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1.6.25

LP - Jornal de Música - nº 23


 

Chefe de Redacção: Maria João Guerreiro

Ano I

Nº 23

75$00

Semanário: 6 de Abril de 1989


coisas + importantes (e desenvolvidas)

na capa:

1. Coil - Entrevista e fotos de Miguel Santos - 2 páginas.

2. Van Der Graaf - 

Peter Hammill / Vand Der Graaf Generator - Artigo de 3 páginas por João Pedro Costa

+

- Futurismo e Dada - Artigo de 2 páginas por João Peste

- Ocaso Épico e Objectos Perdidos no RRV - Crítica meia página por Maria João Guerreiro

- Jorge Ferraz - rubrica Confesso (proustiana) 1 coluna - Palavras Incisiva de Jorge Ferraz (Santa Maria Gasolina Em Teu Ventre!)

- Roídos de pena, roídos de esperança - reportagem por Artur Abreu - 3ª Sessão da 2ª Mostra de Música Moderna - Coimbra 89
































29.4.17

Fernando Magalhães - A Morte Do Crítico Musical - Homenagem no jornal Público


Público
Cultura

Terça-Feira, 17 de Maio de 2005

Morreu o crítico musical Fernando Magalhães



Fernando Magalhães, jornalista e crítico de música do PÚBLICO, morreu anteontem em sua casa, no concelho de Loures, aos 50 anos, na sequência de uma paragem cardíaca.
Nascido a 5 de Fevereiro de 1955, em Lisboa, licenciado em Filosofia pela Universidade de Lisboa, Fernando Magalhães fazia crítica musical no PÚBLICO desde a fundação do jornal (Março de 1990). Era ainda um animador entusiasta de um site de discussão na Internet sobre música, o Fórum Sons, e foi júri de vários concursos de atribuição de prémios de música, como o Prémio José Afonso, da Câmara Municipal da Amadora, do qual fazia parte desde 1994.
Antes de integrar os quadros do jornal, colaborou com os semanários Blitz e O Independente e foi professor de Filosofia em várias escolas secundárias entre final dos anos 80 e início de 90, actividade da qual falava regularmente com saudade. No final dos anos 80 teve um programa onde divulgava música experimentalista na Rádio Universidade Tejo (RUT), ao mesmo tempo que trabalhava na Contraverso, loja de discos que existia no Bairro Alto.
Como crítico musical Fernando Magalhães ajudou a dar visibilidade à música rock dos anos 70, à música popular portuguesa, à electrónica portuguesa, à world music, ao fado, à folk e ultimamente ao jazz. Peter Hammill, o seu ídolo, Gaiteiros de Lisboa, Né Ladeiras, Nuno Rebelo, Nick Drake, Nico, Carlos Paredes, Robert Fripp, Amália, Robert Wyatt, Diamanda Galas, June Tabor, Brian Eno e Fátima Miranda eram alguns dos seus músicos de eleição.
Fernando Magalhães tinha dois filhos, Sofia de 16 anos, e João, de 12.
As datas do velório e funeral serão conhecidas hoje.



Vivo nas palavras
O Fernando pertencia, desde o início, à família que fez o PÚBLICO nascer por entre resmungos e abraços. Ainda pertence, aliás. Trouxe até nós o seu génio (nos dois sentidos), a sua arte de escrever, o seu conhecimento vasto sobre as músicas que amava, a sua boa disposição temperada de ironia. Quando ele começou a rarear na escrita – uma escrita que podia ser genial ou desmesurada, mas nunca medíocre – esboçou-se diante de nós um vazio.
Porque ele revelava-se sobretudo nas palavras, perdia-se nelas, perdia-se por elas: no jornal, nos suplementos, no universo transdimensional da Internet. A 7 de Março de 1990, no número de estreia do VideoDiscos (pai e avô dos posteriores PopRock, Sons e Y), o Fernando escrevia sobre Neil Young mas também sobre a cantora indiana Najma ou sobre o panorama “confrangedor” das videocassetes musicais (muito antes do agora banalizado DVD). Escrevia sobre o que lhe interessava e sabia interessar-nos pelo que escrevia. Não são muitos os que o conseguem e, por isso, nos temas onde era mestre, não terá verdadeiro substituto. Na singularidade da sua escrita, viverá, sempre, a sua imagem humana. E ele não desaparecerá enquanto ela durar.
NUNO PACHECO



Convicção filosófica
Se o Fernando escrevia sobre música era por convicção filosófica. Era daí que ele vinha, era isso que o agarrava à música como expressão superlativa da vida. Ele alcançou esse ponto (sem retorno?) em que se descobre a transcendência, o para lá, a plenitude. Aprende-se, ou vislumbra-se nas grandes narrativas, mas que está para além delas, uma experiência mística que de modo algum cabe nos limites da... academia, ou sequer do quotidiano. Há então que procurá-lo noutro lado, em dimensões mais próximas do sonho e da fantasia e o Fernando reencontrou-a, ou melhor, reinventou-a onde menos se poderia esperar: não na grande arte clássica, mas nas músicas populares e delas decorrentes. Primeiro no rock conceptual e progressivo, depois na folk e noutras músicas de raiz popular, finalmente no free jazz, num percurso de uma coerência e originalidade raras no jornalismo musical português. Que é como quem diz, fez carreira de filósofo escrevendo sobre artistas e idiomas musicais, onde soube entrever a espiritualidade para além ou graças à conotação popular, fazendo-nos do mesmo golpe ouvi-las de outro modo, dando-nos a descobrir o barro místico em que se esculpiu alguma da mais inspirada música de sempre. E também dizia muito mal, com a mesma clarividência e com um humor devastador de toda a música demasiado medíocre, ou estritamente comercial. Para ele não havia compromissos, nem sequer meios-termos, e esse radicalismo frequentemente escandalizou e motivou veementes protestos. No final, podia concordar-se ou não com as suas opiniões, mas uma coisa era segura: pouca gente escrevia em Portugal sobre música de forma tão apaixonada, iluminada e visionária.
LUÍS MAIO



Fragmentos de textos no PÚBLICO
“As palavras, saídas da experiência ou arrancadas ao inconsciente colectivo, que Hammill rompeu a golpes de uma introspecção violenta, são arrebatadoras na exposição, por vezes trágica, do homem apresentado na sua dimensão de divindade aprisionada. Pelo tempo, pela carne, pelo pensamento, pelos outros, por si próprio.”
Sobre Peter Hammill, 19/06/92

“Os Pink Floyd da actualidade são do esterco mais fino e sofisticado que há [...] Não chega a ser música. [...] O ácido esgotou a validade. Lucy aposentou-se e faz tricô em pantufas frente à televisão.”
Sobre os Pink Floyd, 24/07/94

“Estados de alma que tanto exigem, para se fazerem ouvir, do canto panfletário da Internacional Socialista, como se encolhem num balbuciar triste e, por vezes, incoerente, de uma criança ferida. Ou de um louco encarcerado na certeza das suas próprias convicções. De um poço como Rock Bottom não se sai igual ao que se entrou.”
Sobre Robert Wyatt, 19/09/97

“A que dançou iluminada pelas fogueiras do flamenco e separou a voz em dois no throat singing das altas montanhas da Mongólia. A que meditou com os ragas indianos e fez soar os sinos num jardim da China. A que sugou o sangue com um vampiro dos Balcãs e fez a corte ao amor, como o trovador medieval. A que tem a voz das equilibristas e dos palhaços, dos animais e das plantas.”
Sobre Fátima Miranda, 22/07/98

“Os subúrbios da capital inglesa na última década deste século, com o cinzento do cimento polido pela chuva e a vida aprisionada nos reflexos das poças de água das ruas.”
Sobre Richard Thompson, 10/09/99

“Amália possuía essa capacidade rara de se concentrar no ponto exacto onde tudo conflui, se dilacera e floresce. O lugar da cruz.”
Sobre Amália, 07/10/99

“Meira Asher, como Diamanda Galas, é uma figura do Inferno. Nela a Bíblia [...] transmuta-se num livro negro de pragas. Como Diamanda Galas, a israelita profetiza a morte e o caos, revolvendo-se na abordagem de temáticas como a sida, a masturbação feminina e o incesto. Mas enquanto Galas encarcera a ópera, os blues e o gospel no quarto de lua do Romantismo, Meira usa maquinaria electrónica pesada, desfaz-se na podridão e clama que o Apocalipse é agora.”
Sobre Meira Asher, 29/09/00

“Metáfora da infiltração subterrânea, da vitória das trevas sobre a luz, da noite sobre o dia, são obras-primas de pop electrónica, loucura, método e paradoxo. E metem medo.”
Sobre os Residents, 28/09/01

“Ao escutarmos e, melhor ainda, ouvirmos O Mundo Segundo Carlos Paredes sentimo-nos mais sãos e menos sós. Mas essa é a essência da Saudade. Saudade do que somos.”
Sobre Carlos Paredes, 07/03/03

“A velha lua morreu ontem com a nova nos braços. June Tabor traz a eternidade no seu canto. Curioso: a sua voz soa em An Echo of Hooves menos grave. Como se tivesse subido um degrau das escadarias que conduzem ao céu.”
Sobre June Tabor, 02/01/04

(DE ENTRE CENTENAS DE TEXTOS QUE FERNANDO MAGALHÃES ASSINOU NO PÚBLICO AO LONGO DE 15 ANOS, ESTES FRAGMENTOS REFEREM-SE APENAS A ALGUNS DOS MÚSICOS QUE OUVIU APAIXONADAMENTE E, NO CASO DOS PINK FLOYD, TAMBÉM SOUBE DEMOLIR, QUANDO ENCONTROU RAZÕES PARA ISSO.)



leitores
excertos de mensagens colocadas, ontem, num fórum de discussão da Internet em www.forumsons.com, que Fernando Magalhães animava regularmente.

