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3.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (126) - Música & Som #71


Música & Som
Nº 71
Março de 1982
Publicação Mensal
Esc. 80$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.

A Renovação da Música Popular Portuguesa (II), por António Candeias

O Rock Em Portugal

Penetrando na espiral de confusões, em que nos encontramos, estaremos nós a tentar separar coisa difíceis de separar, ou juntar coisas impossíveis de juntar?
Talvez a ideia que nós quiséssemos sublinhar e deixar bem claro, é que uma sociedade não pode existir como uma junção de bocados, estilos, culturas e ideias estanques entre si, sendo um dos aspectos mais importantes que definem a flexibilidade, maleabilidade e riqueza desta sociedade de que tanto se fala, o grau de permeabilidade e troca existente entre os diversos componentes que a definem.
A rotura entre determinados tipos de fenómenos sociais, culturais e políticos no seio de uma sociedade, existe e é por vezes, historicamente necessária.
Sem negar a especificidade, por exemplo, de um tipo de cultura, especificidade essa que se prende, entre outros aspectos e variáveis sociais etnológicas e de meio, será também necessário evidenciar o papel de combate político que a palavra «cultura» tem subjacente.
Esse papel é intensificado em tempos históricos determinados, em tempos históricos em que a palavra se vira para uma acção de combate, uma acção quase pedagógica, palavra extremamente dúbia e perigosa neste contexto. Mas é preciso compreender que fora destas alturas uma acção de combate cultural directa e imediatista, corre frequentemente o risco de se esvaziar em estereótipos que pouco t~em a ver com a realidade do dia-a-dia, num quotidiano em que a revolução imediata deixa de ter sentido, numa época em que a pausa e o questionamento crítico de um passado recente são tão necessários, como a tentativa de compreensão, de novos fenómenos sociais que crescem numa desordem para nós aparente e caótica.
Novas coisas, não previstas, tidas como ridiculamente proféticas e desprovidas, portanto, de um mínimo de credibilidade, acontecem e desabrocham rompendo tecidos e malhas de ideias ideológicas e esquemas, que, estafadamente, com a língua de fora tentam desesperadamente, integrá-las e assimilá-las, para talvez melhor as destruir.
Só que a realidade não é facilmente passível de ser destruída pelas ideias ao passo que o contrário talvez seja mais fácil, óbvio e necessário.
As pessoas que tinham dezoito anos no 25 de Abril, têm hoje 26, as pessoas que tinham 18 anos no Maio de 68 têm hoje 32 e as pessoas que hoje têm dezoito anos tinham 4 no Maio de 68 e 10 no 25 de Abril. Brinquemos! Brinquemos com números, datas, somas multiplicações e subtracções. Dividamos tudo isto por 0 (zero) e teremos um resultado inexistente e impossível.
0 (zero) foi o que muitos de nós tivemos mas sobretudo o que muitos de vós desta nossa querida terra tiveram, ao verem a Primavera de 68 por um binóculo censurado, ao som vago e distante do «Blonde on Blonde» e do «Sgt. Pepers Lonely Heart Club Band», tudo isto misturado com o ruído fragoso duma cadeira partida que determinou o começo do fim da pré-história das cerejas e das Cerejeiras.
Mas as palavras vêem, e a confusão parece instalar-se num artigo que tenta falar de música, e, que existe numa revista de divulgação musical. Sim, porque, que histórias são essas, de permeabilidade social, cultura de combate, roturas, torturas, números, idades, subtracções, divisões e cerejas?
É que isto é música! (É de mais!). Quer dizer, não é bem música, mas são coisas que aconteceram a muitas pessoas que fizeram, fazem, ouviram e ouvem música.
Questões como permeabilidade, troca, cultura e outras quejandas, podem começara a ser percebidas neste contexto, de uma forma muito simples. Por exemplo, através de uma conversa amena que fomos ouvindo, durante um não menos ameno jantar, em que havia músicos, críticos, amigos e outras coisas do género. Nesse jantar, às tantas o vocalista e compositor de um dos melhores grupos de Rock em Portugal, dizia o seguinte: «... Os músicos de rock, são os músicos que, hoje, em Portugal, ouvem mais tipos de música diferentes. Ouço os Telephone, os Clash, os Rolling Stones, a Brigada Victor Jara, os Trovante, o Sérgio Godinho; Zeca Afonso, Fausto, etc... Duvido muito que eles nos ouçam a nós...»
Pois é! É mesmo provável que os «outros» os não ouçam a eles! É mesmo provável que as pessoas que na década de 60-70, mais contribuíram para a renovação da música popular portuguesa, não ouçam alguns dos mais importantes compositores e eles próprios renovadores, da música portuguesa contemporânea, actual, de HOJE.
Mas como chamar música portuguesa a essa música que adopta a estrutura da música rock, estrutura essa, que como é óbvio, pouco tem a ver com a música portuguesa TRADICIONAL?
Bom, tenhamos um pouco de calma e sejamos realistas! Esta música que nos vem dos anglo-saxões lá de cima e dos seus descendentes e ex-escravos do lado de lá do Atlântico, é um tipo de música que existe em Portugal há já muitos anos, e que por cá deixou qualquer coisa, talvez não tanto como os romanos, mas... ainda assim, ficou cá qualquer coisa.
