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7.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (146) - Musicalíssimo #4


Musicalíssimo
Abril - 79
Preço 50$00
Nº 4

Director e Editor: Jacques C. Rodrigues
Chefe de Redacção: J. Afonso Costa
Corpo Redactorial: João Filipe Barbosa, João Pedro Araújo, Gonçalo Tello, Fernando Quinas, Carlos J. Gomes, J. Afonso Costa, José Pedro Reis
Fotógrafos: Jorge Jacinto
Publicidade: Mário Crisóstomo
Propriedade: Editorial Globo - Apartado 10 - Queluz

54 páginas A4 - papel de peso médio - páginas a cores e a p/b numa proporção de cerca de fifty-fifty.
Poster A3 (centrais), papel brilhante - Bob Dylan



LED-ZEPPELIN
THE SONG REMAINS THE SAME




Jimmy Page: 32 anos de idade, fundador dos Led Zeppelin juntamente com Peter Grant. Começou a tocar guitarra por volta do dez anos, recebendo as suas principais influências de Chuck Berry e de Elvis Presley. Originário de Feltham, uma vila perto do aeroporto de Heathrow, começou por tocar em pequenos grupos fazendo curtas digressões com os mesmos.
Mais tarde resolveu ingressar no Art College, continuando no entanto a tocar em pequenos clubes perto de Londres, nunca esmorecendo o seu interesse pela música. Por volta dos seus 20 anos, tornou-se músico de estúdio, gravando com alguns dos grupos mais importantes de então, como por exemplo: Kinks, Who, Them, Van Morrison e Joe Cocker. Em 1966 juntou-se aos legendários Yardbirds, primeiramente como baixo, passando posteriormente, após uma reestruturação da banda, a guitarrista principal de parceria com Jeff Beck. Após a saída deste, Page permaneceu no grupo, tentando levá-lo a novos êxitos, o que conseguiu.
Após a dissolução dos Yardbirds, resolveu formar o seu próprio grupo que viria a ser os "Led Zeppelin".
Robert Plant: As suas primeiras intenções eram de se tornar num contabilista, para o qual estudava na altura, embora a sua grande paixão tivesse sido desde sempre a música..
A par dos estudos, tocava habitualmente com pequenas bandas de Blues da sua terra natal, Birmingham, acabando por alcançar um sucesso bastante apreciável. Na altura começou a ser conhecido como "the wild man of blues from the black country".


Começando a ser reconhecido como uma voz de talento, decidiu tentar a sua chance em Londres, para onde se mudou e onde permaneceu até Jimmy Page o convidar para os Led Zeppelin.
John Paul Jones: Foi o pai de John Paul Jones, um ilustre pianista da famosa Ambrose Orchestra, que insistiu para John se dedicar ao estudo da música, começando este a estudar piano aos seis anos de idade.
Quando estava no Christ College, formou a sua primeira banda. Trabalhou também com os seus pais, em pequenas digressões, em trio, tocando baixo e o seu pai piano.
Em Londres, John Paul Jones começou a trabalhar como músico de estúdio, especialmente na parte dos arranjos musicais, contribuindo para a realização final do "THEIR SATANIC MAGESTIES REQUEST" dos Rolling Stones e para vários temas de Donovan e Dusty Springfield.
Jones teve a seu cargo os arranjos de temas de Donovan como "MELLOW YELLOW", "SUNSHINE SUPERMAN" ou "HURDY GUNDY MAN". Foi precisamente quando trabalhava este último que conheceu Jimmy Page. Sabendo mais tarde que este procurava elementos para formar uma nova banda, foi ter com ele oferecendo-lhe os seus préstimos.
Estes foram aceites, razão pela qual eles vêm mais tarde a tocar conjuntamente.
John Bonham: Nascido na zona de Birmingham, Inglaterra, John Bonahm nunca teve nenhum treino musical específico, tendo apenas tocado em pequenos clubes nos arredores da sua cidade natal. No entanto era uma pessoa extremamente impopular, porque, segundo diziam - tocava demasiadamente alto e fazia muito barulho. Os "Band of Joe" foi um dos agrupamentos onde tocou conjuntamente com Robert Plant que também fazia parte do conjunto. Na altura em que foi convidado a ingressar nos Led Zeppelin, Bonham estava a tocar com Tim Rose.


Os LED ZEPPELIN formaram-se em 1968, actuando inicialmente numa digressão por terras da Escandinávia sob a designação inicial de "New Yardbirds". Porém esta designação durou pouco tempo pois após a realização do primeiro álbum do grupo, que continha o célebre "Whole Lotta Love", mudaram o nome para aquele que mantêm há tantos anos - Led Zeppelin.

O primeiro grande impacto dos Zeppelin sucedeu nos Estados Unidos, onde alcançaram em pouco tempo um êxito estrondoso, tanto mais acontecimento se se disser e souber que isso era (e ainda é) raro em grupos oriundos do Continente europeu. A sua fama e popularidade foi de tal modo grande, que os Led ainda hoje dispõem de grande legião de admiradores nos territórios do Tio Sam, além de deterem o recorde de assistência em concertos ao vivo.
A seguir ao sucesso do seu primeiro longa-duração regressaram a Inglaterra para aí tratarem dum novo disco e encetarem uma enorme digressão composta de uma imensidade de shows, nos quais alcançaram estrondoso êxito muito semelhante ao anteriormente obtido nos Estados Unidos.
O segundo LP, gravado após o fim da digressão veio definitivamente confirmar as potencialidades evidenciadas no primeiro disco.
Ainda hoje estes discos são considerados muito justamente dois "clássicos" do rock e são considerados também pelos elementos do grupo, crítica especializada e fans, como as duas obras máximas dos Led Zeppelin. Dois trabalhos que são uma autêntica explosão de força e vitalidade num som único que era o prenúncio do que mais tarde iria ser o "hard rock" dos anos 70. Com estes dois trabalhos, os Zep criaram um som e um estilo ímpar, que desde logo foi seguido por outros agrupamentos de menor expressão. Porém, para além do som total em si o conjunto impressionava ainda pelo valor de cada um dos seus membros individualmente e em particular: - Robert Plant era um vocalista que só encontrava opositor à altura em Roger Daltrey dos The Who, em Van Morrison dos Them então desaparecidos e em Mick Jagger dos Rolling Stones; Jimmy Page era um guitarrista conceituado da élite britânica, possuidor duma imaginação criativa, fértil e dono duma técnica impecável; John Bonham era um baterista espectacular que rivalisava desde há muito tempo com o falecido Keith Moon dos Who e finalmente John Paul Jones era um baixista subtil e clarividente, imaginativo, dono duma dedilhação imparável e ao mesmo tempo um teclista de razoáveis recursos técnicos e sonoros!
Logicamente, que quando se reuniam quatro músicos deste calibre algo tinha necessariamente que se passar. Foi o que aconteceu: - hoje (e já mesmo nessa altura) os Led são um grupo de renome e um dos máximos do rock.
É todavia impossível não se referir, sob pena de se cometer uma grande injustiça, o quinto músico do agrupamento, o talentoso Peter Grant, manager do grupo desde o momento da sua formação, que ao longo dos anos tem conduzido os destinos do quarteto com enorme argúcia e inteligência e a quem se deve em parte a rápida ascenção dos Led até ao estrelato.


O terceiro álbum do grupo apresentava algumas radicais diferenças em relação aos trabalhos anteriores: - era mais elaborado, mais trabalhado em vários sentidos sonoros e vocais, mas por outro lado, perdendo ligeiramente a força e espontaneidade, factores principais e primordiais dos LP's até aí editados.
Com a publicação do quarto disco de longa duração os Led Zeppelin fecharam, passe a expressão, o primeiro ciclo da sua existência como grupo. Este último trabalho poderia sem receio ser considerado como o resumo dos anteriores e portanto o resumo dos primeiros anos de vida. Nele se encontram temas com a força e violência (no bom sentido entenda-se!) dos primeiros tempos e temas mais calmos e mais elaborados que reflectiam as mais recentes tendências do grupo.
"Houses Of The Holly" é o primeiro trabalho dos Led com título genérico. O Lp distanciava-se dos anteriores discos por tratar uma acentuada insistência no som acústico, num clima geral que poderíamos definir como possuidor dum romantismo rústico.
No mesmo ano da publicação deste álbum (1973) filmam "The Songs Remain The same", gravado e filmado no decorrer das suas actuações no Madison Square Garden.
Apesar de filmado em 1973 só passados três anos, portanto em 1976, a película ficou concluída para exibição pública pois Jimmy Page fez questão que tudo fosse visto e revisto, até os pormenores mais ínfimos, se encontrarem na perfeição, segundo a sua própria concepção, claro!
Assim, parece que em "The Songs Remains The Same", as sequências visuais, efeitos especiais, filmagens paralelas e outros pormenores se encontram perfeitamente sincronizados formando um todo harmonioso e susceptível de ser visto com prazer e agrado geral.
Dois anos após as filmagens citadas, portanto em 1975, sai o primeiro duplo-álbum dos Zeppelin que recebeu o título genérico de "Physical Grafitti". Este trabalho confirma suficientemente serem os Led Zeppelin o único grupo no seu estilo, vindos da década de sessenta, a manter uma carreira ascensional ao longo dos anos setenta. "Physical Grafitti" é acima de tudo uma obra que evidenciava um grupo cada vez mais eclético, recebendo inclusivamente influências orientais, mas mantendo no entanto toda uma personalidade vincada e muito própria.
"Presence" editado já em pleno 1976, foi definitivamente a maior surpresa do grupo desde a sua já longa existência. Quando começavam a correr rumores dum fim cada vez mais próximo e certo; quando estava em pleno apogeu a decadência inevitável (?) do grupo; quando os Rolling Stones começavam a ser perigosamente vistos como passado e os The Who pareciam definitivamente parados após o "desaire" que teve por título genérico "The Who By Numbers" a "velha" banda de Jimmy Page, John Bonham, John Paul Jones e Robert Plant, dá-nos um trabalho de inevitável força e pujança, num espectacular regresso às primeiras premissas do grupo, numa demonstração perfeita e cabal de que deles muito haveria ainda a esperar.


Já no ano de 1977 é estreado no estrangeiro o filme "The Song Remains The Same", publicando-se simultaneamente o duplo álbum contendo a banda sonora da película cinematográfica.
Trata-se de um trabalho de excelente capturação de toda a energia dos Zeppelin ao vivo, transmitindo-a até nós fidelissimamente.
Já em 1979, aguarda-se ansiosamente o fim da gravação do novo trabalho de longa duração dos Zep, que, muito nos enganamos ou irá surpreender tudo e todos.
Entretanto no nosso País prepara-se activamente a exibição cinematográfica do filme já que a banda sonora do mesmo foi já há tempos editada entre nós.
Led Zeppelin, uma das mais velhas bandas que o rock já conheceu. "The Song Remains The Same", o filme onde está patente toda a sua fabulosa energia, toda a sua fantástica imaginação criadora, toda a sua fabulosa música revitalisante, todo o explendor que tornou os Led ímpares na cena musical e no rock da última década.
Led Zeppelin e "The Song Remains The Same" uma dupla a não perder na exibição cinematográfica que agora vamos ter oportunidade de ver!

Ficha do Filme
Realização: Peter Clifton e Joe Massot
Produção: Peter Grant
Director de Fotografia: Ernie Day
Duração: 136,5 minutos
Artistas: John Paul Jones / Peter Grant / Jimmy Page / Richard Cole / Robert Plant / Derek Skilton / John Bonham / Colin Rigdon


Outro conteúdo interessante, eventualmente a divulgar posteriormente:
. Punk... Punk... Punk... íssimo - artigo de fundo por Mané T. M.
. Crítica - Discos
.. Yes - "Tormato", por JPA
.. Who - "Who Are You", por G.T.
.. Amon Duul II - Almost Alive, por JPA
.. Bob Seger - "Stranger In Town", por G.T.




6.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (145) - Musicalíssimo #1


Musicalíssimo
Dezembro - 78
Preço 50$00
Nº 1




Director e Editor: Jacques C. Rodrigues
Chefe de Redacção: J. Afonso Costa
Fotógrafos: J. Marques, Abel Dias e A. Capela
Propriedade: Editorial Globo - Apartado 10 - Queluz

54 páginas A4 - papel de peso médio - páginas a cores e a p/b numa proporção de cerca de fifty-fifty.
Poster A3 (centrais), papel brilhante - Phil Collins


Banda do Casaco
Entrevista
Nuno Rodrigues e António Pinho. Eles são indiscutivelmente os «leaders» de um dos mais importantes grupos da música portuguesa dos últimos anos - a «Banda do Casaco».


