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12.2.17

Rock Psicadélico - Dossier


Rock Psicadélico

Dossier de 5 páginas, no
DN:música de 09 de Setembro de 2005
Autor: Mário Lopes

DOSSIER
ROCK PSICADÉLICO

Entre 1966 e 1969, o universo musical transformou-se. Na Califórnia, os Grateful Dead reabriram as portas da percepção. Em Londres, reescreviam-se as regras da pop numa espiral experimentalista inaudita. O psicadelismo anunciou-se e nunca nada mais foi o mesmo.



Em 1954, quando Aldous Huxley publicou As Portas da Percepção, inspirado num poema de William Blake, estava longe de imaginar que o “porta” descoberto em gotas de mescalina despoletaria uma revolução em forma artística ainda não oficialmente fundada – falamos do rock’n’roll cujo nascimento se assinala à volta de 1956, ano do primeiro álbum de Elvis Presley. No livro, o escritor partia da sua primeira experiência alucinogénea e traçava um retrato histórico da experiência psicadélica ao longo da história da Humanidade. Na Idade Média, o povo vivia-a olhando a luz reflectida pelos vitrais das Catedrais, explosão de cor incandescente para olhos habituados a escuridão e a cores desmaiadas. Cinco séculos depois, essa luz continuava a impressionar, mas num mundo de televisão, cinema e néons, num mundo tornado eléctrico, os vitrais de Catedrais medievais eram mais experiência estética calmante, absorvente, que extática e transportadora. Aldous Huxley, antes do rock’n’roll, antes de psicadélico ser palavra cunhada no léxico comum – a primeira vez que foi publicada num jornal britânico, já na década de 60, foi acompanhada de nota de rodapé explicativa -, deu de caras, assombrado, com novos vitrais. Por umas horas, despediu-se do mundo como o conhecemos e descreveu a essência da vida que julgava ver na textura de uma folha de árvore, num pô-do-sol de glória até então escondida., numa sensação de plenitude sobre a qual lera em textos de religiões orientais. Essa alteração do estado de consciência, vista como anúncio de chagada a um patamar superior, tornar-se-ia uma década depois um dos principais motores de mudança de uma cultura que, então, tentou fazer do escapismo realidade constante. Assim foi com o advento do psicadelismo que, em meados da década de 60, transformaria para sempre o cenário da música popular urbana e, durante um período de tempo alargado por quase meia década, a própria paisagem social e cultural na sua globalidade.
Por agora, contudo, voltemos ao 1954 de Aldous Huxley. Enquanto o escritor britânico, refugiado na Califórnia, entrava no último período da sua carreira, um canadiano por nascença, americano de espírito, Jack Kerouac, preparava-se para editar, em 56, aquele que seria, juntamente com o poema Howl, de Allen Ginsberg, o documento definitivo da geração beat. Pela Estrada Fora, misto de viagem iniciática e relato de uma nova forma de vida pulsando nos interstícios da normalidade – em viagem, sempre em viagem -, distorcia as regras narrativas clássicas ao abrir-se a influências que lhe eram exteriores. Kerouac queria inscrever nas frases o ritmo e a respiração do jazz de Charlie Parker e Dizzy Gillespie e fazia da escrita um fluxo de consciência onde revisão era palavra interdita e a pontuação estrutura moldável. A sua vida em vertigem – excessiva, diletante, boémia, insaciável, um poético titubear em busca de satisfação sempre incumprida na sua plenitude – vertia-se no papel com a mesma voracidade e consciente ausência de planeamento que as aventuras Estados Unidos fora na companhia de Dean Moriarty. A geração beat, centro espiritual em São Francisco, inventou-se como refúgio de desalinhados de uma América que tentavam reinventar pela poesia, literatura e música, por uma vivência feita conjugação paradoxal de zen budista com prazeres mundanos sorvidos intensamente.
Os químicos de Huxley e a personalidade libertária dos beatnicks encontrar-se-iam, anos mais tarde, reunidos numa mesma atitude perante a criatividade cujo objectivo era quebrar barreiras pela invenção de uma nova paleta de cores, garridas e faiscantes.

PSICADELISMO AMERICANO. Quando os Beatles aterraram em Nova Iorque, em 1964, encontraram-se rodeados de um ambiente de excitação adolescente e de extrema curiosidade mediática. Contudo, a British Invasion que despoletaram e que definiria o curso futuro da música pop não foi recebida com igual entusiasmo em todos os quadrantes.
No Beatles First US Visit realizado pelos irmãos Moysles, ouvimos as vozes da discórdia. Enquanto, no próprio aeroporto, a maioria declarava a passagem de Elvis à categoria de “velhote”, enquanto David Crosby e uma série de futuros actores principais da cena musical americana esperavam a actuação no Ed Sullivan Show para viverem uma epifania definidora do que seriam daí para a frente, a câmara dos Moysles captava a opinião de alguns hipsters saídos, imaginamos, do esclarecido Greenwich Village de folk e jazz. Que sim, diziam, agradava-lhes o fenómeno pelo corte que representava com o cinzento conservadorismo da geração anterior. Que não, acrescentavam, não era aquela a música mais excitante e inovadora que o mundo recebia na altura: coisa básica e demasiado adolescente, sentenciavam.
Nessa mesma noite, imaginamos, terão regressado ao seu campo de acção e, com sorte, depararam com um concerto em que Bob Dylan, apresentando as novidades de Another Side of Bob Dylan, tocou Chimes of Freedom e antecipou a transformação de inspiradíssimo cantor de intervenção em poeta folk imprescindível – metade beatnick, metade surrealista, todo Dylan.
Os Beatles libertaram o som, Dylan, através da palavra, libertou a música pop para outros universos além do habitual boy meets girl e, rondando a Universidade de Berkeley, Timothy Leary, ex-professor universitário – expulso de Harvard pelos estudos com drogas aluconogénas que ali desenvolveu -, preparava o “turn on, tune in, drop out” que se tornaria lema do rock psicadélico em gestação.
Entretanto, os dois “folkies” pouco excitados com a música dos Beatles não demorariam a deixar-se entusiasmar por ela, à medida que She Loves You e I Wanna Hold Your Hand davam lugar a Ticket To Ride e I Feel Fine. Tal como eles, toda uma geração de jovens folkies não tardaram a insuflar a sua formação neo-beatnick da electricidade do rock’n’roll, acrescentando-lhe pelo caminho um desejo de criar música verdadeiramente nova, onde a liberdade do jazz, a espiritualidade oriental e o escapismo colorido do LSD se uniam sob o mote: “a regra é não haver regras”.
O grande centro criativo, pólo onde o psicadelismo como o viémos a conhecer se alargaria a todo o mundo, foi a Califórnia de São Francisco e Los Angeles. É do estado americano que Ken Kesey (autor de Voando Sobre Um Ninho de Cucos) parte com o colectivo Merry Pranksters para “iniciar” a juventude americana na revelação dos Acid Tests (antepassados das actuais raves, festas onde a música das bandas em palco e a profusão de jogos de luzes psicadélicos potenciavam o efeito do LSD, cuja proibição só chegaria no final de 1966, distribuído gratuitamente pelos organizadores). Como banda residente dos eventos encontrávamos uns Warlocks que se revelariam fundamentais na definição e propagação do psicadelismo América fora. Actuando em palcos onde a distância entre o grupo e o público era inexistente, também eles participantes activos no “teste ácido”, os seus concertos eram verdadeiros “happenings” prolongados pelas horas que durasse o efeito do LSD nos corpos na assistência. Clássicos folk e r&b distorciam-se pelo longo improviso e pelas mutações provocadas pelo ambiente e estado químico dos elementos da banda e transformavam-se em prolongados jams com o cosmos por objectivo último.
Nesta altura, estávamos em 1965. No ano seguinte, já os Warlocks eram conhecidos pelo nome com que ficariam para a história, Grateful Dead, e o seu centro de operações, uma mansão vitoriana na zona de Aight-Ashbury, em São Francisco, tornava-se foco central da revolução em construção. O bairro, a 10 minutos de distância da Universidade de Berkeley e muito procurado pela população jovem pelo baixo preço das rendas, transformar-se-ia em viveiro de bandas e numa espécie de Meca da contracultura de 60, que suscitava curiosidade mundo fora. Seria visitada pelos Stones e por George Harrison e teria direito pouco depois, no final da década, a visitas turísticas organizadas.
É neste contexto que surgem as bandas mais marcantes do psicadelismo americano. Os folkies deixaram-se tocar pelo rock’n’roll, ingeriram ácidos de boa colheita e, “mente expandida”, partiram numa viagem em busca dos sons que melhor representassem a experiência. Assim foi com os Jefferson Airplane, com os Country Joe & The Fish, com os Big Brother & The Holding Company que serviram de rampa de lançamento a Janis Joplin, com os HP Lovecraft e uma série de outras bandas nascidas na cidade ou que para lá se deslocaram a partir do momento em que se espalha a sua fama como capital psicadélica mundial. A música que ali floresce passa a olhar com desdém para o limite temporal estabelecido para uma canção, privilegia o improviso e a procura de novos sons – quer na utilização de instrumentos até então arredios da tradição pop, quer naqueles que, depois do impacto de Sgt. Peppers, se descobriam no estúdio – e liberta em verso o imaginário surreal das experiências alucinogéneas. Farfisas e Hammonds reverberam como nunca antes, as guitarras descobrem-se ácidas e repletas de fuzz, o bucolismo folk ganha sentido cósmico e o rock’n’roll o sentido exploratório do jazz, transformando-se em mero ponto de partida para a descoberta de novos universos musicais.
Movidos por um forte sentido comunal, todos pareciam comprometidos à causa. Artistas plásticos desenvolviam os cartazes que se tornariam indissociáveis da música da época, fotógrafos traduziam-na em grandes angulares e em mil manipulações de cor, realizadores levavam a contracultura ao grande ecrã, em filmes como Psych Out, The Trip (argumento de Jack Nicholson) ou Head (a transformação da boys-band Monkees em hipsters alucinados) e promotores de concertos anunciavam bilhetes a 5 dólares (notas queimadas à entrada, s.f.f.).
Num ápice, a onda psicadélica varria todo o território americano e o underground atingia o mainstream. Em 1967 o Monterey Pop Festival, o primeiro grande festival rock, organizado pelos The Mamas & The Papas, consagra a nova geração – por lá passaram os Jefferson Airplane, os Byrds, os Buffalo Springfield, Janis Joplin, Jimi Hendrix ou The Who. No ano seguinte, os Airplane chegam à capa da Life e a revista, pegando nos autores de White Rabbit, nos Cream, Country Joe & The Fish e Big Brother & The Holding Company, apresenta aos mais desatentos o “novo rock”. Nesse mesmo ano, Grace Slick e Marty Balin transformariam o Ed Sullivan Show e televisões de milhões de lares americanos em palco para projecção psicadélica pouco consentânea com o horário nobre.
Do Texas, os 13th Floor Elevators apresentam a versão mais negra e psicótica do psicadelismo, em LA os Byrds passam do jingle-jangle de Mr. Tambourine Man para as planagens e as vozes encantatórias de Eight Miles High, os Doors criam o épico definitivo do período, The End e os Love fazem com Da Capo a mais elegante estilização da estética da época.
Se, na sua génese e na definição das suas (rarefeitas) coordenadas, o psicadelismo está umbilicalmente ligado ao consumo de drogas alucinogéneas, a partir do momento em que se multiplicam as referências e em que se definem traços característicos do género, o psicadelismo é abraçado por todos e manifesta-se mesmo na música de quem não tinha por hábito pintalgar o chá de aditivos – os Temptations não eram propiramente dados ao LSD, mas Psychedelic Shack tem as propiredades ácidas indispensáveis, o mesmo acontecendo com os delírios sónicos desenvolvidos pelos Sagitarius sobre as lições de Pet Sounds.
Durante um breve período, que podemos balizar entre 1966 e 1969, cores e sons psicadélicos brotaram de todo o lado, inclusivé dos locais mais suspeitos. Até os Bee Geees o exploraram em início de carreira, mesmo os Status Quo aplicaram o “turno on, tune in, drop out” a pop distante do boogie rock pelo qual se tornaram conhecidos na década de 70 – é só ouvir Pictures of Matchstick Man. E com a referência aos autores de Whatever You Want, saltamos até Inglaterra ao encontro do outro grande centro difusor de psicadelismo como definido em 60.