Graças ao Fernando tive a sorte de descobrir muita muita, muita música nova – a sua lista dos melhores discos dos anos 80 acompanhou-me durante anos a fio.
PEDRO SANTOS
[DISTRIBUIDORA FLUR]

Tinha pelo Fernando Magalhães enorme admiração. Adorava a sua capacidade de ser corrosivo, fracturante e eficaz. Quando essas mesmas características recaíam sobre um evento meu não conseguia disfarçar uma certa irritação tal era o brilhantismo do seu texto.
VASCO SACRAMENTO
[SONS EM TRÂNSITO]

Sei que o primeiro texto que me marcou foi a reportagem dele ao concerto-tributo a Feddie Mercury em Wembley. Uma prosa com um humor e uma lata que me deixaram deliciado. Nunca mais perdi o rasto ao jornalista. JG

Era poético, delicado, cínico, corrosivo, delirante, festivo, correndo o risco de ser incompreendido.
NUNO JORGE

Pelas imensas horas de prazer que tive a ler os seus textos, críticas e sugestões (que tanta música me deu a conhecer, sobretudo nos tempos loucos da faculdade) nunca o esquecerei.
FILIPE











12.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (149) - Mundo Da Canção #52


mc
mundo da canção
Nº 52 - Ano X - Setembro/Outubro-79
- Esc. 20$00
Director: A. Vieira da Silva

Publica-se todos os meses
Proprietária e Editora: Tipografia Aliança, Lda.

Colaboram neste número: A. Vieira da Silva, Manuela Ramalho, Mário Correia, Melo da Rocha e Octávio Silva.

20 páginas A4 a azul (mesmo os textos), papel normal, excepto a capa que é de papel brilhante um pouco mais pesado e a 2 cores (azul e vermelho)




Editorial
Amigos a verdade é esta:
o mc não presta!

O mc não traz o resumo dos próximos capítulos do Astro. Não publica o horóscopo semanal, mensal ou anual dos seus leitores. Não exibe fotografias de leitoras com aspirações a Miss qualquer coisa. Não tem consultório sentimental para orientar a juventude. O mc não é uma revista. Rasgue-se. Já.
O mc não esclarece nem um pouco sobre a vida íntima da célebre cantora que grita o «sobe, sobe, balão, sobe». Não diz quando é que ela nasceu, com quantos meses teve os primeiros dentes, quando deixou de fazer chi-chi na cama. Não aponta o momento exacto em que a artista nasceu para a canção com os primeiros berros na casa de banho. O mc é uma nódoa. Limpe-se. Já.
O mc não liga patavina ao prodígio do teclado que é o inigualável Sr. Rui Guedes. Não comenta o seu programa da RTP onde ele tem lançado grandes artistas. Não o compara sequer com o Elton John que ao pé dele é um principiante. Não afirma o seu nacionalismo de que tem dado suficientes provas. O mc é um nojo. Queime-se. Já.
O mc não tem «posters» com gajas nuas para distracção do leitor. Não fala dos mistérios de alcova dos artistas mundiais. Não publica manifestos de homossexuais. Não transcreve textos do Sr. Vilhena. Não tem anedotas pornográficas. O mc é um puritano. Mate-se. Já.
O mc não segue as linhas doutrinárias do Sr. Dr. David Mourão Ferreira. Não aplica a revolução cultural do Sr. Dr. Proença de Carvalho. Não tem editoriais escritos pelo Sr. Dr. Francisco Sousa Tavares. Não expõe o pensamento desse meteoro da nossa intelectualidade que é o Sr. Dr. Eduardo Prado Coelho. O mc é um ignorante. Esfole-se. Já.
O mc não é feito em Lisboa. Não tem como colaboradores os brilhantes críticos do nosso país. Não é subsidiado por qualquer grupo económico. Não é protegido por qualquer força política. Não tem publicidade na RTP nem em lado nenhum. Não organiza concursos com sorteios de automóveis. Não tem capas multicolores encomendadas e pagas por qualquer editora discográfica. O mc é independente. Rasgue-se. Limpe-se. Queime-se. Mate-se. Esfole-se. Já. Já. Já.
Vieira da Silva

Discoanálise
Ascenção E Queda
Petrus Castrus

A qualidade de uma canção popular está na qualidade simultânea dos diversos elementos que a constituem, tomados no seu conjunto.
É por isso que frequentemente só entendemos completamente os bons temas depois de os ouvirmos atentamente por diversas vezes.
É por isso que as cançonetas comerciais que apresentam um ou outro factor mais agradável (normalmente a melodia fácil encaixando frases sonoras, mas vazias) se impõem de um dia para o outro, tão depressa como caem no esquecimento.
Há no entanto autores de música popular que, não querendo mergulhar na mediocridade artística das vogas, parece não compreenderem que a música popular de qualidade só existe na qualidade de todas as suas componentes.
Este disco dos Petrus Castrus vem precisamente relembrar uma fase da música portuguesa que procurou encontrar um caminho na transposição para a nossa língua das experiências anglo-americanas, solução que parece se pretende reeditar após o surgimento da chamada nova escola inglesa (Genesis, Gentle Giant, Van Der Graaf, etc.).
Recordam-se de tantos grupos que, repetindo as sonoridades da pop, galegavam umas letras ridículas só para justificarem a existência de um vocalista?
Fora ideologias, «ASCENÇÃO E QUEDA» é um texto cabotino porque, sendo infantil, mostra-se incapaz de assumir a fantasia sã e a ingenuidade louca do mundo das crianças, recheado de grandes heróis que, na sua perspectiva, vão pôr ordem no mundo dos adultos.
Mas o cabotinismo literário de «ASCENÇÃO E QUEDA» completa-se nas tiradas apalhaçadas de certas vocalizações que reflectem uma total falta de relação letra-melodia. Esta é uma constante do álbum, estragando os bons pedaços de música que os Petrus Castrus compuseram para este disco.
Independentemente da mensagem impressa (com que podemos ou não concordar), o que falo é da forma artisticamente medíocre através da qual ela nos é transmitida.
Quanto à mensagem, ela é uma mensagem de derrota, pronunciada por adultos-velhos que, das crianças, penas vestem os calções de alças; uma mensagem-morta como tudo o que, despido de esperança, se vai esfumando no vazio do seu conteúdo.
Em conclusão: Deste disco dos Petrus Castrus apenas aproveito a sua qualidade de música que de nada valerá se não decidirem de uma vez se são um grupo de música portuguesa ou de música inglesa. E reparem que, para mim, a música portuguesa não se circunscreve exclusivamente às nossas tradições folclóricas.
«ASCENÇÃO E QUEDA»: um trabalho aceitável.
Octávio Silva



Entrevista Com
SHILA
«Foi a terra desta gente...»

I
Sheila Charlesworth - canadiana. Shila - portuguesa. Uma canadiana fixa-se em Portugal, aprende a língua, contacta com o povo, participa nas suas lutas, partilha dos seus anseios e aspirações, torna-se portuguesa «de coração e raça». Uma canadiana «levanta voo» aos primeiros sons de um folclore que passou a ser o seu e que muito intensamente a faz vibrar e o qual procurou assimilar no seu contributo para a renovação da música portuguesa de intervenção de raízes populares.
«Tudo isto aconteceu porque tenho a chula no meu corpo e o vira nos meus braços. Talvez seja esta uma das possíveis explicações mas é muito difícil dizer concretamente todos os porquês. Sei lá, eu gosto, por exemplo, da maneira como as pessoas aqui andam de guarda-chuva. São milhares de pormenores que me cativam: de repente aparece um baile na rua, mesmo quando está a chover, o que só é possível porque as pessoas sabem andar de guarda-chuva; as pessoas usam lenços de algodão e não daqueles que se deitam no caixote do lixo; a maneira como as pessoas estendem a roupa na ribeira, ou o modo como os miúdos se põem a mandar vir; enfim, todos esses pormenores do quotidiano, todos esses pequenos nadas...».
Mas não é só uma aproximação pela via de um quotidiano não padronizado como nas sociedades ditas de consumo que a seduz, porque em Portugal Shila pôde encontrar «aquilo tão maravilhosamente subversivo que nunca poderia encontrar» no seu país natal...
«Claro que, para além desses pequenos nadas, a minha fixação em Portugal se prende muito com razões fortemente políticas. Houve neste país uma abertura muito grande para os problemas sociais o que, tendo em conta o meu modo de ver as coisas, me faz sentir bem aqui».

