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17.11.23

Fanzines # 2 - Rock Music 01-78


 

Rockmusik 01-78 

Fanzine `78

em Alemão

33 páginas

#punk #pattismith #plasticpeopleoftheuniverse


Rockmusik 01-78 Fanzine `78 by luisje on Scribd





30.6.22

Mata-Ratos - "Mata-Ratos" (1988, Cassette)


 

Mata-Ratos

"Mata-Ratos"


Mata-Ratos – Mata-Ratos

Label: Not On Label – none

Format:

Cassette

Country: Portugal

Released: 1988

Genre: Rock

Style: Punk, Oi







Mataratink




1.4.21

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #87: Bendle - "Permanent Transience"


autor: Bendle
título: Permanent Transience
editora: Not On Label - Sel Released - Edição de Autor
nº de páginas: 164
isbn: 9781976779855
data: 2020 (ou 2021)


A história da banda punk / post-punk The Door And The Window, contada em jeito de memórias, por um dos seus dois principais membros: Bendle.





Permanent Transience

London, 1979.

At the end of the Winter of Discontent, just prior to Thatcher coming to power, two Young men form a band and a record label. They are musically inept and have no idea how to run a business. But they have an urge to make a noise, so they record what becomes their first single. And then they contemplate their first rehearsal…

An insider’s story of post-punk band The Door And The Window and of a brief moment in musical history when anything was possible.

 

ISBN: 9781976779855

Made in the USA

Middletown, DE

30 January 2021

164 páginas

Not on label

Self released

Edição de autor

 

Preface

In writing my version of the story of The Door And The Window I have focused mainly upon the first phase of the band’s existence, because it reflects a unique point in the history of (un)popular music. For a brief couple of years after the commercialisation (and subsequent redundancy) of punk music it was possible to produce and market all sorts of weird music and noise. Nag and I had a keen interest in playing music and in running our own record company. Despite having no business sense and no musical competence we managed to make and sell records – to an underground audience that was small, but which was widely (internationally) scattered. I felt myself to be one of a tangible community of musicians supporting each other with equipment and information, and of a wider community of people putting out their own music on small labels. Rather than a sense of competition, or envy at other bands having bigger audiences or sales there was a spirit of one of the gang doing well. We were constantly bemused at our own success and that people kept offering us work and exposure.

I have written more briefly of later incarnations of the band, because our gigs got less frequent, and to put them fully into context would have meant a book several times longer. The importance of the later versions of TDATW for me is that we continued to demonstrate the Permanent Transience that we had initially claimed as our modus operandi.

I have tried to be as true as I can to my experience of the story of The Door and The Window, although this has been written many years after the events. I have used old diaries as sources of information, but realize that I didn’t bother to record many things that were familiar enough to be taken granted at the time. I have chosen to leave out details that I cannot date or corroborate and have aimed to avoid retrospective analysis in an attempt at recapturing some of the spirit of that time.

Thanks everyone mentioned in the story, and apologies to those missed out.

Please get in touch if you think I’ve got any parts of the story wrong! 












9.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (9)



DN - Diário de Notícias
02 Março 2002

Discos Pe(r)didos



Sinais dos tempos, o Portugal de finais de 70 vivia ainda os reflexos próximos da revolução. Na música era ainda notória a presença protagonista dos espaços de intervenção e afins, notando-se sinais de reacção apenas nas esferas de propostas mais ligeiras, que então começam a emergir. O rock vivia uma existência meio adormecida, sem Norte, com pontuais focos de agitação em aventuras próximas do som progressivo. Aventuras alheias às dinâmicas dos espaços de divulgação radiofónicos e televisivos, quase votando o tímido silêncio toda a força que eventualmente brotasse de um amplificador em ensaios de garagem.
Enquanto por aqui se ensaiavam as primeiras eleições livres da «era moderna», Londres e Nova Iorque acolhiam uma importante revolução musical que reflectia as angústias e limitações de uma nova geração de filhos de uma economia global desfavorável. Com um semelhante sentido de urgência, apesar das francas diferenças entre as manifestações em Nova Iorque (mais letradas e abraçadas pelos círculos intelectuais alternativos) ou em Londres (com origens num proletariado urbano culturalmente desfavorecido) o punk rompia os cenários da música feita teatro e negócio de meados de 70, e apresentava ao mundo uma nova forma de estar na música. Rude, rápida, viva, ansiosa, de concretização imediata, independentemente dos meios.
Apesar de pontuais faróis (um deles o fulcral programa «Rotação», de António Sérgio, na Rádio Renascença), o fenómeno ameaçava passar a Oeste do Cabo da Roca, já que nem a Phonogram (hoje universal) e Valentim de Carvalho (hohe EMI-VC) mostravam vontade de editar Sex Pistols, The Clash, X-Ray Spex...
Nos escaparates de algumas discotecas da baixa lisboeta surge, de um dia para o outro, uma compilação de capa a preto e branco, de «design» rude (onde não faltam alfinetes e lâminas de barbear). «Punk Rock / New Wave ‘77» era o título, editado pela desconhecida Pirate Dream Records... Com Zhe Guerra e Joaquim Lopes, António Sérgio havia formado a primeira etiqueta independente da indústria discográfica, destinada assim a divulgar os nomes do punk e new wave aos quais pareciam estar alheias as multinacionais do ramo. O trio regista a editora e licencia temas dos Sex Pistols, Skrewdriver, Motorhead, Eater, The Jam, London, The Rings, Generation X, The Radiators From Space, Warm Gun e Hideous Strenght, que logo reúne para esta compilação que cai no panorama nacional como uma pedrada no charco, decidida a representar e divulgar sons que ameaçavam escapar à atenção dos portugueses.
A pax lusitana é, entretanto, interrompida por uma acção judicial contra o disco, lançada pela Phonogram que acusa a editora de pirataria e afirma serem seus os direitos dos Sex Pistols. A Valentim de Carvalho despede, então, António Sérgio, que ali trabalhava emtão como promotor. A acção do director de programas da Rensacença, Albérico Fernandes, impede que semelhante cenário se repita no éter, que diariamente continua a receber as emissões de «Rotação». O julgamento prolonga-se até 1981, sendo os réus absolvidos sem que as acusações fossem provadas.
O disco, que teve uma tiragem de 500 exemplares, é hoje peça cobiçada nos circuitos de coleccionismo. Quanto Às multinacionais incomodadas com o «caso», apressaram-se a editar compilações e singles punk e new wave! A palavra tinha passado.
N.G.

VÁRIOS
«Punk Rock – New Wave ‘77»
Pirate Dream Records








7.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (8)


DN - Diário de Notícias

Discos Pe(r)didos


Lisboa, 1978. Os Tantra enchiam o Coliseu, José Cid apostava em «10 Mil Anos Depois Entre Vénus e Marte», os Petrus Castrus regressavam aos álbuns com «Ascensão e Queda»... O rock de alma sinfónica tentava borbulhar à superfície num tempo ainda dado a protagonismos nas esferas da intervenção política, suas sequelas e primeiras reacções opostas em domínios ligeiros...
Em espaços de ebulição no restrito circuito underground da capital, dois projectos encabeçaram então uma vaga de reacção ao sistema, assimilando a essência da revolução punk que varrera Londres em 76. São eles os Faíscas (de quem nasceriam os Corpo Diplomático), que acabam por não editar, e os Aqui d'El Rock.
Os Aqui d’EL Rock são uma banda nascida em filhos do proletariado urbano de 70, com uma crueza punk primordial no seu discurso, diferente dos Faíscas, filhos da classe média. A violência verbal é a arma primordial, e a seu favor pende ainda uma rodagem maior dos quatro elementos, em tempos conhecidos como Osíris, numa encarnação formal bem diferente. Com uma linguagem muito próxima das manifestações de raiz do punk londrino, os Aqui d’El Rock são o primeiro e, na absoluta verdade, o único grupo punk português a editar discos, já que os restantes praças do movimento que também chegaram ao registo discográfico o fizeram já em momentos das suas carreiras em que o punk havia já evoluído uma linguagem própria, ou no sentido da new wave (Corpo Diplomático) ou para um novo, e menos espartano, rock urbano, mais temperado (Xutos & Pontapés).
A estreia dos Aqui d’El Rock faz-se com o single «Há Que Violentar O Sistema», single que incluía «Quero Tudo» no lado B, duas canções que traduzem hoje a essência possível do punk português, fenómeno que viveu mais de boas intenções e desejos de mudança que de factos realmente consumados. A sua importância seria, sobretudo marcante ao nível da abertura de frestas na consciência de alguns divulgadores e editores, preparando, inconscientemente, o caminho para a revolução que assolaria o país musical em 1980.
Sem papas na língua e «speedados» (como se anunciam), desferem golpes no sistema, que violentam por uma música não sofisticada, directa. Todavia, estávamos em tempos de poucas atenções mediáticas por fenómenos corrosivos a um sistema que ensaiava uma ideia de democracia de facto, que só seria devidamente estabilizada (social e economicamente) depois. E excluindo timoneiros da divulgação como António Sérgio, a revolução punk ficou sem amplificação para o país real.
N.G.


