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28.6.19

Pérolas & Preciosidades: Ocaso Épico c/ Anabela - Ao Vivo no Rock Rendez-Vous (1984)


Um grande obrigado ao Tiago Carvalho.

Ocaso Épico c/ Anabela 

Ao Vivo no Rock Rendez-Vous 

(1984)





Ocaso Épico e Farinha Master, cometas no panorama musical português. Cada vez gosto mais...

- Intro
- Desoriental
- Portugal
- Cortar ou Cortar-se
- Calhambeque
Passagem direta da cassete para o computador, sem qualquer tratamento de som. Quem quiser dar uma melhorada, posso enviar a wav... [TC]












Quem quiser a versão original e de melhor qualidade, em WAV, do concerto, envie email.












10.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (10)


DN - Diário de Notícias
09 Março 2002

Discos Pe(r)didos


Chamava-se Carlos Cordeiro, mas ficou por muitos conhecido como Farinha Master, a voz e a alma dos Ocaso Épico. Morreu no passado dia 17 de Fevereiro. E, sem querer fazer desta uma coluna de necrologia, não podemos deixar de evocar «Muito Obrigado», um dos mais interessantes e escandalosamente esquecidos dos álbuns portugueses da segunda metade de 80. Um caso ímpar na história da família pop/rock lusitana.
Farinha Master era uma figura única, conhecida no eixo dos acontecimentos da Lisboa «esclarecida» de meados de 80, figura sobretudo regular nas melhores noites do Rock Rendez Vous. Tinha passado já pelos WC quando lança as bases de um projecto que procura novas formas de explorar dados «kitsch» em linguagens urbanas. Em busca de uma nova música «foleira», cria as bases dos Ocaso Épico, colectivo musicalmente interventivo e esteticamente desbragado pelo qual passaram nomes como os de Alberto Garci (baterista dos Rádio Macau e Mler Ife Dada), Rui Fingers, Manuel Machado (Essa Entente) ou Anabela Duarte (Mler Ife Dada).
De um desafio de Mário Guia (do Rock Rendez Vous), nasce a proposta de gravação de um álbum, com edição garantida pela Dansa do Som, a etiqueta ligada à mítica sala da Rua da Beneficência ao Rego.
Gravado «em prestações» (como se lê na capa interior) entre 1987 e 88, o álbum representa uma das mais incríveis aventuras do pop/rock português de então, num espaço que lança pistas tão díspares quanto bases electropop, fraseados rítmicos beirões, teclas do melhor plástico-pop e pontuais cenografias magrebinas (como em «Cortar Ou Cortar-se»)... Tudo isto devidamente «arrumado» numa lógica quase conceptual que concentrou na face A do vinil as canções do apregoado «neo-foleirismo» urbano e, na face B, três suculentas fatias de curioso e cativante paisagismo ensaísta.
O disco é dominado por teias de programações, linhas melódicas que nasceram de fragmentos e se foram juntando em momentos de ensaio e erro... A ideia de experimentar terá certamente presidido a todos os episódios de criação, conseguindo o disco um efeito de desafio à audição atenta de cada um que, anos depois, se detenha atentamente frente aos muitos sons, linhas e ideias que encerra. Nele participaram, além de Farinha Master, nomes como os de Pedro Barrento (programações), Zé Nabo (baixo), Ricardo Camacho (piano) e Rui Fingers (guitarra), entre outros.
Farinha Master e as suas palavras (sem travão nem filtro) servem depois de lógica de unidade entre experiências lançadas em diversos rumos estéticos. No todo, «Muito Obrigado» é um coeso manifesto de versatilidade pop onde o «kitsch» deve ser entendido como mais que a mera anedota para gargalhada imediata. O humor é franco e sólido, entendido sobretudo como recurso de estilo numa linguagem que, mesmo tecnicamente debilitada pelos recursos à sua disposição, não deixa de criar um pequeno concentrado de ideias que cativaram um pequeno culto e garantiram aplausos a um disco que, todavia, passou a Leste de muitas atenções.
Uma cassete, em 1989 («Desperdícios»), representou a única sucessão registada de «Muito Obrigado», tendo o grupo desaparecido depois de pontual actuação em 1993. Farinha formou, entretanto, os Angra do Budismo, projecto através do qual gravou «Transformação», em 2001.
N.G.

