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1.6.25

LP - Jornal de Música - nº 23


 

Chefe de Redacção: Maria João Guerreiro

Ano I

Nº 23

75$00

Semanário: 6 de Abril de 1989


coisas + importantes (e desenvolvidas)

na capa:

1. Coil - Entrevista e fotos de Miguel Santos - 2 páginas.

2. Van Der Graaf - 

Peter Hammill / Vand Der Graaf Generator - Artigo de 3 páginas por João Pedro Costa

+

- Futurismo e Dada - Artigo de 2 páginas por João Peste

- Ocaso Épico e Objectos Perdidos no RRV - Crítica meia página por Maria João Guerreiro

- Jorge Ferraz - rubrica Confesso (proustiana) 1 coluna - Palavras Incisiva de Jorge Ferraz (Santa Maria Gasolina Em Teu Ventre!)

- Roídos de pena, roídos de esperança - reportagem por Artur Abreu - 3ª Sessão da 2ª Mostra de Música Moderna - Coimbra 89
































11.7.22

Hesskhé Yadalanah - "Antidisestablishmentarianism | Tragic Figures Series: TFT011


 

Hesskhé Yadalanah

"Antidisestablishmenttarianism"


Hesskhé Yadalanah – "Antidisestablishmentarianism"

Label: Tragic Figures – TFT011

Format:

Cassette, Album

Country: Portugal

Released: 1990

Genre: Electronic

Style: Industrial, Experimental





HesskhéYadalinankah




3.12.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (262) - Blitz - Jornal Musical


BLITZ 
(Jornal Musical)
Ano VI
Nº 285
17 de Abril de 1990
Sai às Terças-Feiras
Director: Rui Monteiro
Preço: 75$00
28 páginas
Capa a 3 cores e interior a preto e branco


+ Poster:


Ficha Técnica (parcial)
Redacção, administração e serviços comerciais: Rua Sacadura Cabral, 26, Dafundo, 1495 Lisboa
Director: Rui Monteiro
Chefe de Redacção: António Pires
Direcção Gráfica: Cândida Teresa
Colaboradores:
Belino Costa
Cristina Duarte
Cristina Peres
Eduarda Martins Ferreira
Eugénio Teófilo
Fátima Castro Silva (Porto)
Fernando Magalhães
Fernando Santos Marques
Fernando Sobral
Fred Somsen
João Correia
João Bugalho
João Vaz
Jorge Dias
José António Moura
José Guedes
Luís Maio
Luís Peixoto
Miguel Cunha
Miguel Francisco Cadete
M. Nuno Figueiredo (EUA)
Miguel Santos
Miguel Somsen
Miguel Telhinhas
Paula Bach
Paulo Somsen
Pedro Cardoso
Pedro Portela (Braga)
Rafael Gouveia (Paris)
Sílvia Alves
Tiago Baltazar
Vasco Fernandes

Manifesto (suplemento):
Ana Cristina
António Sérgio
Nuno Diniz
Jorge Lima Barreto
Manuel Dias

Fotografia:
João Tabarra
Carlos Didelet

Tiragem média do mês anterior: 22 256 exemplares





Entrevista

IN THE NURSERY
UMA OUTRA ODISSEIA

Os In The Nursery, abriram a nova década com um sopro quase total de classicismo, em «L’Esprit». Mas será que podemos chamar «clássica» à música feita com «samplers»? E para onde caminham os gémeos Humberstone que, em quase dez anos de actividade, renegaram totalmente o rock tradicional, para ssumirem, de disco para disco, a grande aventura épica e heróica da epopeia? Sem abrandarem o passo, Nigel e Klive Humberstone prestaram-se a todos os esclarecimentos pretendidos pelo BLITZ, em mais uma entrevista histórico-exclusiva.