Esta banda, com cerca de 4 anos de existência, já produziu 3 álbuns cujos títulos são (por ordem cronológica) «Dos Benefícios Dum Vendido no Reino dos Bonifácios», «Coisas do Arco da Velha» (que mereceu a classificação de melhor álbum de música portuguesa produzido durante 1976, classificação dada por um grupo de críticos de música ligados a jornais, rádio e televisão) e «Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos», que conquistou idêntico «galardão» também.
A banda tem pronto para sair, um novo álbum cujo título genérico é «Contos da Barbearia». Como eles vão dizer mais adiante «este novo álbum» é muito simplesmente a história de um indivíduo que como todos nós vai ao barbeiro, adormece, e como na história da «Alice no País das Maravilhas» passa para lá do espelho e sonha coisas diversas»...
O «gozo» do trabalho desenvolvido ao longo destes 4 anos, o novo disco, a música portuguesa, foram os temas duma longa conversa que tivémos com o Nuno Rodrigues e o António Pinho e que fica aqui reproduzida.
Uma conversa com a «Banda» por alturas de «Contos da Barbearia». «Banda» que continua teimosa nos seus propósitos de acreditar na música popular portuguesa. E como alguém da «Banda» disse um dia - «a música popular terá de ser um jogo onde todos participem - quem a faz, quem a divulga, quem a ouve, quem a critica...» Jogamos nessa...
M - O que há de concreto acerca do vosso novo álbum?
BC - Já gravámos um disco que deve sair durante o mês de Outubro. Será o 4º álbum da «Banda do Casaco».
M - Isso quer dizer que a «Banda» ainda existe?
BC - Nunca deixou de existir.
M - Quem constitui a «Banda do Casaco» neste momento ou se preferires, quem participa neste novo trabalho de estúdio?
BC - António Pinho, o Nuno Rodrigues, o Celso de Carvalho, a Mena Amaro e o Tó Pinheiro da Silva. Portanto pessoas que participaram noutros discos.
M - E os outros elementos que participaram em discos anteriores?
BC - Esses elementos saíram... como as pessoas saem dos empregos. Não há incompatibilidades, no caso da «Banda», mas como as pessoas têm outras actividades e o grupo não lhes pode proporcionar uma permanência fixa é natural que algumas saiam.
M - Chegou a falar-se da formação de um grupo, que para além dos álbuns estava na disposição de orientar o seu trabalho para outros campos, como por exemplo a organização de espectáculos regulares?
BC - É evidente que nós estávamos cheios de boa vontade, fizémos ainda alguns espectáculos e demos provas de ser capazes. Mas desistimos porque, como temos afirmado noutras ocasiões, é preciso um grande «staff» de material, que nós não temos hipóteses de ter, e portanto preferimos, de momento, suspender esses projectos. Isto não quer dizer que seja um projecto abandonado definitivamente; o que acontece é que de momento não temos hipóteses de fazer concertos amplificados condignamente. Nós fizemos esta experiência 4 ou 5 vezes e resultou muito satisfatoriamente para nós e para as pessoas. Sucede que isso era uma coisa diabólica. Por exemplo, fomos tocar uma vez ao pé de Aveiro, o «cachet» era bom, mas desse «cachet» cada um de nós ganhou apenas 1200$00, porque tivemos de alugar aparelhagem a um grupo de rock, o que nos custou os olhos da cara...
M - Portanto só podemos contar com a «Banda» a nível de registos em estúdio?
BC - É evidente que ainda que cheguemos à conclusão de que não faremos mais espectáculos, continuaremos pelo menos a fazer discos, o que já não é mau num país onde há muita gente a fazer espectáculos e maus discos... Portanto dos discos não desistiremos tão depressa.


M - Daí a saída próxima dum novo álbum?
BC - Exacto. O nosso 4º ábum chama-se «Contos da Barbearia» e é uma série de contos desligados uns dos outros e têm como elo comum o facto de começarem com uma historieta que se chama «Na cadeira do barbeiro», que é muito simplesmente a história de um indivíduo que como todos nós vai ao barbeiro, adormece, e como na história da «Alice nos País das Maravilhas» passa para lá do espelho e sonha coisas diversas que vão constituir o disco. Portanto histórias perfeitamente desligadas umas das outras mas à que demos o título genérico de «Contos da Barbearia». Digamos que este disco é a continuação mais ou menos lógica do «Coisas do Arco da Velha». Provavelmente este disco deveria ter sido o 3º e as «Conquilhas» o 4º. Será portanto natural que no futuro disco (o do ano que vem) retomemos o esquema das «Conquilhas». Aliás acho que um dos aspectos curiosos da «Banda» é que ao ouvirmos os trabalhos que foram feitos já há 4 anos eles continuam perfeitamente actuais.
M - A continuidade deste novo disco em relação ao «Coisas do Arco da Velha», com o «Hoje Há Conquilhas...», pelo meio, terá implicações a nível musical; terá implicações na vossa maneira de fazer as coisas; de compor?
BC - Posso adiantar que vocês vão encontrar neste novo disco uma coisa que se chama «Godofredo cheio de medo» que vai sugerir, embora sendo diferente na linguagem de texto e musical, o «Virgolino faz o pino», ou seja, a descrição de um personagem típico. Vão ter um romance tradicional cantado em Mirandez, que poderá ser o paralelo em relação ao «Romance de Branca Flor», etc....
M - Como vocês sabem a maior parte da crítica e toda a gente que ouviu bem os vossos dois últimos álbuns, fizeram referências ao «Coisas do Arco da Velha» em relação ao «Hoje Há Conquilhas...», como um disco com um som muito mais apreensível, sendo este último um trabalho muito mais amadurecido, de mais difícil assimilação. Este o que é que vai ser?
BC - Digamos que é o retomar do caminho do «Coisas do Arco da Velha» dois anos depois. Não há grandes pormenores de facilidade, mas há um esquema que lembra este nosso álbum. De qualquer forma passaram-se dois anos e as pessoas evoluem.
M - Tu Nuno, continuas a inspirar-te nos tradicionais?
BC - Continuo; se bem que pelo facto de termos pesquisado durante bastante tempo e de termos estudado as nossas características etnográficas, agora começam a surgir temas com essas características populares de forma espontânea. Chegámos portanto a uma altura em que pelo facto de estarmos a pesquisar os instrumentos populares e as próprias melodias as coisas acontecem espontaneamente. Neste álbum acontece uma coisa curiosa. Aparecem canções com música minha e texto baseado ou inspirado em temas tradicionais e da autoria do António Pinho; aparece o inverso e aparecem ainda temas completamente originais mas que têm já um sabor tradicional.


M - Uma constante do vosso trabalho é a pesquisa. Há alguma novidade neste novo álbum por exemplo em relação a instrumentos tradicionais ou formas musicais?
BC - Não. Em relação a instrumentos populares não aparece nada de novo, excepto o bombarda que não é propriamente um instrumento tradicional português mas mais bretão. Mas como há afinidades muito grandes, pelo menos nós temo-las descoberto, entre o nosso folclore e aquilo que se faz na Bretanha e na Galiza, nós vamos usar este instrumento que aliás é muito idêntico à gaita de foles na sua sonoridade. Exceptuando este pormenor não há grandes novidades a nível instrumental no novo álbum da «Banda». Usamos também uma cítara indiana na introdução de um dos temas, porque é uma fábula que se chama «Retrato de homenzinho pequenino com frasco». E não nos repugna nada meter ou utilizar instrumentos de culturas completamente distintas da nossa. Achamos que o importante é a forma como esses instrumentos são utilizados.
M - Será legítimo falar de fases distintas em relação ao trabalho que vocês desenvolveram em disco até agora?
BC - Os trabalhos feitos até agora são completamente distintos uns dos outros. O 1º é-o totalmente do 2º e este do terceiro. Talvez que o próximo álbum seja mais um trabalho de ligação. Os álbuns anteriores foram de pesquisa sonora, de forma de expressão. Este talvez seja o não nos atirarmos para outros voos e comentarmos um pouco mais as descobertas feitas nas etapas anteriores, ou seja nos anteriores álbuns, se bem que se possa considerar que alguns temas de «Hoje Há Conquilhas...», eram do «Hoje Há Conquilhas...», eram temas mais de vanguarda do que aquilo que estamos a fazer agora. Aliás este aspecto poderá vir a tornar-se polémico ou seja, até que ponto é menos na sua escalada! Há um outro aspecto que importa realçar que é o de entretanto terem aparecido outros grupos a tratar a música popular portuguesa. Se não estamos em erro só pouco tempo depois do aparecimento da «Banda» surgiu o GAC e agora existem vários grupos a trabalhar a nossa música tradicional. Havendo já uma série de escolas, de tendências, de trabalhar a música portuguesa, a nós dá-nos um certo prazer continuar a trabalhá-la de maneiras diferentes e descobrir novas formas.
M - Para além dos nomes já indicados há mais gente a colaborar neste novo álbum?
BC - Exactamente. Por exemplo o Armindo Neves (guitarra), o Carlos Zíngaro, o Zé Eduardo que nunca tinha trabalhado connosco e fez baixo-eléctrico, o Rui Reis (piano e órgão) e o Victor Mamede (bateria). E parece que não esquecemos ninguém.
M - E a nível de vocais?
BC - A esse nível não há novidades. É evidente que não houve preocupação de lançar pessoas através da «Banda». Parece que a «Banda» é que tem servido a várias pessoas para se lançarem. Isto não é uma crítica mas apenas uma observação. Neste LP não aparece nenhuma Cândida Branca-Flor ou Gabriela Shaaaf. Utilizámos como coro umas pessoas com quem estamos a trabalhar agora num álbum de música tradicional portuguesa, recolhas totalmente puras. É um grupo que estava ligado à Juventude Musical Portuguesa mas que vai ter um nome próprio e que verá o seu 1º álbum lançado no início do próximo ano.
M - «Benefícios...», «Coisas do...» e «Hoje Há Conquilhas...» são os álbuns editados até agora e que fizeram chegar até ao público o vosso trabalho desenvolvido ao longo de alguns anos, trabalho de pesquisa e tratamento da música tradicional portuguesa. Naturalmente a receptividade desse mesmo público foi diferente de álbum para álbum. Qual terá sido o mais bem aceite?
BC - O segundo foi o que vendeu mais e isso é um indicador. O 1º vendeu pouco, talvez porque foi o 1º. O 2º, talvez por ser o 2º ou pelas suas características, ou ainda por ter passado mais na rádio, foi aquele êxito de vendas. O 3º, por deficiências de promoção, porque já era mais difícil ou mais de vanguarda não foi um grande êxito mas apesar de tudo vendeu-se bem. Pelo menos no nosso entender!
M - Este é o vosso 4º álbum e a vossa 3ª editora. Até que ponto é que este pormenor pode ter tido influência no aspecto criativo dos elementos da «Banda» enquanto músicos? O facto de vocês poderem contar com mais ou com menos da editora não tem qualquer influência no produto final apresentado?
BC - Feito o balanço das editoras por onde passámos e aquela onde estamos, pode-se dizer que temos vindo a subir uma escada nas condições que nos são oferecidas para gravar os discos. De qualquer modo queremos salientar que não tem surgido qualquer tipo de limitação com a mudança de editora, nem essas mudanças nos têm condicionado para um tipo de reportório mais fácil ou mais difícil. Não há condicionantes de qualquer espécie. A única vez que tivemos de mostrar à editora aquilo que se pretendia fazer em disco (o que é perfeitamente natural), e nós numa situação de produtores sentimo-nos na obrigação de exigir isso das pessoas novas que apareçam, foi apresentar uma estrutura, uma maquete daquilo que se iria fazer no primeiro disco. Uma editora não aposta num LP duma coisa nova, sem saber o que é que se vai passar. A partir daí não houve uma editora que nos dissesse «Eu quero ver o que é que se vai fazer». E isto não será uma excepção connosco. Estas mudanças sucedem-se por diversos factores. Até pela mudança da nossa vida. Nós antes éramos «out-siders» da música e em determinada altura assentámos arraiais.
M - Voltando ao vosso novo álbum. Mias algum pormenor de relevo?
BC - Para nós o facto mais importante é que ele é uma súmula do que foi o passado da «Banda do Casaco» no aspecto de conhecimentos. Não demos outro salto para a frente, porque se todos os anos esse salto fosse dado havia qualquer coisa que não estava a funcionar bem. Se é verdade que apareceram vários grupos tratando a música portuguesa, pensamos que ainda não há nenhum que se identifique com a linha seguida pela «Banda». É provável que quando outros grupos começarem a trabalhar, duma maneira mais ou menos idêntica à nossa, a música portuguesa, a «Banda», dê mais um salto em frente.
M - E vocês pensam que isso possa vir a acontecer, a curto ou mesmo a médio prazo? Que apareçam portanto vários grupos tratando a música portuguesa duma forma semelhante à vossa?
BC - Pelo menos até agora, a forma como se tem estado a trabalhar a música portuguesa compreende algumas variantes. Há grupos que estão a fazer a pesquisa e a apresentar os temas da mesma maneira como os foram encontrar. Há grupos que seguem o mesmo esquema, mas ao nível de textos imprimem-lhe um cunho político-partidário. Será uma sequência natural e lógica que se comece a tratar a música popular de várias formas. A este respeito há um aspecto que queria salientar. Como no nosso país não temos um cancioneiro-geral, é muito difícil encontrarmos as fontes. É natural que daqui a dois ou três anos vários grupos estejam a tratar os mesmos temas, precisamente porque não há tantos temas como isso. Desta forma parece-me que estamos a caminhar para um ponto em que haverá tratamentos mais ou menos idênticos.
M - Vamos pensar que apareciam vários grupos tratando a música popular portuguesa. Vocês acreditam que todos esses grupos tinham possibilidade de sobreviver, de se manter a trabalhar a sério, sem o incentivo que é a gravação de um disco, considerada a eternização do trabalho desenvolvido, muitas vezes um trabalho árduo...
BC - ... Desculpa interromper, mas não estou de acordo, até porque os grupos que são conhecidos e que estão a trabalhar a música tradicional estão todos a ser postos em disco. Dá-me a sensação é que se esses grupos não evoluírem na forma de tratar essa música, então poder-se-á cair numa situação de apatia. Não se pode eternamente tratar as coisas ficando pela recolha pura, pondo o acordeão, a guitarra braguesa ou o adufe e mais nada. Há que evoluir dentro disso e essa é a nossa preocupação de facto. É evidente que temos uma canção tratada só com adufes, castanholas, um violoncelo e pouco mais, portanto quase no estado puro, como nós a apreendemos na origem. Achamos é que não se deve ficar por aí criando uma outra sonoridade para se fugir a essa apatia. Nota que nós, encontramos no nosso país os mesmos temas tratados de maneira diferente, de aldeia para aldeia, por vezes bem perto uma da outra. Acontece nestes casos que um tema foi assimilado pela cultura própria duma determinada aldeia duma maneira específica. Se havia naquela aldeia um indivíduo que tocava por exemplo bandolim, esse tema começava a ser interpretado com o bandolim, enquanto noutra aldeia era só cantado e com adufes. Ainda noutra aldeia (a 50 ou 70 km) o mesmo tema podia passar a ter outros instrumentos. Ora nós estamos em Lisboa, estamos no século XX, e temos portanto possibilidades de dispor de determinados instrumentos.
M - Isso é a velha discussão entre os puristas da folk e os modernistas, e sobre a qual se continuará sempre a dizer o mesmo. Uns dizem que sim, outros dizem que não...
BC - ... Resta saber é se às vezes a capa de purista não serve pura e simplesmente para encobrir incapacidades. De facto, muitas vezes, e por aquilo que nos é dado ouvir é essa a conclusão a que chegamos.