Talvez de uma forma algo confusa, que teve a ver com sentimentos ambíguos de identificação a uma realidade imaginada de liberdade e criação que se misturava a uma recusa difusa de ver e agir sobre o que à nossa volta se passava.
Quase que em determinada altura, em que o sectarismo cego face a outras formas musicais, era bem patente em muita gente, quase diríamos nós, que se poderia falar de uma subserviência colonial face ao que vinha cantando em língua inglesa.
Era, talvez, qualquer coisa do género da actual subserviência face àquela manta de retalhos em crise que insiste em chamar-se Comunidade Económica Europeia (C.E.E.).
Era tudo muito estranho e parecia existir em sonhos, visto que nessas produções se falavam de problemas que no nosso caso, aqui em Portugal, só poderiam existir ao nível do imaginário. Mas talvez o desejo de que existissem fosse tão grande, que valesse a pena alucinar. E creio que, a princípio, tratava-se de facto de uma alucinação, de uma miragem, de qualquer coisa bela e longínqua, de uma verdadeira e patológica alucinação. A princípio!
E talvez porque a alucinação e o imaginário são de facto necessários, o facto é que a música que era associada a essas alucinações, foi por cá ficando, continuando quase sempre, no entanto, a vir-nos de fora.
Os grupos de rock, vegetavam entre os concertos de finalistas onde tentavam reproduzir os «Rolling Stones» com fracos e patéticos resultados, mergulhados num amadorismo hesitante, com algumas pretensões a algo mais, sem no entanto se perceber bem em que é que consistia esse algo mais.
Que se passou para que isso se modificasse?
É difícil hoje, analisar esta questão sem nos arriscarmos a limitar e a deturpar os fenómenos sociais, que, na nossa opinião contribuíram para que esta situação se alterasse.
Apontemos, como pistas possíveis de trabalho, três tipos de questões a ter em conta, e que aparecem amplamente ligadas entre si.
A falência a nível de propostas políticas, sociais e culturais da esquerda portuguesa do 25 de Abril, que não soube dar vazão à generosidade e entusiasmo que a juventude lhe cedeu, o que acabou por se traduzir, entre outras coisas, pelo aparecimento em força do rock, apoiado na chuva de concertos de grupos estrangeiros. Lembremo-nos da avalanche de concertos dos anos 77/78/79, e os autênticos fenómenos de massas, que a nível da juventude, se deram, face a esses mesmos concertos.
A par de programas de Rádio (o «Rotação» da R.R., o «Soltem o Rock» e, mais tarde, o «Rock em Stock») cuja audiência e qualidade constituíram verdadeiras inovações, esses concertos, que deram á juventude portuguesa a sensação de que, finalmente, esse fenómeno que nos anos 60 se passava lá longe, lhes estava agora à mão de semear, foram extremamente importantes para que o rock, a nível musical e fenomenológico, fosse introjectado, adaptando-se a uma vivência extremamente problemática que «encaixava» perfeitamente com a violência das atitudes e sons que caracterizavam tal tipo de música.
E aqui, entramos no segundo aspecto que consideramos essencial para a compreensão desse fenómeno que foi a «instalação» do Rock em Portugal.
Do ponto de vista da evolução de uma estrutura social, um dos problemas mais graves que se põe, é a irrupção de um processo revolucionário que não consegue levar até ao fim a sua própria lógica e programa. Sem entrarmos em conta com apreciações sobre o próprio conteúdo desse programa, o facto, em si, de uma revolução inacabada, revela-se quase sempre catastrófico, face àqueles que não puderam acompanhar o aparecimento e evolução de tal fenómeno.
Ao ir suficientemente longe para destruir uma parte importante das estruturas do «Antigo Regime», faltando-lhe, no entanto, o «fôlego», a razão ou a força, para a construção do seu próprio programa, um processo deste tipo, acaba por dar origem a um vazio e a um impasse que se traduz a nível institucional, por uma confusão totalmente falha de coerência, cujas primeiras vítimas são precisamente as gerações que não puderam acompanhar, e portanto compreender a «Revolução».
E, uma das primeiras instituições a sentir o peso das ambiguidades e confusões que advêm deste tipo de situações, é sem dúvida a escola. A escola onde se encontra a maior parte da juventude deste País.
A escola deixa de ter saída para a Universidade, em que pouco se tocou, e o desemprego acentua-se, atingindo sobretudo os que ainda não estão a trabalhar, nem têm habilitações para ocupar cargos médios e superiores da estrutura social de um País.
Suportados financeiramente por famílias, que organizaram o seu pecúlio nos finais da década Marcelista e que com a revolução vêem o seu poder económico momentaneamente acrescido, esses jovens subsistem, com um vazio de perspectivas, mas com a necessidade de preencherem o seu futuro seja de que forma fôr, e quanto mais fácil e imediato, melhor: é aquilo que poderemos chamar necessidade de um escape, que a função, de início alienante, do rock, veio preencher.
De qualquer forma, como oposição a uma situação globalmente difícil e hostil, o jovem afirma-se filiando-se numa corrente de «atitudes» de contestação global, e por isso mesmo, de início, vaga, em que a identificação com os seus «pares» toma um papel de importância decisiva.
