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28.12.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (136) - Música & Som #101


Música & Som
Nº 101

Março de 1985
Publicação Mensal
Esc. 150$00




Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Matos, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, José Guerreiro, José O. Fernandes, José Rúbio, Luís Maio, Manuel José Portela, Manuela Paraíso, Nuno Infante do Carmo, Pedro Cardoso, Pedro Ferreira e Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 20 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4 + suplemento/destacável Computadores... & Vídeo (16 páginas) - Nº 2
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.

Conversa Com Gira-Discos (10)
FLAK - Rádio Macau
Intérpretes: Flak, Discos, Gira-Discos, Nuno Infante do Carmo



Flak. É o guitarrista dos Rádio Macau. 23 anos. Em tempos foi baterista, andou metido numa série de grupos, sem consequências de maior. Depois, Rádio Macau. Prémio revelação da crítica M & S, em 84. Numa destas tardes, aconteceu mais uma «conversa com gira-discos». Flak compareceu e do que então se disse segue o resumo.

1. Beatles - «Hey Jude»
M&S - Se não conheceres esta, tenho muita pena mas não há «conversa com gira-discos». Ou identificas, ou o resto do papel vai em branco.
Flak - Claro, são os Beatles.
M&S - Temos conversa. Conheces estes rapazes há muito tempo?
F. - Os primeiros discos que me ofereceram foram singles dos Beatles, uma série deles.
M&S - Que me dizes deles?
F. - No campo melódico e a nível de arranjos, foram os mais ambiciosos dos anos 60. Actualmente, tudo o que se faz nesse campo parte deles. E, aí, fez-se diferente, mas não melhor.
M&S - Ainda os ouves?
F. - Em casa, de vez em quando, ainda os ouço, sobretudo os álbuns «Sgt. Peppers», «White Album» e «Abbey Road». Eles ainda me tocam, embora não goste de tudo, há discos que não me interessam mesmo nada.
M&S - Cá por mim, estou interessado em que ouças o disco seguinte. Vamos a ele.

2. Lou Reed - «Walk On The Wilde Side»
F. Quem será? (E riu-se).
M&S - Boa pergunta: quem será?
F. - É um dos meus músicos preferidos, desde o tempo dos Velvet. Gosto sobretudo dos álbuns «Berlin» e «Transformer». Ouço-o sempre com o mesmo prazer.
M&S - Tem conseguido sobreviver ao longo dos anos...
F. - Lou Reed sempre teve uma onda que pode ser actual. Desde os anos 60 até agora, ele não ficou preso numa determinada época. A música e a temática têm a ver com uma vivência universal.
M&S - Ainda hoje muitas bandas acabadinhas de nascer o adoptaram...
F. - As pessoas sentem-se identificadas com o trabalho dele. Por isso, sobreviveu e influencia tantos grupos, ao contrário por exemplo dos «hippies» ou dos «sinfónicos», que passaram... Por outro lado, há a expressão. Eu vejo a música mais pela perspectiva que as pessoas mostram ao fazê-la do que pelas qualidades técnicas e musicais que exibe. Não me interessa o tipo que dá mais notas. Se puder dar três notas e a coisa resultar, será decerto melhor do que se der 10 ou 50. E Lou Reed é isso, um tipo directo que transmite uma personalidade enorme.
M&S - Se assim é, nada mais a dizer. O seguinte.

3. Bauhaus - «Third Uncle»
F. - (Seis décimos de segundo depois da faixa ter começado:) - Hum, Bauhaus!... Isso é muito mais que música!...
M&S - Como assim?!?
F. - Aqui há tempos, vi um vídeo deles com várias músicas e fiquei impressionado com a força do grupo, força musical e teatral.
M&S - Já que pegas no vídeo, diz-me uma coisa: como vês essa autêntica videomania que por aí grassa?
F. - Em primeiro lugar, direi que a música deve ter valor só por si. O vídeo deverá reforçar o que ela sugere. Isto é, um tema pode sugerir certo ambiente ou certo estado de espírito que o vídeo pode completar, tentando captar o «feeling» da música por imagens. Agora, detesto esses vídeos comerciais como acontece com a maior parte das vezes com historiazinhas lamechas. Apenas se destinam a incutir, o mais rapidamente possível, determinado tema entre o público.
M&S - O.K. Voltemos agora à vaca fria. Isto é, aos Bauhaus. Atingem-te em cheio, não?
F. - Tal como no caso do Lou Reed, o que me interessa aqui é a força, a personalidade que nos é transmitida. A música pode não ser bonita e imediata, mas é para se sentir.
M&S - Sinto que está chegada a hora de trocar de disco.



4. Culture Club - «Dangerous Man»
F. - (Após alguns momentos de escuta:) - Não sei.
M&S - Culture Club.
F. - É música de consumo imediato. O contrário dos Bauhaus. Desta só gosta quem entra no espírito: daquela, é fácil, pois funciona como a pastilha elástica. Bandas como Culture Club têm uma preocupação fundamental: vender ou não vender. Sabem que para vender tem que produzir música com determinadas características. E tudo o resto passa para plano secundário. Pessoalmente, não me incomoda ouvi-los, mas é a tal coisa: entra por um ouvido e sai por outro.

5. This Mortal Coil - «Song To The Siren»
M&S - (Ante a demora:) - Vai ou não?
F. - Já ouvi, mas não sei o que é.
M&S - Uma opinião curta e concisa...
F. - Também tem a tal força de que falávamos.
M&S - Gostas?
F. - Sim, sim.
M&S - É o projecto This Mortal Coil, com músicos de várias bandas. E há também a voz: a senhora Elizabeth Frazer, dos Cocteau Twins. Já agora, que falamos de vozes femininas, vocês preferiram uma para os Rádio Macau. Alguma razão especial?
F. - Já nos conhecíamos há muitos anos. Começámos a tocar juntos (o Alexandre, a Chana e eu), numa altura em que ainda não pensávamos nos Rádio Macau. A partir daí, ela sempre cantou connosco.
M&S - Continuamos com as vozes femininas. Digo-te alguns nomes, tu abres a boca e dizes a primeira coisa que te passar pela cabeça. Está feito?
F. - Vá.
M&S - Janis Joplin.
F. - Teve a sua época. Grande «feeling» para os blues. A cantar daquela maneira não podia durar muito.
M&S - Aretha Franklin.
F. - Não sou muito virado para a música negra. Tudo isso do funky e do som Motown passa-me ao lado.
M&S - Chana.
F. - Tem as suas características a cantar. Tem a sua própria personalidade. Não é a chamada voz banal. Tem o seu timbre, desenvolve um estilo próprio.
M&S - Façamos pausa neste assunto. Mais um disco.

6. U2 - «Pride (In The Name Of Love)»
F. - (Imediatamente) U 2!
M&S - E depois?
F. - Uma banda que já influenciou dezenas ou centenas de outras. Criaram um som. Pode falar-se do «som à U 2».
M&S - Como guitarrista, algo que te excite em particular?
F. - Sim, utilizam a guitarra de uma forma completamente diferente da do rock tradicional.
M&S - Estamos com a mão na massa. Aproveitemo-la: como guitarrista, que pretendes na tua lavra?
F. - Também tento o mais possível cortar com esse uso tradicional. Não me considero de maneira nenhuma um tecnicista. Interessa-me, isso sim, que distingam o meu som do dos outros, fugir a qualquer tipo de «standard».
M&S - Disseste há pouco que U 2 era influência para muita gente. Também para a Rádio Macau?
F. - Claro que ouço U 2, mas não posso dizer que seja influenciado directamente por este ou por aquele grupo. Sou influenciado por tudo o que me rodeia.
M&S - Bom, se me permites, vamos agora aos portugueses.