- Começando obviamente pela vossa evolução, nós pensamos que a vossa música mudou bastante desde a origem. Antes utilizavam mais o baixo e a guitarra e tinham uma formação inicial muito mais rock. O que acham?...
Klive – Sim, sim. Já nem usamos guitarras.
Nigel – Para construir o tipo de música que idealizamos, precisamos mais dos «samplers» e das percussões – nomeadamente os tímbales e as tarolas...
- Foi uma grande evolução, não? O vosso som inicial, de «When Cherished Dreams Come True» era muito fechado, nada comparável às sonoridades grandiosas de agora!
K – Provavelmente. Pois quando começámos, usávamos um pequeno quarto de sótão. Mas foi também uma fase de exploração das guitarras, tentando tirar delas tudo aquilo que queríamos – o som de um violoncelo ou de uma orquestra.
- Com uma guitarra!?
K – Acabei por ficar frustrado com a guitarra porque não conseguia o que queria dela. Foi preciso procurar os verdadeiros instrumentos ou melhores alternativas. Usámos então principalmente os teclados. É claro que uma orquestra seria bastante melhor...
- Esse primeiro disco, praticamente desconhecido pela actual maioria dos vossos seguidores, foi especialmente concebido – uma capa estudada, um vídeo... Foi um grande investimento?
K – Acho que sim, mas só porque foi fácil realizar tudo isso, uma vez que na altura éramos todos estudantes da Escola de Artes. Eu estava ligado ao vídeo e tive todas as facilidades financeiras e de equipamento; o mesmo se passou com a impressão.
N – No nosso primeiro disco as capas foram feitas por meio de trama. Foi uma edição de mil cópias, mas posteriormente já houve uma outra de mais 750.
- Como é que se estabeleceu a ligação com a editora Paragon?
N – Eles contactaram-nos depois de nos verem num concerto em Sheffield. Já tinham feito alguns discos e andavam à procura de bandas da zona.
K – Foi muito estranho, porque nunca tínhamos estado num estúdio antes...
- Como surgiu então Douglas P. (Death In June) e o vosso disco para a sua editora New European Recordings (NER)?
K – Ele apareceu num concerto nosso em Londres e depois abordou-nos, mesmo no final.
Quanto às gravações, fomos nós que as pagámos. No entanto, continuámos com total controlo das faixas, ele apenas as lançou.
- Nessa mesma altura, em «Sonority», o som era extremamente militarista. Seria a influência dos D.I.J.?
N – Não, foi somente um período em que pretendíamos ter um som poderoso, embora quando actuamos ao vivo o nosso som seja ainda mais potente. Acho que os discos são mais complexos e delicados.
- E quanto a «Elegy»? A sonoridade é militarizada e a letra totalmente antimilitarista. Talvez nem tanto a música, mas mais o modo como utilizam a percussão.
N – O problema é que as pessoas associam os tímbales aos sons militares. O tímbale é um instrumento utilizado nas orquestras, porém não da mesma forma que nós o fazemos, por isso não tem a mesma conmotação.
- Mas vocês saíram da NER bastante depressa. Não ficaram satisfeitos?
K – Fizemos apenas esse EP e mais duas faixas que surgiram na compilação «From Torture To Conscience». Nós estávamos satisfeitos, mas ele apenas lançava o nosso material, não nos financiava nem existiam quaisquer compromissos. Nessa altura conhecemos Rob, da Sweatbox, que quis produzir um disco nosso. Ele deu-nos dinheiro para entrar de novo em estúdio, e foi essa a diferença, pois estávamos já a compor novos temas.
- Na Sweatbox, o vosso som mudou bastante. Foi o início da teatralidade e da pompa actual!
K – Julgo que sim! Tudo cresceu com a nossa experiência e de sabermos aquilo que queríamos fazer. Além disso, os novos estúdios proporcionaram-nos melhores condições técnicas.
- Mas desde a frustração inicial de não conseguirem o som pretendido, até às sonoridades de agora, parece ter havido uma ideia exacta de como prosseguir. O LP «Twins» é afinal um disco de pura transição.
K – Sim, é verdade. Esse foi o primeiro disco feito só por nós dois – os gémeos (the Twins). Tudo o que foi feito antes era mais baseado na prática dos instrumentos em conjunto. O resultado, era depois concretizado no estúdio. «Twins» é o primeiro disco criado essencialmente em estúdio – é mais solitário, mais conceptual, baseado não na convivência mas na tecnologia.
- Para o facto poderá ter contribuído a frequência de Klive em diversos eventos clássicos? Isso é mútuo?
N – Sim, é o tipo de música que desejamos criar. Fomos a concertos e descobrimos os sons fantásticos que se podem obter sem PA. Nós queremos recriá-lo, ainda que usemos «samplers» e sintetizadores.
- Achas que é mais fácil utilizando os «samplers»?
N – Nós não escrevemos música, portanto... De certa forma compomos música clássica de uma maneira nova.
- Nesse aspecto achas que têm algo a ver com os Dead Can Dance?
N – Eles utilizam instrumentos verdadeiros... apesar de nós ocasionalmente já o termos feito, mas agora limitamo-nos aos «samplers».
- As pessoas, por vezes, já têm comparado os ITN a Wagner. Opinião?
K – Mas não deviam!... Isso deve-se sobretudo a um folheto promocional em que Wagner era citado mais como uma analogia, ou mesmo uma referência. Isso queria dizer que podemos ser o equivalente a Wagner, no campo da música clássica e no Séc. XX.
- Qual o significado, ou melhor, o conceito que vocês entendem como clássico?
K – Algo que define um período.
- Nesse sentido, o Acid é a música clássica dos anos 80...
K – Talvez isso até seja possível daqui a uns 15 ou 20 anos, quando ouvirmos a música da década de 80.
- Só o que permanece é clássico!?
K – Toda a música permanece!... Mas quando ouvimos, por exemplo, um tema de Acid-House, ligamos logo ao Verão de 88. Connosco isso é mais difícil.
- Então não são uma banda clássica! Pois pelo vosso raciocínio, os ITN são dificilmente referenciáveis a um ano concreto.
K – Talvez seja melhor então chamá-la de orquestral. Porque com a música clássica não se consegue realmente definir um período de tempo. Talvez orquestral seja realmente melhor.
- Uma banda orquestral, que não usa orquestra!!!
K – Ah... Orquestral, é um termo para um som. Para mim, orquestral quer dizer um som grandioso, enorme, o que não exclui as partes mais calmas. Como não temos uma orquestra de 20 pessoas ao nosso dispor, somos só nós, tentando criar um som orquestral. Então temos de recorrer À tecnologia, é o único caminho.
- Como é que utilizam os «samplers»? Têm de possuir o som original?
N – Sim, o som original, que é oriundo de instrumentos autênticos.
- Então vocês têm de tocar o instrumento!
N – Não, existe uma espécie de biblioteca de sons que podemos dispor para trabalhar.
- O facto de vocês serem gémeos deve repercussões especiais na vossa música?
N – Possuímos um sentimento comum muito forte. É muito mais fácil trabalhar a dois do que com o grupo inteiro, do mesmo modo, é mais fácil para duas pessoas do que para uma só. Nós somente pensamos que connosco isso resulta.
- Achas que o poderias fazer com outra pessoa qualquer, que não o teu irmão?
N – Não.
- Então a ligação é bastante forte...
N – Sim, nós temos pensamentos e conceitos semelhantes. Possuímos ideias distintas mas depois unimo-nos e construímos em conjunto.
- Esse pode ser um dos motivos que levou Ant Bennett, o vosso colaborador inicial, a sair?
N – Ele poder-se-ia ter sentido um pouco à parte, mas penso que tinha projectos diferentes dos nossos que queria concretizar. Acho que Ant pensava que o grupo não teria futuro. Afinal, foi melhor assim.
K – Ele teve um bebé recentemente. Assentou...
- E como surgiu a colaboração posterior de Gus Ferguson, dos Test Dept que já tocou com os Dead Can Dance e Heavenly Bodies?
N – Penso que foi Rob, na Sweatbox, que o trouxe. E como nós procurávamos na altura alguém para tocar violoncelo, ele ajudou-nos... Aliás, já o conhecíamos dos Heavenly Bodies, com os quais costumávamos tocar.
- E quanto ao aparecimento dos actuais colaboradores – o percussionista Q e a vocalista Dolores Marguerite? Foi pela necessidade ou apenas porque se apresentava como interessante trabalhar com eles?
K – Nós precisávamos realmente de um percussionista. Q era um velho conhecido da Escola de Artes que, além de estar disponível, era nosso amigo. Ele nem sabia tocar quando se juntou a nós. A sua progressão foi notável.
Quanto a Dolores, também era nossa amiga, logo pedimos-lhe que aperfeiçoasse o seu francês para começar a cantar.
- E porquê o uso do francês e não do alemão, por exemplo em «Elegy»?
N – O francês é uma língua muito emotiva, condizendo melhor com a nossa sonoridade. O alemão é muito rude, brusco...
- Qual é a nacionalidade de Dolores? O nome sugere-nos a Espanha...
K – Ela tem ascendência grega e espanhola, porém a sua nacionalidade é inglesa.
N – Ela estudou francês mas também fala alemão...
- A propósito das línguas, existe alguma mensagem especial a transmitir?
N – Não, não há uma mensagem específica. É como um artista que se deseja exprimir. Nós exprimimo-nos através da música, pois é o que sabemos fazer melhor. Nem temos qualquer tipo de slogan ou de mensagem política, o que não quer dizer que sejamos apolíticos. Apenas não queremos forçar nada.
- E então «Elegy» e «Profile 63», com o discurso de Kennedy?
N – Não queríamos dizer nada de especial. Tenho um disco com discursos dele e acho que são muito poderosos, pelo que os usei. Só algum tempo depois percebi que era sobre o Vietname, sobre o qual estou muito interessado. O discurso foi apenas utilizado como trecho musical, apenas para enfatizar a música.
- Os In The Nursery têm separado a carreira em singles (maxis/EPs) e álbuns, quando o habitual é os singles servirem de suporte e promoção, com outras versões, desses mesmos LP. É uma questão de atitude, presume-se?
K – Por exemplo, «Trinity» foi feito com um determinado sentido... não funcionaria como um álbum, digamos que foi encarado como um pequeno projecto. A música que se escolhe para um single normalmente não funciona bem num LP. É diferente!
- Mas tem que haver uma conexão. Porque a música que se apresenta em álbum e em single pode ter sido feita na mesma altura, tal como aconteceu agora com o formato CD, no qual se agregaram singles e álbuns do mesmo período. Em vinil existe uma separação, e agora em CD está tudo junto!
K – Isso deve-se sobretudo ao facto de ser mais fácil, e também de tr todo o nosso material em CD. Eu encaro um disco de vinil mais como um objecto, e os CD mais como uma peça de documentação sonora de qualidade desses mesmos objectos.
- Sendo assim, os discos de vinil são mais importantes?
K – Sim, sim. Penso que os CD’s são óptimos, mas são como um álbum de fotografias. São um documento compacto de momentos soltos.
- Como encaram o vosso material mais recente? É o sucessor natural de «Koda»?
K – É a progressão natural, sim. Mas levou-nos muito mais tempo e é muito mais complexo.
N – Neste novo álbum há temas semelhantes a alguns de «Koda». Pois nós ainda somos muito influenciados pelas mesmas coisas que nos rodeiam, pelos mesmos autores, por frases preferidas ou trechos musicais que teimam em retomar o nosso espírito.
- Mas com certeza muitas coisas mudaram!
N – Usamos muitas mais sequências de computador, daí que o som seja mais... digamos... cíclico.
- No princípio vocês mudava, muito as vossas sonoridades, mesmo dentro do mesmo disco. Agora estão mais estáveis. Significa isto que já atingiram as metas pretendidas ou um qualquer ponto de equilíbrio?
N – Sabemos o tipo de música que realmente queremos construir. Talvez seja difícil progredirmos daí. Esta é a música de que nós ainda gostamos e não vamos mudar só porque as pessoas estão à espera.
- E como se poderá reproduzir ao vivo «L’Esprit»?
K – Provavelmente só tocaremos ao vivo três das novas faixas. O resto ficará como material de estúdio que não se pode reproduzir em palco. É demasiado difícil.
- Isso foi pensado para ser já assim?
K – Há certas faixas que nem é necessário recriar em palco porque nunca o conseguiríamos fazer melhor.
- Então quando vão para um palco pretendem ainda fazer melhor do que em disco?
K – Não é bem isso. Mas existem faixas antigas, como por exemplo, «Deus Ex Machina», de «Sonority», que resultam sempre melhor ao vivo. Nunca ficámos satisfeitos com a gravação desse tema, por isso, ao vivo é sempre muito melhor.
- O local das vossas actuações precisa de alguma acústica especial, ou pode ser numa sala qualquer, como um vulgar concerto de rock?
K – Por vezes, tem mesmo que ser. Numa «tournée» não podemos ser esquisitos, senão ficamos em casa. No entanto, todo o nosso som funciona pelos amplificadores, o que se aproxima bastante de um simples concerto de rock.
- Há alguma particularidade nos vossos concertos? Slides, vídeo...
N – Sim, temos slides e, ocasionalmente, vídeo. Normalmente são excertos de filmes ou imagens que nos interessam dos mais variados modos... clips, capas... é uma atmosfera que se cria com a música.
- Existe algum elo com a vossa música nessas imagens?
N – Há uma sequência que procuramos manter.
- Estão também interessados em tocar em Portugal, não é verdade?
N – Sim, nós gostaríamos de tocar aí, só é necessário que exista uma organização.
- E quais as condições? Cachet, estadias, etc...
N – Só queremos que organizem os espectáculos conjuntamente com a Espanha, pois para virmos com os camiões só para Portugal custa bastante dinheiro.
- E em relação a música para um filme? Alguém vos contactou?
N – Não, mas gostaríamos.
- Dentro do mesmo tema, porquê a necessidade de criar um cenário visual? Precisam de imagens para compor? Afinal «Stormhorse» é a banda sonora para um filme inexistente...
K – A razão por que dissemos isso foi para levar as pessoas a pensar que existia realmente um filme e de imaginarem como seriam essas imagens.
- Mas não é preciso afirmar que é uma banda sonora para que isso aconteça.
K – Talvez! Mas nós sempre quisemos fazer uma banda sonora. Se o filme não vem até nós, não é razão para que deixemos de fazer a música para um qualquer filme, apesar de ele nem existir.
- Mas depois as pessoas querem ver o filme...
K – Eu sei. É chato!... O objectivo é só o de levar as pessoas a pensar como seriam as imagens que o disco sugere. Pela imaginação e por tudo aquilo que se vê, quando se fecham os olhos e se ouve a música.
- Que tipo de música costumam ouvir?
N – Gavin Friday... gosto muito das suas últimas produções.
K – Actualmente, Gavin Friday...
- Recentemente, abandonaram a Sweatbox, porquê?
N – A Sweatbox deixou de fazer discos. O Rob aconselhou-nos a procurar outra editora.
- E porquê a Third Mind?
N – Porque é uma pequena empresa e gostamos do modo como organizam as coisas, além diso já tínhamos tido a experiência de trabalhar com eles, aquando da edição da compilação «Life At The Top (Abstract Magazine 4)».
- E, para terminar, qual o significado do vosso nome?
K – O nome surgiu em 81 e foi escolhido depois de o encontrarmos em diversas frases e sítios. Escolhemo-lo porque muitas das nossas letras têm a ver com a infância, com os sentimentos e a inocência desses tempos. Quando demos o nosso primeiro concerto na escola de Artes de Sheffield, foi preciso escolher um nome, e então usámos esse. Mas agora, temos estado lentamente a transformá-lo no logotipo ITN.
- É quase o meso, não?
K – É que «In The Nursery» já não significa nada para nós, actualmente, para além de ser um pouco embaraçosos aqui em Inglaterra.
- Nós não nos importamos...
Eugénio Teófilo
Fred Somsen
João Correia

Críticas 

VÁRIOS
«OIHUKA 89»
De Espanha chegou-nos mais uma amostra daquilo que poderíamos considerar como um pseudo pós-rock ibérico. Tem todas as características epidérmicas daquela movida que nos assaltou no princípio da década passada – música conservadora, chata, com a mania que é a maior e que engata muita gente com aqueles solos de perder a língua por entre os dentes – à qual avança uma página num imaginário diário de transmisões aero-deterioráveis com um rock’n’punk’n’roll de três minutos de fama, com uma daquelas fugazes passagens por cima de um palco de metro-e-meio-de-largura-por-dois-de-comprido e com uma assistência de meia dúzia de distraídos adolescentes pingados.
Mas, embora o som praticado adiante algo a essa nossa vã movida, a idade dos grupos vem tornar quase inútil uma possível esperança de recuperação, pois todos eles são de formação recente (de 1986 em diante). Com efeito, as repercussões de viver num estado ditatorial podem provocar reflexos lentos numa evolução que se desejava promissora (a maioria dos grupos presentes vem da terra do charmoso duo de olheiras bem rasgadas pela moda da pomada – estou a falar dos bascos Duncan Dhu) e causar grandes «pasmadeiras», daquelas de estar meia hora com os olhos fechados e a boca aberta.
Oito grupos fazem parte de «Oihuka 89»: Los Bichos, Tahures, Delirium Tremens, Hertzainak, Tijuana In Blue, La Polla Records, Ancha Es Castilla e Jotakie. Vale a pena reter os nomes de Los Bichos, La Polla Records e Delirium Tremens pois ficou-nos a ideia de que nem tudo o que é punk é rock e vice-versa. Qualquer destes três grupos passou a infância a trabalhar para ajudar a família a combater a miséria social e o desemprego, além daquelas reivindicações próprias lá dos bascos. A sua música passa pelo melhor punk de 89 e pelo melhor rock de 77. O que já não é nada mau... Em relação aos outros, vão desde o pior Doutores e Engenheiros (Tahures) a um aparecido mas desmanchado piropo a Lena D´Água (Jotakie).
«Oihuka 89» será um bom detergente para os frágeis dedos das senhoras donas-de-casa que, enquanto varrem a sala das arrumações, dispersam com suaves contorsões abdominais as pobres baratas que pacatamente se entretinham a imaginar o apresentador do «Haja Música» num relato de futebol com cinco galinhas. Limpeza contundente!
(LP, Oihuka 0-181, 1989)
*** (3 estrelas)
Miguel Santos