Essa identificação processa-se de diversas formas, tais como o tipo de indumentária adaptada, e, neste caso específico, a música que se ouve e que se discute. E essa música como atrás foi dito, adapta-se perfeitamente à vivência quotidiana da juventude dos nossos dias, e é por isso que ela a escolhe e integra. E uma das razões porque ela é escolhida, é pelo aspecto que ela toma, um aspecto de combate e luta que se traduz nas atitudes dos seus intérpretes e na violência mesmo a nível sonoro e de estrutura que a caracteriza. É portanto o começo de uma música de protesto. O começo, dizíamos nós. Porque, aqui vem o 3º componente de que atrás falávamos: as palavras.
Quando o Rui Veloso, autor que se considera apolítico, publica o seu primeiro álbum, onde retrata irónica mas «acidamente» o «freak da cantareira» e a «menina do shoping» e produz modelos de identificação, modelos esses que se caracterizam pela ambiguidade de sentimentos como o carinho implícito pelo «freak», e a descrição algo dura da «menina do shoping», ele produz uma revolução político-musical importante a nível de quem o ouve: As palavras são acessíveis, quanto mais não seja porque escritas em português, o texto tem uma certa qualidade, a realidade descrita nesses textos é uma realidade do quotidiano, e esses textos, quer o autor queira ou não, são tudo menos passivos.
Trata-se aqui, na nossa opinião, do primeiro passo para a construção de textos de combates, num combate que toma formas diferentes de combate tradicional, antigo e estafado, e que, por isso mesmo, se torna mais eficaz e importante.
E ao mesmo tempo que o Rui Veloso era ouvido na rádio, os UHF, insistindo na sua longa caminhada pelas estradas deste país, popularizavam esses históricos «Cavalos de Corrida», texto mais combativo e ácido, que se encaixava num grupo que se queria marginal, marginal face a tudo menos aos jovens que os ouviam; formavam-se os Salada de Frutas, e temas como o «Chui de Choque» e «Robot» eram assimilados e ouvidos por toda essa gente que queria ter entrada nos concertos de Cascais e que tinha levado com um chui de choque em cima para lhe mostrar que o rock também é político. Político, no sentido em que a juventude assusta e atemoriza os guardiões do Dogma (seja ele qual for) que não hesitam em lhe atirar com os seus cães de guarda para cima.
E os grupos formam-se, os textos desenham-se e a música rock, que nos anos 70, nada mais parecia senão um escape, vai-e de facto definindo como uma música de combate, dum novo, irónico e ácido combate que não perdoa instituições e guardiões das nossas queridas ideias e morais: os GNR aparecem, cáusticos, cínicos, com textos corrosivos, e a Guarda tenta boicotar-lhes os concertos. Tudo incomoda neste novo tipo de músicos: as atitudes provocatórias, a adesão que mostra que eles não estão sózinhos, a música algo violenta e que sempre provocou arrepios de cólera mal disfarçada por parte das cabeças bem pensantes que há muito que deixaram de pensar, e esses textos que não perdoam aquilo que nós sempre detestámos, e que melhor que nós, eles sabem denunciar, despir e ridicularizar.
Os G.N.R. atiram com o mito da C.E.E. para a lama, e deitam a língua de fora aos bonés salazaristas dos Guardas; os «Street Kids» fazem um realíssimo e desdenhoso manguito à tropa, e assim vai a música rock em Portugal, em gincanas bem humoradas e destrutivas, entre os escolhos das instituições, e os urros coléricos dos bastões da felicidade cobertos de flores sangrentas e podres dos que os empunham e impunemente os usam nas costas de quem não é (nem quer ser) como eles.
Portanto, claramente, e como é ÓBVIO, o chamado rock português, não é português visto que os seus textos se referem a países tal como o Burundi, Camarões, Filipinas e Madagáscar; é uma música alienante e reaccionária que tem como modelo o «Horst Wessel», o hino da Falange e canta loas ao Pinochet, ao Staline e aos outros todos; trata-se finalmente de uma importação do estrangeiro, tal como os Romanos, Cartagineses, Celtas e Árabes, que, como todos sabemos, nunca por cá estiveram, nem deixaram o que quer que seja em termos de produções e influências culturais e linguísticas; além do mais como ninguém ouvia rock cá em Portugal, antes destes estrangeirados pagos pela C.I.A. cá apareceram, torna-se óbvio que temos que recuar às músicas tocadas por Viriato e o seu alegre grupo e que para cúmulo e desgraça do nosso amor patriótico, está OH DESGRAÇA! sepultado em Espanha!
Portanto, e para acabar, resumamos e concluamos:
a) O «Rock» português, existe, é português, e é popular.
b) Nasce de uma série de influências musicais de origem anglo-saxona e os seus textos têm referências e ligações com a canção de protesto, de origem universal.
c) É um óptimo revelador social de uma parte viva e importante da população portuguesa: a juventude.
d) É uma das formas musicais mais actuantes, e renovadoras desse todo dividido em partes, que poderemos chamar de Música Popular Portuguesa.
Se este tipo de coisas o interessam, não perca, portanto a próxima provocação sobre a mundialmente famosa M.P.P.


