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30.8.22

SYNTORAMA - nº 16 / 1989 - "ELECTRÓNICOS LUSITANOS" (parte 3/4) - AMA ROMANTA -


 


AMA ROMANTA

 Uma das editoras portuguesas mais activas, editando deste o rock mais obscuro ao pop mais expressionista, passando pela música electrónica e o novo jazz. Aqui, vamos precisamente fixar-nos nesta faceta, que é a que nos interessa.

Falaremos de TÓ ZÉ FERREIRA, NUNO CANAVARRO, SEI MIGUEL. Nesta etiqueta também editaram discos os TELECTU (CAMERATA ELETTRONICA) e também se atreveram com PASCAL COMELADE (BEL CANTO).

TÓ ZÉ FERREIRA – Tem 25 anos, faz música electrónica e foi uma das grandes revelações da 1ª Mostra Portuguesa de Artes e Ideias.

Tem editado, pela etiqueta AMA ROMANTA o disco “MUSICA DE BAIXA FIDELIDADE”. – Música para computador.

 

TÓ ZÉ FERREIRA

Praceta Manuel Nunes Manique, 3 – 2º C

2750 – CASCAIS (PORTUGAL)


 

“Essencialmente sou um curioso, penso que as pessoas se deveriam interessar pelas coisas. Há tantas maneiras de vê-las e, é isso que é o mais importante. Não é dizer: eu penso isto, eu sou assim, tenho estas ideias, tenho esta personalidade” e ficar-se por aí. Isso não, meu Deus”.

TÓ ZÉ FERREIRA, no Semanário BLITZ

 

NUNO CANAVARRO. – É um músico que apareceu no início da década dos anos 80, como teclista do grupo STREET KIDS, com os quais gravou 3 singles e um LP. Estudou novas sonoridades juntamente com TÓ ZÉ FERREIRA no Instituto de Sonologia de Utrecht, na Holanda. A sua primeira experiência como produtor foi um maxi-single para o grupo MLER IFE DADA.

Tem apenas um LP gravado a solo e editado em Dezembro do ano passado, intitulado “PLUX QUBA – MÚSICA PARA 70 SERPENTES”. Para a gravação deste disco utilizou um sampler Mirage, um sintetizador Moog, um magnetofone de oito pistas e microfones, além de um Walkman Sony.


 

SEI MIGUEL. – É um músico que pratica “novo jazz”. O seu instrumento é a trompete de bolso. Tem editados dois LPs até agora, bem diferenciados e com formações distintas, com um período de tempo muito curto entre a edição de um e de outro.

“BREAKER”, o seu primeiro LP gravado directamente (live) com um Sony WM D3 em 3 salas diferentes, entre Dezembro de 87 e Janeiro de 88. Influências BE-BOP. Temas como: “BREAKER”, “THIRSTY?”, “THE MIRROR”, “KEY BLUES ABOUT BUILDINGS”, etc. … Acompanham SEI MIGUEL (trompete de bolso), FALA MIRIAM (trombone), BRUNO RASCÃO e ALEX GALLO (Guitarras), ZÉ NINGUÉM (saxofone), BRUNO NEXT e JOSÉ OLIVEIRA (percussões).

“SONGS AGAINST LOVE AND TERRORISM” editado no início de 89. Como o anterior, gravado live em quatro salas diferentes. SEI MIGUEL com o sexteto denominado “SANTOS DA CASA FM”; no seu som foram eliminados a bateria, baixo e teclados, dando lugar a uma outra guitarra eléctrica, percussões metálicas e tuba. Percebe-se um trio fundamental a destacar depois destes álbuns; SEI MIGUEL e a sua respectiva trompete de bolso, BRUNO RASCÃO na guitarra eléctrica e FALA MIRIAM no trombone de varas.

 

SEI MIGUEL

Rua das Chagas, 16 – 4º esq.

1200 LISBOA (Portugal)

 

AMA ROMANTA

c/o João Peste

Rua Coelho da Rocha, 46-1º D

1200 LISBOA (Portugal)

 

Estes discos estão disponíveis através do contacto da AMA ROMANTA


SLYNKTORAMA16






26.8.22

SYNTORAMA - nº 16 / 1989 - "ELECTRÓNICOS LUSITANOS" (parte 2/4) - MISO ENSEMBLE -


 


MISO ENSEMBLE

Duo de flauta e percussões formado no ano de 1985 por PAULA AZGUIME e MIGUEL AZGUIME.