7. Ban - «Alma Dorida»
F. - Sou amigo dos tipos...
M&S - Certo. Partindo do princípio que identificas perfeitamente os teus amigos, ficamos de acordo: são os Ban. Posto isto, queria uma palavrinha acerca deste trabalho.
F. - Como te digo, sou amigo deles e não gostaria de ferir ninguém, mas penso que têm um problema que é comum a 80 ou 90 por cento das bandas portuguesas: falta-lhes uma boa voz ou, pelo menos, uma voz que soe tão bem quanto a música.
M&S - Uma vez que estamos em presença de uma banda portuguesa de formação recente, talvez não fosse má ideia dizeres-me qualquer coisa acerca do panorama actual...
F. - A falta de motivação é o grande problema. Há pessoas com boas ideias, mas apanham com todas as portas fechadas: não podem gravar, concertos não há (ou são poucos, ou mal pagos, ou nem isso). E assim, por muito boas intenções que haja, perde-se a motivação. As ideias acabam por não se desenvolver.
M&S - A coisa está preta...
F. - Nunca houve gente com tão boas ideias como agora. Mas não sei até que ponto se poderá aguentar isto. Não se pode viver só de intenções.
M&S - Aponta-me algumas bandas fortes...
F. - Sétima Legião, Croix Sainte, Mler Ife Dada... já houve mais do que neste momento. Das antigas, os Xutos & Pontapés, ao vivo. E digo ao vivo porque eles têm um som demasiado forte para que possa ser passado em condições para disco, pelo menos em Portugal. Por outro lado, diria ainda que há várias bandas interessantes, que todavia deitam tudo a perder com maus vocalistas. Devia haver mais cuidado com o aspecto vocal.
M&S - Há pouco falámos de vocalistas: agora, voltámos. Diz-me nomes de alguns dos teus preferidos.
F. - Lou Reed, Ian McCulloch, Bono, Peter Murphy, David Bowie, Bryan Ferry e alguns outros que agora não me vêm à cabeça.

8. Sérgio Godinho - «Com Um Brilhozinho Nos Olhos»
F. - É o Sérgio Godinho. Gosto bastante das coisas que ele faz.
M&S - Numa área musical bastante afastada da vossa...
F. - Não acho que seja tão afastada como isso. Temos a mesma língua, cantamos em português. Logo à partida estamos, pois, mais próximos dele do que tantos outros.
M&S - Porquê a tua admiração pelo Sérgio?
F. - Voltando aos vocalistas, dir-te-ei que muitos começam por cantar em inglês. E depois passam a cantar em português, precisamente da mesma forma. Dá buraco. A língua tem características próprias que precisam ser respeitadas. O Sérgio, de certo modo, mostrou isso. Por outro lado, gosto muito do que ele escreve. Aliás, no mesmo campo, não poderei esquecer o José Afonso, sem dúvida o nome mais importante: um grande poeta, um grande cantor, um grande melodista. É curioso que ainda há dias ouvi o álbum «Cantigas do Maio», já com uns doze, treze anos, e verifiquei que, apesar de todo este tempo decorrido, não se voltou a fazer em Portugal nada tão bom como aquilo.
M&S - Podemos agora passar ao disco seguinte, ainda em português.

9. UHF - «Vôo para a Venezuela»
F. - UHF. Uma banda que surgiu no «boom» do rock, com características diferentes de todas as outras. Não gosto da voz, acho péssima. Pensei que o grupo evoluísse, mas não passou daquilo. Uma banda assim, não me diz nada. Penso que quando um grupo se mantém ao activo durante muitos anos, tem que evoluir.
M&S - Mas teve a sua importância, pelo menos?
F. - Sim, mas estagnou.

10. Xutos & Pontapés - «Sémen»
F. - Xutos, não é?
M&S - E Pontapés, também.
F. - Gosto bastante.
M&S - E depois?
F. - A única banda portuguesa verdadeiramente rock, no sentido que se dá a isso. Querem tocar: se gravarem, gravam, mas não fazem depender disso a sua vida. Só que, é uma banda que, como disse há pouco, com as condições de gravação existentes por cá, só resulta ao vivo. É um problema geral: todas as bandas com muita energia perderam-na na gravação. Não há cá técnicos e produtores que consigam captar essa energia dos espectáculos para o disco. Em Portugal, só a música calminha é que é bem captada.
M&S - Rádio Macau também se sentiu prejudicado por isso no elepê?
F. - O nosso disco falhou completamente nesse aspecto. Esperemos que não aconteça com o próximo. No álbum, as letras e as melodias estão lá, mas a energia não. Infelizmente.



11. Paulo de Carvalho - «Abracadabra»
F. - É o Paulo de Carvalho.
M&S - É o Paulo de Carvalho.
F. - Toda a gente diz que é uma excelente voz. Por mim, não me identifico com a música. Merece o meu respeito, mas não me diz nada.

12. Heróis do Mar - «Saudade»
F. - Os Heróis.
M&S - Cuidado: não quaisquer; mas os do Mar.
F. - Pois.
M&S - Pois.
F. - (Coça a Cabeça:) - Pá...
M&S - Sim, sou todo ouvidos.
F. - Não sei o que diga.
M&S - Eu também não sei o que ouça.
F. - Acho que têm também o tal problema: a voz. Canta mal, o vocalista. Mas por outro lado utilizam uma estética que abomino completamente: fazem-me lembrar a Mocidade Portuguesa.
M&S - E a música?
F. - São bons músicos. Uma das poucas bandas que, em Portugal, tira bom som, ao nível de muitas estrangeiras do mesmo estilo. E bom gosto nos arranjos.
M&S - Pronto, estamos arranjados. Terminamos por aqui.



A Noite Da Capital
por Luís Maio. Fotos: Eduardo Bayão.

Por definição, a vida urbana manifesta-se como instância do artificial. Não obstante, por razões de funcionamento e de economia o seu fluir obedece às categorias mais básicas do ritmo natural. Há o dia e a noite, e há a acção produtiva e o lazer. O trabalho é circunscrito ao tempo diurno, assim como à distribuição é reservada ao tempo nocturno.
A natureza racial e cultural dos portugueses arrasta-os na obcessão da produtividade, logo, também da temporalidade diurna. O português reduz-se voluntariamente ao estatuto ontológico de artífice, labutando das 8 às 5; nessa medida, o entretenimento surge-lhe como uma modalidade de ser alternativa e antagónica e a noite, como seu complemento temporal, aparece-lhe como algo a esvaziar de todo a significação. Por isso, ele não reconhece formas de prazer superiores às que respeitam a sua subsistência como entidade produtiva; por isso, ele vê a noite como uma coisa estranha e a abater; em suma, para ele, 'prazer' é sinónimo de 'comer' e 'dormir', e a noite o tempo em que se efectuam essas acções secundárias. Isso mesmo se comprova, examinando a vida nocturna da capital.



A - Dias Úteis
20h/22h - Ruas e transportes públicos razoavelmente preenchidos; há ainda cafés, restaurantes e cervejarias abertas, mas, regra geral, com poucos ou nenhuns clientes; quanto às salas de espectáculos, elas estão invariavelmente vazias ou mesmo encerradas. Composição média da população na rua: gente que sai tarde dos locais de trabalho e estudantes trabalhadores.
22h/24h - Fecho quase integral de estabelecimentos de diversos tipos, abertura de uma minoria de lugares exclusivamente destinados à diversão. As ruas vão-se despovoando, a não ser nas proximidades dos locais de funcionamento nocturno. Composição da população na rua: marginais, bêbados, drogados e, de um modo geral, os solitários e as pessoas que não se sentem integradas no seu ambiente familiar.
24h/2h - Fecho gradual dos locais nocturnos e termo das carreiras dos veículos de transporte público. Também as criaturas da noite vão regressando a casa, e a cidade, vista do exterior, é como se tivesse sido abandonada.

