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21.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (19)



DN - Diário de Notícias
3 Agosto 2002

Discos Pe(r)didos


Apesar da curta expressão e limitada duração em que se manifestou entre nós, a «new wave» chegou mesmo assim a conhecer alguns dignos representantes. Um deles, foi caso inesperado, nascendo de um grupo com importante projecção no panorama «progressivo» na recta final de 70: os Tantra.
Uma das maiores forças da música rock feita em Portugal na segunda metade de 70, os Tantra surgem em 1976 da reunião de Manuel Cardoso (que tinha já passado pelos Beatnicks), Armando Gama, Américo Luís e Tozé Almeida, editando logo nesse ano o single «Alquimia da Luz». Um ano depois, o álbum «Mistérios e Maravilhas» (já disponível em CD) revelava a maioridade de um som rock de cenografia sinfónica e alma «progressiva», constituindo imediatamente um fenómeno, que se cimenta num tempo de desertificação na cultura pop/rock lusitana.
São, ainda nesse ano, o primeiro grupo rock português a encher o Coliseu dos Recreios, feito que repetem, em 1978, no concerto de apresentação do segundo álbum, «Holocausto» (recentemente reeditado em CD), evolução natural do disco de 1977.
Quando o grupo regressou ao Coliseu, em 1978, já Armando Gama havia saído (para formar os Sarabanda, com Kris Kopke), sendo então substituído, nas teclas, por Pedro Luís. Segue-se então um tempo de longo silêncio, durante o qual se começam a manifestar sinais de mutação interna, que levam ao afastamento de Américo Luís.
Estávamos na viragem de década, e nomes como os de Rui Veloso, UHF, Salada de Frutas, GNR, Jáfumega e Táxi começavam a mostrar um novo som rock cantado em português ao qual aderiam, como nunca antes, as rádios e público. Numa decisão contra-corrente, tal como então se verifica em grupos como os Roxigénio e Arte e Ofício (estes já com tradição no recurso ao inglês), os Tantra abandonam a língua portuguesa. E, reduzidos a três elementos, contando com a colaboração de «Dedos Tubarão» (Pedro Ayres Magalhães), dos Corpo Diplomático, editam em 1981 o terceiro álbum, «Humanoid Flesh».
O disco causou acesa polémica, sobretudo por acender a chama da discórdia na classe «crítica» de 70, mais dada a elogiar os sinfonismos de «Mistérios e Maravilhas» e «Holocausto» que as novas canções de dinâmica rítmica mais evidente e recorte «new wave» com o qual o grupo se apresentava. Todavia, a rejeição não chegou apenas da «crítica», já que o público acabou também por ignorar este terceiro disco dos Tantra, que pecava por «erro» estratégico de «timing» ao adoptar o inglês numa altura em que as multidões descobriam e abraçavam um novo rock (mesmo mais «quadrado») cantado em português. A opção pelo inglês foi então justificada por Manuel Cardoso (já a responder como Frodo) numa entrevista ao «Se7e», onde explica que uma luzinha lhe dissera que Deus não passaria os discos dos Tantra no Paraíso, se estes cantassem em Português.
«Humanoid Flesh» tem os seus méritos. Musicalmente é um interessante manifesto estético de um movimento tangencial Às linhas de força pop/rock lusitanas na alvorada de 80. E não só exibe um lote de canções interessantes (algumas a revelar uma proximidade estranha com o som dos Classix Nouveaux), como ousa transformar os «Verdes Anos» de Carlos Paredes, naquela que é uma das mais interessantes manifestações de homenagem do rock português ao grande mestre.
O fracasso do álbum acabaria por determinar o fim do grupo. Frodo seguiu carreira a solo. Tozé Almeida juntou-se aos Heróis do Mar. E Pedro Luís formou os Da Vinci.
N.G.

TANTRA
«Humanoid Flesh» 
LP Valentim de Carvalho, 1981
Lado A: «Girl In My Head», «Crazy Rock’N’Roll», «What Have Your Eyes Done To Me?», «Magic», «Verdes Anos»; 
Lado B: «Dangerous Works», «Humanoid Flesh», «Just Another Lie», «African Sands»

Produção: Tantra e SR






11.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (11)



DN - Diário de Notícias
30 Março 2002

Discos Pe(r)didos



Na recta final de 70 os Tantra eram um dos raros casos de sucesso no rarefeito panorama pop rock português. A estreia, com «Mistérios e Maravilhas» (1977), seguida de um inesperado triunfo no Coliseu dos Recreios, gerava um fenómeno que nascia nas esferas de um som sinfónico, com alguma contaminação progressiva, um pouco nos caminhos sugeridos pelo eixo Genesis / Yes. Seguiu-se, no ano seguinte, «Holocausto», disco que volta a gerar um caso de popularidade no circuito «roqueiro luso», com duas noites de triunfo no Coliseu. A estes espectáculos, nos quais surge já nas teclas Pedro Luís (em substituição de Armando Gama, que partira para formar os Sarabanda), segue-se inesperado silêncio de três anos. E o grupo, que havia assumido a ideia de um som rock cantado em português, vê-se então ultrapassado pela popularidade dos novos nomes que entram em cena. Manuel Cardoso, o vocalista e um dos fundadores dos Tantra, havia já assumido o seu alter-ego de Frodo...
Quando, em 1981, é editado o derradeiro álbum dos Tantra, «Humanoid Flesh» (no qual participa, no baixo, Pedro Ayres Magalhães), o fim do grupo está à vista, sobretudo dado o fracasso de um disco talvez incompreendido, que trocava as linguagens progressivas de 70 por uma aproximação às emergentes sugestões da new wave.
Manuel Cardoso toma então definitivamente o nome do seu alter-ego Frodo e parte em busca, não de respostas sobre um anel, mas para uma carreira a solo que nos deixou dois registos dignos de referência. Estreia-se com o single «Machos Latinos» (ainda em 1981), ao qual sucede o álbum «Noites de Lisboa», no qual se conhece, de certa forma, uma lógica de continuidade face a alguns elementos da música dos Tantra, nomeadamente o prazer pela elaboração dos fundos (um pouco ao jeito das normas sinfonistas), aqui, todavia, empregando regras de maior simplicidade ao nível dos recursos, sublinhando assim critérios de contemporaneidade, aceitando as marcas de um presente onde uma nova lógica electrónica encontrava o seu espaço no contexto da canção pop.
Ao seu lado, neste «Noites de Lisboa», encontramos alguns ex-Tantra, como Pedro Luís (que então dava também os primeiros passos com o seu projecto pessoal, os Da Vinci) e António José Almeida (o baterista que seguia, então, rumo próprio com os Heróis do Mar). António Emiliano (teclas) é outro dos convidados a desenhar retratos nocturnos de Lisboa com os quais Frodo propõe uma ideia de sofisticação pop que não se enquadrava nos padrões de um momento onde se descobriam ainda as adaptações lusitanas das normas do «fast and furious».
Nem muito «fast», nem muito «furious», mas enfim...
A capa do álbum, que reflecte uma ideia de identidade teatral e lembra, de longe, a figura do austríaco Falco (na altura na berra com «Der Komissar»), é um primeiro indício de um processo de autodeterminação de uma ideia pop que conduzia Frodo na alvorada de 80. A foto interior, onde junta a si os músicos, exibe uma noção de imagem apurada no sentido de uma sofisticação chique, quase neo-romântica, embora sem maquilhagem...
Musicalmente, sem se apresentar como um álbum revolucionário, «Noites de Lisboa» é um disco curioso e competente, bem mais interessante e representativo de uma proposta individual de rumo que muitos dos pastiches que o ano de 1982 vê nascer (e morrer) entre nós. Poucos meses volvidos sobre a edição deste seu álbum de estreia, Frodo edita um sucessor, no bizarro formato de duplo (álbum + máxi) «Zbaboo Dança», uma mais directa aposta na exploração de electrónicas, mas num recuo linguístico rumo ao inglês... E, como o anel, desapareceu em Mordor...
N.G.

FRODO 
«Noites de Lisboa» 
Vadeca, 1982
Lado A: «Vou Acordar No Paraíso», «Máquinas na Multidão», «Feitiço», «Labirinto»; 
Lado B: «Noites de Lisboa», «Manhãs Submersas», «Fado Louco», «Heróis da Noite» 
Produção: Frodo










6.3.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (5)