M - A existência de vários grupos tratando a música portuguesa pressupõe naturalmente a existência de muitos músicos. Na vossa opinião, existem neste país músicos para garantir o mínimo de qualidade ao trabalho desenvolvido por esses grupos que poderão vir a aparecer?
BC - Aí é que me parece que a situação é mais difícil. Parece-me que haveria músicos mas é preciso uma grande dose de «carolice», de trabalho e de dedicação à música para funcionar como nós funcionamos. Todos nós sabemos que lá fora os intérpretes, os grupos, etc.... não começam em disco mas sim por espectáculos. Cá em Portugal acontece normalmente o contrário. Começa-se pelo disco e raramente se fazem espectáculos. Ora, enquanto não houver condições para se fazerem espectáculos, é difícil surgirem os tais novos valores e por outro lado empurram-se as editoras para o papel ingrato de investirem um pouco às escuras. Parece-nos que para além do pôr o fado ao vivo, ou a balada, ou ainda por exemplo os «cantos livres», as coisas tornam-se mais complicadas. Também será mais ou menos fácil a um grupo coral que cante música tradicional portuguesa e não necessita de grandes meios de amplificação, bastar-se numa sala. No nosso caso, se calhar escolhemos o caminho mais difícil, e temos esse drama que é misturar num palco um violino, uma guitarra acústica, uma guitarra eléctrica, um órgão se necessário, uma bateria em determinada altura, etc. Portanto uma miscelânea de instrumentos acústicos com eléctricos, que exigem requisitos técnicos que custam fortunas.
M - De qualquer modo temos tido a oportunidade de assistir a alguns concertos de rock feito por músicos portugueses...
BC - Isso tem sido verdade nos últimos anos, mas atenção! A maior parte deles angariaram os fundos necessários para comprar a aparelhagem sofisticada que é necessária, muitas vezes indo por essas terras fora tocando em bailes os Cha-Cha-Chas, sambas, tangos e «carnavais», antes de poderem tocar as suas coisas em concertos. A maior parte desses grupos tiveram que passar por uma fase crítica, fazendo muita porcaria, para conseguirem chegar ao ponto em que se encontram neste momento.
M - Vocês pensam que a Televisão e a Rádio poderiam dar uma ajuda nesse aspecto, organizando concertos, mesmo em estúdio, onde fosse possível apresentar os grupos portugueses que existem, ou mesmo novos grupos?
BC - Em relação à Televisão, não sei quais são os seus planos futuros. No entanto parece-me que continua a passar pelas coisas. De facto os magazines são importantes como noticiários, mas depois passa superficialmente pelas coisas. Por exemplo a TV vai filmar os Festivais de Jazz de Cascais. Sim senhor, está no seu direito e na sua obrigação, mas há bons concertos de rock feitos por grupos portugueses e que não são aproveitados, e aí dá-me a sensação que é uma falha da televisão. Em relação à rádio, pois se neste momento tu estivesses a formular um convite para fazer um concerto em estúdio eu diria «Estamos interessados, vamos a isso», mas a médio prazo. Uma vez que estamos nesta situação de não fazer espectáculos, não ensaiamos tanto como ensaiaríamos se estivéssemos a funcionar em pleno ao vivo. Mas parece-me que era um passo importante a dar.
Entrevista conduzida por
João Filipe Barbosa
e Fernando Quinas








Van Der Graaf
O Fim De Um Ciclo

 
Na Universidade de Manchester, em 1967, cinco amigos resolvem formar um grupo - Keith Ellis, Peter Hammill, Hugh Banton, Guy Evans e Chris Judge Smith. Este último, foi quem deu o nome ao grupo mas pouco mais fez, já que passado pouco tempo o abandonaria. E pouco tempo depois, ainda sem terem gravado qualquer trabalho, dava-se a primeira dissolução dos V.D.G.G.
Peter Hammill continuou a trabalhar a solo, intensamente, aparecendo constantemente em pequenos espectáculos, cumprindo alguns compromissos que o grupo efectuara. No final de 1968, P.H., tem já uma proposta elaborada para um álbum, que é aceite. Durante as sessões de gravação, vão aparecendo todos os músicos, à excepção de Smith, que compunham os Van Der Graaf Generator, e que servirá de pretexto para a reformação do grupo. Assim, é editado, ainda em 1968, «Aerosol Grey Machine», primeiro álbum dos Van Der Graaf Generator.
Não passava ainda um ano sobre a data do lançamento do primeiro álbum e já o grupo sofrera novas alterações. Keith Ellis (baixo) abandona o grupo, entrando para o seu lugar Nic Potter. Nessa altura ingressa também um novo membro, Dave Jackson, que vem acrescentar ao grupo novas sonoridades com saxes e flautas. E é com esta formação que são gravados os dois seguintes álbuns, «The Last We Can Do Is Wave To Each Other», e «H to He I'm The Only One».
«H To He...» é um álbum que marca importantes mudanças no som do grupo. Peter Hammill, exímio guitarrista acústico, recusava o som da guitarra eléctrica nos álbuns do grupo. Neste álbum, esse som aparece pela primeira vez, no entanto não pela mão de Hammill mas por um amigo, nessa época um ilustre desconhecido que começava a chamar a atenção, e hoje mais que famoso, Robert Fripp.
Em «Pawn Hearts» Nic Potter já não aparece: - havia abandonado o grupo ainda durante as gravações do álbum anterior. O disco conta com a participação de Fripp nalgumas passagens, como artista convidado - o único na vida do grupo até hoje.


«Pawn Hearts», editado em 1971, marca também o fim do segundo ciclo da vida do Van Der Graaf Generator e o início da carreira a solo de Hammill.
Assim, ainda no decorrer de 1971, é editado «Fools Mate» sob o nome de Peter Hammill, e onde vamos encontrar de novo os V.D.G.G., a tocarem com ele. E é esta situação, com pequenas alterações, que se vai verificar nos quatro álbuns seguintes, «Chameleon In The Shadow Of Night», «The Silent Corner In An Empty Stage», «In Camera» e «Nadir«s Big Chance». *
«Nadir's Big Chance» é o apogeu da sua carreira como solista. É uma sátira Rock ao Rock, através da história de uma fictícia Pop-Star. Este álbum anteced a reestruturação do grupo, que irá produzir três novos trabalhos, com Peter Hammill nas guitarras e voz, Hugh Banton nos teclados, Guy Evans na bateria e percussão e David Jackson no sax e flautas. Este é o único período cujos álbuns são possíveis de se encontrarem no nosso país.
«God Bluff», «Still Life» e «World Record» não são três obras díspares mas formam uma autêntica trilogia, dinâmica e evolutiva. Um período de enorme riqueza criativa de Hammill. Musicalmente, o grupo expande-se para além de fronteiras inimagináveis, tornando-se definitivamente, quanto a mim, no mais extraordinário grupo musical dos nossos dias. Após os climas acústicos, tão ao gosto de Hammill nos primeiros tempos da existência do grupo, os Graaf passam a utilizar os mais sofisticados meios tecnológicos ao seu alcance, utilizados cada vez, maior insistência, dominando-os e manipulando-os de uma forma tão original quanto subtil. Geram climas emocionais intensíssimos, arrazantes. Uma música incrivelmente elaborada, trabalhada e desenvolvida; tão irreal por fora quanto real por dentro; fluxos sonoros que se sucedem numa cadência delirante, deixando-nos perfeitamente extasiados. Por vezes solene e grandiosa, outras, duma simplicidade e pureza notáveis. E Peter Hammill é um poeta, um verdadeiro poeta em toda a acepção da palavra. Místico, gnóstico, biófilo, desencantado, lúcido, angustiosamente lúcido. Crítico feroz, mesmo sarcástico por vezes. Ficcionista. Simbolista. Apaixonado.


Peter Hammill canta com tanta paixão e devoção, como se desse acto dependesse a sua vida. A sua voz, de dicção pura e cristalina, extraordinariamente melodiosa, é trabalhada na perfeição, muitas vezes dobrada em vários tons. Tanto pode expressar júbilo como desespero. Torna-se áspera quando necessário e suave quando lhe é exigido. Um ligeiro sussurro, quase inaudível e calmo, transforma-se num imenso grito de angústia, lancinante e dilacerante. Uma voz cristalina como uma gota de água, vigorosa como a terra, abrasadora como o fogo. Variando entre nuances de enorme beleza, é fascinante a projecção alcançada, sempre com a exacta expressividade.
Em 1977, Jackson e Banton abandonam o grupo, sendo substituídos por Nic Potter, que regressa ao grupo, e pelo violinista, ex-String Driven Thing, Graham Smith. Já com a nova formação grava Peter Hammill novo trabalho a solo, «Over». Um trabalho intimista, que é como uma reflexão, uma breve paragem, a busca de um sentido desaparecido. Um dos mais belos trabalhos de Hammill, tanto no aspecto musical como literário. Infelizmente não foi publicado no nosso país.


