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3.8.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (118) - Monitor #55


Monitor
Nº 55

Ano V
Abril de 99
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Vasco Durão
Jorge Mantas
Jorge Saraiva

«A música é uma actividade do cérebro»
entrevista com Rafael Toral

por Rui Eduardo Paes

Depois do sucesso, além-fronteiras, de «Wave Field», o ex-Pop Dell'Arte e fundador dos No Noise Reduction tem novo disco editado em Chicago, «Aeriola Frequency». Tempo, pois, para um balanço.

- «Aeriola Frequency», é «tocado» exclusivamente com um delay, consistindo num loop que continuamente se alimenta a si próprio. Desde há algum tempo, aliás, que a sua música parece estar cada vez menos
ligada à guitarra. Os gadgets electrónicos, o sintetizador modular e o theremin vêm substituindo o seu instrumento principal. O que se passa?
. Penso que, para mim, a guitarra é incontornável. Como fonte sonora inesgotável e como ícone cultural, e também pela minha formação ligada ao rock, este instrumento tornou-se uma presença constante. Isso não
faz, no entanto, com que veja como «guitarrista», ou seja, uma pessoa que toca guitarra. Quando estou a fazer música, posso gravar um take de guitarra numa tarde e depois estar três meses a trabalhar nesse
material, com processamentos diversos e operações de montagem e mistura no computador. O crítico Bill Meyer descreveu a minha peça electrónica «Liveloop» com esta expressão genial: «A guitarless composition
for guitar effects». Na verdade, fui tão longe na transformação electrónica dos sons da guitarra que dei por mim a fazer coisas para as quais a guitarra era já irrelevante. Lembremo-nos que, do ponto de vista
electrónico, uma guitarra é como um microfone. «Cyclorama Lift», a peça que constitui «Aeriola Frequency», é baseada em feedbacks e ressonâncias - coisas, afinal, bem do mundo dos guitarristas. Podia ter feito «Aeriola Frequency» com a guitarra, mas queria concentrar-me na ressonância pura, e a guitarra acabaria por ser um entrave, mais do que um meio para lá chegar. Digamos que fui directo «ao assunto».
Quando uma guitarra entra em feedback, existe um circuito de ressonância que entra em auto-oscilação, gera um tom, uma onda, logo comporta-se como um sintetizador rudimentar. Posso fazer muitas coisas com
feedbacks de guitarra, mas se quiser trabalhar com oscilação e der um passo à frente, porque não trabalhar directamente com osciladores e moduladores? Por acaso, o uso principal que dou ao meu sistema modular
é o processamento de sons... de guitarra. Digamos que por vezes tenho necessidade de ultrapassar completamente o instrumento.
- Define o seu trabalho como música ambiental, mas refere-se a esta aludindo a um modo de escuta («com níveis variáveis de atenção», como acrescenta no press release de «Aeriola Frequency»). Ou seja, não
enquanto uma tipologia da música em si e por si mesma, mas consoante o modo como é ouvida. Gostaria que me falasse sobre o modo como entende o ambientalismo...
. O modo como a música é ouvida faz parte da própria definição de ambient, tal como a enunciou Brian Eno. a música ambiental deve ser capaz de acomodar diferentes níveis de atenção. É o princípio-chave as
ignorable as interesting. Claro que o uso da música não a define, mas esta enuncia-se como sendo passível de ser usada de diferentes modos, especialmente a possibilidade de abdicar de uma fruição musical
consciente, tornando-se a música uma presença sonora integrada no ambiente acústico. Por outro lado, há a necessidade de oferecer uma experiência de escuta minimamente rica, sob pena de ficarmos com um
papel de parede vazio e estéril. É importante que haja alguma complexidade de informação, mas ao mesmo tempo uma certa sensação de imobilidade. Um curso de água, por exemplo, tem padrões de turbulência
infinitamente complexos, mas se nos sentamos à sua beira parece-nos que não está a acontecer grande coisa.
Tento usar isto como um modelo para a música.
Para mim, a música é uma actividade do cérebro, uma experiência estética sobre o som. Para que exista uma tal experiência musical, é irrelevante se os sons que escutamos tenham ou não sido produzidos com
intenção musical. Podemos ouvir um disco ou ir a um concerto, mas também podemos ouvir musicalmente um avião a passar. Nenhuma dessas experiências é mais válida do que a outra em termos musicais, a
única diferença é que o avião não tencionava fazer música. Há sempre um ambiente sonoro, um «pano de fundo» sónico nas nossas vidas e tento sempre que as minhas peças funcionem como um fundo sonoro, de
modo que as pessoas possam alternar livremente entre uma escuta «musical» e uma escuta «não musical» - ou seja, que esta música possa ser ouvida atentamente mas que também possa estar no mesmo plano
que o zumbido das ruas ou o murmúrio dos bosques. Interessa-me muito esbater essa fronteira, poder ouvir sons do ambiente como música e música como sons do ambiente.
- A improvisação desempenha um papel importante na sua música, mas sei que tem uma relação difícil com a chamada música improvisada. Diga-me porquê e explique-me como concilia a linguagem da
improvisação (e digo «linguagem» porque julgo haver uma adesão estética sua, mais do que uma apropriação de técnicas e processos) com algo que, em princípio, lhe é estranho, apesar de excepções como os AMM: o ambientalismo. A verdade é que parece ter um défice em ambos esses domínios: quando improvisa mais é menos ambiental e quando cria ambientes musicais parece deixar de ser um improvisador. Basta, de resto, comparar «Chasing Sonic Booms» com «Wave Fields» e este «Aeriola Frequency». Como é, então?
. Se existe uma «linguagem da improvisação», e se esta tem técnicas e processos, deve ter a ver com a tal «música improvisada» que, sendo assim, será um «estilo» musical, mais do que um exercício de
improvisação em si. Improvisar é resolver situações em tempo real. Se tenho um problema para resolver, há que equacionar esse problema e descobrir a solução. Ou seja, essa solução há-de ter uma forma, mas
enquanto a solução não é encontrada não se sabe que forma vai ter! No estilo «música improvisada» as soluções estão já codificadas num âmbito formal pré-estabelecido. Portanto, a forma primeiro, a solução
depois. Isto torna a música muito mais previsível e nada tem a ver com improvisação. Continuo a achar importante a distinção que Jim O'Rourke faz entre «improvisar» e «tocar música improvisada». Mas não tenho uma relação difícil, não há mal nenhum nisso. Só não digam é que estão a «improvisar»...
A improvisação implica uma predisposição para lidar com o indeterminismo, a aceitação de acontecimentos imprevisíveis, a abertura a muitas e diferentes variáveis. A rapidez com que por vezes é necessário reagir, a
surpresa de situações novas, a descoberta instantânea de novos sons, tudo isso tem uma carga de um certo dramatismo e mesmo de violência, e o desenrolar desses acontecimentos sobre um palco é algo de
espectacular. Afinal é um espectáculo o que se está a fazer, e como tal, requer atenção. Num palco existe uma situação teatral - há que inventar soluções perante um público, mas não é só no encontrar de soluções
que está o seu interesse. Espera-se que essas soluções sejas implementadas ao vivo de uma forma esteticamente interessante e estimulante, pois de contrário seria uma espécie de workshop em palco. Há um
factor de aprendizagem na prática da improvisação, sem dúvida, mas por que haveriam as pessoas de pagar bilhete para ver isso? Sinto a responsabilidade de dar sempre ao público algo que «valha a pena», e fazer
isso sem improvisação é muito difícil. Só o consegui duas vezes, em concertos de improvisação a solo. Tudo isto nos remete para longe do uso ambiental da música que daqui possa resultar, e daí também a
violência que se encontra disseminada por «Chasing Sonic Booms». Ainda assim, não é possível separar as coisas: em «CSB» tem também improvisação com uma forma praticamente ambiental, o «Wave Field» ao
vivo tem muito de improvisação e o «Aeriola Frequency» é inteiramente improvisado na sua execução. Não vejo «défice» algum, está tudo integrado... Mas, salvo excepções especiais, não posso pretender realizar
música puramente ambiental ao vivo, o ambientalismo e o palco são incompatíveis. Para uma fruição ambiental verdadeira temos de ter a possibilidade de nos esquecermos que estamos a ouvir música, e não é de certeza isso que fazemos quando decidimos ir a um concerto!...
- Há alguns (deliciosos, deverei acrescentar) paradoxos na sua abordagem da música, a começar pelas próprias referências, que t~em as origens mais díspares - John Cage, Alvin Lucier, Phill Niblock, Brian Eno, Jim O'Rourke, Sonic Youth, My Bloody Valentine... A sua música tem ingredientes, para mais, que dificilmente se julgariam conciliáveis: rock de guitarras, minimalismo, noise, música electroacústica... O que o motiva em tal diversidade de coordenadas? Trata-se simplesmente da aplicação criativa da multiplicidade dos seus gostos musicais ou decorre de um plano mais elaborado e consciente? Toca aquilo que ouve ou pretende afirmar algo em concreto?