DN - Diário de Notícias

20 de Abril de 2002

Discos pe(r)didos




No início dos anos 80, a explosão do que então se convencionou chamar por «rock português» apontou essencialmente as suas linhas de acção a um som pop/rock convencional (para o clássico trio eléctrico de guitarra, baixo e bateria), em alguns casos até em momentos de franco afastamento face ao que eram já as formas em exploração noutras capitais dos acontecimentos musicais de então. As electrónicas eram, ainda para alguns, ferramentas «bizarras», pontualmente utilizadas, muitas vezes ainda com aquela suspeita, muito «anos 70», que dizia que música com electrónica não era música... Balelas!
A verdade é que eram poucos os projectos que apostavam nos novos instrumentos electrónicos com claro protagonismo e projectos como, para citar alguns exemplos, os Da Vinci ou Ópera Nova, onde as «novas» teclas eram evidentes, tornavam-se alvo duplo de «maus olhados» de quem nem aceitava certas simplicidades das linguagens technopop (mas se fosse nos Depeche Mode ou OMD já «marchava»...) nem encarava de bom grado que fosse música digna desse nome toda aquela que resultasse de programações e sons sintetizados...
Num tempo de mau relacionamento entre a opinião musical e a música electrónica (com naturais excepções em mestres como os Kraftwerk, Yello, Yellow Magic Orchestra e outros visionários mais «unânimes»), a proposta de Tó Neto surge um pouco como a de um «outsider», que não se parece enquadrar nem na família do «rock português» nem no das esferas mais populares da criação, naturalmente fora também dos universos de experimentação mais vanguardista da electrónica...
Com 32 anos de idade, os últimos dez vividos em Portugal (onde chegara em 1973, vindo de Luanda), António Eduardo Benedy Neto contava já com um vasto historial de vivências musicais. Em Lisboa havia já desenvolvido estudos de música e jazz (na Academia dos Amadores de Música e no Hot Club de Portugal), tendo também experimentado já percursos de vida nos Estados Unidos e Reino Unido. Do regresso, em 1983, nasce uma proposta de música pop electrónica instrumental em nome próprio. E, como Tó Neto, assina pela Sassetti (pela qual acabaria por editar apenas um álbum).
«Láctea», o seu disco de estreia, resulta de uma «maratona» de 40 horas de estúdio, durante as quais o próprio Tó Neto é o único instrumentista em cena. A produção, de Eduardo Paes Mamede, assegura ao disco um som final limpo e directo , ago próximo do que eram as composições de alma pop dos álbuns «Equinoxe» e «Magnetic Fields» de Jean Michel Jarre, músico que começava a gozar de enorme fama internacional. De resto, muita da imprensa nacional logo tratou de apelidar Tó Neto como o «Jean Michel Jarre Português», numa comparação menos intencional que a de um Daniel Bacelar quando, valentes anos antes, se mostrava como o Pat Boone lusitano! Temas como «Odisseia», «Lisa» e «Cristal» são exemplos da dignidade da proposta pop electrónica de Tó Neto neste primeiro álbum, sendo então frequentes referências em programas de rádio (uma delas «virou» indicativo do «Círculo em FM» na Rádio Comercial) e inúmeros momentos de televisão.
O disco foi apresentado num espectáculo especial no Planetário Calouste Gulbenkian (preparado em conjunto com Máximo Ferreira), através do qual se sublinhava a face «futurista» de um álbum apontado a visões do cosmos (um tema então em voga). Apesar de alguma ingenuidade (inerente aos dias de juventude destas formas e rumos), o álbum de estreia de Tó Neto não deixa de ser uma referência de mais uma marca da diversidade de propostas que animaram a criação musical lusitana na aurora de 80. Nenhum dos seus três álbuns editados posteriormente voltou a ter o «peso» e interesse deste disco hoje quase esquecido.

TÓ NETO «Láctea» Sassetti, 1983 Lado A: «Odisseia», «Lisa», «Cristal», «África Blue»; Lado B: «D. Vagabundo», «Devoção», «Zuzu» Produção: Eduardo Paes Mamede






26.2.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (3)


DN - Diário de Notícias

05 de Outubro de 2002

Discos pe(r)didos




O Portugal Suave de 1969 assistiu ao nascimento de três importantes bandas nas áreas da música pop/rock: a Filarmónica Fraude, o Psico e os Objectivo. Estes últimos representam um dos raros casos de partilha de espaço com músicos não portugueses e traduz ainda a importância que o programa televisivo Zip Zip teve na revelação de novo talento nesses últimos dias de 60.
O nosso país era, já na altura, ancoradouro para alguns estrangeiros que aqui procuravam sopas, descanso... e trabalho. Kevin Holdale, norte-americano, instalara-se em 1968 em Lisboa. Com um passado musical de alguma notoriedade, cedo se juntou a outros músicos (entre eles Mike Sergeant) para formar os Mechanical Dream.
Paralelamente o baterista dos Ekos, Mário Guia, junta os Show Men, constituídos por si próprio (bateria), Tó Gândara (guitarra), Luís Filipe (teclas e guitarra) e Zé Nabo (baixista que tinha em tempos tocado com Vítor Gomes). Para este segundo grupo as coisas não correm bem até ao dia em que são convidados a tocar no Zip Zip. Apresentam-se sem nome, agradam e recebem do público espectador um nome: Objectivo. Atenta, a Sonoplay (mais tarde Movieplay) convida-os a gravar um EP, surgindo assim, a sua estreia em disco logo em 1969.
Uma série de problemas surgidos imediatamente após a gravação do EP conduziu os Mechanical Men e os Objectivo em rota de colisão. E, após as saídas de Tó Gândara e Luís Filipe, entram no Objectivo Kevin Koldale e Mike Sergeant. Mário Guia passa a relações públicas e para a bateria entra Zé da Cadela.
Em pleno episódio de convulsão interna, o grupo não está presente no lançamento do EP. De resto, as preocupações do Objectivo apontavam já ao segundo disco, um single que representou a primeira gravação estereofónica de um single português. The Dance Of Death e This Is How We Say (Goodbye) (composições de Kevin Holdale) preenchem as duas faces de um single que evidencia o desejo dos novos desafios da técnica e só falha nas vozes. As composições são interessantes desafios à forma da canção, sugerindo desejos de um experimentalismo pré-progressivo. The Dance Of Death ensaia, inclusivamente, uma abordagem à valsa, e não esconde encantos pelos novos teclados.
Visualmente os Objectivo causam também sensação. São banda regular na boite Ronda (no Monte Estoril) e, face a um público de fato engomado e gravata, contrastam pelos cabelos longos, túnicas e motivos florais. Chamavam-lhe o «look à Carnaby St»...
Apesar das inequívocas qualidades deste segundo disco, a vida do Objectivo não foi tranquila após a sua edição. A usa música, tal como a aparência dos músicos, era olhada com a suspeita de algo estranho e não «normal»... Todavia, o grupo representou, nos seus dias, uma das mais atentas pontes de contacto directo com os acontecimentos da capital pop/rock _Londres. The Dance Of The Death, bem como o outro single editado ainda em 1970 (Glory / Keep Your Love Alive, novamente duas composições de Kevin Holdale), são peças fulcrais do melhor rock português de inícios de 70.
Novas mudanças de formação têm lugar entre 1971 e 72. Pelo grupo passam nomes como os de Terry Thomas e Guilherme Inês. Holdale, a dada altura, segue caminho paralelo no Bridge, um grupo de jazz. Da sua convivência nessas fronteiras nasceria ainda uma colaboração com o Duo Ouro Negro e Fernando Girão (dos Very Nice), da qual nasceria o álbum Background.
Num vai e vem de músicos, o grupo acaba oficialmente em 1972. Holdale abandona o país em 1973. Terry Thomas formou os Albatroz. Jim Creegan regressou a Inglaterra e tocou nos Family, nos Cockney Rebel (de Steve Harley) e, mais tarde, com Rod Stewart. Guilherme Inês e Zé Nabo formam com José Cid e Moz Carrapa o efémero grupo Cid, Scarpa, Carrapa e Nabo. Os dois, mais tarde, encontrar-se-ão nos bem sucedidos Salada de Frutas. Por seu lado, Mike Sergeant passa pelo Quarteto 1111, os Green Windows e mais tarde Gemini.

Nuno Galopim.






17.2.17

DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (3)


DN:música
Os melhores álbuns de sempre
26 de Agosto de 2005


[51] QUARTETO 111

QUARTETO 111



No pobre panorama pop português de 60, afastado da efervescência vivida entre Inglaterra e os Estados Unidos pela ditadura de Salazar e Caetano, os Quarteto 1111 de José Cid foram um oásis de modernidade. O seu álbum de estreia, homónimo, mantém-se como um manifesto à criatividade em regime de experimentação febril.

TÍTULO Quarteto 1111
ALINHAMENTO Prólogo / João Nada / Domingo em Bidonville / Uma Estrada Para a Minha Aldeia / A Fuga dos Grilos / As Trovas do Vento que Passa / Pigmentação / Maria Negra / Lenda de Nambuangongo / Escravatura / Epílogo
ANO 1970 (reedição em CD pela EMI Music Portugal)
PRODUTOR Quarteto 1111

Na década de 60, enquanto a maioria do Ocidente vivia uma revolução social ancorada numa cultura juvenil que assumia declaradamente a cisão com as gerações anteriores, ao Portugal governado pela ditadura salazarista chegavam apenas ecos abafados dessa ebulição.
A maioria das bandas, com pouco espaço para mais que animação de bailes de finalistas e afins, entregavam-se a versões de êxitos ou a originais que não escondiam um evidente desejo de emulação do que se fazia em Inglaterra ou nos Estados Unidos.
Como excepções, tínhamos os Sheiks, trabalhando freneticamente sobre a explosão despoletada pelos Beatles, ou uns Jets cujo único EP editado, fosse outro o país de edição, se inscreveria como título de culto da emergente vaga psicadélica. O grande marco pop do Portugal de 60, contudo, seria da responsabilidade de uma banda que, de forma inédita, conjugava a modernidade além fronteiras com língua e motivos portugueses. Eram os Quarteto 1111 e revelaram-se com uma A Lenda D’el Rei D. Sebastião sobre a qual Cândido Mota aos microfones do Rádio Clube Português, opinava em 1967: “é um tema eterno, de criação nacional e validade perene e universal”. Depois dele, continuariam a caber ao Quarteto 1111 liderado por José Cid as mais excitantes manifestações pop portuguesas, quer fosse nos acessos folk de Dona Vitória e Dragão ou nas divagações ácidas de Os Monstros Sagrados e Génese. Em 1970, a criatividade que até então se dispersara por singles e EPs concretiza-se finalmente em longa-duração, o segundo da história da pop nacional – um ano antes, a Filarmónica Fraude editava a sua brilhante estreia, Epopeia.
Quarteto 1111, álbum conceptual dedicado à emigração e à Guerra Colonial, politicamente interventivo – também aí, em contexto rock, o Quarteto foi pioneiro -  e febrilmente experimentalista, não teve vida longa. Pouco depois da edição, a censura retirava-o das lojas, passando à clandestinidade de cópia pirata.
Contudo, aqueles que o conseguiram ouvir em tempo real e todos os outros que, ao longo dos anos, com ele se foram deparando encontram ali um magnífico manifesto à criatividade sem amarras. A folk de João Nada, o funk de Pigmentação, o denso psicadelismo de Maria Negra ou Escravatura, as experiências sónicas de Epílogo – quase impensáveis tendo em conta os meios disponíveis aos músicos portugueses de então -, as colagens sonoras de Fuga dos Grilos ou a sofrida melancolia de Domingo em Bidonville, todas elas, representam uma sintonia entre anseio pela modernidade e desejo de vincar uma identidade própria que o pop/rock português só conseguiria concretizar satisfatoriamente quase uma década depois.
Mário Lopes






12.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (149) - Mundo Da Canção #52


mc
mundo da canção
Nº 52 - Ano X - Setembro/Outubro-79
- Esc. 20$00
Director: A. Vieira da Silva

Publica-se todos os meses
Proprietária e Editora: Tipografia Aliança, Lda.