PSICADELISMO BRITÂNICO. Os primeiros sinais vinham de trás. Os Kinks, em 1965, editavam uma See My Friends que levava a ideia de canção pop, escorreita, até ao onirismo da música tradicional indiana. Psicadelismo era palavra sussurrada por poucos, mas não tardaria a fazer-se ouvir. Deste lado do Atlântico, o grande propulsor surge da decisão dos Beatles em abandonarem as digressões. Imersos nas potencialidades do estúdio, libertam a sua música e quando, em 1966, editam Revolver, as mudanças são já evidentes. Os drones orientais criados com cítaras e tablas de Love You Too alimentam a divagação, o riff para um acorde só, a voz repleta de eco, a batida insistente e os ruídos em loop de Tomorrow Never Knows fazem o resto. Fechados no estúdio, os Beatles tornam-se pesquisadores sónicos irrecuperáveis e, reflectindo o sabor dos tempos deparam-se fascinados com o psicadelismo. Um ano depois, todas essas explorações são extremadas em Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.
Os motivos circenses, o vaudeville reflectido nos ângulos de um caleidoscópio, as canções que se desdobram em várias suites organizadas segundo a lógica pouco rígida do sonho. A Day in the Life, Fixing a Hole, Being For The Benefit of Mr. Kytee, obviamente, Lucy In The Sky With Diamonds, todas elas compõem o retrato de uma banda que partira À descoberta de novas formas. Segundo reza a lenda, no decorrer da gravação do álbum, os Beatles escapavam-se do estúdio para, longe do olhar de George Martin, sorver umas pitadas de ácido. Tal como na Califórnia dos Grateful Dead e dos Acid Tests de Ken Kesey, viagens regadas a LSD serviram de ponto de partida para outras músicas. No Reino Unido, contudo, não eram a folk e o blues as linguagens que maioritariamente se distorciam para criar uma nova (apesar dos Cream operarem sobre o segundo, apesar dos The Incredible String Band erigirem a partir da primeira a obra definitiva no que à folk psicadélica diz respeito – está tudo em Wee Tam & The Big Huge).
Território pop por excelência, foi no seu âmago que se operaram as maiores transformações. Os sinais vinham de trás, nos raveups dos Yardbirds, na violência distorcida dos riffs dos Creation ou nos feed-backs que os The Who exploravam em Anyway, Anyhow, Anywhere, mas é no contexto dos três minutos de uma canção pop que o psicadelismo britânico primeiro se manifesta.
Na avassaladora sequência de acontecimentos que foi a segunda metade da década de 60, o psicadelismo surge quando alguns ainda acabavam de comprar fatos de melhor recorte mod. Os Small Faces, por exemplo, nem se deram ao trabalho de se metamorfosearem, limitaram-se a fundir a atitude dandy dos mods com o abandono à delícias da divagação psicadélica enquanto inventavam passeios por Itchycoo Park.
Com um underground fervilhando de actividade – com direito a jornal e a clube “oficiais”, o International Times e o UFO de Totenham Court Road -, a swinging London tornou-se um centro criativo ímpar. Estudantes de Arte abandonavam as escolas para formar bandas, as que existiam previamente como combos de r&b adoptavam a nova ordem e, numa mistura explosiva de excentricidade britânica, ecos distantes do psicadelismo californiano e levitação tripada (Maharishi facultativo), o cenário pop alterava-se definitivamente.


Donovan chegava de Glasgow como elfo armado de guitarra para cantar sobre Hurdy Gurdy Men e para nos dizer que, em South Kensignton, “Mary Quant and Jean Paul Belmondo got stoned to say the least”. Os Cream, três “veteranos” do british blues revival – Jack Bruce, Ginger Baker e Eric Clapton -, editavam Disraeli Gears e sobrepunham um arco-irís incandescente sobre os riffs clássicos do blues e um americano resgatado para Londres por Chas Chandler, ex-baixista dos Animals, surge em palco como feiticeiro eléctrico de uma outra galáxia – o seu nome, claro, é Jimi Hendrix e depois dele o rock’n’roll nunca mais foi o mesmo.
Enquanto isso, os Tomorrow, estetas pop da escola Ray Davies, tornam-se heróis do underground britânico ao editarem um álbum de estreia homónimo que se ouve como versão psicadélica dos Kinks e, no UFO, o público dança ao som de uma banda que estilhaça todas as fronteiras conhecidas quando a ressonância dos instrumentos faz com que o Interstellar Overdrive anunciado se cumpra. São os Pink Floyd de Syd Barrett e, com os dois singles iniciais – Arnold Layne e See Emily Play, pérolas pop gloriosamente danificadas -, com os concertos tornados matéria de mito e com o álbum de estreia, The Piper At The Gates Of Dawn, fazem desaparecer todos os traços de matéria reconhecível para dar lugar a uma expressão única, intensíssima, da experiência psicadélica.
Até os Stones cedem ao momento para, 10,000 Light Years From Home, criar o magnífico Their Satanic Majesties Request, os proto-punks Troggs cantam sobre borboletas gigantes e os Moody Blues oferecem-se como cobaias de teste de um novo sistema sonoro para cruzar opulência orquestral e medievalismo britânico com resquícios de pop. Víamos Michael Caine fazer um cameo em filme experimental com Syd Barrett em destaque, um gigantesco armazém vitoriano tornava-se palco para a celebração da comunidade underground – 0 14 Hour Technicolor Dream -, os The Who declaravam I Can See For My Miles e todos acreditávamos, McCartney confessava em entrevistas o consumo de LSD, víamos Magical Mistery Tour e não tínhamos dúvidas que assim era. Neste profícuo e fecundo ritual iniciático, todas as excentricidades eram não só permitidas como incentivadas – Arthur Brown levava à letra a esquizofrenia para órgão, baixo e bateria de Fire e transformava-se em fósforo humano, Marc Bolan dava vida à Terra Média e, como Tyranossaurus Rex, criava alguma da folk mais fora deste mundo que ouvidos lúcidos já ouviram.
Todos os excessos conduziriam, inevitavelmente, a uma prolongada ressaca. A experiência, contudo, tornar-se-ia fascinante ponto de partida para toda uma série de exploradores e sonhadores que, desde então, prosseguiram nos trilhos aí desvendados. O rock progressivo e o kraut-rock, pouco depois, seriam exemplos perfeitos disso. Essas contudo, são história que guardaremos para outras páginas.