«Foi a terra desta gente
Que me deu o maior presente...»


II
Sheila Charlesworth nasceu em Toronto, no Canadá, em 14 de Julho de 1949. Em 1969 iniciou a sua vida no mundo do espectáculo como bailarina e depois como actriz. Em 1970 fez parte, em Paris, do grupo de actores que levou à cena a versão francesa da comédia musical «Hair». Em 1971 integrou-se no Living Theatre e actuou no Brasil.
«A comédia musical «Hair» era uma peça que apanhava muito dos meus restos da adolescência, da América, da revolta e do protesto. Mas eu, na altura, estava muitíssimo pouco informada ou politicamente preparada. Na minha família e na minha terra não havia uma consciência mínima dessas coisas.
«Quanto ao Living, foi por acaso que lá fui parar. O Sérgio Godinho foi convidado e como eu o estava a acompanhar também fui. Era mais um país a estar representado. Foi através da quebra da actividade do Living que eu comecei a compreender alguma coisa a nível político. Quando estive presa, no Brasil, as coisas tornaram-se para mim extremamente claras, sobretudo ao nível das questões fundamentais: quem é o mandão? quem é o opressor? o que é que está certo? o que é que está errado?
«Por outro lado, pude falar com pessoas que sofreram de um modo atroz a repressão e fiquei a saber muito sobre coisas que reflectem a acção dura e repressiva de toda uma estrutura de sociedade. Tudo isso foi muito importante para a minha consciencialização...»
É evidente que, mais tarde ou mais cedo, se desenharia uma espécie de ruptura, com determinadas ambiguidades, para com todo um mercantilismo asfixiante instalado no mundo do espectáculo. Uma ruptura que, em parte, se esboçou com a experiência adquirida na «Hair» e melhor se definiu no Living.
«Eu vivia muito enterrada no mundo do espectáculo, como bailarina e actriz. Fiz toda uma série de coisas que acabaram por me levar, já em 1972, a não querer fazer mais nada relacionado com o espectáculo. Claro que era uma tomada de posição, uma escolha um tanto adequada às circunstâncias da altura, sobretudo derivada do facto de eu não gostar da ideia de estar a fazer tudo aquilo como quem vende um produto qualquer. Uma pessoa acaba por se aperceber de que sendo, por exemplo, uma actriz, não é mais do que um produto de venda chamado actriz. As pessoas vêm ver-nos, pagam o seu bilhete, assistem ao espectáculo e vão-se embora. E nada mais se passa. Se calhar isto até era uma atitude um tanto ingénua da minha parte mas era assim que eu pensava».
Em 1973 Shila participou numa longa-metragem canadiana, «Os Corpos Celestes» e, após o 25 de Abril, veio para Portugal, na companhia de Sérgio Godinho. O que foi muito importante para um regresso «muito diferente» à actividade artística.
«O facto de ter vindo para Portugal veio mostrar-me que aqui não há mais aquela quebra, aquela distância entre o público e os artistas. As pessoas vivem diariamente juntas, artistas e povo. E o povo também é espectáculo, o que muito me surpreendeu: em 1974, quando aqui cheguei, eu vi teatro na rua, manifestações, festas populares, etc. Eu não percebia bem os pormenores e a dimensão do que se estava a passar mas, perante tudo isso, avivaram-se algumas das minhas recordações do espectáculo, e acabei por ir de novo para os palcos».

«Foi a terra desta gente
Que me deu o maior presente
De abrir a minha voz...»


III
Em 1977, com a etiqueta Diapasão, foi lançado no nosso mercado discográfico o LP com o título DOCE DE SHILA, um disco que resultou de «um muito terem puxado por mim para que o fizesse». Este trabalho veio a conseguir impor-se mercê da sua qualidade e da delicadeza da inspiração dos temas nele incluídos.
«Fiquei contente com o resultado conseguido. Quando gravei DOCE DE SHILA fi-lo sobretudo graças à colaboração de muitos amigos. Este trabalho, que levei muito a sério, foi uma espécie de saída de um berço. Uma saída extremamente protegida pelas pessoas que muito me orientaram».
E assim se foi inscrevendo o nome de uma canadiana-portuguesa no panorama da nossa música popular de intervenção, um campo de acção cultural com problemas diversos mas que tem desempenhado um papel muito importante. Ou não será assim?
«Obviamente que sim. Nasceu por aqui muita música nova, surgiu um poder de criatividade enorme, apareceram bons músicos, excelentes executantes, novas composições, etc. Por outro lado, houve toda uma recolha intensa, desde o 25 de Abril, de música folclórica e de música popular. Pela minha parte, tento contribuir um pouco para todo esse desenvolvimento. É claro que não sou uma pessoa autónoma. Sou uma intérprete que teve e tem a sorte de estar à beira de pessoas incríveis, como o Sérgio Godinho, e não é, pois, por acaso que consigo cantar lindas cantigas».
Shila, que foi «apresentada» à canção portuguesa de intervenção por «um companheiro de alma e de luta que foi igualmente o companheiro do meu desenvolvimento político», tem consciência dos problemas mais graves com que se debate o canto de intervenção.
«Um dos problemas mais graves é, sem dúvida, a falta de condições de trabalho. Criaram-se muito maus hábitos, o que é normal. Com o 25 de Abril havia uma necessidade histórica que se converteu numa realidade histérica; fomos para todo o lado, acompanhamos tudo e todos. Houve muito voluntarismo. Agora, quatro anos depois, a situação modificou-se imenso. Por outro lado, há que ter em conta que nos habituamos um pouco a trabalhar demasiado à balda. No campo da música, onde há todo um conjunto de talentos absolutamente escandaloso, no bom sentido do termo, há pouquíssimas condições de trabalho. A maioria das pessoas do canto de intervenção não tem aparelhagem e não ganha o suficiente para se poder dedicar inteiramente à música. O facto de os artistas terem de ter um emprego e de fazer as contas para o fim do mês, atrasa bastante o desenvolvimento da música. E, ainda por cima, é bastante difícil pedir cachets, embora isso agora já vá sendo aceite. Mas aqui há um ano atrás as pessoas quase desmaiavam quando isso sucedia. Chegavam a chamar-me reaccionária e contra-revolucionária por pedir dinheiro mas, aos poucos, eu fui explicando às pessoas que quando vou fazer compras ao supermercado eles não me deixam pagar com uma canção.
O público deve compreender que as condições de trabalho passam pela criação de hábitos quanto ao pagamento de entradas para os espectáculos. Nós, pela nossa parte, temos a obrigação e o dever de apresentar um «produto» muito mais desenvolvido. No meu caso, um espectáculo de uma hora obriga-me a contratar dois músicos e isso custa dinheiro. Ora, se nós temos o dever de fazer espectáculos com qualidade, o público tem de compreender que precisa de nos apoiar para que isso seja possível. Porque, caso contrário, está-se a matar a música portuguesa».
Foi mais ou menos neste sentido que, em Novembro de 1978, Shila e Jorge Zagalo arrancaram com o projecto «Música Aberta».
«Estou contente com o projecto da Música Aberta porque conseguimos, apesar de tudo, levar para a frente um projecto suicida e impossível, sem qualquer apoio, inclusivamente do Governo. Após a primeira etapa, de quatro semanas, entregamos um pedido de subsídio à SEC, mas esta recusou-o invocando razões absolutamente estúpidas. Diziam que era um projecto de feição empresarial, que dava lucro. Claro que sabiam que isso não era verdade mas o que havia era uma má vontade para com iniciativas deste género. Apesar das dificuldades, nós continuamos e conseguimos realizar cerca de 20 espectáculos - recitais com boas condições, desde a sala, aparelhagem, publicidade, etc. - de grande qualidade e muito variados. É claro que «obrigamos» os artistas a prepararem um mínimo de 45 minutos de espectáculo, mas tudo isso deu muito trabalho e nos custou muito dinheiro.
Por outro lado, da parte da rádio e da televisão não houve qualquer apoio, o que é extremamente lamentável, porque os espectáculos da Música Aberta podiam muito bem ser ouvidos e vistos em todo o país. A rádio nada gravou e a televisão ofereceu-se para lá ir mas de borla. Ora acontece que eu não ia pôr a televisão a filmar artistas, sem pagar a artistas e à organização. Isso seria contrário aos interesses da música portuguesa porque afinal gastam-se montes de dinheiro na importação de certas coisas (que também têm a sua razão de serem passadas na televisão) e esquece-se, pura e simplesmente, a música portuguesa. O que não pode ser.»
E já que estávamos com a mão na massa, nestes tempos de ressurreição do nacional-cançonetismo pelas mãos medíocres e estropiadas do nacional-proencismo, acabou por se falar de uma tal «censura»...
«Isso da censura à música de intervenção, e não só, é tão claro como a clara de ovo. A gente sabe que este Portugal já não é, infelizmente, o grande país da liberdade. Agora acho que temos de encontrar maneiras para continuar a dizer as coisas que queremos dizer, com qualidade a todos os níveis e trabalhar no sentido de uma «abertura», porque o nosso «produto» é de uma profissionalização e de uma qualidade que ninguém de bom-senso pode negar. Não podem dizer que este ou aquele não deve ir à rádio ou à televisão com o argumento de que o seu trabalho nada vale, porque isso é mentira».
E uma das maneiras de furar o cerco, de lutar contra a mordaça dos novos censores, é precisamente a intensificação, bem organizada, do contacto directo com o povo, «o que tem sido muito importante para mim. Aliás, as experiências resultantes desse contacto sentem-se muito no meu álbum LENGA-LENGAS E SEGREDOS, um disco que tem muito mais de mim que o DOCE DE SHILA, porque tenho um ano de palco nas minhas costas, e isso reflecte.-se no meu trabalho».
Ah! Os discos! Por que não reflectir um pouco sobre a indústria e comércio discográficos em Portugal?
«Ah! Quem nos dera que, mais dia menos dia, isso ficasse um pouquinho mais nas nossas mãos. A estrutura das editoras é uma estrutura que não satisfaz a maioria dos cantores. É fundamental que lutemos nesse sentido, para que um dia possamos realmente ser os donos da nossa própria música. Porque há muita gente a mexer na música que não quer saber de qualidade e de conteúdo, e até da sobrevivência das pessoas que fazem essa música. E isso eu considero, acima de tudo, uma falta de respeito para com o público».