. Não vou discutir aqui uma análise de «ingredientes» da minha música, mas... não vejo esse grupo de referências como uma multiplicidade de coordenadas, como se eu tentasse gerir um grupo de influências
incompatíveis entre si. Para mim tudo encaixa perfeitamente, como uma luva. Porém, não sejamos reducionistas ao ponto de pensar que o que faço resulta de uma soma de ingredientes. Ao longo do nosso percurso encontramos coisas que nos interessam, ideias que vale a pena aplicar e desenvolver. Naturalmente, integrei coisas muito diferentes de cada uma dessas pessoas ou grupos. Nuns casos a um nível mais racional, noutros a um nível mais emocional. Acho que a «influência» ou inspiração de alguém se tornapotencialmente mais interessante quando é assimilada ao nível conceptual. Geralmente, quando falamos em influências, dizemos que «x» soa a «y» e isso revela uma influência a nível formal. Podemos ser altamente inspirados por alguém, mas não precisamos de soar como uma imitação. Podemos ir em qualquer direcção em termos formais, uma vez assimilada a ideia de base. Por outras palavras, as mesmas ideias podem ser expressas numa variedade de formas e abordagens estéticas.
- Fez parte dos Pop Dell'Arte e de várias formações de Sei Miguel, com quem, aliás, continua a colaborar. O que ficou dessas experiências na sua música?
. Os Pop Dell'Arte eram um grupo muito aberto, cujo génio estava na sua capacidade de integração de referências, formas e abordagens díspares ou mesmo incompatíveis. A certo ponto assumi um pouco o papel de «sabotador» de serviço, mas na verdade era impossível sabotar aquela música, um caldeirão capaz de absorver praticamente tudo. O resultado era uma tensão constante e muito enriquecedora entre os elementos.
Acho que levei mais para os Pop Dell'Arte do que trouxe de lá. Ficou o envolvimento com a esfera rock, embora na altura a minha postura fosse claramente anti-rock.
O trabalho com Sei Miguel é sempre uma experiência fascinante, cada minuto de trabalho com ele vale ouro. Não teria sido capaz de me aventurar em experiências de improvisação livre sem o que aprendi com ele.
Infelizmente, não temos trabalhado muito juntos. O rigor que ele inspira na gestão do tempo e do silêncio é uma aprendizagem preciosa. Ele tem muito azar, principalmente por ser este o país em que tenta tocar.
Espero poder assistir brevemente ao reconhecimento do seu génio a nível mundial.
- Grande parte do seu trabalho é feito em solitário. A sua única colaboração permanente é com João Paulo Feliciano, nos No Noise Reduction. Entende este duo como um projecto paralelo, algo que desenvolve à
parte?
. Os No Noise Reduction são um espaço de acção em que cada um de nós faz coisas que não faria sozinho. Temos personalidades e atitudes muito diferentes e isso introduz uma química especial no nosso
trabalho. Há uma tensão saudável, ao mesmo tempo que somos muito solidários. Há uma tendência para trabalharmos em situações específicas.
- É convidado a tocar no estrangeiro, sobretudo nos Estados Unidos, os seus discos são editados lá, «Wave Field» foi mesmo considerado um dos 100 melhores álbuns publicados em 1998 nos EUA pela
Amazon.com e representa Portugal na Music in Movement Electronic Orchestra, para além de já ter actuado ao vivo com nomes como Jim O'Rourke, John Zorn, Phill Niblock, Rhys Chatham, Jean-François Pauvros, entre outros. Como enfrenta este súbito sucesso fora de portas?
. De vez em quando, compro uma limusina! Não quero parecer pretensioso, mas o meu trabalho é sujeito a um rigor e a um nível de exigência enormes. Acho que as pessoas (fora daqui, claro) souberam reconhecer
isso. É gratificante saber que o que faço é apreciado por pessoas que admiro, e também que há pessoas a comprarem os discos e a usá-los nas suas vidas.
Não sei, acho isto natural. Também é uma questão de marketing, isso do sucesso. Ainda hoje acho que «Sound Mind Sound Body» podia vender milhares, se houvesse uma estrutura para o promover.
Enquanto tentei encontrar uma editora para o «Sound Mind...» senti-me completamente isolado, embora soubesse que havia um público que se podia interessar pelo meu trabalho, assim como outros músicos que
teriam interesses em comum comigo. Foi um longo processo de reconhecimento gradual, mas foi com o impacto da edição americana de «Wave Field» que de repente a minha música ganhou uma visibilidade que
até aí não tinha.
- Tem desenvolvido uma actividade complementar como produtor e, curiosamente, apenas de grupos rock. O rock, aliás, parece ser uma obsessão sua, apesar de não o praticar. A que se deve isso?
. Por acaso, nunca calhou eu produzir um trabalho não ligado ao rock, mas gostaria... O trabalho de produção é esgotante e muito exigente, é necessária uma atenção absoluta a todos os ínfimos pormenores.
Tenho-me retirado um pouco dessa área, por esse motivo. Quero concentrar-me no meu trabalho pessoal. Ainda assim, estou finalmente envolvido numa produção já há muito aguardada, o novo disco dos Clockwork.
Estou muito optimista em relação a este trabalho, acho que vai ser um disco excelente. O drone-rock deles é pioneiro em Portugal. Mas o orock não é nenhuma obsessão. Faz parte.
- Ganhou uma bolsa multimédia que o levou a Nova Iorque, onde «estagiou» na Experimental Intermedia Foundation e na Faculdade de Arte Electrónica de Troy e apresentou um projecto que associava som e
imagem. Era de supor que continuasse este tipo de investimentos artísticos, mas tal não sucedeu. A única excepção recente terá sido a manipulação de luzes através da música numa actuação dos No Noise
Reduction. Porquê?
. Tenho mantido uma actividade regular de produção em vídeo e ponho sempre um dos meus vídeos quando toco ao vivo. O projecto da Bolsa era baseado em interacções com osciloscópios, aparelhos que servem
para visualizar uma onda sonora, logo era uma reflexão visual sobre o som. De qualquer modo, sou um músico, acima de tudo. Não tenho pretensões a videasta nem a artista multimédia, embora possa realizar
trabalho nessas áreas, como aliás tenho feito. O trabalho de luz no concerto da Aula Magna deriva muito mais do trabalho do Paulo Feliciano que do meu.
- Seguindo uma tendência cada vez mais generalizada, tem-se interessado muito particularmente pelas máquinas analógicas, mas também utiliza o computador - este, de resto, é-lhe um equipamento imprescindível, se não para tocar, pelo menos para trabalhar postriormente a música que faz. De uma maneira ou de outra, não me parece que a cibernética musical, por assim dizer, seja uma questão para si. A tecnologia não lhe interessa, mas o que pode fazer com ela. É assim? E se é, porque não envereda também por situações acústicas?
. Pode-se enveredar por um trabalho de pesquisa sónica com instrumentos acústicos, mas isso implica uma abordagem muito avançada. Tinha de ter tido outro percurso. Outras pessoas há que percorrem esses
trilhos. Como dizia Cage com imensa sabedoria, «we get more done by not doing what somebody else is doing».
Tendo uma ideia para concretizar, vou necessitar de um dispositivo tecnológico que me permita trabalhá-la. Pode ser um software complexo ou um distorsor ferrugento, mas o importante é que os meios sirvam os
fins, e não o contrário. Pode ser importante usar a tecnologia, mas é imperativo não ser usado por ela. É tão vasto o campo de opções possíveis que se torna demasiado fácil perdermo-nos. É muito frequente ver
pessoas que compram um sampler e acham que podem fazer tudo mas acabam por dispersar-se, perdem o foco. É essencial decidir o que não queremos fazer, deixar opções de lado, delimitar o campo de acção.
Pessoalmente, gosto de trabalhar num campo de opções restrito, de modo a que o foco seja o mais agudo possível. Quanto maior for a limitação, mais longe se chega. Prefiro progredir «em flecha» do que em
«mancha de óleo».
- O seu expertising no que respeita às condições técnicas da audição/recepção e os seus conhecimentos sobre acústica reflectem-se claramente na música que faz - acho mesmo que a sua perspectiva não é
propriamente «musical», no sentido convencional, mas sonora. É o que me sugere, pelo menos, a forma como trabalha os harmónicos, as ressonâncias, o ruído. Concorda?
. O princípio da música, para mim, é o som. Tem de existir um som a priori antes de haver música. A música resulta das transformações a que esse som é sujeito, ou das formas que se podem construir tendo-o
como matéria-prima. Ou seja, vejo a criação musical como um processo que se passa no interior da própria matéria que constitui a música. É um pouco por isso que me interessam sons de longa duração. Prefiro
trabalhar com um único som em cujo interior evoluem acontecimentos musicais. Não me interessa o «tocar» convencional, é sempre preciso parar um som para atacar o seguinte, e quanto mais rápido, menos
interessante se torna.





