Mostrar mensagens com a etiqueta Entrevista. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Entrevista. Mostrar todas as mensagens

17.6.24

Mathias Grassow - Entrevista a 11 de Janeiro de 1990


Mathias Grassow

depois ponho as imagens - as imagens estão neste post: ------- (não esquecer de actualizar)

para já fica a entrevista

O post é este:

https://musicaesquisita.blogspot.com/2024/06/syntorama-17-fanzine.html

MATHIAS GRASSOW nasceu em 1963 em WIESBADEN (Alemanha). Durante grande parte do seu tempo ele ocupou-se ouvindo principalmente rock sinfónico, até descobrir os TANGERINE DREAM e KLAUS SCHULZE.

Este foi o ponto de partida da introdução de M. GRASSOW à música eletrónica.

Mais tarde aperfeiçoou o seu estilo, muito mais orientado para as raízes da música oriental, ouvindo o mestre deste estilo KLAUS WIESE.

Todo o trabalho de M. GRASSOW, nove cassetes lançadas até o momento, promove a música meditativa, com fortes influências da música oriental, mas na sua concepção, já que GRASSOW toca principalmente sintetizadores.

Em 1986 assinou com a editora, talvez a mais importante do género, a AQUAMARIN VERLAG. Desde então todos os seus trabalhos foram editados e distribuídos por eles.

Desde 1987, GRASSOW escreve artigos na revista alemã “ESOTERA” dedicados às antigas e novas artes da meditação.

Seria um absurdo falar de todas as cassetes de GRASSOW, porque as mesmas estão unidas por um elo comum: MÚSICA MEDITATIVA e RELAXANTE.

Se se interessa por esse tipo música, não hesite em ouvir MATHIAS GRASSOW.

As suas cassetes podem ser encontrados em AQUAMARIN VERLAG:

E se também se interessa por itens esotéricos ou simplesmente musicais, seu contato é:

VERLAG AQUAMARINA

VOGLHERD, 1

D’8018 GRAFING

ALEMANHA OCIDENTAL.

 

MATHIS GRASSOW

RATHENAUPLAZ, 5

6200 WIESBADEN 12

ALEMANHA OCIDENTAL.

 

CASETOGRAFIA

“AT THE GATES OF DAWN” (1986)

“PANTA RHEI” (1986)

“ON SILENT WINGS OF HELING”

“TAOASIS” (1987)

“ATMAN” (1988)

“PIPES OF PEACE” (1988)

“BEHIND THE EVIDENT VOID” (1988)

“TEMPTATIONS OF LIFE” (1988)

“CARMINA HILDEGARDIS” (1989)

 

ENTREVISTA COM MATHIAS GRASSOW

 

SYNTORAMA: Que motivos o levaram a entrar na música eletrónica tocando sintetizadores?

MATHIAS GRASSOW: Quando eu era jovem (aos 13 anos) queria tocar bateria numa banda de rock. Os meus grupos favoritos foram: YES, LED ZEPPELIN, BLACK SABBATH, DEEP PURPLE, ELOY, PINK FLOYD e muitos mais.

Na mesma época (1976) comprei dois ótimos álbuns “RICOCHET” de T. DREAM e “MOONDAWN” de KLAUS SCHULZE. Essas duas obras deram-me uma nova compreensão da música. Naqueles anos, meu amor pela música electrónica foi crescendo cada vez mais, tanto que resolvi fazer eu próprio aquela música.

Em 1980 comprei meu primeiro sintetizador. Em 1982/83 ouvi pela primeira vez a música de PETER MICHAEL HAMEL e STEPHAN MICUS. Foi o início do meu capítulo espiritual.

Em 1985 ouvi pela primeira vez a música de KLAUS WIESE e me vi imerso naquela música, com aquelas bolas metálicas, cítaras, harpas e tantos outros instrumentos. Considero agora que o meu trabalho deve ser construir uma ponte entre a criação de música electrónica e performances acústicas.

SYNTORAMA: Você já recebeu ofertas para gravar álbuns ou CDs?

M. GRASSOW: Naturalmente quero fazer CDs (os discos não são um media muito interessante, porque CDs e cassetes são um media muito melhor para este tipo de música). A produção de um CD custa aproximadamente 10.000 DM. É muito caro para mim e para o meu produtor.

Minha cassete “ATMAN”, que vendeu 260 cópias em 1968, é minha cassete mais vendida. Agora que vê esse número de vendas vai perceber porque a produção de um CD é impossível por enquanto, quando o tempo amadurecer pode ter certeza que haverá um CD lançado por mim.

SYNTORAMA: Que relação tem com AQUAMARIN?

M. GRASSOW: Um golpe de sorte trouxe-me para a AQUAMARIN. Em 1985 tive um relacionamento com uma rapariga que tinha ligações com DR. MICHAEL, mandei algumas demos para ele para Munique onde ele mora, foi o começo.

Agora estou em negociações com outras editoras para divulgar meu nome noutros países. (Acho que a Europa Oriental pode ser um bom mercado).

SYNTORAMA: A sua música está relacionada com a sua filosofia de vida?

M. GRASSOW: Sim, minha música representa parte da minha vida, o que é muito necessário para mim e para minha música. Sem sensibilidade interior, paz, meditação e todas as outras coisas que conduzem à vida espiritual é impossível fazer esta forma de música. A maior parte da música no mercado chamada “NEW AGE” e “MEDITATION MUSIC” é um produto barato de músicos e produtores que não sabem realmente o que é música.

A minha música ou a de KLAUS WIESE utiliza uma compreensão nova e perfeita de fazer e compreender música, porque o músico é apenas um canal de alguns poderes cósmicos. É difícil explicar o que significa porque há coisas que são de outra dimensão das quais só vemos os picos.

“A música ao vivo é a melhor maneira de demonstrar isso”, percebe o que quero dizer?

SYNTORAMA: Quais instrumentos e efeitos que costuma usar?

M. GRASSOW: Uh! No passado tive muitos sintetizadores, de todos os modelos, por exemplo KORG MS-SERIES, um antigo órgão FARFISA, muitos sintetizadores monofônicos e muitas mais máquinas (algumas delas estranhas). Tudo isso foi no período 1980/84, minha era TANGERINE DREAM / KLAUS SCHULZE.

Em 1985 reorganizei a minha “instalação Sinti”, vendi todos os teclados antigos e especializei-me em fazer música para mim.

Minha lista atual de instrumentos é a seguinte:

- ENSONIQ MIRAGEM

- YAMAHA TX 7

MIDIVERBO-FEX

- ESTÚDIO MIDI

- OBERHEIM DPX 1

-ROLAND JUNO 6

- PILON-M-CAIXA

- PRIMEIRO-SQ-1

- CASIO CZ 1000

- ROLAND VP 70

-COMODADOR 64

- ÁUDIO TÉCNICA RMX 64

- 4 GRAVADORES, MUITAS CAIXAS, PEDAIS, VARAS, MICROS e finalmente instrumentos acústicos como FLAUTAS, ZITHARAS, KOTO, PERCUSSÕES, BOLAS DE AÇO, GUITARRAS e... MINHA VOZ.

SYNTORAMA: Que sistema utiliza para compor?

M. GRASSOW: No passado o meu estilo de compor era escrever notas, mas ultimamente percebi que esse sistema é mau para compor.

Quando comecei tinha que tocar música com partitura, mas isso também é mau. Hoje só faço música pelo caminho da intuição, da escuta íntima e da necessidade íntima.

A desvantagem disto é que todas as minhas composições são únicas. Acho que é a única maneira de criar obras espirituais sem qualquer personalidade própria, é o mesmo que fazer música, pintar quadros ou escrever livros e poemas. Entende?

SYNTORAMA: Como surgiu o projeto de tocar com KLAUS WIESSE em Munique em março próximo?

M. GRASSOW: A ideia era fazer um “concerto ao vivo” com KLAUS WIESSE e AL GROMER KHAN. Este concerto faz parte de um grande congresso em Munique, patrocinado pela DR. PETER MICHEL, da AQUAMARIN-VERLAG, mas o KLAUS e eu não iremos tocar, afinal, por motivos diferentes.

SYNTORAMA: Que novos projetos tem?

M. GRASSOW Fazem-me sempre essa pergunta, quero fazer muitas coisas no futuro: “Despertar as pessoas espiritualmente, mais amor, paz e harmonia no mundo, boa saúde para a terra” e muito mais. Meus planos são realmente fazer música. Espero poder ajudar muitas pessoas a encontrarem-se a si próprias através da minha música. É a minha vida, é a minha determinação, é o meu trabalho.

Da mesma forma quero fazer músicas e sessões em grupos diferentes, espero publicar CDs num futuro próximo, construir um estúdio na Alemanha como puder, mas devo olhar com calma para o futuro.

 

Entrevista realizada por e-mail com MATHIAS GRASSOW, datada de 11 de janeiro.

  





19.7.21

Club Moral - Entrevista no Fanzine GROK, de Novembro de 1984


 Fanzine GROK

Novembro de 1984

fanzine de David Minshall



















15.7.21

Coil - Entrevista no Fanzine GROK, de Novembro de 1984


 Fanzine GROK

Novembro de 1984

fanzine de David Minshall













26.3.21

Coil - Entrevista - em "Music From The Empty Quarter" #3 - Dezembro de 1991


 













12.3.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (43) - Cadáver Esquisito - Abr/NMai/Jun de 1986


Cadáver Esquisito
Abril / Maio / Junho 1986
24 páginas p/b, com capa e contracapa a p/b em papel azul claro.



Editorial
Reunidos numa cama algures em Portugal, o Conselho de Revolução do Cadáver Esquisito deliberou que:
1º O primeiro número do Cadáver Esquisito foi bom.
2º O segundo é melhor ainda.
3º O terceiro é excelente.
4º Continuamos à espera de donativos (os vinte litros de cerveja que enviaram não chegaram...)
5º Ao contrário do que muitos jornais afirmam por aí, somos feios, porcos, maus e estamos vivos (Blitz & companhia ide apanhar no cú)
P.S. - Temos todos mais do que dez anos (isto não é nenhum jardim escola.)
6º O nosso número de conta bancária é 397952 da C G. dos Depósitos (confiamos no Estado...). Se quiserem fazer contribuições para ajudar a causa, já sabem.
7º No top cadavérico está classificado em primeiro lugar (tal como no som da frente) o tema concorrente ao Festival da Canção "Não sejas mau para mim" de Siouxsie Dora. Em segundo lugar (votos carecas) o velho êxito de Jim veloso Percy "Eu quero ir à máquina zero".
8º O PORCO GANHOU (heil Soares) e outro porco perdeu e o Cadáver Esquisito está a pensar formar um partido. Aceitam-se propostas para estatutos e bandeira.
9º 10 anos depoisASEPTAL NOT DEAD.