ESTAVAM TODOS COMPROMETIDOS
Em 1970, Timothy Leary, professor de Harvardtransformado em guru do psicadelismo, gravava You Can Be Anyone this Time Around, álbum de spoken word em que o autor da frase “turn on, tune in, drop out” era ladeado por Stephen Stills, John Sebastian, Jimi Hendrix e Buddy Miles. Anos antes, ele e Allen Ginsberg eram os oradores em destaque no primeiro Human Be-In de São Francisco, evento celebratório da contra-cultura em desenvolvimento na cidade na década de 60. O autor de Howl, aliás, assinava textos de apresentação de álbuns dos nova-iorquinos Fugs, aproximava-se de Bob Dylan e, décadas depois, confessava a Paul McCartney o seu sonho nunca cumprido de pertencer a uma banda rock’n’roll.
Se o advento da cultura pop gerou entusiasmo e empatia junto de muitos dela aparentemente distantes, o psicadelismo surge como um momento em que todas as manifestações culturais são contaminadas pela sua ética e estética – quer por convicção, quer como aproveitamento.



Como se lia num dos posters de promoção a concertos tornados imagem de marca do período, da autoria de Rick Griffin, um dos seus autores mais celebrados: “Renaissance or Die”. De facto, da literatura ao cinema, da arquitectura ao design, da moda à pintura, passando pela fotografia, toda uma série de expressões extra-musicais tornam-se extensões de uma mesma atitude.
Olhamos para o design de interiores que Verner Panton criou no período e as cores garridas, as formas resgatadas à natureza, distantes de qualquer precisão geométrica, utilizadas pelo designer dinamarquês parecem saídas, salvaguardadas as devidas distâncias, do mesmo universo que originou a estética imaginada por Roger Vadim para Barbarella – que não seria possível sem o psicadelismo. A liberdade que lhe está em génese terá tido a sua influência no cimentar do gonzo journalism de Tom Wolfe ou Hunter S. Thompson – The Electric Kool-Aid Acid Test ou Fear & Loathing in Las Vegas são, de facto, versões psicadélicas de jornalismo e literatura beatnick. Reunindo tudo, quando deparávamos com espirais op-art a espreitar de um vestido, tornava-se claro: todos estavam comprometidos.



SEMPRE PRESENTE
A partir do momento em que se abriu a caixa de Pandora já não havia retrocesso.  Imersos no momento, ou indiferentes às suas tendências, os conspiradores continuaram a magicar fugas à realidade.
Primeiro, os descendentes directos do psicadelismo de 60, prog-rockers como Yes ou King Crimson, pretenderam criar um universo próprio onde se pudessem instalar. À medida que cada vez mais se perdiam no barroquismo arquitectónico erigido, psicadelismo pareceu tornar-se palavra interdita. Claro que era só fogo de vista. Em Inglaterra, em pleno pós-punk, os Soft Boys aplicavam tratamento Barrettiano à ideia de canção, os XTC preparavam-se para homenagear os criadores do paradigma psicadélico no projecto Dukes of Stratosphear e os Teardrop Explodes de Julian Cope faziam da electrónica palco para delírios alucinógeneos. Algures pelos Estados Unidos, os sempre delirantes Flaming Lips davam os primeiros passos, ainda em busca de um futuro que projectaria a alma do psicadelismo em glorioso Technicolor. Já em plena década de 90, os Estados Unidos seriam palco para uma reposição da explosão criativa de 60, quando o colectivo Elephant 6, que reunia Olivia Tremor Control, Neutral Milk Hotel ou Apples In Stereo recuperou métodos pop do passado para nova viagem. Nessa altura, já Manchester tinha encontrado correspondência para o hedonismo escapista do psicadelismo no acid-house e os Spacemen 3 desaparecido em levitação espiralada num riff dos Velvet Underground. Actualmente, free-folkies pintalgam paisagens bucólicas de ácidos da melhor colheita, alienados do trance procuram transcendência em cítaras e beats impossíveis e artífices armados de laptop, como os Boards of Canada ou Caribou, dizem que, por mais mutações que sofra, a experiência psicadélica não mais desaparecerá da música popular urbana.



ENTRETANTO EM PORTUGAL
Se as manifestações pop no Portugal de 60 eram na sua maioria pálidas imagens da efervescência vivida no exterior, a explosão do psicadelismo teve por cá ecos ainda menos audíveis. O Quarteto 1111 foi o que a absorveu e apresentou de forma mais consistente. A par dele, é imprescindível referir os Jets que, com o EP Let Me Live My Life – o tema título é encontro magnífico dos Byrds com os Zombies -, criaram um oásis de cor e modernidade no Portugal pop de então.





A DISCOGRAFIA
Os anos da explosão do psicadelismo foram de uma fertilidade criativa ímpar na história da música pop. 1967, por exemplo, é um ano paradigmático, sendo certo que poucos haverá a congregar tantos álbuns fundamentais. Ao lado escolhemos nove, tentando o equilíbrio possível entre o inequivocamente essencial e o mais representativo das diversas formas assumidas pelas experiências do psicadelismo.
A verdade é que, no limite, por cada um deles, outro poderia tomar-lhe o lugar sem que isso enfraquecesse a representatividade daquilo que foram aqueles anos de pesquisa frenética.
Poderíamos lembrar-nos dos descendentes da British Invasion que, depois de entranhadas as lições de Rolling Stones, Animals ou The Who, partiram em busca de ácido de colheita própria e acabaram exclamando I Had Too Much To Dream Last Night (Electric Prunes) ou Pushin’ Too Hard (The Seeds).
Inseridos no viveiro que era, naquela altura, Los Angeles e São Francisco, seria inevitável referir uns Byrds fazendo um jingle-jangle do passado ponto de partida para novos voos.
Depois de criarem uma das canções mais marcantes da época, Eight Miles High, chegariam à sua obra-prima, Notorious Bird Brothers. Também da cidade dos Anjos, os desalinhados Doors – Jim Morrison não era propriamente uma alma dada a encontros comunais – davam sequência à bem sucedida estreia com um Strange Days cuja música era correspondência directa dos estranhos saltimbancos da capa.
Não muito longe, a São Francisco concentrada na zona de Haight-Ashbury tinha como representantes principais os Grateful Dead e os Jefferson Airplane que, com Surrealistic Pillow, o segundo álbum, o primeiro com Grace Slick como vocalista, e principalmente com o genial After Bathing At Baxters, se tornariam para sempre indissociáveis do psicadelismo – por perto, como inseparáveis companheiros de viagem, encontrávamos os Quicksilver Messenger Service e os Big Brother & The Holding Company de Janis Joplin (Cheap Thrills é indispensável na cartografia musical da cidade no período).
Por esta altura, os ecos da nova cultura dispersavam-se em todas as direcções e o psicadelismo tornava-se fenómeno global.
Se os Iron Butterfly aproveitavam para deixar a sua marca com In-A-Gadda-Da-Vida, se Alexander Skip Spence – um ex-Jefferson Airplane e ex-Moby Grape – se isolava em Nashville para compor “o” manifesto psicadélico a uma alma em colapso, Oar, se os Kaleidoscope, com Side Trips, acrescentavam música turca e ragtime à banda sonora e se os Vanilla Fudge, com o álbum de estreia homónimo, faziam a ponte entre a trip de hoje e o hard-rock de amanhã, o Brasil, por exemplo, mostrava com os fantásticos Mutantes a versão tropical da atitude criativa disseminada mundo fora.
Neste intricado processo de intercâmbios, poderíamos mesmo voltar atrás no tempo e lembrar-nos que, em plena British Invasion, os The Who de Sell Out e os Yardbirds de Roger the Engineer exploravam terrenos sónicos que, pouco depois, serviriam de mote para novas construções. Depois disso, contudo, todos pareciam em sintonia. Os Small Faces passavam a “psymodelics” com Odgen’s Nut Gone Flake, os Cream faziam um acid-test sobre o blues e gravavam Disraeli Gears e até os Kinks, pouco dados aos excessos coloridos da época, distorciam o bucolismo idealizado inglês em Village Green Preservation Society. De obra-prima em obra-prima, cada um dos anos em que o psicadelismo foi rei pareciam guardar em si material para uma década inteira.

13TH FLOOR ELEVATORS
1966. The Psychedelic Sounds Of...