2.8.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (117) - Monitor #54


Monitor
Nº 54

Ano V
Março de 99
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Vasco Durão
Carlos Branco Mendes
Gonçalo Falcão
Pedro Santos
Vítor Rua
Jorge Saraiva


As profecias de Giovanni Freschi: O regresso ou a síndrome de uma Wire Culture
por Vítor Rua

É no final do filme «2010» (sequela da obra «2001 Odisseia no Espaço»), que HAL (o computador) transmite repetidamente uma importante mensagem para toda a Humanidade: todos estes planetas são vossos. excepto Europa: não tentem aterrar nunca aqui.
Uma ordem parecida tinha sido dada por Deus, no Paraíso, a Adão e Eva: tudo isto é vosso, mas não comam do fruto proibido.
Ao desrespeitarem esta ordem, Adão e Eva estavam de certa maneira a trocar o conhecimento pelo prazer.
Vem isto a propósito da revista «The Wire» e do tipo de informação por ela vinculada: uma informação que, quanto a mim troca a importãncia histórica do conhecimento pela mensagem fútil, massificada e filtrada de um pseudo-input musical, que em nada ajuda a situar (antes pelo contrário) certas ideias/teorias num saudável contexto histórico-musical.
A revista «The Wire», mostra-nos um mundo musical virtual, em que músicos, compositores, improvisadores, maestros, intérpretes, musicólogos nos aparecem mesclados / deturpados / distorcidos, numa enganosa sopa de pedra, dando-nos uma visão tipo história-da-música-pós-moderna, ou fique-a-saber-tudo-sobre-música-em-10-fascículos.
A «The Wire», numa atitude necrófaga, aproveita-se do aparente estado moribundo pós-modernista (em que se perderam todos os valores musicais) para nos impor, sem regras nem critérios, um cenário de cocktail musical psudo-intelectual, desprovido de qualquer contextualização histórico-musicológica: não se está aqui a pôr em causa a qualidade de alguns dos seus artigos, mas sim a forma travestida e por vezes simplificada para as massas com que nos são apresentados.
É desta forma que nos surgem conceitos por vezes altamente complexos, mesclados com bolinhas pop, ou teorias ridículas do género idiomático / não-idiomático na improvisação, em contraponto com outras não menos enganosas e irrisórias do tipo Webern era nazi. Ou seja, no fundo a «The Wire» aproveita esse pequeno mundo virtual, onde todos se andam a enganar a todos e não-músicos tentam enganar não-críticos e vice-versa; um mundo onde se atropelam as mais elementares noções de historicidade musical (que se lixe Beethoven se temos Zorn); um sítio onde pululam psudo-teorias revolucionárias sem qualquer sustentação musicológica, em que o conhecimento musical é desrespeitado a favor do prazer infantilóide de dizer disparates disfarçados de inentonas de uma nova verdade musical pela qual se iria hipoteticamente refazer a História.
É assim que encontramos um qualquer artigo sobre Milton Babbitt ao lado de outro sobre os U2; sobre Derek Bailey ao lado de Varése; Cage ao lado de DJ Spooky; Fátima Miranda ao lado de Morton Feldman; tudo sob o estandarte de um Admirável Mundo Novo Musicológico, onde tudo é permitido, em favor de uma nova maneira de interpretar a História.
Alguns dirão que esta é a maneira de um número grande de pessoas, de diferentes gostos e culturas, tomarem conhecimento de tipologias musicais que de outra forma não teriam acesso: um amante do rock fica assim a saber quem é Helmut Lachenmann; um estudioso da música clássica inteira-se do mundo de Eugene Chadbourne; o ouvinte de músicas etnográficas encanta-se com o mundo macabro de Diamanda Galàs. Só que o problema está na maneira deformada, impunemente acéfala, enganadoramente perversa, historicamente incorrecta, com que nos são transmitidas essas mensagens, servidas na bandeja do puro e verdadeiro usufruto musical, a única livre dos antiquados métodos com que observamos o devir ao longo dos tempos da música: ou seja, no fim trata-se tão somente do pôr de lado a incómoda História da Música.
Vem tudo isto a propósito de um artigo publicado na última «Monitor», de minha autoria, intitulado «As Profecias de Giovanni Freschi». Nesse artigo (vou tentar fazer um resumo para aqueles que não tiveram a oportunidade de o ler) apresentei um ensaio sobre a vida e a obra de um desconhecido compositor (Giovanni Freschi), descoberto ocasionalmente por um musicólogo (Robert Nestrovski), na biblioteca de um tal Duke Vincenzo, chefe da Corte de Gonzaga, em Mãntua. Esse desconhecido compositor teria escrito uma centena de obras, grande parte delas composta para uma inusitada instrumentação (pelo menos para aquela época), como sendo o caso de «Le Nozze», para 23 percussionistas; «Selva Sprrituale», onde era usado o instrumento turco zarib; mas acima de tudo um conjunto de peças intituladas «Extravaganzas» para gravecimbalo col piano forte, em que Freschi teria recorrido a utensílios de cozinha para preparar o piano forte de Bartolomeu Cristofori e o intéprete usaria baquetas de tímpano para percutir o interior do piano, antecipando assim em quase 300 anos o piano preaparado de Cage; teria também escrito vários ensaios sobre notação em que nos apresentava novos símbolos por ele inventados para descrever novos métodos e técnicas de composição. Freschi (aluno do mestre renascentista Marc'Antonio Cesti) teria vivido entre 1653 e 1739 e apresentava-se-nos, desta forma, como um visionário, um profeta, um Júlio Verne da música, que teria despertado o interesse dos mais consagrados intérpretes contemporâneos como Pierr Ives Artaud, as Percussões de Estrasburgo ou Irvini Arditti. E que magnífico seria se na realidade este revolucionário músico e a sua obra tivessem de verdade existido!!!; mas não, tudo se tratou de um ensaio de ficção, uma personagem por mim criada num mundo de semi-verdades (os nomes dos compositores, as datas, os locais, tudo verdade, mas truncados e mesclados de maneira a criarem um mundo onde esta personagem pudesse nascer, envolta num manto de realidade - o inventado musicólogo Nestrovski deu-nos o lado científico q.b. -, bem como o interesse manifestado por uma série de reputados intérpretes em gravar a obra de tão exótico compositor, para uma prestigiosa e bem real editora discográfica, a Col Legno.
Não quis com estes artigos ferir as sensibilidades de quem coordena, dirige ou colabora neste boletim (eu próprio já por várias vezes colaborei nele, e considero o «Monitor» uma importante arma independente capaz de divulgar uma mensagem inexistente de outra forma no panorama musical português), muito menos chocar ou enganar os leitores deste mesmo boletim, por quem tenho a máxima estima (uma vez que representam uma forma de contra-poder no mercado comercialista existente no mundo capitalista musical actual); pelo contrário, é o meu respeito por toda esta instituição que me fez escrever estes artigos, no sentido de alertar os perigos deste mundo virtual, onde tudo é possível e permissível, e aonde nos foi possível por momentos criar uma personagem virtual que de certa maneira nos ajudasse, desta forma, a desmascarar que a falta de uma sólida base histórica musical e um desejo libidinoso de querermos acreditar no Cálice Sagrado (que nos são vinculados pelos às vezes falsos e erróneos evangelhos como a «The Wire») nos pode transportar para a serpente do Paraíso que nos diz constantemente: comam esta maçã, ela é a Verdade.
Comecei o artigo com uma citação do filme «201», transmitida pelo HAL para toda a Humanidade; seria bom que alguém (de preferência de uma raça alienígena) nos viesse dizer, através de uma mensagem semelhante à dada pelo HAL, qualquer coisa como: Estudem e venerem a História da Música e todos os seus grandes criadores - Gesualdo, Palestrina, Monteverdi, Bach, Mozart, Beethoven, Wagner, Schoenberg, Stockhausen, Lachenmann; só com uma compreensão total dessa mesma história pode a Humanidade entender e interpretar os fenómenos musicais mais recentes - o rock, a pop, a electrónica, a concreta, a minimal, a improvisada, a dance music -, e dessa forma unir o conhecimento e o prazer musicais num todo.
Que a música esteja convosco!

P.S.: Pelo preço de duas «The Wire» já se compra uma boa História da Música!





31.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (116) - Monitor #53


Monitor
Nº 53

Ano V
Fevereiro de 99
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Jorge Mantas
Ivo Martins
Gonçalo Falcão
Pedro Santos
Jorge Saraiva

Rafael Toral - «Aeriola Frequency» [CD Perdition Plastics, 1998]
Começou por concretizar as suas ideias numa guitarra eléctrica armadilhada com processadores vários (nas suas duas versões de «Wave Field», em «Sound Mind Sound Body» e no disco de colaborações «Chasing Sonic Booms»), buscando aquilo a que chamou «uma destilação abstracta do rock». Revelou volta e meia o seu gosto pela «bricolage» electrónica, como ouvimos nos dois álbuns publicados pelos No Noise Reduction (o seu projecto com João Paulo Feliciano, artista visual e líder do grupo Tina and the Top Ten), «The Complete...» e «On Air», com os seus brinquedos e aparelhos (telemóveis, p. ex.) «moisturizados».
Mais recentemente, soubemos do seu interesse pelos velhos sintetizadores modulares, analógicos, e por instrumentos electrónicos do passado como o theremin. Em «Aeriola Frequency», o novo registo de Rafael Toral na editora de Chicago Perdition Plastics, explora um dos seus interesses, a ressonância, para o que recorreu a um simples «delay», à semelhança do que já tinha feito no tema que incluiu na colectânea «Way Out - New Music From Portugal», «Liveloops». O presente CD é, aliás, um bom exemplo de como é possível fazer usos imaginativos e inconformistas dos recursos existentes.
Deixo-lhe a despesa das explicações, tal como consta no «press release» que acompanhou o lançamento deste disco: «Quis dar forma à ideia de a ressonância estar por todo o lado no mundo electrónico - a música oculta dos circuitos electrónicos. Para evocar esta ideia tive de pensar num dispositivo musical que me permitisse "tocar ressonância" em vez de tocar "sons". Para trabalhar com ressonância pura num domínio puramente electrónico, precisaria de um circuito vazio, que não tivesse nada a entrar do exterior e não processasse nada a não ser a si próprio. Algo que pudesse usar para sondar o espectro de áudio pesquisando frequências, modificando larguras de banda. Acabei por usar um circuito fechado, um "delay" cuja saída está ligada À sua própria entrada, passando antes por um equalizador paramétrico (que permite manipular o espectro sonoro) e outros periféricos. O "loop" alimenta-se a si mesmo continuamente, ao mesmo tempo que se autodigere.»
O álbum é constituído por dois longos temas, na linha a que Toral já nos habituou, a de uma música estática, em suspensão, feita de harmónicos e fantasmizações sonoras, situável algures entre o ambientalismo devedor a Brian Eno, apesar de o jovem músico português estar cada vez mais distante deste, e o pós-minimalismo, sendo evidentes, por exemplo, as influências de um Phill Niblock, com quem, de resto, tem colaborado. Não é este, apenas, o universo em que o vencedor da segunda edição da Bolsa Ernesto de Sousa busca recursos: no cômputo final de «Cyclorama Lift 2» e «Cyclorama Lift 4» contribuem certos aspectos de outras tendências: o «noise» (a sua música alicerça-se, sobretudo, nos parasitas sonoros dos circuitos eléctricos), a improvisação e o aleatório (o sistema sonoro que utiliza tem uma grande margem de imprevisibilidade, aliás), a «new music» de Alvin Lucier e John Cage e as novas tendências da música para guitarra, de Jim O'Rourke a Alan Licht, passando pelos Sonic Youth mais experimentais. Tendo em conta a recente e gradual identificação de Rafael Toral com a vasta cena do pós-rock, falta identificar uma outra referência, particularmente observável em «Aeriola Frequency»: a do «krautrock» electrónico dos anos 60/70 e mesmo do chamado «space rock». Não se pense, de qualquer modo, que a música de Toral não passa de um «melting pot» ou de uma manta de retalhos, à semelhança de muitos subprodutos da pós-modernidade. Nada disso: o que apontei não são ingredientes, mas coordenadas, linhas de força, «toques», delimitações territoriais. Não é isso que mais interessa a Rafael Toral, mas a «viagem» pelo «imenso campo sonoro, sempre desdobrando-se em novas paisagens, de florestas cujas plantas crescem e mudam de forma diante dos nossos olhos». O que nos conduz ao carácter fortemente imagético, para não dizer cinematográfico deste novo álbum. Não porque esta música possa servir para acompanhar imagens (não há nela nada de ilustrativo, pelo contrário), mas por induzir a formação daquelas na mente do ouvinte, que «imagina» (no sentido mais apropriado do termo) determinados cenários a partir daquilo que ouve. A meticulosidade de Rafael Toral na gestão dos materiais sonoros (ou, melhor dizendo, das ressonâncias) a tal nos conduz, com uma paciência, um rigor e uma serenidade notáveis. «Aeriola Frequency» não tem o deslumbre que fez de «Wave Field» um sucesso internacional, mas não lhe fica muito atrás.
[REP] - Rui Eduardo Paes








30.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (115) - Monitor #52


Monitor
Nº 52

Ano V
Janeiro de 99
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Pedro Ivo Arriegas
Vasco Durão
Gonçalo Falcão
Ivo Martins
Vítor Rua