Colaboram neste número: A. Vieira da Silva, Manuela Ramalho, Mário Correia, Melo da Rocha e Octávio Silva.

20 páginas A4 a azul (mesmo os textos), papel normal, excepto a capa que é de papel brilhante um pouco mais pesado e a 2 cores (azul e vermelho)




Editorial
Amigos a verdade é esta:
o mc não presta!

O mc não traz o resumo dos próximos capítulos do Astro. Não publica o horóscopo semanal, mensal ou anual dos seus leitores. Não exibe fotografias de leitoras com aspirações a Miss qualquer coisa. Não tem consultório sentimental para orientar a juventude. O mc não é uma revista. Rasgue-se. Já.
O mc não esclarece nem um pouco sobre a vida íntima da célebre cantora que grita o «sobe, sobe, balão, sobe». Não diz quando é que ela nasceu, com quantos meses teve os primeiros dentes, quando deixou de fazer chi-chi na cama. Não aponta o momento exacto em que a artista nasceu para a canção com os primeiros berros na casa de banho. O mc é uma nódoa. Limpe-se. Já.
O mc não liga patavina ao prodígio do teclado que é o inigualável Sr. Rui Guedes. Não comenta o seu programa da RTP onde ele tem lançado grandes artistas. Não o compara sequer com o Elton John que ao pé dele é um principiante. Não afirma o seu nacionalismo de que tem dado suficientes provas. O mc é um nojo. Queime-se. Já.
O mc não tem «posters» com gajas nuas para distracção do leitor. Não fala dos mistérios de alcova dos artistas mundiais. Não publica manifestos de homossexuais. Não transcreve textos do Sr. Vilhena. Não tem anedotas pornográficas. O mc é um puritano. Mate-se. Já.
O mc não segue as linhas doutrinárias do Sr. Dr. David Mourão Ferreira. Não aplica a revolução cultural do Sr. Dr. Proença de Carvalho. Não tem editoriais escritos pelo Sr. Dr. Francisco Sousa Tavares. Não expõe o pensamento desse meteoro da nossa intelectualidade que é o Sr. Dr. Eduardo Prado Coelho. O mc é um ignorante. Esfole-se. Já.
O mc não é feito em Lisboa. Não tem como colaboradores os brilhantes críticos do nosso país. Não é subsidiado por qualquer grupo económico. Não é protegido por qualquer força política. Não tem publicidade na RTP nem em lado nenhum. Não organiza concursos com sorteios de automóveis. Não tem capas multicolores encomendadas e pagas por qualquer editora discográfica. O mc é independente. Rasgue-se. Limpe-se. Queime-se. Mate-se. Esfole-se. Já. Já. Já.
Vieira da Silva

Discoanálise
Ascenção E Queda
Petrus Castrus

A qualidade de uma canção popular está na qualidade simultânea dos diversos elementos que a constituem, tomados no seu conjunto.
É por isso que frequentemente só entendemos completamente os bons temas depois de os ouvirmos atentamente por diversas vezes.
É por isso que as cançonetas comerciais que apresentam um ou outro factor mais agradável (normalmente a melodia fácil encaixando frases sonoras, mas vazias) se impõem de um dia para o outro, tão depressa como caem no esquecimento.
Há no entanto autores de música popular que, não querendo mergulhar na mediocridade artística das vogas, parece não compreenderem que a música popular de qualidade só existe na qualidade de todas as suas componentes.
Este disco dos Petrus Castrus vem precisamente relembrar uma fase da música portuguesa que procurou encontrar um caminho na transposição para a nossa língua das experiências anglo-americanas, solução que parece se pretende reeditar após o surgimento da chamada nova escola inglesa (Genesis, Gentle Giant, Van Der Graaf, etc.).
Recordam-se de tantos grupos que, repetindo as sonoridades da pop, galegavam umas letras ridículas só para justificarem a existência de um vocalista?
Fora ideologias, «ASCENÇÃO E QUEDA» é um texto cabotino porque, sendo infantil, mostra-se incapaz de assumir a fantasia sã e a ingenuidade louca do mundo das crianças, recheado de grandes heróis que, na sua perspectiva, vão pôr ordem no mundo dos adultos.
Mas o cabotinismo literário de «ASCENÇÃO E QUEDA» completa-se nas tiradas apalhaçadas de certas vocalizações que reflectem uma total falta de relação letra-melodia. Esta é uma constante do álbum, estragando os bons pedaços de música que os Petrus Castrus compuseram para este disco.
Independentemente da mensagem impressa (com que podemos ou não concordar), o que falo é da forma artisticamente medíocre através da qual ela nos é transmitida.
Quanto à mensagem, ela é uma mensagem de derrota, pronunciada por adultos-velhos que, das crianças, penas vestem os calções de alças; uma mensagem-morta como tudo o que, despido de esperança, se vai esfumando no vazio do seu conteúdo.
Em conclusão: Deste disco dos Petrus Castrus apenas aproveito a sua qualidade de música que de nada valerá se não decidirem de uma vez se são um grupo de música portuguesa ou de música inglesa. E reparem que, para mim, a música portuguesa não se circunscreve exclusivamente às nossas tradições folclóricas.
«ASCENÇÃO E QUEDA»: um trabalho aceitável.
Octávio Silva



Entrevista Com
SHILA
«Foi a terra desta gente...»

I
Sheila Charlesworth - canadiana. Shila - portuguesa. Uma canadiana fixa-se em Portugal, aprende a língua, contacta com o povo, participa nas suas lutas, partilha dos seus anseios e aspirações, torna-se portuguesa «de coração e raça». Uma canadiana «levanta voo» aos primeiros sons de um folclore que passou a ser o seu e que muito intensamente a faz vibrar e o qual procurou assimilar no seu contributo para a renovação da música portuguesa de intervenção de raízes populares.
«Tudo isto aconteceu porque tenho a chula no meu corpo e o vira nos meus braços. Talvez seja esta uma das possíveis explicações mas é muito difícil dizer concretamente todos os porquês. Sei lá, eu gosto, por exemplo, da maneira como as pessoas aqui andam de guarda-chuva. São milhares de pormenores que me cativam: de repente aparece um baile na rua, mesmo quando está a chover, o que só é possível porque as pessoas sabem andar de guarda-chuva; as pessoas usam lenços de algodão e não daqueles que se deitam no caixote do lixo; a maneira como as pessoas estendem a roupa na ribeira, ou o modo como os miúdos se põem a mandar vir; enfim, todos esses pormenores do quotidiano, todos esses pequenos nadas...».
Mas não é só uma aproximação pela via de um quotidiano não padronizado como nas sociedades ditas de consumo que a seduz, porque em Portugal Shila pôde encontrar «aquilo tão maravilhosamente subversivo que nunca poderia encontrar» no seu país natal...
«Claro que, para além desses pequenos nadas, a minha fixação em Portugal se prende muito com razões fortemente políticas. Houve neste país uma abertura muito grande para os problemas sociais o que, tendo em conta o meu modo de ver as coisas, me faz sentir bem aqui».

«Foi a terra desta gente
Que me deu o maior presente...»


II
Sheila Charlesworth nasceu em Toronto, no Canadá, em 14 de Julho de 1949. Em 1969 iniciou a sua vida no mundo do espectáculo como bailarina e depois como actriz. Em 1970 fez parte, em Paris, do grupo de actores que levou à cena a versão francesa da comédia musical «Hair». Em 1971 integrou-se no Living Theatre e actuou no Brasil.
«A comédia musical «Hair» era uma peça que apanhava muito dos meus restos da adolescência, da América, da revolta e do protesto. Mas eu, na altura, estava muitíssimo pouco informada ou politicamente preparada. Na minha família e na minha terra não havia uma consciência mínima dessas coisas.
«Quanto ao Living, foi por acaso que lá fui parar. O Sérgio Godinho foi convidado e como eu o estava a acompanhar também fui. Era mais um país a estar representado. Foi através da quebra da actividade do Living que eu comecei a compreender alguma coisa a nível político. Quando estive presa, no Brasil, as coisas tornaram-se para mim extremamente claras, sobretudo ao nível das questões fundamentais: quem é o mandão? quem é o opressor? o que é que está certo? o que é que está errado?
«Por outro lado, pude falar com pessoas que sofreram de um modo atroz a repressão e fiquei a saber muito sobre coisas que reflectem a acção dura e repressiva de toda uma estrutura de sociedade. Tudo isso foi muito importante para a minha consciencialização...»
É evidente que, mais tarde ou mais cedo, se desenharia uma espécie de ruptura, com determinadas ambiguidades, para com todo um mercantilismo asfixiante instalado no mundo do espectáculo. Uma ruptura que, em parte, se esboçou com a experiência adquirida na «Hair» e melhor se definiu no Living.
«Eu vivia muito enterrada no mundo do espectáculo, como bailarina e actriz. Fiz toda uma série de coisas que acabaram por me levar, já em 1972, a não querer fazer mais nada relacionado com o espectáculo. Claro que era uma tomada de posição, uma escolha um tanto adequada às circunstâncias da altura, sobretudo derivada do facto de eu não gostar da ideia de estar a fazer tudo aquilo como quem vende um produto qualquer. Uma pessoa acaba por se aperceber de que sendo, por exemplo, uma actriz, não é mais do que um produto de venda chamado actriz. As pessoas vêm ver-nos, pagam o seu bilhete, assistem ao espectáculo e vão-se embora. E nada mais se passa. Se calhar isto até era uma atitude um tanto ingénua da minha parte mas era assim que eu pensava».
Em 1973 Shila participou numa longa-metragem canadiana, «Os Corpos Celestes» e, após o 25 de Abril, veio para Portugal, na companhia de Sérgio Godinho. O que foi muito importante para um regresso «muito diferente» à actividade artística.
«O facto de ter vindo para Portugal veio mostrar-me que aqui não há mais aquela quebra, aquela distância entre o público e os artistas. As pessoas vivem diariamente juntas, artistas e povo. E o povo também é espectáculo, o que muito me surpreendeu: em 1974, quando aqui cheguei, eu vi teatro na rua, manifestações, festas populares, etc. Eu não percebia bem os pormenores e a dimensão do que se estava a passar mas, perante tudo isso, avivaram-se algumas das minhas recordações do espectáculo, e acabei por ir de novo para os palcos».