O Cadáver Esquisito não tem director nem possui patrocinadores, comités de censura ou apoio de élites ideológicas ou partidárias, somos apenas...
Cadáver Esqusito
contactos p/ Apto. 120, 4503 Espinho Codex
Entrevista
Cagalhões
Somos os Cagalhões e estamos aqui para vos apresentar VIII extraordinários êxitos. Somos anti-cristos (não nos interessam aqueles que se servem duma vítima de cabelos compridos para nos impor a sua moral idiota).
Somos palhaços por conta própria não por conta de uma seita política ou religiosa...

Fomos até Aveiro, que merda de cidade, cheia de betinhos e polícia, com uns canais fedorentos e muitos universitáriosecos a "dar gosto" à cidade.
Metemo-nos à estrada até à barra (a 9 km de Aveiro) onde numa sala do tamanho de um canil, ensaiam os Cagalhões. Abortados no Natal de 1983; Biafra (vocal), João (ou mosca, guitarrista) e Jorge (baterista), formam a equipa efectiva da banda com vários suplentes a "baixistas" uma vez que todos são demasiado lentos...
Um concerto (Agitarte 85), uma expulsão do anterior local de ensaios e muita força de vontade constituem o "curriculum" (aquela coisa que...) da banda.
Cagalhões? É Cagalhões. Muita energia, violência e criatividade, velocidade galopante na bateria, desespero na voz, guitarra simples e até agora... baixo lento.
Bem, contrataram-me para escrever sobre estes montes de merda e não sei que mais dizer, mas, já que compraram isto, aturm-me...
Lá "fomos" (fui) e depois de um ensaio matraqueante e uma dezena de litros de cerveja iniciou-se a entrevista com as perguntas idiotas do costume.

. Como se situam musicalmente?
João - Não somos punk's, somos contra definições, a nossa música é Cagalhões.
. E face a outras bandas portuguesas?
Biafra - Não conheço ninguém.
João - Há pessoal diferente, com várias opiniões. Por exemplo, a guerra não nos interessa como tema base, temos de pensar naquilo que nos toca diariamente, a sociedade em geral.
. Há um tema vosso "deus é um chulo"...
Joao - É uma crítica a todas as formas de religião, todas, a todo o tipo de chulos. Não criticamos só os católicos, mas todos aqueles que psicologicamente exploram alguém...
Biafra - Eu gosto dos padres, são tipos fixes, tenho inveja da barriga deles...
. Qual a importância da espontaneidade?
João - Total, o que fazemos nasce espontaneamente...
Biafra - Não tocamos sempre a mesma merda. Depende da posição... partimos de uma letra para o resto, a mensagem é essencial, o som é apenas um suporte. Queremos ser verdadeiros e não agradar a alguém...



Entre risos cínicos, cerveja e arrotos lá continuamos a merda da conversa naquela sala húmida. O baterista (Jorge) e o baixista (skin) só mandavam bocas, o ambiente não podia ser melhor.
À sua maneira, o grupo demonstrava uma personalidade bastante apreciável (graxa graxa), bem, continuando...

. Qual a posição face aos fanzines que estão agora a surgir?
João - Achamos que é positivo, agora que estão a aparecer. Mas o importante é que não sejam feitos um ou dois números mas que cheguem ao 2'º número, pelo menos...
É importante existirem, apoiando um tipo de música marginal, divulgando e informando. Apostamos muito neles e esperamos que as pessoas os leiam para garantir a sua sobrevivência.

Mudamos de "assunto", descansou-se um pouco de javardeira que acompanhava a reportagem (ha, ha). E passamos aos motes, e entre os "puta que pariu de entrevista" e "o que queres dizer com issso?", lá se foi respondendo, acompanhando-as ou de grunhidos, sorrisos suspeitos, e caretas, por vezes indiferença e mais cerveja (já a acabar).

. Caos...
João - Cagalhões
Biafra - Natureza
Jorge - (arroto)
Skin - (olhar desconfiado)
. Acção directa...
João - Acção directa é Cagalhões, agir, física e psicologicamente, mas distinguimo-nos do terrorismo.
Jorge - Só há uma coisa, há que violentar o sistema...
. Individualismo...
Biafra - Somos individualistas, egoístas, primeiro a nossa vida, depois a dos outros.
. Alienação.
João - Quem não quer agir, pensar, parte para a alienação. É preferível viver com o que têm em vez de lutarem pelo que querem, e isso é uma das faces da alienação, o que em si, é difícil de definir...
. Portugal.
Jorge - Portugal é uma merda.
João - Portugal é o meu país, somos portugueses e somos "made in Portugal".
. Qual a relação com o patriotismo? (não resisti)
João - Só no sentido em que vivemos cá e queremos que evolua para que nos possamos sentir melhor. A relação entre patriotismo e a música que fazemos está unicamente na língua.
É triste ver que se compram discos em inglês (por exemplo) porque é "mais bonito", mesmo que não se compreenda o que dizem.
. Mulheres...
Biafra - São boas... e diferentes.
Jorge - Adoro mulheres, adoro mulheres. Vamos falar de sexo?!
. Desejo.
Jorge - Foder...
Biafra - Beber uma cerveja.
João - Ir ao RRV. Divulgar mais o que fazemos.
Skin - ...

Baixista provisório, o Skin ajudou-nos na entrevista. Transcrevemos parte dessa conversa em que por vezes é o entrevistador a responder...
Atenção: 1 2 3... 4

Skin - ... E quanto a influências ideológicas? (risos)
João - Ó pá, ideológicas... tu és consoante aquilo que te rodeia, se as coisas que estão à tua volta... se tu gostas, és um gajo bom, se não gostas és um gajo mau (gargalhada geral).
Skin - Vocês são a favor dos capitalistas exploradores do povo oprimido, da... classe operária?
Jorge - Qual classe operária, qual carapuça, não trabalham e querem ganhar nota.
Skin - Tu és tão radical. Eu acho que nós devemos pensar que nem todos temos o direito de trabalhar, se todos trabalhássemos, vocês não acham?
Jorge - Nem todos temos o direito de trabalhar: Tu trabalhas para mim.
Skin (para o João) - Tu estás de acordo com o teu amigo?
João - Ó pá, esse gajo é parvo, ele não é meu amigo. Esse gajo, é um gajo contratado para tocar bateria comigo. (ri)
Skin - Quem é que lhe paga?
João - Não... é, é escravo.
Skin - Vocês costumam fazer amor?
Biafra - Isso é uma pergunta pessoal, não respondo (risos).
Skin (a rir9 - Voc~es não se entregam ao acto sexual individualista?
Todos (risada geral) Punetas!!
Skin - Vocês têm crenças religiosas?
Biafra - A minha crença é o AAA.
Skin - O que é isso?
Biafra - Associação dos Admiradores do Álcool. (risos)
Skin - 'Tá bem, vocês têm crenças religiosas, além de... não. Vocês são ateus?
João - Eu sou troglodita... e o Jorge é budista.
Biafra - Eu sou "etc".
Skin - É... realmente tem aqui o etc (risos). Tu és budista Jorge?
Jorge - Eu sou...
Skin - Tu fazes yoga?
Jorge - Faço yoga de vez em quando. (risos)
Skin - Tu acreditas no... em Buda? Achas que os gordos têm potên... (desata a rir) têm força religiosa suficiente p'a, para tu os conseguires adorar?
Jorge - O quê?
Skin - Tu acreditas nos gordos?
Jorge - Eu não, foda-se.
Skin - O buda é gordo.
Biafra - O buda não é gordo, é forte (risos).
Skin - Vocês gostavam de ser terroristas?
Biafra - Ahhh... se ganhasse bem. Depende de...
Skin - Acho que se ganha bem, os gajos assaltam...
João - Terroristas, eu sou contra os terroristas.
Skin - ... os gajos assaltam bancos.
Eu acho que sim, que se devia... que toda a gente devia ser a favor...
Jorge - A não ser que queiram matar o presidente.
Skin - Que acham em particular das FP'S 25?
João - Acho que são uns criminosos, deviam ser mortos.
Skin - Também acho, mas não tenho nada que dar a a minha opinião (risos).
Biafra - Eu acho que as FP-25 de Abril... é pena estarem presos, acho que são uns tipos fixes.
Skin - O que é que vocês acham dos hippies e dos freaks?
João (a rir) - Isso é uma nova marca de sardinhas, não é?
Jorge - Se sabonetes.
João (interrompendo) - Ó pá esses gajos... esses gajos desperdiçam a juventude, nem isso sabem desperdiçar.
Jorge - Uma cambada de drogados.
Skin - E tu... não te drogas?
Jorge - Isso é muito pessoal.

Alguém lança a boca pelo meio: "O Oscar é um barriga-cheia-d'agua".

Skin - Vocês têm ídolos na vida?... portanto... se gostam de (risos) Silvester Stallone e... da...
Jorge - Eu gosto muito do pato Donald.
Biafra - O meu ídolo é o Snoopy.
João - E eu sou admirador do zebedeu das orelhas compridas (risos) é um gajo que tem um burro muito bonito.
Skin - O que é que achas da Jane Fonda?
João - Da... da Jane Funda? (risada geral).
Skin - O que pensam da Sida?
Jorge - Sabes que a sida dá aos gajos que nascerem em Março, t~em mais probabilidades, a sério! Não nasceste em Março, pois não?
Skin - Não.
Jorge - Então podes apanhar no cú. (risos)
Skin - acho que isto não é nenhuma cassete do Herman José....

Contactos: João Mesquita
Rua Castro Matoso
36 2ºEsq. / 3800 Aveiro.




3.3.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (36) - Mondo Bizarre - Nº 3 - Maio de 2000


Mondo Bizarre
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Nº 3 - Maio de 2000
40 páginas p/b



Entrevista
Einstürzende Neubauten
(Blixa Bargeld)

Na confortável sala panorâmica de um hotel de Lisboa, Blixa Bargeld falou à Mondo Bizarre. O mais recente disco dos Einstürzende Neubaute, "Silence Is Sexy", foi o mote de saída, mas a conversa estendeu-se às outras actividades do músico e ao seu gosto por canções populares escritas para mulheres.