CLOCK DVA
«BURIED DREAMS»
Há ano e meio, e depois de cerca de 5 anos e meio de interregno, os Clock DVA regressaram às lides musicais para perturbarem as mentes dos mais desprevenidos. Foi o (re)início de mais uma viagem assustadora às paisagens mais obscuras da cena independente britânica, primeiro com três 12” - «The Hacker», «Hacked» e «The Act» - e, mais recentemente, com «Sound Mirror» (também máxi single) e o álbum «Buried Dreams».
Para os mais familiarizados com o som dos Clock DVA fica o aviso: em «Buried Dreams» o velho quarteto saxofone / guitarra / baixo / bateria foi dispensado para ser substituído pela tecnologia de ponta (i.e. computadores, sequenciadores, samplers, etc.), estando, por isso, a única semelhança entre os velhos DVA de 85 (ou mesmo 80) e os de agora, no line-up, no nome do projecto e na filosofia.
«Buried Dreams» é o despontar para um mundo novo, dominado pelas comunicações e tecnologia. Neste álbum vamos encontrar todas as sonoridades ligadas aos movimentos mais marginais e obscuros, no entanto, à semelhança dos outros discos, somos atraídos por algo misterioso e inexplicável.
A voz de Adi pouco mudou. O seu tom grave, rouco, vem dar um toque peculiar Às melodias electrónicas. Em «Buried Dreams» abundam as caixas de ritmos e os sintetizadores, mas de modo algum estes instrumentos atribuem um ambiente dançável ao disco. Talvez em temas como «The Hacker» e «Sound Mirror» sejamos forçados a movimentar o corpo (e a alma), mas não é esse o objectivo de Adi e os Clock DVA. Esta não é uma produção para as pistas de dança, é sim uma gravação para acompanhar exposições de Peter Witkin, documentários sobre Auschwitz, filmes de Cronenberg ou David Lynch, livros de De Sade ou Lautréamont, filosofias Crowleyanas, etc., etc., etc.
«Buried Dreams» combina o Punk Progressivo dos velhos DVA com a violência electrónica. É um assassino digital, um terrorista matemático, a álgebra do mal, a tecnologia oculta.
Estão avisados. A escolha é vossa. Cuidado com «Velvet Realm», «The Unseen» e «The Reign». Será que à terceira os planos de Adi vão por diante?
(LP/CD, Interfisch Records, 90, Imp. Por Contraverso)
**** (4 estrelas)
Fred Somsen



TELECTU
«DIGITAL BUIÇA»



Eis que é editado um novo longa-duração de originais do duo Telectu. A maioria de vocês deve ficar surpreendida com esta tamanha profusão de edições, pois ainda há pouco mais de um mês foi editado a aventura «Live At The Knitting Factory, New York City» pela MC – Mundo da Canção.
Mais uma vez me vou repetir ao dizer que essa proliferação de trabalhos editados pelo duo, em oito anos de colaboração, é uma prova (mais que provada – basta referir dois ou três diferentes nomes do conjunto da sua discografia) da sua ecléctica criatividade sonora.
«Digital Buiça» é editado por uma outra novel editora portista. Depois da MC – Mundo da Canção abrir as suas portas à edição de projectos portugueses merecedores de tal testemunho (degrau natural na evolução de um grupo), agora é a vez da Tragic Figures ajudar a implantar um verdadeiro sistema de edição e distribuição independente. Escolheu também para a sua estreia um trabalho dos Telectu e promete várias surpresas (que não o são assim tanto, pois o BLITZ já divulgou algumas delas) para um futuro próximo.
Se «Live At The Knitting Factory» (local de passagem frequente de artistas como John Zorn, Fred Frith, Bill Frisell ou Joey Baron, recentemente dados a conhecer ao público português numa apresentação ao vivo no Forum Picoas) representava um laço apertado, numa perfomance ao vivo, em volta de vários temas que abraçavam tipologias tão diversas e que se queriam registadas, de forma a que uma nova liberdade de composição se pudesse seguir, «Digital Buiça» vem manifestar vinilicamente esse novo estádio musical que os Telectu recentemente têm vindo a divulgar nos nossos palcos.
São dois conjuntos estruturais - «Hotel Lisboa» (15’072) no lado A e «Laribau» (23’24”) no lado B – representativos de uma maior acessibilidade por parte dos Telectu (ou será nossa?), onde Vítor Rua e Jorge Lima Barreto abordam ambientes naturais com uma sensível aproximação instrumental (reparar na sequência em que Vítor Rua faz deslizar pelas cordas da sua guitarra um arco de violino, em «Laribau»), ambientes de puro cuidado técnico (maior destaque no princípio de «Hotel Lisboa») ou ambientes miméticos de várias correntes musicais contemporâneas de vanguarda. Jorge Lima Barreto explora o computador rítmico com uma metodologia pós-moderna, no sentido de «decoração» estética, dá completa liberdade de voo ao seu saxofone digital. Por seu lado, Vítor Rua mostra subtilmente o virtuoso criativo que ele é nas várias metodologias de abordagem de uma guitarra (tema em que está actualmente a fazer um estudo, para futura edição).
Como nota final, acrescento que a capa é um poema visual de Ernesto M. de Melo e Castro, que esta edição é de apenas 500 exemplares e que está disponível para além das boas discotecas de Lisboa, Porto, Braga e Coimbra, através dos serviços de correio, à cobrança (sem acrescento de portes). Façam as encomendas (Tragic Figures, Apartado 2137, 4202 Porto/Codex) e devorem avidamente as espiras daquele que em breve se tornará, devido ao seu valor estético geotemporal, um disco de coleccionador.
(LP, Tragic Figures TF001, 1990)
4* (4 estrelas)
Miguel Santos


PSYCHIC  TV
«LOVE WAR / RIOT»
«KONDOLE / DEAD CAT»
Nunca o «acid-sond» dos Psychic TV se aproximou tanto da descontracção e da boa disposição como neste «Love War Riot». Em vez da rigidez perfeccionista e obcecada das anteriores produções, este novo maxi, também disponível numa versão limitada e alternativa de 10”, tem o seu quê de semidisco-sound, policial de acção, 007, acid-pop, ou até mesmo de New Beat...! Sobretudo, tem muito menos de simples alucinação e muito mais de emotividade.
«Love War Riot» é mais um exercício louco de Acid, mas não tão fastidioso e comprometido com os ideais, como os anteriores «Tune in» e «Joy». Aqui, sobre a inconfundível e monótona batida Acid, há lugar para a diversidade que os «samplers» permitem, através da arte da pirataria indiscriminada, que se traduz na prática, sobre o vinil, em sons loucos de sirenes, vozes e alucinados pseudo-solos de bateria – estes talvez até genuínos. ‘Love War Riot’ é essencialmente, o que não deixou de me surpreender, um disco tragável e pouco indigesto, tendo em conta as últimas produções cegamente Acid dos actuais Psychcic TV. O que afinal, não pode deixar de constituir um elogio!
Passando agora à frente, o assunto chama-se «Kondole / Dead Cat» e é de longe muito mais sério, principalmente porque reúne a música para dois filmes de David Lewis. A primeira peça, que corresponde ao filme «Kondole (The Whale)», e tem originalmente 23 minutos de duração. A segunda, pertence ao filme «Dead Cat» e foi gravada novamente a 23 (Janeiro de 89), exactamente um ano mais tarde. O que existe de comum entre as duas, isto para além de estarem ligadas às produções visuais de David Lewis, é o facto de ambas marcarem o regresso dos Psychic TV às temáticas ritualistas e mágicas (bem hajam, obrigado, eu é que agradeço!), que tão longe os levaram num passado já algo longínquo.
Reza a lenda que «Kondole», o único possuidor do fogo, acabou um dia por ser atingido em plena cabeça (!!) por uma lança, transformando-se em seguida numa baleia. A música para este momento trágico transmite sobretudo o sofrimento do processo, no qual a água abraça a baleia, cujos gemidos fazem tremer as profundezas e a dor perturba a terra. Na atmosfera, os trovões desta mutação ecoam sobre a angústia inconformada de uma criança que chora, perdida para sempre, no tempo. No outro lado está «Dead Cat»: este «É o filme de um sonho! Materializa em imagens a transição dolorosa de uma mudança de sexo (...) as imagens são intencionalmente violentas (...) não é um filme para se apreciar!» (adaptado das palavras de David Lewis). O som de ‘Dead Cat’ assenta ainda mais num ambiente ritual e cerimonial, baseado em sons irreais, infinitas percussões e construções melódicas orientais, com flautas e outros instrumentos acústicos. As baleias, ou os golfinhos, assumem aqui, uma ligação da qual nem nos damos conta, entre a sua inteligência e memória, e toda uma série de pesquisas sobre a origem das espécies, pois, para os Psychic TV, a pesquisa da realidade (objectivo primeiro da sua existência) sempre se fez com todas as dimensões do conhecimento. Mesmo com aquelas que a ciência não reconhece.
«Kondole / Dead Cat» é divino, apocalíptico, desumano e irreal – em resumo, excelente! Aproveitem bem este rápido e fugaz regresso dos Psychic TV Às suas ideias originais, é o meu conselho, porque as sua spróximas produções serão: «Towards Thee Infinite Beat» (LP/CD), «Beyond Thee Infinite Beat» (12”/CD) e «Je T’Aime» (12”). Está tudo dito, não?
(12”/10” miniLP, Temple Records, 1989)
**,5 (2 estrelas e meia)
(LP, Temple Records, 1990)
**** (4 estrelas)
João Correia