«Foi a terra desta gente
Que me deu o maior presente
De abrir a minha voz...»


III
Em 1977, com a etiqueta Diapasão, foi lançado no nosso mercado discográfico o LP com o título DOCE DE SHILA, um disco que resultou de «um muito terem puxado por mim para que o fizesse». Este trabalho veio a conseguir impor-se mercê da sua qualidade e da delicadeza da inspiração dos temas nele incluídos.
«Fiquei contente com o resultado conseguido. Quando gravei DOCE DE SHILA fi-lo sobretudo graças à colaboração de muitos amigos. Este trabalho, que levei muito a sério, foi uma espécie de saída de um berço. Uma saída extremamente protegida pelas pessoas que muito me orientaram».
E assim se foi inscrevendo o nome de uma canadiana-portuguesa no panorama da nossa música popular de intervenção, um campo de acção cultural com problemas diversos mas que tem desempenhado um papel muito importante. Ou não será assim?
«Obviamente que sim. Nasceu por aqui muita música nova, surgiu um poder de criatividade enorme, apareceram bons músicos, excelentes executantes, novas composições, etc. Por outro lado, houve toda uma recolha intensa, desde o 25 de Abril, de música folclórica e de música popular. Pela minha parte, tento contribuir um pouco para todo esse desenvolvimento. É claro que não sou uma pessoa autónoma. Sou uma intérprete que teve e tem a sorte de estar à beira de pessoas incríveis, como o Sérgio Godinho, e não é, pois, por acaso que consigo cantar lindas cantigas».
Shila, que foi «apresentada» à canção portuguesa de intervenção por «um companheiro de alma e de luta que foi igualmente o companheiro do meu desenvolvimento político», tem consciência dos problemas mais graves com que se debate o canto de intervenção.
«Um dos problemas mais graves é, sem dúvida, a falta de condições de trabalho. Criaram-se muito maus hábitos, o que é normal. Com o 25 de Abril havia uma necessidade histórica que se converteu numa realidade histérica; fomos para todo o lado, acompanhamos tudo e todos. Houve muito voluntarismo. Agora, quatro anos depois, a situação modificou-se imenso. Por outro lado, há que ter em conta que nos habituamos um pouco a trabalhar demasiado à balda. No campo da música, onde há todo um conjunto de talentos absolutamente escandaloso, no bom sentido do termo, há pouquíssimas condições de trabalho. A maioria das pessoas do canto de intervenção não tem aparelhagem e não ganha o suficiente para se poder dedicar inteiramente à música. O facto de os artistas terem de ter um emprego e de fazer as contas para o fim do mês, atrasa bastante o desenvolvimento da música. E, ainda por cima, é bastante difícil pedir cachets, embora isso agora já vá sendo aceite. Mas aqui há um ano atrás as pessoas quase desmaiavam quando isso sucedia. Chegavam a chamar-me reaccionária e contra-revolucionária por pedir dinheiro mas, aos poucos, eu fui explicando às pessoas que quando vou fazer compras ao supermercado eles não me deixam pagar com uma canção.
O público deve compreender que as condições de trabalho passam pela criação de hábitos quanto ao pagamento de entradas para os espectáculos. Nós, pela nossa parte, temos a obrigação e o dever de apresentar um «produto» muito mais desenvolvido. No meu caso, um espectáculo de uma hora obriga-me a contratar dois músicos e isso custa dinheiro. Ora, se nós temos o dever de fazer espectáculos com qualidade, o público tem de compreender que precisa de nos apoiar para que isso seja possível. Porque, caso contrário, está-se a matar a música portuguesa».
Foi mais ou menos neste sentido que, em Novembro de 1978, Shila e Jorge Zagalo arrancaram com o projecto «Música Aberta».
«Estou contente com o projecto da Música Aberta porque conseguimos, apesar de tudo, levar para a frente um projecto suicida e impossível, sem qualquer apoio, inclusivamente do Governo. Após a primeira etapa, de quatro semanas, entregamos um pedido de subsídio à SEC, mas esta recusou-o invocando razões absolutamente estúpidas. Diziam que era um projecto de feição empresarial, que dava lucro. Claro que sabiam que isso não era verdade mas o que havia era uma má vontade para com iniciativas deste género. Apesar das dificuldades, nós continuamos e conseguimos realizar cerca de 20 espectáculos - recitais com boas condições, desde a sala, aparelhagem, publicidade, etc. - de grande qualidade e muito variados. É claro que «obrigamos» os artistas a prepararem um mínimo de 45 minutos de espectáculo, mas tudo isso deu muito trabalho e nos custou muito dinheiro.
Por outro lado, da parte da rádio e da televisão não houve qualquer apoio, o que é extremamente lamentável, porque os espectáculos da Música Aberta podiam muito bem ser ouvidos e vistos em todo o país. A rádio nada gravou e a televisão ofereceu-se para lá ir mas de borla. Ora acontece que eu não ia pôr a televisão a filmar artistas, sem pagar a artistas e à organização. Isso seria contrário aos interesses da música portuguesa porque afinal gastam-se montes de dinheiro na importação de certas coisas (que também têm a sua razão de serem passadas na televisão) e esquece-se, pura e simplesmente, a música portuguesa. O que não pode ser.»
E já que estávamos com a mão na massa, nestes tempos de ressurreição do nacional-cançonetismo pelas mãos medíocres e estropiadas do nacional-proencismo, acabou por se falar de uma tal «censura»...
«Isso da censura à música de intervenção, e não só, é tão claro como a clara de ovo. A gente sabe que este Portugal já não é, infelizmente, o grande país da liberdade. Agora acho que temos de encontrar maneiras para continuar a dizer as coisas que queremos dizer, com qualidade a todos os níveis e trabalhar no sentido de uma «abertura», porque o nosso «produto» é de uma profissionalização e de uma qualidade que ninguém de bom-senso pode negar. Não podem dizer que este ou aquele não deve ir à rádio ou à televisão com o argumento de que o seu trabalho nada vale, porque isso é mentira».
E uma das maneiras de furar o cerco, de lutar contra a mordaça dos novos censores, é precisamente a intensificação, bem organizada, do contacto directo com o povo, «o que tem sido muito importante para mim. Aliás, as experiências resultantes desse contacto sentem-se muito no meu álbum LENGA-LENGAS E SEGREDOS, um disco que tem muito mais de mim que o DOCE DE SHILA, porque tenho um ano de palco nas minhas costas, e isso reflecte.-se no meu trabalho».
Ah! Os discos! Por que não reflectir um pouco sobre a indústria e comércio discográficos em Portugal?
«Ah! Quem nos dera que, mais dia menos dia, isso ficasse um pouquinho mais nas nossas mãos. A estrutura das editoras é uma estrutura que não satisfaz a maioria dos cantores. É fundamental que lutemos nesse sentido, para que um dia possamos realmente ser os donos da nossa própria música. Porque há muita gente a mexer na música que não quer saber de qualidade e de conteúdo, e até da sobrevivência das pessoas que fazem essa música. E isso eu considero, acima de tudo, uma falta de respeito para com o público».

«Foi a terra desta gente
Que me deu o maior presente
De abrir a minha voz
os meus braços e a noz...»

IV
Em 1978, foi editado um single destinado às crianças, com os temas «O burro e o grão» e «Papagaio». A experiência de Shila, neste campo, tem antecedentes interessantes: participação num disco colectivo de Jorge Constantino Pereira, CANTIGAS DE IDA E VOLTA; trabalho no infantário da filha; e participação no programa A LOJA DO MESTRE ANDRÉ. Deste trabalho, disse-nos Shila:
«O trabalho para crianças e com crianças é fundamental. Eu gostava - e tento fazê-lo - de realizar um trabalho paralelo; no entanto, o trabalho infantil é muito mais difícil. Com as crianças não se brinca. Têm um olhar crítico muito agudo e uma capacidade de aceitação e de rejeição fabulosa. E é difícil arranjar composições deste tipo, para se poder prolongar este trabalho. Quanto a mim, por exemplo, eu canto as coisas que tenho, coisas populares e coisas que as próprias crianças me vão ensinando.
Para o Dia Mundial da Criança devo ter mais um single mas o que mais gostava de fazer, neste campo, era todo um espectáculo com pés e cabeça. Talvez um dia, se existir um mínimo de condições para o poder fazer...»

«Foi a terra desta gente
Que me deu o maior presente
De abrir a minha voz
os meus braços e a noz
que encaixa o maior abraço...»

V
De Shila, cantora-mulher-militante, incapaz de «assistir de braços cruzados ao desenvolver de uma contenda», uma presença feminina num campo onde a intervenção da mulher é bastante reduzida.
«Eu acho que há realmente falta de mulheres no campo da música. Eu não sei porque é que a mulher não está mais activa na música, é uma coisa que não consigo perceber. Deve preferir ficar a descansar. Eu sou mãe, sou uma espécie de mulher a dias, sou dona de casa e tenho tempo para a música. Parece-me que a mulher tem tendência para não se impor. É claro que houve, e ainda há, muita repressão à mulher, de modo que ainda vai demorar um pouco até que ela «saia de casa». Que eu saiba, aqui há uns 15 anos, em Portugal, a mulher não podia andar de calças, beijar na rua, fumar, etc. Acho que já se conseguiu alguma coisa mas muitas outras podem ser conseguidas e noutros campos bem mais importantes. O que é preciso é que se aproveitem as condições mínimas que existem e continuar a lutar».

