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11.7.22

Hesskhé Yadalanah - "Antidisestablishmentarianism | Tragic Figures Series: TFT011


 

Hesskhé Yadalanah

"Antidisestablishmenttarianism"


Hesskhé Yadalanah – "Antidisestablishmentarianism"

Label: Tragic Figures – TFT011

Format:

Cassette, Album

Country: Portugal

Released: 1990

Genre: Electronic

Style: Industrial, Experimental





HesskhéYadalinankah




5.7.22

HIST - "Best Off" | Tragic Figures Series: TFT021


 

HIST

"Best Off"


HIST – "Best Off"

Label: Tragic Figures – TFT021

Format:

Cassette, Album, C46

Country: Portugal

Released: 1990

Genre: Electronic

Style: Experimental, Avantgarde


Capa:


Completa:


Exterior tras:


Exterior:








BestOffHlinst




4.2.22

Ben Gesserit - "Live In Belgium And Holland" | Tragic Figures Series: TFT002


 

Ben Gesserit

"Live In Belgium And Holland"


Label: Tragic Figures ‎– TFT002

Format: Cassette, Reissue,C60

Country: Portugal

Released: 1989

Genre: Electronic

Style: Experimental, Minimal







Gesselink




11.1.22

Ocaso Épico - "Desperdícios" | Tragic Figures Series: TFT003


 

Ocaso Épico

"Desperdícios"


Label: Tragic Figures ‎– TFT003

Format: Cassette, Album,C60

Country: Portugal

Released: 1989

Genre: Electronic, Pop

Style: Electronic, Abstract, Experimental, Ambient, Rock Rural









Ocaso Éplinko




3.1.22

Coalmine 5 - "Doden Drommer Livet" | Tragic Figures Series: TFT004


 

Coalmine 5

"Doden Drommer Livet"


Label: Tragic Figures ‎– TFT004

Format: Cassette, Album,C46

Country: Portugal

Released: 1989

Genre: Electronic, Pop

Style: Electronic, Abstract Ambient








Coalinkmine




2.12.21

Dominion - "Where Muses Dwell" | Tragic Figures Series: TFT005


 Dominion

"Where Muses Dwell"


Label: Tragic Figures ‎– TFT005

Format: Cassette, Album, Reissue, C46

Country: Portugal

Released: 1989

Genre: Electronic, Pop

Style: Electronic, Abstract Ambient









Dwellink




25.11.21

X Ray Pop - "Sexy Swelter" | Tragic Figures Series: TFT006


 

X Ray Pop

"Sexy Swelter"


Label: Tragic Figures ‎– TFT006

Format: Cassette, Album,, C60

Country: Portugal

Released: 1989

Genre: Electronic, Pop

Style: Experimental, Synth-pop







XRayinK




9.11.21

Meat Generation - "16 Goiters" | Tragic Figures Series: TFT007


 

Meat Generation

"16 Goiters"


Label: Tragic Figures ‎– TFT007

Format: Cassette, Album,, C60

Country: Portugal

Released: 1989

Genre: Electronic

Style: Industrial








16nk





21.10.21

MØHR – "Always Female" | Tragic Figures Series: TFT008


 

MØHR

"Always Female"


Label: Tragic Figures ‎– TFT008

Format: Cassette, Album,, C46

Country: Portugal

Released: 1989

Genre: Electronic

Style: Industrial








MlØiHnRk




12.10.21

Dominion - "The Oracle" | Tragic Figures Series: TFT009


 

Dominion

"The Oracle"


Label: Tragic Figures ‎– TFT009

Format: Cassette, Album,, C46

Country: Portugal

Released: 1990

Genre: Electronic

Style: Electro








Interessados: pedir por email, sff.




24.9.21

Famlende Forsøk – "En Overraskende Mate" | Tragic Figures Series: TFT010


 Famlende Forsøk

"En Overraskende Mate"


Label: Tragic Figures ‎– TFT010

Format: Cassette, Album, Limited Edition, Reissue, C60

Country: Portugal

Released: 1990

Genre: Electronic

Style: Experimental
















7.9.21

Nature Unveiled - "Suspension Device For Scoliosis" | Tragic Figures Series: TFT012


 Nature Unveiled

"Suspension Device For Scoliosis"


Label: Tragic Figures ‎– TFT012

Format: Cassette, Compilation, Limited Edition, C60

Country: Portugal

Released: 1990

Genre: Electronic

Style: Industrial, Noise








NATURALINK




1348 & Stolen Government Binder Clip – "En Marge" (Series: Tragic Figures | TFT015 | Cassette)


 1348 & Stolen Government Binder Clip

"En Marge""


Label: Tragic Figures ‎– TFT015

Format: Cassette, Compilation, Limited Edition, C60

Country: Portugal

Released: 1990

Genre: Electronic

Style: Freestyle, Abstract, Experimental, Ambient








MARGINK




12.12.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 16 - Agosto de 2003


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
72 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano IV
Nº 16
Agosto de 2003



SPIRITUALIZED - Fora de Controlo

Os Spiritualized são uma respeitável instituição do rock britânico. Jason Pierce, também conhecido por J. Spacemen, lidera este colectivo que levou às últimas consequências as premissas de rock narcótico enunciadas na década de oitenta pelos Spacemen 3. Agora está de regresso com um novo álbum, "Amazing Grace", um capítulo divergente nesse processo de evolução.