Pedro Santos
Jorge Saraiva

As Profecias de Giovanni Freschi
por Vítor Rua

Em 17 de Janeiro de 1997, o musicólogo Robert Nestrovski é convidado a estudar e analisar certas partituras, pertença de Duke Vincenzo, chefe da corte de Gonzaga em Mantua, nobre renascentista, arrogante, déspota, imensamente rico e ostentador, mas com um interesse muito grande por Arte e Música (teve como figuras da sua corte o pintor Peter Paul Rubens e como maestro di cappella, o compositor Cláudio Monteverdi).
Este típico príncipe da Renascença tinha às suas ordens uma orquestra de 36 excelentes músicos, para os quais compositores como Benedetto Pallavicino, Lodovico Grossi da Viadana, Salamone Rossi e o próprio Monteverdi compunham. Foi na biblioteca deste príncipe de Mantua que Nestrovski fez uma descoberta que iria surpreender a comunidade musicológica do mundo inteiro, bem como compositores e estudiosos da História da Música: uma série de partituras de um compositor desconhecido até então, mas que cedo iria revelar-se uma espécie de Bosch da música renascentista, pela verdadeira originalidade e surpreendente revolução nas técnicas empregadas nas suas composições, bem como em extraordinários ensaios sobre notação (onde constam invenções de novos símbolos e técnicas que só muito recentemente viriam a ser utilizadas por compositores do pós-guerra).
Nestrovski estava a catalogar alguns Madrigais de Monteverdi, descobertos recentemente pelos descendentes do Vincenzo, quando deparou com algumas composições assinadas por um Giovanni Freschi 1653-1739 (Nestrovski viria mais tarde a saber por intermédio de cartas escritas por este à sua amante, que o seu mestre teria sido o compositor renascentista Mar Antonio Cesti - um dos primeiros compositores a compor uma ópera para o famoso Teatro Cassiano em Veneza, 1637.
A quase centena de composições assinadas por este compositor oscilava entre peças de grande envergadura instrumental e pequenos ensembles, duos e solos.
Nestrovski ficou surpreendido pelo exotismo instrumental de algumas das composições, tendo em conta a altura em que estas foram compostas (entre 1676 e 1737): «Le Nozze», 1696, foi escrito para 23 percussionistas (antecipando em quase 300 anos a famosa obra de Varése, «Ionization»); «Selva Spirituale», de 1683, foi composta para o instrumento de cordas turco zarib, oito violinos, 12 trompas e aplausi (seis músicos que usavam as mãos como instrumento de percussão); em «La Proserpina» contava com um coro de 10 crianças, 10 percussionistas e solo de rabab (instrumento de cordas persa). Mas a mais extraordinária descoberta foi uma série de composições escritas para um dos instrumentos criados por Bartolomeu Cristofori (o piano forte) e intitulada «Extravaganzas Sonnoras Per Gravicembalo Col Piano Forte», datada de 1730-1735, em que Freschi dispunha ao lado da partitura uma extensa lista de utensílios de cozinha (garfos, facas, colheres, pratos de cerâmica, copos, tachos de metal, etc.) disposta em esquemas gráficos, que mostrava a sua disposição ao longo do interior do piano, com indicações precisas quanto à sua utilização. O intérprete, segundo Freschi, utilizaria duas baquetas de timpani para percutir as cordas do instrumento, utilizando o pé direito para pressionar o pedal do sustém do gravicembalo, produzindo sons extravagantes e harmoniosos...
Estas partituras continham ainda ritmos irregulares e alternados (figuras de três, cinco e sete notas dispostas em compassos que alternavam de métrica com uma frequência espantosa), bem como escalas octatónicas e séries que viriam mais tarde a ser utilizadas por Messiaen ou Bartók, mas desconhecidas na altura.
Nestrovski imediatamente se deu conta da importância de tão bizarra descoberta (o prenúncio do piano preparado de Cage...) e imediatamente preparou um ensaio que viria a publicar no «Journal Perspectives of New Music», em Setembro de 1997 surpreendendo compositores e musicólogos pelo genial visionário que se lhes apresentava ser Giovanni Freschi.
As suas composições, além de revolucionárias, eram escritas meticulosamente, utilizando expedientes da notação tradicional mescladas com símbolos de sua invenção, sempre acompanhados de longas notas explicativas, bem como esquemas gráficos de uma imponente beleza e exactidão.
Esteticamente, as suas peças eram de uma beleza só comparável a obras de mestres como Orlando di Lasso, Gesualdo ou Gabrielli, tendo uma facilidade inusitada em criar belíssimas melodias aliadas a exóticos ritmos e extravagantes timbres alcançados pela utilização de invulgar instrumentação ou pelo uso anormal de novas técnicas por ele criadas.
Durante 1998, vários foram os intérpretes interessados em estudar e interpretar as suas obras. Entre eles contam-se Irvini Arditti, Pierre Ives Artaud, as Percussões de Estrasburgo e René Clemencic, dando origem a gravações agora publicadas em CD pela editora Col Legno.
A verdadeira importância deste compositor para a História da Música só o tempo o dirá, mas o seu lugar como revolucionário e visionário, esse parece já enraizado na memória de todos os que se deixaram contagiar por tão poderosa sensibilidade, beleza, lirismo, rigor científico, humor e, acima de tudo, uma antecipação verneana do que de melhor se viria a produzir no final do nosso século.

NOTA: este é o primeiro de uma série de dois artigos sobre a vida e obra de Giovanni Freschi. No segundo, vamos tentar dar um retrato do panorama sociocultural em que se desenrolou a obra deste compositor, bem como uma amostragem psicanalítica do seu carácter como homem.


Harmonia 76 - «Tracks & Traces» [CD Sony, 1997]
Os habituais seguidores de Brian Eno, entre os quais me incluo, aguardavam com particular expectativa a materialização sonora da notícia que falava de um misterioso disco gravado na Alemanha na segunda metade dos anos 70, com o grupo germânico Harmonia. Foi uma altura particularmente criativa e prolífera na sua carreira: a fase em que acompanhou Bowie em Berlim para gravar «Low» e «Heroes», o período em que gravou com os Cluster (que afinal são os Harmonia subtraídos de Michael Rother) e ainda o momento em que a sua carreira a solo vivia momentos excepcionais, dividido entre os restos da pop e a procura de um novo idioma musical que expressasse as suas ideias. Afinal, esta história de «discos perdidos», salvo raríssimas excepções tem mais a ver com um certo sentido de negócio que as editoras vão farejando, do que, propriamente, com a sua qualidade musical intrínseca. Quem estava à espera da continuação (ou melhor, da antecipação, já que estas gravações são cronologicamente anteriores) do magnífico «Cluster & Eno», ficará desiludido. Aliás, Michael Rother nunca me convenceu: sempre foi um elemento dissoante na estrutura compacta do duo musical Cluster, movendo-se em áreas mais afins da chamada «música para elevadores» e pouco contribuindo para criar novas alternativas no chamado rock alemão dos anos 70. E, o que é pior, é que parece ser a guitarra açucarada e delicodoce de Rother que comanda os temas, ou pelo menos parece contagiar negativamente os restantes membros, Eno incluído. As coisas até nem começam mal, Eno até compõe uma canção («Luneburg Heath») relativamente aceitável, mas vai-se caindo gradualmente na monotonia e no conformismo. Ou seja, «Tracks & Traces» não tem a dimensão da intemporalidade: provavelmente seria um disco interessante (não mais do que isso) em 1976; 23 anos depois, soa irremediavelmente a datado: veio muita gente nos anos seguintes fazer coisas bem mais interessantes do que esta. Claro que pode haver algum sentido de injustiça nestas comparações, mas a política de reedições sujeita-se a este tipo de confrontos e, como em quase tudo na vida, o tempo é um juíz infalível. E depois começam a notar-se os defeitos: pouca inspiração de ideias, temas excessivamente longos, indefinição melódica e processual e aquele irritante Rother com a sua «E-Guitar» enchendo todas as espiras para nosso desespero. Aliás, e em jeito de conclusão, não foi por acaso que «Tracks & Traces» ficou tantos anos na prateleira. Por mim poderia lá ter continuado indefinidamente.
[JS] - Jorge Saraiva





29.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (114) - Monitor #51


Monitor
Nº 51

Ano V
Dezembro de 98
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Pedro Ivo Arriegas
Vasco Durão
Carlos Branco Mendes
Rui Neves

Gonçalo Falcão
José António Moura
Pedro Santos
Jorge Saraiva

Telectu, Sclavis & Berrocal - «Jazz-Off Multimedia» [CD NON / AnAnAnA, 1998]

Carlos Bechegas - «Flute Landscapes» [CD AudEo, 1998]


Enquanto os Telectu prosseguem a publicação «dentro-de-portas» (e ainda que com distribuição no estrangeiro) de registos com a colaboração de músicos internacionais - em «Jazz-Off Multimedia» os franceses Louis Sclavis e, mais uma vez, Jac Berrocal -, depois de um disco saído na Grã-Bretanha Carlos Bechegas decide-se com «Flute Landscapes» pela edição nacional e a solo. O primeiro é um excelente trabalho, dos melhores que a desigual discografia do duo português oferece, e o outro agrada, se bem que não tenha a chama do anterior. Cada um a seu modo, são uma mostra da vitalidade que a música experimental e improvisada começa a ter no nosso país, e não por acaso vindos de nomes consagrados daquela que, infelizmente e apesar de tudo, ainda não podemos chamar «cena portuguesa».
O disco dos Telectu com Sclavis e Berrocal, gravado ao vivo no Festival de Jazz de Guimarães em 1995, é um daqueles exemplos em que a livre-improvisação se encontra com um determinado ambientalismo, se é que ainda podemos chamar assim às sugestões de atmosferas e estados de espírito que vão marcando a década de 90 e estão longe de serem, apenas, fundos indutores. Vítor Rua toca guitarra eléctrica e encarrega-se das bases electrónicas, sobretudo com recurso a fita, repetidos papéis de solistas têm Jorge Lima Barreto em piano (também sintetizador, mas menos) e Louis Sclavis nos clarinetes e no saxofone soprano, com destaque para o segundo, e Jac Berrocal limita-se quase só a um trabalho de coloração com o seu inconfundível trompete, o que é pena e o único grande senão deste novo álbum. Pelo que escutámos em «À Lágardére», a sua anterior colaboração com os Telectu, podia fazer muito mais e melhor num contexto como este.
Seja como for, e não obstante esta divisão de tarefas, a tónica de «Jazz-Off Multimedia» vai para a arquitectura de conjunto, chegando-se a algum pontilhismo, tal a renda de pequeníssimos elementos que se vão associando ao longo das faixas. Torna-se patente, ainda, que houve um apurado trabalho de edição e produção, com selecção de momentos, montagem e mistura, ganhando as interessantes feições de uma pós-composição feita com os materiais improvisados. Para quem não compreender a referência ao multimédia no título, fica uma explicação: no concerto em Guimarães, os quatro intervenientes fizeram-se acompanhar por imagens vídeo. No disco perde-se, obviamente, esta dimensão, o que até poderia justificar a sua não alusão no mesmo se não fosse a função primordial de qualquer CD de música improvisada: documentar um acontecimento que, pelas suas características intrínsecas, é irrepetível. Quanto a «Flute Landscapes», refira-se que se trata de um disco não necessariamente de «exercícios», pois tal termo nos remete para esquematismos frios e rígidos, mas de pequenos temas em que se vão experimentando técnicas muito concretas e ideias discursivas isoladas, reduzindo os meios ao dispor àqueles só que são indispensáveis à sua solução. Carlos Bechegas usa a voz, a respiração e sons não notáveis numa partitura para explorar as possibilidades do seu instrumento e, por vezes, até para as ultrapassar - designadamente quando já não é uma flauta o que ouvimos mas algo sem identidade definida. Poucas vezes, entre nós, a perspectiva dos improvisadores é de pesquisa, o que vem aumentar a importância deste lançamento.
O ex-Plexus toca por vezes «demasiado», esquecendo-se do valor da contenção e do silêncio, e repete fórmulas e vocabulários, mas tem a louvável virtude de alargar o seu mapa de sons e levar à letra os velhos conceitos do experimentalismo, aqueles mesmos que, nos anos 70 e por exemplo, um Stockhausen levou à prática com as suas composições para caixinhas de música ou Berio realizou com as parcerias entre intérpretes «clássicos» e de free jazz, para já não falar nas incursões étnicas do grupo de rock alemão Can. O CD peca, talvez, por ser excessivamente longo, sem grandes variantes que possam renovar o interesse do auditor (um risco sempre presente quando se parte para uma sessão solitária com um instrumento monofónico), e pela desproporcionada reverência que faz a algumas personalidades da improvisação, como Evan Parker, Steve Lacy, Peter Kowald e Derek Bailey (curiosamente, nenhum deles flautista). Assumir as influências é uma coisa, e fica sempre bem a qualquer um, tocar «à maneira de» já tem mais que se lhe diga.
[REP] - Rui Eduardo Paes