«Foi a terra desta gente
Que me deu o maior presente
De abrir a minha voz
os meus braços e a noz
que encaixa o maior abraço
que quero dar.    Shila»

VI
Em Shila, uma trajectória se define. Um projecto que se constrói num esforço de coerência e de militância, que vai ganhando forma. Um projecto de acção que é uma aposta honesta no futuro.
«Dantes eu contava três cantiguinhas com uma viola e pronto. Agora já há microfones, uma coisinha para misturar o som, dois músicos e um espectáculo de cerca de uma hora. É um passo banal, sem dúvida, mas é um princípio. E deste pequeno passo banal qualquer coisa mais elaborada e «gigante» pode surgir mais dia menos dia. Isto passa-se ou deve passar-se a todos os níveis da nossa acção. É uma questão de continuar em frente, com uma boa dose de alegria, muita vontade e espírito de sacrifício. Porque quando se acredita no futuro vale sempre a pena lutar para que algo mude, por muito pouco e pequeno que seja».
Entrevista conduzida e elaborada
por Mário Correia

nota: seguem-se as letras das canções do álbum Lenga-Lengas e Segredos (2 páginas)





Van Der Graaf
- Vital
Peter Hammill
- The Future Now

Peter Hammill forma a tríade necessária (poeta, compositor, músico) que nos foi sucessivamente habituando ao pouco de bom (razoável) que resta da desgastante (degradante) máquina comercial a que se deu o nome «ROCK», agora rivalizado (talvez empobrecido) com o «mito» da «New Wave».
Pawn Hearts - o expoente da dedicação, do trabalho exaustivo, o mérito por fim reconhecido dum esforço que se vinha tornando inglório e impenetrável. Depois os louros da vitória, e a abertura (agora possível) a novos caminhos, experiências (a maior parte delas longe de atingirem o belo e o profundo dum passado); a unidade orgânica do grupo fragmenta-se na procura duma nova sonoridade; a introdução dum novo elemento, Graham Smith, um veterano dos anos 60 dos «String Driven Thing»; um violino com a permanência de David Jackson no sax foi algo de bastante exótico e complexo que nos deixou atónitos já no álbum The Quiet Zone - The Pleasure Dome. A ausência de Hugh Banton, uma perda que consideramos preciosa.
Quanto ao poeta surge a definição, a intervenção directa, a tomada de posição sem rodeios - um passado interiorizado e interiorizante é posto em confronto com uma sociedade em transformação e a necessidade urgente de intervir (posição já sugerida em World Record).
«Vital» o primeiro álbum «ao vivo», depois de oito anos de trabalho em estúdio, gravado no MARQUEE CLUB em Londres, em Janeiro de 78. Não só a reposição de temas já conhecidos, ainda, uma boa metade de títulos originais. Temas como «Plague of Lighthouse Keepers» onde a voz de Hammill um pouco já cansada ainda reflecte, ao natural, a atmosfera de Pawn Hearts (de mencionar a extraordinária execução de técnica e sensibilidade que Guy Evans coloca neste fragmento), «Pioneers Over C», «Still Life», «Last Frame», «Killer», são outros tantos temas reproduzidos. As faixas originais como «Sci-Finance», «Door», «Urbane» são a expectativa (desilusão?), a busca da New Wave de novos esquemas (a que Peter Hammill já nos tinha levemente sugerido anteriormente) aparece-nos aqui como algo de indubitável que não nos deixa de criar uma certa estranheza e insegurança.
«The Future Now» - na generalidade, o álbum reflecte um estudo amadurecido num cuidado brotado na espontaneidade criativa duma voz cada vez mais segura e precisa. A recusa dum lugar na vanguarda: «Tenho trinta anos e hei-de atingir os sessenta, nada me impede, nunca hei-de parar» - palavras da abertura do álbum, da faixa «Pushing Thirty». Em «Second Hand», a dominação do homem pelo sistema (aqui um bom momento de David Jackson), a armadilha social, os negócios, a prisão, o jogo. «Trapping» - uma introdução em viola acústica com colagem vocal como reforço numa estrutura bastante sóbria. A interrogação do tempo que passa, a finalidade no mundo - The Mousetrap (Caught In)» -, a melodia romântica reconduzindo-nos ao piano em «Wilhelmina», do álbum «The Silent Corner and the Empty Stage». «Energy Vampires» - o fantasmagórico imaginário, um mau momento de Graham Smith. «If I Could» - a melhor melodia pela sua simplicidade, acompanhamento à viola acústica e rítmica; a leveza de Evans Graham Smith consegue aqui a harmonia total com o resto dos elementos; poeticamente uma interrogação à incompreensão dum amor - «se eu pudesse explicar...»
O segundo lado do álbum dá-nos uma dimensão mais pessimista do mundo, mais violento, menos cuidado e mais disperso. «Aqui estamos no século XX mas bem poderíamos estar na Idade Média, eu quero o futuro agoa» em «The Future Now», cuja temática se aproxima bastante de «In Camera». «Still In The Dark» - um ataque às instituições religiosas como total impotência perante o porquê. «Mediaevil» - coro eclesiástico introduzindo um poema com ironia e perspicácia: «a resposta para os nossos pregadores é um valium na cama». «A Motor - Bike In Afrika» - percussão electrónica (repressiva), vocalização declamada, o poema de maior intervenção: «os corpos de Biko e o Soweto pobre / a mensagem da reforma religiosa alemã, tortura racial e guerra racial na África de hoje / Vinda à Rodésia e à África do Sul ver». Seguem-se «The Cut» e «Polinurus (Castway)», aqui experiências reportando-nos ao Rock Alemão - «Há tantas coisas a mencionar / Que parecem deslizar no meu pensamento / Ainda juro que as minhas intenções / Nunca deixarão as minhas esperanças para trás».
Uma nota de desânimo para aqueles que estivessem interessados na aquisição destes álbuns em Portugal, pois não serão distribuídos, «como é lógico». Enquanto a cultura for obrigada, para se divulgar, a cair nas mãos de distribuidoras cujo funcionamento visa essencialmente o lucro, não teremos nem estes álbuns nem outros ainda com mais interesse, neste País.
Melo da Rocha


Lenga-Lengas E Segredos
Shila


Se é verdade, como já li, que o difícil não é fazer um bom primeiro disco, então não há dúvida que Shila, com este seu segundo álbum, acaba de se impor definitivamente na música popular portuguesa.
É certo que Shila se rodeia dos nossos melhores, mas LENGA-LENGAS E SEGREDOS é indubitavelmente um trabalho muito bom, em que ressalta a qualidade e o equilíbrio gerais das composições.
Chico Buarque, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Júlio Pereira e João Loio - esse ilustre pouco-conhecido que certamente irá dar muito que falar - são nomes que à partida garantem qualidade, mas a escolha não se faz sem senso artístico e a boa interpretação não se realiza sem se viver realmente o que se canta.
E eis que, sem grandes alardes, quase sem se dar por isso, como acontecera com «DOCE DE SHILA», esta cantora canadiana apresenta mais uma vez um disco que será concerteza um dos melhores do ano.
Direi mesmo que Shila  como que parece um barómetro da música portuguesa, já que a evolução que se regista desde o anterior trabalho é um pouco a evolução que sofreu a nossa música popular.
Um passo de maturidade é como classifico «LENGA-LENGAS E SEGREDOS»; um passo de maturidade é o que espero vir a encontrar nos próximos discos, já anunciados, de alguns dos nossos autores mais representativos.
«LENGA-LENGAS E SEGREDOS» reflecte um refinamento de gosto, de compor e de direcção musical que parece ser o salto prometido por álbuns como «LISBOÉMIA» e «PANO-CRU».
Não posso, no entanto, deixar de estranhar a tentativa de recuperação de um tema medíocre do passado e admiro-me que, no meio de uma escolha tão criteriosa, se aceite «Já passei a roupa a ferro» com toda a carga ideológica negativa que encerra e mais ainda o seu significado quando a rádio do fascismo a meteu a ferros na cabeça de todos nós. Fugir ao popularucho é defender a música popular.
De resto, parece-me não ser de destacar qualquer dos restantes temas porque a reflexão e vivacidade se vão sucedendo ao longo do disco, sempre com um gosto criterioso, envolvendo compositores, intérpretes e músicos que mostram saber muito bem o que pretendem.
Em conclusão: um conjunto de temas de boa nota, bem interpretados, de que resulta um álbum MUITO BOM, qualidade a que não é alheia a mão de Júlio Pereira que fez o trabalho de direcção musical.
Octávio Silva




6.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (145) - Musicalíssimo #1


Musicalíssimo
Dezembro - 78
Preço 50$00
Nº 1




Director e Editor: Jacques C. Rodrigues
Chefe de Redacção: J. Afonso Costa
Fotógrafos: J. Marques, Abel Dias e A. Capela
Propriedade: Editorial Globo - Apartado 10 - Queluz

54 páginas A4 - papel de peso médio - páginas a cores e a p/b numa proporção de cerca de fifty-fifty.
Poster A3 (centrais), papel brilhante - Phil Collins


Banda do Casaco
Entrevista
Nuno Rodrigues e António Pinho. Eles são indiscutivelmente os «leaders» de um dos mais importantes grupos da música portuguesa dos últimos anos - a «Banda do Casaco».