AQUI D’EL ROCK 
«Há Que Violentar O Sistema» 
Metro-Som, single, 1978 
Lado A: «Há Que Violentar O Sistema»; 
Lado B: «Quero Tudo»








22.12.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (130) - Música & Som #especial "New Wave"


Música & Som
Nº ESPECIAL - NEW WAVE
Julho de 1980
Esc. 50$00




Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, António Pedro Ferreira, Bernardo Brito e Cunha, Fernando Peres Rodrigues, Henrique Amoroso, Hermínio Duarte-Ramos, João David Nunes, João Gobern, João de Menezes Ferreira, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Paulo Norberto, Pedro Ferreira, Pedro Cristina de Freitas, Raul Bernardo, Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Jorge Cortesão e Ray Bonici

Tiragem 15 000 exemplares
56 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.



AVE ROCK, Morituri te salutant
por Ana Rocha



«Já a minha pele encarquilhada estala
Já rastejo no meio de ervas e dos calhaus
Apesar de tanta terra absorvida
DESEJO UMA TERRA NOVA...
Acompanhando o meu rasto sinuoso
Ávido de comer o meu repasto
DESEJO UMA TERRA NOVA...»

Assim (quase que) falava o Rock...
Assim poderíamos exprimir a sensação de cansaço que antecedeu o movimento punk liderado por uma geração ("Blank Generation"...) enraivecida... revoltada... inconformada com o torpor circundante. O percurso musical dos primeiros cinco anos da década de 70 (não falamos em termos de homogeneidade absoluta) desenvolveu-se numa linha de continuidade em relação a um passado imediatamente anterior. Os rostos eram os mesmos, os envólucros eram outros.
A bomba rebentou no meio de um show-biz de chéchés desprevenidos e comodamente entretidos em ressuscitar a sua caducidade magra... famélica... hediona... A lamentável auto-complacência («Não é o vosso pecado, é a vossa banal satisfação que brada aos céus, é a vossa parcimónia mesmo no pecado que é chocante») para com a ausência de inspiração, o consequente recurso a repetições mais ou menos disfarçadas, a desagregação de grupos fundamentais (Doors, Beatles, Stooges, Velvet Underground, and so on), o desgaste, foram factores entre outros que muito terão contribuído para o emergir da revolta punk. Do desencanto surgiu a contestação disposta a abalar um edifício de ídolos balofos e entediadamente venerados).
A insurreição veio (como um cavalo louco...) ostensivamente quebrar velhas estruturas, apoiando-se num background social comum a anteriores movimentos de contestação (Rockers... Teddy-boys...). à frieza e habilidade técnica foram contrapostos valores como a espontaneidade, o entusiasmo, o frenesim desesperado. Deste conflito dinâmico, deste confronto entre dois mundos empenhados numa tentativa de exclusão mútua - um depositário e continuador de uma herança, o outro recusando os padrões estabelecidos, arrancando as suas raízes numa atitude simultaneamente brutal e vital) - resultou algo que rapidamente foi rotulado de «New-wave». Mas não nos antecipemos...
A sensação nada gratificante do «Nada mais há a esperar... chafurdamos nesta pocilga e estamos condenados a ficar nela...» conduziria irremediavelmente ao rebentar de uma reacção violenta e agressiva.
O sistema capitalista com as sempiternas promessas de melhoria da qualidade (QUAL?) de (sub)vida já não enganava a malta. Os projectos de reestruturação social eram uma blague-para-entreter- ingénuos sonhadores. As soluções apresentadas pelo sistema faziam parte de uma diabólica engrenagem e eram lançadas no mercado para serem consumidas por aqueles que ainda acredita(va)m na possibilidade de renovação do próprio sistema Transformação/Revolução na Continuidade... (Baaaahhhhh!).
Amargas ilusões, meus, paninhos mornos...
Ná, que a malta não é estúpida... nem sempre está numa de se deixar manipular (a manipulação actual porque mascarada... paternalista... subrreptícia... é a mais feroz de todas. Tudo permitindo acaba por nada permitir)...
E munidos de símbolos aterradores os punks invadiram a praça pública, dando largas a uma violência incontrolada... desafiando um quotidiano merdoso e entorpecente... o suborno sempre renovado do salário no fim do mês... o «Take it easy» era absolutamente intolerável. A pressa de (sub)(sobre)viver impunha-se como uma exigência imediata. Não dava para curtir (a merda) devagarinho. Devagar não se vai longe. (E depressa?). Àparte chato.
A finalidade óbvia pareceia ser o esmurrar de uma sensibilidade anémica... enfraquecida... modorrenta... por meio de uma subversão chocante / estimulante. Essa subversão tinha que ser posta em cena, tinha que ser montada num espaço cénico delimitado, de modo a forçar o (não respeitável) público a inventar / descobrir uma substância imaginária nova, emoções diferentes, em sintonia com os executores do cerimonial.
A figura humana... real e contudo afastada... a voz... o deambular... o jogo dos músculos... o suor do corpo... a crispação / tensão... a sombra... a luz dos projectores... a gesticulação... o espaço sagrado (do palco)... o espaço profano (o outro)... The ceremony is about to begin!
É que a atitude, o aspecto visual, o desafio corporal (esta história já é velhérrima...) foram aspectos determinantes no punk. E isto porque o rock (esse ainda não é muito velho...) veiculando uma maneira nova de encarar as relações entre as pessoas, veio exteriorizar uma sexualidade secularmente (e, porque não milenarmente... Ai!) recalcada. Os cabelos, os (des)penteados, as vestimentas, os adereços, o fétiche, as danças, as modas, o folclore, são aspectos facilmente constatados. Mas por detrás desta fachada houve um assumir deliberado e espectacular do corpo («Tenho uma palavra a dizer aos desprezadores do corpo... desfaçam-se dele... o que vos tornará mudos... não sois pontes do meu caminho...), bem como um pôr em questão de valores tradicionais - Trabalho, Exército, Autoridade, Dogmas políticos e religiosos, Moral, Estatuto... Uff! Enumerações chagas! Ó meus, utilizem a imaginação, não abusem da minha memória...
Regresso ao papel/função do espectáculo ao vivo, à importância da imagem do grupo condensador da revolta, do grito desesperado. Já toparam que não existe «teatro» sem delimitação do espaço cénico onde se exprimem personagens imaginárias (frequentemente catárticas)? Tomar o corpo como instrumento de criação de um personagem imaginário implica contudo condutas paralelas e marginais e o desdobramento que daí resulta não se opera nunca na quietude da intelectualidade banal e pacata. E nesta altura entra uma faca de dois gumes - a instituição (tenebrosa porque anónima... insondável) - dos mass media que vai tratar de divulgar rapidamente a imagem publicitária e (im)própria para consumo. Facto: só subsiste o que vem com aparato publicitário. Condição que frequentemente (Hèlas!) se transforma de necessária em suficiente... Mas isso são outras histórias...
O preço é pago com mais ou menos pestanejar. O melhor é pagar sem pudores hipócritas para não desgastar energias em cabeçadas na parede... As compensações são posteriores...