OCASO ÉPICO 
«Muito Obrigado»
Dansa do Som, 1988
Lado A: «Tinto If», «O Camelo», «Cafécucerto», «Da Beira Baixa à Extrema-Dura»; 
Lado B: «Adamastor», «Desoriental», «Cortar Ou Cortar-se»
Produção: Zé Nabo e Mário Guia

    




6.5.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (207) - Filhos De Viriato - Nº 1 - Agosto de 1989


FILHOS DE VIRIATO
PUBLICAÇÃO MENSAL DE MÚSICA MODERNA PORTUGUESA
PORTO
Nº 1
Agosto de 1989
Preço: 100$00
Impressão: 1000 exemplares
Nº páginas: 20
+ (mini)encarte de 8 páginas A6 (A5 dobradas ao meio) com o Roteiro - Verão 89
Papel normal de fotocópia A4 (A3 dobrado ao meio e encadernado mas sem agrafos), tudo a p/b



Director e Proprietário: Ricardo Alexandre
Redacção: Ricardo Alexandre, Cândido Resende Alves da Silva, João Nuno Coelho, António Pedro Pombo e Marco Fernandes
Colaboradores: Marta Correia, Ivone Santos
Lay-out: Paulo Alexandre, Ricardo Alexandre
Desenhos: Carlos Miguel, Álvaro Manuel
Fotografia: Nuno Olaio

Editorial
Razões De Querer
A falta de conteúdo na grande maioria das publicações musicais é, actualmente, um dos muitos “cancros” que afectam a imprensa periódica portuguesa. Nem mesmo as publicações marginais, os chamados “fanzines”, escapam a uma mediocridade de ideias, que é, por vezes, irresponsavelmente colmatada com “malabarismos” gráficos e visuais. É, no entanto, impossível dissociar este facto da actual situação do país, no que respeita à mentalidade e consciência social dos cidadãos. Num país onde o vazio ideológico assume proporções assustadoras, onde o tecnocrata bate o intelectual aos pontos, onde as pessoas são progressiva e gradualmente levadas a pensar, não em função de si próprias, mas em favor das estruturas que as integram, das máquinas, como será possível a existência de uma imprensa jovem idónea, coerente, militante e minimamente rica em termos de conteúdo?
O nosso objectivo é precisamente esse. Tentar quebrar as barreiras do superficialismo, tentar conquistar uma nova maneira de ler por parte do público, ainda que não possamos aliar a nossa assumida militância e contestação a uma componente gráfica de qualidade superior. Mas vamos por certo tentar. Coloca-se a questão: qual o papel da Música Moderna Portuguesa em tudo isto? Os músicos, a música, pela sua capacidade de (de)formação de opinião, pela sua função socializante, não podem, de forma alguma, ser abstraídos da realidade em que se inserem; cumpre a quem escreve, igualmente pela sua função socializante, inserir a Música Moderna Portuguesa ajudando-a, acarinhando-a, criticando-a, na realidade em que nos movemos.
Em suma, é para tal que aqui estamos. Procurar lutar contra a falta de condições, contra a falta de tempo e contra a acomodação. E estamos aqui porque gostamos. Sabe bem.
Ricardo Alexandre