 




28.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (113) - Monitor #50


Monitor
Nº 50

Ano V
Outubro/Novembro de 98
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Victor Afonso
Gonçalo Falcão
Jorge Saraiva

Eliane Radigue - «Trilogie de la Mort» [3xCD XI Records, 1998]

Annea Lockwood & Ruth Anderson - «Sinopah» [CD XI Records, 1998]


Ainda que a nós, europeus, estas distinções sexistas nos façam confusão, a verdade é que os norte-americanos levam-nas muito a sério, uns porque as acham «politicamente correctas», outros (ou melhor, outras) porque entendem a afirmação criativa das mulheres como uma vitória feminista contra a dominação masculina, pensando no plural e não na singularidade artística de cada uma. Na Europa, mãe dos princípios igualitários, a música de homens e mulheres é publicada consoante a sua pertinência e sem outros juízos de valor à mistura, já bastando que haja mais compositores e instrumentistas do sexo masculino para haver desiguladade. Será esse o muito americano prurido, inevitavelmente, das duas últimas edições da nova-iorquina Experimental Intermedia Foundation, uma assinada por Eliane Radigue, a outra por Annea Lockwood e Ruth Anderson. Se o responsável desta etiqueta, Phil Niblock, achou por bem ser socialmente «conveniente» na altura de lançar novos títulos (há mais de dois anos que não saía nada com o selo XI Records), então ainda bem que o fez, porque se trata de grande música aquela que encontramos aqui.
À partida, Radigue não teria nada a ver com estas questões, porque é francesa. Mas tem, na medida em que os americanos acham que o que é bom para eles é bom para todos os demais. No caso em apreço, não os critico. Oito anos levou a autora de «Trilogie de la Mort» a completá-la - «Kyema», a primeira parte, já tinha sido lançada pela mesma editora, totalmente inéditas são as que compõem os discos dois e tr~es deste triplo álbum, «Kailasha» e «Koumé» respectivamente.
A fonte de inspiração é o Livro dos Mortos Tibetano, designadamente os textos de Bardo-Thodol sobre os seis estados intermédios que constituem a «continuidade existencial do ser», indo da morte para a vida e inversamente, numa viagem cíclica que é muito bem ilustrada pelos «drones» e percursos espiralados da música que a budista Eliane Radigue, crente na trasnmigração das almas, constrói com recurso exclusivo a sintetizadores analógicos. Outro factor que contribuiu para esta obra de fôlego que ficará como a mais importante da sua carreira, apesar de pessoalmente, preferir «Mila's Journey Inspired By A Dream» e o modo como homenageia Milarepa, mestre tibetano do século XI: a morte do seu filho.
Nada há de gótico ou deprimente neste trabalho. A música é suspensiva e quase hipnótica, fluindo com uma leveza que parece constantemente desmentida pelo carácter orgâncio dos sons criados por síntese, o que é apenas um de vários paradoxos. Outro é a impressão de simplicidade que esta trilogia, na verdade extremamente complexa na forma como se estrutura, transmite ao seu auditor. Nada obscura, também, é «World Rhythms», a composição que abre «Sinopah» com assinatura da neo-zelandesa radicada nos EUA Annea Lockwood, feita a partir dos sons de erupções vulcânicas, terramotos, ondas radiofónicas e géisers, entre outros. É intenção da autora chamar-nos a atenção para a «manifestação física de energias que moldam o nosso ambiente e que nos moldam a nós próprios, energias de que não estamos conscientes mas que nos influenciam fortemente e interagem com os ritmos dos nossos corpos».
Depois do pouco entusiasmante «The Sound Map of the Hudson River», esta peça concretista, ainda que acústica (as manipulações tecnológicas limitam-se quase só a baixar ou subir frequ~encias e a montar materiais de diferente proveniência), é bem o exemplo de que é possível fazer música com a nossa paisagem sonora natural.
Outra via bem diferente, ainda que nos mesmos domínios da «sound art», escolheu Ruth Anderson com o seu «I Come Out of Your Sleep», seguindo a tradição da poesia fonética que vai de Kurt Schwitters a Jackson MacLow. A peça é baseada nas vogais do poema «Little Lobelia» de Louise Bogan, vogais essas que são murmuradas e alongadas de modo a transformarem-se no que poderia chamar de fantasmas tonais, fragmentos de melodia que, encadeados, têm curiosos efeitos ao nível da percepção auditiva. Parece estranha, à primeira abordagem, mas depressa nos prende devido à «humanidade» emprestada pelas respirações e pelo sopro «subterrâneos» a estes sons que julgaríamos electrónicos mas não o são. Se por aí houver alguém que ainda acredita na possibilidade de se poder distinguir uma música indubitavelmente feminina e quiser saber se estamos perante dois exemplos disso, só tenho uma resposta: «Trilogie de la Mort» e «Sinopah» podiam ter saído da imaginação dos homens.
[REP] - Rui Eduardo Paes









27.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (112) - Monitor #49


Monitor
Nº 49

Ano V
Setembro de 98
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Pedro Ivo Arriegas
Vasco Durão
Jorge Mantas
Gonçalo Falcão
Luís Rei

Pedro Santos
Jorge Saraiva

Ryoji Ikeda - «0ºC» [CD Touch, 1998]
Mute Life Department - «Still» [CD edição de autor, 1998]
Vários - «KHM - CD Series Nº 1» [CD Kunsthochschule Fur Medien Koln, 1998]

A electrónica toma novos rumos e nem sempre os desbravadores de caminhos aparecem onde mais os esperávamos.
Não foram poucos os que acreditaram piamente que das recentes tendências do techno pouco viria de verdadeiramente inovador e isso porque, mais uma vez, estávamos perante um fenómeno de moda e é sabido que estes passam sem deixar rasto. Desta vez, não está a ser assim. O japonês Ryoji Ikeda, que já foi comparado com os Panasonic (agora Pan Sonic, «copyright» oblige) mas na verdade é muito mehor, assina as mais interessantes obras com instrumentação electrónica que surgiram nos últimos anos, como «1000 Fragments», «+/-» e este recém-editado «0ºC». É dele, também, grande parte das bandas sonoras do grupo de perfomance, dança e teatro Dumb Type, que tivemos oportunidade de conhecer este ano no Festival do Mergulho. A sua música é toda ela construída com os parasitas sonoros produzidos pela electricidade, de zumbidos e estranhas crepitações a baixíssimas frequências e reconversões de «test tones», tudo isto com um sentido rítmico apurado.
De acordo com a sua devoção pelo budismo Zen, a abordagem de Ikeda é minimalista e abraça a «ética de não-interferência» que também inspirou Alvin Lucier. As composições electroacústicas deste serão mais
complexas do que as do compositor japonês, o que se explica pelo facto de Ryoji Ikeda ter em conta privilegiadamente as mecânicas perceptivas do ouvinte, procurando arrebatá-lo pelo que nele há de mais
primário, a pulsação precisamente (como há tempos salientou a revista «Wire», neste aspecto aproximar-se-á mais de Stockhausen, que considera serem os ritmos e as frequências exactamente a mesma coisa, embora a velocidades diferentes). Os sons, regra geral, surgem a um nível quase diminuto de volume e o silêncio está sempre presente, não como um fundo, mas integrado na própria matéria musical. Há um outro
aspecto decisivo no seu trabalho: a substituição do conceito de tempo pelo de espaço. Já não é a linearidade dos desenvolvimentos ou o seu contrário, pela fragmentação do discurso ou pela recusa do fraseado, que estão em causa, mas o espaço, na própria música e na maneira como a fruímos consoante a nossa posição diante dos altifalantes.. «0ºC» tem um aliciante adicional: neste CD, Ikeda «interpreta» as convenções da música «erudita» à sua maneira, como o canon e a cadenza, assim demonstrando que, apesar de tudo, ainda aceita algumas das regras vigentes.Do techno também, vêm os portugueses Mute Life Department, trio que une o igualmente artista visual Pedro Tudela e Alex Fernandes (mais conhecido nas discotecas por Alex FX) e Pedro Almeida. Entre o ambientalismo electrónico e a experimentação, são responsáveis pelo que de mais interessante na área se faz em Portugal, algures num plano em que situaria num dos lados os Zzzzzzzzzzzzzzzzzp! e no outro os Vitriol. «Still» é o registo de uma actuação do grupo (uma das raras em tr~es anos de existência) numa exposição de Tudela no Porto. O sampler é o instrumento principal, mas grande relevo têm a montagem de fita, herdeira dos princípios concretistas, a percussão acústica e os «objects trouvés», com um papel decisivo para as falas introduzidas de quando em vez, adensando o efeito dramático induzido. No meio de tanta «pastilha elástica» dita alternativa, é com alguma surpresa que se descobre um projecto com estas características. Mais novidades da novíssima geração da electrónica chegam-nos da Alemanha, graças a uma compilação de jovens estudantes cujos nomes convirá ir decorando: Marek A. Goldowski, Felix Hahn, Einsok/Auskoz, Peter Simon, Jan Verbeek, Miki yui, Pol Mahlow e Nadja Schoning.
São claras as influências da música concreta (Pierre Schaeffer e Pierre Henry foram mais seminais do que há uns anos se acreditou), da acusmática francesa (as «escolas» do IRCAM e do GRM, designadamente) e
da «live electronics» (os improvisadores que adoptaram e adaptaram os preceitos de John Cage e David Tudor), mas é nas margens experimentais do techno que os temas incluídos em «KHM-CD Series Nº 1» vivem.
O futuro está aqui, pelo que, quem os tem, deve deixar-se de preconceitos...
[REP] - Rui Eduardo Paes

outro artigo/entrevista interessante:
Robin Storey
Entre os Zoviet France e os Rapoon
por Jorge Mantas
...