Era na Califórnia que, com Grateful Dead, Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service ou Country Joe & The Fish, o psicadelismo começava a espalhar os seus raios de luz mundo fora, contudo, no Texas, Rocky Erickson liderava uns 13th Floor Elevators que se estrearam discograficamente antes de qualquer um dos pesos pesados de São Francisco e Los Angeles. Quase tétrico – o jug eléctrico dá-lhe uma estranheza inimitável -, o álbum explora como nenhum outro o mistério e a psicose do psicadelismo.

THE BEATLES
1967. Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band

Sgt. Peppers foi editado e, a partir dele, nada foi o mesmo. Hoje pode não ser tão indis cutível como foi durante longos anos, ams a sua relevância como despoletador de mudanças radicais no cenário pop é inquestionável. A utilização do estúdio como instrumento, o surrealismo sónico e lírico e o recolher de influências tão díspares quanto o vaudeville e a música indiana, fizeram dele o disco mais importante do seu tempo, abrindo caminho a um período em que todas as experiências se tornaram possíveis.

COUNTRY JOE & THE FISH
1967. Electric Music For The Mind And Body



Poucas bandas haverá que representem tão bem o que foi o psicadelismo de 60. Liderados por um ex-folkie, Country Joe McDonald, os Country Joe & The Fish de Electric Music For The Mind and Body são um caleidoscópio de sons reverberantes, de melodias encantatórias, de trips feitas canção – ora acelerada vertigem, ora lentas, narcóticas – e de etórica do lado certo do flower-power. Folkies místicos transformados em exploradores eléctricos, os Country Joe & The Fish são um filme de época fascinante.


THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE
1967. Are You Experienced?

Considerado por muitos o álbum de estreia mais influente de sempre, Are You Experienced? Dá início à carreira de Jimi Hendrix como feiticeiro eléctrico inultrapassável. Gravado nos curtos espaços de tempo permitidos pelo intenso calendário de concertos, abre a guitarra eléctrica a todo um novo universo. Intenso, feérico, alucinante, onírico, são blues, rock’n’roll, r&b, divagações jazzy ou maquinações de estúdio transformadas pelas mãos de um talento de génio, único e inclassificável.

LOVE
1967. Da Capo



Com Forever Changes, os Love assinaram um dos melhores álbuns da história da música popular urbana. Antes dele, contudo, editaram um Da Capo que é estilização perfeita do colorido psicadélico. Do lado A, uma sequência imbatível em que melodias delico-doces feitas de jazz, folk, música latina e pop desalinhada convivem com a explosão punk de 7 & 7 is. Do lado B, uma jam de r&b agressivo, Revelations, estabelecendo ponto com o passado da banda. Em conjunto, a primeira obra-prima dos Love.

PINK FLOYD
1967. The Piper At The Gates Of Dawn



Antes da estreia em longa duração, os Pink Floyd tinham editado Arnold Layne e See Emily Play, dois singles de pop excentricamente britânica, deliciosamente psicadélica. The Piper At The Gates Of Dawn, o disco que se lhes seguiu, é uma experiência completamente diferente. Liderados pelo génio de Syd Barrett, os Floyd saltam para a linha da frente do psicadelismo britânico com um disco em que paisagens medievais e futuristas, lullabies e viagens espaciais compõem um hino ao sonho e à liberdade criativa.

THE ROLLING STONES
1967. Their Satanic Majesties Request



Durante muitos anos foi o álbum maldito dos Rolling Stones, desvalorizado como resposta a Sgt. Peppers. A passagem dos anos, contudo, colocou-o no lugar que merece. OVNI na discografia da banda, é também a magistral concretização das experiências pop que a banda vinha realizando nos anos anteriores. Marcado pelas pesquisas e viagens da época, abraça ficção científica, festins comunais e uma miríade de instrumentos para fazer dos Stones príncipes negros do psicadelismo.

THE SOFT MACHINE
1968. Volume 1



Enquanto se congeminava a revolução psicadélica em Londres, Los Angeles e São Francisco, em Canterbury nascia uma terceira via. Nos Soft Machine de Robert Wyatt, Kevin Ayers e Mike Ratledge – Syd Barrett como fã número 1 -, não havia vestígios de folk, blues, Tolkien ou vaudeville. Na sua música, a libertinagem do jazz cruzava-se com um irreprimível anseio experimentalista bem no coração pop e rock’n’roll. Resultado? Música de uma inventividade e uma capacidade transportadora como poucas desde então.

THE GRATEFUL DEAD
1969. Live/Dead



Os Grateful Dead tornaram-se exemplo máximo do rock psicadélico americano quando a banda residente dos Acid Tests que Ken Kesey e os seus Merry Pranksters levavam a toda a América. Dessas actuaçõesnada mais resta que o mito. Live/Dead, álbum duplo editado em 1969, é o mais próximo que dele nos podemos aproximar. Nele, os Grateful Dead como máquina cósmica revolvendo as entranhas do rock’n’roll. Jerry Garcia apontando às estrelas e levando-nos consigo ao longo dos 25 minutos de Dark Star.





14.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (151) - Pop-Clube #8


Pop-Clube
(Trap-Magazine)
Apartado 54 Almada
Director: Juvêncio Pires
Nº 8
Dezembro 76 / Janeiro 77

15$00

Director: Juvêncio A. Pires
Administrador: Luís Vieira
Propriedade: Juvêncio Pires e Luís Vieira
Chefe de Redacção: Carlos Lobo
Redacção: Rua Luís António Verney, 19 1º-Dto. - Cova da Piedade
Administração: Rua Dr. Julião de Campos, Nº 9 R/C, Almada

36 páginas A4 - papel fino um pouco brilhante p/b. A excepção é a capa que é de papel brilhante mais pesado e a cores.




AREA
Ao Vivo Na F.I.L.E A Boa Música Ao Serviço Do Povo
De entre os muitos artistas de renome internacional que participaram activamente na realização da grandiosa festa do Avante, saliente-se o grupo italiano - «AREA».
A sua actuação era aguardada com grande expectativa. Dadas as qualidades musicais por eles demonstradas através dos seus trabalhos em disco, colocando-os como um dos grandes na música rock contemporânea. Assim ansiava-se a todo o momento a chegada da hora prevista, mas eis que o tempo foi passando e os «AREA» não apareciam, enquanto um enorme coro de vozes gritava: «Area! Area! Area!...», e o palco permanecia vazio até que alguém veio esclarecer o imenso público sobre o que se passava. Foi então anunciado que era impossível a actuação dos «AREA» nesse dia (sábado dia 25 de Setembro). Devido ao facto de não ter havido tempo suficiente para transportar o material que os acompanhava, como também para o instalar devidamente em palco. Perante tal situação foi pedida a maior compreensão por parte do público, que apesar de tudo se manifestou decepcionado e desiludido. No entanto, no dia seguinte seriam dados dois espectáculos pelos «AREA» como estava programado. Diferindo apenas nos dias e os esclarecimento estava dado.
Parte do público que estava presente abandonou o recinto. Apesar de a festa ter continuado com outros artistas, mas a realidade é que os «AREA» eram a grande atracção para o público mais jovem que compareceu em massa a esta festa.
No dia seguinte, pouco antes do início da primeira actuação dos «AREA» marcada para as 15 horas, deparávamo-nos com um ambiente extenuante, onde milhares e milhares de pessoas vindas de todas as partes do país, enchiam por completo todo o recinto interior da F.I.L. e zonas exteriores de acesso às entradas, criando um clima pesado e tenso, quase irrespirável e intransitável, mas tudo decorria sem quaisquer problemas dentro dum sentido cívico digno de realce.
A hora desejada aproximava-se e o local onde se encontrava o palco, sobre o qual o grupo actuaria, estava repleto de gente de todas as idades, cuja participação na festa era transmitida por uma vivacidade, uma força, um sentimento de luta e uma unidade digna de um povo que quer libertar-se definitivamente das amarras da opressão e da exploração, sobre o palco podia-se ver todo o enorme conjunto de colunas, amplificadores, instrumentos musicais, microfones, fios, etc.... como uma amostra exterior e ao mesmo tempo a certeza de que os «AREA» iriam lá estar presentes.