«Deixai a fúria ter a sua hora,
A raiva pode ser poder,
Não sabem que podem usá-la?»
São palavras actuais de um grupo que sobreviveu ao punk - os CLASH. O desespero primitivo / nihilista / suicida veio desembocar numa outra onda interessada em não se deixar destruir por um sistema que implacavelmente recupera (aniquilando) as contestações internas (das externas não reza esta história...).
Em suma, a maleabilidade, a renovação, a capacidade de conter a diversidade são alguns dos aspectos mais encorajantes do rock. A coexistência (não propriamente pacífica) de escolas modernistas determinadas pela electric music e de outras mais interessadas no ressurgimento de estilos anteriores (Rhythm & blues, rockabilly, reggae, ska...) tem tido momentos de invectiva vituperante e a - cerimoniosa. Mas, ultimamente os objectivos são similares - uma procura de maior honestidade sem chumaços ou postiços supérfluos e um ódio em relação aos complacentes excessos do rock & roll em épocas como o «Summer of Love» (67) e o «Summer of Hate» (77).
A new-wave é o sopro de vitalidade melódica que veio marginalizar as geladas manifestações do pseudo-intelectualismo caduco/barroco duns Pink FLOYD ou duns Yes (custa, meus, mas as verdades que calamos envenenam, repetimos). Não me lembro de ouvir o Iggy ou os Talking Heads entrando em 15 minutos de inúteis... entediantes jams («especialidade dos cor-de-rosa-fluídos...).
E aqui temos 1980.
Joy Division, Pop Group, Swell Maps, Talking Heads, Robert Fripp, Brian Eno, Urban Verbs, XTC, Wire, Clash, Tom Verlaine, Raincoats................................... O futuro somos nós que o fazemos.
«É terrível morrer de sede no mar. Porque salgar então a verdade de modo a já podermos matar a sede?»
LONG LIVE ROCK!
OH YEAH!
Ana Rocha



Artigos:
. Ave Rock, Morituri Te Salutant, por Ana Rocha
. Rocksex Rockpol Ecorock, por Pedro Ferreira
. Sex Pistols, por João Gobern
. Ladies & Gentlemen The Clash,
. The Jam, por João Gobern
. Xray Spex, por João Gobern
. Ramones, por Pedro Cristina de Freitas
. The Boomtown Rats, por João Gobern
. The Tubes, por João Gobern
. Patti Smith, por Ana Rocha
. Devo, por Pedro Ferreira
. The Police, por Pedro Cristina de Freitas
. The Stranglers, por Pedro Cristina de Freitas
. Blondie, por João Gobern
. Ian Dury, por João Gobern
. Os Pistols no Desarmamento, por João Gobern
. Mais Histórias Sobre As Falantes Cabeças E O Novo Mundo..., por Ana Rocha
. Tom Robinson Band, por Nuno Infante do Carmo
. La Dolce Nina, por Nuno Infante do Carmo
. The Motors, por Nuno Infante do Carmo
. E Agora? (da festa à razão de ser), por João Gobern




2.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (125) - Música & Som #70


Música & Som
Nº 70
Fevereiro de 1982

Publicação Mensal
Esc. 100$00
Especial 5º Aniversário

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
72 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.


Nós,
Vistos Por... Nós

...
Calamity Mike, por Ana Rocha



Há pouco menos de dois anos, entrou uma criatura no camarim da Lene Lovich. Copinho de leite, de branco da cabeça aos pés, um cabelo cortado à escovinha, óculos de aros dourados pousados no topo de um grande apêndice nasal, em poucos segundos já estava a trocar impressões com a Lene. Essa cena ficou-me na memória. Não sabia quem era, nem donde tinha surgido. Passados meses, o João Gobern durante o concerto do Steve Harley apontou-me a mesma figura que, desta vez, ocupava um dos camarotes do Dramático de Cascais e informou-me de quem se tratava. Cruzávamo-nos em todos os concertos, enfardávamos a pastelada que nos punham à frente em cocktails para os órgãos de imprensa, sempre que se deslocava a Portugal alguma bandazinha da estranja, cumpríamos as tarefas de que éramos incumbidos (entrevistas e/ou reportagens). A dado momento, o MEC entrou para a M&S. De quando em vez via-o, no cinema, no teatro ou na revista, com uma pastazinha zelosamente transportada, circunspecto e delicado, de uma brancura imaculada, lábio grosso esboçando um sorriso aqui e ali, olho a brilhar por detrás da lente, algo macerado devido às vigílias, pensei eu.
O Chefe, entretanto, encomendou-me uma prosa sobre o MEC. Nessa noite, durante a reunião da redacção, eu sentia-me tão enevoada e ramelosa que não teria reconhecido o Mocas Jagger nú, do outro lado da porta. Daí que assenti, não disse nem ai nem ui, pensando que era apenas mais uma das brincadeiras do Big Brother & Holding Company. Não pensei mais no assunto, Passado este tempo todo, dizem-me que, afinal, era a sério. Eu comecei a consultar a minha memória e a de algumas pessoas que conhecem o MEC. Lembrei-me de uma bruta feijoada que dei há alguns meses chez moi onde compareceu a redacção em peso da M&S e onde o MEC, tal como os outros, se refastelou com o petisco. O Guilherme Valente dizia-me que o gajo era porreiro, muito competente e muito educado (Ó Mike por esta não esperavas tu!...). Nesse mesmo dia, o António Martinho dizia-me que tu dormias uma média de duas-três horas por noite. O Jaime, o Cowboy do Meio-Dia, contava-me que tu lhe aparecias lá na rádio com uns casacos indescritíveis, de xadrez, e com umas pantalonas igualmente excêntricas! E vinha-me à memória um artigo feito na altura da estada dos Police aqui em Lisboa no qual tu bramavas, todo escamado, por uma coisa que já não me recordo. Lembro-me que quando acabei de o ler, já estava com água pelos joelhos de tantas piadas...
Não sei mais que te diga. Até porque este tipo de prosas é sempre mais ou menos embaraçoso. Ou dizemos a mais, ou a menos, ou só dizemos aquilo que não era suposto dizer. Sei (e disso não tenho a mínima dúvida) é que, por detrás desse aspecto menineiro, esbranquiçado e imberbe, fervilha uma massa cinzenta que o está sempre a contrariar. Eh pá, scusa, porca miséria, a memória não dá para mais, também não queias mais nada, já agora era de uma cajadada, fazia-te o elogio assim do pé para a mão, e não falava da tua voracidade de pastéis e canapés, bolinhos e biscoitos, bem, não digo mais nada, arriverdecci...
Ana Rocha

...


Entrevista
Nós Estamos Muito Na Moda
Entrevista com Ana Da Silva (Raincoats)
por Ana Rocha



Foi num fim de tarde chuvoso que decorreu esta conversa com Ana da Silva, um dos elementos das Raincoats. Meditativa, pesando bem todas as palavras, escolhendo os termos que ia empregando, com um sotaque ilhéu, trigueira e risonha. Ana ia deixando cair as suas afirmações, sempre atenta e bem disposta. Na mesma mesa sentavam-se, de vez em quando, os dois responsáveis da Cliché, a editora do grupo aqui em Portugal.

M&S - A que se deve a tua estada aqui em Portugal?
Ana da Silva - Vim passar férias. A minha família é da Madeira. Estive cá a passar o Natal com ela. Venho cá pelo menos uma vez por ano. Além disso, tenho cá muitos amigos. Fiz amizades quando passei pela Faculdade de Letras.
M&S - Estiveste lá a fazer o quê?
Ana da Silva - Tirei o curso de Germânicas. Paguei o diploma, mas nunca o levantei!!! (risos).
M&S - Como é que se deu essa transição de licenciada em Germânicas para o campo da música?
AS - Sempre gostei de música. A certa altura resolvi ir viver para Inglaterra. Não tinha emprego... não havia aqui nada que me prendesse... Não podia fazer o que queria fazer. E como tinha lá amigos resolvi ir até Inglaterra para ver como era. Passada uma semana já estava instalada.
M&S - Isso foi há...
AS - Sete anos.
M&S - Estás então decidida a não regressar.
AS - Não tenciono vir para cá para Portugal. Lá faço aquilo que quero fazer. Encontro compensações. Tenho uma profissão de que gosto. Conheço pessoas do mesmo meio. Dou-me com elas. Com pessoas que fazem música.
M&S - Vives exclusivamente com o que te advém dessa actividade musical.
AS - Sim. Dá para viver. Não dá é para comprar carro (risos).
M&S - Passemos ao último trabalho das Raincoats. A pintura que vem na capa é do Malévitch. Como foi isso?
AS - Quer dizer... foi assim: no ano passado, durante a tournée que fizemos pela Europa, acontece que estava em Düsseldorf uma exposição do Malévitch. O poster era exactamente esse. Comprei-o e pu-lo na minha sala. Quando se chegou à altura de fazer a capa, nós tivemos grandes conversas sobre a capa. Que capa iríamos escolher? Pensámos que esa pintura talvez desse uma boa capa, pela sua simplicidade, pela força das cores alegres, pela combinação das cores... E depois, ela representava uma forma humana, nem declaradamente homem, nem declaradamente mulher. Era uma pessoa. Achámos que era giro. Não é muito costume a simplicidade ganhar uma força assim.