. O press-release de "Silence Is Sexy" diz que este é o trabalho mais complicaod e fascinente da história dos Neubauten. Em que sentido?
- Não li o press-release. Penso que o disco parece ser mais acessível a quem o ouve. É mais fácil obter prazer com este trabalho. Mas, se se for mais fundo, descobre-se que é o nosso disco mais hermético. Está cheio de referências cruzadas, de conotações profundas.
. Como interpreta e vê o silêncio? Há muitas maneiras de ouvir e sentir o silêncio como o posição ao som e ao ruído (John Cage é uma maneira de entender o silêncio). No álbum, canta "silence is sexy" e logo a seguir diz "your silence is not sexy at all"...
- A primeira coisa que surge, em termos musicais, ao falarmos de silêncio é John Cage. O seu 4'33", em que alguém se senta ao piano e durante esses minutos não se ouve uma única nota. Na sua típica aproximação zen, John Cage tenta criar uma peça na qual, de repente, nos apercebemos de todos os sons que nos rodeiam, durante uma determinada altura. Nesse sentido, o que fiz em "Silence Is Sexy" é um antídoto ao tema de John Cage. Eu queria que se ouvisse que o silêncio é tenso. Que o silêncio se relaciona mais com a ausência do que com a unidade do universo. Foi um longo processo de pesquisa até saber como gravar o que pretendia. O grande impacto dá-se quando o acender de um cigarro, quase imperceptível, se ouve, se torna tenso. Tinha a ideia nuclear para "Silence Is Sexy". No processo de composição, juntamente com as letras, cheguei à conclusão de que o silêncio é muito pouco sexy. O silêncio sexy está ligado à morte e não sou necrófito. A morte não me dá prazer nenhum. Daí veio o "your silence is not sexy at all".
. Conhece o Instituto de Som de Estocolmo, no qual existe um compartimento, totalmente isolado, onde tudo o que se ouve é o asustador som produzido pelo bater do coração?
- Não conheço o Instituto de Estocolmo, mas sei o que é uma Camara Silens. Essa é outra das coisas sobre as quais se pode ler nos apontamentos de John Cage. É muito estranho entrar numa. É um laboratório de som, onde apenas se ouvem dois sons, um alto e outro baixo. O alto é o ruído produzido pelo nosso sistema nervoso e o baixo o sangue a correr no nosso corpo. Por isso, em "Silence Is Sexy" falo de Tinnitus (zumbidos nos ouvidos), uma doença muito comum de que sofro. É como uma campainha constante nos ouvidos. O nível de ruído é inconstante. Há alturas em que nem me apercebo e outras em que o volume é bastante alto. Pensei em trabalhar numa Camara Silens para este álbum, mas acabei por abandonar a ideia.
. Musicalmente, "Silence Is Sexy" paraece ser mais introspectivo e menos potente que os discos anteriores dos Neubauten. Há menos experimentalismos radicais e mais construções harmoniosas, próximas do tradicional formato de canção. Vinte anos de carreira permitem-lhe uma maior serenidade para expressar o que pretende?

- Queria que todos os bocados deste disco fossem uma canção, que tudo fosse passível de reprodução em concerto. Não há nenhum tema neste disco que tenha, a 100%, o formatoo tradicional de canção. Todos continuam a ser muito desconstruídos de dentro para fora. Deixei de ter vergonha de utilizar instrumentos convencionais, apesar de continuarmos a trabalhar com novos e velhos instrumentos e também com bocados de materiais. Já explorámos tudo o que tínhamos de explorar. Não é necessário continuarmos a repetir o mesmo modelo de disco para disco. Avancei para um terreno ainda pouco explorado por nós: as progressões harmónicas, sobre as quais ainda sei muito pouco.
. Ouvindo os discos mais antigos com atenção, é fácil descobrir que a linha desconstrutiva não é anárquica. De certo modo, os velhos temas dos Neubauten têm uma linha contínua, às vezes quase dançável.
- Sim. No início dos anos oitenta e até meados dessa década, trabalhámos com estruturas parcialmente dançáveis. Não vejo nenhum obstáculo entre os discos mais antigos e as nossas abordagens recentes. Os primeiros discos eram mais ritualistas, intensos e enérgicos. Este é uma espécie de inversão dessas sonoridades. "Silence Is Sexy" é uma continuação do que temos vindo a fazer. Se pusermos os trabalhos lado a lado, vemos que se completam.
. Três anos - desde "Ende Neu" - para fazer um álbum não é demasiado tempo para si? Foi difícil o processo criativo de "Silence Is Sexy"?
- O processo é sempre complicado para nós. Criamos problemas musicais que temos que ir resolvendo à medida que o tempo passa. Dizemos sempre "temos um ano para fazer o disco". Mas isso nunca resulta. Deparamo-nos com muitos becos sem saída. É como fazer um filme. Filma-se 10.000 metros e só 5000 são utilizados na montagem final. Este disco é muito longo. Podíamos ter parado aos 40 minutos, mas havia ideias que tinham que ser trabalhadas até ao fim. Tínhamos que criar totalmente este micro-cosmos. Nos Bad Seeds nunca teria estes problemas.
. Qual é a diferença do Blixa dos Einstürzende Neubauten e o Blixa dos Bad Seeds?
- É como falar duas línguas diferentes. Tocar com os Einstürzende Neubauten, como qualquer pessoa que tenha tocado connosco pode provar, é como falar uma língua estrangeira. Quando toco com o Nick Cave regresso a uma linguagem comum a várias pessoas. É mais fácil uma outra pessoa tomar o meu lugar nos Bad Seeds, mas já não se passa o mesmo com os Neubauten. O processo construtivo é completamente diferente nas duas bandas.
. É-lhe difícil mudar de uma banda para a outra?
- Não.
. Actualmente, a música electrónica e as remisturas são bastante populares, mesmo fora da "club Scene". Pensa que a fusão entre música electrónica e outras tipologias musicais (como a vossa), é um modo de criar novas e interessantes formas de música?
- Eu deixei de ouvir coisas novas, não porque me tenha deixado de interessar por música, mas porque o discurso corriqueiro que lhe está associado não me diz nada. Sei que a música electrónica se tornou muito visível. Eu cresci com os Can - Holger Czukai / Herman Schimt (sic) -, Kraftwerk, etc. Para mim, a música electrónica sempre foi vital, sempre foi normal. A Alemanha sempre teve uma grande tradição electrónica e não me surpreende que o techno seja, aí, tão forte.
. Vai deixar que "Silence Is Sexy", à semelhança de "Ende Neu", seja remisturado por outros músicos ou dj's?
- Não. Se voltarmos a remisturar alguma coisa seremos nós a fazê-lo.
. Costumam oferecer-lhe bandas para remisturar? Que banda gostava de remisturar?
- Estão sempre a oferecer-nos coisas para remisturar. Em especial bandas polacas estranhíssimas. [risos] Não tenho grande interesse em fazer remisturas, apercebi-me que esse processo é totalmente contrário à minha ideia de remistura. As remisturas tornaram-se numa desculpa para aplicar as nossas ideias no trabalho de outro artista. Para mim uma remistura é isso mesmo: voltar a remisturar as misturas originais. No nosso disco poucos o fizeram. Só o Jon Spencer e o Barry Adamson aceitaram trabalhar com as fitas originais e voltar, de facto, a misturá-las, mas mais ninguém o fez.
. Os Einstürzende Neubauten foram uma das mais importantes, seminais e admiradas bandas de Berlin dos anos 80. Olhando para o passado, como avaliaria a vossa carreira e trabalho, desde os princípios da música industrial?
- Quando nós aparecemos, no início dos anos 80, o termo música industrial, significava uma coisa totalmente diferente. Não se aplicava a nós. Era uma coisa utilizada para designar grupos como Throbbing Gristle e demais amigos de Genesis P Oridge. Agora aplica-se a grupos como Rammstein, Nine Inch Nails, Marylin Manson...
. Que não são, na realidade, grupos industriais.
- Exactamente. Isso faz com que exista um problema com a definição "industrial". Devia-se especificar se nos estamos a referir à primeira ou à segunda vaga de música industrial. No meio, entre meados dos anos 80 e 90, desapareceu totalmente. O termo renasceu na América e tenho que viver com essa falsa designação adoptada pelos media. Os discos dos Neubauten são enfiados na secção de música industrial. Não era isso que nós queríamos, mas é o que acontece.
. Em que categoria colocaria a música dos Neubauten?
- Na secção de folk ou de música sacra.
. Uma das coisas que aprecia são as percussões africanas.
- Em períodos em que nada se passava em termos musicais, e incluo 1977 e a revolução punk nesse nada, quando a world music ainda não tinha sido inventada, ouvia coisas como grupos de tocadores de tambores etíopes ou do deserto, coros galêses ou sons do extremo oriente.
. Então não gosta de punk...
- Não. Gosto muito do efeito social que o punk despoletou e também do que significou em termos de mudança da indústria. O poder-se fazer as coisas por nós próprios foi muito mais importante para mim, para os Neubauten, do que as guitarras ou os Sex Pistols como símbolo musical.
. Parece gostar de cantar papéis femininos. Em "Sand" faz as duas vozes e quando os Bad Seeds tocaram no Porto, em 1997?, cantou a parte da Kylie Minogue de "Where The Wild Roses Grow".
- Sim, gosto de cantar canções que foram escritas para mulheres. Quanto à parte da Kylie Minogue, quando gravámos o original de "Where The Wild Roses Grow", fui eu que cantei a parte dela. Ela recebeu uma cassete, para aprender a partir do que eu tinha gravado. Acabou por cantar exactamente com a minha fraseologia. Por isso, no Porto, eu não estava a imitar a Kylie Minogue. Estava a imitar-me a mim mesmo. [risos] Também já cantei "Johnny Guitar", originalmente cantada por Peggy Lee, que faz parte da banda sonora do filme homónimo. É o único western onde os homens não têm armas. Todas as armas estão na mão de mulheres. É um filme fantástico.
. E a Joan Crawford é sublime.
- É o melhor papel dela. Genial. Eu também gostava de cantar alguma coisa da Marlene Dietrich. Pensámos em gravar "Where All The Flowers Gone" para este disco, mas tivemos bastantes problemas com "Die Befindlichkeit des Landes", na qual eu só consegui introduzir a voz a seis de Janeiro, pois só nessa altura tive a melancolia necessária para o fazer. Foi necessário incutir a raiva através de uma terceira pessoa, de modo a não ser apenas um comentário cínico, ou uma versão moderna do cantor de protesto. "Where All The Flowers Gone" fazia parte desse jogo, mas acabou por não entrar no disco.
. O facto de gostar de cantar papéis femininos reflete-se, de algum modo, no seu trabalho? Tem alguma empatia especial com o seu lado feminino?
- Nunca pensei muito na razão dessa empatia. Tenho uma certa indiferença em relação aos papéis masculinos no mundo da música. Quando toco guitarra com o Nick Cave represento o papel tradicional. Uma guitarra é um símbolo fálico, um instrumento de poder, de machismo, de todas as coisas de que, musicalmente, não gosto. O meu modo de tocar guitarra é, geralmente, o oposto disso. Nasce do meu ódio a essas metáforas e conotações. Uma vez, o New York Times disse que eu tocava guitarra como quem espera um autocarro, para mim foi um elogio. Julgo que a minha falta de empatia com o cliché tradicional do rock faz com que me interesse mais pelas canções escritas para serem cantadas por mulheres. Mas não cantaria "This Boots Are Made For Walking" que é uma canção de homem cantada por uma mulher. É esse o fascínio da canção e eu só a tornaria estéril.
. De onde lhe veio a ideia do questionário onde interroga as pessoas sobre as suas recordações? Nunca o utilizou em Portugal pois não?
- Não, nunca o utilizei cá. O questionário serve-me de base a uma série de representações. Já as apresentei em: Berlin, Osaka, Buenos Aires, Londres, Estocolmo, Nova Deli e nos Camarões. São sempre feitas na língua nativa e resultam dos questiona´rios preenchidos anonimamente. Há sempre um cenário diferente, oradores e músicos.