26.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (111) - Monitor #48


Monitor
Nº 48

Ano V
Agosto de 98
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Pedro Ivo Arriegas
Vasco Durão
Jorge Mantas
Carlos Branco Mendes
Gonçalo Falcão
Miguel Santos
Pedro Santos
Jorge Saraiva

Em Defesa Dos Executores
por Pedro Ivo Arriegas
(acho que estive lá)

Vem isto a propósito da passagem dos turntablists X-Ecutioners pelos Armazéns Abel Pereira da Fonseca na noite de Agosto para Setembro, assinalando o término do Festival Mergulho no Futuro.
No pós-concerto de tudo se ouviu um pouco. Eis alguns exemplos:
«Pena não terem deixado os discos tocar!»
«Mas diz-me, não tocaram nenhum instrumento, pois não?»
«Virtuosismo por si só não me interessa!»
«Aquilo de música não tinha nada!»
«Não penses fazer aquilo com os meus discos!»
Pois...
O que eu vi e ouvi deve ter sido algo diferente, e para melhor.
Os rapazes não estavam ali para mostrar que compram bons discos, que possuem as novidades de cuja existência ainda ninguém sequer suspeitou, que são ecléticos ou que detêm um insuperável bom gosto na
escolha dos temas que se encadeiam harmoniosamente ou aquela suprema sensibilidade que lhes permite conduzir as hostes dançantes, mantendo-as em contínuo movimento ao longo de toda uma noite. Aliás,
talvez nem fossem discos para serem passados por DJs. Os dedos (e os cotovelos, e os narizes) pousavam nos arquivos sonoros cujas gavetas se abriam para que o seu conteúdo jorrasse durante décimos de
segundo por sobre toda a assistência.
Vi serem manuseados instrumentos [8 x (vinil + prato)] onde uma panóplia disponível de sons era trabalhada, organizada e transmitida à assistência pela arte e inspiração dos tocadores. Não é isso que os
instrumentistas (sim, mesmo no sentido tradicional do termo) fazem? Virtuosos, assuma-se que sim. De qualquer modo, o que se ouviu ali não seria possível sem o virtuosismo demonstrado, para o que decerto
contribuem uma espantosa noção do tempo e do ritmo, muitas, muitas horas de prática e muito disco e agulha para o lixo.
Ouvi música que talvez não me predisponha a escutar no remanso do lar, mas tal é comparável à distância entre o prazer do contacto directo com a música improvisada e o desconforto que alguma desta estética
me provoca quando escutada em suportes fonográficos. É também uma questão de espaço, ocasião e disposição.
Quanto ao «don't try this at home», poupe-se o vinil que interessa e treine-se com o volumoso pacote «As 101 Maravilhosas Melodias de Todos os Tempos», que além do mais já serviu para obter a ambicionada
calculadora portátil e habilitou o comprador a um concurso cujo prémio maior é um T2 na Quarteira.

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25.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (110) - Monitor #47


Monitor
Nº 47

Ano V
Julho de 98
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Vasco Durão
Gonçalo Falcão
Jorge Mantas
Carlos B. Mendes
José António Moura
Pedro Santos
Jorge Saraiva

Arquitectura Paisagista
O ruído como matéria em bruto para uma nova música

por Jorge Mantas

Merzbow - «Scumtron» [CD Blast First, 1997]
Merzbow / Gore Beyond Necropsy - «Rectal Anarchy» [CD Release, 1997]
Mika Vainio - «Onko» [CD Touch, 1997]
Vários Artistas - «Antiphony: Interpretations Of Disinformation» [2CD Ash Internationl, 1997]
Vários Artistas - «Chiky(u)u» [CD Ash Internationl, 1997]
Ryoji Ikeda «+/-» [CD Touch, 1996]
Rehberg & Bauer - «Fasst» [CD Touch, 1997]
Vários Artistas - «Tulpas: Interpretations Of RLW» [5CD Selektion, 1997]
RLW - «Revue Et Corrigé» [CD Trente Oiseaux, 1995]


Não deixa de ser curioso como esse estranho elemento desestabilizador, adiante designado por ruído, tem funcionado como base musical de alguns dos mais surpreendentes e cativantes discos que ultimamente me
chegaram aos ouvidos. Uma sensibilidade auditiva mais apurada permite aos novos escultores sónicos integrar quase todos os barulhos do quotidiano (urbano / industrial / natural) num contexto de arte musical.
Quando o elegante silêncio (recordemos: veludo por fora, pesadelo por dentro) é perturbado, surge o ruído (o interior do silêncio): nasce do silêncio, tende para o silêncio, como uma entidade orgânica que escorre
secretamente na sombra da abstracção. O que se procura não é apenas a desconstrução musical (ou, se quisermos, uma redefinição radical do conceito de música) mas sim a busca da verdade e da pureza original
do som, sem olhar a qualquer tipo de concessão comercial ou cultural. É reconfortante concluir acerca da crescente disponibilidade de certas franjas do público consumidor mais esclarecido para este importante
género de experiências sensoriais, o que tem justificado o aparecimento de dezenas de editoras especializadas nas sonoridades noise: Alchemy, alien 8, Anomalous, Old Cafe Europa, Charnel Music, Complacency, Mego, Trente Oiseaux, Cheeses International, E(r)ostrate, Selektion, Release, Touch, Ash International, V2, VHF, Streamline... Eminências como Merzbow, Aube, Oval, Scanner, Bernard Günter, Ralf Wehowsky, Thomas Köner, Alan Lamb, Francisco López, Darrin Verhagen, François Tétaz, Christoph Charles, Masonna, K2, MSRR, Panjerk, Incapacitants, third Organ, Solmania, Pica, Haters, Macronympha, Crawl Unit, Daniel Menche, Namanax, entre outros artistas, abandonaram o conceito de ambientalismo enclausurado em igrejas, cavernas, criptas e matadouros industriais introduzido no início da década de 80 por Lustmord, optando antes por um abstraccionismo disfuncional de baixo índice de musicalidade.




Nesta óptica, já não faz sentido perguntarmos como encontrou Lamb nos fios telefónicos do deserto australiano a música das músicas ou porque encerra Merzbow no seu som uma poderosa carga erótica (a resvalar para a pornografia sadomasoquista: cf «Music For Bondage Perfomance» vol. 1/2). A economia de materiais optimiza muitas vezes a complexidade das estruturas de som geradas - como na Teoria do Caos,
pequenas entradas no sistema originam grandes resultados, por intermédio de uma misteriosa «black box», a operar nos limites do equilíbrio instável mas cujo conteúdo nunca conheceremos. No ruído enquanto arte
musical, o minimalismo e o maximalismo coexistem num só corpo, massa sonora construída por texturas e relevo (refere-se a superfícies rugosas, imperfeitas) que subitamente descreve inesperados cromatismos
tímbricos, raramente aproximando-se de um conceito musicalmente reconhecível. O diversificado conjunto de referências estéticas permite constantes rupturas, sobressaltos, ocasionais fragmentos de
contemplação abismal, reconfigurações de edifícios sónicos avassaladores.
«Scumtron», disco de remisturas de temas de Merzbow, apresenta-se-nos com um variado leque de interessantes propostas que, antes de mais, tem a virtude de nos mostrar como os grandes nomes do
experimentalismo contemporâneo abordam a música de outro grande expoente musical. Destaque imediato para os escandinavos Panasonic (escolheram o tema «Elephant Memory») que, através do seu techno
minimalista, mostram a transformação de ruído puro numa fria batida analógica sobreposta a um extenso manto de acontecimentos ruidosos.