M&S - Então a escolha não teve nada a ver com o facto de Malévitch ser revolucionário...
AS - Bem, se o Malévitch fosse fascista não o teríamos escolhido por causa das conotações que isso teria!!
M&S - E o facto de ele ser russo disse-vos alguma coisa?
AS - Não. Nenhuma de nós é pró-russa. No primeiro disco pusemos uma pintura chinesa na capa. Poderíamos ter escolhido uma pintura de um americano ou de um francês...
M&S - O título do álbum, Odyshape, tem a ver com odisseia... forma...?
AS - A palavra não existe. Resulta de uma combinação de vários elementos: odd, que significa estranho, não aceite, body, que significa corpo e também tem a ver com odisseia... Forma de um corpo estranho... Odisseia de forma de corpo estranho... São jogos de palavras. Não é uma coisa consciente. Essa palavra era inicialmente o título de uma das músicas do álbum. Tirámos-lhe o título (ficaram só os bonequinhos a dar-lhe o nome) e pusemo-lo no álbum.
M&S - Alguém disse que tu eras uma espécie de Judy Collins desafinada. Que dizes a isto?
AS - Ah sim? Disseram isso da minha voz? (risos). Eu acho que não desafino! No disco parece-me que a minha voz não está lá muito desafinada!!!
M&S - Vocês têm uma intenção militante de carácter feminista nos vossos álbuns?
AS - Porque são mulheres a fazer uma coisa, as pessoas dizem logo que elas estão a fazer uma coisa feminista. As pessoas estão habituadas a que a mulher não faça outra coisa que não seja lavar pratos e tratar das crianças. Nós não tivemos a intenção de ser militantes quando iniciámos o grupo, mas acreditamos nas possibilidades da mulher de fazer outras coisas que não tenham a ver com o ser mãe. 'Tás a ver a diferença entre as palavras wife e woman?
M&S - Porque é que recorreram ao Charles Hayward dos This Heat e ao Robert Wyatt para as partes de bateria e percussão?
AS - A nossa baterista, a Ingrid Weiss, tinha saído do grupo. E como todas gostamos do Charles, resolvemos metê-lo no grupo. Ele fez uma tournée connosco em Inglaterra e na Europa. O Robert está mais ligado à percussão. Também gostamos muito dele.
M&S - Tem sido afirmado que vocês têm uns cheirinhos a Velvet Underground.
AS - Bem, talvez isso se deva ao facto do nosso som de violino. É um som hard. A palavra em português não seria duro... Emprega-se a mesma nota durante bastante tempo. Talvez isso dê uns ares do John Cale. Mas a nossa violinista nunca tinha ouvido os Velvet Underground. Da nossa baterista de outrora, a Palm Olive, falava-se das semelhanças entre ela e a Maureen Tucker, mas isso deve-se ao facto de serem ambas mulheres. Qualquer delas não toca na tradição masculina. São originais. Embora haja homens a tocar bateria de maneira original, o som delas é diferente. Também têm dito tanta coisa das Raincoats... Há quem encontre semelhanças entre o som das Raincoats e o da Incredible String Band! Outros dizem que o nosso som tem a ver com o reggae...
M&S - Há quem diga que a vossa música «Only Loved At Night» tem a ver com melodias dos Andes. Outros dizem que esse tema inspira-se em melodias dos Himalaias. É mesmo?
AS - Nenhuma de nós ouve música indiana. Portanto, não me parece acertado isso. Nem conhecemos a música dos Andes ou dos Himalaias. Não faz parte das nossas coisas favoritas.
M&S - E que música é que faz parte das vossas coisas favoritas?
AS - Cada uma de nós tem as suas preferências. Eu ouço os Velvet Underground, a Nico... Quando me apetece escolher discos além destes, também vou para os Beatles.
M&S - Ouviste este último álbum da Nico, Drama In Exile?
AS - Não. Há sempre tanta coisa para ouvir... Gosto muito de álbuns anteriores da Nico... Desertshore, The Marble Index, The End, Chelsea Girl...
M&S - Achas que a música das Raincoats poderia ser designada por primitiva? Primitiva no sentido de procurar partir da base, de regressar às origens... não no sentido de ser rudimentar...
AS - Talvez por ter partes étnicas. Talvez por utilizar instrumentos doutros países que não são instrumentos eléctricos. Instrumentos sul-americanos, africanos, indianos. As melodias soam diferentes. Cada instrumento está a tocar coisas diversas, mas todos se encontram.
M&S - O termo música experimental seria mais adequado?
AS - Não é bem esse o termo que eu gostaria que fosse aplicado. Gostaria que houvesse outra palavra para classificar a nossa música. Se uma pessoa está a fazer uma coisa original, até certo ponto está a a fazer algo experimental, porque está a fazer uma coisa que ninguém fez antes.
M&S - Portanto, sem ser o termo experimental...
AS - A música experimental tem a ver com esquemas. É uma música mais racional. A nossa música é racional e emotiva, também. Isso deve-se à energia que nós pomos na música.
M&S - Vocês revezam-se com os instrumentos. Porquê?
AS - Tocar guitarra a vida inteira seria muito aborrecido. Compreendo que haja aquelas pessoas que pensem que é esse o caminho para se aperfeiçoarem. Eu nunca fui uma pessoa disciplinada para ser só uma coisa... só pintora... só qualquer coisa... Gosto de escrever as letras, compor. Existe um Livrinho Verde sobre as Raincoats. Fui eu que o fiz. Fiz os desenhos, escrevi os textos à máquina, levei-os para serem impressos, fiz a promoção do Livro e vendi-o para pagar as despesas.
M&S - Esse livrinho verde é uma alternativa ao Livro Vermelho do Mao Tsé Tung?!!!
AS (risos) - Não! É verde porque eu gostei da cor da cartolina! Não tenciona ter tantas propostas de sociedade como o livro do Mao! Deu-me gozo fazer a parte artística. Fiz tudo. Dobrei as folhas, pus os agrafos. Acompanhei o Livrinho Verde do princípio ao fim. Há certos grupos que não se preocupam com as capas dos seus discos, estão-se nas tintas para as editoras, para a promoção... Nós não somos assim. Gostamos de nos dedicar a diferentes tarefas.
M&S - Dentro da cena musical inglesa, em que lugar é que vocês se colocam?
AS - Para dizer a verdade, nós estamos muito na moda!!! (risos). As pessoas gostam de nós por razões mais profundas do que seria de pensar. Isso não tem a ver exclusivamente com os discos, com a nossa música. Os discos, no fundo, ouvem-se duas ou três semanas e depois? O facto de as pessoas gostarem de nós tem a ver com o aspecto musical e com aquilo que apresentamos. Tem a ver com os nossos concertos, com tudo aquilo que fazemos. As modas vêm e vão. Agora são os Spandau Ballett e os Duran Duran... Mas nós não fazemos parte dos conjuntos comerciais.
M&S - Mas vocês gostavam de ter mais sucesso comercial ou não?
AS - Nós gostamos daquilo que estamos a fazer, embora, é claro, gostássemos de vender mais. Penso que, de qualquer maneira, conseguimos atingir o público.
M&S - Esperavam ter uma boa receptividade aqui em Portugal?
AS - Esperava um bocadinho.
M&S - Achas que essa receptividade se relaciona com o facto de haver uma portuguesa entre as Raincoats, ou seja, por seres uma portuguesa no meio de inglesas?
AS - Pode ser que isso tenha tido alguma influência. Os Young Marble Giants não têm nenhum elemento português e também têm tido um bom acolhimento. É claro que as pessoas pensam sempre: há um português lá, deve ser uma porcaria! Se é portuguesa, deve fazer só porcarias! Mas infelizmente as Raincoats têm tido sucesso em Inglaterra. Entre os conjuntos independentes, temos um bom lugar.
M&S - Vocês têm feito muitos concertos para promover o disco?
AS - Não só para promoção do disco. Nós gostamos de tocar ao vivo. O trabalho de estúdio é mais um trabalho de construção. O tocar ao vivo é mais aquela imediatez, aquele contacto directo.
M&S - Vocês estão a pensar vir até Portugal para um concerto?
AS - Em Fevereiro.
M&S - Vocês, ao que consta não tocam em salas muito grandes.
AS - Temos tocado em salas pequenas. Preferimos fazer vários concertos para um número reduzido de público do que tocar para 4000 pessoas numa grande sala.
M&S - Muitos meses decorreram entre o vosso primeiro álbum e este segundo, Odyshape. Bastante mais de um ano. Em relação ao próximo álbum, vai decorrer assim tanto tempo?
AS - Nós somos um bocado vagarosas. Este ano, entre Janeiro e Junho, a nossa viola esteve a acabar o curso de arte. Estivemos seis meses sem trabalhar. Temos andado a actuar em espectáculos ao vivo. Muitos dos temas tiveram de ser reescritos. As músicas que tinham sido escritas para o álbum tiveram de ser modificadas, porque não podíamos estar a tocar aqueles instrumentos todos ao mesmo tempo.
M&S - Há um outro conjunto feminino ao qual o vosso nome tem sido associado, as Slits. Vocês são amigas?
AS - (reticente) Nem por isso. Conhecemos as Slits. Tivemos uma baterista em comum. Elas vivem na mesma área que nós. Mas a música das Slits é diferente da nossa. Uma delas não fala com toda a gente... Mas isso é já entrar na coscuvilhice! (risos). A nossa violinista tocou numa ou duas músicas delas. Já tocámos no mesmo concerto aí umas três vezes juntas.
M&S - Ficamos a aguardar a vossa vinda a Portugal em Fevereiro.