. O que sente quando usa uma língua que não domina? Como reagem as pessoas?
- Era inútil ir ao Japão e ler a tradução das recordações dos japoneses em alemão. A reacção é sempre diferente. É muito estranho ouvir alguém ler as nossas próprias recordações. É um momento de transformação. Quando se entregam essas recordações, essas "Memórias Queridas" por escrito, elas ganham distância, tornam-se ficção, quase literatura. Passei dez dias nestas palestras e fiquei muito agarrado a algumas dessas memórias. Tornaram-se quase minhas.
. Nessas memórias, as dos japoneses eram mais chegadas à natureza e as dos ocidentais mais ligadas à pornografia.
- Porque diz que os japoneses estão mais ligados à natureza?
. Por várias razões. Os japoneses estão muito ligados à neve, à água, às flores, aos insectos. Aqui em Lisboa, no Museu da Gulbenkian, há um grande espólio de caixas usadas para guardar insectos.
- De facto, o mais curioso nas recordações japonesas era uma enorme ligação aos insectos. Mas nas memórias africanas, nos Camarões, não existe nenhuma ideia de natureza. Falam da aldeia, da selva. Mas quando lhes perguntamos se têm alguma "Memória Querida" ligada à natureza, respondem: "a morte da minha avó".
. Porque ela regressa ao solo.
- Não. A nossa ideia de natureza é muito eurocentrista. O conceito de natureza em África, é totalmente diferente. Não consideram as árvores, os pássaros, a floresta, natureza. Natureza são os ciclos da vida. Essa descoberta foi muito interessante, porque me mostrou que as p´roprias perguntas eram muito eurocentristas.
. Já fez trabalhos para teatro: Heiner Müller, Werner Schawab.
- Heiner Müller é um amigo da banda. Em vinte anos de Einstürzende Neubaute apenas fizemos música para duas peças, o que não é muito.
. Já pensou em fazer ou em escrever teatro?
- Estou a pensar encenar algo que não seja meu. Sempre que faço as "Memórias Queridas" enceno todo o espectáculo.
. Lembra-se do concerto de há seis anos em Lisboa?
- sim. Gostei da assistência e do local do concerto. Lembro-me de sair do local e toda a gente me saudar. Foi muito agradável.
Raquel Pinheiro / Vitor Afonso
 






2.3.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (35) - Mondo Bizarre - Nº 10 - Fevereiro de 2002


Mondo Bizarre
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Nº 10 - Fevereiro de 2002
80 páginas a p/b, com capa e contracapa a cores.




Os Melhores do Ano 2001
1 - White Stripes - "White Blood Cells" (Sympathy For The Record Industry / MVM)
2 - Zen Guerrilla - "Shadows On The Sun" (SubPop / Música Alternativa)
3 - Strokes - "Is This It" (BMG)
4 - Stephen Malkmus - "Stephen Malkmus" (Domino / Ananana)
5 - Mark Lanegan - "Field Songs" (Beggars Banquet / MVM)
6 - Nick Cave - "No More Shall We Part" (Mute / Zona Música)
7 - Sparklehorse - "It's A Wonderful Life" (Capitol / EMI)
8 - Ryan Adams - "Gold" (Lost Highway / Universal)
9 - Mercury Rev - "All Is Dream" (V2 / Zona Música)
10 - Lift To Experience - "The Texas Jerusalem Crossroads" (Bella Union / Symbiose)
11 - The (International) Noise Conspiracy - "A New Morning, Changing Weather" (Burning Heart / Música Alternativa)
12 - New Order - "Get Ready" (London / Warner)
13 - Smog - "Rain On Lens" (Domino / Ananana)
14 - Rufus Wainwright - "Poses" (Dreamworks / Universal)
15 - Radiohead - "Amnesiac" (EMI)
16 - Dirtbombs - "Ultraglide In Black" (In The Red)
17 - Jim White - "No Such Place" (Luaka Bop / EMI)
18 - Fugazi - "The Argument" (Dischord / Sabotage)
19 - Bonnie "Prince" Billy - "Ease Down The Road (Domino / Ananana)
20 - Tool - "Lateralus" (Zomba / EMI)

Entrevista
Rafael Toral
Guitarra, Frequências e Sons
Há pelo menos 15 anos que Rafael Toral vem desenvolvendo criações e pequisas que tem por base a guitarra eléctrica. Um pouco por causa dos recentes concertos com Lee Ranaldo, aproveitou-se uma antiga ideia de fazer uma breve mostra do trabalho de Rafael Toral, cujo resultado aqui se mostra.
. e ainda mantem o seu emprego "diurno", como conjuga isso com a sua actividade de músico/compositor?
- É por essa razão que sou tão lento e o meu trabalho tão escasso em quantidade. Mas não vejo outra opção.
. O seu nome é reconhecido e admirado por muitos músicos estrangeiros - Lee Ranaldo, Thurston Moore, Jim O'Rourke, Mike Patton, Duane Denison, etc. -, e elogiado sem reservas por publicações como a Wire ou a Révue e Corrigé. Por cá a relevância do seu trabalho parece passar mais ou menos ao lado. Isso aborrece-o?
- É um hábito português, ou, pelo menos, lisboeta, o encontrar conforto na mediocridade. Enquanto formos todos medíocres, está tudo bem. Agora se alguém começa a ganhar notoriedade, torna-se um problema, uma pedra no sapato. Gera-se um distúrbio na mediocridade e há que fazer tudo para que ela regresse. Já senti muitas vezes que alguns sucessos que eu tenha tido criaram incómodo e mal estar por aqui. Não me afecta nada, mas é triste, naturalmente. Felizmente, existem "ilhas" que funcionam noutro patamar, mais internacional e iluminado, como a Fundação de Serralves.
. Acha que um dia lhe acontecerá o mesmo que a Emmanuel Nunes e finalmente, verá a sua obra condignamente divulgada?
- Não faço ideia nem quero pensar nisso. A música que faço é para o planeta todo, não me preocupo com essa dimensão local.
. Olhando para a sua carreira, que tem sido rica em experiências, qual a relevância que dá a estas duas apresentações (Casa de Serralves, Gulbenkian) com Lee Ranaldo?
- Há já vários anos que tínhamos esta ideia de tocar ao vivo em duo, e houve várias ocasiões apontadas, que nãos e realizaram por uma ou outra razão. Sinto que é um passo importante, porque o Lee foi uma figura influente e importante no meu percurso, e agora (salvo a diferença dos caminhos percorridos) cheguei a um estado de maturação que permite estarmos num palco em confronto directo, de igual para igual.
. Chicago é vista como uma cidade emblemática da música experimental. Que visão tem da chamada "Chicago Scene"?
- É uma das cidades que melhor me acolheu e com a qual ainda mantenho laços muito fortes. Para além da sua concentração de músicos excelentes por metro quadrado, aquilo que torna Chicago tão especial será, com certeza, a qualidade do público.
. Boa parte do seu trabalho tem residido na ressonância. Primeiro com a guitarra e depois em Cyclorama Lift - Aeriola Frequency - apenas com um circuito vazio. O que lhe resta para descobrir nesse capítulo?
- Sendo a minha atitude criativa baseada na descoberta, não sei o que tenho ainda para descobrir, só mesmo descobrindo - passe a redundância ... mas considero-me satisfeito com o que já realizei nesse campo.