B - Fim-De-Semana
20h/22h - Ruas e transportes públicos com alguma animação, tal como cafés, restaurantes, cervejarias e locais de espectáculo. Composição da população na rua: uma parcela reduzida da população diurna, sendo os seus extractos sociais variáveis consoante as zonas da cidade.
22h/24h - Encerram quase todos os estabelecimentos e locais de espectáculo de simultâneo funcionamento diurno, abrem os locais nocturnos usuais. A população: recolhem aos lares os cidadãos respeitáveis com mais de 30 anos, ficam os filhos com licença de saída, mais os boémios inveterados.
24h/2h - Estabelecimentos como bares e boites, que legalmente encerram às 2h, no fim-de-semana, estendem o seu período de abertura até às 4 horas. População: os putos voltam para casa, só ficam os foliões (os que, por exemplo, com atraso ou não, celebram aniversários ou casamentos), e os que de semana estão cá fora às 2 horas. Mas, como é usual, as ruas são um desolado espectáculo de ausência.
É, pois, um desastre completo o panorama nocturno da cidade de Lisboa. De noite, a sua vida limita-se à do número ínfimo de estabelecimentos que se mantêm abertos. Na sua maior parte, essas casas situam-se no coração da cidade velha, o Bairro Alto. Nessa medida, será desse oásis no deserto da noite lisboeta que nos iremos ocupar. Visto que escrevemos numa revista de música, a nossa atenção irá centrar-se nos locais em que a música ou o público musical desempenham parte activa.

I. Bares
Frágil - Rua da Atalaia, 126
Características:
Espaço: três salas, uma das quais de entrada, ambientes diversos; a distribuição do espaço metamofoseia-se consoante os espectáculos do momento; no total, cerca de 180 metros quadrados. Horas de abertura e fecho: 22h/3h. Bebida da casa: cocktail frágil, com whisky, gin e sumo de limão. Música: nos espectáculos ao vivo pontua a música de cabaret, por exemplo, a de Luís Madureira e Anamar; os discos passados dizem respeito à música anglosaxónica menos imediatista; neste momento: David Sylvian, Smiths, Dead Can Dance, Dream Sindycate; o critério do disco-jockey: «passar música que se saliente pela batida, mas, principalmente, pela qualidade dos textos».
Apreciação:
Desde a sua abertura, em finais dos anos setenta, o Frágil ocupa um lugar muito específico e sem equivalentes na vida nocturna lisboeta. É aí que se encontram, assídua ou ocasionalmente, as figuras mais eminentes das letras e das artes da capital. Há de tudo um pouco: de estruturalistas autorizados a escritores de inspiração duvidosa, de génios cinematográficos a starlets da locução televisiva, de cantores de nomeada a músicos incompreendidos.
Reflexo da própria realidade cultural do país, o Frágil é um estabelecimento em que fenómenos como o calor humano e a excitação colectiva raramente são acontecimento. Aí, a moeda de troca no intercâmbio comunicativo são a ostentação e a gestualidade afectada. Vivendo de eufemismos, a clientela não vale o estabelecimento que frequenta.

«99» - Rua da Barroca, 99
Características:
Espaço: cerca de 40 m^2, duas salas pequenas, uma com piano e lareira; horas de abertura e fecho 22h/2h. Bebida da casa: '99' com gin e sumos naturais; Música: espectáculos ao vivo em duas modalidades: dias úteis/música ambiente, fim-de-semana espectáculos variados; em Janeiro, nos primeiros, o pianista Mário Jorge, no segundo, o duo de guitarra João Balão/Rui Padinha; a música gravada vai do jazz à música brasileira, passando pelo rock dos Doors e de M. Faithful.

Apreciação:
Nos outros itens, referimos estabelecimentos com que se identificam, de modo mais ou menos assumido, certos grupos etários da noite lisboeta. Mas, no Bairro Alto, há toda uma série de outras casas não conotadas com qualquer elite particular, onde é possível encontrar todo o tipo de pessoas. Abrindo as portas a um público diversificado, estes lugares são bastante mais despersonalizados, tal, como o demonstra o surtido musical que neles se pode escutar.
O «99» é um bar, entre muitos outros, que se ajusta a esta descrição. É um sítio onde se vai, quando se quer ir a um bar e não se tem uma ideia muito definida; onde se vai, como se poderia ir a outro lado qualquer. É também o género de bar onde se podem encontrar aqueles que vão usualmente a um outro lugar dos mencionados, mas que o preferem quando não podem ou não querem ser vistos.

II. Discotecas
Juke Box - Rua do Diário de Notícias, 60
Características:
Espaço: para o público, uma sala, com pista de dança e bar, cerca de 55m^2. Horas de abertura e fecho: 22h/2h.Bebida da casa: absinthe. Música: as novidades mais recentes dentro do chamado 'rock da frente'; neste momento: Tones on Tail, The Pookah Makes 3, SPK, Art of Noise, Sade, Swans Away. Critério de escolha do disc-jokey: «passar rock de vanguarda, apesar de fazer concessões ao tipo de música que se come e consome, a música que normalmente se ouve nas discotecas».

Apreciação:
De alguns anos a esta parte, o ponto de encontro de uma certa minoria juvenil que se reclama marginal em relação às formas de vida mais usuais na nossa sociedade. O tempo carismático de uma adolescência que se quer diferente por fazer do rock de vanguarda o seu cavalo de batalha existencial. Onde, no final dos anos setenta, era possível, ver os nossos neo-românticos, no início de 80, os amantes portugueses do rock cinzento manchesteriano e, mais recentemente, os primeiros break dancers que por cá apareceram.
É uma discoteca em que de uma maneira geral, se sente ou pressente um ar de agitação e vontade de mudança musical e comportamental. Há noites de efervescência e de verdadeira comunicação colectiva, há noites de tristes aparências. Mais aconselháveis nos dias úteis - às sextas e sábados são mais os diletantes e os curiosos do que os outros.

Café-Conserto - Rua do Norte, 24
Características:
Espaço: uma sala de dança com bar, 250m^2. Horas de abertura e fecho: 10h/2h. Bebida da casa: Morte Lenta, com tequila, groselha e sumo de laranja. Música: pop de vanguarda; neste momento: Pale Fountains, Scritti Politti, Dead or Alive, New Order, Section 25; o critério de escolha do disc-jokey: «passar o que é mais recente dentro da música de dança de qualidade: nunca passar funky».

Apreciação:
A discoteca que parece mais promissora, no futuro imediato: um espaço invejável, música irresistivelmente dançável e, mais do que tudo, o compromisso de apresentar concertos ao vivo com os novos agrupamentos portugueses e passagens de moda.
Ainda sem uma clientela perfeitamente delimitável, a casa começa a encher-se por esvaziamento de outras do mesmo género, hoje decadentes ou acolhendo tipos diferentes de público. Do Trumps vêm as bichas, do Juke-Box os rockers, do Frágil os intelectuais e seus congéneres. No cortejo embarcam também os esquerdistas arrependidos da Ocarina e os freaks reformados do Cais do Sodré. É capaz de se tornara  primeira grande experiência de convivência pacífica entre as várias facções da noite lisboeta.

III. Tabernas e Leitarias
Arroz Doce - Rua da Atalaia, 117
Características:
Espaço: uma só sala, com mesas e balcão, cerca de 50m^2. Horas de abertura e fecho: 9h/2h. Bebida da casa: Amêndoa Amarga e vinho Verde. Música: no juke-boxe discos antigos e pirosos; por exemplo, Frei Hermano da Câmara, Adriano Celentano, Joselito, António Molina, Nelson Ned.