TRISOMIE 21
«PLAYS THE PICTURES»
Saber envelhecer é essencialmente saber amadurecer e estar apto para suportar com à-vontade os desígnios e impiedades dos tempos. Saber envelhecer é, paradoxalmente, estar consciente de que, com mais anos em cima, poderemos conservar um mínimo de saúde e juventude mental. Passe o clichá, saber envelhecer é saber dominar a juventude dentro de nós. Estas afirmações são tão pirosas e vistas como reais e presentes. E é isso que os Trisomie 21 têm sabido fazer durante os cerca de oito anos da sua existência e acção neste mundo.
Através de um processo evolutivo capaz e sem tropeços os Trisomie 21 trabalharam até alcançarem uma sonoridade competente e profissional, por alturas do surpreendente «Chapter IV». Para trás haviam ficado discos hesitantes que, posteriormente, viram a sua re-comercialização traduzida em dois discos: «First Songs Vol. I & II», respectivamente com os subtítulos «Passions Divisées» e «Le Repos Des Enfants Hereux». O auge conseguido com «Million Lights» possibilitou-lhes uma liberdade substancial para arrancarem com outras inspirações mais originais, visando o afastamento das obras prévias. Assim, assustaram alguns com «Works», fazendo um disco inicialmente decepcionante – desde a concepção da capa ao som – mas, com o passar dos tempos, solene e bonito. Mais uma vez, o passar dos tempos sempre a ditar a sua lei.
O problema actual dos Trisomie 21 é que, não prometendo nada, acabam por colocar os seus fãs numa posição de expectativa indesejável e acidental. Isso sucedeu a partir de «Million Lights» quando se esperavam maravilhas do grupo. O que afinal não se concretizou, permanecendo fiel à discrição e trabalho. E mais uma vez, «Plays The Pictures», sendo à primeira audição altamente decepcionante, acaba por atrair e por marcar, uma segunda vez, uma perigosa mudança.
Seja como for, perigosos ou não, os T21 continuam fabulosamente inspirados. «Plays The Pictures», como o nome indica, testemunha um fascínio do grupo pelos filmes, pelo Cinema, e se «One Last Play» (um dos dois temas cantados) revela uma confrangedora falta de qualidade – pelo meio gritam 31 vezes por New York – já o mesmo não se pode dizer dum disco «para filme» composto por onze magistrais hinos de dois-três minutos de inspiração minimal/instrumental. Uma surpresa... após seis audições.
E se têm paciência para esperar até lhe adquirirem o gosto, não caiam na esparrela de comprar o disco em vinil, quando o CD tem mais dez – 10 – dez temas. Se o álbum é uma obra (e é!), não é justo que se venda essa obra com dois preços diferentes. É exactamente o mesmo que comprar um filme-vídeo mais barato porque a versão está encurtada...
(LP/CD, Play It Again Sam, 90)
**** (4 estrelas)
Miguel Somsen


SOULSIDE
«HOT BODI-GRAM»
Na terra da esperança não há Invernos. Por que será que os Soulside fazem música para aquecer Invernos?
«Hot Bodi-Gram» é o segundo LP do grupo, depois do muito (!) aclamado «Trigger». Foi gravado no Verão passado, em Eindhoven (Holanda) e pretende representar convenientemente o stress psicológico ao qual os quatro membros do grupo têm vindo a ser submetidos, desde a sua formação em 1985. É mais uma ou, melhor, uma outra  ramificação do hardcore de Washington DC, uma antimúsica-diversão de insvestidas rápidas, de saltar com os pés para o ar, por entre «slows» assassinos de dias estragados por falsas dignidades. O velho baixo de Johnny Temple galga, de língua de fora e saliva a escorrer-lhe pelas cordas, os compridos membros do seu dono – reparae-se em «Pembroke» e nos acordes finais, onde o vocalista beija o que lhe resta da vida com um «don’t disappear» misecordioso. Em «New Fast Fuck», a guitarra fora de moda de Scott McCloud sussurra-nos ao ouvido, já previamente precavido contra desleixadas descargas fora-de-ordem, o quanto tem em apreço os três acordes básicos aprendidos quando estudava a gramática da segunda classe, por volta de 77, mais ano menos ano. Bobby Sullivan, com umas vocalizações confidentes – como o sabor doo bagaço nas afiadas lâminas da sua garganta seca – dá o que pode na versão de «Crazy» (original de Willie Nelson), o melhor tema de «Hot Bodi-Gram» (e uma excepção num álbum que, sem dúvida, é uma decepção, depois do excelente 7” «Bass/103»). Do baterista dispenso-vos os comentários. «I’m crazy for trying, I’m crazy for crying, but I’m crazy for loving you?» Tenho as minhas reticências!
(LP, Dischord DISCHORD 38, 1989)
**,5 (2 estrelas e meia)
Miguel Santos


BIOTA
«TUMBLE»
Chris Cutler continua a surpreender os seus fãs com as suas magníficas edições no catálogo da Recommended, editora recomendável, quer pela qualidade e originalidade dos projectos que representa quer pela coerência que tem mantido na sua já longa existência (o Magalhães que o diga).
Em finais de 89 surge esta edição, assinada por um colectivo exímio em rasgos de criatividade, caracterizada por um conjunto de blocos acústicos empilhados segundo uma estrutura muito peculiar.
Os BIOTA (Mnemonists para os amigos), com larga experiência no campo das sonoridades irreverentes, iniciaram-se em 1979 quando lançaram o LP «Mnemonists Orchestra». Há quem os tenha comparado, na altura, ao radicalismo dos seus compadres Residents, isto apesar de, na realidade terem pouco a ver com eles.
Hoje, os BIOTA trabalham segundo moldes ligeiramente diferentes. Duas operações fundamentais descrevem o método utilizado pelos seus elementos (William Sharp, Gordon Whitlow, Mark Piersel, Tom Katsimpalis, Steve Scholbe, Larry Wilson e Randy Yeats): Primeiro, a fase criativa, de curtos trechos desenvolvidos em pequenas estruturas instrumentais. Depois a fase de mistura, onde estas peças sofrem alterações drásticas, quer ao nível dos timbres, quer ao nível das frequências e das modulações.
No caso concreto desta edição, surgida em formato compacto, os BIOTA foram mais longe. Sem utilizar a voz humana, criaram ambientes equivalentes através do uso do «sampling» e da digitalização de sinais analógicos.
Com funções específicas programadas, os BIOTA filtram e reordenam o material tratado, obtendo um todo de difícil caracterização.
«Tumble» são 74 minutos da vida que não podem ser vividos de outra forma. Personifica uma excelente experiência de duas correntes, a priori, incompatíveis. Deslumbrante.
(CD, Recommended Records, 1989, Imp., Contraverso)
****,5 (4 estrelas e meia)
Paulo Somsen


NOX
«LIVE AT THE MANUFACTURE»
Sessão ao vivo, gravada no «Theatre de la Manufacture» em Nancy.
A tríade Nox, Cecile Babiole, Laurent Perrier e Gerome, prossegue o seu desejo no seio da música progressiva. Nesta experiência seguem rumo por um campo cuja aceitação por alguns escutantes pode ser difícil.
Do eixo das compilações pelos diversos continentes, os Nox acautelaram um nome e deram-se a conhecer a um auditório sucessivamente mais amplo. E não escondem a sua admiração pela vanguarda alemã, nomeadamente pelo Neu e Faust.
De regresso à terra-mãe encontraram em Nancy um projecto editorial, a tempo inteiro, de superior qualidade e encetaram então um relacionamento suficientemente estreito para que fosse lá a sede do seu primeiro trabalho de originais em 33 rotações, o Lp «Crowd». O segundo Lp, «Acte 1», reavalia e reformula o conceito tradicional dos Nox: uma bateria enérgica, por vezes extenuante, um ritmo suficientemente frenético, sempre tribal, um anseio de criar um mito, sem rito, e ofertar a mensagem a quantos for possível, assim se estabelece o comensalismo editora-grupo.
Como no próprio espectáculo ao vivo, o compacto não possui demarcações dos vários temas e tenta transportar quem o escuta à noite em que foi gravado, mostrando os instrumentos no seu trabalho mais rude, menos estilizado.
Não se encontra na sua música uma uniformidade sonora, daí que os possam comparar a projectos de índole suficientemente dispare para suscitar a curiosidade de qualquer um.
Contacto: KERNERSTRASSE 15, D-7156 WUNSTENROT, WEST GERMANY.
(CD, Permis de Construire Deutschland)
*** (3 estrelas)
Eugénio Teófilo











21.11.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (261) - Blitz - Jornal Musical


BLITZ 
(Jornal Musical)
Ano VI
Nº 284
10 de Abril de 1990
Sai às Terças-Feiras
Director: Rui Monteiro
Preço: 75$00
28 páginas
Capa a 3 cores e interior a preto e branco



Ficha Técnica (parcial)
Redacção, administração e serviços comerciais: Rua Sacadura Cabral, 26, Dafundo, 1495 Lisboa
Director: Rui Monteiro
Chefe de Redacção: António Pires
Direcção Gráfica: Cândida Teresa
Colaboradores:
Belino Costa
Cristina Duarte
Cristina Peres
Eduarda Martins Ferreira
Eugénio Teófilo
Fátima Castro Silva (Porto)
Fernando Magalhães
Fernando Santos Marques
Fernando Sobral
Fred Somsen
João Correia
João Bugalho
João Vaz
Jorge Dias
José António Moura
José Guedes
Luís Maio
Luís Peixoto
Miguel Cunha
Miguel Francisco Cadete
M. Nuno Figueiredo (EUA)
Miguel Santos
Miguel Somsen
Miguel Telhinhas
Paula Bach
Paulo Somsen
Pedro Cardoso
Pedro Portela (Braga)
Rafael Gouveia (Paris)
Sílvia Alves
Tiago Baltazar
Vasco Fernandes

Manifesto (suplemento):
Ana Cristina
António Sérgio
Nuno Diniz
Jorge Lima Barreto
Manuel Dias