MISO ENSEMBLE “Música para flauta e percussão” é o título do primeiro LP desta nova editora independente “MISO PRODUÇÕES”, que tem previsto, desde o início, dedicar-se às músicas improvisadas, sem esquecer a áudiopoesia e outras experimentações alternativas. Mas vamos conhecer os MISO ENSEMBLE e a sua editora discográfica um pouco mais a fundo, através da entrevista efectuada a um dos seus responsáveis, MIGUEL AZGUIME, feita por correio na Parede (Portugal) em 1.5.89

MISO ENSEMBLE

Rua do Douro, 92 r/c

REBELVA 2775 PAREDE (PORTUGAL)


 ENTREVISTA

ROGELIO PEREIRA – Como surgiu a ideia do duo MISO ENSEMBLE?

MISO ENSEMBLE – A ideia de formar um grupo de música contemporânea, onde se desse especial importância à improvisação e exploração de novas técnicas instrumentais, paralelamente à criação de composições originais, foi o que esteve na origem dos MISO ENSEMBLE.

Baralhar as categorias demasiado definidas, misturar públicos diversos num esforço de comunicação e divulgação da música contemporânea, foi uma orientação constante dos MISO ENSEMBLE.

R. PEREIRA – Pensam seguir esta linha ou experimentarão introduzir novos instrumentos?

MISO ENSEMBLE – Concretizando, sem mais demoras, a ideia que levou à criação dos MISO ENSEMBLE, e principalmente por questões de tipo financeiro, os MISO ENSEMBLE tornaram-se, ao final de 6 meses, num duo, constituído por PAULA AZGUIME, flauta, e MIGUEL AZGUIME, percussão. Devido à intensidade e originalidade da linguagem musical do duo, decidimos, a Paula e eu, mantê-lo como a nossa principal actividade, não excluindo a hipótese de realizar um trabalho paralelo com uma formação alargada, em função das necessidades composicionais.

R. PEREIRA – São favoráveis à música feita com instrumentos electrónicos?

MISO ENSEMBLE – Os instrumentos electrónicos são meras ferramentas musicais como os outros instrumentos, e que, como tal, têm o seu campo de liberdades (timbres, dinâmicas, frequências, cores, formas, luz … ideias!). Movimentarmo-nos dentro desse campo e criar a música “perfeita”. Nos MISO ENSEMBLE, ainda que não esteja excluída a hipótese de usarmos instrumentos electrónicos, é sobretudo na extensão das técnicas instrumentais convencionais e na criação de novas técnicas com instrumentos acústicos, assim como nas possibilidades de relação entre a flauta e a percussão que o nosso trabalho mais tem incidido.


R. PEREIRA – Quais são as músicas que os atraem mais neste momento?

MISO ENSEMBLE – Todas, desde que sejam boas.

R. PEREIRA – Além do vosso trabalho como músicos, pensam editar mais gente na vossa etiqueta? Podem adiantar-nos algo mais sobre os vossos projectos futuros?

MISO ENSEMBLE – A MISO PRODUÇÕES está aberta a vários tipos de propostas musicais, estando neste momento programados para sair quatro discos: CARLOS ZÍNGARO – Violino solo. COLECTIVA – Grupo dirigido por CONSTANÇA CAPDEVILLE. ANTÓNIO SAIOTE – Clarinete solo (obras de compositores contemporâneos portugueses. PAULA AZGUIME – Flauta solo.

Os discos de CARLOS ZÍNGARO e de PAULA AZGUIME já se encontram gravados, sendo o disco de CARLOS ZÍNGARO o próximo a ser editado. Todos os discos são gravados digitalmente, mas ainda não sabemos se sairão em vinilo ou compacto. Gostaríamos também de gravar e editar poesia, mas neste momento não existem condições para concretizar esse projecto. A MISO PRODUÇÕES conta com o apoio pontual do Mecenato de Empresas.


R. PEREIRA – Tens algum tipo de contacto em Espanha?

MISO ENSEMBLE – Infelizmente, ainda não. Estamos neste momento a preparar uma tournée por Itália, e talvez fosse possível aproveitar este facto para realizar algum concerto em Espanha.

Gostaríamos muito que ver reunidas as condições para um encontro de músicos de várias áreas e intercâmbio musical de vários países, a nível de concertos e/ou de edição discográfica.

R. PEREIRA – A vossa música serviu de suporte a algum filme. Podem mencioná-lo?

MISO ENSEMBLE – Realizámos a música para dois filmes, ambos de JOAQUIM PINTO, “Uma Pedra No Bolso” (1998) e “Onde Bate O Sol” (1989). Trata-se de música especialmente composta para os filmes e não do aproveitamento de material já existente.