Numa década de actividade regular, Jason Pierce guiou os Spiritualized através da produção de cinco álbuns de originais que foram levando cada vez mais longe as suas ideias de rock baseado em drones e riffs repetitivos, a que se foram juntando ideias pilhadas em compositores de vanguarda como La Monte Young, nos Can e também no jazz. A esta base Jason foi juntando a sua paixão pela música religiosa americana, também ela devedora do mesmo tipo de circularidade, assim como um certo gosto pelo sinfonismo, que resultou numa sonoridade única e cada vez mais sofisticada que teve os seus pontos altos em "Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space", o álbum de 1997, e "Let It Come Down", de 2001.
Reconhecido por ser um tanto ou quanto megalómano nos conceitos utilizados para a gravação dos seus discos (entre outras curiosidades há gravações que sofreram duas misturas - uma para cada canal de audição) Jason pertence a uma espécie em vias de extinção: a do intelectual que conceptualiza o rock 'n' roll. Daí que tenha a fama de não ser um tipo fácil: um rocker que fala por elipses, elabora conceitos que parecem cada vez mais discordantes da volatilidade dos dias que correm, que despede músicos e se dá mal com as editoras. Tudo isto porque é um melómano exigente. Como ele próprio diz no fim desta entrevista: "o futuro está na boa música". Para o novo "Amazing Grace" houve também, como seria de esperar, um novo conceito, e uma nova abordagem que teve a ver com os métodos do free-jazz e com um gosto renovado pelas sonoridades mais cruas doo rock de garagem. O que teve por consequência um álbum que deriva bastante do percurso evolutivo presente nos anteriores. Esta mudança de direcção e o estado da indústria musical no presente levou a um afastamento da anterior ligação com o grupo BMG que tinha editado todos os álbuns da banda durante a década passada. Um novo contrato com uma independente em ascensão - a Sanctuary Records - e uma data para lançamento de "Amazing Grace", que esteve cerca de um ano na gaveta, trazem este aristocrata do rock britânico de novo à ribalta.