Esta banda, com cerca de 4 anos de existência, já produziu 3 álbuns cujos títulos são (por ordem cronológica) «Dos Benefícios Dum Vendido no Reino dos Bonifácios», «Coisas do Arco da Velha» (que mereceu a classificação de melhor álbum de música portuguesa produzido durante 1976, classificação dada por um grupo de críticos de música ligados a jornais, rádio e televisão) e «Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos», que conquistou idêntico «galardão» também.
A banda tem pronto para sair, um novo álbum cujo título genérico é «Contos da Barbearia». Como eles vão dizer mais adiante «este novo álbum» é muito simplesmente a história de um indivíduo que como todos nós vai ao barbeiro, adormece, e como na história da «Alice no País das Maravilhas» passa para lá do espelho e sonha coisas diversas»...
O «gozo» do trabalho desenvolvido ao longo destes 4 anos, o novo disco, a música portuguesa, foram os temas duma longa conversa que tivémos com o Nuno Rodrigues e o António Pinho e que fica aqui reproduzida.
Uma conversa com a «Banda» por alturas de «Contos da Barbearia». «Banda» que continua teimosa nos seus propósitos de acreditar na música popular portuguesa. E como alguém da «Banda» disse um dia - «a música popular terá de ser um jogo onde todos participem - quem a faz, quem a divulga, quem a ouve, quem a critica...» Jogamos nessa...
M - O que há de concreto acerca do vosso novo álbum?
BC - Já gravámos um disco que deve sair durante o mês de Outubro. Será o 4º álbum da «Banda do Casaco».
M - Isso quer dizer que a «Banda» ainda existe?
BC - Nunca deixou de existir.
M - Quem constitui a «Banda do Casaco» neste momento ou se preferires, quem participa neste novo trabalho de estúdio?
BC - António Pinho, o Nuno Rodrigues, o Celso de Carvalho, a Mena Amaro e o Tó Pinheiro da Silva. Portanto pessoas que participaram noutros discos.
M - E os outros elementos que participaram em discos anteriores?
BC - Esses elementos saíram... como as pessoas saem dos empregos. Não há incompatibilidades, no caso da «Banda», mas como as pessoas têm outras actividades e o grupo não lhes pode proporcionar uma permanência fixa é natural que algumas saiam.
M - Chegou a falar-se da formação de um grupo, que para além dos álbuns estava na disposição de orientar o seu trabalho para outros campos, como por exemplo a organização de espectáculos regulares?
BC - É evidente que nós estávamos cheios de boa vontade, fizémos ainda alguns espectáculos e demos provas de ser capazes. Mas desistimos porque, como temos afirmado noutras ocasiões, é preciso um grande «staff» de material, que nós não temos hipóteses de ter, e portanto preferimos, de momento, suspender esses projectos. Isto não quer dizer que seja um projecto abandonado definitivamente; o que acontece é que de momento não temos hipóteses de fazer concertos amplificados condignamente. Nós fizemos esta experiência 4 ou 5 vezes e resultou muito satisfatoriamente para nós e para as pessoas. Sucede que isso era uma coisa diabólica. Por exemplo, fomos tocar uma vez ao pé de Aveiro, o «cachet» era bom, mas desse «cachet» cada um de nós ganhou apenas 1200$00, porque tivemos de alugar aparelhagem a um grupo de rock, o que nos custou os olhos da cara...
M - Portanto só podemos contar com a «Banda» a nível de registos em estúdio?
BC - É evidente que ainda que cheguemos à conclusão de que não faremos mais espectáculos, continuaremos pelo menos a fazer discos, o que já não é mau num país onde há muita gente a fazer espectáculos e maus discos... Portanto dos discos não desistiremos tão depressa.


M - Daí a saída próxima dum novo álbum?
BC - Exacto. O nosso 4º ábum chama-se «Contos da Barbearia» e é uma série de contos desligados uns dos outros e têm como elo comum o facto de começarem com uma historieta que se chama «Na cadeira do barbeiro», que é muito simplesmente a história de um indivíduo que como todos nós vai ao barbeiro, adormece, e como na história da «Alice nos País das Maravilhas» passa para lá do espelho e sonha coisas diversas que vão constituir o disco. Portanto histórias perfeitamente desligadas umas das outras mas à que demos o título genérico de «Contos da Barbearia». Digamos que este disco é a continuação mais ou menos lógica do «Coisas do Arco da Velha». Provavelmente este disco deveria ter sido o 3º e as «Conquilhas» o 4º. Será portanto natural que no futuro disco (o do ano que vem) retomemos o esquema das «Conquilhas». Aliás acho que um dos aspectos curiosos da «Banda» é que ao ouvirmos os trabalhos que foram feitos já há 4 anos eles continuam perfeitamente actuais.
M - A continuidade deste novo disco em relação ao «Coisas do Arco da Velha», com o «Hoje Há Conquilhas...», pelo meio, terá implicações a nível musical; terá implicações na vossa maneira de fazer as coisas; de compor?
BC - Posso adiantar que vocês vão encontrar neste novo disco uma coisa que se chama «Godofredo cheio de medo» que vai sugerir, embora sendo diferente na linguagem de texto e musical, o «Virgolino faz o pino», ou seja, a descrição de um personagem típico. Vão ter um romance tradicional cantado em Mirandez, que poderá ser o paralelo em relação ao «Romance de Branca Flor», etc....
M - Como vocês sabem a maior parte da crítica e toda a gente que ouviu bem os vossos dois últimos álbuns, fizeram referências ao «Coisas do Arco da Velha» em relação ao «Hoje Há Conquilhas...», como um disco com um som muito mais apreensível, sendo este último um trabalho muito mais amadurecido, de mais difícil assimilação. Este o que é que vai ser?
BC - Digamos que é o retomar do caminho do «Coisas do Arco da Velha» dois anos depois. Não há grandes pormenores de facilidade, mas há um esquema que lembra este nosso álbum. De qualquer forma passaram-se dois anos e as pessoas evoluem.
M - Tu Nuno, continuas a inspirar-te nos tradicionais?
BC - Continuo; se bem que pelo facto de termos pesquisado durante bastante tempo e de termos estudado as nossas características etnográficas, agora começam a surgir temas com essas características populares de forma espontânea. Chegámos portanto a uma altura em que pelo facto de estarmos a pesquisar os instrumentos populares e as próprias melodias as coisas acontecem espontaneamente. Neste álbum acontece uma coisa curiosa. Aparecem canções com música minha e texto baseado ou inspirado em temas tradicionais e da autoria do António Pinho; aparece o inverso e aparecem ainda temas completamente originais mas que têm já um sabor tradicional.


M - Uma constante do vosso trabalho é a pesquisa. Há alguma novidade neste novo álbum por exemplo em relação a instrumentos tradicionais ou formas musicais?
BC - Não. Em relação a instrumentos populares não aparece nada de novo, excepto o bombarda que não é propriamente um instrumento tradicional português mas mais bretão. Mas como há afinidades muito grandes, pelo menos nós temo-las descoberto, entre o nosso folclore e aquilo que se faz na Bretanha e na Galiza, nós vamos usar este instrumento que aliás é muito idêntico à gaita de foles na sua sonoridade. Exceptuando este pormenor não há grandes novidades a nível instrumental no novo álbum da «Banda». Usamos também uma cítara indiana na introdução de um dos temas, porque é uma fábula que se chama «Retrato de homenzinho pequenino com frasco». E não nos repugna nada meter ou utilizar instrumentos de culturas completamente distintas da nossa. Achamos que o importante é a forma como esses instrumentos são utilizados.
M - Será legítimo falar de fases distintas em relação ao trabalho que vocês desenvolveram em disco até agora?
BC - Os trabalhos feitos até agora são completamente distintos uns dos outros. O 1º é-o totalmente do 2º e este do terceiro. Talvez que o próximo álbum seja mais um trabalho de ligação. Os álbuns anteriores foram de pesquisa sonora, de forma de expressão. Este talvez seja o não nos atirarmos para outros voos e comentarmos um pouco mais as descobertas feitas nas etapas anteriores, ou seja nos anteriores álbuns, se bem que se possa considerar que alguns temas de «Hoje Há Conquilhas...», eram do «Hoje Há Conquilhas...», eram temas mais de vanguarda do que aquilo que estamos a fazer agora. Aliás este aspecto poderá vir a tornar-se polémico ou seja, até que ponto é menos na sua escalada! Há um outro aspecto que importa realçar que é o de entretanto terem aparecido outros grupos a tratar a música popular portuguesa. Se não estamos em erro só pouco tempo depois do aparecimento da «Banda» surgiu o GAC e agora existem vários grupos a trabalhar a nossa música tradicional. Havendo já uma série de escolas, de tendências, de trabalhar a música portuguesa, a nós dá-nos um certo prazer continuar a trabalhá-la de maneiras diferentes e descobrir novas formas.
M - Para além dos nomes já indicados há mais gente a colaborar neste novo álbum?
BC - Exactamente. Por exemplo o Armindo Neves (guitarra), o Carlos Zíngaro, o Zé Eduardo que nunca tinha trabalhado connosco e fez baixo-eléctrico, o Rui Reis (piano e órgão) e o Victor Mamede (bateria). E parece que não esquecemos ninguém.
M - E a nível de vocais?
BC - A esse nível não há novidades. É evidente que não houve preocupação de lançar pessoas através da «Banda». Parece que a «Banda» é que tem servido a várias pessoas para se lançarem. Isto não é uma crítica mas apenas uma observação. Neste LP não aparece nenhuma Cândida Branca-Flor ou Gabriela Shaaaf. Utilizámos como coro umas pessoas com quem estamos a trabalhar agora num álbum de música tradicional portuguesa, recolhas totalmente puras. É um grupo que estava ligado à Juventude Musical Portuguesa mas que vai ter um nome próprio e que verá o seu 1º álbum lançado no início do próximo ano.
M - «Benefícios...», «Coisas do...» e «Hoje Há Conquilhas...» são os álbuns editados até agora e que fizeram chegar até ao público o vosso trabalho desenvolvido ao longo de alguns anos, trabalho de pesquisa e tratamento da música tradicional portuguesa. Naturalmente a receptividade desse mesmo público foi diferente de álbum para álbum. Qual terá sido o mais bem aceite?
BC - O segundo foi o que vendeu mais e isso é um indicador. O 1º vendeu pouco, talvez porque foi o 1º. O 2º, talvez por ser o 2º ou pelas suas características, ou ainda por ter passado mais na rádio, foi aquele êxito de vendas. O 3º, por deficiências de promoção, porque já era mais difícil ou mais de vanguarda não foi um grande êxito mas apesar de tudo vendeu-se bem. Pelo menos no nosso entender!
M - Este é o vosso 4º álbum e a vossa 3ª editora. Até que ponto é que este pormenor pode ter tido influência no aspecto criativo dos elementos da «Banda» enquanto músicos? O facto de vocês poderem contar com mais ou com menos da editora não tem qualquer influência no produto final apresentado?
BC - Feito o balanço das editoras por onde passámos e aquela onde estamos, pode-se dizer que temos vindo a subir uma escada nas condições que nos são oferecidas para gravar os discos. De qualquer modo queremos salientar que não tem surgido qualquer tipo de limitação com a mudança de editora, nem essas mudanças nos têm condicionado para um tipo de reportório mais fácil ou mais difícil. Não há condicionantes de qualquer espécie. A única vez que tivemos de mostrar à editora aquilo que se pretendia fazer em disco (o que é perfeitamente natural), e nós numa situação de produtores sentimo-nos na obrigação de exigir isso das pessoas novas que apareçam, foi apresentar uma estrutura, uma maquete daquilo que se iria fazer no primeiro disco. Uma editora não aposta num LP duma coisa nova, sem saber o que é que se vai passar. A partir daí não houve uma editora que nos dissesse «Eu quero ver o que é que se vai fazer». E isto não será uma excepção connosco. Estas mudanças sucedem-se por diversos factores. Até pela mudança da nossa vida. Nós antes éramos «out-siders» da música e em determinada altura assentámos arraiais.
M - Voltando ao vosso novo álbum. Mias algum pormenor de relevo?
BC - Para nós o facto mais importante é que ele é uma súmula do que foi o passado da «Banda do Casaco» no aspecto de conhecimentos. Não demos outro salto para a frente, porque se todos os anos esse salto fosse dado havia qualquer coisa que não estava a funcionar bem. Se é verdade que apareceram vários grupos tratando a música portuguesa, pensamos que ainda não há nenhum que se identifique com a linha seguida pela «Banda». É provável que quando outros grupos começarem a trabalhar, duma maneira mais ou menos idêntica à nossa, a música portuguesa, a «Banda», dê mais um salto em frente.
M - E vocês pensam que isso possa vir a acontecer, a curto ou mesmo a médio prazo? Que apareçam portanto vários grupos tratando a música portuguesa duma forma semelhante à vossa?
BC - Pelo menos até agora, a forma como se tem estado a trabalhar a música portuguesa compreende algumas variantes. Há grupos que estão a fazer a pesquisa e a apresentar os temas da mesma maneira como os foram encontrar. Há grupos que seguem o mesmo esquema, mas ao nível de textos imprimem-lhe um cunho político-partidário. Será uma sequência natural e lógica que se comece a tratar a música popular de várias formas. A este respeito há um aspecto que queria salientar. Como no nosso país não temos um cancioneiro-geral, é muito difícil encontrarmos as fontes. É natural que daqui a dois ou três anos vários grupos estejam a tratar os mesmos temas, precisamente porque não há tantos temas como isso. Desta forma parece-me que estamos a caminhar para um ponto em que haverá tratamentos mais ou menos idênticos.
M - Vamos pensar que apareciam vários grupos tratando a música popular portuguesa. Vocês acreditam que todos esses grupos tinham possibilidade de sobreviver, de se manter a trabalhar a sério, sem o incentivo que é a gravação de um disco, considerada a eternização do trabalho desenvolvido, muitas vezes um trabalho árduo...
BC - ... Desculpa interromper, mas não estou de acordo, até porque os grupos que são conhecidos e que estão a trabalhar a música tradicional estão todos a ser postos em disco. Dá-me a sensação é que se esses grupos não evoluírem na forma de tratar essa música, então poder-se-á cair numa situação de apatia. Não se pode eternamente tratar as coisas ficando pela recolha pura, pondo o acordeão, a guitarra braguesa ou o adufe e mais nada. Há que evoluir dentro disso e essa é a nossa preocupação de facto. É evidente que temos uma canção tratada só com adufes, castanholas, um violoncelo e pouco mais, portanto quase no estado puro, como nós a apreendemos na origem. Achamos é que não se deve ficar por aí criando uma outra sonoridade para se fugir a essa apatia. Nota que nós, encontramos no nosso país os mesmos temas tratados de maneira diferente, de aldeia para aldeia, por vezes bem perto uma da outra. Acontece nestes casos que um tema foi assimilado pela cultura própria duma determinada aldeia duma maneira específica. Se havia naquela aldeia um indivíduo que tocava por exemplo bandolim, esse tema começava a ser interpretado com o bandolim, enquanto noutra aldeia era só cantado e com adufes. Ainda noutra aldeia (a 50 ou 70 km) o mesmo tema podia passar a ter outros instrumentos. Ora nós estamos em Lisboa, estamos no século XX, e temos portanto possibilidades de dispor de determinados instrumentos.
M - Isso é a velha discussão entre os puristas da folk e os modernistas, e sobre a qual se continuará sempre a dizer o mesmo. Uns dizem que sim, outros dizem que não...
BC - ... Resta saber é se às vezes a capa de purista não serve pura e simplesmente para encobrir incapacidades. De facto, muitas vezes, e por aquilo que nos é dado ouvir é essa a conclusão a que chegamos.