R. PEREIRA – Estão dispostos a exportar a vossa música para fora de Portugal?

MISO ENSEBLE – Contamos, a partir deste ano, realizar concertos e distribuir os discos fora de Portugal.

R. PEREIRA – Durante o ano passado percorreram um monte de kilómetros a visitar distintos lugares de Portugal. Como se desenrola, ao vivo, um concerto vosso?

MISO ENSEMBLE – Os MISO ENSEMBLE têm em concerto uma característica singular: A música transmitida directamente do artista para o público, passando pelo instrumento / instrumentista. O acto de criação é partilhado com o público em cada concerto, o que explica, possivelmente, a invulgar capacidade de comunicar, comover e apaixonar.


Para cada concerto escolhemos o que vamos tocar em função das condições acústicas da sala. Às vezes fazemos apenas duos, outras vezes tocamos cada um de nós sobretudo peças solo, não existe uma regra definida. Os instrumentos de percussão que utilizo não são sempre os mesmos, e o que tocamos, Às vezes é completamente improvisado, outras vezes está rigorosamente escrito. Para o prazer total de fazer música e o desafio renovado de comunicar, evitamos a rotina.

R. PEREIRA – Podes explicar aos leitores que música se pode ouvir no vosso disco e o que pretenderam com ela?

MISO ENSEMBLE – O disco foi gravado em concerto, em digital, e diretamente para pistas stereo, não havendo nenhum tipo de sobreposições, misturas ou tratamento de estúdio posterior. O resultado está muito próximo de um concerto: música para flauta e percussão em que florescem combinações sonoras que obedecem às exigências do nosso ritmo interior. A música existe e é preciso escutá-la.

SLYNKTORAMA16






28.7.22

SYNTORAMA - nº 16 / 1989 - "ELECTRÓNICOS LUSITANOS" (parte 4/4) - FACADAS NA NOITE -


 


FACADAS NA NOITE

FACADAS NA NOITE é o nome de uma nova editora independente, nascida em Agosto de 88 e estabelecida na cidade de Braga. Fruto de vários projectos anteriores (programas de rádio VIOLET BLOOD e FACADAS, além do fanzine “DIE NEUE SONNE”).

Os dois responsáveis do referido projecto são JORGE PEREIRA (BRAGA) e JOSÉ MOURA, como colaborador em Lisboa.

JORGE PEREIRA começou a realizar programas de rádio, um dos quais ainda em actividade, e que dá o título à editora. Aparte disso é um dos responsáveis do fanzine “DIE NEUE SONNE” (o novo sol). Editaram até agora quatro números, e neles se reflecte o movimento alternativo existente em Portugal e do que vem de fora. Como editora de cassetes viram a luz até ao momento duas edições: FNN 001 – HIST – “THE GREATEST HIST” K7. C-60 Agosto de 88 (Histeria de Imagens Sonoras com 15 temas desta banda de Setúbal (Lisboa), formada por ABEL RAPOSO e EURICO COELHO.

“Música áspera, palavras cínicas. A intensidade dos seus sons une-se a um cariz opressivo e visceral que não permitirá caracterizar a música dos HIST como simple sonhos. Difíceis de definir, por isso recomendamos que os escutem e depois de uma atenta audição, que cada um tire as suas conclusões. A cassete vem acompanhada por um libreto onde podemos encontrar notas acerca deste projecto, que hoje se encontra numa fase onde predomina o sampler” (Comentário de JORGE PEREIRA)

 

FNN 002 “13 INCISÕES / THIRTEEN INCISIONS” K7 C-45. Março de 89. Edição Limitada 50 + 50 exemplares.

Compilação internacional com temas inéditos e enviados exclusivamente para a editora.

VOMITO NEGRO (Bélgica), 3!TRUNCHEON (Bélgica), THE ICONS OF NOISE (Inglaterra), SUICIDE COMMANDO (Bélgica), HIST (Portugal), LOS HUMILLADOS (Espanha), LIQUID G. (Bélgica), DOMINION (USA), WHITE HOUSE WHITE (Bélgica), A LAS VOLLGAS (Canadá).

(Ambas as cassetes são embaladas numa caixa de vídeo VHS com libretos informativos no interior).