«Foi a terra desta gente
Que me deu o maior presente
De abrir a minha voz
os meus braços e a noz...»

IV
Em 1978, foi editado um single destinado às crianças, com os temas «O burro e o grão» e «Papagaio». A experiência de Shila, neste campo, tem antecedentes interessantes: participação num disco colectivo de Jorge Constantino Pereira, CANTIGAS DE IDA E VOLTA; trabalho no infantário da filha; e participação no programa A LOJA DO MESTRE ANDRÉ. Deste trabalho, disse-nos Shila:
«O trabalho para crianças e com crianças é fundamental. Eu gostava - e tento fazê-lo - de realizar um trabalho paralelo; no entanto, o trabalho infantil é muito mais difícil. Com as crianças não se brinca. Têm um olhar crítico muito agudo e uma capacidade de aceitação e de rejeição fabulosa. E é difícil arranjar composições deste tipo, para se poder prolongar este trabalho. Quanto a mim, por exemplo, eu canto as coisas que tenho, coisas populares e coisas que as próprias crianças me vão ensinando.
Para o Dia Mundial da Criança devo ter mais um single mas o que mais gostava de fazer, neste campo, era todo um espectáculo com pés e cabeça. Talvez um dia, se existir um mínimo de condições para o poder fazer...»

«Foi a terra desta gente
Que me deu o maior presente
De abrir a minha voz
os meus braços e a noz
que encaixa o maior abraço...»

V
De Shila, cantora-mulher-militante, incapaz de «assistir de braços cruzados ao desenvolver de uma contenda», uma presença feminina num campo onde a intervenção da mulher é bastante reduzida.
«Eu acho que há realmente falta de mulheres no campo da música. Eu não sei porque é que a mulher não está mais activa na música, é uma coisa que não consigo perceber. Deve preferir ficar a descansar. Eu sou mãe, sou uma espécie de mulher a dias, sou dona de casa e tenho tempo para a música. Parece-me que a mulher tem tendência para não se impor. É claro que houve, e ainda há, muita repressão à mulher, de modo que ainda vai demorar um pouco até que ela «saia de casa». Que eu saiba, aqui há uns 15 anos, em Portugal, a mulher não podia andar de calças, beijar na rua, fumar, etc. Acho que já se conseguiu alguma coisa mas muitas outras podem ser conseguidas e noutros campos bem mais importantes. O que é preciso é que se aproveitem as condições mínimas que existem e continuar a lutar».

«Foi a terra desta gente
Que me deu o maior presente
De abrir a minha voz
os meus braços e a noz
que encaixa o maior abraço
que quero dar.    Shila»

VI
Em Shila, uma trajectória se define. Um projecto que se constrói num esforço de coerência e de militância, que vai ganhando forma. Um projecto de acção que é uma aposta honesta no futuro.
«Dantes eu contava três cantiguinhas com uma viola e pronto. Agora já há microfones, uma coisinha para misturar o som, dois músicos e um espectáculo de cerca de uma hora. É um passo banal, sem dúvida, mas é um princípio. E deste pequeno passo banal qualquer coisa mais elaborada e «gigante» pode surgir mais dia menos dia. Isto passa-se ou deve passar-se a todos os níveis da nossa acção. É uma questão de continuar em frente, com uma boa dose de alegria, muita vontade e espírito de sacrifício. Porque quando se acredita no futuro vale sempre a pena lutar para que algo mude, por muito pouco e pequeno que seja».
Entrevista conduzida e elaborada
por Mário Correia

nota: seguem-se as letras das canções do álbum Lenga-Lengas e Segredos (2 páginas)





Van Der Graaf
- Vital
Peter Hammill
- The Future Now

Peter Hammill forma a tríade necessária (poeta, compositor, músico) que nos foi sucessivamente habituando ao pouco de bom (razoável) que resta da desgastante (degradante) máquina comercial a que se deu o nome «ROCK», agora rivalizado (talvez empobrecido) com o «mito» da «New Wave».
Pawn Hearts - o expoente da dedicação, do trabalho exaustivo, o mérito por fim reconhecido dum esforço que se vinha tornando inglório e impenetrável. Depois os louros da vitória, e a abertura (agora possível) a novos caminhos, experiências (a maior parte delas longe de atingirem o belo e o profundo dum passado); a unidade orgânica do grupo fragmenta-se na procura duma nova sonoridade; a introdução dum novo elemento, Graham Smith, um veterano dos anos 60 dos «String Driven Thing»; um violino com a permanência de David Jackson no sax foi algo de bastante exótico e complexo que nos deixou atónitos já no álbum The Quiet Zone - The Pleasure Dome. A ausência de Hugh Banton, uma perda que consideramos preciosa.
Quanto ao poeta surge a definição, a intervenção directa, a tomada de posição sem rodeios - um passado interiorizado e interiorizante é posto em confronto com uma sociedade em transformação e a necessidade urgente de intervir (posição já sugerida em World Record).
«Vital» o primeiro álbum «ao vivo», depois de oito anos de trabalho em estúdio, gravado no MARQUEE CLUB em Londres, em Janeiro de 78. Não só a reposição de temas já conhecidos, ainda, uma boa metade de títulos originais. Temas como «Plague of Lighthouse Keepers» onde a voz de Hammill um pouco já cansada ainda reflecte, ao natural, a atmosfera de Pawn Hearts (de mencionar a extraordinária execução de técnica e sensibilidade que Guy Evans coloca neste fragmento), «Pioneers Over C», «Still Life», «Last Frame», «Killer», são outros tantos temas reproduzidos. As faixas originais como «Sci-Finance», «Door», «Urbane» são a expectativa (desilusão?), a busca da New Wave de novos esquemas (a que Peter Hammill já nos tinha levemente sugerido anteriormente) aparece-nos aqui como algo de indubitável que não nos deixa de criar uma certa estranheza e insegurança.
«The Future Now» - na generalidade, o álbum reflecte um estudo amadurecido num cuidado brotado na espontaneidade criativa duma voz cada vez mais segura e precisa. A recusa dum lugar na vanguarda: «Tenho trinta anos e hei-de atingir os sessenta, nada me impede, nunca hei-de parar» - palavras da abertura do álbum, da faixa «Pushing Thirty». Em «Second Hand», a dominação do homem pelo sistema (aqui um bom momento de David Jackson), a armadilha social, os negócios, a prisão, o jogo. «Trapping» - uma introdução em viola acústica com colagem vocal como reforço numa estrutura bastante sóbria. A interrogação do tempo que passa, a finalidade no mundo - The Mousetrap (Caught In)» -, a melodia romântica reconduzindo-nos ao piano em «Wilhelmina», do álbum «The Silent Corner and the Empty Stage». «Energy Vampires» - o fantasmagórico imaginário, um mau momento de Graham Smith. «If I Could» - a melhor melodia pela sua simplicidade, acompanhamento à viola acústica e rítmica; a leveza de Evans Graham Smith consegue aqui a harmonia total com o resto dos elementos; poeticamente uma interrogação à incompreensão dum amor - «se eu pudesse explicar...»
O segundo lado do álbum dá-nos uma dimensão mais pessimista do mundo, mais violento, menos cuidado e mais disperso. «Aqui estamos no século XX mas bem poderíamos estar na Idade Média, eu quero o futuro agoa» em «The Future Now», cuja temática se aproxima bastante de «In Camera». «Still In The Dark» - um ataque às instituições religiosas como total impotência perante o porquê. «Mediaevil» - coro eclesiástico introduzindo um poema com ironia e perspicácia: «a resposta para os nossos pregadores é um valium na cama». «A Motor - Bike In Afrika» - percussão electrónica (repressiva), vocalização declamada, o poema de maior intervenção: «os corpos de Biko e o Soweto pobre / a mensagem da reforma religiosa alemã, tortura racial e guerra racial na África de hoje / Vinda à Rodésia e à África do Sul ver». Seguem-se «The Cut» e «Polinurus (Castway)», aqui experiências reportando-nos ao Rock Alemão - «Há tantas coisas a mencionar / Que parecem deslizar no meu pensamento / Ainda juro que as minhas intenções / Nunca deixarão as minhas esperanças para trás».
Uma nota de desânimo para aqueles que estivessem interessados na aquisição destes álbuns em Portugal, pois não serão distribuídos, «como é lógico». Enquanto a cultura for obrigada, para se divulgar, a cair nas mãos de distribuidoras cujo funcionamento visa essencialmente o lucro, não teremos nem estes álbuns nem outros ainda com mais interesse, neste País.
Melo da Rocha