Entrevista, por Pedro Ferreira
Raincoats
«A Música também Pode Provocar»




Encontrámo-las na casa do João, ali para o Bairro Alto. Na altura em que entrei na sala, deliciavam-se a ver os retratos que a Cristina tinha feito delas e da sua comitiva: a lápis de cera, traço incisivo e contínuo, cores fortes, contrastantes, colocadas sobre o branco do papel pelo seu puro valor visual. Uma sensibilidade despojada, sem terceira dimensão, mais sugestiva que descritiva. Uma actividade prolífica, a julgar pelo número de desenhos incluídos no bloco. Um talento imprevisto: estamos sempre a aprender.
A entrevista era o passatempo seguinte: Eu era «o banqueiro» deste monopólio desigual. À espera que eu distribuísse as primeiras cartas, a Shirley, a Vicky, a Ana e a Gina endireitavam-se nas cadeiras, desafiando-me.
- «Estamos prontas», avisavam. Eu só queria conversar. Que tal se começássemos pelos concertos havidos no Porto, Coimbra e na Festa da «Música & Som»?
- «No Porto foi melhor, havia um público misturado; em Coimbra eram só rapazes novos. Mas foi bom - batiam palmas ao mesmo tempo, é a maneira portuguesa de participar.»
É o pouco que sabemos fazer - bater palmas. Mas não acho que seja a melhor maneira de sentir a música das Raincoats. Terão elas a consciência das limitações do público na apreensão da sua mensagem?
- «A nossa música pode ser acessível, mas não é exigível que as pessoas gostem dela à primeira. Leva o seu tempo. Não temos uma atitude vanguardista, nem a nossa música é de vanguarda. Mas também não deixamos de seguir o nosso caminho, só para nos conformarmos aos cânones vigentes. Aliás, a reacção do público depende do contexto que acompanha a música, não depende só da música. E a música pode comunicar a vários níveis, não é necessário apreendê-la a um nível predominantemente intelectual, e por isso não pensamos que o nosso público seja necessariamente intelectual; o público tem diferentes maneiras de gozar o que fazemos. Mas, sem deixar de ser acessível, a música pode também ser provocante.»
Música provocante, sem deixar de ser acessível; uma música que provoca, também, reacções negativas de profissionais da música. O que têm elas a dizer da acusação de incompetência instrumental e musical?
- «Essa crítica provém de uma atitude académica e não democrática de abordar a música, porque pressupõe a necessidade de especialização, a primazia da técnica, a restrição da competência criativa. Para nós, o principal é comunicar o que se tem para comunicar, e isto tanto pode ser feito com uma técnica primitiva, como não.»
Mas talvez esta posição tenha telhados de vidro: elas sabem, ao menos, o que se entende por técnica e por formação musicais?
Sabem, já que Vicky é música profissional. A questão é outra: como transcender a aprendizagem dos clichés? Como fazer a música servir a criação? Como emancipar a técnica? Eu confesso-me perdido nesse labirinto de tradições, lacunas, (de)formações, urgências interiores, sedes de integração, ideias de som, dúvidas quanto ao sentido, a História e a Razão, a Vida e a Paixão, o caminhar e o ser, Monteverdi e a Mãe. ESTAR EM GRUPO: qual a importância do encontro na música das Raincoats? Sozinhas, teriam chegado aonde chegaram? Não teriam sido dominadas pela música institucional? Não teriam deixado de descobrir a Arte?
Vicky - «A Ana e a Gina aprenderam música a tocar no grupo, abordaram-na do lado dos sons e dos sentimentos, não passaram pela técnica - por isso, no seu caso, só podemos especular. Mas no meu, sucedeu o contrário: tive de aprender a não tocar demasiado. Este grupo tornou-o possível - já tinha tocado noutros grupos antes, e não tinha achado a maneira de me emancipar.»
Então há uma diferença entre este e os outros grupos. Talvez as Raincoats não sejam só um grupo de música...
- «Temos uma maneira unificada de trabalhar, mas que vai para além da música. Temos uma visão geral das coisas que é comum; é assim uma espécie de humanismo, que cada um de nós sente politicamente de forma diferente. Temos um horizonte e uma comum necessidade de trabalhar nessa direcção.»
Mas isso será assim tão simples? Em Portugal, depois do 25 de Abril, todo o peso da tradição cristã se fez sentir na maneira como as pessoas se deixavam, ou não, interagir: exigiu-se um ponto de referência estável - uma ideologia política, um Bíblia, um ideal de relacionamento humano, um ideal de alimentação - e, com o julgamento / reunião / autocrítica / revisão-de-vida assim fundado, explorou-se ao máximo a polaridade dever-culpa, em detrimento da natural assimetria, da natural não universalidade, das formas de relacionamento colectivo. Um grupo eras, assim, submetido a um esquema simplificador, pretensamente alternativo, desejavelmente multiplicável, concorrente do núcleo familiar, mas assumindo, ao contrário deste, uma autoridade abstracta, facilmente corporizável em directivas de aparelho.
Foram comunidades de base, foram células de partido, foram cooperativas, foram agregados informais.
Podiam ter sido grupos de rock.
Em Inglaterra não houve tanta urgência. Mas pululam ideologias. Como tem sido convosco?
- «A atitude é não ter UMA atitude. Temos códigos de valores pessoais, não um código de grupo. Não conversamos entre nós para satisfazer uma qualquer exigência moral exterior, fazêmo-lo voluntariamente, como parte do nosso processo. E não achamos que as coisas se devam conformar a um qualquer ideal apriorístico. Temos até consciência dos riscos que envolve querer romper, a todo o custo, com os habituais modelos de comportamento, com a família; há gente que anda perdida, confusa, e acaba por criar famílias alternativas, por sentir a falta da afecção e protecção familiares. O equilíbrio entre o individual e o social é difícil de conseguir.»
Esta ausência de PRECONCEITO estende-se também, à música: pode aprender-se com toda a gente, não é preciso, nem desejável cingir-se a uma só forma de música. Mas há Pré-conceito, e Pré-visão. Haverá total coincidência entre intenção e resultado musicais? Não existirão limites à vossa capacidade criativa, motivada precisamente pela dependência entre imaginação e concretização, entre intenção e técnica? Ou esta dificuldade não se faz sentir?
VICKY - Sim, eu sinto-a.
GINA - Eu não.
ANA (aceitando o jogo) - De vez em quando.
VICKY - Mas eu sinto que o que fazemos podia ser melhor, podia...
ANA - Não se pode isolar o resultado do processo de fazer as coisas. Eu não me sinto frustrada pelo que faço no grupo, sinto o processo não como uma limitação, mas como um estádio.
GINA - Mesmo que quisesse não conseguia imaginar um LP antes de ter começado a fazê-lo.
VICKY - Eu também não, mas mesmo assim há um fosso entre intenção e resultado... Sinto-me continuamente frustrada...
SHIRLEY, ANA e GINA, em coro - OOOHHH, coitadinha!
VICKY - É como numa conversa: nunca tenho uma conversa em que não sinta que podia ter comunicado melhor.
GINA - Precisamente, eu sinto isso na conversa, mas não na música.
VICKY - É verdade que se não procurássemos realizar uma ideia, as coisas não aconteceriam... mas podiam acontecer mais satisfatoriamente.
ANA - Mas eu não sinto isso como frustração: acho é que da próxima vez será melhor ainda.
M&S - Posso sugerir que a Vicky sente isso, e vocês outras não, porque tem treino musical? Como assimilou mais profundamente a linguagem musical, pode mais facilmente pensar a música, pode mais facilmente tencionar a música, porque a intenção é a projecção de uma possibilidade concreta dada pela linguagem. Talvez o que provoque o sentimento de Vicky seja a sua maior consciência do lugar que deviam ocupar, no sistema da linguagem musical utilizada, os acontecimentos sonoros a que vocês dão origem no vosso trabalho.
VICKY - Pode ser. Pode Ser. Mas também sou eu.
ANA - Não fiques deprimida. Qualquer dia aprendes. A gente ensina-te!



Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. Barbaridades, Paixões e Ovnis, artigo de Célia Pedroso sobre os "The Passions"
. Discos em Análise:
.. Júlio Pereira - «Cavaquinho» [Diapasão DIAP 20001], por Carlos Marinho Falcão
. Siouxsie & The Banshees - «Juju» [Polydor 2383 610], por Ana Rocha
. Yes - «Yesshows» [Atlantic 60142], por José Ângelo Guerreiro
...&Som
. Princípios Dos Microfones
.. Microfone de carvão
.. Microfone electrodinâmico ou de bobina móvel
.. Microfone de fita ou de velocidade
.. Microfone piezoeléctrico ou de cristal
.. Microfone electrostático ou de condensador
.. Microfone de electreto





28.8.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (122) - Música & Som #56


Música & Som
Nº 56
Julho / Agosto de 1980

Publicação Mensal
Esc. 70$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, António Pedro Ferreira, Bernardo de Brito e Cunha, Fernando Peres Rodrigues, Henrique Amoroso, Hermínio Duarte-Ramos, João David Nunes, João Gobern, João de Menezes Ferreira, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Paulo Norberto, Pedro Ferreira, Pedro Cristina de Freitas, Raul Bernardo, Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Jorge Cortesão e Ray Bonici

Tiragem 15 000 exemplares
68 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.




