Isto aplica-se principalmente aos meus trabalhos principais, "Wave Field" e "Violence of Discovery". Interessa-me mais, é claro, ocupar uma posição em relação ao rock que mais ninguém tem do que tentar fazer rock, que é muito mais simples tecnicamente e é um território super-povoado.
. Está-se a ver a editar um disco como "Insignificance", de Jim O'Rourke - que parte dos clichés do rock sulista (linha Lynyrd Skynnyrd), ou fazer versões dos AC/DC?
- Fazer versões dos AC/DC?? Hmm, não, obrigado... embora deva admitir que fui um grande fã desse grupo, quando tinha 10 ou 11 anos. Um disco como "Insignificance", só mesmo um Jim O'Rourke para o fazer. Mas tenho um projecto para um disco de canções - não faço é ideia se alguma vez pensarei nele a sério.
. A tecnologia tem evoluído ao longo dos anos até que ponto se reflete essa mesma evolução no seu trabalho e abordagem sonora?
- A minha abordagem aos materiais concretiza-se com recurso à tecnologia, mas é esta que serve aquela e não o contrário. A minha evolução é idependente da evolução tecnológica, embora esta possa introduzir novas opções que serão de considerar...
. Numa recente entrevista à revista Wire, a contrabaixista Joelle Léandre dizia que, actualmente, os compositores já não são como há um quarto de século, pois agora estudam composição e harmonia mas não tocam instrumentos. Concorda com essa afirmação?
- Acho que essa afirmação está pelo menos uns bons três quartos de século atrasada. A harmonia como elemento estruturante da composição começou a ser "demolida" no princípio do século passado. Também o conceito de "instrumento" já foi expandido há muito, muito tempo, e continua a sê-lo. Mas isso foi com certeza dito num meio académico mais restrito (e mais parado no tempo, também).
. Acha que isso - o facto de não se tocar instrumentos - se reflete na qualidade e na inventividade da música?
- Acho que a falta de uma prática qualquer sobre a criação sonora seria uma séria limitação à criação musical. É como construir algo sem conhecer os materiais de construção, ou conhecê-los apenas por catálogo...
. Voltando a John Cage. A ausência de som, ou o silêncio como obra de arte, cujo ponto alto é 4'33", é uma coisa real? O silêncio existe mesmo? É que, mesmo dentro de uma "Camara Silens", diz-se, ouvem-se duas coisas: o nosso coração (e o sangue que corre nas veias) e os nossos nervos...
- Ausência de som e silêncio são coisas totalmente diferentes. Ausência de som é aquilo que poderemos experimentar depois de falecermos, mas claro que não vamos poder contar a ninguém como foi. O silêncio, realmente, não existe. Cage conseguiu esta inversão fabulosa em 4'33", em que compôs um silêncio que consiste na ausência de sons emitidos por um músico, mas cujo conteúdo musical é tudo o que se ouve durante essa duração. O silêncio transformou-se no infinito do som.
Raquel Pinheiro
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