:: O novo álbum resulta de uma gravação mais crua, onde cada faixa foi registada sensivelmente num único dia. Esta aproximação "back-to-basics" é surpreendente vinda de alguém reconhecido por ser bastante exigente com os processos de gravação e que no ano passado até foi um tanto ou quanto megalómano com as suas produções. Qual foi a ideia que esteve por detrás desta nova abordagem de gravação?
:::: Não penso que este seja um álbum "back-to-basics". Não «épropriamente uma gravação primitiva que funciona como reacção ao lado mais leaborado do álbum anterior, "Let It Come Down". O que aconteceu aqui foi um pouco um produto da experiência de gravar com os Spring Heel Jack, uma banda de jazz experimental que também colaborou com os Spiritualized. Adorei o tipo de trabalho, era como se a música jorrasse deles. A ideia era ter um microfone onde estava a acção. Eles gravaram tudo: o chiar dos metais, o som das mãos a mexer nos instrumentos. Esse lado físico de tocar e a expressão que era necessária para o fazer foi o que me fascinou, e este álbum dos Spiritualized tem a ver com isso. Com o capturar do som da banda em bruto, antes de alguém saber sequer tocar as canções. As canções foram apresentadas à banda no dia em que foram gravadas. Fomos atrás daquele momento em que as possibilidades ainda são infinitas, porque ainda ninguém tinha cristalizado as suas partes nas músicas. Portanto, ainda podíamos explorar para onde ia a canção. Acho que conseguimos alguma coisa de único.
:: Como irá passar o álbum do estúdio para o palco, se as canções foram compostas e fixadas desse modo?
:::: Penso que quando se passa as canções para o palco é preciso, de certo modo, "desaprender". Uma vez aprendida uma canção é preciso saber qual a quantidade de energia que se consegue retirar dela. Ao vivo as coisas funcionam sempre de modo diferente, depende muito da reacção da audiência e do que ela contribui para a interpretação. é muito diferente de estar numa sala a ouvir um disco. É um processo dez vezes mais envolvente.
:: Para além da abordagem na gravação este é um disco muito mais cru, com muito mais de um certo tipo de rock de garagem a la Stooges...
:::: É um disco de música não processada. Sem a produção, um pouco ao modo como as gravações de jazz eram feitas. De certa maneira é uma abordagem mais honesta, é como re-ouvir o Robert Johnson ou o Elmore James. É um tipo de música de expressão física que não tem a ver com produção ou equalização. Foi o que tentámos neste disco, não saber exactamente como iria resultar. A ideia era gravar e pôr o álbum cá fora sem que as pessoas sequer soubessem que o íamos gravar.
:: Mas de momento vão fazer uma digressão com os Soledad Brothers, uma banda de um tipo de rock muito cru. É uma paixão recente pelo rock de garagem e os blues? É que não muito normal uma banda como os Spiritualized trazer consigo um suporte como os Soledad Brothers...
:::: Não sei, gosto do que eles fazem. E sou um bocado snob com a música e penso que toda a gente o é. Tenho esta es+écie de metrónomo que começa aos saltos se a música começa a ir para o lado errado. E os Soledad Brothers nunca empurram a agulha para esse lado. Acho que eles andam sempre no lado certo da cidade. E gosto disso.
:: No novo álbum há temas como "this Little Life Of Mine" ou "Never Going Back" que são cruas e garagistas e outras como "Hold On" ou "Oh Baby" que são mais do tipo narcótico-orquestral, o tipo de sonoridade que se associa aos seus discos anteriores. Houve aqui uma tensão entre a nova sonoridade dos Spiritualized e os velhos Spiritualized?
:::: Entre os novos e os velhos Spiritualized? Bem, eu acho que este álbum é mais nu no que apresenta. É como alguém que nos sussurra ao ouvido. É como uma espécie de conselho que vem de mim e eu sou o último tipo de pessoa de quem se espera um conselho. Uma coisa que empurrou este álbum para ser o que é, foi um espectáculo que demos para a televisão. Foi uma merda e apeteceu-me fazer um conjunto de canções que mostrasse: isto é o que eu sou, isto é o que eu sinto. O que fizemos neste disco é algo de muito humano e falível, algo que não tem respostas concretas, mas é um trabalho que demonstra uma espécie de compaixão. E acho que funciona.
:: Antes de ser  lançado oficialmente neste formato o novo álbum foi previamente editado num conjunto e três EPs em vinil. Foi uma oferta especial para os "vinyl-freaks" ou uma maneira de testar as águas no que dizia respeito ao novo material?
:::: (Risos) Acho que foi mais a primeira hipótese. Este disco soa muito bem em vinil. Os nossos discos anteriores não soam muito bem em vinil. O "Pure Phase" e o "Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space" foram editados com misturas diferentes para cada canal auditivo, portanto são misturas diferentes que se ouvem na coluna da esquerda e na coluna da direita. E isso não funciona muito bem no vinil. Mas este disco funciona muito bem em vinil, que é um objecto absolutamente fantástico desde que de boa qualidade. Esta ideia também serviu para contrariar um bocado aquela coisa do marketing que aponta todas as baterias para um dia de lançamento específico. É bom que as pessoas possam ter o disco em vinil ou possam ouvi-lo na internet antes do lançamento propriamente dito. Porque isto tem a ver com música e não com campanhas de marketing. É importante que as pessoas possam ouvir a música quer a queiram comprar ou não...
:: Entre o lançamento dos álbuns de originais - isto é, entre "Let It Come Down" e "Amazing Grace" - foi editada a compilação dupla de material raro, "Complete Works Volume One", uma quase obra-prima de rock narcótico. O que sentiu ao recuperar esse material antigo?
:::: Não foi muito difícil porque é uma coisa cronológica. Começa aqui, acaba ali. E isto é tudo o que está no meio. Foi interessante, porque houve uma sensação de intemporalidade. A música em que estava a mexer não tinha nada a ver com o que está ou esteve na moda. Não estamos muito interessados em estar na moda e vender mais discos por causa disso. Estava curioso em saber como soaria aquele material. Mas não soou como se tivesse sido feito há dez anos atrás, poderia bem ser material gravado para o novo álbum ou para o "Ladies And Gentlemen". Senti-me bastante bem em relação ao que ouvi.
:: No seu trabalho passado há aproximações ao tipo de electrónica de drones (sons repetitivos e circulares que funcionam como indutores de uma espécie de transe). Nunca se sentiu tentado a explorar mais a electrónica. Usar loops e grooves samplados, por exemplo?
:::: Acho isso um bocado preguiçoso. Acho que o que fazemos é rock 'n' roll. Temos falado muito sobre free-jazz ultimamente. Aquilo que fazemos não é free-jazz, mas gosto da ideia de se ouvir um som e de se responder a esse estímulo. É isso que faz a música, a interactividade. Penso que há certos pontos musicais, em certos discos, que me fazem evitar sequer querer fazer um disco de que penso não me ir conseguir aproximar. Um desses discos é o dos Rocket From The Tombs, que é uma espécie de colecção de demos dos primeiros discos dos Pere Ubu e dos Dead Boys. Esse disco diz-me: "mantém-te afastado da verdadeira música de garagem, porque nem sequer te vais conseguir aproximar". Por outro lado, os Kraftwerk conseguem ter uma espécie de alma dentro da música electrónica - que é um aspecto que não se associa muito à música electrónica uma musicalidade e melodia que me fazem ficar afastado de tentar atirar-me a esse tipo de área. Há já quem o faça tão bem...
:: Desde o tempo dos Spacemen 3 e mais uma vez em "Amazing Grace" - logo a começar pelo título - parece haver uma obsessão com Jesus e "O Senhor". É realmente um crente ou esta é uma maneira de exprimir a dependência humana por entidades superiores?
:::: Não sou crente. Acho que esta é a "graça fabulosa" de que cantava Elvis Presley. Não tem nada a ver com religião. A expressão tem a ver com a outra metade do rock 'n' roll: a estranha música de igreja da Europa que foi levada para os Estados Unidos e que se tornou no gospel e na country por mistura com os cânticos negros. A única diferença entre a música gospel e a pop é que a primeira chegou às crianças através de Jesus. Só que a paixão que as pessoas demonstram quando cantam sobre Jesus é muito maior do que a das que cantam sobre amores falhados. E eu gosto disso na música gospel.
:: Mas afinal isso não é um bocado irónico quando até se diz que o rock 'n' roll é a música do Diabo...
:::: Eu acho que as pessoas gostam de brincar com isso. É como usar calças de cabedal. Há um certo imaginário que as pessoas criam. Costuma-se dizer que o Diabo tem as melhores melodias, mas se o Diabo tem as melhores melodias então a Igreja tem os melhores cantores...
:: Desde os Spacemen 3, até "Ladies And Gentlemen We Are Floating In Space", "Let It Come Down" ou agora "Amazing Grace" existe desde sempre na sua música um flirt entre a espiritualidade e a utilização de drogas. Acha que as drogas podem aumentar o nosso lado espiritual?
:::: Não sei... Acho que a melhor música acontece quando estamos fora de controlo. Quando estamos fora daquilo que sabemos que podemos fazer. E é por isso que as pessoas recorrem muito às drogas no rock. Mas a ideia que as drogas produzem melhor música é obviamente errada. A boa música não é um produto directo das drogas.
:: No final de "Amazing Grace" há uma demolição do hino americano, o "Star Spangled Banner" em versão algures entre o free-jazz e uma banda de funeral de New Orleans. É um comentário ao papel dos EUA no mundo neste momento?
:::: Se eu quisesse ser realmente pomposo acerca do assunto, diria que sim. essa ideia surgiu de conversas que tive com o Dr. John [pianista de Nova Orleães, cujos discos são uma mistura explosiva de r&b de Nova Orleães e rock, que se apresenta vestido com fatos do Mardi Gras e que é colaborador habitual dos Spiritualized] uma semana e meia a seguir ao 11 de Setembro. Ele disse-me: "devias escrever sobre esta merda, isto é importante, mas não especificamente sobre os eventos desse dia". Também teve a ver com o facto de ter ouvido uma versão do Maceo Parker do "Amazing Grace" [canção tradicional norte-americana], uma espécie de desconstrução esquisita. Tentámos fazer uma versão disso, que foi lançada em vinil no ano passado. E resultou numa associação de ideias que chegou até aqui. Para ser específico não é uma mensagem sobre a situação.
:: As mudanças de sonoridade neste novo álbum dos Spiritualized foram responsáveis pela mudança de editora, pela saída da BMG?
:::: Este álbum foi pensado para sair sem grandes aparatos. Tornou-se um assunto mais aparatoso porque mudámos de editora e houve um atraso no lançamento por causa das negociações. Nós acabámos o disco e vimos que podíamos sair do antigo contrato, e era importante que isso acontecesse naquela altura. Por uma grande série de razões. Acho que eles são uma grande máquina de vender discos e não estavam muito interessados em vender como este. Acho que quando quisemos romper eles ficaram um bocado naquela que nós estávamos a assaltar o banco. Nós dissemos: "desculpem lá, roubámos o banco mas agora vamos embora". Foi mais ou menos mútuo.
:: Acha que o futuro está nas companhias independentes?
:::: Acho que o futuro está na boa música. O problema neste momento é que as companhias de discos estão a ir pelo cano abaixo. E estão a atirar discos cá para fora como balas. Há tanto produto barato - "rápido, embora fazer mais duzentas mil girl-groups; rápido, embora fazer mais duzentos mil disto e daquilo". Penso que um dos maiores problemas é que a injdústria discográfica foi construída à volta da ideia de que pode enganar-nos: "Se conseguirmos boas críticas, pondo dinheiro nisso, se conseguirmos uma grande campanha publicitária e um vídeoclip bonitinho vamos conseguir vender-vos isto e sacar-vos o dinheiro ainda antes de vocês ouvirem esta merda." Mas isso é um engano, as pessoas vão querer saber primeiro como é. Por isso é que a indústria é tão avessa à internet.
Jorge Dias