M - A existência de vários grupos tratando a música portuguesa pressupõe naturalmente a existência de muitos músicos. Na vossa opinião, existem neste país músicos para garantir o mínimo de qualidade ao trabalho desenvolvido por esses grupos que poderão vir a aparecer?
BC - Aí é que me parece que a situação é mais difícil. Parece-me que haveria músicos mas é preciso uma grande dose de «carolice», de trabalho e de dedicação à música para funcionar como nós funcionamos. Todos nós sabemos que lá fora os intérpretes, os grupos, etc.... não começam em disco mas sim por espectáculos. Cá em Portugal acontece normalmente o contrário. Começa-se pelo disco e raramente se fazem espectáculos. Ora, enquanto não houver condições para se fazerem espectáculos, é difícil surgirem os tais novos valores e por outro lado empurram-se as editoras para o papel ingrato de investirem um pouco às escuras. Parece-nos que para além do pôr o fado ao vivo, ou a balada, ou ainda por exemplo os «cantos livres», as coisas tornam-se mais complicadas. Também será mais ou menos fácil a um grupo coral que cante música tradicional portuguesa e não necessita de grandes meios de amplificação, bastar-se numa sala. No nosso caso, se calhar escolhemos o caminho mais difícil, e temos esse drama que é misturar num palco um violino, uma guitarra acústica, uma guitarra eléctrica, um órgão se necessário, uma bateria em determinada altura, etc. Portanto uma miscelânea de instrumentos acústicos com eléctricos, que exigem requisitos técnicos que custam fortunas.
M - De qualquer modo temos tido a oportunidade de assistir a alguns concertos de rock feito por músicos portugueses...
BC - Isso tem sido verdade nos últimos anos, mas atenção! A maior parte deles angariaram os fundos necessários para comprar a aparelhagem sofisticada que é necessária, muitas vezes indo por essas terras fora tocando em bailes os Cha-Cha-Chas, sambas, tangos e «carnavais», antes de poderem tocar as suas coisas em concertos. A maior parte desses grupos tiveram que passar por uma fase crítica, fazendo muita porcaria, para conseguirem chegar ao ponto em que se encontram neste momento.
M - Vocês pensam que a Televisão e a Rádio poderiam dar uma ajuda nesse aspecto, organizando concertos, mesmo em estúdio, onde fosse possível apresentar os grupos portugueses que existem, ou mesmo novos grupos?
BC - Em relação à Televisão, não sei quais são os seus planos futuros. No entanto parece-me que continua a passar pelas coisas. De facto os magazines são importantes como noticiários, mas depois passa superficialmente pelas coisas. Por exemplo a TV vai filmar os Festivais de Jazz de Cascais. Sim senhor, está no seu direito e na sua obrigação, mas há bons concertos de rock feitos por grupos portugueses e que não são aproveitados, e aí dá-me a sensação que é uma falha da televisão. Em relação à rádio, pois se neste momento tu estivesses a formular um convite para fazer um concerto em estúdio eu diria «Estamos interessados, vamos a isso», mas a médio prazo. Uma vez que estamos nesta situação de não fazer espectáculos, não ensaiamos tanto como ensaiaríamos se estivéssemos a funcionar em pleno ao vivo. Mas parece-me que era um passo importante a dar.
Entrevista conduzida por
João Filipe Barbosa
e Fernando Quinas








Van Der Graaf
O Fim De Um Ciclo

 
Na Universidade de Manchester, em 1967, cinco amigos resolvem formar um grupo - Keith Ellis, Peter Hammill, Hugh Banton, Guy Evans e Chris Judge Smith. Este último, foi quem deu o nome ao grupo mas pouco mais fez, já que passado pouco tempo o abandonaria. E pouco tempo depois, ainda sem terem gravado qualquer trabalho, dava-se a primeira dissolução dos V.D.G.G.
Peter Hammill continuou a trabalhar a solo, intensamente, aparecendo constantemente em pequenos espectáculos, cumprindo alguns compromissos que o grupo efectuara. No final de 1968, P.H., tem já uma proposta elaborada para um álbum, que é aceite. Durante as sessões de gravação, vão aparecendo todos os músicos, à excepção de Smith, que compunham os Van Der Graaf Generator, e que servirá de pretexto para a reformação do grupo. Assim, é editado, ainda em 1968, «Aerosol Grey Machine», primeiro álbum dos Van Der Graaf Generator.
Não passava ainda um ano sobre a data do lançamento do primeiro álbum e já o grupo sofrera novas alterações. Keith Ellis (baixo) abandona o grupo, entrando para o seu lugar Nic Potter. Nessa altura ingressa também um novo membro, Dave Jackson, que vem acrescentar ao grupo novas sonoridades com saxes e flautas. E é com esta formação que são gravados os dois seguintes álbuns, «The Last We Can Do Is Wave To Each Other», e «H to He I'm The Only One».
«H To He...» é um álbum que marca importantes mudanças no som do grupo. Peter Hammill, exímio guitarrista acústico, recusava o som da guitarra eléctrica nos álbuns do grupo. Neste álbum, esse som aparece pela primeira vez, no entanto não pela mão de Hammill mas por um amigo, nessa época um ilustre desconhecido que começava a chamar a atenção, e hoje mais que famoso, Robert Fripp.
Em «Pawn Hearts» Nic Potter já não aparece: - havia abandonado o grupo ainda durante as gravações do álbum anterior. O disco conta com a participação de Fripp nalgumas passagens, como artista convidado - o único na vida do grupo até hoje.