Apreciação:
Símbolos de uma forma de ser genuinamente portuguesa que progressivamente vai submergindo sob a pressão de paradigmas culturais englobantes e indiferenciados, as tabernas e leitarias do Bairro Alto são uma espécie em vias de extinção. Todavia, começa-se também a esboçar um movimento de recuperação e revitalização destes lugares, graças, não a qualquer tipo de iniciativa estatal, mas ao entusiasmo da população nocturna que os tem vindo a invadir de há algum tempo para cá.
É o que sucede com os dois estabelecimentos do género que aqui são citados. No caso do Arroz Doce, os invasores têm sido principalmente pessoas ligadas ao mundo da expressão artística, mas refractárias ao estabelecido e ao consagrado. Desde 82, esta taberna é o quartel general da mais jovem geração de pintores, escritores e músicos lisboetas. Só para dar um exemplo, aí se têm encontrado frequentemente elementos de grupos como os 7ª Legião, os Rádio Macau e os GNR. Hoje, o lugar tornou-se um tanto 'dejá vu', de tal modo que os que por lá aparecerem, agora, são mais os amigos e os conhecimentos, do que os próprios artistas. Mas, como aqueles gostavam de ser como estes, o entusiasmo e a febre nocturna é talvez ainda maior.

Leitaria Flor da Branca - Rua do Diário de Notícias, 63/65
Características:
Espaço: duas salas, uma de jogos, a outra com mesas e balcão, no total, cerca de 90m^2. Horas de abertura e fecho: 8h/2h. Bebidas da casa: Geropiga e amêndoa amarga. Música de rádio.

Apreciação:
Como acima frisámos, este é também um local que foi salvo pela irrupção massiva de uma nova clientela. Antes, os poucos frequentadores do sítio eram velhos habitantes do bairro e outros que, ali à esquina, se envolviam no comércio do corpo. Mas, depois, mesmo em frente, abriu o Juke-Box e os utentes da discoteca fizeram-se também clientes da leitaria.
Daí que o quadro humano que hoje nos apresenta a Flor da Branca seja deveras singular: de um lado, marginais, prostitutas, reformados e gente humilde; do outro, punks, neo-românticos, breakers e outros que tais. Entre uns e outros, muito naturalmente, a distância e a diferença que separa dois mundos, só apaziguada pelo dono da casa, sempre conciliatório e optimista.

Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. 85 Será Delas, por Célia Pedroso???
. Outra Música Outra Moda, por Luís Maio c/ fotos de Eduardo Bayão
. O Porto Desperta Ao Som De Novas Guitarras, por Luís Maio - artigo/entrevista sobre Ban, Prece-Oposto e Neo Mono-Var
Discos em Análise:
. Mahavishnu Orchestra - «Mahavishnu» [WEA 229 25-1351-1], por Nuno Infante do Carmo
. «Metropolis» - Banda Sonora Original [CBS 70252], por Célia Pedroso




1.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (124) - Música & Som #58


Música & Som
Nº 58
Outubro de 1980

Publicação Mensal
Esc. 70$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, António Pedro Ferreira, Bernardo de Brito e Cunha, Fernando Peres Rodrigues, Henrique Amoroso, Hermínio Duarte-Ramos, João David Nunes, João Gobern, João de Menezes Ferreira, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Paulo Norberto, Pedro Ferreira, Pedro Cristina de Freitas, Raul Bernardo, Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Jorge Cortesão e Ray Bonici

Tiragem 15 000 exemplares
68 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.




Crítica de Concertos

Ramones Em Cascais



No Cais do Sodré, mesmo na hora de perder o comboio estávamos os três: a Ana Rock, o Topê - deveras cioso da sua cadela espacial que tirava fotografias, a Laica - e eu.
Sem grande convicção - que toda a gente cochichava a «merda da véspera» - embarcámos no seguinte. Rumo a Cascais - segunda noite da visita dos falsos manos de Forest Hills.

A sala estava bem guarnecida quando os UHefes chegaram montados no respectivo «cavalo de corrida».
Esta foi a terceira vez que vi os UHF em concerto e, relativamente à primeira (na abertura dos Dr. Feelgood em 1979), a evolução é nítida. O grupo revela-se como um dos mais excitantes da cena nacional e pena é que não possa ser ouvido em boas condições sonoras. Desta feita, e p'ra variar, apenas chegou até nós uma transbordática e intrincada amálgama de riffs, pancadas e palavras.
No final falámos um pouco com os membros do grupo e ficámos a saber que já têm contrato discográfico. O primeiro single sairá ainda este ano e incluirá a faixa «Cavalos de Corrida» na face A e um tema ainda por escolher na face B. Lá para Fevereiro de 81 surgirá um elepê que irá ser «gravado aos poucos», para pegar na expressão de um UHF.

Tardaram um bocado. Mas vieram.
Portadores das habituais fardamentas - que fizeram estilo -, as jeans corroídas e os blusões negros, os quatro Ramones dispuseram-se no palco para aquele que viria a constituir-se como o mais speedadamente decibélico (ou vice-versa) dos shows que passaram entre nós.
Marco, atrás das peles, não se pode dizer que tivesse tido um trabalho brilhante. Teve força de braços e pernas para espancar o instrumento e guardou o ritmo. Ninguém lhe pedia mais.
Dee Dee foi a metralha luzidia. O seu baixo Fender amarelo e vermelho desferia fispas que se transmitiam betão adentro e entravam direitinhos pelos pés pondo tudo a vibrar cá no organismo.
Joey, no centro, esganando o microfone, pôs-se numa posição próxima do zen Kutsu dachi Karateca e raramente bugiou. Aquela alma alta é fininha, espécie de galinhola desajeitada, foi a minha completa desilusão pois que a esperava incomparavelmente mais activa.
Falta o Johnny «Riff», esgrimista de meia dúzia de acordes que chegaram para «encher», sonoramente falando, um pavilhão e manter presa a maior parte das pessoas que a ele se deslocaram.

Os temas sucederam-se em catadupa. Um festival de rock'n'roll non stop tocado na ponta da unha. Mal uma canção prenunciava final, logo Dee Dee sacava dos algarismos - ONETOOFEEFOH - e a banda engrenava no seguinte e no seguinte e etc., por aí fora. Evidentemente, não havia flores para ninguém.
E a maior parte da malta alinhou. Foi assim que, num concerto que à partida não dava grandes garantias, acabou por resultar numa agradável punição auditiva.

Da conversa que tivemos com o Johnny, a Ana vos dará conta.
Pela minha parte, apenas quero assinalar a desilusão que me deixou este americano mortalmente conservador com as suas três ordens de preocupações: ganhar uns cobres valentes para daqui a cinco anos largar o grupo e não fazer nenhum: devorar biografias dos seus heróis (Gary Cooper, Mae West,...); eleger Reagan para reanimar o fulgor da grande nação americana.
Ah meu caro Johnny, bem que podias limpar as mãos à parede!

Na volta, a Ana e eu, sentados algures nos Restauradores, esperámos calmamente.
Que o futuro tomasse forma de táxi vago.