Spacemen 3
Formados por Jason Pierce e Sonic Boom (Peter Kember) em 1982, os Spacemen 3 tornaram-se uma das principais bandas do indie-rock britânico dos anos 80, estando inclusivamente ligados è origem do movimento apelidado de "shoegazing". Numa altura em que a produção britânica derivava à volta do gótico e do pós-punk ou, por outro lado, parecia procurar a canção pop perfeita nas guitarras à maneira dos Smiths, os Spacemen 3 traziam as tonalidades narcóticas de um rock repetitivo e negro muitas vezes inspirado em bandas de vanguarda dos anos 60 e 70 como os Silver Apples ou Suicide. Após quatro álbuns de originais ["Sound Of Confusion" (1986); "Perfect Prescription" (1987); "Playing With Fire (1989) e "Recurring" (1991] acabam por separar-se devido a problemas com drogas de Sonic Boom e à crescente conflituosidade deste com Jason.

DISCOGRAFIA SELECCIONADA
LAZER GUIDED MELODIES (1992 - Dedicated / BMG)
Após longo processo de incompatibilização com Sonic Boom - o outro elemento central dos Spacemen 3 - Jason arrasta os restantes músicos da banda e constitui os Spiritualized. Além destes traz os drones, os tremolos, as modulações e a paixão pela música de inspiração religiosa. "Lazer Guided Melodies" é um álbum dividido entre as faixas no formato próximo da canção de raízes indie-rock e as sonâmbulas digressões por uma espécie de rock ambiental e narcótico já a prever os sinfonismos que se seguiriam. No ano em que "Nevermind" e o "heroin-chic" explodem, Jason está lá longe, no espaço sideral, e sorri com ar de quem está muito à frente...
PURE PHASE (1995 - Dedicated / BMG)
Tendo assumido o nome Spiritualized Electric Machine para este período, Jason começa a libertar-se do fantasma dos Spacemen 3 juntando a todas as componentes do drone rock que persegue desde o início, uma nova vertente vagamente sinfónica. Por entre as modulações, as ressonâncias e as explosões de distorção surgem agora inteiras secções de metais ou as intervenções do reputado Balanescu Quartet, enquanto se ensaia o fervor do gospel. "Pure Phas" é o épico possível até esse momento, um álbum extenso e ambicioso misturado duas vezes por Pierce, para um efeito stereo mais luxuriante e envolvente. Inclui uma versão de "Born Never Asked" de Laurie Anderson.
LADIES AND GENTLEMEN WE ARE FLOATING IN SPACE (1997 - Dedicated / BMG)
O disco da "caixa de comprimidos", que é o álbum por excelência dos Spiritualized. Aqui Jason Pierce, ainda acompanhado por alguns dos elementos da primeira formação da banda, mas com mais meios, expande todas as ideias que trazia dentro da sua música para um patamar superior. A junção de coros e orquestra transforma as canções de J. num grandiloquente caos orquestral que é tão devedor do ruído quanto as ambiências sonoras mais sofisticadas. "Ladies And Gentlemen" é a obra-prima do rock narcótico que é a sua especialidade. Um disco de óptimas ideias, grandes concretizações e talvez o melhor conjunto de canções que escreveu, com pontos altos em "I Think I'm In Love", "Electricity" ou no lindíssimo "Broken Heart".
LIVE AT ROYAL ALBERT HALL (1998 - Deconstruction / BMG)
Aproveitando a excelente recepção a "Ladies And Gentlemen" e a digressão que se lhje seguiu, este é o álbum que captura a energia dos Spiritualized em palco, em formato aumentado por coro, secção de cordas e metais. Um duplo álbum correspondendo às ambições de grandiosidade de Jason e que percorre alguns dos melhores momentos dos três álbuns de originais editados até então, fazendo mesmo uma incursão por território Spacemen 3. A sessão encerra com uma versão do clássico gospel 2Oh Happy Day", numa derivação entre o transe religioso e o épico sinfónico.
LET IT COME DOWN (2001 - Spaceman / Arista / BMG)
A lista de participantes aumenta a olhos vistyos. Não só a banda foi completamente reformulada, como as orquestras e os coros são cada vez maiores, Jason começa a aproximar-se da megalomania sem efeitos surpreendentemente superiores ao conseguido antes. "Let It Come Down" é um bom álbum mas um pouco mais do mesmo por comparação com o excelente "Ladies And Gentlemen". Como se o processo evolutivo iniciado pelos Spiritualized tivesse chegado a um beco sem saída.
THE COMPLETE WORKS VOLUME ONE (2003 - Spaceman Records / Arista / BMG)
Para assinalar a despedida da BMG J. organiza esta feliz compilação de material disperso por edições à margem dos álbuns. É um excelente duplo CD onde se mistura alguma da inocência das primeiras gravações do projecto (algumas delas ainda pertencentes ao último álbum dos Spacemen 3) com versões experimentais editadas em formatos de menos responsabilidade e lados B. É um leque de música produzida em diferentes períodos e circunstâncias mas que funciona como um todoo surpreendetemente coerente, resultante noutro inesperado épico de rock narcótico.
AMAZING GRACE (2003 - Spaceman Records - Sanctuary / Som Livre)
Quem se habituou às ambiências envolventes dos álbuns dos Spiritualized até aqui fica com os cabelos em pé logo com as primeiras duas faixas. "This Little Life Of Mine" e "She Kissed Me (It Felt Like a Hit)". Há feedback e distorção à solta, o som é roufenho e Jason berra parecendo estar a liderar uma encarnação britânica dos Stooges, com pianinho martelado e tudo. Mais à frente surgem "Never Goin' Back" ou "Cheapster" que exploram a mesma via sonora, entrecortada por baladas narcóticas onde se regressa a terreno mais habitual neles. Só que em versão mais próxima de uma "rough mix", nada dos embelazamentos sinfónicos de antes. Pelo meio, em momentos mais caóticos como "The Power And The Glory" e na versão do hino americano "Star Spangled Banner", aproxima-se mais das desconstruções do free-jazz. Na realidade este é um disco onde as componentes base da sonoridade da banda foram separadas quase que à força funcionando o conjunto mais por saltos de registo do que por esquema de continuidade, como antes. E é natural que depois dos processos perfeccionistas dos álbuns anteriores, Jason necessite mudar de métodos, mas esta nova abordagem em regime de força bruta não produz necessariamente os melhores resultados. "Amazing Grace" não é um mau disco, tem algumas ideias interessantes e um naipe de boas canções como "Lord Let It Rain On Me" ou "Oh Baby", mas soa inevitavelmente uns furos abaixo do melhor que os Spiritualized já gravaram.
Jorge Dias