Também Bernard Günter confirma o seu talento, já demonstrado em vários discos indefiníveis: a criação de ciclos temporais em continuum possibilita que o som - quase a um nível imperceptível ao ouvido humano:
fascinantes eventos em miniatura envolvidos num ambiente austero - apareça lentamente, apresentando-se, mudando, interagindo com outros sons, repetindo-se em diferentes configurações e finalmente
desaparecendo. Em «Music For Bondage Perfomance», tema escolhido pelo alemão, fica definitivamente instalada a sensação de perda de noção espaço-temporal do ouvinte. O naipe de artistas fica completo com
Jim O'Rourke (assaltos bruscos mais fortes do que é habitual no seu trabalho). Rehberg & Bauer (exploração nos limites dos sons agudos), Autechre (techno mais declarada) e Russell Haswell. Pelo meio, há ainda tempo para escutar duas faixas inéditas do próprio Masami Akita, mais terrorismo sónico brutal.
Brutal seria também a palavra certa para descrever «Rectal Anarchy», uma insana colaboração entre Merzbow e o grupo grindcore / punk / noise japonês Gore Beyond Necropsy. Como é habitual neste tipo de registo, os níveis exageradamente elevados de gravação, tornam os 31 temas dificilmente diferenciáveis entre si. Ondas massivas de ruído branco, gritos, grunhidos guturais, frequências abrasivas, guitarras
afundadas. A celebração abusiva da pura anarquia, disseminação do caos e da subversão psico-sexual até níveis próximos do humanamente insuportável. «Pussy Poking Disorder Chaos Anarchy Rectal Anarchy»,
«Tits 4 Chaos Rectal anarchy», «Release From Agony State Of Procession Rectal Anarchy», «Morbid Shit Confusion Anarchy Violent Rectal Anarchy», «Manta Size Shit Body Pollution Hate Rectal Anarchy», «Love
Me Suicidal Tendencies Rectal Anarchy» são apenas alguns dos títulos que poderão dar uma ideia daquilo a que me refiro. Mais um clássico...
Algo distantes dos exageros nipónicos estão Rehberg & Bauer; Ramon Bauer (também General Electric) e Peter Rehberg, ambos militantes activos da editora vienense Mego. «Fast», o mais recente registo do duo
para a britânica Touch (gravado em 8 bit, entre Janeiro e Agosto de 1996, em vários fins-de-semana e horas pós-laborais), representa uma corrosiva fábula em forma de som sobre a dependência humana da moderna tecnologia.
Como os próprios músicos indicam, «trata-se de injectar erro humano e irracionalidade no processo criativo da chamada "música feita por máquinas"». todas as fontes originais foram obtidas de erros humanos e
falhas tecnológicas (a dupla utiliza apenas, como instrumentação, um duplo deck de CD e um powerbook Mac): mais do que a óptima intenção teórica, os resultados obtidos revelam-se recompensadores. Avarias,
vírus, loops digitais infestados de um contagiante sentido rítmico (não demasiado evidente), texturas variadas, ruído ocasionalmente processado, dissolvido, distorcido até conseguir explorar satisfatoriamente a
imperfeição digital das supostas máquinas perfeitas (no tema «Supra Zwei 1-12» é possível escutar o equivalente digital do disco analógico riscado). Esta desconfortável sinfonia de erros poderia muito bem
representar o futuro da música industrial.
Mika Vainio, mentor do excelente projecto finlandês Panasonic, editou também na Touch o primeiro disco a solo, enveredando por uma veia marcadamente ambientalista mas não menos interessante. O irrepreensível
design gráfico da embalagem digipak (da autoria de Jon Wozencroft, músico e designer responsável por capas de discos da Touch e Sub Rosa, entre outras editoras) acompanha música da mais elevada qualidade.
Durante os quatro temas que compõem «Onko» aquilo que se pode ouvir é uma apurada sensibilidade experimentalista que fervilha no corpo e ressoa no cérebro do ouvinte. O tema título foi utilizado em 1996 como instalação sonora para um acontecimento artístico na Holanda. Se a electricidade fizesse barulho ao circular nos fios, possivelmente soaria assim...
O japonês experimentalista Ryoji Ikeda apresenta, provavelmente, o disco mais refinado e contido do lote em análise. «+/-» é uma invulgar abordagem científica que investiga em profundidade a correlação
estabelecida entre a linguagem binária de pulsações e a percepção do som. Composto por duas secções onde os extremos, inevitavelmente, se atraem, Ikeda desenha através das suas composições digitais um
ambientalismo estartosférico próximo daquilo que poderia designar-se por estado larvar semi-consciente. Na primeira parte - «Headphonics» - são construídas pulsações minimais, pequenos ritmos e frequências
perturbantes em constante mutação. A segunda peça, em seis partes, é dirigida para aspectos multidimensionais da batida mecãnica. A curiosa particularidade de «+/-» é a de que a qualidade de audição é determinada pela posição do ouvinte em relação às colunas de som, para além de ser possível experimentar uma diferença significativa entre a audição via colunas ou através de auscultadores.
Por outro lado, a faixa que encerra o disco apresenta um sinal sonoro de alta frequência, apenas perceptível quando desaparece.
A música do universo cósmico é o que nos propõe Joe C. Banks no seu projecto Disinformation. Um fascínio acumulado pelas mais inesperadas fontes sonoras: tempestades solares ou magnéticas, auroras boreais, chuvas de meteoritos, todo o tipo de perturbações e modificações electromagnéticas da ionosfera. Exploração profunda de uma vasta galeria de ultra-baixas frequências VLF ou ELF, captadas nas zonas mais obscuras do espectro rádio. Devidamente afastada qualquer possibilidade de musicalidade, o projecto hertziano Disinformation desconfigura um esoterismo sonoro perdido entre a arte e a ciência. O disco compilatório «Antiphony» (embalado numa carteira de plástico com postais ilustrados) surge como um conjunto de interpretações psicoacústicas do trabalho do radionauta Joe Banks, da autoria de alguns dos mais conceituados músicos pós-industriais: Bruce Gilbert (Wire), Chris Carter e Cosey Fanni Tutti (Throbbing Gristle), Mark Van Hoen (Locust), S.E.T.I., Zbigniew Karkowski (The Hafler Trio), John Duncan, Atom Heart, M. Behrens, People Like Us, Kapotte Muziek, RLW, entre outros. Ao longo dos mais de 120 minutos de duração de «Antiphony» (antifonia significa: 1 - canto antifonário de uma composição musical por dois coros; 2 - qualquer efeito musical ou sonoro que responde ou ecoa a aoutro), são geradas atmosferas que evoluem em tonalidades amorfas, fantásticas peças monolíticas apropriadas para excursões nocturnas em regime onírico. Os discos «Ghost Shells», «R&D» e «Stargate» (todos editados na Ash Internatinal), servem de ponto de partida para os convidados construírem pacientes analgésicos intergalácticos onde o ruído assume uma multiplicidade de significados, preferencialmente encarados como factor informativo e não tanto como entretenimento.
Ainda sem sairmos da essencial e hiper-selectiva Ash International, temos «Chiky(u)u» (designação japonesa para «Mãe Natureza»), compilação com artistas japoneses que representa uma aproximação bastante subtil à filosofia Zen e à arte da ressonância microtonal. A gravação ambiental de sons que ocorrem naturalmente indica-nos que estamos perante uma obra de pura topografia musical de elevado grau orgãnico: todas as peças são baseadas nos sons da natureza, electro-acusticamente processados, amplificados e reconfigurados. Terramotos, ventos ciclónicos, pedras no fundo de rios com eléctrodos incorporados, tempestades de areia, frequências de cristal, campos magnéticos, grutas e minas abandonadas são algumas das matérias-primas de um disco que não foi gravado para nos sentarmos no sofá e ouvirmos, devendo antes ser encarado como algo orgânico, um ser vivo plantado no leitor de CD, crescendo durante um longo período.
Por entre os nomes mais habituais - MSBR, Aube, Koji Marutani - aparecem ilustres desconhecidos: Hatohan, Utah Kawasaki, Akira Yamamichi, Toru Yamanaka, Tamaru, Tak++. De salientar ainda que «Chiky(u)u» é o primeiro de três discos, uma colecção importante de que também fazem parte «Scatter» (exclusivamente com artistas norte-americanos) e «Decay» (com músicos europeus).
«Bodhisattva é a base para inúmeras formas mágicas... Ele pode, ao mesmo tempo, mostrar um fantasma (tulpa) dele próprio em milhares de milhões de mundos... Não existe limite para o seu poder de criação de
fantasmas. O poder de produzir formações mágicas, tulkus, ou menos materializadas e duradouras tulpas, no entanto, pertence exclusivamente a tais seres místicos. Todo o humano... pode ser possuído por ele.»
[Alexandra David-Neel: With Mystics And Magicians in Tibet, Penguin 1936]. Na difícil tarefa que constitui a análise de qualquer disco de Ralf Wehowsky, aliás RLW, gostaria de pegar nas palavras de Bruce Russel
no texto de abertura de «Tulpas», ao considerar RLW um artista que atingiu tal estado de iluminação que já não necessita de produzir o seu próprio trabalho, antes produzindo um exército de fantasmas que o façam
por si. A função do tulpa seria precisamente levar outros seres à iluminação, após o que se procederia à sua desmaterialização. Metáforas à parte, «Tulpas», o imenso disco, regista em cinco CDs o trabalho de 50
dos mais conceituados músicos experimentalistas, que interpretam, reformulam e reestruturam a enigmática obra de RLW. Diria eu que constitui um incontornável documento de música electro-acústica (atrevo-me a
defender mesmo que se trata de um marco dificilmente ultrapassável, um dos registos mais importantes de sempre de música criativa), não só pelas quase seis horas de submersão sónica num universo estranho e
infinito (vantagens de um hermetismo sem necessidade de ser extrapolado cá para fora) mas também pelo rigor estético de uma embalagem de grande qualidade, formato livro pequeno, com enriquecedoras
participações através de textos e imagens dos artistas intervenientes. Em relação ao domínio terrestre, «Tulpas» pode funcionar como música estrangeira, ainda que de muito difícil digestão, porque resulta mais
facilmente adaptável a paisagens alienígenas não configuráveis pela mente humana. Durante alguns minutos, cada um dos 50 artistas que fazem parte deste exército consegue tornar-se tulpa/fantasma de RLW. Uma
espécie de possessão temporária em que uma certa projecção psíquica consegue fazer com que cada pessoa se torne em RLW, de uma forma subjectiva (sensação real de transcendência). Neste estádio, será mais acessível a emulação do trabalho musical de RLW, validando a questão da tentativa de reprodução do trabalho de outros. Num âmbito próximo, encontramos «Revue Et Corrigé» também de RLW. Aqui trata-se de adaptar uma obra demasiadamente datada com as insuficiências técnicas de equipamento e do suporte vinil, com as coordenadas que uma actualização tecnológica permite, sem perder ou camuflar o espírito
artístico original que primitivamente assistiu à sua concepção. Originalmente editado pela Selektion em 1986 no LP «Nichts Niemand Nirgends Nie!», ainda sob a designação dos míticos P16.D4 (formação da qual
fazia parte Ralf Wehowsky e Achim Wollscheid), o material surge agora com toda a qualidade devida e possível, desde o ponto de vista da actualidade. «Revu Et Corrigé» v~e a luz do dia pela mão da Trente Oiseaux, a editora de Bernard Günter que, conjuntamente com Jim O'Rourke e o próprio RLW, produz e assiste tecnicamente o disco. Musicalmente mais contido e linear que «Tulpas», o disco é constituído por estilhaços de objectos cortantes, sufocantes, ruídos não identificáveis, que caem do céu indefinido para logo de seguida ferirem os corpos anónimos que circulam e sangram. Depois de uma leitura teórica, que não se pretende exaustiva, importa ouvir a música realmente criativa em vias de excepção... sem medo de sermos salpicados pelo sangue da transgressão, próprio das minorias éticas em estado terminal.








24.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (109) - Monitor #46


Monitor
Nº 46

Ano V
Junho de 98
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00
Tiragem 500 exemplares


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Vasco Durão
Gonçalo Falcão
José António Moura
Pedro Santos
Jorge Saraiva

Edgar Varèse
por Gonçalo Falcão

«Há sempre uma incompreensão entre o compositor e a sua geração. A explicação habitual deste fenómeno é que o artista avança em relação à sua época, mas parece-me absurda. De facto o criador é, de uma maneira particular, o testemunho da sua época; então, é porque o público - pela sua disposição e experiência - está 50 anos atrasado que há este desacordo entre ele e o compositor.»