Nuno Infante do Carmo



Entrevista - Ramones (Johnny Ramone)



Tomem Ramones em Vez de Valium 5!
Pois o Johnny lá estava a escovar a sua asquerosa cabeleira, com a ajuda de um ancinho, mergulhado na mais profunda indiferença face à garota fórmula Debbie Harry que o assediava, ocupado como estava em espremer as suas hediondas borbulhas. O atroz DEE-Dee, afundado num cadeirão, treinava a sua vesguice no maior dos avacalhamentos. Os outros tinham-se eclipsado. O alvo escolhido foi o Johnny.
M&S - Achas que a reacção do público português difere em relação à de outros públicos?
Joãozinho - Os países são diferentes, mas os putos são sempre os mesmos em todo o lado. O que eles querem é curtição. Não pretendemos captar outro tipo de público e por isso procuramos dar aos miúdos o que eles querem. A malta jovem é mais flexível. O que interessa é permanecer jovem!
M&S - (engulindo o tédio) Vão gravar mais alguma coisa com o Phil Spector?
Joãozinho - A gravação do «End of The Century» com o Phil foi uma boa experiência que resultou. Mas não pensamos voltar a ter o mesmo produtor no próximo trabalho que estamos a preparar. Isso seria repetitivo e nós não gostamos de nos repetir a nós próprios.
M&S (engulindo desta vez o pasmo perante tal descaramento) - Vocês são todos de Nova Iorque, não é? Em que medida é que esse facto afecta a vossa «música»?
Joãozinho - As frustrações dos miúdos que vivem nos subúrbios de grandes cidades são um tema que nos interessa. Ou ainda, qualquer tipo de frustração nos interessa.
M&S - Posso inferir que para além de introduzirem as frustrações alheias nas letras das vossas «composições», também costumam falar das vossas? Sentes-te frustrado em quê?
Joãozinho - Sabes como é, as miúdas, as ambições, o sucesso...
M&S - Conta lá...
Joãozinho - Dantes as coisas eram mais difíceis topas? Agora tudo se tornou mais fácil quanto às miúdas... A minha ambição seria a de continuar a fazer bons álbuns, bons shows, boa música enfim...
M&S (cilindrada) - Hmmmmm?????
Joãozinho - (sem dar por nada) - O sucesso tem vindo aos poucos, de modo que nos temos vindo a habituar a ele. Não nos tem afectado tanto como se diz.
M&S - Sentem-se próximos ou afins dos Talking Heads, Tom Verlaine, Patti Smith, etc., pelo facto de também serem nova-iorquinos?
Joãozinho - Não porque nos Ramones estão todos virados para o rock e essa malta que referiste é demasiado branda (too soft) para o nosso gosto. Ouvimos os Clash, os Buzzcocks, os Dickies, Black Sabbath, material mais antigo como é o caso dos Beatles, coisas dos Sex Pistols...
M&S - Gostas do hard-rock?
Joãozinho - Nem por isso. Os Van Halen, por exemplo, são o melhor grupo americano de heavy metal, mas eu não ouço muito a «pesada».
M&S - Que é que fazes quando não estás em tournée?
Joãozinho - Leio biografias. Gramei mesmo ler a do Gary Cooper e a de Mae West, recentemente. De vez em quando vou ao cinema.
M&S - Achas que a actuação dos Ramones ao vivo constitui um incitamento à violência? Consideras-te muito agressivo?
J - Não. Os putos gramam os shows com muita pedalada e vêm aos concertos para se libertarem da sua agressividade. Pulam, gritam, saltam durante a nossa actuação mas depois ficam calmos e felizes.
M&S - A fórmula é portanto «tomem Ramones em vez de Valium»? Os Ramones são um sedativo?
J - (achando graça à ideia e parando por uns segundos de sacudir a caspa) - Se quiseres. Nós todos saltamos no palco porque gostamos e porque sabemos que o público delira com isso. Nada do que fazemos é estudado.
M&S (pensando para com os seus botões que é por isso que não gosta das manas Ramones...) - Vocês estariam dispostos a actuarem na União Soviética?
J - Não é que não gostássemos de lá tocar mas o regime nunca o permitiria.
M&S - Nas próximas eleições presidenciais, em que candidato vais votar?
J - Nós não vamos votar porque os eleitores são obrigados a prestar o dever de júri. Como nós andamos sempre em tournée não temos possibilidades de pertencer ao júri. Mas eu apoio Ronald Reagan porque acho que ele é a melhor solução para a América. Espero que ele ganhe as eleições, até porque é um homem forte e é disso que nós precisamos actualmente. O Carter não infunde respeito aos Russos. Os Americanos precisam de um presidente forte para impedir os Russos de invadirem a América!
M&S  (banzada) - O QUÊ???
Joãozinho - É isso mesmo. Vocês não viram o que aconteceu no Afeganistão?
M&S - Basta! Basta! Olha que não estás a fazer campanha eleitoral, ó meu! Olha, porque é que os Ramones actuaram na festa do Partido Comunista Espanhol?
J - Ai é? Não sabia de nada.
M&S - Sentes-te cansado depois dos concertos? Tomas alguma coisa para te estimular?
J - Não me sinto muito cansado. Não tomo nada. Bem... quer dizer... de vez em quando lá dou a minha cachimbada de hash... mas não o faço por estar cansado. Olha temos que ir agora para Lisboa, pois vamos colaborar num programa de rádio, OK?
M&S (engulindo o comentário «Pobres ouvintes! Mal sabem o que vos espera...») - Só mais uma coisa: quando tencionas retirar-te?
J - Dentro de cinco anos. Definitivamente. Não tenho grandes ambições. Vou ficar de papo para o ar, sem fazer absolutamente nada de nada.

Assistir a um concerto dos Ramones é uma experiência desastrosa fascinante.
Entrevistar uma Ramoneta (courtesy of NIC) é uma experiência de engolir em seco lancinante.

Ana Rocha.


Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. The Police - A Contas com a Polícia - Entrevista de Trindade Santos
. McLaughlin na Póvoa - Crítica de Concerto, por Trindade Santos
. The Police no Restelo - Crítica de Concerto, por Pedro Cristina de Freitas
. Peter Gabriel em Cascais - Crítica de Concerto, por Trindade Santos
. Gabriel Segundo S. Rock - Crítica de Concerto, por Ana Rocha
. Mike Oldfield em Cascais - Crítica de Concerto, por Trindade Santos
. José Mário Branco: «Nunca Parei de Fazer Música», entrevista/artigo por Manuel Cadafaz de Matos
. P.G. Visto por Pedro & Gabriel - Entrevista, por Pedro Cristina de Freitas e Gabriel Trindade Santos
. Mike Oldfield - Para Lá Da Barreira - Entrevista, por Trindade Santos
. Discos em Análise:
.. The Clash - «London Calling» [CBS 88478]
.. Talking Heads - «77» [SR 6036 NP]
.. Nina Hagen Band - «Nina Hagen Band» [CBS 83136]
...  Som
- Tratamento electrónico dos sons
. Tipos de Tratamentos
. Tratamento do Timbre
. Filtros Electrónicos





28.8.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (122) - Música & Som #56


Música & Som
Nº 56
Julho / Agosto de 1980

Publicação Mensal
Esc. 70$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, António Pedro Ferreira, Bernardo de Brito e Cunha, Fernando Peres Rodrigues, Henrique Amoroso, Hermínio Duarte-Ramos, João David Nunes, João Gobern, João de Menezes Ferreira, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Paulo Norberto, Pedro Ferreira, Pedro Cristina de Freitas, Raul Bernardo, Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Jorge Cortesão e Ray Bonici

Tiragem 15 000 exemplares
68 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.




Genesis
Disco a Disco

artigo por Nuno Infante do Carmo


Uma capa negra avara em informações. Apenas um título no canto superior esquerdo: «From Genesis To Revelation» (Decca SKL 4990). No interior treze temas encadeados, com a assinatura de Genesis e produzidos pelo mentor Jonathan King. Um certo classicismo à la Moody Blues, aqui e ali toques de natureza psicadélica e, num ou noutro ponto, pinceladas rock. Um álbum que, timidamente, expressava já algumas características do som-Genesis nomeadamente na abordagem de Banks às teclas, nas teias envolventes urdidas pelas 12 cordas e na vigorosa presença vocal de Gabriel (of. «In The Wilderness»). Dentre os temas destaca-se «Fireside Song» que, com um tratamento conveniente, ainda hoje poderia fazer carreira.