Lenga-Lengas E Segredos
Shila


Se é verdade, como já li, que o difícil não é fazer um bom primeiro disco, então não há dúvida que Shila, com este seu segundo álbum, acaba de se impor definitivamente na música popular portuguesa.
É certo que Shila se rodeia dos nossos melhores, mas LENGA-LENGAS E SEGREDOS é indubitavelmente um trabalho muito bom, em que ressalta a qualidade e o equilíbrio gerais das composições.
Chico Buarque, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Júlio Pereira e João Loio - esse ilustre pouco-conhecido que certamente irá dar muito que falar - são nomes que à partida garantem qualidade, mas a escolha não se faz sem senso artístico e a boa interpretação não se realiza sem se viver realmente o que se canta.
E eis que, sem grandes alardes, quase sem se dar por isso, como acontecera com «DOCE DE SHILA», esta cantora canadiana apresenta mais uma vez um disco que será concerteza um dos melhores do ano.
Direi mesmo que Shila  como que parece um barómetro da música portuguesa, já que a evolução que se regista desde o anterior trabalho é um pouco a evolução que sofreu a nossa música popular.
Um passo de maturidade é como classifico «LENGA-LENGAS E SEGREDOS»; um passo de maturidade é o que espero vir a encontrar nos próximos discos, já anunciados, de alguns dos nossos autores mais representativos.
«LENGA-LENGAS E SEGREDOS» reflecte um refinamento de gosto, de compor e de direcção musical que parece ser o salto prometido por álbuns como «LISBOÉMIA» e «PANO-CRU».
Não posso, no entanto, deixar de estranhar a tentativa de recuperação de um tema medíocre do passado e admiro-me que, no meio de uma escolha tão criteriosa, se aceite «Já passei a roupa a ferro» com toda a carga ideológica negativa que encerra e mais ainda o seu significado quando a rádio do fascismo a meteu a ferros na cabeça de todos nós. Fugir ao popularucho é defender a música popular.
De resto, parece-me não ser de destacar qualquer dos restantes temas porque a reflexão e vivacidade se vão sucedendo ao longo do disco, sempre com um gosto criterioso, envolvendo compositores, intérpretes e músicos que mostram saber muito bem o que pretendem.
Em conclusão: um conjunto de temas de boa nota, bem interpretados, de que resulta um álbum MUITO BOM, qualidade a que não é alheia a mão de Júlio Pereira que fez o trabalho de direcção musical.
Octávio Silva




5.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (128) - Música & Som #78


Música & Som
Nº 78
Janeiro de 1983

Publicação Mensal
Esc. 100$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.


O Leitor Escreve
A Paixão Heróica Dos Anos 80
"What are we fighting for?"

Marianne Faithfull in "Broken English"
O Rock, nas suas díspares emoções, sempre se tem comportado como um movimento flexível, sujeito a amores fugazes, a modas estranhas, a ciclos destemidos, a concepções flutuantes. Quando o rock, nos primeiros anos da década de 70, se começou a disciplinar, tornando-se uma execução ritual de sons que assim haviam sido baptizados, a paixão generosa dos jovens achou-se momentaneamente órfá, sem a vocação de insubmissão que marcava o rock, como mais do que um qualquer movimento musical.
Assim, essa imagem enevoada a que ainda se chama rock (mais até por uma questão de definição), foi perdendo a inocência que os jovens movimentos loucos e nihilistas transportam. Ginsberg e Warhol, Velvert Underground e Jefferson Airplane passaram a fazer unicamente parte de um mito que alguns (já poucos) reverenciam e que a maior parte olha como se de uma cicatriz adiada se tratasse. O rock havia-se tornado uma indústria obcecada pela perfeição, gingando entre correntes amorfas e doentias (a primeira metade de 70 é de uma pobreza quase confrangedora) e opções que se identificavam com uma evolução negativa.
Quando em 1976 rebenta o fenómeno Punk, há finalmente a clara demarcação de eixos tendenciais da evolução da música. O Punk, mais do que uma sacudidela na saturação que o rock apresentava, foi uma opção, em termos de novas vias, para o percurso musical dos nossos dias. O Punk trouxe à música rock aquilo que ela há muito tempo já não conhecia: inquietação. Ignorou a harmonia, mas saudou o imediatismo rítmico. Mas, mais do que isso, trouxe-lhe o esclarecimento profissional que, curiosamente, havia sido a base de contestação sonora punk (é espantoso como um movimento que nasce nas ruas, de jovens sedentos, da recusa de tecnicistas, será hegemonizado pelos futuros tecnocratas que hoje pululam pelas maiores editoras conhecidas e dos quais Malcolm McLaren, no seu exotismo, é o mais conhecido).
No fundo, o punk estabeleceu novas opções, não só musicais, mas, fundamentalmente, traduziu-se em propostas inovadoras no savoir-faire comercial (vide as editoras que conhecem o seu salto, a Virgin e a Stiff, e a nova geração de "independentes" que se lançam no rescaldo do pandemónio punk), ao chocar com as concepções musicais dominantes nas editoras estabelecidas. Mas, a insubmissão punk (curioso como as suas "eminence grise" estão hoje no topo do universo musical britânico) durou pouco tempo. Depois disso, quase todas as bandas, estrangulando o movimento, se dirigiram para uma área bem mais frutuosa: o pop.
Não gostar, pelo menos minimamente, do som que hoje as ilhas britânicas produzem é um passo muito tentador, a que só os resignados defensores da geração hippie ainda têm a coragem de opor o dogma da nostalgia. É impossível resistir ao fascínio que emana das bandas pop de hoje e da sua ideologia (simples) de lazer e prazer. O nosso cepticismo face ao valor da simplicidade que elas nos trazem é o discurso possível para quem (como nós) se recusa cada vez mais a seguir unicamente os ímpetos racionais (não gostar) e se lança numa aproximação incómoda porque unicamente emocional (gostar). Mas isto é algo que geralmente se sente em cada meteórica pista de dança e que não ultrapassa a mera paixão idiota. Na verdade, a lírica pop é insípida e o seu imediatismo musical é esquecível a curto prazo. As suas propostas sedativas são trabalho excelente de produtores (Trevor Horn, Martin Rushent) e, cada vez menos, de músicos. Mas, as correntes pós-punk a que a sua raiz ainda consegue dar uma consistência mínima, debatem-se hoje com o pavor quase chocante de serem ultrapassados pela Moda. No fundo, na sua renovada arqueologia de um exotismo esclarecido, caem (ressalvando as diferentes causas e efeitos) nos erros que os esforçados (mas pouco convincentes) defensores do paradigma hippie também caíram: o serem ultrapassados pelas circunstâncias.
A crise, apesar de tudo, é visível, mas as distracções são ainda mais evidentes. Hoje já não se mete em questão a problemática da vanguarda musical e o pop é antes vocacionado para receber juízos apressados. Gosta-se e gasta-se. E é isso: crítica de música hoje (assim como o consumidor) já não pensa o que ouve (apenas julga que ama). Mas o nosso amor compreende, hoje, um período bastante restrito. O pop é de tal maneira efémero que surpreende como os discos vulgarmente designados de importantes se sucedem vertiginosamente nos nossos pick-ups. Hoje, a originalidade é algo que se procura incessantemente, através de rasgos de exotismo, geralmente desastrosos (vide os Modern Romance ou os Blue Rondo à la Turk). Felizmente, nos últimos dois anos, surgiram algumas propostas que ultrapassaram a banalização de sons gerada pela secura de opções com que se debatia o rock: o caso da Joy Division, dos Specials, dos Young Marble Giants ou, agora, de Rupert Hine, Peter Gabriel, Durutti Column, New Order ou Dexys prova que ainda existe encanto inovatório. O que não deixa de ser reconfortante...
Porque, não nos iludamos, o rock, hoje (sobre)vive através de um novo paradigma: a venda. Mas nem por isso é correcto falar apressadamente (e pejorativamente) de "comercialismo". O sempre honesto Kevin Rowland dizia, recentemente, que dava entrevistas porque estas eram razão sine qua non para vender os seus discos e que continuara  trabalhar para meia dúzia de iluminados não valia a pena, já que era necessário que todos conhecessem os seus trabalhos (e todos sabemos que assim deveria ser). O comercialismo tem sido um tabu que artistas (geralmente falhos de imaginação) sempre t~em combatido. E outro tabu, não menos incrível, é o da defesa das editoras independentes. E ambos têm servido enquanto alibi vulgarmente chamado de ideológico.
Tomemos o caso das "independentes" britânicas: a sua táctica é simples (descrevia há tempos um dos seus homens de ponta: uma mistura de Marx - analisar as movimentações de infra-estrutura - e de Maquiavel - como conseguir os tops e lá se manter). No fundo, muitos dos discos das independentes (vide Joy Division, Depeche Mode ou Yazoo!) vendem mais que os das grandes editoras (o único óbice é sua entrada nos tops normais é o sítio onde vendem). Ora, se se seguir a lógica (sedutora e, ainda que nos custe, correcta) de que tanto se suja as mãos com lucro, seja este muito ou pouco, vale mais aderir às grandes editoras. As "independentes" têm assim funcionado como verdadeiros indicadores de mercado, conseguindo lucro onde e como as "gtrandes" nunca conseguira (devido à sua estrutura burocrática e pouco adaptável a conjunturas que as ultrapassem), devido à sua elasticidade num mercado móvel como é o actual (ao contrário do que havia sido no período anterior à revolução punk). As linhas de força da compreensão do fenómeno rock residem hoje em como vender (segundo os modelos tradicionais ou segundo os alternativos) e em fazer produtos que resistem ao tempo, como abstracção possível da moda que hoje nos submerge. E é só isso que conta.
Dizia Malcolm McLaren que "um homem que se senta no seu escritório, vendendo discos, não é um homem muito criativo". E nós, pragmaticamente, não podemos deixar de concordar.
Fernando Almeida Sobral