 

CONTEÚDO DOS FANZINES “DIE NEUE SONNE”

Nº 1 – Com BOURBONESE QUALK (Entrevista + artigo), MÃO MORTA, COGOL LER ET LA HORDE, THE SISTERS OF MERCY, METAL ON METAL (Crónica industrial), ARTE TOTAL (editoras independentes), EYELESS IN GAZA (entrevista), NICK CAVE.

Nº 2 – Com EINSTURZENDE NEUBAUTEN, THE BONAPARTES, RATOS DE PORÃO, THE JESUS AND MARY CHAIN, ARTE TOTAL (editoras independentes), PARALISIS PERMANENTE, ROCK NO CORAÇÃO DAS TREVAS, GURU PARAPLÉGICO, ICONOCLASTA (entrevista)

Nº 3 – BIG BLACK, JOHNSON ENGINEERING, FRON LINE (entrevista), CURRENT 93, DOSSIER JOY DIVISION, CLUB MORAL, THE GODFATHERS, SIGLO XX, HENRY ROLLINS, MÃO MORTA (entrevista), HIST, THE KLINIK.

Nº 4 – HIST (entrevista) THE BUTTHOLE SURFERS, FACADAS NA NOITE, POESIE NOIRE, ACHWGA NEY WODEI, WISEBLOOD, LA FURA DEL BAUS, SWANS, SKINNY PUPPY, LES FLEURS DU MAL.

 

Os próximos projectos da FACADAS são uma cassete do grupo de Barcelona LOS HUMILLADOS, uma compilação portuguesa (INSÓNIA), os franceses TUATHA DE DANNAN (Ecletique) e outras surpresas…

A FACADAS NA NOITE será distribuída em França pela “Front de L’Est” e em Espanha pela “Músicas de Regimen”.


Para conhecer mais detalhes sobre a FACADAS NA NOITE fiz a um dos seus responsáveis, JORGE PEREIRA, a entrevista seguinte, por correio, em Abril de 89.

 

ROGELIO PEREIRA – A FACADAS NA NOITE nasceu como um programa de rádio que realizas. Desde quando? Que tipo de música passas nesse programa?

JORGE PEREIRA – Comecei a fazer um programa de rádio em 1986, chamado “VIOLET BLOOD” (Sangue Violeta) com um amigo, até que, posteriormente, em 87, iniciei a “FACADAS NA NOITE”, programa ainda mais selectivo e radical. O tipo de música que passava no programa era basicamente temático, acompanhado por múltiplos apontamentos informativos e críticas de grupos, editoras, etc. Assim, “VIOLET BLOOD”, que era um programa com um horizonte mais amplo e menos limitado preocupava-me em passar grupos que faziam desde música electrónica até projectos mais ácidos e “noise”. NURSE WITH WOUND, DEATH IN JUNE, CHROME, CURRENT 93, SWANS, BUTTHOLE SURFERS, SCRATCH ACID, SONIC YOUTH, BIRTHDAY PARTY. (Era um programa de rádio muito aberto). Com o nascimento de FACADAS NA NOITE, passei a pôr mais música electrónica e experimental e nomes como: BOURBONESE QUALK, MUSLINGAUZE, COIL, PSYCHIC TV, FRONT LINE ASSEMBLY, AVANT DERNIÉRES PENSÉES, ORFEON GAGARIN, THE KLINIK, VZYADOG MOE, etc. … (desde grupos mais acessíveis a nomes menos conhecidos)

ROGELIO PEREIRA – A que se dedica o fanzine “DIE NEUE SONNE”?

JORGE PEREIRA - O fanzine “DIE NEUE SONNE” como é feito por pessoas com gostos muito diferentes, reflectia esses mesmos gostos e divulga tanto grupos electrónicos como industriais e outros estilos.

De qualquer forma, planeio lançar o 5º número só com material muito radical, e já estou a trabalhar nele.

ROGELIO PEREIRA – Têm projectado editar por vossa conta cassetes do que se faz em Portugal no terreno experimental-electrónico?

JORGE PEREIRA – As nossas edições, até agora, estão bastante ligadas à música electrónica-industrial e estamos a planear editar grupos como ERU EU WAU WAU, HAZDAM (linha THROBBING GRISTLE), IK MUX, FRONT LINE PRODIG, todos grupos electrónicos portugueses. Além disso o grupo L’Ego (membros dos HIST) com material muito interessante, outros nomes como os HOSPITAL PSIQUIÁTRICO (influências de E. NEUBAUTEN), RUA DO GIN (FOETUS), ELECTRODOMESTICOS (CABARET VOLTAIRE dos seus primeiros anos), TELECTU, OCASO ´PICO, PROYECTO G, e outros… São alguns dos projectos que começaremos a editar num futuro próximo, ainda que de momento estejamos em contactos com a maioria deles.