Fotografia:
João Tabarra
Carlos Didelet

Tiragem média do mês anterior: 22 256 exemplares

Intro
O Blitz foi um jornal lançado a ...  e na altura representou uma autêntica pedrada no charco no pobre panorama da imprensa musical portuguesa. Embora tivessem já existido ou existissem na altura em actividade outras publicações interessantes (Mundo da Canção, Rock Week, ...) o Blitz rapidamente se alcandorou a principal publicação do género em Portugal. Muito influenciada pelas já “velhinhas” mas inatacáveis Melody Maker e New Musical Express que viviam o seu auge na altura (post-punk new wave), o Blitz teve várias fase.
Lembro-me de ter ficado encantado desde o primeiro número, com Siouxsie na capa.
Lembro-me mais, basicamente, de:
- Ter comprado, religiosamente, todos os números durante 5 ou 6 anos, pelo menos;
- Arquivado/guardado todos esses jornais, atados com cordéis, na arrecadação do quintal dos meus pais;
- Os primeiros anos serem de uma qualidade jornalística/crítica superior (incrementada esta opinião, claro, pelo deslumbramento inicial);
- O jornal ter entrado em certa “decadência” de qualidade, quiçá pela alteração dos seus redactores ao longo do tempo;
- O jornal ter “ressuscitado” a sua qualidade inicial, quando Rui Monteiro passou a ser o director e contratou toda uma nova fornada de escribas (o número que apresento neste post corresponde a essa fase) e os tais “novos escribas” podem ser verificados na ficha técnica acima apresentada;
- O jornal ter entrado definitivamente em decadência passado pouco tempo dessa “ressurreição”, novamente devido à mudança radical da maioria dos colaboradores, até ter desembocado na revista mainstream que é agora... (não me lembro se chegou a haver algum hiato de publicação neste percurso final...)
- Ter atirado os jornais todos para o lixo depois de ter deixado a casa dos meus pais :-(
(o mesmo tendo acontecido mais tarde – duas vezes o mesmo erro, arghhh!) com os suplementos do Público que tinham os escritos de Fernando Magalhães, depois de os ter passado todos, à mão, para Word, aqui já na minha casa e mais recentemente, supostamente por falta de espaço :-( outra vez!




Ah, e havia sempre o Poster, nas centrais, a 2 páginas portanto, com papel de jornal normal :-( , mas a cores e com o verso sem conteúdo algum.





THE PEEL SESSIONS
RÁDIO, TRANSMISSÃO AO VIVO (artigo)

O início dos anos 80 foi assombrado com uma frase, assinada pelos Buggles, que dizia «Video Killed The Radio Star». Brincar à futurologia, fazendo-a passar por etapa histórica já pretérita, revelou-se fatal para o grupo. Enquanto eles desapareciam ou davam massagens cardíacas aos moribundos Yes, outros artistas demonstravam que os dois media não eram tão inimigos quanto os pintavam. Muitos tornavam-se estrelas da Rádio depois de protagonizarem um bonito Vídeo. Ou, em sentido inverso, conquistavam o Vídeo só depois de terem explodido na Rádio. E aqui, como sempre, estava John Peel.



John Peel nasceu exactamente em 30 de Agosto de 1939 (como pode ser verificado no Trivial Pursuit, versão inglesa), quatro dias antes do início da II Guerra Mundial e viveu parte da sua infância em Burton, Cheshire, com os dois irmãos, Frank e Alan, e a mãe. Só conheceu o pai, que era soldado das tropas de Sua Majestade, aos seis anos. Depois mudou-se para Shrewsbury, no Norte do País de Gales, estudou, namorou e ouviu muita telefonia.
Foi durante os anos 60 que Peeely, para os íntimos, John Ravenscroft de nascimento, começou a agitar as ondas radiofónicas com as suas escolhas vinílicas muito especiais. Primeiro nos States, numa estação em frequência modulada algures no eixo Los Angeles / San Francisco. Depois em Inglaterra, na piratíssima Radio London, onde John Peel começou a divulgar no seu programa «Perfumed Garden» alguns nomes que, mais tarde, se revelariam fundamentais para a história da pop – Cream, Bowie, Zappa, King Crimson, Pink Floyd e mais um punhado deles.
Já no final dos anos 60, e na Radio One da BBC, Peely iniciou a sua mais longa maratona, o «John Peel Show», um programa que, para além de continuar a intensa divulgação da música mais nova e desconhecida (o movimento Punk, por exemplo, deve-lhe quase tudo), recuperou uma prática radiofónica comum nos anos 30/40 mas que andava então mais ou menos perdida: a transmissão de concertos ao vivo de músicos e grupos ainda arredados dos grandes circuitos editoriais e promocionais.
Nos seus «shows», John Peel apresentou aos ouvintes – algumas dezenas de milhar, nas emissões menos felizes – muitos grupos que viveram o mais alto momento de glória, exactamente, no dia da transmissão do seu peeliano espectáculo, para depois caírem no mais profundo dos esquecimentos. Quem é que já ouviu falar, por exemplo, nos Dawn Chorus and The Blue Tits, Angels 1-5, Autumn 1904, Boots For Dancing, Sophisticated Boom Boom ou Agony Column?... Mas muitos outros grupos, depois alcandorados aos píncaros da glória, usaram o programa e o apadrinhamento de Peel como um primeiro trampolim para grandes aventuras. As suas «Peel Sessions», um programa semanal transmitido ao vivo, em directo e sem rede, é ainda considerado como o grande baptismo de fogo das bandas que desejam debutar perante um grande auditório radiofónico. E contam as lendas de Manchester que o tema «Transmisson», da Joy Division, é secretamente dedicado a estas emissões.

A Joy Division, aliás, é uma das dezenas de grupos mais ou menos míticos das décadas de 60, 70 e 80 que participaram no programa de Peel. Os leitores mais historicistas podem verificar isso mesmo na lista que se segue e ficar desde já com mais laguns nomes (e as respectivas datas de emissão): Jimi Hendrix Experience (15/12/67), Bonzo Dog Band (29/7/69), Syd Barrett (24/2/70), T. Rex (27/10/70), Nico (2/2/71), Robert Wyatt (10/9/74), Damned (30/1176 e 10/5/77), Buzzcocks (7/9/77), Wire (18/1/78), Siouxsie and The Banshees (29/11/77 e 6/2/78), The Fall (27/11/78), The Cure (4/12/78), Joy Division (3/1/79 e 26/11/79), Gang Of Four (9/1/79), Specials (23/5/79), Madness (14/8/79), Echo and The Bunnymen (15/8/79), Birthday Party (21/4/81 e 2/12/81), New Order (26/1/81 e 1/6/82), Associates (28/4/81), Smiths (18/5/83), Billy Bragg (27/7/83). Este rol de existências, que poderia ser bastante mais extenso, não se deve a um exaustivo trabalho de pesquisa em arquivos e fichas informatizadas. Basta consultar as listas de discos importados pela Anónima para ficarem mais bem elucidados sobre a quantidade e variedade de pedras preciosas – umas mais polidas e brilhantes do que outras, naturalmente – disponíveis no catálogo Strange Fruit, uma mini-editora dependente da British Broadcasting Corporation que se dedica quase em regime de exclusividade à edição das «Peel Sessions».

Inicialmente mais virada para a publicação de EP com quatro temas por cada grupo ou artista (exactamente o mesmo número de temas que, geralmente preenche uma sessão), a Strange Fruit está agora a praticar também a gloriosa táctica do rendimento do peixe, publicando álbuns que agrupam em cada disco duas ou três sessões do mesmo grupo. Das colecções «Strange Fruit Double Peel Sessions» e «The Peel Sessions Albums» já circulam por cá alguns discos com gravações dos Stiff Little Fingers, A Whitness, Only Ones, Undertones, That Petrol Emotion, Gang Of Four e mais alguns. Quase todos eles, para além do seu óbvio valor histórico, apresenatm como característica comum o possuírem pouquíssimos truques, embelezamentos e limadelas equalizadoras de estúdio, o que lhes confere uma aura de autenticidade que costuma estar arredada até dos tradicionais registos «ao vivo». John Peel e John Walters, os responsáveis pela manutenção da pureza rude das gravações (já tentada por Peel, no início dos anos 70, na mítica Dandelion Records, que fundou juntamente com Clive Selwood), conseguem assim preservar com paciência e carinho um conjunto de gravações únicas, todas elas com temas exclusivos ou versões diferentes das conhecidas. Quer dizer, os dois Johns põem-nos completamente em suspenso e sem vontade nenhuma de rodar o sintonizador daquele electrodoméstico a que nós, portugueses, chamamos, por comodidade e muita preguiça, Rádio...
António Pires


NOCTURNAL EMISSIONS
VIAGENS NA TERRA DELES (entrevista)

Com a súbita noção, talvez um pouco tardia, de que a poluição estaria a causar danos irreversíveis ao nosso planeta, deu-se uma revolução com o intuito de encontrar soluções viáveis para proteger esse frágil ente que é o planeta Terra. Um primeiro resultado foi o surgimento de organizações do tipo Greenpeace bem como a organização de concertos de beneficência.
Sem pertencer a qualquer tipo de movimento, também os Nocturnal Emissions entraram numa ‘de natureza’, no entanto, para eles, mais importante que proteger, é viver em constante comunicação com o ambiente e toda a vida que nos rodeia. De seguida focaremos alguns desses aspectos (e não só) dos cerca de dez anos de vida deste projecto britânico.