Reedições
ASMUS TIETCHENS
Asmus Tietchens é um dos mais conceituados compositores alemães, ligado à música experimental, abstracta e concreta, mas também várias vezes conotado com o movimento "bruitiste" e a música industrial. Nascido em 1949, iniciou a sua actividade musical em 1965 e desde 1980 tem vindo a editar algumas das obras mais desafiantes dentro desses géneros. Num constante work-in-progress e numa atitude inconformista, tem procurado sempre encontrar novas soluções de composição e de abordagem para a sua música. A sua extensa obra, espalhada por uma série de pequenas editoras, é incontornável e os seus discos - principalmente os primeiros LP's - encontram-se há muito esgotados. Por essa razão, a editora Die Stadt iniciou este ano a mega-tarefa de reeditar em CD os 18 primeiros  LP's de Asmus Tietchens, editados entre 1980 e 1990, a uma média de um disco cada três meses, todos eles acompanhados de temas inéditos. O primeiro volume desta série é "Adventures In Sound / Nachtstucke" (2XCD Die Stadt), um duplo CD que inclui gravações inéditas de Asmus Tietchens e o seu primeiro disco, produzido por Peter Baumann (Tangerine Dream) para a EGG. "Adventures In Sound" é preenchido com temas inéditos gravados entre 1965 e 1969 com a ajuda de Okko Bekker - amigo e produtor que contribuiu de uma forma activa no resultado final de muitos dos seus discos - e de Hans Dieter Wohlmann. "Adventures In Sound" é, acima de tudo, um trabalho de investigação sonora e de exploração das possibilidades dos instrumentos. Experiências que correm a música concreta e a electro-acústica realizadas por um jovem músico autodidacta à procura de um ponto de partida para o seu trabalho. "Nachtstucke" é substancialmente diferente.
Da música concreta passamos para um ambientalismo electrónico, onde encontramos peças harmoniosas de uma claridade musical própria. "Biotop" (CD Die Stadt), por seu lado, é o primeiro de um lote de quatro discos que Asmus Tietchens editou na Sky [editora alemã dedicada à música electrónica por onde passaram, entre outros, nomes como Brian Eno, Cluster, Dieter Moebius e Hans J. Roedelius] e que compreendem uma etapa à parte dentro da sua discografia, pelo tipo de abordagem mais convencional da música electrónica ambiental - leia-se "pseudo-pop". Uma das grandes diferenças entre "Biotop" e "Nachstucke" é a instrumentação utilizada, em especial uma unidade geradora de ritmos - a Roland CompuRhythm -, as possibilidades do Moog, e a tentativa de escrever peças que não excedessem os quatro minutos. O resultado é um álbum recheado de temas curtos, ritmados, banhado por uma acessibilidade relativa influenciado por alguns dos seus grupos favoritos da altura: Cluster, Kraftwerk e Faust. Depois de "Spat-Europa", "In Die Nacht" e "Litia" - os outros três discos editados pela Sky - Tietchens cortaria o cordão umbilical e editaria "Formen Letzter Hausmusik" pela United Daries (editora de Stephen Stapleton, dos Nurse With Wound) ainda hoje uma das suas obras mais radicais e difíceis. Começava aí a segunda vida de Asmus Tietchens.
Nota de rodapé: Aparentemente as capas de todas as reedições parecem iguais, mas um olhar mais atento constata que existe um pormenor de cor que se vai aproximando de nós à medida que a colecção vai avançando, e enquanto as lombadas vão formado o nome de Asmus Tietchens. Essa foi uma das intenções de Asmus Tietchens, poder dar uma noção forte de "colecção", optando por reproduzir no booklet que acompanha cada CD, e em tamanho semelhante a um LP, a capa de cada disco. Só é pena que os textos explicativos que Asmus Tietchens escreveu para cada disco estejam em alemão...
HM (Hugo Moutinho)





12.2.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 11 - Maio de 2002


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
88 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Nº 11
Maio de 2002



RAINDOGS
Lirismo Boémio
“Life After Vegas” é a catedral sonora erigida a partir dos retratos nocturnos de uma existência íngreme. A lírica remissiva que este disco sustenta e a planície melódica que o atravessa constituem as iluminuras do mais consistente registo dos Raindogs. Até à data e depois de Vegas. Ainda com Chris Eckman na produção.