As edições de FACADAS NA NOITE serão sempre feitas em cassetes áudio com boa apresentação, numeradas e de edição limitada, acompanhadas por livretes com informação sobre as bandas, em edição bilíngue (Português-Inglês) e dentro de caixas de vídeo VHS.

A primeira edição foi a cassete “THE GREATEST HIST” dos HIST e contém material antigo, gravado ao vivo com poucos meios e gravada entre 1983/85.

Os HIST estão agora a trabalhar com mais e melhores meios e vão ser incluídos numa compilação em vinilo para a editora belga “CLIMAX PRDUCTIONS”. Têm composto novo material já preparado para ser editado pela FACADAS proximamente.

A segunda das cassetes é a compilação “13 INCISÕES”, que contém material diverso, quase todo gravado em exclusivo para a nossa editora.

Planeamos também o lançamento de um catálogo de distribuição e fazer algo similar ao que faz a SYNTORAMA, e queríamos contar com material distribuído pela SYNTORAMA, FUSION DE PRODUCCIONES, ESPLENDOR GEOMETRICO e outras etiquetas alternativas espanholas.

ROGELIO PEREIRA – Como têm respondido os portugueses a esta série de alternativas?

JORGE PEREIRA – Os interessados em música electronic em Portugal não são muitos, ainda que tenham vindo a aumentar. Trata-se de uma elite, que começaram a ouvir bandas como os CURRENT 93, COIL, IN THE NURSERY, etc. e depois procuram aprofundar conhecimentos e acabam por entrar em contacto com outro tipo de projectos, normalmente mais radicais e mais electrónicos.

 

JORGE PEREIRA responsável da FACADAS NA NOITE está interessado no intercâmbio de discos, cassetes, fanzines e outros produtos alternativos.

O seu contacto é:

 

FACADAS NA NOITE

C/o JORGE PEREIRA

APARTADO 1058

4700 BRAGA (PORTUGAL)

 

!! ÚLTIMA HORA !!

FNN 003 – JARDIM DO ENFORCADO – “ONDE OS CAIXÕES BROTAM COMO FLORES…”

FNN 004 – HOSPITAL PSIQUIÁTRICO – “1º ELECTROCHOQUE”

FNN 005 – COMPILAÇÃO NACIONAL “INSONIA"

Com: h.i.s.t., JARDIM DO ENFORCADO, HOSPITAL PSIQUIÁTRICO, RU 486, URU EU WAU WAU, DE PROFUNDIS, LÉGO, ETC.

FNN 006 – L’EGO HIST – “BIOLOGIA”




SLYNKTORAMA16

Para K7s da "Facadas na Noite", contactem por email, sff.






25.7.22

SYNTORAMA - nº 16 / 1989 - "ELECTRÓNICOS LUSITANOS" (parte 1/4) - TELECTU -


 

             ELECTRÓNICOS LUSITANOS

Já era altura de dedicarmos um espaço ao que se faz no país vizinho. Tudo o que se segue surgiu-nos na ideia após a audição de um concerto dado pelos TELECTU a propósito da bienal de Barcelona 87.

Apesar de deixar algumas coisas para outra ocasião, isto é, de momento, o que compilei relacionado com a música electrónica portuguesa. Seguir-se-á mais informação nos próximos números.

TELECTU

Surgiram no ano de 1982 em Lisboa. Eles começaram no Jazz e na música Rock, cada um por seu lado. VÍTOR RUA foi um dos fundadores dos GNR (Grupo Novo Rock), um dos grupos mais inovadores neste campo. Jorge Lima Barreto já faz música desde 1968 (Jazz e música electrónica).

Além de se dedicarem a tocar desenvolvem outras actividades, como a crítica, vídeo-arte, programas de rádio. Colaboraram com uma grande diversidade de gente; Por isso não vou continuar a contar a sua trajectória, já que a mesma se encontra reflectida na entrevista que fizemos a um dos responsáveis, Jorge Lima Barreto e que aparecerá mais à frente.

 

TELECTU. – Música multimédia, electronic live, jazz mimético, música minimal repetitiva. Música para vídeo, performance, teatro, cinema e dança.

 

JORGE LIMA BARRETO. – Piano, sintetizadores, electrónica, saxofone digital, sampler.