Um ano depois os Genesis voltaram bem diferentes. «Trespass» (Charisma 9103 10z) é, em boa verdade, o primeiro álbum dos Genesis que hoje em dia conhecemos. A evolução foi enorme. O amadurecimento do grupo é visível a todos os níveis em qualquer dos seis temas. A tendência geral é de calmaria - à excepção do esgalhado «The Knife» - mas, de um modo geral, os temas são vivos, podendo dirigir-se, por fracturas abruptas ou gradações sucessivas, a áreas de clima completamente diferentes do inicial.
«Nursery Crime» (Charisma 9103 100) marca nova evolução na discografia do grupo, no sentido de um maior refinamento técnico-instrumental (a chegada de Phil Collins e Steve Hackett, músicos mais experientes que os seus antecessores, vem possibilitar o emprego de estruturas mais complexas) e lírico (os textos entram no campo da fantasia humorada, das fábulas surreais e do grotesco; por outro lado, algumas canções - «Musical Box», «Harold The Barrel» e «Fountain of Salmacis» - são escritas para várias personagens o que permite uma teatralização da música).
A primeira obra-prima do Genesis surgiu em 1972. Chamava-se «Foxtrot» (Charisma 6369 922) e aí vinham desenvolvidas de uma forma brilhante as opções encetadas nos álbuns anteriores - o rock teatral, a imaginação delirante dos textos, os cuidados e complexos arranjos instrumentais. «Supper's Ready», que cobre quase toda a face dois, fica como um dos temas fortes da rock-music onda progressiva.
«Genesis Live» (Charisma 6369 304), publicado contra a vontade dos membros do grupo, devido à fraca qualidade dos registos, trazia versões de «Watcher of the Skies», «Get'em Out By Friday», «The Return of the Giant Hogweed», «Musical Box» e «The Knife».



Ainda de 1973 «Selling England By The Pound» (Charisma 6369 944) que viria a fornecer ao grupo o seu primeiro hit-single através de «I Know What I Like». Álbum sem o mesmo vigor de textos ou espontaneidade de «Foxtrot», este «Selling England...» constitui-se todavia como uma das peças de maior beleza da discografia do Genesis, tal a profusão de climas delicados nele circulantes. Na faixa «More Fool Me» Peter Gabriel cede, pela primeira vez, o papel de vocalista principal a Phil Collins.
E enfim, em 1974, a obra maior do Genesis - o duplo «Lamb Lies Down On Broadway» (Charisma 6641 226). Trata-se de um concept-album sofisticado, intenso, variado e vertiginoso. Os textos são de Peter Gabriel que é, de resto, a personalidade dominante ao longo de toda a obra (e este facto teria certamente a ver com o seu posterior abandono, colocado que foi em oposição (e minoria) relativamente aos restantes elementos do grupo, mais interessados numa via musical na linha de «Selling England...»). Em «Lamb Lies...» participa Brian Eno realizando enossificações.
Aguardado com expectativa «A Trick of The Tail» (Charisma 6369 974) veio a cotar-se como o álbum do grupo mais vendido tanto na Europa quanto nos States. Phil Collins revela-se um bom vocalista, com marcas evidentes do estilo de Gabriel. Os textos são simples. Um álbum despreocupado que não constitui propriamente o começo de um novo ciclo mas sim uma transição.
«Wind and Wuthering» (Charisma 9103 114) é uma obra delicada e inofensiva. Complexo, perfeito, rebuscado, este álbum acumula clichés do próprio grupo.
Em 1977 apareceu o segundo live da carreira do Genesis: «Seconds Out» (Charisma 9199 263/64) que desforra a fraca qualidade do anterior trabalho ao vivo.
Após a partida de Hackett ficaram três: «... And Then There Were Three» (Charisma 9103 121). Um álbum com canções concisas de um Genesis ainda e sempre brilhante mas já sem aquela mágica capaz de espantar o ouvinte de álbum para álbum, tal como acontecera até «Lamb Lies...»