No princípio, era a desordem, o caos. Depois, o violino criou a trama para a composição de sinfonias celestes e melodias fabricadas. Interessa esclarecer que este instrumento não é, na maior parte dos casos, senão um bom adoçante da música oca que se produz. Os Raindogs são um bom exemplo de como o violino pode continuar a ser a espinha dorsal de qualquer tecido sonoro sem retirar a relevância que a voz e demais instrumentos congregam. Data de 1999 o homónimo EP de estreia. Objecto de inusitada beleza para um primeiro trabalho, o disco forneceu as premissas para um futuro que ameaçava conjecturar notas dissonantes face ao estancado universo da pop nacional. Ainda nesse ano, “From Today” vem confirmar essa propensão para retalhos sónicos harmoniosos.
Precedido do álbum ao vivo “Memories of a Portable Dat”, “Life After Vegas” procede à perfuração do mais íntimo do ser em contorções dilaceradas de refinada melancolia. Nos meandros do primeiro disco com uma outra voz – mais limpa, suave e esteticamente mais densa -, celebra-se a comunhão de almas num limbo terreno e emocional (2Rattlesnakes”). E rastejar é o que resta a todos quantos temem a ascesão à liberdade e desejam permanecer agrilhoados ao obscurantismo da sua condição (“The fear of freedom rose up from your inner need of being slaved”). Em “Sierra Madre”, as palavras são ditas a um ritmo sincopado, palmilhado por uma textura sonora de orientação desgarrada e em consonância com o esvaziamento relacional presente em “she was gone / outsider, only a landscape of cactus and rocks”). Paisagens recobertas dos elementos primordiais, não humanizados – porque só as emoções se tornam pertença nossa. Quase tudo o resto resiste numa subsistência estóica, imperturbável. Apenas a neblina vem carregada de uma referencialidade cruzada, transportando os sinais do tempo numa amálgama disforme que reúne entidades sobrenaturais e figuras mitológicas. “Dreamwhir” é disso paradigma incontornável – “in the garden of Allah”, a rivalizar com o jardim do Éden da literatura bíblica a ocidente, e, mais adiante, “Icarus is flying above a forest convention”. Mas o disco pactua também com as forças do Mal numa assumida cumplicidade com o Diabo (“and his heart, nailed to the pentagram”) e mostra o fervilhar dos fluídos, num corpo que acalenta o irrevogável Fado – “Hand of Fate”. Por vezes, o estrado é ainda cadenciado e lento e já se percepciona a eclosão de sulcos bélicos e florescem na mente imagens dantescas quando, na verdade, a guerra é apenas dos sentidos. ‘Corazón’ é a deterioração de uma voz que, não chegando aos píncaros guturais, pontua na aridez que proporciona a um tema introspectivo. Em ‘Hotel Sickness’, há a utilização de referências espácio-temporais de uma América mítica (ou mitificada) – “and all the Seattle whizz kids / grunge their way to fit in” -, consumida por falácias auto-infligidas.
H.G.
Helder Gomes



POP DELL’ARTE
Eternamente Arty
A espera foi longa e as promessas muitas, mas os Pop Dell’Arte editaram finalmente “So Goodnight”, um disco em formato reduzido a apenas seis temas, para entreter aqueles que esperam pelo anunciado “After The Future”.





Que fique bem claro. Os Pop Dell’Arte serão sempre uma das melhores bandas portuguesas de todos os tempos, e provavelmente a única que soube realmente experimentar sem medo dos resultados. Dessas experiências resultaram discos tão emblemáticos como “Querelle”, “Sonhos Pop”, “Illogik Plastik” ou “Free Pop”, o álbum com que encerraram, da melhor maneira, a primeira encarnação. Pop Dell’Arte não era apenas música, era uma luta constante pela quebra de barreiras, pelos conceitos pré-estabelecidos. A música feita como arte e não como um amontoado de sons com o simples objectivo da melodia.
O projecto João Peste & o Acidoxibordel chegou a alimentar algumas esperanças, mas a sua morte precoce não deixou mais do que um EP, de onde se destaca o fantástico “Groovy Noise-Dada Rock”, um manifesto glam dos anos 90. Seguiu-se a volta dos Pop Dell’Arte e consequentemente o período menos criativo. Com a formação “mutilada” e problemas editoriais (pois na altura a Ama Romanta já não existia) “Ready-Made” é editado mas torna-se difícil encontrar o disco nos escaparates. A desgraça é salva por um “Green Lantern” que destoa igualmente do cariz mais electrónico do resto do álbum. “Sex Symbol” rompe novamente barreiras e é o ponto mais alto da carreira dos Pop Dell’Arte nos anos 90, já que a banda voltava ao limbo, apesar de rumores e anúncios de novas edições.
Sete anos depois “So Goodnight” quebra o silêncio. Antes da música, a primeira coisa que salta à vista é a concepção gráfica. Para quem já teve as capas graficamente mais apelativas feitas por estas paragens, fica-se com a impressão de que o mau gosto tomou de assalto o cérebro de João Peste e tem-se o pior quanto ao conteúdo do disco. Felizmente são apenas temores, já que sem ser surpreendente, “So Goodnight” acaba por convencer até o mais ferrenho dos admiradores da “velha guarda”. Dividido em duas partes distintas, uma no formato canção e outra de manipulação electrónica, “So Goodnight” vai beber mais aos Pop Dell’Arte dos anos 80 do que dos anos 90, mas com um sentido estético contemporâneo. Aliás, a manipulação electrónica relembra um pouco alguns temas de “Illogik Plastik”. Aos belos temas em formato canção de “Mrs. Tyler”, “So Goodnight” ou “Little Drama Boy” (a recriação de “Little Drummer Boy” celebrizada por Bing Crosby) junta-se-lhes a experimentação de “The Sweetest Pain”, “Pound By Pound” (escrito a meias com Jorge Ferraz) e “The Witch Queen Of The USA” (uma experiência sónica assinada por Zé Pedro Moura, que assim regressa aos Pop Dell’Arte depois de mais de uma década ausente). Vinte minutos sabem realmente a pouco.
H.M.
Hugo Moutinho








19.12.14

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (9) - Mondo Bizarre - Nº 7 - Maio de 2001


Mondo Bizarre
Nº7
Maio de 2001
Revista Trimestral - Portugal

Prosseguindo com a divulgação da Mondo Bizarre...

A apresentação deste fanzine / magazine / revista já foi feito neste post.