Genesis
Disco a Disco

artigo por Nuno Infante do Carmo


Uma capa negra avara em informações. Apenas um título no canto superior esquerdo: «From Genesis To Revelation» (Decca SKL 4990). No interior treze temas encadeados, com a assinatura de Genesis e produzidos pelo mentor Jonathan King. Um certo classicismo à la Moody Blues, aqui e ali toques de natureza psicadélica e, num ou noutro ponto, pinceladas rock. Um álbum que, timidamente, expressava já algumas características do som-Genesis nomeadamente na abordagem de Banks às teclas, nas teias envolventes urdidas pelas 12 cordas e na vigorosa presença vocal de Gabriel (of. «In The Wilderness»). Dentre os temas destaca-se «Fireside Song» que, com um tratamento conveniente, ainda hoje poderia fazer carreira.



Um ano depois os Genesis voltaram bem diferentes. «Trespass» (Charisma 9103 10z) é, em boa verdade, o primeiro álbum dos Genesis que hoje em dia conhecemos. A evolução foi enorme. O amadurecimento do grupo é visível a todos os níveis em qualquer dos seis temas. A tendência geral é de calmaria - à excepção do esgalhado «The Knife» - mas, de um modo geral, os temas são vivos, podendo dirigir-se, por fracturas abruptas ou gradações sucessivas, a áreas de clima completamente diferentes do inicial.
«Nursery Crime» (Charisma 9103 100) marca nova evolução na discografia do grupo, no sentido de um maior refinamento técnico-instrumental (a chegada de Phil Collins e Steve Hackett, músicos mais experientes que os seus antecessores, vem possibilitar o emprego de estruturas mais complexas) e lírico (os textos entram no campo da fantasia humorada, das fábulas surreais e do grotesco; por outro lado, algumas canções - «Musical Box», «Harold The Barrel» e «Fountain of Salmacis» - são escritas para várias personagens o que permite uma teatralização da música).
A primeira obra-prima do Genesis surgiu em 1972. Chamava-se «Foxtrot» (Charisma 6369 922) e aí vinham desenvolvidas de uma forma brilhante as opções encetadas nos álbuns anteriores - o rock teatral, a imaginação delirante dos textos, os cuidados e complexos arranjos instrumentais. «Supper's Ready», que cobre quase toda a face dois, fica como um dos temas fortes da rock-music onda progressiva.
«Genesis Live» (Charisma 6369 304), publicado contra a vontade dos membros do grupo, devido à fraca qualidade dos registos, trazia versões de «Watcher of the Skies», «Get'em Out By Friday», «The Return of the Giant Hogweed», «Musical Box» e «The Knife».



Ainda de 1973 «Selling England By The Pound» (Charisma 6369 944) que viria a fornecer ao grupo o seu primeiro hit-single através de «I Know What I Like». Álbum sem o mesmo vigor de textos ou espontaneidade de «Foxtrot», este «Selling England...» constitui-se todavia como uma das peças de maior beleza da discografia do Genesis, tal a profusão de climas delicados nele circulantes. Na faixa «More Fool Me» Peter Gabriel cede, pela primeira vez, o papel de vocalista principal a Phil Collins.
E enfim, em 1974, a obra maior do Genesis - o duplo «Lamb Lies Down On Broadway» (Charisma 6641 226). Trata-se de um concept-album sofisticado, intenso, variado e vertiginoso. Os textos são de Peter Gabriel que é, de resto, a personalidade dominante ao longo de toda a obra (e este facto teria certamente a ver com o seu posterior abandono, colocado que foi em oposição (e minoria) relativamente aos restantes elementos do grupo, mais interessados numa via musical na linha de «Selling England...»). Em «Lamb Lies...» participa Brian Eno realizando enossificações.
Aguardado com expectativa «A Trick of The Tail» (Charisma 6369 974) veio a cotar-se como o álbum do grupo mais vendido tanto na Europa quanto nos States. Phil Collins revela-se um bom vocalista, com marcas evidentes do estilo de Gabriel. Os textos são simples. Um álbum despreocupado que não constitui propriamente o começo de um novo ciclo mas sim uma transição.
«Wind and Wuthering» (Charisma 9103 114) é uma obra delicada e inofensiva. Complexo, perfeito, rebuscado, este álbum acumula clichés do próprio grupo.
Em 1977 apareceu o segundo live da carreira do Genesis: «Seconds Out» (Charisma 9199 263/64) que desforra a fraca qualidade do anterior trabalho ao vivo.
Após a partida de Hackett ficaram três: «... And Then There Were Three» (Charisma 9103 121). Um álbum com canções concisas de um Genesis ainda e sempre brilhante mas já sem aquela mágica capaz de espantar o ouvinte de álbum para álbum, tal como acontecera até «Lamb Lies...»