Pouco tempo depois grava novo álbum dos Van Der Graaf (agora sem Generator), «The Quiet Zone / The Pleasure Dome», que trás grandes alterações a nível estrutural e sonoro. O regresso de Nic Potter dá uma maior liberdade de movimentos a Guy Evans, impondo simultaneamente uma marcação mais forte e cerrada. Mas a grande novidade sonora é-nos dada através do violino de Graham Smith. O violino é um instrumento de enorme versatilidade, muito mais que o sax, deixando a Hammill uma maior amplitude de escolha de estruturas rítmicas e melódicas. O violino vem tomar um lugar de destaque, quer em solos, quer como suporte de todos os desenvolvimentos e discursos musicais. Os temas ganham uma nova flexibilidade. Dão-se frequentes mudanças rítmicas em cada tema, chegando mesmo por vezes a uma mudança radical do tempo, dando-lhes um novo dinamismo e vigor. A música ganha novos contrastes e uma maior unidade.
Era a entrada do grupo numa nova era. Infelizmente, hoje sabemos que efémera. Os Van Der Graaf desapareceram mais uma vez. Deixam um vazio que ninguém jamais poderá preencher até um novo regresso!?1
Mas Peter Hammill não ficou parado. Na altura em que a notícia do fim do grupo foi dada, acabava de gravar novo álbum-solo «Future Now».
«Future Now», como não podia deixar de ser, é um álbum fabuloso, que se segue a linha (se é que se pode chamar «linha» à evolução constante do grupo por caminhos tão pouco esperados como surpreendentes), iniciada em «Over».
Van Der Graaf, o mais espantoso grupo rock, voltará de novo um dia, quando ninguém esperar. Ficam-nos as obras a solo de Hammill, não menos espantosas. E esperemos que Peter Hammill passe a aparecer regularmente no nosso mercado discográfico. Pode ser que lá pelo Natal, como presente, a Polygram portuguesa edite «Future Now».
Van Der Graaf, patético. A emoção de se estar vivo.

G.T.

* No ano de 1974 a «família» Van Der Graaf Generator publicou um trabalho, que segundo informações que possuo somente foi editado em Itália e cujo título genérico é «The Long Hello». Um álbum totalmente instrumental em que participam David Jackson, Guy Evans, Nic Potter, e Hugh Banton. Curiosamente o próprio Peter Hammill aparece sob o nome de Pietro Messina, executando guitarras acústica e eléctrica e piano. O álbum regista ainda a participação dum tal Ced Curtis. Edição do LP na etiqueta United Artists.




O Rock Português
BEATNICKS



«Musicalíssimo» divulgará em todos os números nomes que constituem o panorama rock português, que por mais que certos detractores queiram evitar, existe mesmo e em força.
Para iniciar esta secção, que incluirá num futuro próximo também entrevistas com músicos rock portugueses, seus problemas e demais assuntos ligados com o movimento rock em Portugal, nada melhor que começar com os Beatnicks, que acabam de ver lançado no mercado discográfico português o seu primeiro trabalho em single, um trabalho bem esquematizado e promissor, que nos alerta para futuros discos e nos dá a consoladora certeza de em Portugal ser possível fazer rock do bom, e sobretudo apoiado por textos em português!
Os Beatnicks são actualmente: Jorge Casanova (guitarra-solo), Luís Araújo (bateria), António Emiliano (teclas), Ramiro Martins (guitarra-baixo) e António «Stratos» Leal (vos), e têm como não poderia deixar de ser uma história para contar: Reuniram-se há cerca de três anos Jorge Casanova e Ramiro Martins (que havia integrado uma formação mais antiga do grupo) e resolveram começar a tocar os dois. O «genesis» aconteceu numa peça de teatro cujo título era «Viagem à Íris».
Entretanto o nome Beatnicks, havia sido escolhido, uma vez que Ramiro tinha tocado nesse mesmo grupo e logicamente isso ajudaria imenso, por ser um nome já conceituado, que disfrutava inclusivamente de certo prestígio no meio musical português. Aliás, Ramiro é neste momento o único «sobrevivente» da formação original.
Sobre as influências que se evidenciam na música praticada pelos Beatnicks, Casanova acha que o grupo tem forçosamente que sofrer certas influências por tudo aquilo que os membros ouvem, porque é praticamente impossível uma pessoa alhear-se de várias coisas, nomeadamente pelo facto de toda a gente ouvir rádio todos os dias!
Sobre aquilo que para certos músicos é extremamente difícil - cantar em português - o grupo tem as suas próprias convicções e é de opinião, que se os habituais ouvintes da sua música são portugueses, a maneira mais eficaz e correcta de se expressarem será em língua portuguesa! O grupo afirma mesmo: - «As pessoas em Portugal tem a mania de que aqui nunca nada é bom, lá fora é que é! Mas nós, não pensamos do mesmo modo: - temos uma língua própria, devemos cantar nessa língua, até porque assim é muito mais fácil fazê-las sentir o que queremos dizer!». Todavia o grupo faz questão de frizar que este sentir, é apenas uma opção do grupo, e não uma dificuldade de «fabricar» as letras em inglês.
O responsável pelas líricas dos Beatnicks é Jorge Casanova; a música vem na continuação. Quando um trecho tem letra, o que nem sempre acontece, ou quando acontece ter só música, ou até ter só voz, Jorge Casanova faz o que falta, completando posteriormente o grupo os arranjos, que são feitos em conjunto.
Para já os Beatnicks ensaiam numa sala instalada num andar, em relação ao qual o senhorio impôs terminantes condições: - só poderiam ensaiar ali, se conseguissem isolar acusticamente o local. O isolamento foi feito - até porque se isso não se verificasse o grupo ficava de repente sem sítio para poder ensaiar-se - e assim, pouco a pouco, nasceu o estúdio onde o quinteto ensaia hoje em dia, produzindo rock, que a avaliar pela amostra contida no trabalho discográfico de lançamento - «Somos o Mar» e «Jardim Terra» - é do melhor que se tem feito no nosso País até ao momento, apoiado sobretudo nas potencialidades vocais de Tó «Stratos», a grande revelação do conhecido Musical Açores de 1977!
«Musicalíssimo» cá fica à espera de novos trabalhos e notícias dos Beatnicks, e de outros grupos rock portugueses claro!
J.A.C.


Outro conteúdo interessante, eventualmente a divulgar posteriormente:
. Dossier sobre os Genesis
--> GENESIS - «...Ant Then There Were Three...» - Entrevista (10 pgs.), por J. Afonso Costa
--> Keith Moon - baterista dos WHO - Morreu Uma Estrela Do Rock (artigo de 3 pgs.), por J.A.C.
--> O 8º Festival de Jazz de Cascais - reportagem de 3 pgs., por Fernando Quinas
--> Colosseum II - Artigo/Reportagem do Concerto de Lisboa (3 pgs.), por J. Afonso Costa
--> Uma Boite - Scarllaty
--> Novidade - Discos
Blondie - «Plastic Letters», por G.T.
Squeeze - «Squeeze», por G.T.
Stranglers - «Black And White», por G.T.
Moody Blues - «Octave», por JAC
Brand X - «Livestock», por JAC
Sparks - «Introducing Sparks», por JAC
Renaissance - «A Song For All Seasons», por JAC





5.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (144) - Musicalíssimo #8


Musicalíssimo
Setembro - 79
Preço 50$00
Nº 8


Director e Editor: Jacques C. Rodrigues
Chefe de Redacção: J. Afonso Costa
Corpo Redactorial: João Filipe Barbosa; João Pedro Araújo, Gonçalo Tello, Fernando Quinas, Carlos J. Gomes, J. Afonso Costa, Carlos Antunes, Abreu Costa, Manuel Cadafaz de Matos, A. Sérgio, C. Jorge, Marina Dias, Mané T. M., Rolling Stone, Maria Dulce.
Fotógrafo: Jorge Jacinto
Propriedade: Editorial Globo - Apartado 10 - Queluz

54 páginas A4 - papel de peso médio - páginas a cores e a p/b numa proporção de cerca de fifty-fifty.
Poster A3 (centrais) - Boney M.




FRANK ZAPPA - A Felicidade Musical De Um Ideólogo Infeliz
Depois de escrito este artigo, saiu o novo álbum duplo de Frank Zappa, "Sheik Yerbouti" sobre o qual nos debruçaremos em breve.



Escrever algo sobre Frank Zappa é extremamente fácil. Escrever algo sobre Frank Zappa, com interesse, pode tornar-se bastante complicado.
Quem é realmente Frank Zappa?
A que se deve concretamente toda a sua popularidade?
Até que ponto terá sido de facto um inovador ou mistificador?
Zappa é para alguns um génio, visto por vezes quase como um profeta; para outros é apenas um louco.
Tenho, como certo, para mim, que génio não é certamente e que um louco não se comporta assim. E como certo, tenho igualmente que a parte fundamental da sua personalidade não está no que aparenta ser mas no que aparenta não ser.
Francis Vincent Zappa nasceu a 21 de Dezembro de 1940 em Baltimore, Maryland, siciliano por sangue paterno, grego por sangue materno e americano por nascença. Aos dez anos de idade mudou-se com os seus pais para a West Coast, primeiramente para Monterey, seguindo depois para Pomona em S. Diego, aos treze anos. Finalmente a sua família mudou-se para Lancaster, na Califórnia, entrando Frank, que então contava dezasseis anos de idade, para a Antilope Valley School, onde permaneceria até à sua graduação em 1958. No ano seguinte ingressa na Chaffee Junior College e casa pela primeira vez com Kay. Esta ligação durará cerca de cinco anos.
Entretanto, Zappa, que aos doze anos se apaixonara pela bateria e aos dezasseis militou no grupo "The Blackouts" (descobrindo entretanto a música electrónica de Edgar Varése e ouvindo avidamente R&B, muito em particular Howlin'Wolf), começa a escrever as suas primeiras partituras, sem no entanto as ouvir executadas e aprofunda os seus conhecimentos musicais frequentando alguns cursos de harmonia.
Stravinsky e Stockhausen começavam também a interessar francamente Zappa, crescendo de igual modo a sua paixão pela música e pela guitarra eléctrica. Vivendo agora em Los Angeles, divide o tempo entre o emprego conseguido numa agência de publicidade (que lhe viria a ser de grande utilidade no futuro), e nas actuações em cocktails, o que não era propriamente a sua ambição.
Em 1960 faz a sua primeira gravação, uma banda sonora para um filme de segunda categoria, "The World's Greatest Sinner", envolvendo no projecto 52 músicos, acabando no entanto por não auferir nenhum proveito monetário desta experiência inicial a nível de gravações.
Mas em 1963 tudo iria mudar para Zappa de modo radical: - o seu antigo professor de inglês convida-o a compor a banda sonora do filme "Run Home Slow", um Western, dividindo com ele os proventos então conseguidos. Não foi uma grande fortuna o que recebeu, porém serviu-lhe perfeitamente para cimentar as bases da sua futura carreira, adquirindo uma guitarra eléctrica e um estúdio de gravação.
O estúdio foi baptizado como Studio - Z, tendo 5 pistas e um misturador mono. Era suficientemente espaçoso para que se pudesse lá instalar, acompanhado por duas amigas e um amigo, podendo desenvolver com inteira liberdade, a partir deste momento, as suas próprias experiências sonoras, dando largas à sua imaginação sem limites.