Genesis
Ano a Ano



 1966 - The Garden Wal e Anon, dois grupos rivais da Charterhouse Public School fundem-se numa banda única. A nova formação integra dois ex-The Garden Wall - o jovem cantor/baterista Peter Gabriel (nascido no Surrey a 13/2/50) - e dois ex-Anon - os guitarristas / compositores Anthony Phillps (nascido em 1952) e Michael Rutherford (nascido no Surrey e 2/10/50).
- O Quarteto inicia a gravação de uma demo tape com uma longa peça de 45 minutos, intitulada «The Movement». (Nunca publicada posteriormente em álbum).
1967 - P. Gabriel põe de parte a bateria que, durante os seis primeiros meses do ano, passou a ser assegurada por Chris Stewart.
- Depois de várias tentativas falhadas em busca de editora, são notados pelo cantor/produtor Jonathan King que, após audição de «The Movement», lhes arranja contrato com a Decca.
- Entretanto todos abandonam Charterhouse: Tony ingressa na Sussex University, Michael na de Edimburgo, Peter aqui e ali e m cursos de flauta e oboé.
- Dezembro - É registado um primeiro single com os temas «Silent Sun» e «That´s Me».
- Jonathan King sugere Genesis para designação do grupo.
1968 - Fevereiro - publicação do single, que não faz qualquer sucesso.
- Chris Stewart abandona e é substituído por John Silver.
- A meio do ano, reunião para registo de um segundo 45 rotações - «A Winter's Tale» / «One Eyed Hound» - que também não faz carreira.
- No final do ano, início da gravação de um elepê ainda e sempre produzido pelo mentor J. King.
1969 - Março - Saída, praticamente despercebida, de «From Genesis To Revelation».
- J. King desinteressa-se do grupo e dele se desliga. Idem com a Decca.
- Genesis passa a ser banda «em tempo inteiro». À excepção de John Silver, todos abandonam os estudos. Silver vai frequentar uma Universidade norte-americana e é substituído por John Mayhew.
- Os cinco membros do grupo passam a viver comunitariamente numa casa de campo. Aí repetem continuamente e preparam um espectáculo.
- Novembro - Primeira apresentação pública, na Brunel University de Uxbridge, logo seguida de uma torunée de seis meses pela Grã-Bretanha.
- Guy Stevens, produtor de Mott The Hoople, e os Moody Blues (para a sua nova etiqueta Threshold) mostram-se interessados na contratação do grupo mas nada se concretiza.
1970 - Janeiro - Tony Stratton-Smith contrata Genesis para a recém-formada Charisma.
- Julho - Entrada em estúdio (Trident) para gravação de um segundo elepê.
- Setembro - Publicação de «Trespass».
- Setembro - Abandono de A. Phillips. «Em 69/70 eu senti que já não tinha liberdade de criar integrado no Genesis e preferi partir porque não me dava nenhum gozo estar no grupo. Neste tipo de banda temos sempre que ceder um pouco para manter o equilíbrio com os outros. Mas é muito difícil. Eu estava contente com os resultados que obtínhamos mas sentia que não estava a fazer aquilo que queria. O primeiro ano de tournée foi para mim uma coisa terrível. Na altura eu tinha 17 anos. E parti.(A. Phillips à «Best»)».
- Pouco tempo decorrido abandona Mayhew.
- Dezembro - «Tony Stratton-Smith procura um baterista sensível a música acústica e um guitarrista solista que também tenha prática nas 12 cordas?». Este anúncio no Melody Maker fez aparecer o baterista londrino Phil Collins (nascido a 30/1/51), ex-Flaming Youth.
1971 - Privado de guitarrista o grupo trabalha durante quatro meses em quarteto. Nesse período compõe novos temas, entre os quais «Musical Box».
- Março - Novo anúncio no MM faz aparecer o guitarrista Steve Hackett (nascido em Londres a 12/2/50).
- A nova formação é rodada numa série de concertos britânicos.
- Julho - Gravação de novo álbum nos Trident Studios de Londres.
- Setembro - Sai «Nursery Crime».
1972 - Junho - Primeiras actuações fora da Grã-Bretanha, integrados numa tournée promocional da Charisma que também incluía Van Der Graaf Generator e Lindisfarne.
- Julho - De novo em estúdio. Desta feita nos Island Studios.
- Setembro - Tournée britânica.
- Outubro - Publicação de «Foxtrot», bem acolhido por toda a Europa.
- Dezembro - Primeira visita aos States. Aí é apresentado, com enorme sucesso, um show em que há aproveitamento teatral de cada um dos temas.
1973 - Janeiro - Apresentação do show «Foxtrot» na Europa.
- Abril - Segunda tournée americana.
- Maio - Enquanto é preparado o novo LP a Charisma lança um live contra vontade do grupo, que não acha nos registos qualidade suficiente.
- Phil Collins e Anthony Phillips fazem um single com uma canção de Rutherford («The Silver Song»). A Charisma recusa a sua publicação.
- Outubro - Sai «Selling England By The Pound». Segue-se uma tournée britânica com um show ainda mais cuidado no aspecto visual.
1974 - Janeiro - Tour europeu e ronda pelos States.
- Junho - Retiro em Guilford para preparação do novo trabalho - um concept-álbum inspirado na longa estadia nos EUA.
- Novembro - Publicação do duplo «Lamb Lies Down On Broadway» seguida de tournée nos EUA com apresentação de um notável show.
1975 - Fevereiro a Abril - Espectáculos por toda a Europa e passagem por Cascais.
- Agosto - De há longo tempo remarcado como o homem de ponta do Genesis pelo seu trabalho de vocalista, de performer, de letrista e de flautista, Peter Gabriel vem surpreender os fans do grupo com o anúncio, através de uma carta enviada à imprensa inglesa, do seu abandono. «As tournées constantes foi uma das principais razões. Ficava esgotado após cada cocerto. Era eu quem, sem dúvida, tinha maiores responsabilidades no grupo. Tinha de me ocupar de todos os pequenos pormenores como maquilhagem, fatos, etc., etc. Tudo isso exigia tempo e era fatigante. Por outro lado eu não gostava daquilo em que me estava a tornar, tal como o grupo. e senti que era chegada a hora de partir. As coisas começavam a ir menos bem, finaceira e musicalmente. Nós não conseguíamos criar algo verdadeiramente novo». (P. Gabriel à «Rock & Folk»).
- Phil Collins que já tinha vocalizado a faixa «More Fool Me» de «Selling England...» e que recentemente fizera as partes vocais do primeiro álbum a solo de A. Phillips - «The Geese And The Ghost» - passa a assegurar a voz principal.
- Dezembro - Saída de «A Trick of the Tail» que se constitui como o primeiro sucesso comercial do grupo nos States bem como o que maior volume de vendas atingiu na Europa.
- Phil Collins a par com uma actividade de session man e membro do Genesis, forma a banda de jazz/rock Brand X com Percy Jones (baixo), Robin Lumley (teclas) e John Goodsall (guitarra).
1976 - Abril - Na tournée americana Bill Bruford assegura a bateria já que Phil, ocupado com o seu novo papel, apenas ocasionalmente pode sentar-se atrás das peles.
- Maio/Junho - Tour europeu com um show não tão rico no aspecto teatral mas mais sofisticado nos efeitos - nomeadamente emprego de lasers.
1977 - Janeiro - No primeiro dia do ano, concerto para reabertura do Rainbow com apresentação do novo elepê «Wind and Wuthering». O baterista contratado para espectáculos é agora o norte-americano Chester Thompson que anteriormente esteve com Frank Zappa, Weather Report e Pointer Sisters.
- O grupo mantém-se consecutivamente on the Road: Grã-Bretanha, EUA, Austrália, Japão e de volta à Europa.
- Outubro - Publica-e o duplo live «Seconds Out» resultado de captações efectuadas na tournée de 1976 e 1977.
Outubro - Anúncio oficial da saída de Steve Hackett. «De facto, não há uma razão precisa mas sim um conjunto de factores que se foram acumulando e chegaram a um ponto em que eu já não podia suportá-los. Muitos problemas familiares, causados em grande parte, pelo ritmo de trabalho ao qual estávamos submetidos desde há longo tempo: tournées incessantes e cada vez mais numerosas, somente interrompidas por sessões de gravação também elas constrangedoras. Acabei por, eu próprio, dificilmente suportar esta vida. Além disto, havia problemas com o grupo propiramente dito. Eu sempre estive um pouco apartado dos outros porque cheguei mais tarde e eles formavam uma equipa muito unida. Senti isso quando começámos a não estar em completo acordo quanto às concepções musicais do grupo. «(Steve Hackett à «Rock & Folk»)».
- Novembro - Genesis em estúdio. Michael Rutherford assegura a guitarra principal.
- Antes do novo álbum aparece um EP com três inéditos: «Match of the Day» / «Pigeons» / «Inside Out».
1978/1979/1980 - O ciclo tournée / álbum / curtas férias / tournée... repete-se continuamente. Em Fevereiro de 1978 surge «And Then There Were Three...». O guitarrista norte-americano Daryl Stuermer, ex-Jean-Luc Ponty, colabora nos shows. Em 1979 Tony Banks e Michael Rutherford preparam trabalhos solo que publicam antes de «Duke», décimo segundo álbum do Genesis, publicado no início de 1980.