- Nigel, antes de focar o teu trabalho nos Nocturnal Emissions gostaria primeiramente de saber o porquê da formação de duas editoras distintas para lançar os teus trabalhos – a Sterile Records e, mais recentemente, a Eatrthly Delights. Fala-me um pouco da primeira.
Nigel Ayers – A Sterile surgiu basicamente edições dos Nocturnal Emissions. Nós tínhamos material para lançar e como é mais fácil editar algo quando se tem uma etiqueta, resolvemos criar uma entidade associativa. Aquando da criação desta associação começámos a ser abordados por outras pessoas (ou artistas, se quiseres) com material suficientemente interessante.
Algum tempo mais tarde descobrimos que os nossos trabalhos, se bem que duramente criticados pela imprensa musical, chegavam a pessoas que realmente gostavam deles, não só pelo tipo de música mas também, e principalmente, porque conseguiam perceber os nossos objectivos e filosofias.
Quando edito um disco ou qualquer outro tipo de material é produto das nossas obsessões e ideias, é como que uma visão que se forma, algo que quer comunicar connosco. Basicamente tentamos recolher todo o tipo de ideias, obsessões e pensamentos que temos e analisá-los de todos os ângulos possíveis; posteriormente, ao desenvolvê-los, encontramos eventualmente algo de concreto.
Nestes últimos anos, com o trabalho de editar e produzir material musical descobrimos que, à semelhança do processo de colagem que utilizamos na nossa música, também a nossa mente trabalha do mesmo modo, pelo método de associação de ideias; apercebemo-nos assim que ao fazer este tipo de trabalho estamos directamente envolvidos na estrutura da nossa consciência. Deste modo o que fazemos está intimamente relacionado com a nossa visão do mundo, dando-se então a construção de uma filosofia, só nossa, totalmente diferente das outras filosofias (que não têm nada a ver com este mundo).
- Logicamente as primeiras edições nesta editora foram dos N.E., mas havia de início algum plano para lançar outros artistas, ou existe algum outro objectivo?
- A Sterile Records foi formada com o intuito de tornar mais fácil a edição dos discos dos N.E. e também de dar a conhecer o material musical, independentemente do seu autor. A editora surgiu apenas para divulgar a música que não estivesse disponível no mercado, servindo também como ponto de referência para a nossa música.
Claro que ao formar uma companhia tivemos que lidar com todo o tipo de organizações industriais e todas as burocracias inerentes. É um preço a pagar, mas só assim conseguimos trabalhar o mais profissionalmente possível.
O nosso principal objectivo é o de tentarmos ser diferentes. Com todas as outras editoras é fácil prever o que vão lançar, pois basicamente regem-se por políticas de mercado, e ainda pior que isso é o facto de estarem sempre a olhar em volta e ver o que as suas rivais fazem. O nosso objectivo é o de produzir material que gostamos de escutar e que não se faz por aí aos pontapés; por isso em vez de copiar outras companhias e contratar artistas já ‘usados’ por outras editoras, nós juntamos pessoas novas, pessoas que nunca editaram qualquer obra musical; por essa razão cada edição é uma experiência nova.
Com o passar do tempo descobrimos que muita gente nos respeita nos respeita pelo modo como fazemos as coisas. Nunca editamos em grandes quantidades nem reeditamos material antigo, se bem que por vezes seja difícil recusar devido à grande procura, tanto por parte de etiquetas independentes como por parte de coleccionadores.
Outra tristeza das grandes editoras é a sua atitude na divulgação dos seus produtos: procuram um artista génio (?) para produzir as obras musicais e o público, muito agradecido, aceita a imagem, as ideias, e tende a copiá-las no estilo de roupa, na maneira de agir, etc.; tudo criado por uns fabricantes de pseudo-estrelas. Isto traduz uma alteração constante no modo de vestir, agir, falar, ao mesmo tempo que transforma a vida das pessoas num aborrecimento constante, mecanizada e compartimentada. É isto que a TV e a indústria musical fazem de melhor. O mais comum na música em geral é que cada novo produto é o mesmo que outro qualquer anteriormente produzido, apenas modificado em algumas partes; ou então é algo que surgiu há alguns anos e foi retransformado e dado uma nova designação, como House-isto ou House-aquilo, ou ainda New-isto ou New-aquilo. Nós tentamos reformular toda essa ideia e chamar a atenção para o que se passa no mundo real, em vez de criar esta ilusão cultural que se torna cada vez mais fantasmagórica.
- Há cerca de três anos surgiu a Earthly Delights, também criada por ti. Porquê uma nova editora se já tinhas a Sterile?
- A intenção da E.D. é a de editar trabalhos maravilhosos, mágicos, terrestres («earthly»). Focamos essencialmente a música instrumental.
A E.D. tem uma referência histórica e uma espécie de visão intempestiva. Enquanto a Sterile se encontra mais no campo da farmácia, engenharia biológica, genética, microelectrónica e computação, a E.D. incorpora tudo isso no entanto relaciona-se com a entidade humana e a sua ligação com o planeta sendo mais espiritual.
A S.R. utiliza o poder da negação e da negatividade, usa a energia do ambiente hiper industrial levando-o ao extremo. À medida que as culturas se tornam cada vez mais organizadas o conhecimento vai-se acumulando, ficando tudo concentrado numa esfera confusa. Nós utilizamos a energia proveniente daí e a sua negatividade; basicamente a S.R. é um exorcismo, uma purificação, utiliza toda a porcaria, todos os elementos estranhos do ambiente cultural e expulsa esses demónios, mas para expulsar esses demónios é preciso identificá-los, dar-lhes nomes, olhá-los friamente, é esse o constante objectivo da S.R.
- Sim, mas a minha pergunta era acerca da Earthly Delights...
- Sim. Bem, a Earthly Delights é uma espécie de redescoberta da pureza proveniente do isolamento, da cidade, da intensidade do meio ambiente humano. É muito uma editora pessoal, tem muito a ver com as relações humanas, especialmente com as ligações que temos com os residentes e os zeladores deste planeta e é também uma celebração desse laço. Os discos que pretendemos lançar na E.D. tendem mais para os músicos a solo, música instrumental e música feita a partir de sons naturais, possuindo uma espécie de suavidade e sendo muito mais de reflexão. É isso que esta editora representa: a harmonia que existe entre o corpo humano e o ambiente planetário, é o regresso à Natureza, o regresso ao campo, às montanhas, numa aventura visual.
- Então o estilo musical mudou completamente?
- O que aconteceu nestes últimos tempos foi que nos mudámos da cidade para o campo, para ambientes mais saudáveis, mais rurais. Resumindo, a E.D. é o pacote resultante dessa nova visão, que inclui a criação de um tipo de música completamente novo, pois faixas sonoras deste género nunca foram feitas previamente.
Há algum tempo alguém me perguntou que tipo de música eu escuto hoje em dia e eu fiquei sem resposta; o que escuto é o piar das corujas perto da minha janela, é o som dos pardais, escuto também música sacra na «Radio 3» (estação de música clássica na BBC).
Outro facto na Earthly Delights é que está intimamente ligada à ointura de Hieronymus Bosche - «The Garden Of Earthly Delights». O seu trabalho, e o de Bruegel sempre me fascinaram. A sua forma de ilustrar ideias de linguagem, todos os detalhes na sua pintura, todas as anedotas não são mais do que uma representação do mundo bizarro em que ele viveu. Está tudo carregado de significado, no entanto, a maioria das vezes não conseguimos desvendar a história completa. Seria Bosche um membro de uma seita sexual ou limitar-se-ia simplesmente a representar a ortodoxia religiosa decorrente na Holanda de então? Acho tudo isso extremamente atraente. É como que uma invocação.
- Sendo responsável por duas editoras não será o trabalho duplicado? É muito difícil dirigir uma editora no Reino Unido?
- As dificuldades em dirigir uma (ou duas) editoras em Inglaterra não são particularmente de logística. O nosso quartel-general já não é em Londres, e isso veio trazer alguns problemas: quando aí estávamos era fácil descobrir um estúdio, ter acesso a uma fábrica de discos, organizar os negócios todos; vendo desse ângulo, não é difícil gerir uma companhia discográfica, mas no campo financeiro, aí sim, pois parece que estamos a lidar com bandidos todo o tempo. É extremamente caótico, existe uma paranóia selvática a todos os níveis, gente sem escrúpulos envolvida no negócio. Prefiro não me envolver em tais «lutas» utilizando um método muito eficaz, o da venda por assinantes, isto é, distribuir o meu material por via postal evitando desse modo toda essa disputa.
Nestes últimos quatro anos assinámos um contrato de fabrico e distribuição com a Red Rhino, o que, por um lado, foi bom, já que assim os nossos produtos eram mais eficazmente divulgados, eventualmente tornámo-nos conhecidos em lugares onde nunca tínhamos chegado anteriormente (como por exemplo, Portugal), e digo eventualmente porque requer sempre algum tempo para se lidar com o negócio de uma maneira eficaz. Quando a Red Rhino faliu, há cerca de um ano, voltou tudo ao início e, nessa altura, perguntámo-nos se deveríamos continuar ou não, e qual o propósito deste projecto. A tragédia da R.R. trouxe uma coisa boa: fomos contactados por muitas distribuidoras dispostas a trabalhar connosco; no entanto preferimos continuar como no início, pois gostamos de poder controlar o que lançamos, e com a Red Rhino isso não acontecia. Prefiro editar um disco em número reduzido e ter algum controlo sobre ele, e ter também algum feedback, do que lançar milhares de cópias; é por essa razão que pomos o nosso contacto em todos os nossos discos. Graças a isto fomos contactados por algumas editoras do nosso agrado e, inclusivamente, os nossos novos trabalhos sairão numa etiqueta germânica – Parade Amoureuse – e noutra Norte-Americana – The oooze (O LP/CD numa e algumas cassettes noutra). Em todas essas produções estará o nosso contacto para aqueles que estiverem interessados em adquirir material mais raro bem como para a aquisição de outros produtos para além de discos. Penso que este é o único meio de continuar a produzir discos.
- Os Nocturnal Emissions contam já com cerca de dez anos de carreira. Surgiu este projecto antes ou depois da editora? E quais os seus membros?
- Nocturnal Emissions é essencialmente um projecto multimédia formado antes da Sterile Records e que engloba esta, a Earthly Delights e muito mais. N.E. foi também a primeira conspiração por detrás da qual estavam todos os seus membros (figuras espectrais e o produto da imaginação de alguém). As pessoas integram o projecto, colaboram nalguns discos e vídeos e depois desaparecem. Os N.E. são uma espécie de manipuladores invisíveis que ninguém sabe exactamente quem são e o que fazem. Aparecem nuns sítios e numas histórias e noutros sítios e noutras histórias.
É difícil dizer exactamente quem faz parte do projecto. Existe uma lista interminável de colaboradores, mas se estes estiveram realmente por detrás da produção dos discos, ninguém sabe...
São pessoas com um tipo de contrato num ou noutro disco...
- Existe algum objectivo específico dos N.E.? Significará o nome algo de importante?
- A meta principal dos Nocturnal não é uma só, vai tomando forma aos poucos, mostra-se através da música e o único método para descobri-la é escutando-a, perceber os textos (quando eles existem) e examinar minuciosamente os artefactos editados pela etiqueta.
Suponho que o nome tem uma conotação sexual e medicinal, e talvez alguma relação com radiação e transmissão. É um bom nome para um grupo media. Tem também algo a ver com sonhos, elementos que acontecem no escuro, o lado escuro da experiência...
- Bom, penso que abordámos os factos mais importantes destes teus projectos. Vou terminar perguntando quais os planos para o futuro.
Os N.E. têm um LP/CD pronto para sair na etiqueta Germânica Parade Amoureuse, o seu nome é «Stoneface» e a versão em compacto inclui também o álbum «Spiritflesh». É uma gravação baseada num local próximo daqui.
Perto da fronteira do condado de Staffordshire há uma área que o povo denomina ‘The Roches’, trata-se dum afloramento rochoso e por isso muito alto. Nesse local as rochas t~em todas formas extremamente estranhas, e muito semelhantes a caras humanas e a animais. Existe também muita energia geomagnética aí. O mais curioso é que nesse mesmo local há uma colónia de pequenos cangurus desde 1930; por vezes, os automobilistas que passam pelo local ficam completamente estupefactos com o que vêem. Uma das rochas, semelhante a uma cara humana chama-se ‘The Winking Man’ (O homem que pestaneja); diz-se que por vezes, quem passa por ali, vê a figura pestanejar.
O disco é inspirado nesse local estranho. O que se verifica aqui é a influência do ambiente no Homem e vice-versa; o feedback existente entre as pessoas e o ambiente; como as pessoas reagem a diferentes situações e lugares. O disco é sobretudo isso e ainda sobre a rede de energia que constitui o nosso corpo e o mundo à nossa volta, como essas energias se inter-relacionam, etc. «Stoneface» representa a harmonia entre o homem e o ambiente.
Estamos também a compilar o terceiro Tratado dos Nocturnal Emissions. O Tratatdo é uma série de trabalhos visuais e informativos sobre o nosso projecto. Espero a sua disponibilidade para muito breve.
Outro trabalho em curso é o da compilação. Inclui alguns artistas novos, tanto na Sterile Records como na Earthly Delights. É muito material, por isso ainda não sabemos em que companhia será editado; talvez uma parte saia na S.R. e outra na E.D.
Para finalizar, vamos lançar um disco comemorativo dos dez anos dos Nocturnal Emissions («Beyond Logic Beyond Belief») e de edição limitada a 250 exemplares. O preço será de 26 libras e a venda far-se-à apenas pela via postal. E é tudo por agora, espero que utilizes esta conversa de algum modo...
- Claro...