Já em Cucamonga, local onde se situava o estúdio Z, dá início a um projecto, com o seu antigo companheiro de estúdio, Don Van Vliet, aliás Captain Beefheart, para a realização de um álbum denominado "I Was A Teenage Maltshop", considerada a primeira opereta de Rock 'n' Roll. Contudo, este álbum, rejeitado pelo produtor, não chegou a ser publicado e o projecto The Scoots quedou-se por aí.
Como nessa época o dinheiro não abundasse, Zappa resolveu começar a fazer fitas sobre sexo, o que lhe valeu dez dias de cadeia e três anos de pena suspensa. Mas os seus problemas não ficavam por aqui; vivendo, em concubinato com uma menor, teve de pagar igualmente a fiança da sua amiga com os royalties obtidos com "Memories of El Monte", escrito de parceria com Ray Collins.
Apesar disto, pouco a pouco, tudo melhorava substancialmente, conseguindo alguns contratos para tocar - ou co-escrever - algumas canções, o que sempre lhe dava algum dinheiro indispensável para a concretização dos seus planos.
O passo seguinte seria a formação dos "Soul Giants", que pouco tempo mais tarde se passaram a denominar "The Mothers". A sua formação original era composta por Ray Collins (vocals), Roy Estrada (baixo), Jimmy Carl Black (bateria) e Dave Coronada (sax), que abandonaria pouco depois por desinteligências internas.
Os primeiros tempos da existência do grupo foram extremamente difíceis, escasseando o dinheiro e os contratos, mas acabaram por conseguir actuar no Whiskey A Go-Go, aí permanecendo algum tempo com aparições regulares. Whiskey A Go-Go foi o primeiro clube de Los Angeles a promover espectáculos ao vivo com os novos grupos e músicos que emergiam do rock, alcançando um sucesso incrível na época, tornando-se num dos lugares mais considerados e populares de toda a América. De facto, estas actuações foram a grande oportunidade do grupo, que acabaria por os lançar no futuro que hoje se conhece, pois foi aí que Cecil Taylor os descobriu e por eles se interessou, promovendo seguidamente todos os esforços necessários à publicação do seu primeiro álbum.
Zappa, entretanto, havia tentado conseguir um contrato com a Columbia, tendo essa sua tentativa ficado gravada na história do grupo, através da palavras imortais de Clive Davies perante a música que lhe fora apresentada: - "No Commercial Potential".
Em 1966, através do citado Cecil Taylor, assinam um contrato com a Mom / Verge Records, publicando em Agosto desse mesmo ano o histórico "Freak Out", o primeiro do grupo. E dizemos que se trata de um trabalho histórico porque: - foi o primeiro duplo álbum da história do rock; custou cerca de 21.000 dólares, número fabuloso para a época, sobretudo tendo em conta que se tratava de uma estreia; foi o primeiro trabalho no estilo de concept álbum, e pelas propostas sonoras então apresentadas, verdadeiramente revolucionárias para a época.


"Freak Out" representava o retrato do ambiente musical de Los Angeles, e do movimento Underground que tomava forma e força. Cabe agora frisar que, bem ao contrário da grande maioria dos músicos da Califórnia, Zappa nunca se mostrou muito interessado pelo sol resplandecente que aí brilhava, ou pelo Surf tão em voga, escrevendo cançõezinhas bem dispostas, agradáveis e óptimas como promoção turística. Não menos importante, convém deixar bem explícito que Zappa nunca foi um Hippie mas isso sim, e desde sempre, um Freak. De resto, isto não revela nenhuma perspicácia da nossa parte, uma vez que é o próprio Frank que faz questão de o reafirmar repetidas vezes, empregando a frase:
- "Sou e sempre fui um Freak, jamais um Hippie", como sua máxima.
De qualquer forma, ao longo de "Freak Out", esta asserção torna-se suficientemente evidente, para não passar despercebida. A sua música não revelava afinidades nenhumas com a que se fazia nessa altura a nível do rock, e em especial com a música dos Beach Boys, que eram então o modelo da nova juventude californiana, nem com a onda do Flower Power, que se alastrava por todo o mundo.
"Freak Out" era católico, anárquico, pesado. Possuía uma agressividade e uma violência absolutamente fora do comum, como se libertassem todos os seus instintos primários recalcados no dia-a-dia das suas existências. É curioso notar que esta violência encontrada em Zappa, sobretudo na época dos Mothers of Invention (nome que a companhia discográfica acabou por achar mais seguro para o grupo)., era substancialmente diferente da libertada por outros grupos; por um lado mais subtil e por outro mais selvagem e primitiva. Sem dúvida que deparamos com um paradoxo, mas não deixa de ser um facto real. Zappa cria através da sua concepção geral, quer musical, quer por vezes a nível dos textos, um clima subtil, trabalhado e com certas dificuldades de uma apreensão, completa, imediata; contudo, a interpretação, ainda que se trate de um trabalho de estúdio, é captada como se ao vivo fosse, ficando-nos a sensação de que a parte principal foi gravada de uma só vez, acrescentando-se posteriormente alguns arranjos orquestrais e efeitos especiais - hipótese bastante provável se levarmos em linha de conta as limitações da época. Ora, a violência selvagem e primária que há pouco mencionámos, é criada, segundo nos parece, precisamente pela tensão elaborada entre os diversos instrumentos por meio de uma grande ênfase dada ao trabalho individual, em que a improvisação representa um papel fundamental conducente a um clima de intensa emotividade, que resulta no ambiente especialmente truculento e instintivo, agressivo e brutal.
Admitimos também que as propostas musicais de "Freak Out" se nos afiguravam revolucionárias; vamos a ver em que medida isto é exacto:
- Tomando o termo revolucionário como lago que se cria de totalmente novo, a nossa afirmação estaria completamente errada já que, em boa verdade, Zappa não fez nada de inédito em termos musicais absolutos. Não obstante, mantêmo-la porque a sua concepção musical, essa sim, é de facto nova e revolucionária.



Zappa foi o primeiro músico a levar até às últimas consequências a ideia de colagem inerente ao Rock, não só a nível de textos mas a nível musical, encarando a composição sob um prisma inteiramente novo. As suas obras contêm as mais diversas e variadas referências (de forma e estilo) musicais, indo do clássico ao Jazz, do Rock até à música electrónica, passando pelos Blues, R & B e até pela música normalmente considerada de entretenimento como seja a música de cabaret dos anos 40 / 50, ou o vaudeville. Mas o principal interesse da sua música não reside propriamente nas referências, que por si só não lhe dariam mérito algum especial, mas sim no modo como as apreende e articula - a colagem.
Não deixa de ser significativo o facto de não notarmos na música dos Mothers a presença de qualquer instrumento que jogue de maneira preponderante no desenvolvimento dos temas. Isto é, quer o piano ou o baixo, ou mesmo qualquer outro, nunca concentram em si a ideia básica, melódica ou rítmica, estando condenados a tocar ao longo de um todo, que por seu turno se transforma, ele próprio, na ideia. Concepção esta que se acentuaria ainda mais no trabalho seguinte, «Absolutely Free», gravado nos finais de 1966. Deste modo a colagem passa a constituir, por assim dizer, a trave em que assenta a obra Zappiana, dado que ela própria se torna no todo, que por sua vez se transmuda na ideia absoluta da obra.
Mas este esquema de compor, organizar e arranjar, tudo em função de uma única e exclusiva ideia geral, será ligeiramente alterado a partir do seu álbum a solo, «Hot Rats», no qual se dá uma nova importância à secção rítmica, passando esta a constituir o fio condutor dos sucessivos desenvolvimentos e encadeamentos, ocupando um lugar de destaque, uma relevância decisiva, que até aí lhe fora negada.
Ainda falando dos primeiros tempos dos Mothers, outro aspecto interessante consiste no cuidado posto nos arranjos musicais, elaborados até ao mínimo pormenor. Aqui observa-se uma influência extremamente interessante, e importante, de Schoenberg. Como muitos decerto sabem, este músico contemporâneo, foi, e é, considerado, na maior das probabilidades, como o mais importante teórico da tonalidade, compondo algumas obras de perfeito conjunto tonal, para isso recorrendo a uma série inédita de soluções, tão originais e imaginativas, como revolucionárias. Frank Zappa, como é óbvio, não podia ficar indiferente a uma tão forte personalidade, sobretudo quando podia ir buscar aí uma das grandes fontes de inspiração para concretizar os seus ideais musicais. E de facto, essa influência pesa na mente de Zappa, muito em especial em soluções a nível de arranjos de metais, através de alguns excelentes jogos tonais.
Após «Absolutely Free», os Mothers iniciaram em Nova Iorque, mais especificamente em Greenwich Village, uma série de concertos que cimentariam definitivamente as bases da sua futura imensa popularidade, começando desde logo a gerar-se a polémica que ainda hoje acompanha a figura de Zappa, sobre a qual falaremos daqui a pouco mais detalhadamente.
O espectáculo dos Mothers, caracterizava-se, de imediato, pelo seu aspecto eminentemente teatral. Frank Zappa era o fulcro das atenções. Convidava as pessoas a participar activamente. Mandava parar os músicos e sentava-se descansadamente no palco, a fumar um cigarro, olhando a audiência fixamente. Entrava em longos monólogos, pretendendo fazer sentir às pessoas que, se ali estavam para ver estranhos, o melhor que tinham a fazer era olhar para elas próprias. Mas sobre o showman Zappa, teremos ainda oportunidade de nos referir mais adiante. De momento concentrar-nos-emos numa rápida visão sobre as suas obras discográficas.


Em 1967, Frank inicia simultaneamente a produção de duas diferentes obras, «Ruben and the Jets» e «Uncle Meat», enquanto termina «We«re Only On It For The Money». Este último, uma paródia ao rock e ao fenómeno Beatleano. «Ruben and the Jets» é um trabalho invulgar dos Mothers, sendo todo ele um abandono ao R&B e ao Rock 'n' Roll. «Uncle Meat», no entanto, embora tenha sido gravado no mesmo período, é diametralmente oposto, seguindo uma linha experimentalista.
Ainda em 1967, Zappa termina o seu primeiro trabalho a solo, «Lumpy Gravy». Segundo o autor, este álbum teria sido escrito em onze dias, tendo de recorrer a algumas composições antigas, revestindo-as de um novo tratamento sinfónico. Aqui, mais uma vez, fica bem patente o método de trabalho de Zappa: - uma colagem perfeita das suas múltiplas influências musicais, de Edgar Varése a Stravisnky, até Prokofief, ampliando agora a sua concepção a uma linha mais Jazzy, notando-se certas influências de John Coltrane, numa mistura grandiosa e eloquente, muito embora se assista a certos hiatos estilísticos, e a alguns desfazamentos incompreensíveis.
Entretanto, são editados vários ábuns-compilação dos três primeiros trabalhos dos Mothers para a M.G.M., não possuindo, porém, nenhum deles o feeling essencial do grupo, apresentando-se os temas, mais ou menos, apenas como um aglomerado disperso. Face a isto, Zappa decidiu encarregar-se ele próprio de uma compilação que mantivesse o espírito do conjunto e das obras, o que se veio a efectivar no álbum «mothermania».
Em 1969 publicam-se mais três originais do grupo »WPLY», «Burnt Weenie Sandich» e «Valerie», sendo o primeiro e o terceiro dois trabalhos virados para os anos 50. É editado um álbum com gravações ao vivo, «Weasels Ripped My Flesh», onde a guitarra de Zappa começa a sobressair e a salientar-se do resto do grupo, sobretudo num soberbo solo no tema «Get a little»; e dá-se o desmembramento dos «Mothers of Invention» até que as pessoas estivessem aptas a receberem a sua música e a assimilar.
Frank Zappa havia-se tornado entretanto num hábil administrador dos negócios do grupo, fundando inclusivamente uma etiqueta própria, distribuída pela Reprise Records, uma agência de publicidade e outros empreendimentos, que iria aumentar e consolidar-se após este primeiro desmembramento do conjunto. Neste período, intensifica de igual modo o seu trabalho a nível de produtor, procurando sobretudo descobrir novos elementos provenientes do underground de Los Angeles. Sem abandonar a sua carreira de compositor e de guitarrista, grava o seu segundo álbum a solo, «Hot Rats».
Como referimos atrás, «Hot Rats» marca uma viragem decisiva na carreira de Zappa; dá-se uma aproximação mais nítida ao Jazz e ao Rock se assim se pode considerar, tornando-se mais relevante a secção rítmica, na qual Zappa se impõe gradualmente como um virtuoso da guitarra. Assim, menos voltado para o experimentalismo, menos hermético e mais directo, Zappa conseguiu chegar, com este novo álbum, a uma nova camada de público que até aí se não mostrava muito receptivo Às suas obras.
Digo de interesse e nota é o beat quase matemático, com frases justapostas e repetidas, intersecções, e tudo isto numa medida exacta, culminando num todo complexo, coeso e homogéneo. Na guitarra, Zappa desenvolve sobretudo um esquema de pergunta-resposta, libertando-se por vezes da frase principal, mantendo sempre, no entanto, um marcado sentido de simetria deveras curioso.
«Chunga's Revenge», o seu trabalho seguinte, acentuava as premissas do anterior, nele entrando um novo elemento preponderante, a voz. Não que até aí a voz não assumisse um papel importante, só que estava inserida no todo, não representando, se assim se pode dizer, um papel perfeitamente autónomo e individual. Esta, de resto, ia ser a principal característica do trabalho seguinte, «200 Motels», banda sonora do filme do mesmo nome, também de Zappa, que não parece ter sido um projecto bem sucedido, como filme, já que musicalmente tem alguns momentos excelentes. De qualquer forma, não podemos fazer um juízo de valor totalmente correcto sobre o filme porque o não vimos e apenas nos baseamos em críticas realizadas por terceiros.