VÍTOR RUA. – Guitarra electrónica, electrónica, engenharia de som, vídeo, guitarra digital, sampler.

ANTONIO PALOLO. – Diapositivos, vídeo, artes gráficas.

 

VÍDEOS DE VÍTOR RUA:

1985 – HALLEY (50 min)

1986 – EBRAC (30 min); AUTO LOOP (10 min)

1987 – ALIENADO (20 min); AS AVENTURAS DO CARRO AMARELO (25 min)

1988 – COMPGRAF 2 (30 min); MIMESIS (37 min. 50 seg)

 

DISCOGRAFIA TELECTU

- “CTU TELECTU” – EMI 1982

- “BELZEBU” – CLICHÉ 1983

- “OFF-0FF” (duplo) – 3 MACACOS 1984

- “PERFORMANCE” – 3 MACACOS 1984

- “TELEFONE” – LIVE IN MOSCU 1985

- “ROSA-CRUZ”. LIVE GULBENKIAN 1985

- “HALLEY” – ÁLBUM DE LUXO COM TEXTO E SERIGRAFIA DE a. PALOLO – CENTRO NACIONAL DE CULTURA / ALTAMIRA 1986

- “DATA” – (MÚSICA PARA VÍDEO) 1986

- “CAMERATA ELETTRONICA” (DUPLO) - AMA ROMANTA 1988

- “MIMESIS” (LP e CD) – TRANSMEDIA 1988

- “BEM JOHNSON (DUPLO LP e CD) – 1989

 


VICTOR RUA

SINGLES: Com GNR – “Portugal na CEE” e “Sê Um GNR”

LP’s: Com GNR – “Independança – EMI Valentim de Carvalho, 1981

                               “Pipocas” – Ama Romanta, 1988

                               “Mimi” – Transmedia, 1989

 

JORGE LIMA BARRETO

“Anar Band” – Alvorada, 1976

“Encounters”, com Sahed Sarbid – Alv, 76

 

TELECTU

JORGE LIMA BARRETO

R/da Imprensa Nacional, 83-2ºD

1200-Lisboa (Portugal)

 

ENTREVISTA TELECTU

ROGELIO PEREIRA – Seria interessante se nos contasses como começaram.

JORGE LIMA – Primeiramente temos que considerar que os TELECTU provêm da reunião de dois músicos diferentes, na concepção musical e na vivência.

Eu toco desde 1968, primeiro em grupos de jazz-off, depois tendo fundado com CARLS ZÍNGARO a ASSOCIAÇÃO DE MÚSICA COCEPTUAL que abriria novos rumos à música portuguesa contemporânea, no sentido de uma investigação em electrónica-live (sintetizadores, piano electronicamente preparado, banda magnética), desde logo com uma actividade paralela como crítico musical e musicólogo (escrevi já 87 livros sobre música, que vão desde “REVOLUÇÃO DO JAZZ” a “MUSICÓNIMOS” (este último sobre filosofia da música e intensas observações sobre o rock).

VÍTOR RUA tinha formado em 1978 o grupo GNR (grupo novo rock) que era sem dúvida o melhor grupo de rock nacional.

Nesse tempo eu andava entre os EUA e o Brasil e quando regressei, conheci-o. Eu tinha gravado ANAR BAND (música experimental para piano, sintetizador e banda magnética) e “ENCOUNTERS” com o grande músico português de jazz, SAHEB SARBIB (música para contrabaixo, flauta e electrónica).

O VÍTOR tinha gravados vários singles de grande êxito e o LP “INDEPENDANÇA”, sempre com os GNR.

Formámos um grupo com o baterista dos GNR, um vocalista e fizemos uma obra de fusão “CTU TELECTU” pioneira na sua linguagem de ART-ROCK. A partir daí e depois de uma grande controvérsia com os princípios da multinacional para quem gravávamos, decidimo-nos pela edição independente. Introduzimos o minimalismo em Portugal, escrevi “música minimal repetitiva” e fizemos uma série de obras minimais como “BELZEBU”, “OFF-OFF”, “PERFORMANCE”, “TELEFONE”, “FUNDAÇÃO”, “ROSA CRUZ”, “HALLEY”, “DATA” e, recentemente, sintaxes repetitivas em “MIMESIS” e “BEN JOHNSON”.