Genesis
Ano a Ano



 1966 - The Garden Wal e Anon, dois grupos rivais da Charterhouse Public School fundem-se numa banda única. A nova formação integra dois ex-The Garden Wall - o jovem cantor/baterista Peter Gabriel (nascido no Surrey a 13/2/50) - e dois ex-Anon - os guitarristas / compositores Anthony Phillps (nascido em 1952) e Michael Rutherford (nascido no Surrey e 2/10/50).
- O Quarteto inicia a gravação de uma demo tape com uma longa peça de 45 minutos, intitulada «The Movement». (Nunca publicada posteriormente em álbum).
1967 - P. Gabriel põe de parte a bateria que, durante os seis primeiros meses do ano, passou a ser assegurada por Chris Stewart.
- Depois de várias tentativas falhadas em busca de editora, são notados pelo cantor/produtor Jonathan King que, após audição de «The Movement», lhes arranja contrato com a Decca.
- Entretanto todos abandonam Charterhouse: Tony ingressa na Sussex University, Michael na de Edimburgo, Peter aqui e ali e m cursos de flauta e oboé.
- Dezembro - É registado um primeiro single com os temas «Silent Sun» e «That´s Me».
- Jonathan King sugere Genesis para designação do grupo.
1968 - Fevereiro - publicação do single, que não faz qualquer sucesso.
- Chris Stewart abandona e é substituído por John Silver.
- A meio do ano, reunião para registo de um segundo 45 rotações - «A Winter's Tale» / «One Eyed Hound» - que também não faz carreira.
- No final do ano, início da gravação de um elepê ainda e sempre produzido pelo mentor J. King.
1969 - Março - Saída, praticamente despercebida, de «From Genesis To Revelation».
- J. King desinteressa-se do grupo e dele se desliga. Idem com a Decca.
- Genesis passa a ser banda «em tempo inteiro». À excepção de John Silver, todos abandonam os estudos. Silver vai frequentar uma Universidade norte-americana e é substituído por John Mayhew.
- Os cinco membros do grupo passam a viver comunitariamente numa casa de campo. Aí repetem continuamente e preparam um espectáculo.
- Novembro - Primeira apresentação pública, na Brunel University de Uxbridge, logo seguida de uma torunée de seis meses pela Grã-Bretanha.
- Guy Stevens, produtor de Mott The Hoople, e os Moody Blues (para a sua nova etiqueta Threshold) mostram-se interessados na contratação do grupo mas nada se concretiza.
1970 - Janeiro - Tony Stratton-Smith contrata Genesis para a recém-formada Charisma.
- Julho - Entrada em estúdio (Trident) para gravação de um segundo elepê.
- Setembro - Publicação de «Trespass».
- Setembro - Abandono de A. Phillips. «Em 69/70 eu senti que já não tinha liberdade de criar integrado no Genesis e preferi partir porque não me dava nenhum gozo estar no grupo. Neste tipo de banda temos sempre que ceder um pouco para manter o equilíbrio com os outros. Mas é muito difícil. Eu estava contente com os resultados que obtínhamos mas sentia que não estava a fazer aquilo que queria. O primeiro ano de tournée foi para mim uma coisa terrível. Na altura eu tinha 17 anos. E parti.(A. Phillips à «Best»)».
- Pouco tempo decorrido abandona Mayhew.
- Dezembro - «Tony Stratton-Smith procura um baterista sensível a música acústica e um guitarrista solista que também tenha prática nas 12 cordas?». Este anúncio no Melody Maker fez aparecer o baterista londrino Phil Collins (nascido a 30/1/51), ex-Flaming Youth.
1971 - Privado de guitarrista o grupo trabalha durante quatro meses em quarteto. Nesse período compõe novos temas, entre os quais «Musical Box».
- Março - Novo anúncio no MM faz aparecer o guitarrista Steve Hackett (nascido em Londres a 12/2/50).
- A nova formação é rodada numa série de concertos britânicos.
- Julho - Gravação de novo álbum nos Trident Studios de Londres.
- Setembro - Sai «Nursery Crime».
1972 - Junho - Primeiras actuações fora da Grã-Bretanha, integrados numa tournée promocional da Charisma que também incluía Van Der Graaf Generator e Lindisfarne.
- Julho - De novo em estúdio. Desta feita nos Island Studios.
- Setembro - Tournée britânica.
- Outubro - Publicação de «Foxtrot», bem acolhido por toda a Europa.
- Dezembro - Primeira visita aos States. Aí é apresentado, com enorme sucesso, um show em que há aproveitamento teatral de cada um dos temas.
1973 - Janeiro - Apresentação do show «Foxtrot» na Europa.
- Abril - Segunda tournée americana.
- Maio - Enquanto é preparado o novo LP a Charisma lança um live contra vontade do grupo, que não acha nos registos qualidade suficiente.
- Phil Collins e Anthony Phillips fazem um single com uma canção de Rutherford («The Silver Song»). A Charisma recusa a sua publicação.
- Outubro - Sai «Selling England By The Pound». Segue-se uma tournée britânica com um show ainda mais cuidado no aspecto visual.
1974 - Janeiro - Tour europeu e ronda pelos States.
- Junho - Retiro em Guilford para preparação do novo trabalho - um concept-álbum inspirado na longa estadia nos EUA.
- Novembro - Publicação do duplo «Lamb Lies Down On Broadway» seguida de tournée nos EUA com apresentação de um notável show.
1975 - Fevereiro a Abril - Espectáculos por toda a Europa e passagem por Cascais.
- Agosto - De há longo tempo remarcado como o homem de ponta do Genesis pelo seu trabalho de vocalista, de performer, de letrista e de flautista, Peter Gabriel vem surpreender os fans do grupo com o anúncio, através de uma carta enviada à imprensa inglesa, do seu abandono. «As tournées constantes foi uma das principais razões. Ficava esgotado após cada cocerto. Era eu quem, sem dúvida, tinha maiores responsabilidades no grupo. Tinha de me ocupar de todos os pequenos pormenores como maquilhagem, fatos, etc., etc. Tudo isso exigia tempo e era fatigante. Por outro lado eu não gostava daquilo em que me estava a tornar, tal como o grupo. e senti que era chegada a hora de partir. As coisas começavam a ir menos bem, finaceira e musicalmente. Nós não conseguíamos criar algo verdadeiramente novo». (P. Gabriel à «Rock & Folk»).
- Phil Collins que já tinha vocalizado a faixa «More Fool Me» de «Selling England...» e que recentemente fizera as partes vocais do primeiro álbum a solo de A. Phillips - «The Geese And The Ghost» - passa a assegurar a voz principal.
- Dezembro - Saída de «A Trick of the Tail» que se constitui como o primeiro sucesso comercial do grupo nos States bem como o que maior volume de vendas atingiu na Europa.
- Phil Collins a par com uma actividade de session man e membro do Genesis, forma a banda de jazz/rock Brand X com Percy Jones (baixo), Robin Lumley (teclas) e John Goodsall (guitarra).
1976 - Abril - Na tournée americana Bill Bruford assegura a bateria já que Phil, ocupado com o seu novo papel, apenas ocasionalmente pode sentar-se atrás das peles.
- Maio/Junho - Tour europeu com um show não tão rico no aspecto teatral mas mais sofisticado nos efeitos - nomeadamente emprego de lasers.
1977 - Janeiro - No primeiro dia do ano, concerto para reabertura do Rainbow com apresentação do novo elepê «Wind and Wuthering». O baterista contratado para espectáculos é agora o norte-americano Chester Thompson que anteriormente esteve com Frank Zappa, Weather Report e Pointer Sisters.
- O grupo mantém-se consecutivamente on the Road: Grã-Bretanha, EUA, Austrália, Japão e de volta à Europa.
- Outubro - Publica-e o duplo live «Seconds Out» resultado de captações efectuadas na tournée de 1976 e 1977.
Outubro - Anúncio oficial da saída de Steve Hackett. «De facto, não há uma razão precisa mas sim um conjunto de factores que se foram acumulando e chegaram a um ponto em que eu já não podia suportá-los. Muitos problemas familiares, causados em grande parte, pelo ritmo de trabalho ao qual estávamos submetidos desde há longo tempo: tournées incessantes e cada vez mais numerosas, somente interrompidas por sessões de gravação também elas constrangedoras. Acabei por, eu próprio, dificilmente suportar esta vida. Além disto, havia problemas com o grupo propiramente dito. Eu sempre estive um pouco apartado dos outros porque cheguei mais tarde e eles formavam uma equipa muito unida. Senti isso quando começámos a não estar em completo acordo quanto às concepções musicais do grupo. «(Steve Hackett à «Rock & Folk»)».
- Novembro - Genesis em estúdio. Michael Rutherford assegura a guitarra principal.
- Antes do novo álbum aparece um EP com três inéditos: «Match of the Day» / «Pigeons» / «Inside Out».
1978/1979/1980 - O ciclo tournée / álbum / curtas férias / tournée... repete-se continuamente. Em Fevereiro de 1978 surge «And Then There Were Three...». O guitarrista norte-americano Daryl Stuermer, ex-Jean-Luc Ponty, colabora nos shows. Em 1979 Tony Banks e Michael Rutherford preparam trabalhos solo que publicam antes de «Duke», décimo segundo álbum do Genesis, publicado no início de 1980.