Com «200 Motels» dá-se a reformação dos Mothers que gravariam dois novos trabalhos, curiosamente duas gravações ao vivo: - «The Mothers - Filmore East-June 1971» e «Just Another Band From L.A.», intercalando com um terceiro trabalho - «The Grand Wazoo» e mais outro a solo - «Waka Jawaka», sendo este último uma continuação de Hot Rats, sob um aspecto grandioso, grandiloquente e levemente estéril, um tanto deslocado e o anterior um gozo, uma paródia a essas mesmas premissas de um jazz grandioso e conceptual, composto à medida dos seus ouvintes.
«Overnite Sensation» sai em 1973 e traz-nos um Frank Zappa mais rockilizado, popizado, tentando chegar a uma camada de público ainda mais vasta, sacrificando desse modo as suas complexas concepções musicais, apresentando dum modo muito mais simples e directo as suas composições (canções). Proposta que se vai seguir no trabalho imediato - «Apostrophe»: soft jazzy para relaxar os nervos, procurando na medida do possível não provocar o ouvinte, enquanto Zappa se vai aperfeiçoando e refinando em todas as subtilezas possíveis pelas técnicas cada vez mais sofisticadas dos estúdios.
«Roxy and Elsewhere» sai em 1975 e assenta basicamente em material gravado ao vivo, disperso, que nunca havia porém sido publicado anteriormente: um álbum sobretudo interessante, por mostrar diversas facetas de Zappa: - do experimental à paródia do jazz indo mesmo até ao plágio da guitarra de Hendrix (que por acaso tinha aprendido a tocar ao ouvir Eric Clapton, mas isso é outra história).
Ainda no mesmo ano, e igualmente gravado ao vivo nos concertos realizados na Finlândia, publica «One Size Fits All», um trabalho cujo único ponto negativo é uma certa falta de coesão total, embora em si cada tema, seja dos melhores momentos que Zappa nos ofereceu. «One Size...» é um trabalho que poderia ter sido uma das suas supremas realizações não fosse o aspecto já citado, que, e embora possa parecer de somenos importância, neste caso era fundamental.
A grande surpresa viria no final do ano com «Bongo Fury», gravado ao vivo no Texas, coroando de êxito as suas tentativas (ao longo de dois anos) de fazer com que o seu velho amigo Captain Beefheart pisasse de novo o palco. Contudo o álbum acabaria por ser uma grande desilusão, faltando-lhe força, homogeneidade e coesão suficientes para o tornarem interessante.
«Zoot Allures» surge seguidamente, devolvendo-nos uma Zappa tão rock quanto desinteressante. Pretensamente fácil, simplista, tentando apenas atingir objectivos comerciais, é a sua pior obra de sempre!
«Live In Europe» de 1977, não melhora muito a sua imagem dos últimos tempos, ainda que retroceda um pouco no tempo, tentando reencontrar a chama de outrora. Mas a verdade é que no fundo o álbum sofre de inépcia, dando-nos a impressão de que não se trata de obra sua. Melhor diríamos: - Realmente trata-se de uma obra sua, com o seu cunho inconfundível, mas interpretada sem grande convicção por terceiros.
«Studio Tan» de 1978, até ao momento a última obra publicada em Portugal de Zappa, e que antecede a já anunciada «Sheik Your Booty», com publicação assegurada entre nós para já, é um bom reencontro com ele próprio. Sem ser uma obra espectacular, consegue trazer-nos o humor e espontaneidade que pareciam irremediavelmente perdidos. Jogando sobretudo com a ironia e o falso, até da sua própria música. «Studio Tan» consegue por vezes ser perfeitamente desconcertante. Mas mesmo que não seja o melhor de Zappa, pelo menos dá-nos a certeza absoluta de que ele não está, de modo nenhum, acabado. De resto, sobre este trabalho, se falou mais detalhadamente na secção de análise de discos.
E uma vez passada uma visão rápida sobre a obra discográfica de Frank Zappa, detenhamo-nos um pouco na observação da evolução da sua ideologia e comportamento ao longo do tempo.
No início, Zappa, toma uma atitude de certo comprometimento político contra o sistema social e económico dos Estados Unidos. No entanto, depressa se compreende que essa sua atitude, afinal, não passava disso mesmo, não havendo qualquer empenhamento real, sério e profundo, para além de uma enorme necessidade de autopromoção. Houve é certo, e ainda há, certas pessoas que não se excusam a afirmar peremptoriamente o grande comprometimento, e a sua luta estóica contra o sistema; problema que é exclusivamente deles e não dele. Isto não quer dizer que o problema social não tenha interessado, ou melhor, preocupado, Zappa mas que tal o afectou apenas minimamente é sabido.
Os Mothers, como já dissemos, nascem na altura do «riot» da West Coast Sound. Zappa, tinha um público específico para se dirigir: - os jovens contestatários que faziam tremer as estruturas da sociedade, fanáticos apaixonados do rock. Era aí que tinha de procurar a sua futura audiência e para tal fim atingir, tinha de usar as armas certas. Nessa época, as armas certas eram precisamente o rock e a política; logo, se a sua opção por uma aproximação musical estava já concretizada, mais não lhe restava que assumir igualmente uma personalidade minimamente politizada. Se Zappa tivesse descuidado esse segundo aspecto, ainda hoje andaria à procura do êxito que sempre ambicionou alcançar. Claro que teve inúmeros problemas, mas isso não invalidade de modo nenhum a nossa afirmação, até porque os problemas fazem parte do jogo, como é natural.
Não haja ilusões, procurar agradar sempre ao público ou procurar chocá-lo continuamente é exactamente a mesma coisa; ambos põem a reacção do público em primeiro lugar. Zappa escolheu a segunda fórmula, chocar o público, ou seja, agradar a todos os que gostariam igualmente de o chocar, e quanto maior for o choque, maior será igualmente o movimento de reacção, a seu favor. Nada há de transcendente, tudo é natural. O único perigo que eventualmente poderia existir seria o abuso e exagero dessa fórmula, por isso a diplomacia tem de ser constante, e Zappa cultiva-a, não ousando ultrapassar certos limites, dentro dos quais tudo correrá como previsto.
Em 1968, afirmava que o Governo devia estar nas mãos dos jovens em vez de estar nas mãos de velhos. Logo de seguida dizia que os jovens não estavam educados para assumir o poder e que não via nada mais perigoso que a presidência dos USA nas mãos de um jovem de dezoito anos de idade. Duas afirmações que se anulam mutuamente: - se os jovens não estão educados, não deverão tomar o poder, logo a primeira afirmação deixa de ter qualquer valor; do mesmo modo, se os jovens deverão conquistar o poder é porque estão preparados para tal.
Seguidamente, e na continuação desta entrevista, inserida no livro «O Mundo Da Música Pop», de Rolf-Ulrich Kaiser, Zappa disserta sobre o modo de conquista do poder pela juventude. Da sua educação, nem mais uma palavra. Continuando, diz, após a conquista do poder, este não necessitaria de sofrer novas alterações, partindo do princípio que as pessoas que estivessem no Governo teriam uma situação e uma idade, de acordo com o termo médio da população.


Claro, a lógica de Zappa, é infantil e ridícula, mas tentemos pôr um pouco de ordem nisto tudo. Temos duas hipóteses:
a) Tomada imediata do poder pelos jovens.
b) Tomada do poder pelos jovens após um período de educação.
Supondo que se concretizava a primeira hipótese, o poder deverá ficar repartido entre elementos de um escalão etário e de «status» social, equivalentes ao termo médio da população, não necessitando, por outro lado, de ser substituído em qualquer caso, uma vez verificadas as premissas anteriores. Qual será então o tipo de Governo que, composto por pessoas cuja média de idades tenderá a aumentar cada doze meses de um ano e não obstante se mantém similar ao termo médio da população que aumenta, hoje, substancialmente, embora a um ritmo francamente mais moderado, podendo inclusive diminuir em dada altura, e cujo «status» social médio dos elementos que integram esse poder equivalerá o termo médio da população?
- Nenhum!
Não é de espantar a conclusão a que se chega. Anarquista, só em casa, mas o ideal seria não haver Governo. A partir daqui, poder-se-ia pensar que as respostas de Zappa teriam em vista a conclusão a que chegámos. No entanto, isso parece-me errado porque pressupunha um apurado sentido irónico que ele não possui. Quanto a nós, este facto deve-se à falta de lógica e ao vício do seu pensamento, nada mais.
O segundo caso, ilustra um outro aspecto da personalidade de Zappa - a sua diplomacia. Em toda esta sua entrevista não faz qualquer alusão ao que entende por educação nem aos meios pela qual esta devia ser realizada. Se se preocupa verdadeiramente com a conquista do poder, se o poder só pode ser conquistado após uma prévia educação da juventude, o problema da educação não só é fulcral como primordial. Ora, se afinal o que o parece preocupar são apenas os meios de conquista, sabendo no entanto, que tal não poderá acontecer, uma vez que faltará o sujeito da acção, só podemos concluir que não se preocupa de facto com o que se possa passar, apenas sente necessidade de o fingir. Nisto consiste a sua diplomacia: - parecer alguém realmente interessado nos diversos assuntos de modo a sugerir um belo efeito de retórica, vazia, amenizando as várias facções dos problemas em questão.
Contudo, teve o mérito de saber fugir de certos dogmatismos ainda mais primários, o que daria muita alegria àqueles que a dado momento resolveram mimoseá-lo com epítetos como traidor do povo, reaccionário, enfim, o rol usual nestes casos, agindo como um amante desesperado pela infidelidade do seu par.
Um outro aspecto que interessa considerar, por nos parecer fundamental, é a questão do movimento hippie e da sua distanciação do mesmo, onde encontramos o único facto coerente da sua personalidade. Proferindo «sempre fui e sempre serei um freak, jamais um hippie», mais do que afirmar algo, rejeitava uma posição que ele não pretendia assumir; envolvimento em grupos espirituais de qualquer espécie, grupos de acção política ou social, embuídos de idealistas primários e de misticismos confusos. Com o termo freak, Zappa não pretendia um método de estar na vida mas apenas uma atitude. Conservando sempre uma nítida distanciação de tudo o que se passa em seu redor, vai no entanto aproveitar essa realidade que o cerca para construir os seus próprios temas, até ao mínimo pormenor, demonstrando uma excelente capacidade de observação embora demonstre uma igual incapacidade de raciocínio.
Abandonando, pouco a pouco, quase completamente os temas de cariz político, vai passando gradualmente a afundar-se em pornografia. Durante os seus espectáculos, o palco transforma-se num imenso cabaret, com bailarinas nuas, semi-nuas e, algumas esquecidas, vestidas, deambulando por todo o espaço cénico. O sexo é o elemento essencial, explorado ao máximo, roçando por vezes a aberração total.
Frank Zappa quer chocar, provocar uma reacção imediata, forte e instintiva. Para ele, não importa a qualidade mas a intensidade, por isso é intrinsecamente pornográfico. E esta sua tendência leva-o mesmo ao ponto de, em palco, fingir que se masturba provando deste modo toda a sua hipocrisia. Quanto mais não seja, esta atitude é de uma falta de sentido estético total, o que, para alguém que se pretende artista, é absolutamente indesculpável. Um outro exemplo desta sua tendência, será o título dado a um tema, «I Promise Do Not Come In Your Mouth», que nunca poderá ter rigorosamente nada que ver com ele (tema) em si. Mas passemos adiante.
Tempos houve em que pretendeu, como já dissemos, ser um crítico da sociedade, não chegando contudo a profundar essa mesma crítica, limitando-se a ficar pela narrativa de certas situações e algumas deturpações. Mas a verdade é que, mesmo que quisesse aprofundar a crítica, deparava sempre com o seu conhecimento tão superficial quanto limitado, da verdadeira realidade e suas causas. Tentou fazer uma crítica da mulher norte-americana e percebeu que nada conhecia para além de groupies. Tentou criar o «American Way Of Life», mas ele próprio era um dos mais completos exemplos desse mesmo american way of life e do «faz-te por ti mesmo», tão caro aos súbditos do Tio Sam. Desistir, era o melhor que tinha a fazer.
Enfim, Zappa é um grande admirador de Varése, Stravinsky, e de alguns outros nomes que já indicámos, logo, será lícito perguntar porque não se dedicou à música experimental, de vanguarda, procurando novas formas de expressão musical em vez de tentar uma aproximação ao rock? Muito simplesmente porque só o rock lhe podia dar o êxito e o dinheiro que tanto ambicionava. Claro que se pode argumentar que o rock procura novas formas de expressão, que o seu campo é ilimitado, que a electrónica se tem desenvolvido imensamente dando sempre novas possibilidades para o rock, e assim sucessivamente. Mas quaisquer que sejam os argumentos, nenhum rebaterá a nossa afirmação. A preocupação fundamental de Zappa pelo rock é o dinheiro, não tenhamos dúvidas.
Bom, para finalizar, resta apenas dizer que Francis Vincent Zappa, como músico, tem algumas peças de excepcional qualidade e que, como guitarrista, terá forçosamente de ser visto como um dos seus melhores executores de sempre. Francis Vincent Zappa, ideologia nunca teve nenhuma pois nunca foi capz de pensar algo que não fosse um amontoado difuso de ideias mal delineadas; por isso não se pode falar de uma verdadeira personalidade ideológica em Zappa, ainda que por vezes tenha tido algumas ideias, e escrito alguns textos, interessantes.
Gonçalo Tello