Concerto de Peter Hammill
Para Além De Todas As Palavras

por Ana Rocha
Fotos: José Tavares

Há nomes que nunca mais se esquecem. Há figuras que se libertam da lei do esquecimento, pela qualidade das obras que transportaram a sua chancela. Peter Hammill faz parte desse Panteão de Heróis. Distancia-se do grupo de funcionários que faz música para vender, para entreter, para se escutar enquanto se deglute o almoço no snack. A sua música exige uma concentração total. Não é possível estar a ler um livro enquanto se escuta os VDGG. Uma actividade exclui a outra. Opta-se. Impreterivelmente.
Fazendo progredir a sua música, extirpando-lhe arremedos sinfónicos, Peter Hammill, muito inteligentemente, constrói música dos anos 80, mantendo-lhe no entanto uma dimensão muito pessoal (quase mística), sem ceder a modas e tendências de momento. É actual e moderno sem estar na moda. Soube terminar os VDGG num momento em que tal decisão se impunha. Soube encetar uma carreira a solo sem recorrer aos conceitos expressos nos LPs dos Van Der Graaf Generator.
O último concerto de Dezembro foi o seu. A temporada de 82 fechou-se com chave de oiro.
Milhares de adeptos dos VDGG e de Peter Hammill reuniram-se no Pavilhão de Alvalade para escutar ao vivo um dos mais interessantes músicos destes últimos 12 anos. E não saíram desiludidos. Interpretando temas dos seus três últimos LPs (PH7, Sitting Targets e Enter K), acompanhado por dois ex-Van Der Graaf Generator - na bateria Guy Evans, um veterano, e no baixo Nic Potter - e por um terceiro elemento vindo dos lados de Peter Gabriel, o guitarrista John Ellis, Peter Hammill agarrado à sua guitarra, seca e nervosa, envolto numa camisola com o Frank Sinatra gravado, a todos envolveu na sua aura de mistério e emoção, atingindo momentos de verdadeiro delírio num Pavilhão cheio de adeptos e convertidos. Três calorosos encores - por exigência do público, que nestas coisas, manda - terminaram uma actuação límpida e grandiosa.
A primeira parte foi preenchida pela actuação da Lena D'Água & Banda Atlântida, que, em tempo breve, interpretaram seis dos seus temas mais conhecidos do público. Deu direito a um encore.







Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. artigo sobre os Magazine, de autor não identificado
. artigo / coluna: Prosas de Fogo e Água - "O Rock e a Droga: Elogio do Quotidiano (2ª parte)"
. Discos em Análise:
.. The Durutti Column - «LC» [Factory VFACT 111-18], por Carlos Marinho Falcão
.. Kate Bush - «The Dreaming» [AMI IIC 078 64589], por Manuela Paraíso





2.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (125) - Música & Som #70


Música & Som
Nº 70
Fevereiro de 1982

Publicação Mensal
Esc. 100$00
Especial 5º Aniversário

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
72 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.


Nós,
Vistos Por... Nós

...
Calamity Mike, por Ana Rocha



Há pouco menos de dois anos, entrou uma criatura no camarim da Lene Lovich. Copinho de leite, de branco da cabeça aos pés, um cabelo cortado à escovinha, óculos de aros dourados pousados no topo de um grande apêndice nasal, em poucos segundos já estava a trocar impressões com a Lene. Essa cena ficou-me na memória. Não sabia quem era, nem donde tinha surgido. Passados meses, o João Gobern durante o concerto do Steve Harley apontou-me a mesma figura que, desta vez, ocupava um dos camarotes do Dramático de Cascais e informou-me de quem se tratava. Cruzávamo-nos em todos os concertos, enfardávamos a pastelada que nos punham à frente em cocktails para os órgãos de imprensa, sempre que se deslocava a Portugal alguma bandazinha da estranja, cumpríamos as tarefas de que éramos incumbidos (entrevistas e/ou reportagens). A dado momento, o MEC entrou para a M&S. De quando em vez via-o, no cinema, no teatro ou na revista, com uma pastazinha zelosamente transportada, circunspecto e delicado, de uma brancura imaculada, lábio grosso esboçando um sorriso aqui e ali, olho a brilhar por detrás da lente, algo macerado devido às vigílias, pensei eu.
O Chefe, entretanto, encomendou-me uma prosa sobre o MEC. Nessa noite, durante a reunião da redacção, eu sentia-me tão enevoada e ramelosa que não teria reconhecido o Mocas Jagger nú, do outro lado da porta. Daí que assenti, não disse nem ai nem ui, pensando que era apenas mais uma das brincadeiras do Big Brother & Holding Company. Não pensei mais no assunto, Passado este tempo todo, dizem-me que, afinal, era a sério. Eu comecei a consultar a minha memória e a de algumas pessoas que conhecem o MEC. Lembrei-me de uma bruta feijoada que dei há alguns meses chez moi onde compareceu a redacção em peso da M&S e onde o MEC, tal como os outros, se refastelou com o petisco. O Guilherme Valente dizia-me que o gajo era porreiro, muito competente e muito educado (Ó Mike por esta não esperavas tu!...). Nesse mesmo dia, o António Martinho dizia-me que tu dormias uma média de duas-três horas por noite. O Jaime, o Cowboy do Meio-Dia, contava-me que tu lhe aparecias lá na rádio com uns casacos indescritíveis, de xadrez, e com umas pantalonas igualmente excêntricas! E vinha-me à memória um artigo feito na altura da estada dos Police aqui em Lisboa no qual tu bramavas, todo escamado, por uma coisa que já não me recordo. Lembro-me que quando acabei de o ler, já estava com água pelos joelhos de tantas piadas...
Não sei mais que te diga. Até porque este tipo de prosas é sempre mais ou menos embaraçoso. Ou dizemos a mais, ou a menos, ou só dizemos aquilo que não era suposto dizer. Sei (e disso não tenho a mínima dúvida) é que, por detrás desse aspecto menineiro, esbranquiçado e imberbe, fervilha uma massa cinzenta que o está sempre a contrariar. Eh pá, scusa, porca miséria, a memória não dá para mais, também não queias mais nada, já agora era de uma cajadada, fazia-te o elogio assim do pé para a mão, e não falava da tua voracidade de pastéis e canapés, bolinhos e biscoitos, bem, não digo mais nada, arriverdecci...
Ana Rocha

...


Entrevista
Nós Estamos Muito Na Moda
Entrevista com Ana Da Silva (Raincoats)
por Ana Rocha



Foi num fim de tarde chuvoso que decorreu esta conversa com Ana da Silva, um dos elementos das Raincoats. Meditativa, pesando bem todas as palavras, escolhendo os termos que ia empregando, com um sotaque ilhéu, trigueira e risonha. Ana ia deixando cair as suas afirmações, sempre atenta e bem disposta. Na mesma mesa sentavam-se, de vez em quando, os dois responsáveis da Cliché, a editora do grupo aqui em Portugal.