Depois de uma breve apresentação sobre o grupo e a sua música, feita pela sua compatriota Io Apoloni, os elementos dos «AREA» entram em palco um por um, tomando as perspectivas posições junto dos seus instrumentos por entre as palmas e assobios, e o ruído ensurdecedor dos «AREA» em terras de Portugal.
Os instrumentos são afinados e em seguida dá-se início à sua exibição que, de exibicionismo nada teria, pois o grupo actuando como um todo homogéneo não punha em evidência qualquer um dos seus elementos. Não utilizava quaisquer artifícios comerciais para conquistar um público como a maior parte dos grupos rock fazem uso em festivais alienatórios e burgueses. Antes, demonstram sim a consciencialização de um trabalho positivo e válido dentro duma linha revolucionária, assente na plena liberdade de execução em que o rock progressivo da sua música é acentuado pelas palavras progressistas dos textos. Os «AREA» tentaram fazer desta nova música uma poderosa arma de luta, em prol das classes menos privilegiadas, que aqui correspondiam activamente com aplausos incansáveis que só por si demonstravam a sua extraordinária actuação, mesmo perante o insólito incidente surgido na bancada central - devido à elevada potência da música que provocou alguns distúrbios auditivos nos ouvidos de um assistente, o qual se exteriorizava através de gestos de dor, sendo alvo das atenções e de especulações da maior parte do público. Não quebraram no entanto a boa harmonia em que se desenrolava a actuação. Actuação em que a música do grupo é elaborada através da pesquisa de novos sons electrónicos com base essencialmente nos instrumentos de teclas (órgão, moog, sintetizador), reforçados pela guitarra eléctrica de P. Tofani que em «Setembro Negro» obtém solos magníficos e pela voz inconfundível do grego D. Slatos que por entre as mais variadas simulações vocais transmite-nos um sentimento de revolta, de dor, e de angústia de um povo oprimido, atingindo o seu mais alto valor em «Comgta» cantada em grego e dedicada a este povo.
A determinada altura os instrumentos param e D. Slatos com P. Farizgllo, põem-se a comer maçãs em frente aos microfones produzindo sons estranhos o que cria um ambiente invulgar e ao mesmo tempo interessante, mas o seu gesto posterior quer consistiu em partilhar estes frutos com o público, enviando-os para a assistência, exemplifica a sua tomada de posição, revelando um espírito de camaradagem e de solidariedade com o povo português. Ao terminar executaram um arranjo extraordinário da «Internacional» que teve o acompanhamento do público, sob um clima vivo e revolucionário, no auge de uma festa em que demonstraram a força que os une e ao mesmo tempo a solidariedade para com todos os povos oprimidos e para com o movimento internacionalista proletário.
Em resumo assistiu-se à presença de um grupo em que a sua qualidade musical e criatividade conseguem erguer uma estrutura musical servindo simultaneamente as necessidades e os objectivos tanto dos jovens como das massas trabalhadoras. O que é importante!!
Domingos Manuel Santana




Rock Alemão
Tangerine Dream
Este é um dos grupos que podemos considerar iniciadores do chamado «Rock Alemão».
As formas musicais por eles exploradas alguém chamou de espaciais ou cósmicas, decerto devido ao ambiente de misteriosa serenidade que compõem.
As influências principais destes músicos andam à volta dos trabalhos dos Pink Floyd, principalmente de «Ummagumma».
Os Tangerine Dream iniciaram-se em 1970 com a apresentação do álbum «Electronic Meditation». Nota-se neste primeiro trabalho uma procura de recursos musicais que os seus aparelhos electrónicos podem emitir em número quase infindável.
Nesta obra encontrámos Klaus Schultz que prefeiru uma carreira a solo, diga-se em verdade prometedora e convincente. Restou na formação dos T.D. os seus actuais elementos: Edgar Froese, Chris Franke e Peter Baumann.
O seu segundo trabalho foi «Alpha Centaury» saído em 1971 e a sua sonoridade base é idêntica ao anterior. O mesmo som planante apoiado em acordes harmoniosos mas pouco melódicos, o que torna difícil a sua audição.
O álbum seguinte foi um duplo de nome «Zeit» que ocupa uma faixa completa. O padrão musical é na essência o mesmo dos anteriores acetatos e do seguinte: Os efeitos sonoros, de maior ou menor evocação natural, de calma, suscita visões de sonho ao ouvinte atento. No ano seguinte, o de 1973, gravam «Atem» que termina esta fase de pesquisa musical e simples emissão sonora. É a partir daqui que nos aparece o álbum que chamou a atenção os T.D. - «Phaedra», em que a criação de melodia base, própria ao devaneio dos Moog Synthesizer perfeitamente dominados pelos executantes, torna-a admiravelmente agradável às primeiras audições.


Esta característica é aperfeiçoada e aumentada na produção do ano posterior - 1975.
Em «Rubycon», obra referida, as oportunidades concedidas aos Synthesizers e violas eléctricas «VCS3» até aí despercebidas, acentuam-se.
A criação de um ritmo bem compassado a apoiar a livre instrumentalização mantém um clima de paz interior e leveza espiritual que cativa o ouvinte menos receptivo a esta forma musical. Entretanto, chegou-se ao ano de 76 e, até aqui, os T.D. apenas possuíam obras de estúdio, aliás compreensível pois a produção destes sons ao vivo é tarefa muito difícil, exigindo um domínio perfeito das aparelhagens e uma compenetração bem apurada. Mas os T.D. iniciaram e levaram à prática uma gravação ao vivo já este ano. E curiosamente é um trabalho de excepcional técnica e grandeza musical.
Os T.D. puseram em palco o mesmo, ou melhor até, que tinham posto em estúdio. Nesta produção nota-se contudo a aproximação a uma som mais tradicional, a saliência do piano e por vezes da viola é maior que nos trabalhos anteriores. O álbum não se denomina «Line» mas sim «Ricochet» aludindo ao balanço sonoro conseguido, por vezes lembrando ecos e repercussões sonoras.
Desta escola musical podemos salientar Edgar Froese que pôs no mercado dois álbuns a solo. O primeiro é um trabalho experimental e que é limitado à produção de efeitos aquáticos essencialmente. Saído em 74, é um trabalho bastante curioso mas sem grande interesse musical. Tem o nome de «Aqua», simplesmente!
O segundo lançamento «Epsilon in Malaysan Pale» vindo a público este ano, é diferente em relação ao primeiro. Possui uma estrutura simples mas com situações de exuberante suavidade, uma melodia constante e muito bem harmonizada. Uma obra-prima dentro da música erudita que facilmente entrará no gosto dos mais sensíveis apreciadores da mesma.
Os Tangerine Dream, um dos grupos mais importantes dentro da música erudita, tem um largo horizonte a descobrir e mostrar a todos aqueles que a aceitem. E serão muitos!
José M. Abreu






Jimi Hendrix
O Homem, O Músico, O Mito
Local - Seattle, Washington.
Ano - 1942.
Lucille Hendrix, esposa de James Hendrix, dá à luz aquele que viria a ser um dos expoentes máximos da música americana contemporânea - James Marshall Hendrix, conhecido entre nós como Jimi Hendrix.
Passando grande parte da sua infância em Vancouver, onde frequentou a escola primária, James foi guiado nos primeiros passos musicais, por seu pai, organista na Dunlap Baptist Church.
Com doze anos de idade já Jimi James toca guitarra acústica, notando-se no adolescente, tendências para tocar com a mão esquerda.
Em Seattle Jimi frequenta a Garfield High School, embora nunca ponha a música de lado.
Em 1959, quando tinha 17 anos, Jimi convence o pai a assinar os papéis do alistamento militar voluntário.
Assim entra para a 101ª Divisão de Páraquedistas. Parte o pé e algumas costelas no seu 26º salto, sendo por isso afastado do serviço militar.
Entre 1963 e 1964, depois de uma longa convalescença, Jimi desloca-se ao sul da América fixando-se então em Nova York.
Em 1965 já tinha trabalhado com Ike e Tina Turner, Little Richard, Joey Deee, Jackie Wilson, James Brown, Wilson Pickett, B. B. King, The Isley Brother e Curtis Knight and the Squires.
É então que ele forma o seu próprio conjunto ao qual dá o nome de «The Blue Flames».
Em 1966 Jimi James aceita um lugar como principal guitarrista de John Hammond Jr., o que o levou a criar nome, mesmo entre a «elite» dos grandes músicos, a qual incluía Bob Dylan, The Beatles e The Animals.
Foi este lugar que o levou a ter uma visita fortuita de Bryan «Chas» Chandler, o baixo dos Animals, que depois de uma longa conversa o presenteou com um bilhete para Londres, algum dinheiro e a promessa de um encontro com Eric Clapton.
Alguns dias depois da partida do filho, o Sr. Hendrix, recebe um telefonema em que aquele lhe dizia que ia ser transformado numa super-estrela, e que a partir daí iria ser conhecido como Jimi Hendrix.
É em Londres que Jimi grava o seu primeiro álbum «Experience», que tendo o nome do conjunto formado por Jimi Hendrix nessa cidade, obteve grande êxito na Europa, principalmente com as canções «Hey Joe» e «Purple Haze».
Também nos E. U. o grupo não se manteria desconhecido, assim nos dias 16 e 18 de Junho de 1967, actua no Monterey Pop Festival. É aqui que pela primeira vez, Jimi se apercebe de tudo o que pode fazer com uma guitarra eléctrica.
Ainda em 1967 o grupo «Experience» fez uma tournée pelos E. U. com os «Monkees», o que não foi uma ideia brilhante, pois os fans dos «Monkees» não estavam preparados para a sensualidade selvagem da música de Jimi Hendrix.