. Depois, com "Violence Of Discovery And Calm Of Acceptance", encerrou um período de 15 anos durante os quais foi trabalhando meticulosas peças para guitarra...
- É um disco que atravessa todos os outros, reúne todos os caminhos percorridos em trabalhos anteriores e abre novas abordagens. É o meu disco mais importante de sempre, e creio que mais importante que os próximos também.
. Agora edita um disco com trabalhos antigos. A ideia que dá é que tem vindo a encerrar ciclos criativos. Isso permite-lhe avançar para novas experiências - abandonando o que está para trás ou simplesmente integrando o passado na criação de algo novo?
- Penso que tenho mais tendência para integrar o caminho percorrido até ao presente, uma vez que o meu campo de acção é muito preciso e específico. Esta próxima edição, "early Works", tem, curiosamente, o efeito de marcar justamente o início do percurso que se conclui com "Violence of Discovery...". Colocados lado a lado, nota-se uma continuidade entre eles.
. Pontes metálicas lembram-me sempre essas pontes de ferro, em particular para combóios, de que existem vários exemplos em Portugal. Foi nelas que se baseou para "Bridge Music"?
- Esse projecto ainda não arrancou. É inteiramente baseado em pontes rodoviárias. Tenho já cerca de oito horas de gravações em pontes de todo o mundo, desde a 25 de Abril à Golden Gate. É um trabalho em que quero explorar a ressonância nas suas estruturas. Mas sabe-se lá quantos anos se passarão até começar a produzir... É um projecto que tenho desde 1992.
. "Love" é a sua homenagem a John Cage. Parece evidente que o considera um compositor essencial. Mas até que ponto é possível dizer que Cage está presente nos seus trabalhos?
- Talvez essa influência não se revele muito a nível formal. Sempre mantive que aundo somos inspirados pelo trabalho de alguém, essa influência pode ter resultados mais interessantes se se manifestar a nível conceptual - desse modo, a mesma ideia pode ter expressões muito diferentes. Quando dizemos que "A" soa a "B", isso revela uma influência a nível formal, o que indica uma influência mal resolvida criativamente, um nível de exigência pobre, ou ambos. Cage está presente nos meus conceitos de som, ruído, controlo. E em muitos outros níveis que são já praticamente subconscientes. O projecto "Love" também está em suspenso, falta realizar uma peça ou duas. As peças dele exigem um grau de disciplina e rigor inimagináveis, mesmo que não pareça...
. "Early Works" tem apenas peças suas ou também alguns dos temas que faziam parte do reportório dos S.P.Q.R.?
- Não, são apenas trabalhos compostos depois da dissolução desse projecto. Não faria sentido editar esses materiais, por não terem consistência conceptual.
. Tem alguns planos para "ressuscitar" os S.P.Q.R.? Digamos que o projecto deixou uma, muito pequena, mas adorardora minoria saudosa.
- Não. O projecto desapareceu porque os restantes elementos optaram claramente por outros caminhos (a outra "metade" continuou como baixista dos Mão Morta, está bem longe em termos estéticos) e eu limitei-me a continuar sózinho. Mas, sinceramente, reconheço muito mais valor no trabalho que desenvolvi a partir daí.
. Vê a sua passagem pelos "Pop Dell'Arte como uma "experiência" de laboratório? O que levou dos Pop Dell'Arte para as suas peças a solo?
- Quando entrei para os Pop Dell'Arte já tinha iniciado claramente o meu percurso de pesquisa com a guitarra, assim como já havia iniciado algumas práticas experimentais, que levei para o grupo e no qual as desenvolvi. Foram importantes, nessa altura, o contacto com o Nuno Rebelo e Nuno Canavarro.
. E os No Noise Reduction, que papel têm na sua aprendizagem / capacidade de criação?
- NNR é, ou foi, um projecto sem contornos definidos, antes um espaço criativo onde o Paulo Feliciano e eu nos dedicámos a abordagens e desafios radicais, resultando em trabalhos que nenhum de nós faria sózinho. Uma espécie de laboratório experimental, de onde resultaram muitas práticas e técnicas que integrámos nos nossos respectivos trabalhos. Essa relação de cumplicidade mantém-se, agora absorvida por projectos desenvolvidos com outro enquadramento e noutra escala, como o projecto Houselab (com Rui Gato, Helder Luís e Rui Toscano).
. Lembra-se de um antigo projecto, que se não me engano se chamava Optimistic Kheops onde, entre outras coisas, se faziam sons com o soprar de bolinhas de sabão, aspiradores e máquinas de lavar?
- Já me tinha esquecido disso! Existe uma cassete, agora me lembro, mas foi gravada depois das invasões napoleónicas e espero que já se tenha desfeito em pó.
. O seu trabalho em nome próprio não tem as características geralmente dadas como as do rock. No entanto, como produtor trabalhou com vários grupos rock. O rock, como linguagem não lhe interessa?
- Já não é a primeira vez que me fazem essa pergunta. O meu trabalho tem o rock como ponto de partida, e é ao mesmo tempo um derivado longínquo e uma síntese abstracta e essencial. Isto aplica-se principalmente aos meus trabalhos principais, "Wave Field" e "Violence of Discovery". Interessa-me mais, é claro, ocupar uma posição em relação ao rock que mais ninguém tem do que tentar fazer rock, que é muito mais simples tecnicamente e é um território super-povoado.
. Está-se a ver a editar um disco como "Insignificance", de Jim O'Rourke - que parte dos clichés do rock sulista (linha Lynyrd Skynnyrd), ou fazer versões dos AC/DC?
- Fazer versões dos AC/DC?? Hmm, não, obrigado... embora deva admitir que fui um grande fã desse grupo, quando tinha 10 ou 11 anos. Um disco como "Insignificance", só mesmo um Jim O'Rourke para o fazer. Mas tenho um projecto para um disco de canções - não faço é ideia se alguma vez pensarei nele a sério.
. A tecnologia tem evoluído ao longo dos anos até que ponto se reflete essa mesma evolução no seu trabalho e abordagem sonora?
- A minha abordagem aos materiais concretiza-se com recurso à tecnologia, mas é esta que serve aquela e não o contrário. A minha evolução é idependente da evolução tecnológica, embora esta possa introduzir novas opções que serão de considerar...
. Numa recente entrevista à revista Wire, a contrabaixista Joelle Léandre dizia que, actualmente, os compositores já não são como há um quarto de século, pois agora estudam composição e harmonia mas não tocam instrumentos. Concorda com essa afirmação?
- Acho que essa afirmação está pelo menos uns bons três quartos de século atrasada. A harmonia como elemento estruturante da composição começou a ser "demolida" no princípio do século passado. Também o conceito de "instrumento" já foi expandido há muito, muito tempo, e continua a sê-lo. Mas isso foi com certeza dito num meio académico mais restrito (e mais parado no tempo, também).
. Acha que isso - o facto de não se tocar instrumentos - se reflete na qualidade e na inventividade da música?
- Acho que a falta de uma prática qualquer sobre a criação sonora seria uma séria limitação à criação musical. É como construir algo sem conhecer os materiais de construção, ou conhecê-los apenas por catálogo...
. Voltando a John Cage. A ausência de som, ou o silêncio como obra de arte, cujo ponto alto é 4'33", é uma coisa real? O silêncio existe mesmo? É que, mesmo dentro de uma "Camara Silens", diz-se, ouvem-se duas coisas: o nosso coração (e o sangue que corre nas veias) e os nossos nervos...
- Ausência de som e silêncio são coisas totalmente diferentes. Ausência de som é aquilo que poderemos experimentar depois de falecermos, mas claro que não vamos poder contar a ninguém como foi. O silêncio, realmente, não existe. Cage conseguiu esta inversão fabulosa em 4'33", em que compôs um silêncio que consiste na ausência de sons emitidos por um músico, mas cujo conteúdo musical é tudo o que se ouve durante essa duração. O silêncio transformou-se no infinito do som.
Raquel Pinheiro






6.1.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (13) - Mondo Bizarre - Nº 17 - Novembro de 2003


Mondo Bizarre
Nº17
Novembro de 2003 (80 páginas)
Revista Trimestral - Portugal

Prosseguindo com a divulgação da Mondo Bizarre...

A apresentação deste fanzine / magazine / revista já foi feito neste post.

Desta vez ficamos com uma entrevista aos Loosers.

Este número é muito rico e, entre outras coisas (se quiserem ter acesso a alguma(s) dela(s), é só apitar por email), contava também com:
. Johnny Cash 1932 -2003 (artigo + discografia seleccionada)
. X-Wife - Electrónica de Garagem (entrevista)
. Matmos - Micrografias Sónicas (entrevista)
. Animal Collective - Ou Neve, Tanto Faz... (entrevista)
. The Silver Mt. Zion Memorial Orchestra & Tra-La-La Band With Choir - Este É O Punk Rock Deles (entrevista)
. Stealing Orchestra - Uma Orqeustra Na Twilight Zone (entrevista)
. Crammed Discs - Para Acabar De Vez Com Os Anos 80 (artigo)



LOOSERS

Números, Cigarros e Disco

Primeiro foi o passa palavra. Depois, um pequeno sururu. Em seguida, o nome Loosers transbordou para fora do limitado círculo de eleitos que acompanha as vanguardas e as últimas sensações. Depois um punhado de concertos electrizantes, os Loosers, trio sediado em Lisboa, edita "6 Songs EP", disco que se revela um falso EP. Tiago Miranda (Voz, sintetizadores) e Rui Dâmaso (baixo) levantam a ponta do véu.