Algum tempo passou sobre esta entrevista, no entanto não houve qualquer alteração de maior nos planos de Nigel. De facto, tudo tem estado a correr bem e os discos referidos acima (o LP/CD «Stoneface» e o álbum de edição limitada «Beyond Logic Beyond Belief») já se encontram disponíveis no mercado. Quanto às cassettes, é possível adquiri-las através da excelente editora Holandesa Staalplaat, editora essa que teve um merecido destaque no BLITZ nº 251 de 22 de Agosto de 89.
Foram dez anos de trabalho, incluindo a edição de 13 LP’s na Sterile e 5 na Earthly Delights, bem como inúmeras cassettes em inúmeras editoras. Esperemos que o trabalho continue, e por muitos mais anos.
CONTACTO: S.R./E.D./N.E.
c/o Nigel Ayers
P.O.Box 1QG
Newcastle-Upon-Tyne NE99 1QG
England

Fred Somsen



Jorge Reyes
«Niérica»
«Na realidade quotidiana, o tempo é a lei do mundo e a ideia de algo sobrenatural, fora do mundo, está ligada à detenção do movimento» diz-nos Jorge Reyes, experimentalista mexicano de ambientes etno-techno ou, simplesmente, de New-Age. «Niéricas» são quadros Hulcholes 8indígenas mexicanos), cheios de cor e símbolos ancestrais, que mais que objectos decorativos, são uma representação plástica do espelho do sobrenatural, do que há por detrás das aparências. A própria palavra «Niérica» significa um espelho entre dois mundos: o do sonho e o da realidade. «Niérica» é o quarto disco de Jorge Reyes e foi gravado no ano passado em Dusseldorf (RFA), num estúdio computadorizado de 48 pistas. Ele foi assim apelidado porque propõe uma série de imagens sonoras que encerram todas essas conotações mágicas.
Melodias obscuras, de uma subtil complexidade de cariz improvisado/experimental, «Niérica» faz-nos sentir ambientes de tradições e paisagens. Mas não se pense que esta música é folclórica, aborrecida ou difícil de escutar, ela é simplesmente prolífera em constantes mudanças de verdades impressionates (ouça-se, por exemplo, «Danza de los Peyoteros»), onde se poderá encontrar bonitas e alegres convulsões sonoras («Donde Nadie Lamenta Lo Que Somos»).
A música de Jorge Reyes funde os sons de antigos instrumentos acústicos de vários países com as mais sofisticadas tecnologias. «Niérika» é «a busca de uma identidade de regresso às raízes rítmicas que existem nas comunidades indígenas. Não é uma busca nostálgica mas um regresso a uma identidade para construir o futuro» e é uma forma de manipular a psicoacústica. Através da repetição, do eco e da reverberação, Reyes dá-nos informações do ambiente e da atmosfera onde nasceu a composição. Evoca toda uma geografia musical. Evoca imagens. As encomendas deverão ser feitas directamente a Rotor, Apdo. 18041, 28 080 Madrid, Espanha (1200 pts + gastos de envio).
(Lp, Discos Esplendor Geométrico EGD-019, 1990)
*** (3 estrelas)
Miguel Santos


Sugarcubes
«Planet»
Se bem que o LP «Here Today Tomorrow Next Week» não tenha sido assim tão bem sucedido, na altura da sua edição salientei dois temas, «Water» e «Plante» como os melhores de todo o álbum. Eis que as minhas preces são escutadas e surge um 12” com três versões de «Planet».
Este tema é tão rico como qualquer outra faixa do LP, no entanto essa riqueza incide mais na instrumentação clássica, por isso, ao invés de um som rock (dominante em «Here Today...»), «Planet» é idêntico a uma ilha paradisíaca num mar revolto, possuindo uma beleza e serenidade extremas, onde a voz de Bjork vem dar mais significado.
Nunca é demais escutar «Planet», e o 12” vem-nos poupar o trabalho de recuar a agulha, pois incluindo três versões, uma delas em islandês, enche-nos as medidas c-o-m-p-l-e-t-a-m-e-n-t-e. Bem, talvez não completamente, pois para estragar tudo, o quarto tema - «Cindy» - é semelhante à rockalhada do LP.
Espero que os Sugarcubes continuem por muitos anos a oferecer-nos estas preciosidades. E para quando um 12” com... dez? Sim, dez versões de «Water»?
(12”, One Little Indian, 90)
***(3 estrelas)
Fred Somsen


Chá, Simpatia E Lágrimas Prontas A Explodir
The Teardrop Explodes
«Everybody Wants To Shag The Teardrop Explodes»






A Música Popular, qual amigo traiçoeiro, tem destes pequenos acontecimentos que nos mutilam os sentimentos. E os Teardrop Explodes, bem cedo («Kilimanjaro») me cravaram um gélido e pontiagudo punhal do estilo «Rock ‘n’ Roll em época Punk». Surpreendentemente, não me mataram, mas deixaram-me de coração gelado, perante mais de cento e dez outros projectos musicais que buscavam nos Beatles (afinal eles também são de Liverpool), nos T. Rex e nos Band a chave de ignição para pôr o velho motor das bandas de 2200 cc em funcionamento. E fiquei também irremediavelmente perdido, por tudo aquilo que Julian Cope (velho amigo de Ian McCulloch e de Pete Willie) realizaria posteriormente.
A primeira função dos regressados Teardrop Explodes, tal como aconteceu na primeira metade dos anos 80, é modificar, sem aparente ordem, a apática natureza do homem («Netranil Vavin»), e também o seu meio natural, no sentido de o civilizar por manifestações espontâneas de beleza e de tranquilidade («Terrorist»). Manifestações essas que são veiculadas aos ouvintes-passageiros (adolescentes ou não, mas sempre apaixonados) por emanações soberanas de valores escolhidos pelo mágico (mas muito ambicioso) Julian Cope.
Mas este álbum até que não é completamente novo, ele já foi gravado há oito anos e encontrava-se «perdido» na editora, por motivos comerciais.
«Everybody Wants To Shag The Teardrop Explodes» não é uma adaptação dos Teardrop Explodes aos novos tempos. Aqui, continuam o ritmo dos pneus, os acordes de dó e de fá, as luzes de néon que tínhamos sentido com «Wilder» devidamente embrulhadas em excitantes tecidos de seda e com o entusiasmo próprio de génios em marcha de urgência de T-shirts brancas com ou sem motivos decorativos à antiga maneira da New-Wave.
Apaixonado cada vez mais por Iggy Pop, e decidido a não se tornar um Syd Barrett aos solavancos, Julian Cope tem vindo a assumir-se como um criador espirituoso, que se rodeia de rochas e cimento armado para seu mais espontâneo e belo brilho. Assim, encaramos o seu empenhamento com os Teardrop Explodes interrompendo o projecto a solo (porque idêntico) e encontrando neste disco a potência de mais de 10 anos de quem «ou toca Rock ou morre».
A existência de pontos de contacto com os álbuns anteriores da banda, e com discos a solo de Julian Cope, motivaram Jon Wilde, do «Melody Maker», a afirmar que o presente disco é um «documento fascinante». Não irei tão longe, mas reafirmo que estranhamente (quando comparado com projectos rebaptizados recentemente) este disco está pleno de entusiasmo.
(LP, Fontana / 1990)
*** (3 estrelas)
Fernando Santos Marques