Rock Português
Arte & Ofício




É com imenso prazer que hoje publicamos mais uma colaboração dos nossos leitores no que respeita a concertos ao vivo que vão acontecendo por esse país fora.
Assim, o leitor António Jorge Catarino dá-nos conta na sua missiva de alguns concertos que sucederam na cidade onde habita - Beja - nomeadamente com o grupo portuense Arte & Ofício durante uma longa digressão designada por 2Lois Rock Tour" que percorreu muitas capitais de distrito portuguesas.
Somente achamos estranho que mais nenhum leitor nos tenha dado conta de outras actuações incluídas no citado "tour", uma vez que muitos deles viram certamente algum dos concertos realizados.
Assim, daqui alertamos todos aqueles que quiserem dar-nos conta daquilo que se passa nas suas localidade em matéria de concertos: - Dêem notícias, escrevam, marquem a vossa presença nas nossas / vossas páginas.
Cá ficamos à espera dessas notícias. O rock português está vivo! confirmem isso e dêem simultaneamente sinal de vida!

Quero falar-lhes sobre um acontecimento invulgar no nosso país: a Tournée do grupo português ARTE & OFÍCIO pelas principais capitais. Como não podia deixar de ser Beja teve como local de espectáculo o cinema Pax-Júlia no dia 29 do mês passado. Ficar indiferente ao concerto seria ignorar a música ROCK e como tal decidi-me a pagar os 100 paus e a assistir de perto e pela primeira vez à actuação do grupo portuense. A sala se bem que não estivesse repleta denotava já indícios de que iria apresentar muita malta, essencialmente jovem, o que viria a acontecer mais tarde. Cerca das 22h dois rapazes com os nomes artísticos de MARTINI & PATRONI aparecem no palco e sem apresentação prévia (apenas com as suas 2 violas) iniciam a sua actuação como suporte do A&O. A pouco e pouco contagiam a assistência com temas de Joan Baez e John Denver, entre outros, particularmente bem interpretados e com um feeling impressionante (como combinam bem as vozes!!!). Foi como que o aperitivo para um bom prato. Devo dizer, e isto é a minha opinião pessoal, que aqueles moços devem ser estimulados e apoiados sem reservas, porque talento não lhes falta, apenas lhes falta um certo à vontade em cena, não do tipo de chegar lá e desbobinar todo o reportório p'ra ir apanhar o comboio como eles fizeram. Julgo que foi o ponto negativo da sua actuação talvez para darem entrada ao grupo-chave do show.
Quanto ao conjunto ARTE & OFÍCIO há a louvar toda a sua estrutura, toda a sua força de vontade, no entanto a malta esperava muito mais no que respeita a aparelhagem e parte técnica (incluo os jogos de luzes e slides-inexistentes). De registar algumas deficiências técnicas quando o Fernando Nascimento solava e que pôs o público em autêntico alvoroço. Sanou-se o problema, mas a verdade é que o conjunto se despediu friamente duma assistência espectacularmente acolhedora e não merecedora de tão aborrecido desfecho. Aconteceu que sem ninguém esperar abandonaram o palco, mas as luzes continuaram acesas. A malta ficou em suspense, aplaudindo e assobiando na expectativa de ouvir mais um tema; voltaram, cantaram bem, mas a despedida foi feita com um simples "Tchau!". Aquela atitude faz-me pensar numa espécie de chantagem para com o pessoal, na medida em que se tratava duma prova que eles queriam fazer, só que depois abalaram e todos ficaram boquiabertos. Bem... o A & O tem um bom solista (muito sóbrio e nada espectacular), vai beneficiar imenso com a entrada de António Pinho p'rás teclas e o Garcês, o Sérgio Castro e o Álvaro não lhes ficam atrás. Quero também dizer que em certos temas a voz era um tanto abafada, apenas se ouvindo clara e totalmente numa canção intitulada "Finaly" de que gostei imenso.
Foi o que se passou em Beja a propósito do concerto do ARTE & OFÍCIO, mas já se registaram cá actuações não muito inferiores e ainda recentes de grupos como HOBNOB, FERRO & FOGO (incluindo o ex-vocalista dos HOSANNA) e RENOVAÇÃO (muito modificado e interpretando temas doutros grupos estrangeiros). Espero bem que tenhamos cá bons conjuntos, porque esta malta provou ser receptiva e entusiasta.
Mudando de assunto quero focar o pormenor estranho de não ter sido publicado o número referente a Maio e que me deixou intrigado, visto que as saídas têm sido regulares e desta forma ficámos privados das notícias relacionadas com o momento. Porém há que trabalhar no sentido de colmatar essas dificuldades para que no futuro tenhamos a revista que merecemos e não mais um exemplo chapado do que se passa com a revista "MÚSICA & SOM". Digo isto porque já fui assinante da mesma e sei avaliar as barreiras levantadas para conseguir uma normal saída de exemplares.
Aproveito o ensejo para lhes lembrar que no início o pessoal do "MUSICALÍSSIMO" deu todo o apoio aos grupos portugueses, fazendo a divulgação nas suas páginas da sua existência e não só, pois incentivavam toda a malta a dar mais atenção a todos aqueles que lutando contra tudo e todos vão conseguindo singrar neste pobre país em realizações musicais. O que é preciso é não descurar esse objectivo, OK?
Portanto esta foi a minha colaboração que desejo continua e sempre renovada e na medida do possível bem compreendida. Continuo a acreditar na equipa do "MUSICALÍSSIMO" e exijo cada vez melhor no campo da informação musical.
P'rá frente com os projectos!!!



Tangerine Dream
Sonho Espacial Imaginário


Fim da década de sessenta. O synthesizer tinha sido inventado há pouco, os músicos descobriam as suas ilimitadas potencialidades musicais, o rock em decadência não tinha ainda sequer dado origem aos «decadentes» sem os Roxys e os Bowies para deliciar as nossas insuspeitas «perversidades», a crise abria caminho para algo de novo que ao rock constituísse alternativa... Os alemães estavam para isso em lugar privilegiado, graças a uma escassa assimilação ao rock inglês e norte-americano, a uma ideossincrasia musical onde os Wagners e Beethovens ainda pesavam com intensidade, onde a técnica e a matemática se contrapõem ao ritmo, onde  o prazer cerebral se sobrepõe Às melhores «good vibrations» da pura sensação física. Era a vez de começar a fazer música moderna «séria», algo na sequência daquilo que um jovem grupo «underground» inglês aflorava no seu álbum «A Saucerful Of Secrets», os Pink Floyd, grupo que Edgar Froese e Klaus Schulze ouviam...
Surgia assim o Rock Alemão, em 1969, quando Edgar Froese abandona o grupo Demis a que pertencia e também o rock californiano que então praticava como guitarrista, juntamente com Klaus Schulze. Formam o grupo Tangerine Dream, um sonho que os levasse para novos horizontes musicais, cuja primeira tentativa em 1970 se chamaria «Electronic Meditation», uma meditação electrónica e também tradicional em termos de instrumentos, com Klaus Schulze executando as percussões e outros sons inovadores retirados de «instrumentos» como o chicote e objectos metálicos, Froese com a guitarra e teclados e Connie Schnitzler com guitarra, violoncelo e mais cordas. Um álbum muito marcado pelo já citado álbum dos Pink Floyd, extremamente complexo, violento e agressivo, ainda bem longe da suavidade extasiante que conheceríamos mais tarde. Um álbum falhado mas válido a título experimental, embora Klaus Schulze desistisse para ir formar os Ash Ra Tempel com Manuel Gottsching e Connie Schnitzler partisse para os domínios da música contemporânea pura. Edgar Froese fica com o «sonho tangerina» reduzido a um único sonhador ´mas não desiste e, em 1971, surge uma nova tentativa ao lado de Christopher Franke e Steve Schroider trazendo mais dois instrumentos para a complexa estrutura musical do «sonho», a flauta, a cítara e mais um synthesizer. Gravam «Alpha Centauri», o nome de uma estrela, a que está mais perto de nós depois do sol, mas suficientemente longe para que a viagem não atinja o seu objectivo principal, a criação do que se chamaria o «som espacial».
Para que não tenha a mania que todos os grupos só são bons quando apenas um pequeno número de pessoas os conhecem, Alpha Centauri ainda é um mau disco: desponta já sem dúvida o som espacial, um afastamento crescente do seu principal influenciador, os Pink Floyd, uma ruptura total com tudo o que se possa chamar Rock, mas ainda é evidente toda uma desorganização de ideias, de estrutura sonora, não obstante alguns momentos de grande qualidade como «Fly And Collision Of Coma Sola» interpretado à flauta por Udo Denenbourg, «artista convidado» para o efeito. Um álbum que coloca os Tangerine Dream entre qualquer coisa de novo mas ainda não atingindo, e a música contemporânea de Stockhausen. «Zeit», que quer dizer «tempo» e editado em 1972, vem revelar que é preciso dar tempo ao tempo para os Tangerine Dream. Entra Peter Baumann com mais um synthesizer que substituirá Schroider a partir do trabalho seguinte, participa também Florian Fricke (Popol Vuh) com ainda outro synthesizer que ocupam todo o disco sem participação dos restantes instrumentos. É um trabalho que juntamente com as experiências de Klaus Schulze começa a fazer a Kosmische Musik (música cósmica) ganhar forma. A electronização é total, a harmonia assume significado especial, a melodia é praticamente inexistente, a frieza é penetrante, a monotonia insuportável. Mais uma experiência, útil para os Tangerine Dream mas totalmente ineficaz em termos de público, e que mostra já qual a veia musical a seguir [... voltam aos seus climas de pura música electrónica embora com fortes doses de frieza, de climas sinistros e de grande intensidade..]???, consubstanciada em «Atem», no ano seguinte. «Atem» é o início da serenidade, das vagas de sons electrónicos, da lenta e sensual movimentação de estruturas e impressões. A música deixa de parecer uma estranha estrutura electrónica virtualmente produzida por complexas e retorcidas mentalidades para assumir dentro de um timbre exclusivamente electrónico um colorido natural, espacial porque etéreo e fluído, mas bem dentro da natureza humana. A distinção com os «contemporâneos e concretos» passa a ser flagrante pela visível construção formal de sons que não se projecta em planos puramente intelectuais. Um belo álbum que possui já todos os adjectivos correntes em Tangerine Dream: Música espacial, suave, sensual, fluída, serena e relaxante.