Depois de 12 espectáculos, o grupo desiste da tournée e Jimi volta para Inglaterra onde a sua popularidade se mantinha.
Em 1968, com Buddy Miles na bateria e Bill Cox como baixo, Jimi forma outro conjunto: «The Band of Gypsys», tendo actuado no Filmore East em New York.
Em 1970 Jimi Hendrix atravessa um período de grande revalorização para a sua música:
Na Primavera e Verão fez várias tournées na companhia de Mitch Mitchel e Billy Cox, em Agosto tocou em Inglaterra no «Isle of Wight Festival», depois de ter estado acordado toda a noite com Eric Barrett para a abertura do seu próprio estúdio de gravação: Electric Lady Sutdios em Nova York.
Na Ilha de Wight a sua actuação foi bastante má, o que foi tomado como indicativo de depressão ou de declínio das suas habilidades.
Tentamos com esta pequena biografia dar vida àquilo que apelidámos de Jimi Hendrix - O Homem, O Músico, O Mito.
Quem foi Jimi Hendrix?
O que é que ele representava para as pessoas que trabalharam e viveram com ele? O que era para Jimi a música que ele tocava?
É a tudo isto que vamos tentar dar resposta nos próximos números.
Judite Cid






Cascais Jazz 76

1º Espectáculo
Sexta - 21,30
Com uma reduzida afluência de público esta primeira noite do Cascais-Jazz, revelou-se «fria» (o habitual), apesar do bom «naipe» de músicos. Com os Swing Machine, aliás experientes músicos, o ambiente não se modificou, a não ser na actuação «a solo» do baterista Sam Woodyard, que trouxe um toque de bateria, carregado dos melhores sentimentos de jazz. Com Swing Machine; Gérard Badini - saxofone tenor; Raymond Fol - piano; Michel Gandry - contrabaixo e Sam Woodyard - baterista, o público não reagiu.
Com Martial Solal, que veio substituir o grupo brasileiro Index de Marcos Resende, que à última hora cancelou o contrato, ressentiu-se fortemente a indiferença do público.
Com problemas técnicos, Gil Evans demonstrou uma virtuosidade pianística, mas a orquestra de que é leader, não se encontrava a si própria, pouco homogénea.
Com a onda de tédio que se tinha generalizado, a noite fria tornou o jazz frio.

2º Espectáculo
Sábado - 21,30
I - O Espectáculo
Passavam alguns minutos das 21,30 quando Luís Villas-Boas deu início à 2º sessão do VI Cascais-Jazz. O público ocupava quase por completo o pavilhão.
O programa compunha-se de Rao Kyao c/ trio, Betty Carter c/ seu trio e a completar a sessão actuaria o quinteto do saxofonista Sonny Rollins.
Embora o programa da 1ª sessão tenha sofrido algumas modificações este foi rigorosamente cumprido neste capítulo, já que na fase inicial a coisa não «andou» lá muito bem e já veremos porquê.
Rao Kyao com trio iniciou a sua actuação. Formavam o trio, António Pinho da Silva em piano acústico e eléctrico; Jean Sarbib em contrabaixo e George Brown - bateria. Rao no sax confirmou em absoluto a sua classe de músico conseguindo «solos» de muito boa qualidade e desenvolvendo magnificamente os temas. António Pinho da Silva teve bons apontamentos embora não demonstrasse aquela exuberância que tem de existir no som afro-americano. Sarbib teve uma participação discreta. Mas no tocante a George Brown tudo foi nau, revelando-se um bateria sem a menor capacidade de execução, não procurando acompanhar o trabalho dos seus companheiros, Brown parecia que estava a tocar só para ele quando o trabalho a realizar era de conjunto.
Este pormenor teve o condão não só de estragar a actuação de Rao como também provocar no público uma certa frieza que se veio a manter durante toda a sessão. Até onde iria Rao se tivesse tido músicos de qualidade a apoiar o seu esforço?
Seguiu-se depois um pequeno intervalo e foi a vez de surgir em cena Betty Carter acompanhada por: John Hicks - piano; Dennis Irwin - contrabaixo e Clifford Barbaro - bateria. A actuação de Betty fez com que parte do ambiente frio que existia no Pavilhão. Ela revelou uma capacidade interpretativa muito pessoal conseguindo expressar na sua voz todas as «nuances» existentes nos temas, chegando ao ponto de imitar o som de um instrumento. Ao contrário do primeiro grupo Betty contou com o apoio dos seus músicos os quais revelaram para além duma técnica de execução bastante apurada demonstraram uma perfeita ligação de esforços prova bem evidente de um trabalho seguido conscientemente pois só assim é que se poderá construir algo de positivo.
Pouco passava das o horas quando começou a actuação do prato forte da 2ª sessão deste VI Cascais-Jazz era ele: Sonny Rollins e o seu quinteto composto por: Michael Blieden Wolff - piano acústico e eléctrico; Aurell Ray - guitarra eléctrica; Donald C. Pate - contrabaixo; Fender e Edward Moore bateria.
E na verdade a expectativa não foi iludida Sonny Rollins em sax-tenor demonstrou em Cascais a sua inegável classe construindo temas e desenvolvendo-os magnificamente conseguindo efeitos de rara beleza, aqui o jazz a brotar límpida e objectivamente numa execução correcta. Um excelente trabalho dos restantes elementos com especial destaque para Edward Moore que na bateria foi excepcional.
O certo ar frio que durante a maior parte do concerto existiu, dissipou-se completamente com a actuação de Sonny o qual executou extra-programa um outro tema que foi bem a apoteose final desta 2ª sessão da 6ª edição do Festival Internacional de Jazz de Cascais o que de certo modo não deixou frustrada a molde imensa de público que se deslocou ao Pavilhão para ouvir o som afro-americano, que teve altos e baixos.
II - Nota À Margem
Cada Cascais-Jazz passa por ser uma luta contra tudo e todos e sobretudo denota a «teimosia» de Luís Villas-Boas em divulgar a música afro-americana em Portugal.
É certo, é normal e sobretudo humano que esta realização encerre algumas limitações, mas qual será a realização que não as tenha isto mesmo em países com melhores condições do que nós para se efectuarem acontecimentos do género.
Só é de lamentar que certas pessoas confundam (?) Música com snobismo e que aproveitem estas reuniões para dizerem aos amigos ou amigas que também no Jazz em Cascais e «que aquilo foi porreiro pá» quando efectivamente a  música que ouviam não lhes dizia nada. Aliás quando perguntamos a uma certa pessoa como estava a achar o festival, a resposta foi esta «sabem, eu não gosto de jazz»! É triste, não acham? Até quando continuarão a existir casos destes?
José Salvador





Música Portuguesa
Coordenação de: Artur Vaz

Banda do Casaco - Autobiografia
Começámos há pouco mais de dois anos e parecem passados dois séculos.
É o fruto que teremos de trincar pelo caminho que escolhemos, mesmo que seja verde o fruto.
De início logo se pressentiram as dificuldades, grupo formado para registar em disco grande uma obra previamente escrita: «Dos Benefícios Dum Vendido No Reino Dos Bonifácios».
Éramos de procedências tão diversas e distintas, cheios todos de boas intenções, o que nem sempre é tudo como é sabido.
Do Plexus vinham o Carlos Zíngaro, o Celso de Carvalho e o Nélson Portelinha.
Da Filarmónica Fraude, o Luís Linhares e o António Pinho.
Da Música Novarum, a Judo Brennam e o Nuno Rodrigues.
Da Gulbenkian, a Helena Afonso.
Da casa de seus pais, o José de Campos e Sousa.