«Pawn Hearts», editado em 1971, marca também o fim do segundo ciclo da vida do Van Der Graaf Generator e o início da carreira a solo de Hammill.
Assim, ainda no decorrer de 1971, é editado «Fools Mate» sob o nome de Peter Hammill, e onde vamos encontrar de novo os V.D.G.G., a tocarem com ele. E é esta situação, com pequenas alterações, que se vai verificar nos quatro álbuns seguintes, «Chameleon In The Shadow Of Night», «The Silent Corner In An Empty Stage», «In Camera» e «Nadir«s Big Chance». *
«Nadir's Big Chance» é o apogeu da sua carreira como solista. É uma sátira Rock ao Rock, através da história de uma fictícia Pop-Star. Este álbum anteced a reestruturação do grupo, que irá produzir três novos trabalhos, com Peter Hammill nas guitarras e voz, Hugh Banton nos teclados, Guy Evans na bateria e percussão e David Jackson no sax e flautas. Este é o único período cujos álbuns são possíveis de se encontrarem no nosso país.
«God Bluff», «Still Life» e «World Record» não são três obras díspares mas formam uma autêntica trilogia, dinâmica e evolutiva. Um período de enorme riqueza criativa de Hammill. Musicalmente, o grupo expande-se para além de fronteiras inimagináveis, tornando-se definitivamente, quanto a mim, no mais extraordinário grupo musical dos nossos dias. Após os climas acústicos, tão ao gosto de Hammill nos primeiros tempos da existência do grupo, os Graaf passam a utilizar os mais sofisticados meios tecnológicos ao seu alcance, utilizados cada vez, maior insistência, dominando-os e manipulando-os de uma forma tão original quanto subtil. Geram climas emocionais intensíssimos, arrazantes. Uma música incrivelmente elaborada, trabalhada e desenvolvida; tão irreal por fora quanto real por dentro; fluxos sonoros que se sucedem numa cadência delirante, deixando-nos perfeitamente extasiados. Por vezes solene e grandiosa, outras, duma simplicidade e pureza notáveis. E Peter Hammill é um poeta, um verdadeiro poeta em toda a acepção da palavra. Místico, gnóstico, biófilo, desencantado, lúcido, angustiosamente lúcido. Crítico feroz, mesmo sarcástico por vezes. Ficcionista. Simbolista. Apaixonado.


Peter Hammill canta com tanta paixão e devoção, como se desse acto dependesse a sua vida. A sua voz, de dicção pura e cristalina, extraordinariamente melodiosa, é trabalhada na perfeição, muitas vezes dobrada em vários tons. Tanto pode expressar júbilo como desespero. Torna-se áspera quando necessário e suave quando lhe é exigido. Um ligeiro sussurro, quase inaudível e calmo, transforma-se num imenso grito de angústia, lancinante e dilacerante. Uma voz cristalina como uma gota de água, vigorosa como a terra, abrasadora como o fogo. Variando entre nuances de enorme beleza, é fascinante a projecção alcançada, sempre com a exacta expressividade.
Em 1977, Jackson e Banton abandonam o grupo, sendo substituídos por Nic Potter, que regressa ao grupo, e pelo violinista, ex-String Driven Thing, Graham Smith. Já com a nova formação grava Peter Hammill novo trabalho a solo, «Over». Um trabalho intimista, que é como uma reflexão, uma breve paragem, a busca de um sentido desaparecido. Um dos mais belos trabalhos de Hammill, tanto no aspecto musical como literário. Infelizmente não foi publicado no nosso país.


Pouco tempo depois grava novo álbum dos Van Der Graaf (agora sem Generator), «The Quiet Zone / The Pleasure Dome», que trás grandes alterações a nível estrutural e sonoro. O regresso de Nic Potter dá uma maior liberdade de movimentos a Guy Evans, impondo simultaneamente uma marcação mais forte e cerrada. Mas a grande novidade sonora é-nos dada através do violino de Graham Smith. O violino é um instrumento de enorme versatilidade, muito mais que o sax, deixando a Hammill uma maior amplitude de escolha de estruturas rítmicas e melódicas. O violino vem tomar um lugar de destaque, quer em solos, quer como suporte de todos os desenvolvimentos e discursos musicais. Os temas ganham uma nova flexibilidade. Dão-se frequentes mudanças rítmicas em cada tema, chegando mesmo por vezes a uma mudança radical do tempo, dando-lhes um novo dinamismo e vigor. A música ganha novos contrastes e uma maior unidade.
Era a entrada do grupo numa nova era. Infelizmente, hoje sabemos que efémera. Os Van Der Graaf desapareceram mais uma vez. Deixam um vazio que ninguém jamais poderá preencher até um novo regresso!?1
Mas Peter Hammill não ficou parado. Na altura em que a notícia do fim do grupo foi dada, acabava de gravar novo álbum-solo «Future Now».
«Future Now», como não podia deixar de ser, é um álbum fabuloso, que se segue a linha (se é que se pode chamar «linha» à evolução constante do grupo por caminhos tão pouco esperados como surpreendentes), iniciada em «Over».
Van Der Graaf, o mais espantoso grupo rock, voltará de novo um dia, quando ninguém esperar. Ficam-nos as obras a solo de Hammill, não menos espantosas. E esperemos que Peter Hammill passe a aparecer regularmente no nosso mercado discográfico. Pode ser que lá pelo Natal, como presente, a Polygram portuguesa edite «Future Now».
Van Der Graaf, patético. A emoção de se estar vivo.

G.T.

* No ano de 1974 a «família» Van Der Graaf Generator publicou um trabalho, que segundo informações que possuo somente foi editado em Itália e cujo título genérico é «The Long Hello». Um álbum totalmente instrumental em que participam David Jackson, Guy Evans, Nic Potter, e Hugh Banton. Curiosamente o próprio Peter Hammill aparece sob o nome de Pietro Messina, executando guitarras acústica e eléctrica e piano. O álbum regista ainda a participação dum tal Ced Curtis. Edição do LP na etiqueta United Artists.




O Rock Português
BEATNICKS



«Musicalíssimo» divulgará em todos os números nomes que constituem o panorama rock português, que por mais que certos detractores queiram evitar, existe mesmo e em força.
Para iniciar esta secção, que incluirá num futuro próximo também entrevistas com músicos rock portugueses, seus problemas e demais assuntos ligados com o movimento rock em Portugal, nada melhor que começar com os Beatnicks, que acabam de ver lançado no mercado discográfico português o seu primeiro trabalho em single, um trabalho bem esquematizado e promissor, que nos alerta para futuros discos e nos dá a consoladora certeza de em Portugal ser possível fazer rock do bom, e sobretudo apoiado por textos em português!
Os Beatnicks são actualmente: Jorge Casanova (guitarra-solo), Luís Araújo (bateria), António Emiliano (teclas), Ramiro Martins (guitarra-baixo) e António «Stratos» Leal (vos), e têm como não poderia deixar de ser uma história para contar: Reuniram-se há cerca de três anos Jorge Casanova e Ramiro Martins (que havia integrado uma formação mais antiga do grupo) e resolveram começar a tocar os dois. O «genesis» aconteceu numa peça de teatro cujo título era «Viagem à Íris».
Entretanto o nome Beatnicks, havia sido escolhido, uma vez que Ramiro tinha tocado nesse mesmo grupo e logicamente isso ajudaria imenso, por ser um nome já conceituado, que disfrutava inclusivamente de certo prestígio no meio musical português. Aliás, Ramiro é neste momento o único «sobrevivente» da formação original.
Sobre as influências que se evidenciam na música praticada pelos Beatnicks, Casanova acha que o grupo tem forçosamente que sofrer certas influências por tudo aquilo que os membros ouvem, porque é praticamente impossível uma pessoa alhear-se de várias coisas, nomeadamente pelo facto de toda a gente ouvir rádio todos os dias!
Sobre aquilo que para certos músicos é extremamente difícil - cantar em português - o grupo tem as suas próprias convicções e é de opinião, que se os habituais ouvintes da sua música são portugueses, a maneira mais eficaz e correcta de se expressarem será em língua portuguesa! O grupo afirma mesmo: - «As pessoas em Portugal tem a mania de que aqui nunca nada é bom, lá fora é que é! Mas nós, não pensamos do mesmo modo: - temos uma língua própria, devemos cantar nessa língua, até porque assim é muito mais fácil fazê-las sentir o que queremos dizer!». Todavia o grupo faz questão de frizar que este sentir, é apenas uma opção do grupo, e não uma dificuldade de «fabricar» as letras em inglês.
O responsável pelas líricas dos Beatnicks é Jorge Casanova; a música vem na continuação. Quando um trecho tem letra, o que nem sempre acontece, ou quando acontece ter só música, ou até ter só voz, Jorge Casanova faz o que falta, completando posteriormente o grupo os arranjos, que são feitos em conjunto.
Para já os Beatnicks ensaiam numa sala instalada num andar, em relação ao qual o senhorio impôs terminantes condições: - só poderiam ensaiar ali, se conseguissem isolar acusticamente o local. O isolamento foi feito - até porque se isso não se verificasse o grupo ficava de repente sem sítio para poder ensaiar-se - e assim, pouco a pouco, nasceu o estúdio onde o quinteto ensaia hoje em dia, produzindo rock, que a avaliar pela amostra contida no trabalho discográfico de lançamento - «Somos o Mar» e «Jardim Terra» - é do melhor que se tem feito no nosso País até ao momento, apoiado sobretudo nas potencialidades vocais de Tó «Stratos», a grande revelação do conhecido Musical Açores de 1977!
«Musicalíssimo» cá fica à espera de novos trabalhos e notícias dos Beatnicks, e de outros grupos rock portugueses claro!
J.A.C.


Outro conteúdo interessante, eventualmente a divulgar posteriormente:
. Dossier sobre os Genesis
--> GENESIS - «...Ant Then There Were Three...» - Entrevista (10 pgs.), por J. Afonso Costa
--> Keith Moon - baterista dos WHO - Morreu Uma Estrela Do Rock (artigo de 3 pgs.), por J.A.C.
--> O 8º Festival de Jazz de Cascais - reportagem de 3 pgs., por Fernando Quinas
--> Colosseum II - Artigo/Reportagem do Concerto de Lisboa (3 pgs.), por J. Afonso Costa
--> Uma Boite - Scarllaty
--> Novidade - Discos
Blondie - «Plastic Letters», por G.T.
Squeeze - «Squeeze», por G.T.
Stranglers - «Black And White», por G.T.
Moody Blues - «Octave», por JAC
Brand X - «Livestock», por JAC
Sparks - «Introducing Sparks», por JAC
Renaissance - «A Song For All Seasons», por JAC





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