. O vosso nome intrigou-me e tenho uma teoria acerca dele. Como sabem, os computadores não abarcam a derrota pois são feitos de 0 e 1. Não existem sinais negativos. Enquanto que o ser humano tem essa capacidade. Era essa a vossa ideia ao escolherem o nome?
TM - Sabes que este "Loosers" não é o loser comum da falha. É o intermédio entre um e outro. É mais oo desleixe e o relaxe. Mas nunca foi nada pensado, filosófico. Sabes foi tipo... havia propostas... mas como qualquer nome de banda quando as pessoas se reúnem para escolher, cada um trouxe um nome e depois saiu...
RD - Andamos imenso tempo a brincar com isso... com nomes...
TM - Tipo... Blazers, Lazers, Loosers... e ficou.
. Lançaram o "6 Songs EP" com 6 canções e três de bónus. Porquê a denominação EP e não álbum?
TM - A ideia desde o princípio era gravar um EP e pouco mais que isso. Mas depois batalhamos um pouco, mas sempre nos chateamos por não registarmos as coisas. Mesmo gravando os ensaios havia sempre temas que ficavam de fora e de que nós gostávamos muito e tínhamos pena de não editar. E esses três temas são o exemplo disso, entre muitos outros. Entre várias que ficaram gravadas de ensaios, uma foi mesmo retirada de um ensaio, sem grande captação, através de uma câmara de vídeo. E como esse temos outros, temos ensaios completos. Temos álbuns inteiros feitos aí e não nos desagrada por inteiro o tipo de som.
RD - Foram retalhos que nós quisemos aproveitar. O som da sala de ensaio...
TM - Não é uma afirmação tipo "estávamo-nos a cagar para o estúdio". Mas queremos mesmo dar isso ao público. Pois isso faz parte do espírito. De como as coisas surgem para nós. Em termos de gravação e criação. Porque nos ajuda a fazer coisas. Pois ouvimos e vemos o que gostamos ou não.
. Como é que surgiram realmente os Loosers? Algumas pessoas sabem que o Tiago é DJ na Discoteca Lux, que faz (fazia?) parte dos Pop Dell'Arte. Mas em relação ao resto da banda existe um desconhecimento quase total para o público em geral.
TM - Esse trabalho que temos extra-banda acho que tem muita relevância. É tão importante eu ser DJ, como o Rui trabalhar no Teatro Nacional ou o outro elemento não ter emprego.
RD - Nós já tocamos há muito tempo juntos, fosse em outros projectos, mas sempre tivemos afinidades uns com os outros. Mas Loosers é recente, apareceu de repente.
TM - Mas querias saber como surgiu?
. Sim. Como aparecem os Loosers.
TM - Eu não sou de Lisboa, vim para cá há 10 anos e para aí na segunda ou terceira noite conheci-os, e no dia seguinte fomos tocar juntos. E desde aí fomos tocando juntos, sempre a partilhar esta vontade de fazer coisas.
RD - Loosers veio na sequência de umas alterações que houve na banda, na formação. Um vocalista que tínhamos foi-se embora... e nós queríamos sempre continuar. E às tantas surgiu isto. E isto surge numa certa descontracção, este som... quase sem rótulos.
. Pelo que dá para perceber a vivência nocturna influenciou a vossa postura e até a ligação entre os elementos. Como foi chegar ao ponto de terem alguns temas e...
RD - Não houve um trabalho para atingir. Numa altura decidimos mudar. Tomámos uma decisão e mudámos. Eu passei a tocar baixo, o Tiago a tocar guitarra e a cantar. Como se fosse começar do princípio. E a partir daí as cosias começaram a surgir. E a tocar com um amplificador de guitarra ainda, o Tiago com um piano de brincar e as coisas começaram a surgir.
. Como chegaram ao "6 Songs EP"? Sentiram a necessidade de pôr as coisas em disco?
TM - É um pouco como te disse. Íamos gravando as coisas e tínhamos dado muitos concertos. Mas o convite surgiu porque trabalhávamos ali todos e as coisas surgiram por proximidade. E por interesse das pessoas. E nós aceitámos. Porque queríamos fazer isso. Era uma nova etapa, uma nova experiência.
RD - Conseguimos orientar as coisas que era preciso. Fomos gravar a um estúdio, com muitos favores de muita gente, mas lá conseguimos gravar e depois editar e está feito.
. Os Loosers têm um som que facilmente é associado a uma "moda". Acho que vocês p´roprios não fogem a isto. Como gerem isto? Estas ligações? Estes rótulos?
TM - O principal é que eu acho que isto não vai durar muito tempo no sentido em que não quero ser um dinossauro com esta banda. Não me preocupo se estou na moda ou deixo de estar. Faço aquilo que me apetece, o que sentimos vontade. Aquilo que também acontece é que existe uma abertura do público para aceitar outro tipo de coisas e vê-las como canções. As coisas estão a ser aceites de outras formas. Se é moda ou não, não sei. Mas espero que isto possa avançar e não estagnar na fórmula. E daqui paratir-se para outro ponto qualquer.
RD - Mas quando as pessoas nos vêem acho que se baralham um bocado. Quando tocamos ao vivo variamos um bocado e acho que os rótulos se dissolvem.
TM - Não me chateia nada ser rotulado com isto ou com aquilo. Acho que as pessoas precisam disso para te conhecer e identificar. É porreiro quando andam com uma t-shirt dos Nirvana, acho salutar. Todos precisam de se identificar. Mas também não temos procurado aquele som de baixo do disco de 2003. Espero que as pessoas se divirtam a ouvir as coisas e que principalmente as sintam, seja moda ou deixe de ser.
. As pessoas realmente precisam de uma identificação. Como um elo de ligação entre os vários gostos de cada pessoa. Quando falei em moda também gostava de falar em relação ao Tiago como DJ do Lux, que vai servindo como pistas para uma relação entre a banda... Tu sentes o peso da responsabilidade?
TM - Sinto isso a outros níveis que me preocupam mais do que este. Assusta-me esta cidade ser muito pequena e toda a gente saber quem tu és, quem é a tua namorada. Isso acontece em tudo. Mas acho que não tem de haver uma ligação muito directa a isso porque eu posso pôr música, posso ser pintor, ser escritor... não digo que posso ser um fascista e um comunista ao mesmo tempo... se calhar até posso... Mas acho que somos livres de fazer uma data de coisas mas sem que haja uma ligação tão profunda entre umas e outras. Neste caso há que é a música, claro. Mas não deixam de ser coisas distintas, pois aquilo que sinto a fazer uma é diferente daquilo que sinto a fazer a outra. E as duas são boas e gosto de as fazer, mas chateia-me um bocado só no sentido em que... sei que há-de chegar a hora e quando as pessoas fizerem essa pergunta hão-de dizer "é a banda do Rui Dâmaso" e as pessoas hão-de saber... ou espero... espero que isso aconteça.
. Uma das vossas características é a presença em palco. A vossa energia e alegria... É isso que sentem?
RD - É!
TM - Eu acho que sim, que tem sido, porque é verdade que gostamos tanto de o fazer ali, como em salas de ensaios. Gostamos de partilhar essas coisas.
RD - É mesmo o som. Ele transmite-nos imenso. Nós tocamos mesmo muito alto e com os amplificadores altos e a bateria. E mesmo nos ensaios. Aquilo tem muita potência, e o pessoal vibra com isso, provoca algum arrepio...
TM - Mas é um bocado relativo, [há bandas] que tocam muito alto e não dizem absolutamente nada...
RD - Não estou só a falar do volume... O volume conta mas até chegar ao arrepio. Não sei o que quer dizer mas eu sinto-o.
TM - No palco isso passa para nós, mais do que passa o público. Siceramente quando estou a tocar ainda não senti o público assim a vibrar. Mas eu sinto quando olho para os outros elementos e se calhar isso sai para fora.
Gonçalo Castro.





28.8.13

k7 pirata - #3: Vítor Rua - Entrevista RUT, 1988




Vítor Rua - Entrevista_RUT_1988 by Luis Jeronimo on Mixcloud



Entretanto... I was there!





3.12.08

Michael Rother - Entrevista


INVISIBLE JUKEBOX
MICHAEL ROTHER
TESTED BY MIKE BARNES
WIRE 290 – ABRIL DE 2008


LINK 1: Lust (1983)
LINK 2: Sterntaler (1977)
LINK 3: Flammende Herzen (1976)
LINK 4: Harmonia & Brian Eno - Tracks & Traces / Harmonia 76
pw = posted_first_at_chocoreve
LINK 5: Harmonia - Musik Von Harmonia
LINK 6: Harmonia - Deluxe
LINK 7a: Michael Rother - Esperanza
LINK 7b: Michael Rother - Esperanza
LINK 7c: Michael Rother - Esperanza





Michael Rother está na posição privilegiada de ter sido membro de três dos grupos mais influentes do movimento Krautrock dos anos 70. Após a aprendizagem efectuada no grupo Spirits of Sound, de Düsseldorf, entrou em digressão numa primeira encarnação dos Kraftwerk, formados então pot Florian Schneider, Klaus Dinger e ele próprio. A ligação com Dinger, um baterista, conduziu à formação dos Neu! Em 1971. O seu som era caracterizado por um ritmo implacável, que os críticos baptizaram de ‘motorika’ (‘cacacidades motoras’ em alemão), apesar de os seus três álbuns oficiais – Neu!, Neu! 2 e Neu! 75 – também explorarem aproximações mais abstractas. Para além dos Neu!, Rother também tocou com o duo Cluster de Dieter Moebius e Hans-Joachim Roedelius nos Harmonia, que editaram dois álbuns – Musik From Harmonia e Deluxe – de exploração proto-electrónica, entre 1973-1976. Uma colaboração entre os Harmonia e Brian Eno, Tracks and Traces, foi gravada em 1976 no estúdio dos Cluster, na cidade de Forst mas permaneceu sem edição até 1997. Um álbum concerto dos Harmonia, Harmonia Live 1974, foi apenas desenterrado em 2007.
Depois dos Neu! terem terminado, Rother iniciou uma bem sucedida carreira a solo com Flammende Herzen (1977), Sterntaler (1978) e Katzenmusik (1979), todos com a participação do baterista dos Can, Jaki Liebezeit. Desde então editou mais sete álbuns, o último dos quais em 2005, Remember (The Great Adventure), no qual colaboraram a vocalista e violoncelista britânica Sophie Williams e a estrela rock alemão Herbert Grönemeyer (fundador da editora Grönland), Asmus Tietchens, Andi Toma dos Mouse on Mars, Jake Mandell e outros. Em 2007, os Harmonia reataram a sua actividade depois de um hiato de 31 anos, com um concerto na Berlin’s Haus Der Kulturen Der Welt.
A Jukebox teve lugar no escritório do amigo e colaborador de Rother, Thomas Beckmann, em Hamburgo.

The Monks
“We Do Wie Du”
From Black Monk Time (Repertoire) 1966

Não conheço a canção. Soa muito anos 60, algo como os Sam The Sham And The Pharaohs.
Na realidade são os The Monks em 1966. Eles eram militares americanos estacionados na Alemanha.
Sim, eu ouvi os The Monks, só não estou familiarizado com as canções.
Como descreveria a cena rock alemã dos meados dos anos 60?
Não havia praticamente qualquer cena de música pop ou rock alemã a acontecer naquela altura. O meu pai trabalhava na Lufthansa e nós tínhamos vivido em Karachi desde 1960. Quando regressei do Paquistão em 1963, os Beatles tinham aparecido e aquele era o tipo de música que me interessava na altura. Depois em 1964 adquiri a minha primeira guitarra, tocava os Beatles, os Kinks, a maioria das bandas inglesas famosas. Vi os Pretty Things em 1965, o que realmente me impressionou. Gostei da imagem do menino-mau [risos].
Na Alemanha havia bandas, como os The Lords, que eram ridículas. Tu ouve-las e pensas, ‘Não, vocês não podem fazer uma coisa destas’. Foi esse o modo como entrámos na música, quando me juntei aos Spirit of Sound em 1965, com a minha primeira guitarra eléctrica. Tinha 15 anos, por isso tinha heróis e nós tentávamos copiá-los o melhor que conseguíamos. Não tínhamos qualquer ideia de compor qualquer coisa nossa.
Ouvir Hendrix deve ter sido um choque…
Não me lembro bem da primeira vez que vi Jimi Hendrix… Penso que foi na altura de “Hey Joe”, quando ele apareceu no Beat Club, um programa de TV alemão. A sua apresentação foi diferente, e o seu primeiro álbum impressionou-me realmente. Era tão experimental, a maneira como ele usava e tratava a guitarra. Penso que foi a minha maior inspiração naqueles anos. Ainda o é, de certo modo. Não podes dizer que é uma coisa datada, na verdade.
Quando é que começou a olhar para além dos músicos que copiava?
Isso foi um processo gradual. Durante dois ou três anos melhorámos. Éramos famosos em Düsseldorf e arredores, tocando frequentemente em festivais e bailes de escolas. Foi uma coisa paralela com o desenvolvimento da minha personalidade. Quando 68 chegou com a turbulência política, e a guerra do Vietname, isso também nos levou a pensamentos acerca da individualidade. Começámos a improvisar mais e a desenvolver novas ideias e estruturas durante 1969 e 1970.
Na altura eu trabalhava num hospital psiquiátrico, realizando serviço cívico como objector de consciência. Por isso foi uma feliz circunstância, na verdade, quando encontrei ali outro guitarrista. Sendo ambos guitarristas e trabalhando no mesmo local semi-fechado no hospital onde atendíamos pacientes em terapia da arte, também fazíamos, ocasionalmente, música com alguns dos pacientes mais novos que sabiam tocar algum instrumento.
Infelizmente não recordo do seu nome, mas ele tinha um convite para se juntar a uma banda de estúdio chamada Kraftwerk, para fazer música para um filme. Juntei-me a ele e terminei a falar com o Ralf Hütter. Foi a primeira vez que havia outro músico com os mesmos sentimentos de harmonia e melodia. Não tínhamos de dizer tudo, começávamos apenas a tocar e descobríamos que não havia notas azuis ali. Ralf Hütter deixou o projecto por seis ou sete meses – e o Florian Schneider queria colocar os Kraftwerk em palco. Ele e o Klaus Dinger tinham ouvido a nossa improvisação e por isso convidaram-me. E assim uma coisa levou à outra.