Varèse morreu a 6 de Novembro de 1965, há 34 anos, e hoje parece que teremos de esperar mais 20 para que a sua música seja ouvida e apreciada pelo público. Mesmo em disco são raras as edições que lhe são exclusivamente dedicadas, tendo eu só encontrado duas: da Erato e da Sony Classical, dirigida por Pierre Boulez com a New York Philharmonic e o Ensemble Intercontemporain. Apesar da sua produção ter sido exígua (apenas 13 composições conhecidas), desassociou-se de toda a tradição e avançou. Depois das suas peças de juventude terem sido queimadas por um incêndio, partiu para os Estados Unidos em 1915. Entre 1918 e 21 compôs «Ameriques», título que não considerou «exclusivamente geográfico, mas símbolo de descobertas de novos mundos na terra, no céu e no espírito dos homens». E que mundos extraordinários abriu!
Concebia a música como espacial, movimentos de corpos sonoros no espaço - «a corporeização da inteligência que está dentro dos sons» - libertando-se do temperamento da escala, através da «recusa dos limites impostos pelos instrumentos em uso, e por todos estes anos de maus hábitos a que chamamos, erradamente, de tradição», e procurando nos instrumentos de altura indeterminada (percussão) ou variável (sirenes), um novo universo de relações sonoras: «... o músico pode obter vibrações sonoras que não correspondem necessariamente a tons e meios tons tradicionais, mas que variam de um som para o outro. Não poderemos explorar verdadeiramente a arte do som (ou seja, a música) se não procurarmos meios de expressão completamente novos.» Procurou a abertura da composição para todo o universo dos sons e antecipou o uso dos instrumentos eléctricos e electrónicos: «Estou pouco a pouco a convencer-me de que, na nova e autêntica música, as máquinas serão necessárias e terão um papel importante. Talvez até a indústria tenha algo a desempenhar no desenvolvimento e metamorfose da estética.»
«Que a música soe! O nosso alfabeto é pobre e ilógico. A música que deve viver e vibrar necessita de novas formas de expressão e a ciência apenas lhe pode incutir uma seiva adolescente»; a sua música é emotiva. Varèse compôs com um profundo sentido do desenvolvimento musical: «Tudo o que não é síntese de inteligência e vontade, é inorgânico.» Além disso, recusou o primado da razão na arte e encontrou na mudança a via para o belo. No ritmo procurou não somente a vida, mas também a coerência e a coesão: «A base do ritmo é a carga imóvel da sua pujança.» O ritmo é o seu elemento de estabilidade. No entanto, tem pouco a ver com a cadência, ou seja, com a sucessão regular de tempos e acentuações. O ritmo nas suas obras provém de «efeitos recíprocos e simultâneos de elementos independentes que intervêm em lapsos de tempo previstos, mas irregulares. Isto corresponde à concepção do ritmo na física e na filosofia, que é uma sucessão de estados alternativos opostos ou correlativos».
Os seus elementos musicais, feitos de fricção, percussão, assobios, estalos, conduziam-no para a integração no movimento futurista, filiação essa que recusou com vigor, criticando-a pela sua simplicidade, ao limitar-se a reproduzir a «trepidação do quotidiano».
«A nossa época tem demasiada sede de desconhecido para que o artista aceite obedecer a sistemas arbitrários, ou de seguir a influência estéril da ortodoxia coerciva. À questão: o que pensa deste ou daquele movimento, escola ou tendência, a resposta resume-se sempre a: «... depende... quem é o compositor?»






23.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (108) - Monitor #45


Monitor
Nº 45

Ano V
Maio de 98
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00
Tiragem 500 exemplares



Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Pedro Ivo Arriegas
Vasco Durão
Gonçalo Falcão
José António Moura
Pedro Santos
Jorge Saraiva

Boards Of Canada
«Music Has The Right To Children»
[CD Skam / Warp, 1998]

Na verdade são escoceses. Electrónica de pouca iniciativa, que os Autechre tomaram-na já - «Sixtyten», «Pete Stands Alone» revelam mais quanto a isso do que qualquer comparação por escrito. Boards of Canada optam, no entanto, por uma via melódica mais acentuada, com mais espaço para os sons respirarem. E quem ouve consegue pensar em coisas que não a música, pormenor complicado com Autechre, tão herméticos que o desenrolar dos sons é logo uma história em si. Depois, BOC aceitam q.b. referências hip hop («Rue The Whirl», «Smokes Quantity»), nunca linha dura, não à militância. Na base desta música, sim, relativamente discreta: «A nostalgia é a fonte de toda a nossa música, a recusa em aceitar a idade adulta. Esforçamo-nos sempre por ser mais novos.» «Music Has The Right To Children» não acrescenta, torna-se disco correcto, amigável, sem surpresas, como alguém em quem se pode confiar. Todos os lares deviam ter um.
[JAM] - José António Moura

 






22.7.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (107) - Monitor #44


Monitor
Nº 44

Ano V
Abril de 98
III série

24 páginas - p/b - A5 landscape, papel fino tipo jornal

Assinaturas - 12 números - 2000$00
Tiragem 500 exemplares


Editores
Rui Eduardo Paes
Paulo Somsen
Colaboradores neste número
Jorge Lima Barreto
Gonçalo Falcão
Ivo Martins
José António Moura
Chris Rice
Pedro Santos
Jorge Saraiva

Jorge Lima Barreto
por Jorge Lima Barreto

Iniciei a minha actividade musical muito cedo; o meu autodidactismo, como o de qualquer um, foi apenas aparente: aprende-se sempre com alguém.
Trabalhei desde logo numa perspectiva de free jazz (uma expressão radical e vanguatdista do jazz) e desenvolvi critérios da nova música improvisada; desde os anos 70 fiz uso do sintetizador e da banda magnética e progredi na electrónica «live».
A minha composição é de tipo «conceptual», i.e.: do primado da ideia sobre a matéria formal. Fundei a Associação Da Música Conceptual em 1968, no Porto, onde os compositores/intérpretes se dedicavam a um projecto experimentalista - um dos factores originais do meu conceptualismo, gesto controverso, foi o da vídeo/música performarte e da música/happening, que teria sequela, nos anos 80, com a música multimédia dos Telectu.

Nunca fui dado a arregimentações e ortodoxias; posso ter adoptado certos isomorfismos da composição: free music, experimentalismo, minimalismo, antimúsica, electrónica live/inter arte/inter media. O meu nível de informação é extremamente vasto e labiríntico, explanado em 15 livros de musicografia e noutros tantos discos; desde sempre oiço, leio sobre, cultivo o conhecimento das músicas clássicas, electro-acústicas, jazz, rock, minimalistas, seriais, etno/tradicionais; uma permanente atenção aos factores sincrónicos e diacrónicos da inovação formal, conceptual, acústica ou tecnológica, donde me é impossível indicar uma influência precisa na minha música. Pode haver compositores ou intérpretes que pautaram algumas atitudes, mas os discursos desses músicos foram assumidos como mimetismos, inspiração forânea.
Um enredo caótico, fractal, anáquico, ligado ao imaginário, ao inconsciente, ao interdisciplinar - peculiaridades, interconexões discursivas e dinâmicas, o sentido da viagem musical são, entre outros, apelos que seduzem a minha criatividade como improvisador.
As influências directas vieram daqueles com quem trabalhei, toquei e gravei (Carlos Zíngaro, Jean Sarbib, Elliott Sharp, Jac Berrocal, Chris Cutler, Louis Sclavis, Evan Parker e, sobretudo, Daniel Kientzy). Os Telectu são formados por mim e por Vítor Rua: é para com ele que tenho o meu maior débito.
O piano tem sido o meu principal instrumento, donde parto para uma ideia, um morfema, uma construção, uma estrutura. Como compositor, a minha acção prévia à execução (concerto, disco, vídeo) é inalienável da instrumentação (percussão, objectos sonoros, etc....); fundamentalmente, prescrevo a atitude acústica, instrumental (gesto, melodia, ritmo, textura, etc.) e, quando incidental, a distribuição dos dispositivos analógicos ou digitais; considero a introspecção, a planificação puramente mental e reflexiva, como um dos principais elementos do meu conceito de composição. Sou exclusivamente um improvisador, a composição é tão somente um esboço estruturante para o devir da matéria improvisada, para a cenografia instrumental.
Devido a alguma disfunção léxico-musical criei compensações semiográficas extravagantes e proto-linguísticas: notação gráfica, text komposition, jogo e acção, vocabulários indeterministas, protocolos com autocolantes coloridos, tablaturas mistas - situações pré-codificadas de modo empirista para a improvisação, organigramas, estratégias distributivas, mnemónicas, preparação e tráfico, desvios, amostras, simulacros denotatum sinestésico (som, cor, luz, música...), promissórias prontezas prognósticas promorfoses.

Trabalhei, ab initio, com pintores, escultores, instaladores, videastas, cenógrafos, realizadores - considero-me um poliartista, o meu projecto musical é interarte (vídeo-poesia com Eugénio de Andrade e E.M. de Melo e Castro, performarte com Silvestre Pestana, Manoel Barbosa; instalação, diaporama, luminotecnia, vídeo-arte com António Palolo ou Vítor Rua, para citar algumas intensidades). Sobre a situação interartística da música não posso deixar de citar as entrevistas que fiz a alguns dos mais significativos músicos de jazz de vanguarda e improvisadores hodiernos; as minhas viagens aos mundos do rock e das músicas planetárias. Esta praxis foi animada por teorias esparsas de futuristas, dadaistas, bruiteurs, concretistas; pelos movimentos Fluxus, cinetistas, videológicos; radio music e aparatos tecno-instrumentais de esculturas sonoras; instalações multimédia - um rizoma de alusões.
Quando criei a Anar Band fi-lo com artistas plásticos e videastas do Porto (de 68 a 80). Ao fundar os Telectu com Vítor Rua, em Lisboa, os principais propósitos que animaram desde 1982 este duo foram necessariamente votados à música interarte e intermedia. Há também o canto dos pássaros, o marulhar das águas, a polifonia das cigarras, o rodopiar do vento, o arfar do vulcão, o sibilar da nave espacial, o choque das estrelas, o ribombar do Big-Bang, o silêncio.

Nos meus livros fiz abordagens poliscópicas do situacionismo da música electro-acústica e do meu trajecto até à música cibernética. Desde «Musicónimos», 1976, com prefácio de João de Freitas Branco, à minha tese de doutoramento «Música e Mass Media», 1995; e prossigo estes estudos. Na minha prática musical de improvisador fui adoptando inenarráveis formas de uso, espontâneas metodologias analógicas e digitais; na realidade, a minha postura musical tem sido fundamentalmente do foro da electronic live. Penso que a oposição da música acústica com a electrónica traduz uma superstição da tecnologia - a arte supera os reacionarismos de forma irreversível e universal. A filosofia da nova música consiste esteticamente na tomada de consciência da própria inovação, inclusive da tecnologia. A estética académica está mais preocupada com a análise de artefactos pessoais, pelo que dificilmente pode estudar e compreender a música electro-acústica, a concreta, as sínteses analógicas e digitais, os parâmetros ópticos-acústicos da cibernética, as complexidades das relações numéricas, o hipermedia e a interacção, a armazenagem do som em si, as sequências temporais dos sons artificiais, a espacialização, etc. As novas tecnologias da música são informáticas, as suas regras são isomorfismos da biologia (genética, prótese, clonagem), os seus horizontes só agora começam a desenhar-se, o seu futuro é o próprio futuro da música.

Não conheço nenhum músico que não acalente sonhos de compositor. Uma incontornável dialéctica entre o querer, o poder e o fazer é, afinal, o paradoxo de toda a criação artística. A acção do músico de hoje é em parte sancionada pelos musoburocratas e os medíocratas intermediários do público e do músico que se apresentam como obstáculo ao desejo e à imaginação - afinal, a criatividade é a concretização da luta constante contra a mais-valia ideológica, é um princípio de realidade da história da música.
O trabalho, a ubris, a verdade, a inventio, a poética, o eros, são alguns dos meios para nós podermos realizar os nossos sonhos. Enunciá-los seria formular os segredos da utopia. «Pelo sonho é que vamos»...







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