Peter Gabriel
artigo por Pedro Cristina de Freitas

Passado
Peter Gabriel nasceu no dia não-sei-quantos de um mês qualquer no ano não-sei-quantos, e ainda não morreu, que é o que de momento interessa. Andou numa escola qualquer e foi juntamente com outros alunos dessa escola que fundou um grupo: os Genesis. O primeiro álbum dos Genesis que conheço é «In The Beginning», embora nas notas inseridas nesse álbum se comece logo por dizer: «isto não é um novo álbum dos Genesis», o que leva a concluir que há um álbum anterior. Mas se todos os álbuns dos Genesis tivessem sido como este, eu não estava de certeza aqui a escrever sobre o Peter Gabriel. O único interesse que se pode encontrar nesse trabalho é o facto de ser o primeiro dos Genesis porque no geral o álbum gasta-se logo à segunda ou terceira audição, e não sai da vulgaridade. Mas em «Trespass», o grupo já tem um som diferente, original, e já se nota o que haveria de acontecer em «Nursery Crime» e «Foxtrot» - o grupo ia-se preocupar essencialmente com os arranjos, mais que com a composição em si. É nestes álbuns que se começa já a notar o grande intérprete que é Peter Gabriel. Em «Musical Box» por exemplo. Aparece depois «Selling England By The Pound», que se pode considerar como uma mistura dos géneros que Peter e os restantes Genesis iriam deenvolver depois da saída de Gabriel. A seguir é «The Lamb Lies Down On Broadway» que é considerado por muitos (eu incluído) como o melhor dos Genesis. Este álbum é, segundo as palavras dos outros elementos dos Genesis, quase integralmente um álbum de Peter Gabriel. Não quero dizer que Gabriel fosse o elemento mais importante e o único compositor do grupo. Não era, e por isso é que saiu, pois enquanto o grupo se encaminhava para um lado, Gabriel ia para outro.
Mas para mim «The Lamb Lies Down On Broadway» é o primeiro álbum de Peter Gabriel. Até porque se o compararmos com a restante obra dos Genesis, tanto com como sem Gabriel, não encontramos quase nenhum ponto comum, ao paso que com a de Gabriel já é diferente. Mesmo o próprio grupo não se identifica com a música de «The Lamb Lies Down On Broadway». Ouça-se «The Carpet Crawl» em «Seconds Out». Mas vemos que o tipo de esquemas das canções de «Peter Gabriel» I e II é, mais ou menos o mesmo de «The Lamb Lies Down On Broadway», e que tal como nos álbuns a solo, este último com os Genesis dá maior relevo à composição em si, e à interpretação vocal.
Solo
Em 74, depois da saída de «The Lamb Lies Down On Broadway», e depois da saída de Peter Gabriel, muitos se interrogaram sobre o futuro dos Genesis. Mas o tempo passa e eu (e penso que muitos outros) interrogo-me àcerca do futuro de Peter Gabriel. Para responder a essa pergunta é preciso esperar três anos, para finalmente aparecer a resposta: «Peter Gabriel I». O disco tem duas faixas que soam de maneira diferente e que são talvez o mais importante no álbum: «Moribund The Burgermeister» e «Humdrum». O resto das faixas é mais Rock que outra coisa («Modern Love», «Slowburn») o que o próprio Peter Gabriel explica dizendo que se se com um álbum com um som diferente, teria de aceitação por parte do público. O que é verdade e está mais que provado no segundo álbum que saiu no ano seguinte. Não se pode dizer que seja inferior em relação ao primeiro, mas já há diferenças, algumas difíceis de notar, pois a interpretação e o tipo de composição marcam muito o disco. No entanto não há dúvidas nos casos de «D. I. Y.» e principalmente de «Exposure». E mesmo para quem não gosta do álbum experimente ouvir melhor «On The Air» «D. I. Y.» e «Indigo», por exemplo. Porque no fundo ainda não é este álbum que vem marcar o som Gabriel (como ele lhe chama) e acaba por o fundamental ser o mesmo.
Para esta parte leiam os artigos de José Oliveira em anteriores números de M&S.