David Bowie
“V2-Schneider”
From Heroes (EMI) 1977

[Ouvidos bem atentos] Soa como Neu!. Pode entrar no “Negativland” a qualquer momento. Bem, nunca ouvi isto antes. Vai descobrir que eu raramente conheço qualquer música. É uma mistura interessante: um pouco dos dias de hoje, um pouco de baixo negro dos anos 70 e uma bela melodia dos anos 60, princípios de 70. Por favor, diga-me o que é.
É David Bowie, do seu período Berlim, no fim da década de 70.
A sério? Já não o ouvia há que tempo. Habitualmente tenho uma memória melhor que isto, devo dizer. Soa um pouco como [o grupo de Klaus Dinger] La Düsseldorf.
Não disse uma vez que o David Bowie o convidou para tocar no Heroes e você declinou?
Isso ainda se diz. E não é verdade [risos]. O estranho é que o David parece ter acreditado nisso até 2001 mais ou menos, quando nós trocámos alguns emails. Porque algumas pessoas lhe contaram que eu tinha mudado de ideias, aparentemente, e a mim contaram-me que ele tinha mudado de ideias acerca da nossa colaboração. O que eu sinto é que algumas das pessoas à volta de David Bowie estavam um pouco receosas do caminho que ele estava a tomar, mais experimental. Um músico contou-me recentemente que os seus fans o odiaram por ele ter mudado e as vendas terem ido por aí abaixo. Provavelmente os seus agentes pensaram ‘Agora ele está a convidar o Michael Rother, outro daqueles alemães loucos. Quem sabe a influência que ele irá ter na sua música?’ Talvez eles tenham querido ajudar o David e talvez isso tenha sido feito com a melhor das intenções comerciais, mas, claro, negligenciando a sua vertente artística.
Falou com ele acerca de algumas ideias?
Detalhes não. Falámos por telefone, e tudo era muito entusiástico. Eu até propus que deveríamos convidar o Jaki Liebezeit [baterista dos Can]. Na altura já tínhamos gravado o meu primeiro álbum a solo, Flammende Herzen, e eu sabia que ele seria um baterista perfeito. Perguntei ao David que ideias ele tinha, o que queria que eu tocasse, mas nada de detalhes. Eu dificilmente faria o que ainda hoje não faço. Nada de muitas conversas sobre música, apenas fazê-la. Quando ouço hoje o Heroes, penso que soa muito bem. Talvez eu o tivesse estragado? Nunca o saberemos.

Stereolab
“Jenny Ondioline (Alternate Version)”
From Oscillons From The Anti-Sun (too Pure) 1993

Oh sim… claro que os conheço. Vi-os com o Thomas [Beckmann] quando tocaram aqui, em 1995.
O que pensou quando ouviu os Stereolab pela primeira vez?
Eles admitem perfeitamente que se basearam nos Neu!, especialmente nesta faixa, que usa uma linha de baixo de “Hallogallo”. Foi uma experiência estranha porque o Thomas conhecia os Stereolab e disse, ‘Vamos a este concerto’, e eu não os conhecia. Estava ali de pé e pensei, ‘Ih, estou a ouvir-me a mim próprio!’ Claro que adicionaram elementos novos. Adoro as vozes – belas. Adoro esta canção; tem um balanço realmente bonito. De certo modo é inspirador para mim também, por isso andamos aqui à volta. A direcção é directamente para o horizonte, o que era uma das principais ideias por detrás da música dos Neu!. Há uma opinião comum que a música dos Neu!, tal como dos Kraftwerk, tem um sentimento de movimento constante, tal como conduzir na auto-estrada. Mas é diferente com os Kraftwerk. Eu não concordo que a música dos Kraftwerk tenha a mesma direcção para o horizonte.
Dá-lhe prazer que a influência dos Neu!, especialmente, tenha sido tão disseminada?
Tenho de ser honesto e dizer que claro que isso agrada a um artista. É um cumprimento, mas também temos de controlar os sentimentos como esse porque é importante progredir. Isso tende a que fiques parado onde estás se te preocupares muito com as reacções.

Moebius & Beerbohm
“Narkose”
From Double Cut (Sky) 1983

Não faço ideia onde colocar esta música. Tem um bocadinho daquele som de Farfisa adoentado que costumavam usar nos anos 70. Não o ouvia há que tempos mas vem-me à mente os Moondog. Dê-me uma pista.
Participa alguém com quem trabalhou muito.
Conny Plank? Dieter Moebius? É Moebius?
Sim, com Gerd Beerbohm.
Eu devia ter reconhecido o Moebius, mas aquele órgão distraiu-me. Talvez seja a influência do Beerbohm.
Como foi a recente reunião dos Harmonia para um concerto em Berlim? Você brincou e disse que o principal objectivo seria não passarem por parvos.
Eu disse isso muito a sério porque as expectativas eram tão elevadas e tu pensas, a que soarás agora? Devemos soar a como soávamos há 30 anos, ou devemos esquecer tudo acerca do que as pessoas esperam? Há diversas maneira de o fazer. Então, tens de encontrar o equilíbrio entre viver no passado, no presente e no futuro.
Quando fomos convidados para esse concerto, perguntaram-nos se poderíamos aceitar a junção de um coro, porque a Barbara Morgenstern é a líder do coro e eles queriam mesmo participar. Todos nós ficámos um pouco na incerteza porque pensámos que teríamos grandes problemas para ter tudo OK sem um ensaio sequer e depois, ainda por cima, termos um coro que não conhecíamos. Cada um de nós enviou-lhe música e informação. Ela queria tocar uma canção de cada um de nós. Eu estava tão ocupado que apenas lhe dei a informação que seria em B menor e teria 136 beats por minuto. Pela primeira vez desde 1976 trabalhar em conjunto como Harmonia, penso que nos saímos bastante bem, mas sei que temos de melhorar para a próxima vez.
As suas duas perfomances com Moebius foram improvisadas ou a música foi composta?
É mais dois espectáculos a solo no palco, uma faixa do Dieter, uma faixa minha, e por aí fora. O outro pode juntar-se espontaneamente, sempre que possível. Não sei se conseguiremos encontrar uma combinação que funcionemos dias de hoje, pois nós seguimos em direcções diferentes. Se ouvir o Harmonia Live 1974 [editado no ano passado pela Grönland], e pensar que está óptimo, isso é apenas parte da verdade. Aquele foi provavelmente o melhor concerto que demos e nós tivemos muitos concertos em que a coisa não resultou no que toca a encontrar o momento certo no desenvolvimento de ideias.

Franco
“Attention Na Sida”
From The Rough Guide To Franco: Africa’s Legendary Guitar Maestro (World Music Network) 1987

Estão a cantar acerca da Sida?
Sim, foi escrito pelo guitarrista do Zaire, Franco, que morreu de uma doença relacionada com a Sida 2 anos após esta música ter sido gravada. Nós queríamos saber se este estilo de ‘rumba’ teve alguma influência em si.
A sério? [Risos] Bem, isso pode ser discutido. Tudo o que me consigo lembrar é acerca do meu último álbum, Remember (The Great Adventure), em que há uma canção intitulada “He Said”, que toquei com um instrumento electrónico, mas tinha sons de guitarra e outros adicionais que talvez fossem mesmo nesta direcção. Eu não sei realmente dizer se fui inspirado [por esta forma de tocar guitarra], mas claro que adoro o fado Português, e penso que tudo aquilo que ouves como músico e que gostas, e a que o teu coração se mostra aberto, deixa algumas marcas. Muitas coisas acontecem por acaso – Eu apenso sigo uma linha de algo que me impressionou. Não sou um caçador, sou um recolector. Permito-me a mim mesmo divertir-me.
Franco está a fazer uma declaração política aqui. Nós ficámos intrigados acerca de uma declaração política sua no renascimento do neo-nazismo na faixa “Die Ganze Welt” na sua compilação de 1993, Radio.
Esse era um dos assuntos principais. Havia alguma coisas terríficas a acontecer no início dos anos 90 na Alemanha, estrangeiros estavam a ser queimados. Ainda é um problema. Os samples que eu juntei a são provenientes de todo o mundo têm o significado de uma declaração a favor de uma maior compreensão política e cultural entre nações e pessoas. Isto é exactamente o oposto do que os velhos e novos nazis tinham em mente – e, infelizmente, não só eles. Encontrei a maioria dos samples na rádio e na TV; algumas vozes são de pessoas conhecidas, outras de perfeitos desconhecidos. Os samples individuais não são importantes per si. É a sua combinação e deve resultar mesmo que não percebas uma única palavra do que essas pessoas estão a dizer.