Foi nestes termos cordiais que se desenrolou o encontro. A Ana da Silva é impec. (Impecável, ó manos!). As Raincoats são uma das bandas mais interessantes da secular Albion. Só nos resta contar ansiosamente os dias até à actuação delas aqui em Portugal.

Ana Rocha

 

Entrevista Exclusiva
Peter Hammill
"O Sobrevivente"

Texto e Fotos: Júlio Ferreira Antunes e Jean-Michel Dupont



Devemos sempre desconfiar dos «a priori».
Muitos jovens de hoje enviaram sem remissão um tipo como Peter Hammill na caravana sinistra dos velhos heróis caídos em desgraça.
No entanto, o nosso cientista não parou ainda de evoluir desde o dia em que - faz doze anos - se lançou na cena musical...

M&S - Poderás dar uma ideia de ti mesmo que seja ao mesmo tempo paralela a músicos da tua geração como por exemplo Peter Gabriel ou Robert Wyatt?
PH - Músicos como Gabriel, Wyatt ou ainda Bowie ou Fripp considero-os como sobreviventes e, por conseguinte, considero-me eu mesmo também um sobrevivente. Há dez anos que fazemos música e, creio, até hoje esse foi o nosso único objectivo. Fazer música, e não por exemplo transformar-se em estrelas.
M&S - Tenho a impressão que se todos vocês são sobreviventes é porque a um dado momento houve uma mudança na vossa carreira, uma evolução digamos...
PH - Mas justamente, a condição principal para ser um bom sobrevivente é ter um espírito aberto e em evolução perpétua.
M&S - É curioso constatar que Peter Gabriel, Fripp e tu mesmo que eram por assim dizer os leaders de grupos enormemente melódicos e com vastas influências de uma certa forma de classicismo tenham mudado subitamente, e procurado simultaneamente uma carreira a solo caracterizada ao mesmo tempo pelo carácter experimental e grandemente influenciada pela procura electroacústica...
PH - Divagar no clássico foi interessante, mas aconteceu que a um dado momento nos encontrámos com uma música exageradamente pomposa. Foi aí que realizámos que nos estávamos a afastar da nossa vocação de artista, do músico popular e da música do momento. É claro que podemos falar de coisas sérias como a emoção, o Mundo, a sociedade, mas é preciso saber ficar acessível.
M&S - O trabalho de Fripp está no entanto longe da chamada música popular...
PH - Para sobreviver é preciso guardar sempre um certo sentido de humor, e mesmo se o Robert parece muito sério, ele esconde no entanto um grande espírito humorístico.
M&S - O que é certo é que ele pratica humor a um grau de tal maneira elevado que acabamos obrigatoriamente por não saber muito bem onde estamos...
PH - Sim, é verdade que «a priori» ele não será dos mais acessíveis mas, quando me refiro a ele, a Gabriel, a Wyatt ou a mim mesmo na condição de músicos populares, refiro-me no entanto a uma música do futuro, uma música popular que eu desejo e que não é forçosamente aquela que escutamos actualmente nos charts e que é, essa sim, inteiramente imediata.
M&S - Como é que se passam as coisas quando escreves?
PH - O que me apaixona na poesia é a emoção que se liberta de repente, fortuitamente, quer a sensibilidade tenha sido provocada por uma situação normal quer por um filme ou um concerto...
Por exemplo «Strange Still» foi escrito uma manhã em Paris enquanto tomava o pequeno-almoço num café.
M&S - E como é a nível de sensibilidade? Segues uma certa linha ideológica ou pelo contrário generalizas essa mesma sensibilidade?
PH - Para quem escreve, mudar é absolutamente necessário. Ter diferentes experiências e encará-las cada dia de uma maneira diferente torna-se essencial.
M&S - Qual é a tua opinião em relação aos acontecimentos de 77?
PH - Em 77 chegou-se a qualquer coisa de académico. É fantástico ver que imensos grupos se puderam formar, as estruturas tornavam-se menos pesadas mas... ao mesmo tempo o «business» fica.
Houve uma revolução, novas caras apareceram, mas... o negócio continua.
M&S - Em relação às novas caras, quais as que mais aprecias? The Cure, UB40, The Beat, Specials... O que é que te seduz num grupo como The Cure por exemplo?
PH - Força, paixão, honestidade... Mas é difícil dizer verdadeiramente porque é que gostamos de um grupo.
M&S - Sabes que John Lyndon é um dos teus admiradores?
PH - Sei. Sobretudo dos últimos álbuns a solo. Há imensa gente em Inglaterra que nunca ouviu falar de Van Der Graaf. Creio que ele gosta dos meus álbuns por causa de uma certa honestidade e pureza existentes, e também pelo seu carácter experimental.


M&S - Qual é a tua opinião sobre o seu trabalho?
PH - Digamos que gosto mais ou menos de metade daquilo que Lyndon faz. Sabes, quando é músico, e conheces bem a maneira de como um disco é feito é difícil de dizer objectivamente o que pensas porque apesar de tudo e contra a tua vontade tens tendência a dar atenção aos detalhes técnicos.
M&S - O que pensas duma personagem como Johnny Rotten?
PH - Bem, como eu tenho uma vida privada bastante grande, tenho sempre uma enorme dificuldade em conceber que certos artistas possam viver quase eternamente sob o olhar do público. Não é por acaso que John mudou de repente e deu o nome de Public Image ao seu novo grupo.
Pessoalmente, no aspecto de vedetismo não tenho grande experiência, mas penso que se ao fim de doze anos passados posso continuar a dar concertos é porque em parte nunca tive uma verdadeira imagem pública.
M&S - Sei do teu projecto para a realização de uma ópera. Queres falar um pouco sobre ele?
PH - Bom, é um projecto que dura já há nove anos, que se vai concretizando de ano para ano e demorará ainda uns dois anos a ser terminado.
M&S - E fala de quê?
PH - Ah! Para falar disso prefiro esperar que esteja terminado.
M&S - E a instrumentalização utilizada será de que género?
PH - Actualmente ainda não sei. Neste momento ainda só as vozes e as partes de piano estão compostas. Quanto ao resto tanto poderá meter cordas, um grupo rock ou ainda música electrónica.
M&S - Para acabar, não achas que a tua música se «endureceu» um pouco neste último álbum?
PH - Sim, é verdade. Tentei também compor temas mais simples, quer dizer, temas que sem serem comerciais serão de maior impacte.




Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. Nós, Vistos Por... Nós - artigo em que cada escriba da revista escreve sobre outro - excerto acima.
. Salada à la Tulipa (Segundo Lena dos Vinhos) - artigo sobre os Salada de Frutas, de Célia Pedroso
. Tom Robinson - Adoro o Amadorismo - entrevista por Fernanda Ribeiro
. Discos em Análise:
.. Led Zeppelin - «Physical Graffiti» [Swan Song Ss 89400], por Carlos Marinho Falcão
.. Klaus Doldinger Passport - «Oceanliner» [Rádio Triunfo ATL G 50688], por Fernanda Ribeiro
...&Som, por Hermínio Duarte-Ramos
- Reflexões Sonoras e Surdas






1.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (124) - Música & Som #58


Música & Som
Nº 58
Outubro de 1980

Publicação Mensal
Esc. 70$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, António Pedro Ferreira, Bernardo de Brito e Cunha, Fernando Peres Rodrigues, Henrique Amoroso, Hermínio Duarte-Ramos, João David Nunes, João Gobern, João de Menezes Ferreira, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Paulo Norberto, Pedro Ferreira, Pedro Cristina de Freitas, Raul Bernardo, Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Jorge Cortesão e Ray Bonici

Tiragem 15 000 exemplares
68 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.




Crítica de Concertos

Ramones Em Cascais



No Cais do Sodré, mesmo na hora de perder o comboio estávamos os três: a Ana Rock, o Topê - deveras cioso da sua cadela espacial que tirava fotografias, a Laica - e eu.
Sem grande convicção - que toda a gente cochichava a «merda da véspera» - embarcámos no seguinte. Rumo a Cascais - segunda noite da visita dos falsos manos de Forest Hills.

A sala estava bem guarnecida quando os UHefes chegaram montados no respectivo «cavalo de corrida».
Esta foi a terceira vez que vi os UHF em concerto e, relativamente à primeira (na abertura dos Dr. Feelgood em 1979), a evolução é nítida. O grupo revela-se como um dos mais excitantes da cena nacional e pena é que não possa ser ouvido em boas condições sonoras. Desta feita, e p'ra variar, apenas chegou até nós uma transbordática e intrincada amálgama de riffs, pancadas e palavras.
No final falámos um pouco com os membros do grupo e ficámos a saber que já têm contrato discográfico. O primeiro single sairá ainda este ano e incluirá a faixa «Cavalos de Corrida» na face A e um tema ainda por escolher na face B. Lá para Fevereiro de 81 surgirá um elepê que irá ser «gravado aos poucos», para pegar na expressão de um UHF.

Tardaram um bocado. Mas vieram.
Portadores das habituais fardamentas - que fizeram estilo -, as jeans corroídas e os blusões negros, os quatro Ramones dispuseram-se no palco para aquele que viria a constituir-se como o mais speedadamente decibélico (ou vice-versa) dos shows que passaram entre nós.
Marco, atrás das peles, não se pode dizer que tivesse tido um trabalho brilhante. Teve força de braços e pernas para espancar o instrumento e guardou o ritmo. Ninguém lhe pedia mais.
Dee Dee foi a metralha luzidia. O seu baixo Fender amarelo e vermelho desferia fispas que se transmitiam betão adentro e entravam direitinhos pelos pés pondo tudo a vibrar cá no organismo.
Joey, no centro, esganando o microfone, pôs-se numa posição próxima do zen Kutsu dachi Karateca e raramente bugiou. Aquela alma alta é fininha, espécie de galinhola desajeitada, foi a minha completa desilusão pois que a esperava incomparavelmente mais activa.
Falta o Johnny «Riff», esgrimista de meia dúzia de acordes que chegaram para «encher», sonoramente falando, um pavilhão e manter presa a maior parte das pessoas que a ele se deslocaram.

Os temas sucederam-se em catadupa. Um festival de rock'n'roll non stop tocado na ponta da unha. Mal uma canção prenunciava final, logo Dee Dee sacava dos algarismos - ONETOOFEEFOH - e a banda engrenava no seguinte e no seguinte e etc., por aí fora. Evidentemente, não havia flores para ninguém.
E a maior parte da malta alinhou. Foi assim que, num concerto que à partida não dava grandes garantias, acabou por resultar numa agradável punição auditiva.

Da conversa que tivemos com o Johnny, a Ana vos dará conta.
Pela minha parte, apenas quero assinalar a desilusão que me deixou este americano mortalmente conservador com as suas três ordens de preocupações: ganhar uns cobres valentes para daqui a cinco anos largar o grupo e não fazer nenhum: devorar biografias dos seus heróis (Gary Cooper, Mae West,...); eleger Reagan para reanimar o fulgor da grande nação americana.
Ah meu caro Johnny, bem que podias limpar as mãos à parede!

Na volta, a Ana e eu, sentados algures nos Restauradores, esperámos calmamente.
Que o futuro tomasse forma de táxi vago.

Nuno Infante do Carmo



Entrevista - Ramones (Johnny Ramone)



Tomem Ramones em Vez de Valium 5!
Pois o Johnny lá estava a escovar a sua asquerosa cabeleira, com a ajuda de um ancinho, mergulhado na mais profunda indiferença face à garota fórmula Debbie Harry que o assediava, ocupado como estava em espremer as suas hediondas borbulhas. O atroz DEE-Dee, afundado num cadeirão, treinava a sua vesguice no maior dos avacalhamentos. Os outros tinham-se eclipsado. O alvo escolhido foi o Johnny.
M&S - Achas que a reacção do público português difere em relação à de outros públicos?
Joãozinho - Os países são diferentes, mas os putos são sempre os mesmos em todo o lado. O que eles querem é curtição. Não pretendemos captar outro tipo de público e por isso procuramos dar aos miúdos o que eles querem. A malta jovem é mais flexível. O que interessa é permanecer jovem!
M&S - (engulindo o tédio) Vão gravar mais alguma coisa com o Phil Spector?
Joãozinho - A gravação do «End of The Century» com o Phil foi uma boa experiência que resultou. Mas não pensamos voltar a ter o mesmo produtor no próximo trabalho que estamos a preparar. Isso seria repetitivo e nós não gostamos de nos repetir a nós próprios.
M&S (engulindo desta vez o pasmo perante tal descaramento) - Vocês são todos de Nova Iorque, não é? Em que medida é que esse facto afecta a vossa «música»?
Joãozinho - As frustrações dos miúdos que vivem nos subúrbios de grandes cidades são um tema que nos interessa. Ou ainda, qualquer tipo de frustração nos interessa.
M&S - Posso inferir que para além de introduzirem as frustrações alheias nas letras das vossas «composições», também costumam falar das vossas? Sentes-te frustrado em quê?
Joãozinho - Sabes como é, as miúdas, as ambições, o sucesso...
M&S - Conta lá...
Joãozinho - Dantes as coisas eram mais difíceis topas? Agora tudo se tornou mais fácil quanto às miúdas... A minha ambição seria a de continuar a fazer bons álbuns, bons shows, boa música enfim...
M&S (cilindrada) - Hmmmmm?????
Joãozinho - (sem dar por nada) - O sucesso tem vindo aos poucos, de modo que nos temos vindo a habituar a ele. Não nos tem afectado tanto como se diz.
M&S - Sentem-se próximos ou afins dos Talking Heads, Tom Verlaine, Patti Smith, etc., pelo facto de também serem nova-iorquinos?
Joãozinho - Não porque nos Ramones estão todos virados para o rock e essa malta que referiste é demasiado branda (too soft) para o nosso gosto. Ouvimos os Clash, os Buzzcocks, os Dickies, Black Sabbath, material mais antigo como é o caso dos Beatles, coisas dos Sex Pistols...
M&S - Gostas do hard-rock?
Joãozinho - Nem por isso. Os Van Halen, por exemplo, são o melhor grupo americano de heavy metal, mas eu não ouço muito a «pesada».
M&S - Que é que fazes quando não estás em tournée?
Joãozinho - Leio biografias. Gramei mesmo ler a do Gary Cooper e a de Mae West, recentemente. De vez em quando vou ao cinema.
M&S - Achas que a actuação dos Ramones ao vivo constitui um incitamento à violência? Consideras-te muito agressivo?
J - Não. Os putos gramam os shows com muita pedalada e vêm aos concertos para se libertarem da sua agressividade. Pulam, gritam, saltam durante a nossa actuação mas depois ficam calmos e felizes.
M&S - A fórmula é portanto «tomem Ramones em vez de Valium»? Os Ramones são um sedativo?
J - (achando graça à ideia e parando por uns segundos de sacudir a caspa) - Se quiseres. Nós todos saltamos no palco porque gostamos e porque sabemos que o público delira com isso. Nada do que fazemos é estudado.
M&S (pensando para com os seus botões que é por isso que não gosta das manas Ramones...) - Vocês estariam dispostos a actuarem na União Soviética?
J - Não é que não gostássemos de lá tocar mas o regime nunca o permitiria.
M&S - Nas próximas eleições presidenciais, em que candidato vais votar?
J - Nós não vamos votar porque os eleitores são obrigados a prestar o dever de júri. Como nós andamos sempre em tournée não temos possibilidades de pertencer ao júri. Mas eu apoio Ronald Reagan porque acho que ele é a melhor solução para a América. Espero que ele ganhe as eleições, até porque é um homem forte e é disso que nós precisamos actualmente. O Carter não infunde respeito aos Russos. Os Americanos precisam de um presidente forte para impedir os Russos de invadirem a América!
M&S  (banzada) - O QUÊ???
Joãozinho - É isso mesmo. Vocês não viram o que aconteceu no Afeganistão?
M&S - Basta! Basta! Olha que não estás a fazer campanha eleitoral, ó meu! Olha, porque é que os Ramones actuaram na festa do Partido Comunista Espanhol?
J - Ai é? Não sabia de nada.
M&S - Sentes-te cansado depois dos concertos? Tomas alguma coisa para te estimular?
J - Não me sinto muito cansado. Não tomo nada. Bem... quer dizer... de vez em quando lá dou a minha cachimbada de hash... mas não o faço por estar cansado. Olha temos que ir agora para Lisboa, pois vamos colaborar num programa de rádio, OK?
M&S (engulindo o comentário «Pobres ouvintes! Mal sabem o que vos espera...») - Só mais uma coisa: quando tencionas retirar-te?
J - Dentro de cinco anos. Definitivamente. Não tenho grandes ambições. Vou ficar de papo para o ar, sem fazer absolutamente nada de nada.