Os princípios que geraram a nossa música foram muito diversos e de foro estético multifacetado; vão desde a investigação em texturas tímbricas, coordenação de dispositivos sonoros, banda magnética, instrumentos acústicos tratados (guitarra e piano), estruturas miméticas, inclusão de computador, processos multifónicos, mistura de média, multimédia, aproveitamento de novos sentidos da improvisação, nova notação musical, enfim, um processo que não deveria ajustar-se a uma definição normalizadora de tantas e tão díspares actividades.

O VÍTOR RUA trabalha essencialmente com a guitarra e engenharia de som e eu em teclados e percussão electrónica.

R. PEREIRA – Nos poucos anos que levais como duo, já garavaram um bom número de LP’s, e apesar disso na altura de editar os vossos discos recorreram, na maioria dos casos, à autoprodução e autoedição. Neste último disco “MIMESIS” gravado numa etiqueta tão importante como é a TRANSMEDIA. Pensma que, finalmente, encontraram uma editora estável para futuras gravações?

JORGE LIMA – O problema da edição independente não se pode pôr nesses termos. Como somos independentes não temos proprietários. Assim estamos livres para fazer a música que queremos e editá-la onde nos pode dar mais acessibilidade e dignidade.

R. PEREIRA – A vossa música serviu de suporte a bandas sonoras de filmes. Para que filmes contribuíram com a vossa música?

JORGE LIMA – Fizemos uma banda sonora para o filme experimental de ANTONIO PALOLO “OHM”, mas fundamentalmente fizemos músicas funcionais para performances (no CENTRO POMPIDOU de Paris), para vídeo, poesia, teatro.

O VÍTOR RUA é um vídeo-artista inovador e as nossas realizações musicais têm sido sempre uma interacção musical com o vídeo, a instalação e a performance (prémio AICA no ano de 86 pela instalação “EBRAC” com Câmara Pereira). O ANTÓBIO PALOLO é parte dos TELECTU (diapositivos, capas de discos, vídeo-arte…)

R. PEREIRA – Na vossa obra “CAMERATA ELETTRONICA” escutamos uma música mais próxima do jazz, abandonando de certa forma a formas minimalistas de anteriores álbuns. Pensam seguir nesta linha ou foi apenas mais uma experiência?

JORGE LIMA – Como já disse, eu também sou musicólogo de Jazz. Em obras como “PERFORMANCE”, “TELEFONE”, e especialmente na peça “BAKU RESTAURANT”, gravada em Moscovo, abordámos mimetismos do Jazz. Dizemos mimetismos porque não sendo músicos de Jazz, pretendemos simular a partir de instrumentos acústicos e electroacústicos, a linguagem do Jazz.

Consideramos em 87 que poderíamos ultrapassar-nos, sem abandonar os processos minimalistas, e inflectimos a nossa música para um tipo de Jazz-Off electrónico, dando mais relevo à improvisação electrónica ao vivo.

A segunda parte da pergunta tem como resposta evidente que nós continuaremos num Work In Progress das nossas concepções musicais, sem qualquer compromisso determinado com esta ou aquela tipologia musical. O futuro nasce da própria acção criativa, depende das circunstâncias tecnológicas e de novas percepções sonoras, ou seja, para além do disco e do concerto temos muitas outras situações para compor e executar a nossa música.

R. PEREIRA – Aparte de fazer música, também se dedicam a escrever em semanários musicais. Por outro lado, tu, Jorge, tens escrito algum outro livro? Tens projectos no campo literário?

JORGE LIMA – Apenas escrevo em semanários musicais. Tenho 12 livros escritos, todos no âmbito da musicologia, estou a iniciar o meu doutoramento na Universidade Nova de Lisboa, em música e mass media, tenho livros e textos já traduzidos (espanhol, italiano, inglês e francês). Neste momento estou a elaborar a minha tese e paralelamente estou a escrever um livro sobre Novas Músicas. Dei também conferências sobre este tema tão aberto, em Paris, Nova Iorque, Rio de Janeiro, São Paulo, Cuzco, Moscovo, Macau, Génova, …

R. PEREIRA – Como avalias o panorama da música electrónica Portuguesa?

JORGE LIMA – Temos de verificar que a minha opinião não pode ser encarada como a opinião de um músico apenas. Como musicólogo tenho reflectido desde sempre sobre a electrónica na música portuguesa, fui pioneiro na Electric live neste país. Escrevi um “breviário de música electrónica” onde está escrito o que penso sobre a música electrónica portuguesa. Consideremos dois tipos: 1 de estúdio, 2 ao vivo. Na electrónica de estúdio, músicos como JORGE PEIXINHO, FILIPE PIRES e sobretudo EMANUEL NUNES (residente na Alemanha), fizeram abordagens electrónicas sobre serialismo, tape music, computação, electro-acústica e, ultimamente, novos valores têm-se revelado.