 Rough Trade

A Lojinha Das Delícias

Será que estamos todos a ficar saudosistas? Ou é mesmo normal este recuperar do passado recente? Cada década recuperou a anterior e agora que até as revistas de moda estão pejadas de figurinos que misturam o punk com as mais atrozes roupas dos anos 80, "Rough Trade Shops, 25 Years" é a caixa certa na altura certa.









Portobello Road, Camden Market. Nomes onde a música popular britânica e em especial o círculo londrino à volta do punk, da new wave e de todas as modas que se seguiram gravitava.
Durante anos, os portugueses não sabiam o que eram lojas de discos em segunda mão ou feiras de discos. Conheciam a Vandoma, a Feira da Ladra, e os mais afortunados iam a Londres e voltavam cheios de discos. Agora, claro, já todos compramos discos em segunda mão, e vimos o "Alta Fidelidade".
Um dos lugares ideais para comprar singles, 10", LPs de todos os géneros e feitios era (é) a Rough Trade. A Rough Trade começou quando Geoff Travis comprou o recheio de uma loja de discos e com ele abriu, em 1976, uma discoteca ali mesmo no número 202 da Kensington Park Road, pertinho de Portobello.
Não tardou que a loja começasse a receber visitas de gente cujos nomes não tardariam a tornar-se conhecidos: Mick Jones, Steve Jones, Nick Kent. O último era já jornalista do New Musical Express, os outros dois tornaram-se membros dos Clash e Sex Pistols.
Da loja às edições foi o passo seguinte. E é nesse contexto que, fora de Inglaterra, a Rough Trade se tornou mais conhecida. "Rough Trade Shops, 25 Years", dos Cabaret Voltaire e por toda a discografia dos Smiths, que foram, sem dúvida a banda que tornou a editora mais conhecida ou por discos dos Young Marble Giants, Go-Betweens, Buzzcocks e Sugarcubes.
Mas tanto a loja, hoje em dia situada na Talbot Road, evoluíram e foram acompanhando os tempos. Por isso, não admira que também os Chemical Brothers, Lemmon Jelly, Peaches, Clinic ou Echoboy façam parte desta caixa.
E claro, a par dos caixotes cheios de vinil, dos discos promocionais, do velho ar de loja de discos, a Rough Trade não perdeu tempo e pode também ser encontrada on-line. Quem quiser ter uma ideia, ainda que virtual, pode dar uma espreitadela em: www.roughtrade.com

Hugo Moutinho




7.12.14

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (7) - Mondo Bizarre - Nº 5 - Novembro de 2000


Mondo Bizarre
Nº5
Novembro de 2000
Revista Trimestral - Portugal

Consegui obter a quase totalidade dos números da revista Mondo Bizarre, que se publicou entre 1999 e 2006, aquando das minhas frequentes visitas à discoteca Carbono. Foi uma revista / magazine gratuita mas muito interessante do ponto de vista do conteúdo. Publicada, a preto e branco, em appel de jornal, formato A4, contava entre os seus colaboradores algumas das maiores luminárias jornalísticas do rock e pop alternativo / indie.
Pela capa que abaixo publico, do seu número 5, poderão aquilatar da variedade de géneros musicais tratados, que eram todos os que se movimentavam nas margens. Cada número, além de inúmeras recensões aos discos que iam saindo, publicava ainda artigos de fundo e entrevistas com bandas / artistas de renome nacional e internacional. Foi uma pena o seu desaparecimento, que só não foi total pois foi mantido um blog: http://mondobizarremagazine.blogspot.pt/, que também já não está muito activo, sendo agora a sua intervenção, muito mais pobre (sem desprimor), feita através do facebook, em: https://www.facebook.com/mondobizarremagazine

Como é habitual, escolhemos sempre um conteúdo para ilustrar o magazine em apreciação, neste caso uma interessante entrevista de Ann Shenton, dos Add N To (X).



ADD N TO [X]
Sexo Analógico e Rock ‘n’ Roll

Este podia muito bem ser o lema dos ADD N TO [X] já que compreende três dos principais interesses dos seus elementos. A propósito do novo álbum “Add Insult To Injury”, marcaram encontro com a imprensa no “Peep Show” da Calçada da Glória. À Mondo Bizarre calhou a sorte de falar com Ann Shenton, a princesa do sexo analógico.

. Até que ponto é que a pornografia influencia a vossa música? Ou será que tudo não passa de um “great rock ‘n’ roll swindle”?
- Sempre tivemos interesse sobre a dualidade homem/máquina, numa perspectiva sexual, e decididamente subscrevemos essa palavra com os nossos concertos. Para nós a sexualidade, o rock ‘n’ roll e a maneira como lidamos com o nosso equipamento analógico não são coisas forjadas. São coisas naturais. No entanto, há tanta gente que se limita a ficar atrás das suas racks de material digital e não faz nada... Tentamos fazer mais do que isso e interagir com as máquinas. Isso pode ser uma experiência bastante sexual. Nós queremos foder com as máquinas.

. Mas quem toma o papel activo?
- É como no vídeo de “Metal Fingers”, a mulher é que está a foder o robot até ele rebentar. Isso é fantástico...

. Por falar nos vídeos, quem é que os faz?
- Somos nós que os dirigimos. Eu tinha uma amiga que era animadora. Nós tínhamos a ideia geral do vídeo, eu desenhei o cãozinho e o resto, ou seja, a mulher com o robot na cama, fomos buscar a uma revista que encontrámos no lixo, em Bruxelas perto do “red light district”. Foi instintivo. Decidimos logo que era isso que queríamos fazer no vídeo. Esse tipo de coisas acontecem-nos com frequência. Por exemplo, um dia, enquanto vagueávamos pela rua, encontrei um Korg MS20 no lixo e se isso não tivesse acontecido, talvez a banda não existisse e eu não estaria aqui. Nós levámo-lo para casa e usámo-lo e achámos que tinha um som fantástico. Se não fosse ele talvez não tivéssemos tentado procurar mais material analógico.

. Alguma vez vos chamaram sexistas, apesar de terem uma mulher na banda?
- Nunca. Só na Internet é que falaram sobre isso por causa da capa do “On The Wires Of Our Nerves”, em que estou deitada numa maca com um sintetizador analógico a sair da barriga, numa situação semelhante à de um parto por cesariana. Houve algum burburinho sobre isso, mas nunca nos chamaram sexistas, exactamente por eu fazer parte da banda e ter consciência do que é certo ou errado. Não sou daquelas mulheres que nega qualquer tipo de sexualidade, mas se acho que as coisas estão a tomar um rumo pobre e estúpido, então não são concretizadas.