Assistir a um concerto dos Ramones é uma experiência desastrosa fascinante.
Entrevistar uma Ramoneta (courtesy of NIC) é uma experiência de engolir em seco lancinante.

Ana Rocha.


Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. The Police - A Contas com a Polícia - Entrevista de Trindade Santos
. McLaughlin na Póvoa - Crítica de Concerto, por Trindade Santos
. The Police no Restelo - Crítica de Concerto, por Pedro Cristina de Freitas
. Peter Gabriel em Cascais - Crítica de Concerto, por Trindade Santos
. Gabriel Segundo S. Rock - Crítica de Concerto, por Ana Rocha
. Mike Oldfield em Cascais - Crítica de Concerto, por Trindade Santos
. José Mário Branco: «Nunca Parei de Fazer Música», entrevista/artigo por Manuel Cadafaz de Matos
. P.G. Visto por Pedro & Gabriel - Entrevista, por Pedro Cristina de Freitas e Gabriel Trindade Santos
. Mike Oldfield - Para Lá Da Barreira - Entrevista, por Trindade Santos
. Discos em Análise:
.. The Clash - «London Calling» [CBS 88478]
.. Talking Heads - «77» [SR 6036 NP]
.. Nina Hagen Band - «Nina Hagen Band» [CBS 83136]
...  Som
- Tratamento electrónico dos sons
. Tipos de Tratamentos
. Tratamento do Timbre
. Filtros Electrónicos





20.3.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (50) - Lixo Anarquista - Nº 3


Lixo Anarquista
Nº 3

24 páginas A5 a p/b
fanzine punk



Editorial
Olá minha gente,
Pois é verdade, aqui está o lixo.
Vocês pensavam que não voltaríamos a molestar ninguém e que se tinham visto livres do lixo de uma vez por todas.
Mas ainda não foi desta que nos cortaram o pio e o odioso Nº 3 aqui está, e desta vez com mais páginas e tudo.
O Lixo continua fiel aos seus ideais, por isso voltamos a afirmar que não somos ideologicamente contra recebermos os vossos donativos, que podem ser enviados para:
António Jorge Nunes
Rua dos Açores 20 2º
100 Lisboa
Além dos donativos podem vir artigos, críticas, sonhos eróticos, etc.
Se quiserem números antigos escrevam e mandem 30$00 por exemplar e 7$50 para portes por cada exemplar.
Por falar nisso, a morada que aparecia além da minha fica sem efeito a partir de agora porque o cobarde que mora lá desistiu e emigrou para os pólos. LIXO SÓ HÁ UM! O ANARQUISTA E MAIS NENHUM!!!

Este número é completamente dedicado ao nosso amigo Ronald Reagan, o único homem que faz da vida real um eterno filme de cowboys...
Uma nota de especial amizade para a sua assistente de produção, Margaret Tatcher.

Agradecimentos especiais ao inventor da cerveja, à empregada das fotocópias e aos meus pais por terem feito esta obra-prima da humanidade.







3.3.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (38) - Mondo Bizarre - Nº 4 - Agosto de 2000


Mondo Bizarre
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Nº 4 - Agosto de 2000
40 páginas a p/b





Destruição: O Punk Edificado Em Guy Debord
Parte I

Talvez o vocábulo que melhor define uma paternidade musical para o Punk seja "inextricável". Um timbre com essas qualidades, ainda que os Sex Pistols não tivessem sido forjados e lucrado as maiores condecorações do levante, em 1977., inevitavelmente ter-se-ia imposto através do legado sónico de grupos seminais como os New York Dolls, The Kinks, The Stooges, The Who, Velvet Underground, etc. No plano da contestação de cânones artísticos e da retórica política, porém, a genealogia do Punk tem outra ascendência. Uma análise que remonta às primeiras vanguardas europeias de revolta contra a arte no século XX, os chamados "ismos": Futurismo, Dadaísmo e o obscuro, mas de significação estética decisiva, Situacionismo.
Na Itália, o Futurismo de Fellipo Marinetti desencadeia uma nova vanguarda de revolução contra os moldes impostos pela intelligentsia produtora de arte no início do século, fundindo, num só expediente, a dinâmica pintura-poesia-música-moda política e arquitectura. Entusiastas da publicidade, o Primeiro Manifesto, redigido por Marinetti, em 1909, louvava a juventude, as máquinas, o movimento, a energia, a guerra e a velocidade. Um incotestável pendor juvenil, que muito remete ao Punk pela semelhança de atitudes e o ímpeto de reinventar.
O elemento destruir é a amálgama entre Punk e Futurismo; a dicotomia está no "o que" destruir exactamente. O Futurismo almejava dizimar modelos artísticos senis, imbuído em uma rearquitectura da arte. Um dos núcleos da rebelião Punk é a insubordinação contra os estandartes que levaram o Rock à monotonia e à opulência semi-erudita, e conflagraram, in loco, o seu acontecimento.
Se o Futurismo se tinha maravilhado com a possibilidade estética da guerra (algo "ruidoso, veloz e teatral"), antes de ela ocorrer, o Dadaísmo insurgiu-se em oposição às fascinações desta ordem. Ainda que partilhassem a mesma revolta a determinado tipo de realização artística, os dadístas estavam em dissonância face à definição de arte. Surgido em 1916, em Zurique, na Suiça, ao inverso do Futurismo, o Dadaísmo não era um movimento propriamente artístico, sendo mais atitude do que estilo.
Erigido por uma linhagem de "artistas" avessos ao trabalho, que acreditavam estar alienados muito além das belas-artes, dos quais os mais loquazes expoentes são o poeta Tristan Tzara e o artista plástico Marcel Duchamp, o Dadá agiu com actos subconscientes e formulações extravagantes nas investidas de sua plataforma utópica. A arte, segundo o credo dadaísta, é mera falsificação imposta pela sociedade burguesa, uma válvula de segurança moral idêntica ao trabalho.
Duchamp, o qual se declarava antiartista, dizia que "aqueles que olham é que fzem os quadros". O seu próprio caso é bastante elucidativo nesse sentido. A contribuição de Duchamp para a dessacralização da aura de génio ostentada pelos artistas, uma reminiscência herdada do romantismo, ajudou a solucionar o enigma fantástico do átimo criativo. Ao utilizar em obras objectos manufacturados, modificados ou não, Duchamp inaugura os ready-made. A peça Fontaine, de sua autoria, um mictório elevado ao estatuto de arte, é exemplo dessa possibilidade.
Embora o street punk londrino tenha origens não-intelectuais, absorvidas de ferozes slogans de claques de futebol, como o Streetford End of Manchester United ("Nós Odiamos os Humanos!" era o grito de guerra entoado) e a literatura skinhead de Richard Allen, alguns protopunks politizados, oriundos das academias de arte britânicas, como os membros da banda The Clash e o empresário Malcolm McLaren, posteriormente retomaram doutrinas futuristas e dadaístas. A absorção do conteúdo anarquista das duas escolas, um dia vanguardas, talvez tenha ocorrido justamente pelo carácter monolítico dessas instituições de ensino. Nos anos sessenta, McLaren era estudante da Croydon Art Scholl, onde se tornou colega de Jamie Reid, futuro designer dos Sex Pistols que, entre outros garfismos, foi responsável pela capa do single anti-jubileu "God Save The Queen". "Eu aprendi política e entendi o mundo através da história da arte", rejubilava-se McLaren.