Justus Köhncke
“Feuerland”
From Safe and Sound (Kompakt) 2007

Sim, eu conheço isto. Eu até o esperava, para ser honesto. Sim, é fantástico, no último Verão o Rene, da Grönland enviou-me um email dizendo que havia um músico, Justus Köhncke
, que gostaria de fazer uma versão de “Feuerland” [do álbum Flammend Herzen, de Michael Rother]. Eu respondi dizendo, porque não? E fiquei completamente espantado com a precisão com que ele reconstruiu a canção original sem usar um único sample original.
Pensa que este pulsar mecânico é como uma versão electrónica dos Neu! Em direcção ao horizonte?
Bem, é muito relaxado. Não penso que “Feuerland” seja um exemplo, na verdade, desse voo ou corrida em direcção ao horizonte, é acerca de um sentimento diferente. Foi tão mágico o que sucedeu com “Feuerland”. Quando a gravámos em 1976, fazia sentir-se uma grande trovoada e uma atmosfera muito eléctrica, a tensão foi subindo e isso resultou nessa canção. Usei uma máquina de tape- delay analógica e durante a gravação avariou e a fita começou a chiar e pouco depois partiu-se, o que mudou a atmosfera completamente.
Gosta do tecno e da música electrónica germânica actual?
Para ser honesto, adoro o som do silêncio, reduzir toda a informação porque estás rodeado e, por isso, sou muito selectivo com o que ouço em casa. Estou provavelmente abaixo da média em relação a ouvir música. Mas há certas alturas em que ouço música muito intensamente. É-me difícil ter música apenas como música de fundo.

Einstürzende Neubauten
“NNNAAAMMM”
From Ende Neu (Mute) 1996

O início parece-se um pouco com Underworld. Dâ-me um minuto e pode ser que eu reconheça.
É Einstürzende Neubauten.
A sério? Eu não os tinha ouvido até há muito pouco tempo. Um amigo meu faz promoção para eles e deu-me uma cópia do seu último álbum e, ne verdade, gostei do que ouvi. É música pop muito acessível; eu estava à espera de uma coisa completamente diferente. Martelos pneumáticos, algo como isso. Talvez não saiba mas fiz algumas colaborações com o ex-membro dos Neubauten, o FM Einheit e os Air Liquide, um grupo de electrónica germânico, em 2002. Foi fantástico. O Einheit tem uma espiral metálica muito longa e batia-lhe com um martelo e aplicava-lhe alguns efeitos. Eu gostei do que ele fazia. Eu toquei sobretudo guitarra e alguns teclados. Era um diabo de um barulho! Lembro-me de termos dado um concerto em Colónia e os meus ouvidos terem ficado a zunir por alguns dias.
Isto pode ser tomado como um tipo diferente de música motorika, usando gravações de motores de veículos actuais.
Adoro sons ambientais e de motores, por isso compreendo completamente o que eles estão a fazer aqui. Um som interessante mas um pouco inquietante foi o criado por dois molhes no rio Elba, que foram movimentados para cima e para baixo um contra o outro pelas ondas. Numa cavidade entre os dois cais, o som do ferro e da água misturaram-se numa espécie de câmara e eco. Por vezes uso samples desta gravação nas aparições públicas onde as trato com mais alguns efeitos.

John Cale & Terry Riley
“Church Of Anthrax”
From Church of Anthrax (CBS) 1970

Bem, de novo… música que eu desconheço [levanta-se, caminha em direcção ao aaltofalante da coluna de som e ouve] O órgão relembra-me um pouco o Terry Riley…
É o álbum que ele editou em 1970 com John Cale, Church of Anthrax.
Eu vi o Terry Riley com os Harmonia. Fomos até Berlim em 1973. Quando o vimos, estava ele sentado defronte de um pequeno teclado e começou [imita um tocar de teclado constante e rápido]. Não tenho a certeza de ter ficado assim tão impressionado. É justo que se diga que ele não foi uma grande influência para mim.
Apesar de isto ser uma improvisação rock, a música de Cale e Riley foi rigorosamente minimal nesse tempo. Foi influenciado pelo minimalismo de alguma maneira?
Isso é lógico. Para reduzir todos os clichés da tua música tens de ir o méis longe possível, para as estruturas minimais, para tentares voltar e começar de novo, tentar encontrar um caminho sem cair nas mesmas armadilhas. Os meus colegas terão sido inspirados pelo minimalismo mais do que eu. Eu tive de começar do princípio, ir colocando um tijolo sobre o outro, até descobrir a minha própria música. Quando comecei a colaborar com os Kraftwerk nem sequer tinha ouvido falar ainda do Terry Riley. Estava um pouco atrasado então. Como a Alemanha depois da segunda guerra mundial, começar de um ponto chamado zero [risos]. A propósito disso, não consegues esquecer aquilo com que cresceste em termos de sentimentos a modos de pensar, mas como acto intelectual dás o melhor de ti para esquecer.

Pascal Comelade / Pierre Bastien/ Jac Berrocal / Jaki Liebezeit
“To The Last Of Imaginery Solutions”
From Oblique Sessions (Les Disques Du Soleil et de L’Acier) 1997

Quer dizer, o Rother conece uma em dez! Não creio que tenha ouvido isto antes. É o Jaki Liebezeit? Com o Burnt Friedmann?
Os outros músicos do álbum são Jac Berrocal e o Pierre Bastien, mas nesta faixa Liebezeit está a tocar com o Pascal Comelade, que usa vários instrumentos de brinquedo. Foi gravado usando os cânones Oblique Strategies, do Eno.
Para ser honesto eu nunca estive interessado nessas teorias. Quando o Brian visitou os Harmonia em 1976, estava cheio delas. Fazer a música é interessante mas não quero saber nada das teorias. Ele visitou-nos e produzimos alguma música em conjunto, jogámos ping-pong, etc. Do nosso lado não tínhamos como objectivo fazer música para editar em álbum. Ele trazia com ele um pequeno sintetizador SEM, que usou para tratar o som da minha guitarra, e depois saímos com as fitas, com a intenção de prosseguir depois. As coisas correram de modo diferente, e o Brian disse que não conseguia encontrar as fitas. Demorou 20 anos até que o Roedelius visitasse o Brian, e encontrar as fitas no arquivo dele. Há alguns momentos engraçados nesse disco, mas o mais importante para nós foi aquele encontro.
Eu gosto de “Luneburg Heath” onde ele tem aquela linha vocal. De facto, gosto da sua maneira de cantar. Quando ele estava em Forst, estávamos em estúdio e lembro-me de ele ter cantado “By This River” [que aparece em Before and After Science, de 1977] e tocar o acompanhamento. Infelizmente gravaram essa canção sem mim, algum tempo depois. Estou contente de ter reconhecido o Jaki. Ele é único, não muito difícil de reconhecer. O seu kit de bateria foi ficando cada vez mais pequeno ao longo dos anos, mas cada batida continua a ter um significado. Os Club of Chaos fizeram pelo menos um álbum que gostei muito. O seu modo de tocar é mágico. Não tem aquele feeling de correr em direcção do horizonte, mas é também infindável.

La Düsseldorf
“Geld”
From Viva (Strand) 1978

Eu conheci-a desde o primeiro Segundo, apesar de já não a ouvir há montes de anos. É “Geld”, não é? Vamos falar de Klaus Dinger? [Risos] Não me importo. Nunca fiquei muito impressionado com os La Düsseldorf; sempre pensei que eram demasiado pop. Mas o Klaus Dinger fez grande música nos Neu!. Não haja qualquer dúvida acerca disso.
Há alguma hipótese de os Neu! Voltarem a reunir-se para tocar?
Já há algum tempo que não temos qualquer contacto. Sabe, o Herbert Grönemeyer da Grönland tem insistido connosco há uma série de anos. Desde o início que o Herbert me disse que tinha esperança de nos reunir de modo a que voltássemos ao estúdio e gravarmos um novo álbum. Encontrámo-nos em Londres e Hamburgo, e tentámos, mas ainda era difícil – e provavelmente sê-lo-à sempre – para mim e para o Klaus. Ele consegue ser realmente charmoso, mas quando chegamos a um ponto em que temos de fazer compromissos artísticos para a tomada de decisões e coisas relacionadas com o ego, tudo tende a tornar-se muito complicado. Era uma decisão já tomada e quase falhámos a reedição dos trabalhos dos Neu! Na Grönland. O Herbert disse-me mais tarde que o Klaus Dinger o mandou parar com as reedições no último minuto. Mas eles pura e simplesmente ignoraram-no e foram em frente, felizmente. Ele é tão cheio de medos, mas eu não quero falar mal dele. De certa forma foi um desafio. Só de pensar na música que eu pude fazer com o Klaus nos Neu! É ainda interessante para mim. Estará para sempre perto do meu coração.
Qual é a história acerca do ‘álbum perdido’, Neu! 4 ?
Começámo-lo em 1985. Fomos para um estúdio em Düsseldorf com dois outros músicos. Depois disso trabalhámos no estúdio do Klaus e também em Forst. Em 1986, atingimos um estado em que enviámos as fitas. O meu advogado tinha um tipo que ofereceu as fitas em Inglaterra. Nos anos 80 ninguém na Alemanha estava interessado em editar os Neu!, e em Inglaterra o interesse era limitado. Então dissemos, OK, vamos continuar com os nossos projectos pessoais e até selámos as fitas com lacre numa cerimónia, como se houvesse sempre um pouco de desconfiança, e eu disse, ‘encontrar-nos-emos no futuro e continuaremos este projecto’. O tempo foi passando e não aconteceu nada em termos de ofertas. Então, de repente o Klaus enviou-me um fax, em 1992, talvez. Dizia, ‘Parabéns, Michael, Neu! 4 será editado no Japão amanhã’.
Mais tarde disse-me que estava desesperado por dinheiro. Eu fi-lo parar de vender o disco. O Klaus tinha feito a capa e manipulado a música e adicionado mais algum material, por isso disse, ‘temos de parar com isso e encontrarmo-nos para discutir sobre uma edição apropriada.’ Eu nunca me opus a editar o material, mas tinha de ser feito de maneira adequada. E depois ele até editou uma gravação em fita de um ensaio como Neu! Live 1972. Algumas pessoas adoraram, mas é apenas um documento do nosso falhanço como Neu!.
O problema com Neu! 4 foi que nos anos 80, O Klaus e eu estávamos sempre a discutir e a lutar. Consigo rir-me agora, mas não éramos capazes de nos concentrar o suficiente nos aspectos criativos. Mas ainda há lá alguma música que deveria ser colocada à disposição de mais pessoas, mas não o podes comparar com os primeiros três álbuns.

Este mês os Harmonia actuam no Ether Festival em Londres. Para ouvir uma faixa rara de Michael Rother, vão a www.thewire.co.uk





Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...