 Muitos, fizémos muito num LP que nos agradou especialmente fazer. Um erro neste trabalho (entre outros que haverá por certo) reconhecemos agora ao olhar para trás: No excesso do gozo de realizar fomos levados - inconscientemente é facto - a formas de música e texto menos fáceis, mais «invulgares» no nosso nacional panorama de música popular, se acaso este existe.
Se por um lado, tal proporcionou à crítica palavras que nos agradou sobremaneira ler e ouvir, já no público, por outro, causou estranheza e distanciação que em nada beneficiaram a banda.
Um de nós disse uma vez sobre isto... «Dos Malefícios Dum Vendido No Reino Dos Bonifácios».
Junte-se ao exposto contra a posição marcadamente anti-partidária do grupo (como grupo), posição que, aliás, é princípio que se mantém e manterá enquanto a banda for do Casaco.
Tudo isto conduz à receita ideal para atingir o ponto mais alto no gráfico instituído das dificuldades caseiras.
Não há lamentos: Se assim quizemos, como poderia havê-los?
Há apenas pena, é pena que assim cá seja.
Mas teimosia era connosco e acreditámos. (Já é preciso ser-se teimoso para acreditar!...).
E as dificuldades pressentidas foram-se concretizando.
Alguns saíram, quase todos.
Luís Linhares forma o «Pedra e Cal» e grava.
Helena Afonso, além da Gulbenkian tinha agora aos «Segréis de Lisboa».
Nélson Portelinha, desaparece.
Carlos Zíngaro segue no Plexus e nos «Cómicos».
Judi Brennam regressa a Londres.
António Pinho e Nuno Rodrigues (excessivamente teimosos nos seus propósitos de acreditar), vão escrevendo, entretanto, novo álbum - «Coisa Do Arco Da Velha» - e voltam a perguntar-se: com que Banda?
Restavam eles, restava o Celso. José Campos e Sousa vagueava Europa adentro.
Apesar de tudo, com as preciosas ajudas de vários músicos, volta-se ao estúdio e o LP vai tomando forma.
É então que se encontrava nova constituição para o grupo.
António Pinho, Nuno Rodrigues, Celso de Carvalho.
Cândida Soares, surgida a cantar nos ensaios lá em casa.
Mena Amaro, vinda duma sinfónica qualquer coisa e sequiosa de fazer algo.
José Campos e Sousa, o bom filho a casa torna.
Armindo Neves, revelado excelente guitarrista tem passagem meteórica pelo grupo;
Aqui descoberto, daqui o levam para o «1111» onde o «Roque» proporcionará o vil metal.
E persistem sempre os problemas. Como actuar? Como estarmos «vivos»?
Sabemos que há que exigir de nós próprios condições técnicas que não defraudem seja quem for: nós, a música, o público.
Que aparelhagem? Que dinheiro? Que ajudas?
Dificuldades caseiras de quem não faz «Roques» ao fim-de-semana.
Até que tudo se resolva será preferível a Clausura por mais triste que a nossos olhos nos apareça.
Seguimos, sofrendo as consequências, mas como queremos, na desvantajosa viagem que margina a partidarite. Mas acreditar em nós próprios é já vantagem, como o é acreditar na saída que terá de haver. Caso contrário confirmar-se-á: a anti-cultura está instituída e estatuída.
Simplificámos os processos de trabalho, temas de maior acesso e adaptámos de tradicionais portugueses: desejo que vinha desde a Filarmónica Fraude à Música Novarum.
Não é, ainda (não será a nossa meta), um álbum fácil, mas, seguramente, estável e tal importa para que seja, ao menos, eficaz - mais próximo de quem ouve.
Como nos «Benefícios...» ficam nele respostas por dar. É intencional.
Competirá ao ouvinte «Compor» o que falta como se um jogo fosse.
E é-o de facto. A música popular terá de ser como um jogo onde todos participem: quem a faz, quem a divulga, quem a ouve, quem a critica.
Banda do Casaco





11.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (148) - Pop-Clube #9


Pop-Clube
(Trap-Magazine) Director: Juvêncio Pires
Nº 9
Fevereiro

10$00


 



Director: Juvêncio A. Pires
Administrador: Luís Vieira
Propriedade: Juvêncio Pires e Luís Vieira
Chefe de Redacção: Carlos Lobo
Redacção: Rua Luís António Verney, 19 1º-Dto. - Cova da Piedade
Administração: Rua Dr. Julião de Campos, Nº 9 R/C, Almada

20 páginas A4 - papel de peso médio p/b. A excepção é a capa que é de papel brilhante mais pesado e a cores (azul)

Tiragem: 20 mil exemplares.




Jimi
O Homem, O Músico, O Mito

Em 18 de Setembro de 1970, James Marshall Hendrix foi declarado morto no St. Mary Abbots Hospital, em Kensington, Inglaterra.
O professor Donald Teare, patologista, explicou a causa da morte como 'inalação' de vómito devido a intoxicação barbitúrica.
Embora não houvesse no corpo de Jimi droga suficiente para lhe causar a morte especulou-se sobre um possível suicídio. Isto foi negado por pessoas que tinham realmente conhecido Jimi Hendrix, pois, muitas delas afirmam que este adorava a vida.
Mas em qualquer aspecto a morte de Jimi Hendrix foi um trágico e inevitável acidente.
Gerry Stickels mandou por avião o corpo morto de Jimi para a sua terra Natal.
Acompanhado por Johnny Winter e Miles Davis, assim como pela maior parte dos músicos que tocaram com ele, o funeral realizou-se no dia um de Outubro de 1970 no Greenwood Cemetery, em Seattle.
Tentamos com esta pequena biografia dar vida àquilo que apelidámos de Jimi Hendrix - O Homem, O Músico, O Mito.
Quem foi Jimi Hendrix? O que é que ele representava para as pessoas que trabalharam e viveram com ele? O que era para Jimi a música que ele tocava?
É a tudo isto que vamos tentar dar resposta.
Em continuação ao número anterior, vamos neste reproduzir uma entrevista dada por Jimi Hendrix, em 1970, pouco antes da sua morte, a Noel Redding e Baron Wolman. Esta entrevista dá-nos um relance daquele que foi o grande génio da guitarra.
P - Ainda vives com muitos músicos na tua casa?
R - Não, agora só quero ter tempo para mim próprio, para poder escrever alguma coisa. Eu quero escrever mais.
P - Que espécie de escrita?
R - Não sei. Na maior parte material para 'cartoon'. Fazer este gajo que é engraçado, e que passa por todas estas cenas estranhas. Não posso falar sobre isso agora. Acho que se pode pôr isto em música. Tal como se podem pôr blues em música.



P - Estás a falar em grandes trechos? Ou somente em canções?
R - Bem, eu quero fazer aquilo a que chamas trechos, sim, peças, umas atrás das outras de maneira a criarem movimento. Tenho estado a escrever coisas assim.
P - Se tens o 'cartoon' na cabeça, tens também a música?
R - Sim, na cabeça, exactamente. A música vai acompanhando a história, tal como em 'Foxey Lady'. Qualquer coisa assim. A música e as palavras vão juntas.
P - Quando compões uma canção, ela ocorre, simplesmente, ou segues o processo de te sentares, com a guitarra ou ao piano, começando às dez da manhã e tentando fazer a canção?
R - A música que sinto não a consigo pôr na guitarra. Se pegar nela para tentar tocar o que sinto, só consigo estragar tudo. Não sou tão bom guitarrista que possa tocar tudo o que sinto e quero. Gostaria de ter aprendido a escrever para instrumentos. Acho que vou tentá-lo agora.
P - Então para coisas com 'Foxey Lady', ouves primeiro a música, para depois chegares à letra?
R - Bem, tudo depende. Em 'Foxey Lady', nós começámos a tocar, e ao microfone eu disse as palavras que me ocorreram. Com 'Voodoo Child', 'A Slight Return', alguém estava a filmar quando começámos a fazer isso. Fizé,o-lo umas três vezes porque eles queriam filmar-nos no estúdio.
P - Gostas de ouvir alguns tocadores de avant - garde jazz?
R - Sim, quando fomos à Suiça e ouvimos alguns músicos de lá que nunca tínhamos ouvido, músicos que tocam em pequenos clubs e caves não podíamos imaginar que eles fizessem música assim. A música deles é como uma onda: vai e vem.
P - Quais são, para ti, os melhores sítios para tocares?
R - Gosto de tocar em lugares pequenos, como um club. Aí obtém-se um outro sentimento, sentimento esse que se junta com outro que já temos. Não sei explicar... Acho que são as pessoas.
P - Como são aquelas duas diferentes experiências, aquilo que obténs da audiência?
R - Eu obtenho muito da audiência. Algo que me faz 'sair' dali. Eu não me esqueço da audiência mas sim de toda a paranóia, daquela coisa que me faz dizer: 'Oh Deus! Eu estou no palco, o que é que eu vou fazer agora? Então sinto qualquer outra coisa que se parece, de certa maneira, com uma brincadeira.
P - Que parte te toca na produção dos teus álbuns? Por exemplo, produziste o teu primeiro álbum 'Are You Experienced?'
R - Não, foram Chas Chandeler e Eddie Kramer quem mais trabalhou nisso. Eddie era o engenheiro e Chas como produtor mantinham as coisas juntos.
P - O último disco 'Electric Ladyland' apresenta-te como produtor. Fizeste realmente tudo?
R - Não, bem fui eu e Eddie Kramer. Tudo o que eu fiz foi estar lá e certificar-me que as canções certas e o som certo também lá estavam. Mas o som perdeu-se porque fomos fazer uma tournée antes de o disco estar completamente acabado. Eu depois ouvi-o e achei[...]
P - No último disco gravaste "All Along The Watchover". Há mais alguma coisa de Bob Dylan que queiras gravar?
R - Oh sim. Gosto daquela assim 'Please help me in my weakness' (Drifters Escape). Era bestial. Eu gostava de fazer isso. Eu gosto do seu 'Blonde on Blonde' e 'Highway 61, Revisited'. O seu material de campo também é bom. É mais clamo.
P - Costumas ouvir grupos como os 'Flying Burrito Brothers'?
R - Quem é o guitarrista dos Burrito Brothers? Esse moço toca. Gosto dele. Ele é realmente maravilhoso com a guitarra. É o que me faz ouvi-los, é a música.
P - Lembras-te de Bob Wills and the Texas Playboy?
R - Gosto deles. The Grand Ole Opry costumava vir ouvi-los. Eles têm bons guitarristas.
P - Que música admiras, fora do teu género?
R - Nina Simone e Moutain.
P - Que me dizes sobre um grupo como os Mac Coys?
R - O guitarrista é óptimo.
P - És fan de Pinkie Lee?
R - Costumava ser. Costumava usar meias brancas.
P - É verdade que costumas ensaiar com Band Of Gypsys doze a dezoito horas por dia?
R - Oficialmente é verdade. Mas maior tempo que tocámos juntos foi duas horas e meia, quase três.
P - Vais fazer um single e um L.P.?
R - É possível que um ou outro saiam em breve. Estas companhias de gravação só querem singles. Mas não nos podemos sentar e dizer 'vamos fazer uma faixa, ou vamos fazer um single'. Nós não vamos fazer isso, não podemos fazer isso.
P - Credence Clearwater Revival faz isso até ter material para um álbum, como nos tempos antigos.
R - Bem isso era nos velhos tempos. Eu considero-os mais músicos, mais dentro da música, compreendes?
P - Mas os singles fazem dinheiro, não fazem?
R - Bem, é por isso que eles se fazem.
* Quando Jimi Hendrix fala em cartoon, pensamos que se refira ao projecto que ele tinha de fazer em desenhos animados (cartoon) a história da sua vida.