Skinny Puppy
«Rabies»
Um caso de incompreensão! A extrema complexidade e opressão que transpiram dos seus discos repelem os ouvintes impressionáveis, aqueles com os tímpanos frágeis e as ideias tão escorreitas que o mínimo contacto com música «esquisita» (pedindo emprestado o termo de um colega) pode iniciar uma feroz guerra santa: o senso comum, também chamado, por vezes, senso-tipo-Som da Frente» vs. A música esquisita. O senso comum segura uma placa onde se lê: «A música esquisita não entra à primeira e é feia, portanto não vale a pena insistir.» Fuck o senso comum!
A primeira exposição aos Skinny Puppy pode ser violenta, e os interessados terão que se obrigar a suportar mais doses até conseguirem avaliar bem a música que se lhes apresenta. Som a som, perfila-se um ambiente que rigorosamente mais nenhum grupo (defunto ou em actividade) consegue criar: foi assim com «Bites» (85), «Mind: The Perpetual Intercourse» (86), «Cleanse, Fold and Manipulate» (87) e «viviSECT VI» (88) – a primeira audição é sempre de vida ou de morte.
«Rabies», quinto LP, revela no seu íntimo uns Puppies mais normalizados, afastados de si mesmos mais do que seria desejável... Se «viviSECT VI» tinha representado o auge da complexidade sonora do grupo, «Rabies» inicia um claro declínio nesse domínio. A frase rima mas não tem piada nenhuma. Os sons, esses, começam também a rimar, a fazerem sentido, quando anteriormente pareciam ser mutuamente incompatíveis. Dois exemplos: enquanto nos discos anteriores tínhamos que suar muito para discernir a guitarra, totalmente distorcida e camuflada, agora é ela a descobrir-nos, revelando por completo os contornos da sua silhueta; depois a batida, já substancialmente despojada da sublime dissonância que a caracterizava, de modo que é algo frustrante a audição de dois ou três temas, nomeadamente «Hexonxonx», em cujo ritmo os Puppies perdem por completo a sua identidade. Identidade preservada em «Rain» e «Charalone» dois aterrorizantes ambientais, imprescindíveis no trabalho do grupo e ainda mais neste álbum, tornando-o heterogéneo.
A agressividade é agora mais directa, mais vulgar, mais dependente de uma guitarra banal do que de uma pilha de sons atirados para cima de nós. O que nos desarma (e aniquila os argumentos) é ver que essa guitarra banal resulta perfeitamente em «Tin Omen» (também editado em maxi) e «Fascist Jock Itch», temas com uma intensa vitalidade mas que aproxima o grupo do conceito de «rock» mais vulgar – quando o próprio Ogre já mandara à merda Tom Ellard dos Severed Heads por este dizer que os Skinny Puppy tinham uma atitude mais rock do que o seu grupo! Além disso, ambos os temas constituem exemplos paradigmáticos da sonoridade techno-metal que obceca os Numb e Ministry. Em moldes muito similares...
Ogre prossegue na sua cruzada anti-injustiça, denunciadora de calamidades fatais para a vida anima; a estupidez humana é uma constante mas, paradoxalmente, a vulnerabilidade humana também é um facto: o homem explora o homem, mas o homem também é explorado pelo homem!
A voz seduz, como sempre, e os tons de agressividade acentuam-se em «Rabies». Ogre explode em raiva em «Fascist Jock Itch» e atrai-nos inapelavelmente com um refrão belo (sim, porque não diz^-lo?) em «Worlock»!
Como evitar o fascínio? Eis a questão que nunca ocorreu a Shakespeare... Eis também porque esta crítica pode ser suspeita: os Puppies exercem tal fascínio que as minhas opiniões podem muito bem ser distorcidas...
«Rabies» é o pior álbum do grupo! E depois?
Não gostar do seu trabalho é uma opinião, mas ignorá-los à priori é um crime!
(LP/CD Nettwerk/Capitol, 89, imp. Contraverso)
**** (4 estrelas)
José António Moura


Lowlife
«Godhead»
Os Lowlife são um exemplo típico de banda que desenvolve todos os seus temas em torno de uma única fórmula, adoptando a pose incorruptível de «grupo-que-não-é-e-nem-quer-ser-famosos». Para uns, isto revela um estilo muito vincado, para outros, apenas falta de imaginação. A realidade é que sem serem brilhantes conseguem compor bons temas, geralmente à média de dois ou três por álbum.
«Godhead» não foge a esta regra, vincada pelos notáveis «In Thankful Hands» e «I The Cheated». Ao longo do resto do disco limitam-se a desempenhar melhor ou pior o que já tinha sido mostrado em trabalhos anteriores, com a base sonora assente nos jogos voz-baixo-bateria, com as guitarras no papel de figurantes e com referências notórias (salvaguardadas as distÂncias), aos Cocteau Twins do período «Garlands». De resto, isto não será de estranhar uma vez que Will, o líder dos Lowlife, foi o baixista que acompanhou Liz Frazer e Robin Guthrie na gravação do seu primeiro álbum.
Quem conhece a obra anterior dos Lowlife já não prestará a mínima atenção a «Godhead»; Quem conhece apenas o álbum anterior, «Diminuendo», sentir-se-á burlado. Quem não os conhece, não lhes fica nada mal passar os ouvidos por este disco.
Para os curiosos ou caçadores de moradas, ela aqui fica: Lowlife Management, Nightshift Records c/o 21 A Alva Street, Edinburgh EH2 4PS, Scotland.
LP, 1989, Night Shift Records
**,5 (2 estrelas e meia)
Pedro Portela

A Split Second
«Kiss Of Fury»
Regressaram os magos da música de dança electrónica! Ritmos desenfreados, batidas incontáveis, energia transbordante de vigor, em bombardeamentos sonoros de estímulos físicos e de vontades ocultas.
Chrismar Chayell e Marc Ickx, o duo que comanda a avalancha sonora de nome A Split Second, encarregou-se de tornar «Kiss Of Fury», o seu terceiro álbum de originais, um sucessor à altura de «From The Inside», o anterior LP que, tal como este, reúne uma autêntica colectânea de hits de dança, dentro do estilo inconfundível centro-europeu. Pleno de letras ambíguas e irreais, de ambientes frios e computorizados, cuja responsabilidade, já longínqua, vem de projectos pioneiros como os D.A.F. ou Cabaret Voltaire.
Para um estilo, que se repete todos os dias a si próprio e que quase consegue torrar a nossa paciência até aos limites, este ainda é um disco que se destaca da mediania, que consegue ser dançável a 100 por cento, sem ser New Beat, e que, consegue atingir uma identidade própria, dentro da mistura cultural e da confusão de influências em que se baseiam todas as bandas belgas.
Como único senão, o facto deste álbum ter tornado completamente inútil o maxi que o antecedeu - «Firewalker», uma vez que os seus dois temas estão aqui incluídos, em versões muito semelhantes e igualmente extensas.
Os A Split Second são, de longe, os melhores dentro do seu género. Batem aos pontos Front 242, Nitzer Ebb, familiares e amigos, e tornaram-se totalmente indispensáveis para os aficionados das movimentações nocturnas, das pistas de dança trepidantes e de todas as dinâmicas que surgem depois do sol posto.
(LP/CD Antler Subway, 1990)
***,5 (3 estrelas e meia)
João Correia


In The Nursery
«Counterpoint»
Parece que as compilações estão na moda. Felizmente algumas delas são dotadas de excelente qualidade, como esta.
‘Counterpoint’ é uma colecção resumida da carreira  dos In The Nursery, um projecto britânico que actualmente produz um género musical muito próximo do clássico. Por essa razão são frequentemente designados como ‘Wagners do séc. XX’. Mas nem sempre foi assim, e este disco mostra isso mesmo.
Com os temas de 1984, ‘Sentient’ e ‘Iskra’, verificamos que os ITN possuíam um som extremamente militarista, muito agressivo e isto devido à predominância das percussões, relegando para segundo plano todos os outros instrumentos (no entanto, também o baixo é extremamente forte aqui, mas isso só vem dar mais ênfase Às percussões).
Como a evolução faz parte de todos nós, em ‘Breach Birth’, ‘Workcorps’, ‘Twins’ e ‘Joaquin’, se bem que as percussões ainda existam em grande quantidade, foi dada mais atenção à secção electrónica do grupo, resultando num meio caminho entre o militarista inicial e o clássico da actualidade. Na verdade esse classicismo só é atingido muito mais tarde (no tempo, e não no disco), em temas como ‘Blind Me’, ‘Elegy’ e ‘Libertaire’, onde se atinge o climax. Nestes já surge uma percussão leve e límpida, uns ‘samplers’ de instrumentos clássicos também calmos e bonitos e até mesmo uma suave voz feminina, não tão imperceptível como uma Liz Fraser mas mais com a fragilidade característica de uns Bel Canto.
É realmente interessante testemunhar toda a grande evolução do projecto num só disco, e é por isso que ‘Counterpoint’ é majestoso, mas não só! Este álbum é também uma excelente peça para aqueles que desejam conhcer melhor um projecto que tem vindo a ganhar fama pela Europa fora. Para os admiradores de longa data fica um pequeno aviso: se bem que ‘Counterpoint’ tenha muitos temas previamente editados, alguns mesmo como temas-extra nos CD dos longa-duração (‘Twins’, ‘Stormhorse’ e ‘Koda’), não deixem de aproveitar esta edição ao máximo, principalmente porque, para além de conter os temas acima mencionados, inclui faixas raras editadas em também raras compilações.
(LP/CD, Sweatbox, 89, Imp. Por Contraverso)
**** (4 estrelas)
Fred Somsen

Poesie Noire
«Love Is Colder Than Death»
No princípio de 1989, os Poesie Noire afirmavam, através de Jo, a sua «besta negra»: «lutamos contra o instrumento mais convencional – a guitarra – e tentamos chegar a uma configuração que de um modo ou outro é única. Não nos envergonhamos ao dizer que usamos sequenciadores, computadores rítmicos e sintetizadores. O que é importante não é o modo como tocamos mas o que tocamos. Apesar de tudo, estamos na era do computador...» e a pretenciosa conversa continuava a té o mandarem calar, altura em que se despediu com um «Ninguém nos vai agora poder parar».
Há músicos assim. Ambicionam mais do que aquilo que as suas faculdades lhes permite.
Mais do que os seus próprios sonhos alguma vez seriam capazes de sonhar. Estão cheios de um palavreado chavão. «As palavras sempre foram bastante importantes apar mim, não apenas por serem um modo de exteriorizar as minhas emoções, as minhas frustrações, mas eu sinto também que tenho algo a dizer. Não tenho a pretensão de ter uma mensagem para a humanidade, mas certamente sinto a necessidade de provocar algo». Sim, isso provocas:
Um grande bocejo!
«Love Is Colder Than Death», o sétimo trabalho de longa-duração (se contarmos com mini-álbuns), representa, no entanto, uma mudança na linha estética e formal do grupo, que poderá surpreender alguns fans da banda. Praticamente livres de sintetizadores e sequenciadores, o disco está dominado pela guitarra (apesar de processada). Nem samplers agora se ouvem – os trompetes, as flautas, os clarinetes, os violinos, é tudo real, é tudo acústico. Será que os Poesie Noire se fartaram das electrónicas?
Contando com a colaboração na produção de Ludo Camberlin (Neon Judgment, The Weathermen), este álbum consegue mostrar uma vontade transparente nas intenções: fartos das pequenas audiências, agora o que interessa é a internacionalização (por isso o tema-título é cantado em bilingue), as grandes massas anónimas, os cifrões.
São obcecados pela morte e pelo negro. Com certeza, deverão agradar aos ainda fans dos Joy Division, The Mission, The Cure, Sex Pistols ou Sioux. Mas esses devem ter doze anos ou pelo menos não passaram da idade infantil (vá lá, comecem a escrever cartas de protesto)!
(LP/CD, Antler Subway AS 5006, 1989)
*,5 (uma estrela e meia)
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