M&S - A que se deve a tua estada aqui em Portugal?
Ana da Silva - Vim passar férias. A minha família é da Madeira. Estive cá a passar o Natal com ela. Venho cá pelo menos uma vez por ano. Além disso, tenho cá muitos amigos. Fiz amizades quando passei pela Faculdade de Letras.
M&S - Estiveste lá a fazer o quê?
Ana da Silva - Tirei o curso de Germânicas. Paguei o diploma, mas nunca o levantei!!! (risos).
M&S - Como é que se deu essa transição de licenciada em Germânicas para o campo da música?
AS - Sempre gostei de música. A certa altura resolvi ir viver para Inglaterra. Não tinha emprego... não havia aqui nada que me prendesse... Não podia fazer o que queria fazer. E como tinha lá amigos resolvi ir até Inglaterra para ver como era. Passada uma semana já estava instalada.
M&S - Isso foi há...
AS - Sete anos.
M&S - Estás então decidida a não regressar.
AS - Não tenciono vir para cá para Portugal. Lá faço aquilo que quero fazer. Encontro compensações. Tenho uma profissão de que gosto. Conheço pessoas do mesmo meio. Dou-me com elas. Com pessoas que fazem música.
M&S - Vives exclusivamente com o que te advém dessa actividade musical.
AS - Sim. Dá para viver. Não dá é para comprar carro (risos).
M&S - Passemos ao último trabalho das Raincoats. A pintura que vem na capa é do Malévitch. Como foi isso?
AS - Quer dizer... foi assim: no ano passado, durante a tournée que fizemos pela Europa, acontece que estava em Düsseldorf uma exposição do Malévitch. O poster era exactamente esse. Comprei-o e pu-lo na minha sala. Quando se chegou à altura de fazer a capa, nós tivemos grandes conversas sobre a capa. Que capa iríamos escolher? Pensámos que esa pintura talvez desse uma boa capa, pela sua simplicidade, pela força das cores alegres, pela combinação das cores... E depois, ela representava uma forma humana, nem declaradamente homem, nem declaradamente mulher. Era uma pessoa. Achámos que era giro. Não é muito costume a simplicidade ganhar uma força assim.


M&S - Então a escolha não teve nada a ver com o facto de Malévitch ser revolucionário...
AS - Bem, se o Malévitch fosse fascista não o teríamos escolhido por causa das conotações que isso teria!!
M&S - E o facto de ele ser russo disse-vos alguma coisa?
AS - Não. Nenhuma de nós é pró-russa. No primeiro disco pusemos uma pintura chinesa na capa. Poderíamos ter escolhido uma pintura de um americano ou de um francês...
M&S - O título do álbum, Odyshape, tem a ver com odisseia... forma...?
AS - A palavra não existe. Resulta de uma combinação de vários elementos: odd, que significa estranho, não aceite, body, que significa corpo e também tem a ver com odisseia... Forma de um corpo estranho... Odisseia de forma de corpo estranho... São jogos de palavras. Não é uma coisa consciente. Essa palavra era inicialmente o título de uma das músicas do álbum. Tirámos-lhe o título (ficaram só os bonequinhos a dar-lhe o nome) e pusemo-lo no álbum.
M&S - Alguém disse que tu eras uma espécie de Judy Collins desafinada. Que dizes a isto?
AS - Ah sim? Disseram isso da minha voz? (risos). Eu acho que não desafino! No disco parece-me que a minha voz não está lá muito desafinada!!!
M&S - Vocês têm uma intenção militante de carácter feminista nos vossos álbuns?
AS - Porque são mulheres a fazer uma coisa, as pessoas dizem logo que elas estão a fazer uma coisa feminista. As pessoas estão habituadas a que a mulher não faça outra coisa que não seja lavar pratos e tratar das crianças. Nós não tivemos a intenção de ser militantes quando iniciámos o grupo, mas acreditamos nas possibilidades da mulher de fazer outras coisas que não tenham a ver com o ser mãe. 'Tás a ver a diferença entre as palavras wife e woman?
M&S - Porque é que recorreram ao Charles Hayward dos This Heat e ao Robert Wyatt para as partes de bateria e percussão?
AS - A nossa baterista, a Ingrid Weiss, tinha saído do grupo. E como todas gostamos do Charles, resolvemos metê-lo no grupo. Ele fez uma tournée connosco em Inglaterra e na Europa. O Robert está mais ligado à percussão. Também gostamos muito dele.
M&S - Tem sido afirmado que vocês têm uns cheirinhos a Velvet Underground.
AS - Bem, talvez isso se deva ao facto do nosso som de violino. É um som hard. A palavra em português não seria duro... Emprega-se a mesma nota durante bastante tempo. Talvez isso dê uns ares do John Cale. Mas a nossa violinista nunca tinha ouvido os Velvet Underground. Da nossa baterista de outrora, a Palm Olive, falava-se das semelhanças entre ela e a Maureen Tucker, mas isso deve-se ao facto de serem ambas mulheres. Qualquer delas não toca na tradição masculina. São originais. Embora haja homens a tocar bateria de maneira original, o som delas é diferente. Também têm dito tanta coisa das Raincoats... Há quem encontre semelhanças entre o som das Raincoats e o da Incredible String Band! Outros dizem que o nosso som tem a ver com o reggae...
M&S - Há quem diga que a vossa música «Only Loved At Night» tem a ver com melodias dos Andes. Outros dizem que esse tema inspira-se em melodias dos Himalaias. É mesmo?
AS - Nenhuma de nós ouve música indiana. Portanto, não me parece acertado isso. Nem conhecemos a música dos Andes ou dos Himalaias. Não faz parte das nossas coisas favoritas.
M&S - E que música é que faz parte das vossas coisas favoritas?
AS - Cada uma de nós tem as suas preferências. Eu ouço os Velvet Underground, a Nico... Quando me apetece escolher discos além destes, também vou para os Beatles.
M&S - Ouviste este último álbum da Nico, Drama In Exile?
AS - Não. Há sempre tanta coisa para ouvir... Gosto muito de álbuns anteriores da Nico... Desertshore, The Marble Index, The End, Chelsea Girl...
M&S - Achas que a música das Raincoats poderia ser designada por primitiva? Primitiva no sentido de procurar partir da base, de regressar às origens... não no sentido de ser rudimentar...
AS - Talvez por ter partes étnicas. Talvez por utilizar instrumentos doutros países que não são instrumentos eléctricos. Instrumentos sul-americanos, africanos, indianos. As melodias soam diferentes. Cada instrumento está a tocar coisas diversas, mas todos se encontram.
M&S - O termo música experimental seria mais adequado?
AS - Não é bem esse o termo que eu gostaria que fosse aplicado. Gostaria que houvesse outra palavra para classificar a nossa música. Se uma pessoa está a fazer uma coisa original, até certo ponto está a a fazer algo experimental, porque está a fazer uma coisa que ninguém fez antes.
M&S - Portanto, sem ser o termo experimental...
AS - A música experimental tem a ver com esquemas. É uma música mais racional. A nossa música é racional e emotiva, também. Isso deve-se à energia que nós pomos na música.
M&S - Vocês revezam-se com os instrumentos. Porquê?
AS - Tocar guitarra a vida inteira seria muito aborrecido. Compreendo que haja aquelas pessoas que pensem que é esse o caminho para se aperfeiçoarem. Eu nunca fui uma pessoa disciplinada para ser só uma coisa... só pintora... só qualquer coisa... Gosto de escrever as letras, compor. Existe um Livrinho Verde sobre as Raincoats. Fui eu que o fiz. Fiz os desenhos, escrevi os textos à máquina, levei-os para serem impressos, fiz a promoção do Livro e vendi-o para pagar as despesas.
M&S - Esse livrinho verde é uma alternativa ao Livro Vermelho do Mao Tsé Tung?!!!
AS (risos) - Não! É verde porque eu gostei da cor da cartolina! Não tenciona ter tantas propostas de sociedade como o livro do Mao! Deu-me gozo fazer a parte artística. Fiz tudo. Dobrei as folhas, pus os agrafos. Acompanhei o Livrinho Verde do princípio ao fim. Há certos grupos que não se preocupam com as capas dos seus discos, estão-se nas tintas para as editoras, para a promoção... Nós não somos assim. Gostamos de nos dedicar a diferentes tarefas.
M&S - Dentro da cena musical inglesa, em que lugar é que vocês se colocam?
AS - Para dizer a verdade, nós estamos muito na moda!!! (risos). As pessoas gostam de nós por razões mais profundas do que seria de pensar. Isso não tem a ver exclusivamente com os discos, com a nossa música. Os discos, no fundo, ouvem-se duas ou três semanas e depois? O facto de as pessoas gostarem de nós tem a ver com o aspecto musical e com aquilo que apresentamos. Tem a ver com os nossos concertos, com tudo aquilo que fazemos. As modas vêm e vão. Agora são os Spandau Ballett e os Duran Duran... Mas nós não fazemos parte dos conjuntos comerciais.
M&S - Mas vocês gostavam de ter mais sucesso comercial ou não?
AS - Nós gostamos daquilo que estamos a fazer, embora, é claro, gostássemos de vender mais. Penso que, de qualquer maneira, conseguimos atingir o público.
M&S - Esperavam ter uma boa receptividade aqui em Portugal?
AS - Esperava um bocadinho.
M&S - Achas que essa receptividade se relaciona com o facto de haver uma portuguesa entre as Raincoats, ou seja, por seres uma portuguesa no meio de inglesas?
AS - Pode ser que isso tenha tido alguma influência. Os Young Marble Giants não têm nenhum elemento português e também têm tido um bom acolhimento. É claro que as pessoas pensam sempre: há um português lá, deve ser uma porcaria! Se é portuguesa, deve fazer só porcarias! Mas infelizmente as Raincoats têm tido sucesso em Inglaterra. Entre os conjuntos independentes, temos um bom lugar.
M&S - Vocês têm feito muitos concertos para promover o disco?
AS - Não só para promoção do disco. Nós gostamos de tocar ao vivo. O trabalho de estúdio é mais um trabalho de construção. O tocar ao vivo é mais aquela imediatez, aquele contacto directo.
M&S - Vocês estão a pensar vir até Portugal para um concerto?
AS - Em Fevereiro.
M&S - Vocês, ao que consta não tocam em salas muito grandes.
AS - Temos tocado em salas pequenas. Preferimos fazer vários concertos para um número reduzido de público do que tocar para 4000 pessoas numa grande sala.
M&S - Muitos meses decorreram entre o vosso primeiro álbum e este segundo, Odyshape. Bastante mais de um ano. Em relação ao próximo álbum, vai decorrer assim tanto tempo?
AS - Nós somos um bocado vagarosas. Este ano, entre Janeiro e Junho, a nossa viola esteve a acabar o curso de arte. Estivemos seis meses sem trabalhar. Temos andado a actuar em espectáculos ao vivo. Muitos dos temas tiveram de ser reescritos. As músicas que tinham sido escritas para o álbum tiveram de ser modificadas, porque não podíamos estar a tocar aqueles instrumentos todos ao mesmo tempo.
M&S - Há um outro conjunto feminino ao qual o vosso nome tem sido associado, as Slits. Vocês são amigas?
AS - (reticente) Nem por isso. Conhecemos as Slits. Tivemos uma baterista em comum. Elas vivem na mesma área que nós. Mas a música das Slits é diferente da nossa. Uma delas não fala com toda a gente... Mas isso é já entrar na coscuvilhice! (risos). A nossa violinista tocou numa ou duas músicas delas. Já tocámos no mesmo concerto aí umas três vezes juntas.
M&S - Ficamos a aguardar a vossa vinda a Portugal em Fevereiro.