A temática antiarte, antilaboral dos dadístas é retomada de forma mais contundente na década de 50, em França, pela Internacional Situacionista, sob a luz de Guy Debord. O termo "situacionismo", que numa significação estrita remete a posições políticas reacionárias, conforme o panfleto número 9 da Internacional Situacionista, de 9 de Agosto de 1964, "é uma palavra que contém em si mesma a sua própria crítica; uma actividade que pretende fazer as situações e não as examina em função de um valor explicativo ou qualquer outro". Foi desse filão intelectual, na não reconhecida secção inglesa situacionista, intitulada King Wob, que Malcolm McLaren usurparia ideias e emblemáticos slogans para a Blank Generation em 1977 outro lampejo alheio, vislumbrado pelo protótipo punkster Richard Hell. Elementos visuais da cultura underground novaiorquina, a comitiva Pop Art reunida em torno de Andy Warhol na Factory e a banda New York Dolls, tiveram assimilação de natureza distinta nessa génese, assim como o extemporâneo crossover envolvendo Pop Music, Black Power, Motherfuckers, White Panthers e o grupo MC5. A filosofia professada por McLaren era mais ou menos a seguinte, "se não te apoderas das coisas que te rodeiam, só porque te servem de inspiração, és estúpido. O mundo é feito de plágios."
Guy Debrod, filósofo, agitador social, cineasta e autêntico misantropo de sua práxis, teve uma trajectória envolta em legítimos desastres do destino, o que torna a confrontação com Sid Vicious, baixista dos Sex Pistols, e o americano Larby Crash, vocalista do grupo The Germs (ambos mortos tragicamente em razão do Punk), uma extravagante coincidência. Autor da desdenhada obra "La Societé du Spectacle" (A Sociedade do Espectáculo), de 1967, mas de vital importância para as alas extremistas em Maio de 68, Debord viveu no auto-isolamento, sendo ignorado tanto pela imprensa quanto por lúmpen-intelectuais. Tal desprezo, talvez possa ser explicado pelo facto de ele mesmo se intitular "doutor em nada". Nunca frequentou bancos académicos, tão pouco abandonou as teorias que formulou. Retratos seus são raros e jamais concedeu uma entrevista sequer em toda a vida. Aumenta nele a mácula de maldito: o pai ter exaurido a fortuna da família, acumulada durante gerações, e ter sido implicado no assassinato do amigo e editor Gérard Lebovici, em 1984, em Paris, incidente que justifica como "uma emboscada não explicada".
Debord publicou "La Societé du Spectacle" com o objectivo de legar um apêndice teórico plausível aos situacionistas, até então ófãos de um, e obteve alguma repercussão nos métiers intelectuais e estudantis franceses. Através de uma aleatória compilação de conceitos de concisão aforística sobre a lógica de funcionamento do império mediático, o livro contém uma acurada análise acerca da moderna sociedade de consumo. O desdobramento de imagens manufacturadas, transmitidas no feitio de eventos reais palpáveis de política e cultura como substitutas da veemente acção criadora, é a principal insígnia situacionista contra a sociedade espectacular análoga à arte. Tal sociedade, no horizonte vislumbrado por Debord, fincada nos alicerces do espectáculo, é "o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem".
No artigo de 1989, "Comentários sobre a Sociedade do Espectáculo" (com dedicatória a Lebovici), Debord revela ter suprimido da "La Societé du Spectacle" inúmeras explanações relevantes. O intuito, segundo ele, foi privar os agentes do espectáculo de conhecerem detalhes sobre o organismo desta sociedade e gerar, deliberadamente, o ruído da desinformação. No mesmo ensaio, Debord acautela-se: "É preciso levar em consideração que, dessa elite que se vai interessar pelo texto, que metade é formada pelos que se esforçam para manter o sistema de dominação espectacular, e a outra metade por aqueles que se obstinam em agir em sentido oposto. Como devo levar em conta leitores muito atentos e de tendências diversas, é evidente que não posso falar com inteira liberdade. Devo ter cautela para não ensinar demais". Mas o proteccionismo de informação de Debord justifica-se, levando em conta que Malcolm McLaren certamente deveria ser um desses leitores bastante atentos.
O homem que "inventou o Punk", adepto da King Mob, abandonou a causa revolucionária situacionista e transformou a crítica anticapitalista e antiarte numa forma de encher os bolsos de dinheiro. A King Mob, na verdade, apesar da retórica situacionista, tinha a sua filiação noutros grupos. McLaren, por exemplo, vinha da cena freak anarquista em Notting Hill, oeste de Londres. "Não há limites à nossa total ausência de lei", promulgavam eles no panfleto impresso King Mob Echo.
Da King Mob, McLaren deu prosseguimento à farsa ao encampar frases de efeito da cartilha situacionista e aplicá-las aos Sex Pistols, dando-lhes semântica e alvos novos. "Fique Danado, Destrua!" (Get Pissed, Destroy!), de "Anarchy In the UK" (Anarquia no Reino Unido) (banida das rádios), ou "Sem Futuro!" (No Future!), da música homónima, epistemologicamente, muito traduzem o apocalipse situacionista da arte, a qual, para ser realizada, deve ser destruída. Debord e seu séquito, de qualquer maneira, não estavam muito interessados na representação da King Mob em solo britânico. Um comentário realizado na Internacional Situacionista 12 evidenciava a aversão dos debordistas à fracção britânica: "uma trupe chamada King Mob... passa-se, de maneira bastante errónea, por ligeiramente pró-situacionista".
Para Debord, o espectáculo é apenas o aspecto mais visível e superficial de uma verdadeira maquinaria de manipulação que fragmenta a vida quotidiana em imagens. Essa imagética, veiculada pelos mass media, induz os indivíduos a consumir, passivamente, tudo o que efectivamente lhes falta na vida real. Para Debord, o espectáculo é administrado pelo próprio espectáculo, uma entidade viva governando a sociedade. Esse fenómeno, fruto independente da sua cognição, é uma artimanha, espécie de conluio maligno engendrado pela sociedade capitalista, que tornaram a economia um fim e a alienação, subsidiada pelo espectáculo, uma forma de domínio. Debord critica até mesmo os metadebates realizados sobre o espectáculo, atribuindo-lhes o epíteto de "discussões vazias". As directrizes dessas discussões também são ditadas pelo espectáculo, a fim de não revelarem absolutamente nada sobre a sua pragmática.
Algumas teorizações envolvendo a Internacional Situacionista e o Punk, porém, estão inventariadas em análise de que se depreende um certo nonsense ao concatenar as duas unidades. O jornalista americano Greil Marcus, utilizando o método de livre associação no livro "Lipstick Traces" ("Traços de Baton"), de 1990, faz interligações genealógicas que culminam em factos referentes a ambos. Por exemplo: a semelhança fonética entre John of Leyden (pertencente à tradição do Livre Espírito das heresias medievais) e John Lydon (pseudónimo de Johnny Rotten, vocalista dos Sex Pistols), é encarada por Marcus como uma "releitura radical e extravagante da história". Marcus, entre outras considerações, postula que "a Internacional Situacionista foi uma bomba, que passou despercebida no seu tempo, e iria explodir décadas depois sob a forma de "Anarchy In the UK" e "Holyday In The Sun". O autor credita a McLaren a conexão entre os dois movimentos.
(Continua...)
Cristiano Bastos





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