Rui Reininho
Ressacadamente
“Posso Falar”?
O monólogo ocorreu há alguns meses atrás quando Rui Reininho e Miguel Esteves Cardoso promoveram uma sessão sobre o amor num conhecido bar portuense. Reininho autorizou-nos a carregar no “record” e perguntou “posso fala?”
Antes do “Amor”...
* Nunca fiz política, nunca votei, sou um anarquista.
Sou duro, para mim não há rei nem lei.
Faço as coisas por Amizade e por Amor.
Hoje venho cá só para falar de Amor.
Depois do “Amor”...
* Fui um idiota hoje, não fui? Falar de política! Eu quero é ver sangue, quero acção. Quero acordar de manhã e ver acção. Já tenho meio quilo na cabeça e queria ter lá fora um helicóptero à minha espera. Mas tenho um “espada”, um Mercedes, não é bom?
O meu Mercedes está aqui estacionado e eu hei-de ser sempre um bandido... Nunca hei-de pactuar com esses gajos da televisão...
* GNR é um grupo de bandidos. Não somos detectives. Somos Padrinhos da Mafia... O Padrinho é um dos meus filmes preferidos.
GNR é instituído? O caraças. Eu detesto essas merdas. Eu quero o poder, quero dirigir o poder, dar cabo daquela merda toda. E posso fazer isso.
* O GNR não é uma coisa acabada. É um verme que viaja. É um verme que escapa ao Estado, à Europa.
O nosso disco é muito cuidado? É.. é... na medida em que eu hoje falei de ternura e fui assobiado, acho que a ternura passa pela eficácia. Hoje em dia... posso ser sincero? É assim... hoje ouvi Mão Morta, eu adoro o Adolfo... e punhais e não sei quê... Acho que a eficácia passa por um certo conservadorismo em relação às instituições. Hoje expus-me aqui. Hoje fui uma “puta”. Fui a única gaja nua aqui. A certa altura pensei: isto não me interessa. Não me interessa a pátria... eu quero é crueldade. Quero sentir uma comoção. Eu trabalho para isso.
* Serei sempre o Rui Reininho. Hoje fiz de palhaço. Mas faço porque gosto de acção. Gosto de guarda-costas. Gosto de ir com eles para o Swing. Gosto dessa merda toda. É um filme. Sou o Al Capone do Rock. Acompanhei a subida dos UHF, dos Heróis, dos Xutos. Os GNR sempre estiveram um bocado à parte disso tudo, não foi? Eu sou muito mais decadente que eles todos!
Hoje em dia está tudo doido. Vai haver crimes esta noite, vai haver mortes... vocês estão a olhar para um crime. Eu ontem esganei a minha namorada e vocês não sabem... O Reininho estrangulou a namorada... vocês achariam o máximo não era? Se eu tivesse filmado isso num vídeo, vocês achavam que era comercial. Não é esse o limiar dos anos 90. Os anos 90 não vão ser assim... vão ser subtileza.
* A “Valsa dos Detectives” não é um álbum que venda. Há crueldade dentro daquilo. Há o encantamento da serpente, há uma serpente que quero encantar... não me tirem essa merda.
* Eu hoje bebi um litro de gin... é um luxo. Hoje tive uma noite de luxo... Sentei-me ali, bêbedo, (...) coca em casa... e o espectáculo era meu. O público não percebe isso porque é pobre. Não tenho medo dos pobres; eu sou é do ponto de vista do Marquês de Sade: os pobres devem ficar mais pobres para se revoltarem. Devem sofrer para lutarem. Daqui a 5 anos o meu amigo João Peste vai ser apresentado pelo Júlio Isidro nos Amigos Disney.
* Vai haver sangue esta noite... eu tenho 1,90 m, sou forte, vou ver strip-tease, vou ver o ódio, a crueldade, adoro a crueldade. O Teatro da crueldade começou hoje para mim, tenho este estupido relógio da Swatch que roubei hoje.
* Eu quero submeter a ordem deste país. Quero ir ao Alentejo. No Sábado vou a Évora e vou apanhar a alentejana nua... Pode ser o meu crime... e vocês não deixam... com a merda da vanguarda não me deixam cometer o meu crime. Quero o meu crime agora, quero três mil gajos a aplaudir-me, quero ser um ninja, cortar cabeças.
* Adoro o Jacques Brel. Posso cantar trinta músicas dele. Já conheci o Iggy Pop. Foi a semana passada. É um bêbedo, doido e milionário.
Adoro o “New York” do Lou Reed.
Quero conhecer a vida, o mundo, o Gorbachov. A minha missão é essa.
Para a próxima trago aqui o Gorbachov e o Mário Soares... mas são eles que têm que me procurar.
* As Delfin(a)s é um grupo piroso, fazem a nossa 1ª parte, eu vou para o palco e digo: Obrigada pela música de criada de Cascais, às Delfinas. Isso é grave. Um gajo avant-garde não tem coragem para fazer isso. Eu digo e assumo. Há para aí 4 gajos a quererem bater-me. Mas eu gosto disso. Quero ser Mafioso. É um imaginário. Gosto de ver sangue a correr, gosto de confronto.
* Sempre fomos (os GNR) as “putas” mais caras. Acho que é um bom princípio. Hoje expus-me aqui. Faz parte do meu show. É uma intuição. Nós fomos os gajos mais chiques quando estivemos em S. Paulo... eles têm 14 milhões de habitantes.
* Um gajo tem que mexer com a merda desta cidade. Nós somos um grupo do Porto e fazemos essa merda com orgulho. Chegámos a S. Paulo e eles sabiam que éramos do Porto... e não de Lisboa. É bom, não é? Quando um gajo faz uma coisa que acredita, não é piroso.
Ilustrações: Álvaro Manuel Morcela
Recolha de Som: Repórter X


Um Bacano De Chelas
Sob O Signo Da Aldrabice
Farinha:

Foi no passado dia 27 de Julho, no Pinguim Café, que Farinha Master, o popular artista de Chelas, apresentou o seu mais recente trabalho “Desperdícios”. Assessorado pelo divertidíssimo Grazina (que aqui revelou o seu elevado potencial como “entertainer”), Farinha demonstrou, perante uma plateia vibrante de entusiasmo, estar no auge da sua criatividade e imaginação. Apesar da falta de condições (é lamentável a inexistência de uma cuspideira), o mentor dos Ocaso Épico brilhou-nos com um espectáculo ímpar e inovador.
O trabalho pretende ser uma síntese experimental de correntes tão diversas como o fado e o hard-core, a música minimal e até o samba. O resultado excede as expectativas mais optimistas. A genialidade foi uma constante durante quase duas horas de espectáculo, que atingiu o seu auge com o “hit” mais recente deste artista conceptual – “Quero ir ao Frágil” é, acima de tudo, um libelo contra a miséria e a injustiça social, colocando definitivamente Farinha na 1ª linha da chamada corrente intervencionista, lado a lado com nomes como os Heróis do Mar e os Ibéria.
Na verdade, a crítica social foi uma constante – o preço dos medicamentos e o problema dos hospitais, a superlotação dos estabelecimentos prisionais, a questão premente da Selva Amazónia – tudo Farinha interpelou e questionou, formulando hipóteses, propondo iniciativas e sugerindo soluções. Enfim, uma noite de inspiração para uma das promessas mais sólidas da nossa música moderna. Gostaria de deixar uma última nota para a decoração – excelente! – e para o cuidado com que tudo foi planeado até ao mínimo pormenor, evitando demoras e quebras no ritmo do show.
O NOSSO MUITO OBRIGADO!
Ivone N.





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