«Phaedra», editado em 1974 é o auge desta fase, com um crescente acentuar na humanização da electrónica, retratando sensações, emoções com uma expressividade nunca dantes alcançada, com uma força que leva os Tangerine Dream a assumirem verdadeira identidade junto de um público cada vez mais vasto, sobretudo em França, país que inexplicavelmente é mais aberto que qualquer outro às novas experiências musicais de vanguarda. Phaedra é secundado por uma proposta a solo de Edgar Froese, «Aqua» onde o elemento aquático se formaliza instrumentalmente para sugerir planos idênticos a Phaedra, embora numa perspectiva mais tecnicista, mais de pesquisa sonora. 1975 é o ano de «Rubycon», um álbum que reforça ainda mais os caracteres do grupo, produzindo já todas as doces carícias sonoras por intermédio das quais os admiradores dos Pink Floyd se passaram a identificar não obstante a essência musical nada tenha a ver com o rock. É o primeiro disco verdadeiramente planante dos Tangerine Dream, o primeiro a penetrar na serena beleza das estruturas espaciais com toda a dimensão que o synthesizer abria, com a musicalidade intensa das estruturas fluídas e esbatidas que se desenhavam em termos que chegaram a ser comparados com razão aos impressionistas, além de uma certa placidez e profundidade mental bastante eivada de caracteres orientais. Um álbum a todos os títulos delicioso que nos abre uma porta para uma nova dimensão musical que embora afastada do rock, exigindo um método de audição substancialmente diferente, se encontra numa sequência natural e evolutiva de um certo tipo de rock, o rock progressivo. E surge então o álbum «Ricochet», onde Froese, Franke e Baumann atingem o seu máximo de qualidade de sempre. Álbum gravado ao vivo durante uma digressão francesa, Ricochet representa um máximo de apuro na conjugação de três personalidades distintas numa actividade criativa espontânea dificultada por uma estrutura musical de tendência muito individualizante, que resulta aqui na mais fantástica criação de música cósmica que conheço. Ricochet é um verdadeiro rodopio de sons, um carrocel de impulsos e sensações que nos são ao dizer porque não compões. Achas centes e descrentes em tom, como um verdadeiro ricochete, uma estrutura muito mais rica em colorido e variação dotada de uma força rítmica de tal intensidade que produz um impacto tão eficaz como o mais puro rock and roll, embora por meios totalmente diversos, como é evidente. Ricochet assume por isso importância fundamental, pelo êxito na obtenção de um clima musical de impacto imediato sem prescindir de uma veia musical definida anteriormente. A todos os títulos em álbum fora de série, só tenho pena de o conhecer de «ricochete» e não ter assistido ao vivo o tal estonteante concerto como certamente foi o que deu origem ao disco. Por outro lado, Edgar Froese edita o seu segundo trabalho a solo, «Ypsilon In Malaysian Pale» verdadeira obra-prima de música electrónica onde tenta com todo o êxito uma via «classicista» para a música electrónica. Verdadeira maravilha discográfica, este álbum é um estádio evoluído de «Rubycon» mas sob uma perspectiva muito especial onde o impressionismo e música oriental são factores dominantes. Entretanto, o Rock Alemão ou Música Cósmica passa a ser música das multidões que transforma Tangerine Dream e outros em super-stars, o que acarreta neste caso concreto algumas consequências musicais que se podem resumir num retorno crescente ao rock por parte dos Tangerine Dream.


"STRATOSFEAR" marca uma nova fase dos Tangerine Dream. São pela primeira vez editados em Portugal, afinal um índice de uma popularidade que já não era possível ignorar, e a sua música não é de novo exclusivamente electrónica, embora seja dominante. Surge pela primeira vez o piano (exceptuando alguns momentos em Ricochet), a harmónica e bateria. Edgar Froese volta a pegar na sua velha guitarra eléctrica. E, embora a música mantenha a beleza serena dos seus climas, o pulsar repetitivo de ritmos "cardíacos" vai-se desvanecendo para dar lugar a sonoridades mais movimentadas e coloridas, dando vida, vigor e expressividade ao lirismo simples e natural dos seus tons impressionistas. É um trabalho que vindo na sequência directa de Ricochet, ultrapassa a barreira do Rock com grande nitidez. Corroborando esta nova veia musical, "Romance 76" de Peter Baumann, editado no mesmo ano, vem revelar com maior nitidez a nova via que se desenha: uma estrutura que da electrónica pura traz novos sons que se fundem com as formas Rock, tendo como resultado uma dinâmica de construção substancialmente diferente com um enorme acréscimo na qualidade melódica. Um excelente trabalho numa perspectiva objectiva, mas indubitavelmente o primeiro golpe na fase cósmica de Tangerine Dream. No entanto, "THE SORCERER", banda sonora que o grupo compõe para o novo filme de William Friedkin, faz uma pusa nesta orientação. Uma vez que o tema o exigia, dade dramática como o filme exigia e que a música identifica na perfeição. Muito forte, pela extraordinária intensidade dramática que emana e pelo brilho com que se retoma uma veia já ultrapassada. The Sorcerer é um dos álbuns importantes dos T. D. Mas a "doença" do Rock já tinha pegado em força na criação musical de Tangerine Dream alastrando as suas características por todos os pormenores. "CYCLONE" é disso exemplo significativo, desde a instrumentação que se reabre às guitarras, baterias, percussões e outros instrumentos, embora os synthesizers e sequenciadores continuem a produzir os elementos dominantes da música dos Tangerine Dream, até toda a estrutura sonora que recria a ess~encia Rock através dos mesmos esquemas que suportavam a música cósmica. O resultado é surpreendente mantendo uma posição musical originalíssima que continua a não ter paralelo no Rock progressivo. Daí, que os Tangerine Dream continuem a ser Rock Alemão, ou Música Cósmica pela sua total individualidade entre todos os nomes do Rock Progressivo. Cyclone é pois um disco de Rock progressivo, ainda que muito especial em termos estilísticos, e de qualidade também: sobre um papel preponderante de Froese com a guitarra há um intenso diálogo rítmico com os synthesizers, cortado por partes vocais, um solo de "violino", uma sequência de "percussões", ou várias secções de "sopros" que através do synthesizer ganham o timbre perfeito, tudo num clima muito intenso em ritmo, melodia, e "som planante". Infelizmente nunca editado entre nós, Cyclone é como obra de Rock Progressivo um trabalho de extraordinária qualidade. Entretanto, um álbum ao vivo "ENCORE". Um duplo que surpreendentemente volta a transportar-nos para os climas de Ricochet: Novo regresso aos deliciosos turbilhões de imagens e sons, à pura exploração das vagas sonoras planantes, e por isso um trabalho obrigatório para quem aprecie a fase electrónica de T. D., embora aqui o grupo não deixe de revelar as suas novas tendências. De salientar especialmente o extraordinário trabalho de Froese ao piano, entre climas bastante sugestivos do já feito a propósito The Sorcerer.
Entretanto, mais um trabalho a solo de Edgar Froese, o duplo "Ages" que mais não que a confirmação da música produzida no grupo que ele afinal lidera, embora uma sua perspectiva pessoal o faça evitar estruturas demasiado "rockizantes".
E por fim, ao lado de mais uma produção a solo de Peter Baumann que já tivemos a oportunidade de referir aqui anteriormente, sai o último trabalho de Tangerine Dream, "FORCE MAJEURE" agora editado recentemente. Uma longa introdução em puro estilo "cósmico" abre o disco para logo ser dominado pela guitarra de Edgar Froese no mais puro estilo Floydiano. Seria quase caso para se falar num "regresso ao útero materno" se toda a estrutura não se encontrasse num estádio nunca alcançado pelos Floyd, mas a verdade é que a sugestão é muito forte, prosseguida por um desenvolvimento de synthesizers bastante planante quebrado por pausas de sons electrónicos de grande intensidade. Trata-se efectivamente daquilo que os Floyd poderiam ter feito num estádio mais evoluído de certas fases de "Dark Side..." e de "Wish You Were Here"... Sobressai deste álbum muito especialmente o trabalho de guitarras de Froese que é excelente e um clima muito intenso que se estende por todo o trabalho, ainda uma reminiscência dos tempos de Rubycon e Ricochet, mas aqui numa base predominantemente melódica. É um trabalho que se pode dizer que fecha um ciclo, voltando ao ponto de retorno mas numa posição extraordinariamente mais evoluída que esse ponto, os Pink Floyd. Em Tangerine Dream deixa de haver lugar para aquela frieza, para aquele tom anti-séptico de laboratório que caracterizava os seus climas, para dar lugar a um som equilibrado em termos de colorido e calor, sem perda de uma identidade muito própria. Na realidade, Ricochet é um álbum que musicalmente usa e esgota todas as possibilidades que a música cósmica dos Tangerine Dream podia possibilitar. Fechou nitidamente uma porta. A outra, era o Rock, via Rock progressivo que necessariamente tinha de desembocar em Pink Floyd. Mas num Pink Floyd ideal, muito diferente daquele que hoje é, o "Pink Floyd" que os Pink Floyd não conseguem ser. É isso, é essa posição que os Tangerine Dream ocupam. Com um potencial musical espantoso que a sua longa viagem musical lhes possibilitou, com uma qualidade de execução que não é passível de qualquer crítica, com um estilo de criação que joga na perfeição com todos os elementos do Rock progressivo: melodia, um pouco de ritmo, muita harmonia, e o insólito - aquela centelha de brilho e luz que traduz toda a dimensão de qualquer forma de Rock progressivo. Não vamos lamentar o fim da fase cósmica dos Tangerine Dream: foi uma bela viagem, um belo sonho, não apenas tangerina mas de todas as cores e tonalidades que nos deixou obras primas como Ricochet... Mas o regresso, também não é inferior em qualidade e expressão. Com Stratosfear, Cyclone e este soberbo "Force Majeure", em verdadeira força maior, só se pode dizer: bem vindos ao Rock!



OMEGA
É lícito e lógico que quando se pensa em termos de rock a nível mundial, se fale também em termos de nacionalidades.
Assim temos como mais conhecido e desenvolvido o rock que se faz em Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, Itália, etc.


Não é todavia muito conhecido o rock que se pratica (se é que se pratica) para lá da cortina de ferro e em certos países europeus nomeadamente Luxemburgo, Espanha, Mónaco, etc.
Apenas quanto a certos países menos desenvolvidos musicalmente, (em termos de rock claro) se sabe que na Hungria existe muito forte movimento musical bem expresso especialmente através da carreira auspiciosa dos Omega, grupo que devido às suas qualidades intrínsecas se projectou além-fronteiras, conqusitando mesmo certa notoriedade no difícil mercado inglês, além de bastante popularidade em termos de outros países europeus, nomeadamente Portugal onde os seus trabalhos "Omega", "Time Robber" e "Skyrover" conqusiatarm para o conjunto enorme pleiade de admiradores e fans.
Formados em 1963 como grupo universitário semi-profissonal, os Omega começaram desde logo a grangear enorme popularidade nos circuitos universitários do seu país natal.
O seu primeiro álbum, apresentado por alturas de 1968, foi simultaneamente um marco importante na sua carreira e na música moderna da Hungria pois foi o primeiro disco rock a ser editado no País.
Além de os projectar internamente esse trabalho começou a torná-los conhecidos nos países circunvizinhos.
Mais tarde, "tournées" em Inglaterra, Jugoslávia, que foram alternadas por shows televisivos e por execução de fundos musicais para bandas sonoras de filmes, abriram-lhes as portas do sucesso em termos europeus.
Em 1970 foi-lhes conferido o prémio da Radiodifusão hungara que premiava a melhor audição do ano.
Após a sua participação no célebre "Barbarela International Pop Group Festival", de Tóquio, também em 1970, os Omega realizaram várias actuações na República Federal da Alemanha, Escandinávia e Polónia. Efectivamente os Omega são desde a sua constituição compostos por Laszló Benkó (sintesizes, mellotron, órgão e pianos), Ferenc Debreceni (bateria, percussão e vibrafone), János Kóbor (vozes), Támas Mihály (guitarras acústicas e guitarra-baixo) e Gyorgy Molnár (guitarras, guitarra-sintesiser, guitarras acústicas e guitarra de doze cordas).
Tal facto conseguiu criar no seio dos Omega um clima de compreensão e um perfeito entendimento entre todos os membros, factor primordial para a actual maturidade musical, e vocal existente entre todos os elementos, e que faz dos Omega um grupo de inegável interesse, inspirado, discreto mas seguro, trilhando firme e decididamente o caminho do êxito a que indiscutivelmente têm direito por mérito próprio.
Autor: ??????



Outro conteúdo interessante, eventualmente a divulgar posteriormente:
. Crítica - Discos
.. Jethro Tull - "Live", por JAC
.. Emerson, Lake and Palmer - "Love Beach", por FN
.. The Clash - "Give'em Enough Rope"
.. Mamas and Papas - "20 Golden Hits"
David Bowie - artigo de fundo de 5 páginas, por J.P.A.
Jethro Tull - artigo de fundo de 3 páginas, por Domingos Manuel Santana - Série "Figuras do Rock"




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