. Neste caso, pode dizer-se que é a censora?
- Não propriamente a censora. A banda sou eu, o Barry e o Steve e todos nós temos sentido de humor, mas as coisas seriam diferentes se a banda só tivesse homens.

. As pessoas compreendem o sentido de humor que tentam aplicar ao projecto?
- Pelo facto de haver uma mulher na banda é saudável haver este elemento sexual e, convenhamos, toda a gente está interessada em sexo. Não é só sensacionalismo, toda a gente é programada para ter interesse nisso quer goste ou não. É como estarmos aqui numa sex shop, é o único sítio aberto a esta hora do dia onde podemos mostrar o nosso novo vídeo sem ninguém se escandalizar. (risos)

. A banda já existia antes de se juntarem à Mute. Como é que o Daniel Miller vos descobriu?
- Ele foi ver um dos nossos concertos. Enquanto tocávamos, eu estava sempre a ver se conseguia descobrir ou cheirar o fumo dos seus cigarros, o que queria dizer que ele estava lá e que estava a gostar. Depois ele esteve em minha casa para falarmos um pouco e eu nem sabia que ele era o tipo dos Normal e que tinha escrito o “Warm Leatherette”. Quando ele saiu liguei ao Barry e foi aí que ele me disse que o Daniel Miller era dos Normal. Eu tenho esse disco e adoro-o, mas nem associei a pessoa. Pensei para mim: “Oh meu Deus, ele esteve em minha casa e eu nem sabia...”.

. Aliás, alguma da vossa música vai beber muito a esse tema. Concorda?
- Temos o mesmo feeling. Até certo ponto não podemos fugir muito a isso pois não?... No entanto a Mute veio numa altura importante para nós. A Satellite teve muita coragem em apostar em nós e por um lado sentimo-nos mal em abandonar o barco, mas era um passo que tínhamos de dar para andarmos para a frente.

. Gravaram parte de “Add Insult To Injury” em Sheffield. Também vos interessam todas aquelas bandas míticas dessa cidade – como os Cabaret Voltaire ou Huma League -, que foram pioneiros na utilização dos sintetizadores e material analógico antes de passarem ao digital?
- Sim, aliás Sheffield era a casa dessas bandas. Há uma história engraçada passada lá durante as gravações. Num dos intervalos fomos a um pub e estava lá o Phil Oakey (líder dos Human League) a olhar para as pessoas do tipo “sabem quem eu sou?” e depois apareceu a loira, que se chama Susan, e começou a olhar exactamente da mesma maneira. É impressionate a maneira como ela tem o cabelo da mesma maneira há anos. Parece que pararam no tempo. (risos)

. No entanto, as vossas influências não se ficam apenas por Sheffield...
- Claro que não. Nós ouvimos um pouco de tudo, desde Scott Walker, Wagner, Beethoven, Pierre Henry, Edgar Varese, Country & Western... Eu não gosto muito quando as pessoas são “especializadas” e só ouvem um determinado tipo de música, só vão a um determinado local, só saem com um determinado tipo de pessoas.

. Vocês também tentam transmitir uma imagem gráfica bastante forte. No entanto, a capa deste novo disco é bem menos “analógica” que as anteriores.
- Esta capa tem uma história estranha por trás. Imagina quando encontras no meio da rua uma luva perdida ou um sapato de bebé, ou quando aconteceu um acidente e ainda se podem ver alguns destroços na beira da estrada. Começamos a pensar o que é que aconteceu ali, o que é que se passou. Neste caso, eu e o Steve íamos por uma estrada no meio da noite, eu tinha uma pala na cabeça e de repente o Steve arranca-ma e diz: “tira isso, odeio isso”. A pala voou para os arbustos e ficou um quadro como aquele que te descrevi, do tipo: o que é que aconteceu aqui, será que alguém foi atacado ou...

. Tipo o “Blair Witch”?
- É isso, mais ou menos. O filme é um bocado desapontante, mas depois de o vermos tentámos assustar-nos para ver o que acontecia. Nós vimos o filme o ano passado no dia de Halloween. Fomos até Hamsterkeith, em Londres, e começamos a andar pelo bosque, e eu e alguns dos meus amigos ficámos perdidos, enquanto outros dois amigos estavam a tentar assustar-nos. Essa experiência foi mesmo assustadora, porque se estás num bosque, à noite, e andas normalmente, tudo bem, mas se começas a correr perdes a direcção e aí a ficar petrificado. Mas sentes-te bem. É como nós quando vamos para cima do palco, ficamos sempre petrificados, mas sabe tão bem... O nervosismo e o entusiasmo são coisas semelhantes, depende de como se lhes queira chamar. Quando vou para cimo de um palco fico tão nervosa que me tenho de auto-convencer que estou mesmo entusiasmada. Faço isso e bebo umas quantas vodkas. (risos)

. Como é que transportam o material dos discos para os concertos?
- Mantemo-nos fiéis a nós mesmos. A única diferença é que ao vivo temos que utilizar um sampler, porque muito do material é escrito num Mellotron e não o podemos levar em digressão porque é muito antigo. O nosso pertencia aos Procol Harum, Marillion, e agora pertence aos Add N To (X). Nós até somos membros do Mellotron Worlwide Club. Mas não o podemos levar para os concertos, porque seria a mesma coisa que levar a nossa avó em digressão. Daí que temos que samplar essas partes.

. Hoje em dia está muito na moda os elementos de bandas electrónicas colocarem discos em clubs. Alguma vez fez de DJ?
- Temos um amigo nosso que tem um clube em Londres chamado The Score. Eu fiz lá uma sessão há seis meses atrás e o bar ficou vazio em cerca de 5 minutos... (risos)

. O que é que passou, que fez assustar os clientes dessa maneira?
- Cânticos da Mongólia, Abba, Sex Pistols e a finalizar Black Sabbath, que foi quando a última pessoa saiu...

Hugo Moutinho





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