Na “electrónica live” temos o CARLOS ZÍNGARO que toca com TEILTELBAUM, TELECTU, TÓ-ZÉ FERREIRA e toda uma série indiscriminada de culturas dentro de músicas mais dirigidas a uma massificação estética que inclui o rock, pop, new age e ambientes e funcionalismos musicais. Num panorama pobre, sem um estúdio de música electrónica, e que provém da própria iniciativa dos músicos, sem um eco notório na imprensa musical, praticada normalmente por ignorantes de música, tirando uma ou outra excepção.

R. PEREIRA – Há um par de anos chegaram a actuar na bienal de Barcelona, actuação da qual usaram uma parte em “CAMERATA ELETTRONICA. Têm vontade de tocar de novo em Espanha?

JORGE LIMA – Não temos apenas vontade, queremos profundamente fazer uma tournée em Espanha. Parece impossível que, tendo tocado em todos os continentes, não tenhamos quase conseguido tocar em Espanha, que é o nosso país vizinho. Temos um monte de propostas que incluem concertos, instalação, vídeo musical, performance, conferências, edição de traduções dos meus livros, mas tudo é muito difícil de concretizar; é que o governo português está muito longe de se interessar pela música portuguesa e muito menos por música portuguesa a ser tocada no estrangeiro, lugar que não interessa para captar votos para as eleições. Mas oxalá esta entrevista possa servir como incentivo para essa realizações.

R. PEREIRA – Conheces alguma da música electrónica feita em Espanha?

JORGE LIMA – Evidentemente. Tive contactos pessoais e entrevistei para o meu livro “Musicónimos” o LUIS DE PABLO, gosto muito especialmente da peça “Chaman”, também obras acústicas de BENGUEREL, MESTERES QUADRENY, SOLER, TALTABULL, POLONIO …

Em Espanha, como em Portugal, não há um importante Centro de Música Electrónica e são poucas as multinacionais do disco, que são evidentemente as mesmas que dominam o mercado musical português, que mostrem algum interesse por esta estética musical. E claro que se entendemos o termo música electrónica como toda e qualquer prática instrumental electrónica (ligada ao rock, Jazz, novas músicas, e a música comercial), torna-se muito difícil poder apreciar a música electrónica espanhola, já que os instrumentos não fazem a música sem os músicos. Gostaria de poder aprofundar o meu conhecimento, que é tão superficial, da música electrónica espanhola…

R. PEREIRA – Que outros LPs editaram separadamente?

JORGE LIMA – Eu gravei “ANAR BAND” (76) e “ENCOUNTERS” com o SAHEB SARBIB (77). Por seu lado o VÍTOR tem três LPs: Com os GNR, sob o nome de PSP-PIPOCAS (87) e MIMI (89).

R. PEREIRA – Quais são as vossas preferências musicais?

JORGE LIMA – É um campo vasto de desejo: etnográficas, clássica (que engloba obras orquestrais e de carácter solístico), electrónica, acusmática, concreta, Jazz, rock, pop, música de massas, sons naturais, obras para banda magnética, colagem musical… enfim, somos observadores conscientes de toda a música sem excepção, a não ser uma indiferença e até uma repulsa pelo comercialismo e pela indecorosa conduta das editoras e dos pseudo-músicos que contaminam, com propostas anti-estéticas, todo o consumo musical. É como dizer que se prefere BACH a CAGE, MONK a FRIPP, TEATRO CAGAKU (Japão) a uma RAGA HINDU, se todos são mundos tão maravilhosos para ouvirmos.

R. PEREIRA – Algo que queiras acrescentar?

JORGE LIMA – Penso que numa entrevista o mais importante é o que fica por dizer. Assim, poderíamos estar horas e horas a falar de música, da experiência literária, das novas notações, dos meios de comunicação, de uma composição, de um solista, de um concerto… enfim, seria uma infinidade de considerações a tecer sobre o que se ama: a música.

O desejo de poder ir, tocar e mostrar a nossa criatividade em Espanha, como interesse primordial.

E finalmente, que nos seduz imensamente o movimento estético-musical da vossa revista SYNTORAMA, que denota uma qualidade cultural e gráfica, como também pelo carácter de intervenção que revela.

Esta entrevista com JORGE LIMA BARRETO, membro dos TELECTU, foi realizada por correio, em Abril de 1989.




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