Presente
Espero.




Futuro
O futuro próximo é o terceiro álbum. Pela faixa que ouvi no rádio (que provavelmente se chama «Games Without Frontiers, Walls Without Tears») não há novamente grande diferença para o álbum anterior, mas essa diferença já é um bocado acentuada em relação ao primeiro.
Em relação ao futuro é preciso falar também do futuro da música em geral. Por enquanto vamos ter ainda o prolongar do filão da música Rock-o Punk Rock, a New Wave. Claro que há sempre diferenças, mas o tipo de música que vai aparecendo não é tão rica como era (e é) o Rock. Basta ver que dos últimos resultados obtidos apenas a New Wave se aguenta. O Punk e o disco não apresentavam grande profundidade. É como uma estrada principal que se vai ramificando, não indo as suas derivações dar a lado nenhum. É preciso construir uma nova estrada. Mas é claro que não pode aparecer de repente, pois nessa altura está logo à partida votado ao fracasso. É isso que acontece com o Rock Alemão. A mudança tem de ser gradual. O Trindade Santos diz que o futuro da música está na técnica, dizendo que se saísse com um álbum com um som acordo quando ele me mostra um disco feito apenas com sintetizadores e afins que imitam a guitarra eléctrica, a bateria, etc... Para já porque um ou dois discos isolados (eu sei que lá fora há mais, mas mesmo assim não são suficientes) não podem marcar um som e um estilo. Dos que me estão a ler, quem é que comprou álbuns assim? É aí que entra o Peter Gabriel e músicos como ele, e não músicos como o Mike Oldfield, que já deu o que tinha a dar. Depreende-se das entrevistas dadas à M&S que Peter Gabriel pretende desenvolver a utilização de sintetizadores e coisas no género nos seus próximos álbuns. Mas de qualquer maneira também é certo que pode ir dar a mais um beco sem saída. Para já esperemos álbum.




A Música No Dia-A-Dia (coluna)
por Pedro Ferreira

Onde se fala de luzes, de críticos e de algumas coisas mais a descobrir pelo leitor.

Estava eu, muito anti-pacatamente, a delirar com a actuação da Lene Lovich em Cascais, quando me assalta a ideia luminosa de que as luzes poderiam iluminar o próprio carácter do espectáculo - eu explico, eu explico, que isto de começar logo a desatinar a leitura não tem graça nem sentido. A ideia era esta: «que luzes mais espalhafatosas - usadas sem nenhum gosto estético - a contrastar com a economia e precisão das luzes de Joe Jackson, por exemplo - mas tem piada que calha mesmo bem - o uso desregrado dos efeitos de luzes acaba por estar justificado - e corresponde a um gosto pelo berrante e pelo contrastante que encontramos no povo - o que me faz desconfiar de que o povo não tem falta de gosto, mas pura e simplesmente um gosto diferente - e me faz pensar que o gosto Punk e New Wave pelos contrastses de cor, pelo deliberado «mau gosto» acaba por revelar o seu carácter rebelde e me faz crer que a maior barreira que impede as meninas «cake» de lograr a aparência rebelde, é precisamente a sua capacidade de rebentar com os quadros estéticos que receberam da família - pois é um facto que não encontramos muitas cores berrantes ao mesmo tempo na indumentária dessas meninas - já que elas sentem a necessidade de preservar um certo equilíbrio cromático de influência parisiense - estão dentro da moda - estão integradas - mas a enorme riqueza de cor que encontramos em Lene Lovich diz-nos o contrário - a Lene Lovich no palco é a sacerdotisa do rock - a profusão de sons e cores e movimento pode ser interpretada (como o faria Feuerbach) como a concentração no rock de todo o nosso desejo e faculdade de som, cor e movimento - já que a sociedade não está feita para que possamos desenvolver as sementes que somos - e portanto as flores que são as nossas surgem-nos caídas do céu, caídas do rock, caídas do chão - e nós adoramos o espectáculo da Lene - e achamo-lo bonito - na proporção da nossa capacidade de projectar beleza - o mundo é assim - por enquanto - e por enquanto curte-se - o que já não é mau.»

Aproveitamos esta secçãozinha periferico-criticante para saudar a recém-surgida prosa de Miguel Esteves Cardoso, no semanário «O Jornal», que assim enriquece as suas páginas com uma contribuição plena de originalidade. Miguel Esteves Cardoso escreve com brilhantismo e competência, pecando apenas por fidelidade ao seu passado de consumidor exigente - o que não o deve tornar muito popular entre os rockers portugueses.

A propósito de críticos, vocês reparem como é muito improvável encontrar-se um crítico de música «clássica» a falar enquanto consumidor, enquanto conjunto de consumidores ou enquanto um outro qualquer: o crítico «clássico» fala sempre enquanto crítico, isto é, observador-mais-culto-e-mais-alto que os outros observadores. Em contrapartida o crítico «clássico» é, em geral, bastante mais sólido que o crítico de rock; este descura frequentemente o enquadramento do acontecimento que reporta e critica, refugiando-se no imediatismo da descrição ou da apreciação, quantas vezes amputadas por critérios unicamente subjectivos!
Estas características da crítica relacionam-se certamente com as características dos meios musicais respectivos, e com a própria música praticada nesses meios. Voltaremos a este assunto.




Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
Discos em Análise
. The Flying Lizards - "The Flying Lizards" [SPA VV 33039 Y], Ana Rocha
. Kevin Ayers - That's What You Get Babe" [Records 11C 074 63647], Ana Rocha
...&Som
Instrumentos de Cordas
. Antigos instrumentos de cordas
. Instrumentos dedilhados
. Instrumentos de arco
. Instrumentos com cordas percutidas






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