Foi nestes termos cordiais que se desenrolou o encontro. A Ana da Silva é impec. (Impecável, ó manos!). As Raincoats são uma das bandas mais interessantes da secular Albion. Só nos resta contar ansiosamente os dias até à actuação delas aqui em Portugal.

Ana Rocha

 

Entrevista Exclusiva
Peter Hammill
"O Sobrevivente"

Texto e Fotos: Júlio Ferreira Antunes e Jean-Michel Dupont



Devemos sempre desconfiar dos «a priori».
Muitos jovens de hoje enviaram sem remissão um tipo como Peter Hammill na caravana sinistra dos velhos heróis caídos em desgraça.
No entanto, o nosso cientista não parou ainda de evoluir desde o dia em que - faz doze anos - se lançou na cena musical...

M&S - Poderás dar uma ideia de ti mesmo que seja ao mesmo tempo paralela a músicos da tua geração como por exemplo Peter Gabriel ou Robert Wyatt?
PH - Músicos como Gabriel, Wyatt ou ainda Bowie ou Fripp considero-os como sobreviventes e, por conseguinte, considero-me eu mesmo também um sobrevivente. Há dez anos que fazemos música e, creio, até hoje esse foi o nosso único objectivo. Fazer música, e não por exemplo transformar-se em estrelas.
M&S - Tenho a impressão que se todos vocês são sobreviventes é porque a um dado momento houve uma mudança na vossa carreira, uma evolução digamos...
PH - Mas justamente, a condição principal para ser um bom sobrevivente é ter um espírito aberto e em evolução perpétua.
M&S - É curioso constatar que Peter Gabriel, Fripp e tu mesmo que eram por assim dizer os leaders de grupos enormemente melódicos e com vastas influências de uma certa forma de classicismo tenham mudado subitamente, e procurado simultaneamente uma carreira a solo caracterizada ao mesmo tempo pelo carácter experimental e grandemente influenciada pela procura electroacústica...
PH - Divagar no clássico foi interessante, mas aconteceu que a um dado momento nos encontrámos com uma música exageradamente pomposa. Foi aí que realizámos que nos estávamos a afastar da nossa vocação de artista, do músico popular e da música do momento. É claro que podemos falar de coisas sérias como a emoção, o Mundo, a sociedade, mas é preciso saber ficar acessível.
M&S - O trabalho de Fripp está no entanto longe da chamada música popular...
PH - Para sobreviver é preciso guardar sempre um certo sentido de humor, e mesmo se o Robert parece muito sério, ele esconde no entanto um grande espírito humorístico.
M&S - O que é certo é que ele pratica humor a um grau de tal maneira elevado que acabamos obrigatoriamente por não saber muito bem onde estamos...
PH - Sim, é verdade que «a priori» ele não será dos mais acessíveis mas, quando me refiro a ele, a Gabriel, a Wyatt ou a mim mesmo na condição de músicos populares, refiro-me no entanto a uma música do futuro, uma música popular que eu desejo e que não é forçosamente aquela que escutamos actualmente nos charts e que é, essa sim, inteiramente imediata.
M&S - Como é que se passam as coisas quando escreves?
PH - O que me apaixona na poesia é a emoção que se liberta de repente, fortuitamente, quer a sensibilidade tenha sido provocada por uma situação normal quer por um filme ou um concerto...
Por exemplo «Strange Still» foi escrito uma manhã em Paris enquanto tomava o pequeno-almoço num café.
M&S - E como é a nível de sensibilidade? Segues uma certa linha ideológica ou pelo contrário generalizas essa mesma sensibilidade?
PH - Para quem escreve, mudar é absolutamente necessário. Ter diferentes experiências e encará-las cada dia de uma maneira diferente torna-se essencial.
M&S - Qual é a tua opinião em relação aos acontecimentos de 77?
PH - Em 77 chegou-se a qualquer coisa de académico. É fantástico ver que imensos grupos se puderam formar, as estruturas tornavam-se menos pesadas mas... ao mesmo tempo o «business» fica.
Houve uma revolução, novas caras apareceram, mas... o negócio continua.
M&S - Em relação às novas caras, quais as que mais aprecias? The Cure, UB40, The Beat, Specials... O que é que te seduz num grupo como The Cure por exemplo?
PH - Força, paixão, honestidade... Mas é difícil dizer verdadeiramente porque é que gostamos de um grupo.
M&S - Sabes que John Lyndon é um dos teus admiradores?
PH - Sei. Sobretudo dos últimos álbuns a solo. Há imensa gente em Inglaterra que nunca ouviu falar de Van Der Graaf. Creio que ele gosta dos meus álbuns por causa de uma certa honestidade e pureza existentes, e também pelo seu carácter experimental.


M&S - Qual é a tua opinião sobre o seu trabalho?
PH - Digamos que gosto mais ou menos de metade daquilo que Lyndon faz. Sabes, quando é músico, e conheces bem a maneira de como um disco é feito é difícil de dizer objectivamente o que pensas porque apesar de tudo e contra a tua vontade tens tendência a dar atenção aos detalhes técnicos.
M&S - O que pensas duma personagem como Johnny Rotten?
PH - Bem, como eu tenho uma vida privada bastante grande, tenho sempre uma enorme dificuldade em conceber que certos artistas possam viver quase eternamente sob o olhar do público. Não é por acaso que John mudou de repente e deu o nome de Public Image ao seu novo grupo.
Pessoalmente, no aspecto de vedetismo não tenho grande experiência, mas penso que se ao fim de doze anos passados posso continuar a dar concertos é porque em parte nunca tive uma verdadeira imagem pública.
M&S - Sei do teu projecto para a realização de uma ópera. Queres falar um pouco sobre ele?
PH - Bom, é um projecto que dura já há nove anos, que se vai concretizando de ano para ano e demorará ainda uns dois anos a ser terminado.
M&S - E fala de quê?
PH - Ah! Para falar disso prefiro esperar que esteja terminado.
M&S - E a instrumentalização utilizada será de que género?
PH - Actualmente ainda não sei. Neste momento ainda só as vozes e as partes de piano estão compostas. Quanto ao resto tanto poderá meter cordas, um grupo rock ou ainda música electrónica.
M&S - Para acabar, não achas que a tua música se «endureceu» um pouco neste último álbum?
PH - Sim, é verdade. Tentei também compor temas mais simples, quer dizer, temas que sem serem comerciais serão de maior impacte.




Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. Nós, Vistos Por... Nós - artigo em que cada escriba da revista escreve sobre outro - excerto acima.
. Salada à la Tulipa (Segundo Lena dos Vinhos) - artigo sobre os Salada de Frutas, de Célia Pedroso
. Tom Robinson - Adoro o Amadorismo - entrevista por Fernanda Ribeiro
. Discos em Análise:
.. Led Zeppelin - «Physical Graffiti» [Swan Song Ss 89400], por Carlos Marinho Falcão
.. Klaus Doldinger Passport - «Oceanliner» [Rádio Triunfo ATL G 50688], por Fernanda Ribeiro
...&Som, por Hermínio Duarte-Ramos
- Reflexões Sonoras e Surdas






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