Peter Gabriel
artigo por Pedro Cristina de Freitas

Passado
Peter Gabriel nasceu no dia não-sei-quantos de um mês qualquer no ano não-sei-quantos, e ainda não morreu, que é o que de momento interessa. Andou numa escola qualquer e foi juntamente com outros alunos dessa escola que fundou um grupo: os Genesis. O primeiro álbum dos Genesis que conheço é «In The Beginning», embora nas notas inseridas nesse álbum se comece logo por dizer: «isto não é um novo álbum dos Genesis», o que leva a concluir que há um álbum anterior. Mas se todos os álbuns dos Genesis tivessem sido como este, eu não estava de certeza aqui a escrever sobre o Peter Gabriel. O único interesse que se pode encontrar nesse trabalho é o facto de ser o primeiro dos Genesis porque no geral o álbum gasta-se logo à segunda ou terceira audição, e não sai da vulgaridade. Mas em «Trespass», o grupo já tem um som diferente, original, e já se nota o que haveria de acontecer em «Nursery Crime» e «Foxtrot» - o grupo ia-se preocupar essencialmente com os arranjos, mais que com a composição em si. É nestes álbuns que se começa já a notar o grande intérprete que é Peter Gabriel. Em «Musical Box» por exemplo. Aparece depois «Selling England By The Pound», que se pode considerar como uma mistura dos géneros que Peter e os restantes Genesis iriam deenvolver depois da saída de Gabriel. A seguir é «The Lamb Lies Down On Broadway» que é considerado por muitos (eu incluído) como o melhor dos Genesis. Este álbum é, segundo as palavras dos outros elementos dos Genesis, quase integralmente um álbum de Peter Gabriel. Não quero dizer que Gabriel fosse o elemento mais importante e o único compositor do grupo. Não era, e por isso é que saiu, pois enquanto o grupo se encaminhava para um lado, Gabriel ia para outro.
Mas para mim «The Lamb Lies Down On Broadway» é o primeiro álbum de Peter Gabriel. Até porque se o compararmos com a restante obra dos Genesis, tanto com como sem Gabriel, não encontramos quase nenhum ponto comum, ao paso que com a de Gabriel já é diferente. Mesmo o próprio grupo não se identifica com a música de «The Lamb Lies Down On Broadway». Ouça-se «The Carpet Crawl» em «Seconds Out». Mas vemos que o tipo de esquemas das canções de «Peter Gabriel» I e II é, mais ou menos o mesmo de «The Lamb Lies Down On Broadway», e que tal como nos álbuns a solo, este último com os Genesis dá maior relevo à composição em si, e à interpretação vocal.
Solo
Em 74, depois da saída de «The Lamb Lies Down On Broadway», e depois da saída de Peter Gabriel, muitos se interrogaram sobre o futuro dos Genesis. Mas o tempo passa e eu (e penso que muitos outros) interrogo-me àcerca do futuro de Peter Gabriel. Para responder a essa pergunta é preciso esperar três anos, para finalmente aparecer a resposta: «Peter Gabriel I». O disco tem duas faixas que soam de maneira diferente e que são talvez o mais importante no álbum: «Moribund The Burgermeister» e «Humdrum». O resto das faixas é mais Rock que outra coisa («Modern Love», «Slowburn») o que o próprio Peter Gabriel explica dizendo que se se com um álbum com um som diferente, teria de aceitação por parte do público. O que é verdade e está mais que provado no segundo álbum que saiu no ano seguinte. Não se pode dizer que seja inferior em relação ao primeiro, mas já há diferenças, algumas difíceis de notar, pois a interpretação e o tipo de composição marcam muito o disco. No entanto não há dúvidas nos casos de «D. I. Y.» e principalmente de «Exposure». E mesmo para quem não gosta do álbum experimente ouvir melhor «On The Air» «D. I. Y.» e «Indigo», por exemplo. Porque no fundo ainda não é este álbum que vem marcar o som Gabriel (como ele lhe chama) e acaba por o fundamental ser o mesmo.
Para esta parte leiam os artigos de José Oliveira em anteriores números de M&S.

Presente
Espero.




Futuro
O futuro próximo é o terceiro álbum. Pela faixa que ouvi no rádio (que provavelmente se chama «Games Without Frontiers, Walls Without Tears») não há novamente grande diferença para o álbum anterior, mas essa diferença já é um bocado acentuada em relação ao primeiro.
Em relação ao futuro é preciso falar também do futuro da música em geral. Por enquanto vamos ter ainda o prolongar do filão da música Rock-o Punk Rock, a New Wave. Claro que há sempre diferenças, mas o tipo de música que vai aparecendo não é tão rica como era (e é) o Rock. Basta ver que dos últimos resultados obtidos apenas a New Wave se aguenta. O Punk e o disco não apresentavam grande profundidade. É como uma estrada principal que se vai ramificando, não indo as suas derivações dar a lado nenhum. É preciso construir uma nova estrada. Mas é claro que não pode aparecer de repente, pois nessa altura está logo à partida votado ao fracasso. É isso que acontece com o Rock Alemão. A mudança tem de ser gradual. O Trindade Santos diz que o futuro da música está na técnica, dizendo que se saísse com um álbum com um som acordo quando ele me mostra um disco feito apenas com sintetizadores e afins que imitam a guitarra eléctrica, a bateria, etc... Para já porque um ou dois discos isolados (eu sei que lá fora há mais, mas mesmo assim não são suficientes) não podem marcar um som e um estilo. Dos que me estão a ler, quem é que comprou álbuns assim? É aí que entra o Peter Gabriel e músicos como ele, e não músicos como o Mike Oldfield, que já deu o que tinha a dar. Depreende-se das entrevistas dadas à M&S que Peter Gabriel pretende desenvolver a utilização de sintetizadores e coisas no género nos seus próximos álbuns. Mas de qualquer maneira também é certo que pode ir dar a mais um beco sem saída. Para já esperemos álbum.




A Música No Dia-A-Dia (coluna)
por Pedro Ferreira

Onde se fala de luzes, de críticos e de algumas coisas mais a descobrir pelo leitor.

Estava eu, muito anti-pacatamente, a delirar com a actuação da Lene Lovich em Cascais, quando me assalta a ideia luminosa de que as luzes poderiam iluminar o próprio carácter do espectáculo - eu explico, eu explico, que isto de começar logo a desatinar a leitura não tem graça nem sentido. A ideia era esta: «que luzes mais espalhafatosas - usadas sem nenhum gosto estético - a contrastar com a economia e precisão das luzes de Joe Jackson, por exemplo - mas tem piada que calha mesmo bem - o uso desregrado dos efeitos de luzes acaba por estar justificado - e corresponde a um gosto pelo berrante e pelo contrastante que encontramos no povo - o que me faz desconfiar de que o povo não tem falta de gosto, mas pura e simplesmente um gosto diferente - e me faz pensar que o gosto Punk e New Wave pelos contrastses de cor, pelo deliberado «mau gosto» acaba por revelar o seu carácter rebelde e me faz crer que a maior barreira que impede as meninas «cake» de lograr a aparência rebelde, é precisamente a sua capacidade de rebentar com os quadros estéticos que receberam da família - pois é um facto que não encontramos muitas cores berrantes ao mesmo tempo na indumentária dessas meninas - já que elas sentem a necessidade de preservar um certo equilíbrio cromático de influência parisiense - estão dentro da moda - estão integradas - mas a enorme riqueza de cor que encontramos em Lene Lovich diz-nos o contrário - a Lene Lovich no palco é a sacerdotisa do rock - a profusão de sons e cores e movimento pode ser interpretada (como o faria Feuerbach) como a concentração no rock de todo o nosso desejo e faculdade de som, cor e movimento - já que a sociedade não está feita para que possamos desenvolver as sementes que somos - e portanto as flores que são as nossas surgem-nos caídas do céu, caídas do rock, caídas do chão - e nós adoramos o espectáculo da Lene - e achamo-lo bonito - na proporção da nossa capacidade de projectar beleza - o mundo é assim - por enquanto - e por enquanto curte-se - o que já não é mau.»

Aproveitamos esta secçãozinha periferico-criticante para saudar a recém-surgida prosa de Miguel Esteves Cardoso, no semanário «O Jornal», que assim enriquece as suas páginas com uma contribuição plena de originalidade. Miguel Esteves Cardoso escreve com brilhantismo e competência, pecando apenas por fidelidade ao seu passado de consumidor exigente - o que não o deve tornar muito popular entre os rockers portugueses.

A propósito de críticos, vocês reparem como é muito improvável encontrar-se um crítico de música «clássica» a falar enquanto consumidor, enquanto conjunto de consumidores ou enquanto um outro qualquer: o crítico «clássico» fala sempre enquanto crítico, isto é, observador-mais-culto-e-mais-alto que os outros observadores. Em contrapartida o crítico «clássico» é, em geral, bastante mais sólido que o crítico de rock; este descura frequentemente o enquadramento do acontecimento que reporta e critica, refugiando-se no imediatismo da descrição ou da apreciação, quantas vezes amputadas por critérios unicamente subjectivos!
Estas características da crítica relacionam-se certamente com as características dos meios musicais respectivos, e com a própria música praticada nesses meios. Voltaremos a este assunto.




Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
Discos em Análise
. The Flying Lizards - "The Flying Lizards" [SPA VV 33039 Y], Ana Rocha
. Kevin Ayers - That's What You Get Babe" [Records 11C 074 63647], Ana Rocha
...&Som
Instrumentos de Cordas
. Antigos instrumentos de cordas
. Instrumentos dedilhados
. Instrumentos de arco
. Instrumentos com cordas percutidas






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