Pink Floyd - "Animals"
Um Novo Álbum, Um Novo Êxito
Escreveu: Judite Maria Cid
Tudo começou em 1966 na "London's Polytechnica School Of Architecture", onde estudavam Nick Mason, Roger Waters e Richard Wright. O compositor inicial é Sid Barret, amigo de Roger e o responsável pelas noites loucas no clube U.F.O., onde se reuniam os avant-gard do tempo.
Foram o primeiro grupo a utilizar um show de luzes, com projecção em telas, nos músicos, e no público, slides e composições de Pop-Arte, coordenado por Mick Lowe.



A sua música inovadora que foi várias vezes apelidada de psicadélica, inquietante, etérea e selvagem, tentava recriar uma viagem de ácido lisérgico.
O seu primeiro trabalho de longa duração saiu no filme de 1967 "The Piper At The Gates Of Dawn", seguido em 68 por: "Saucerful of Secrets", trabalho de música irreal, suite sonora de vozes e estranhos coros, cantos de pássaros e barulhos bizarros. É depois da gravação deste disco que se verifica a partida de Syd Barret (que vai para um asilo de tratamento psiquiátrico), entrando em seu lugar o guitarrista David Gilmour.
É "MORE", saído em 69 que começa a criar fama ao grupo. Disco este que foi concebido para a banda sonora original de um filme com o mesmo nome.
Segue-se um duplo "ummagumma" que inclui o famoso "Careful With That Axe, Eugene" em gravação ao vivo.
Em 1970 acontece a grande "volta" nos processos de criação musical no grupo. Pink Floyd evolui para uma maior elaboração menos espectacular e imediato. É assim que surgem ainda em 70 "Atom Heart Mother", gravado com orquestra e coros, pouco acessível para os amantes do Rock da altura, e já em 71, "Meddle" cuja composição "Echoes" é um autêntico marco da música moderna, que nos oferece momentos sublimes de rara beleza e de grande força envolvente, tal como disse o crítico do "Rock et Folk" Paul Alessandrini.
Nesta altura já os shows ao vivo são feitos em quadrifonia sendo a sua parte visual considerada a mais bela do mundo.


Em 1972 surge "Obscured By The Clouds", considerado por alguns um autêntico acidente na discografia do grupo, e que serviu de banda sonora ao filme de Barbet Schroeder "La Valée".
"Dark Side of the Moon" sai em 1973, depois de ter sido tocado ao vivo durante um ano. Grande sucesso do grupo, este álbum é composto por um ciclo de canções sobre a devastação mental e emocional provocada pelas pressões sociais do medo, do falhanço, do envelhecimento, da pobreza, da solidão, e acima de tudo da loucura.


É nesta altura que alguns críticos saudam no Pink Floyd o agarrar humano no universo concentracionário do homem e do seu ego.
Depois de dois longos anos sem discos surge "Wish You Were Here". Deitando fora o fantasma de Syd Barret, os Pink Floyd conseguem um álbum mordaz, crítico, triste e cínico mas infinitamente belo.
Agora em 1977 o já celebérrimo grupo surge com um novo álbum: "Animals". O disco foi gravado no estúdio privativo dos Pink Floyd, situado na parte norte de Londres. Foi totalmente produzido pelo grupo e nele encontra-se o toque fundamental que é a sua característica essencial - a perfeição. É um disco concebido, evidentemente, sobre os animais, ou antes, sobre o Homem visto através dos animais.
"Animals" é uma visão pesimista e cínica da Humanidade, que se encontra dividida em três grupos distintos: os cães, os porcos e os carneiros. Waters torna-se duro pois apresenta-nos num estado bestial, não nos restando outra hipótese a não ser escolhermos qual a espécie que mais nos convém.






"Animals" é composto por quatro partes:
Na 1- face "Pigs on the Wing".
Na 2- face "Pigs", "Sheep" e "Pigs on the Wing".
O material não é totalmente original, pois "Dogs" e "Pigs" são temas antigos tocados ao vivo pelo grupo há cerca de dois anos. Nessa época "Dogs" intitulava-se "You Gotta Be Crazy", e "Pigs" era "Raving and Drooling".
"Pigs on the Wing" é introduzido por uma guitarra acústica, que vai ser a base contínua da faixa, especialmente na primeira parte. Os solos e a voz vão seguir este som acústico que se impõe como suporte essencial.
Esta faixa é uma concepção sobre as relações de desconfiança e violência entre as pessoas.
"Pigs" começa com grunhidos de porcos. Há uma óptima combinação de guitarra acústica e eléctrica, bateria e piano. Vozes recitam quatro linhas do antigo testamento, sendo a última mudada por Waters para qualquer coisa como: "Não se esqueça a sua lição de Karaté".
Balidos de carneiro introduzem "Sheep", a faixa mais ritmada do álbum, e, que faz lembrar "One Of These Days" do disco "Meddle". Têm ambas a mesma introdução, o mesmo ritmo, a mesma energia. Pássaros e carneiros acabam esta faixa.
É isto, em resumo, o último disco de Pink Floyd. Não deixes de o ouvir.



Rock Alemão
Jurgen Fritz, Teclista do Grupo Triumvirat esteve em Portugal
Suscitou enorme entusiasmo e surpresa a visita ao nosso país do teclista e leader do grupo de Rock - 'TRIUMVIRAT'. Na realidade não é hábito sermos visitados pelos músicos da música rock o que fez, naturalmente, espevitar toda a imprensa da especialidade (e não só) e grande parte do público informado.
JURGEN FRITZ deslocou-se até nós para receber o DISCO DE PRATA, atribuído pela venda dos seus três álbuns editados entre nós, de entre os quais sobressai com maior número de bandas - 'SPARTACUS'. JURGEN declarou-nos que, por sinal, foi o álbum que mais gostou de gravar por nele mais se notar o sentido de grupo.
Ficou admirado e surpreendido com as vendas dos seus discos em Portugal. Na realidade, atendendo às proporções das populações, é o segundo país em vendas. O Brasil ocupa o primeiro lugar. À escala da população vendem mais discos em Portugal do que no seu país (Alemanha Federal).
Surpreendeu-se também pelo facto dos seus principais auditores serem constituídos pela nossa camada mais jovem, enquanto que na Alemanha os seus álbuns são vendidos às pessoas de idade média. Confessou-nos que o grupo não era muito popular no seu país.



Presentemente procura um elemento para o grupo - o baterista. Com a saída do álbum o grupo desfez-se. FRITZ disse-nos já ter contactado BILL BRUDBORD (ex-Genesis e ex-Yes) para ocupar o lugar de baterista do grupo, uma vez que para baixo e vozes voltará BARRY PALMER que participara já no álbum 'SPARTACUS'.
Não se consideram intépretes do chamado Rock Alemão, chegando a afirmar-nos não existir Rock Alemão uma vez que o ritmo sanguíneo do povo Alemão é a marcha e daí as influências de Schultz ou de Kraftwerk. Pessoalmente não considera música o que esses grupos interpretam, mas sim experiências musicais. Sabe existirem grandes guitarristas na Alemanha, mas não de Rock. Sobre o próximo álbum a gravar, disse-nos que o tema principal seria sobre a explosão do vulcão Vesúvio e que retratará a vida antes e depois da explosão do mesmo.
Vão iniciar uma tournée pela Europa, Brasil, E.U.A.. Pensa fazer deslocar o grupo até nós devido ao enorme êxito dos seus álbuns entre a nossa juventude. Deslocar-se-ão mediante um 'cachet' simbólico. O grande problema parece estar na deslocação do enorme e pesado material para a actuação (10 toneladas), que faz pensar seriamente a possível agência organizadora do concerto.
Que tudo corra pelo melhor! Que tenhamos a oportunidade de ver a 'livre' um dos mais desejados grupos da actualidade.
Juvêncio Pires






Outro conteúdo interessante, eventualmente a divulgar posteriormente:
. Rick Wakeman - "O Rei do Rock Sinfónico" - artigo de fundo de 2 páginas, por Juvêncio Pires
. I Festival Jazz Contemporâneo 76 - Sintra - Reportagem de José Manuel Gomes.
 




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