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30.9.20

Revista Bravo - Nº 13 - Fevereiro de 1988


Revista Bravo
Nº 13
Fevereiro de 1988
90$00
(Revista Musical)

CLIQUE NAS IMAGENS PARA AS VER EM ECRÃ INTEIRO

atenção: isto está muito mal escrito (literariamente), com muitas gralhas e erros ortográficos, etc., mas... foi mesmo assim!



1, NUM PAÍS SEM ATITUDE OS POP DELL’ARTE REMAM CONTRA A MARÉ

Sentimo-nos Um Pouco Desfasados, No Lugar E No Tempo

Passados que são dois meses após o lançamento do primeiro álbum dos Pop Dell’Arte, “Free Pop”, poucos têm sido os programas de rádio que lhe dão espaço nas suas emissões, apesar de se tratar de um trabalho mais do que interessante. Ele revela-se como um bom manifesto da chamada ‘pop alternativa’ e que, naturalmente, vai um pouco contra a maré dominante, de uma Mafalda Veiga ou da “casinha” dos Xutos & Pontapés.

E se em Portugal podemos estar sozinhos, a nível internacional isso não acontece, porque existe um movimento independente, crescente na Europa. E a “pop alternativa” também é algo que está a crescer em todo o lado, por isso, se nos colocarmos a um nível europeu não estamos nada isolados.

Apesar dos boicotes por parte de algumas estações de rádio como a RFM, João Peste, porta-voz dos Pop Dell’Arte, mostra-se optimista face ao futuro da “pop alternativa”, porque se trata de uma música vanguardista, que tem os seus códigos e linguagem que assumem formas inovadoras e, sobretudo, tem a capacidade de cativar as pessoas chegando ao maior número possível de ouvidos. Portanto, conjuga uma atitude de inovação com uma boa aceitação por parte das massas. É isso a que eu chamo a “pop alternativa”. Não é um estilo musical, é antes uma posição social da obra.

Silêncio Da Rádio Face Ao “Free Pop”

O controle que existe por parte das grandes editoras, em relação à rádio portuguesa, na opinião de João Peste, é uma das causas que justificam o silêncio de alguns programas face ao último trabalho dos POP DELL’ARTE.

Por outro lado, é um trabalho que vai de encontro à maré daquilo que está ser feito, na música portuguesa. E por isso, é natural que choque um pouco com um gosto estabelecido, com uma estética, com a própria ideologia dominante e mesmo com todo o jogo de interesses que existe. Por isso, não me surpreende muito que o disco não passe.

As pessoas que fazem rádio em Portugal, são muito conservadoras. Têm um gosto estabelecido, instituído e não querem sair dali. E por isso rejeitam tudo o que tem uma sonoridade diferente e, nem tentam compreender porque é que é diferente. Pensam que é diferente porque está mal feito. Têm certos chavões, certas ideias pré-concebidas e não avançam.

João Peste, em relação à rádio vai mais longe ao afirmar, não fizemos o disco para que ele não passasse na rádio. Antes pelo contrário, à partida até fizemos um single, mais comercial, para tentar cativar um pouco as atenções das pessoas que fazem rádio. De qualquer modo não iríamos deixar de fazer o disco que queríamos para que ele passasse mais vezes na rádio. Até pode ser que ele daqui a 10 anos vá passando pouco, mas vá passando. Se calhar se o disco passasse muito agora daqui a 10 anos ninguém se lembrava dele, porque eu acredito que, este disco, daqui a 10 anos ainda vai ser ouvido.

No fundo a questão é simples: queremos que aquilo chegue às pessoas. Agora não vamos deixar de fazer aquilo que queremos para chegar às pessoas. Vamos tentar ser fiéis ao que somos e tentar que aquilo que somos chegue às pessoas.



 “Não estamos interessados no passado”

 Os POP DELL’ARTE, afirmam que nada têm contra o facto de haver grupos que apostem num certo revivalismo… nós é que não estamos nisso. Não estamos nada interessados no passado, ainda que hajam coisas do passado que nós possamos absorver ou filtrar, mas fazemos a nossa música a pensar no futuro. Preocupamo-nos mais em saber que ela poderá ser ouvida amanhã do que em saber que ela poderá ser ouvida amanhã do que em saber que ela não é ouvida hoje. Por isso é natural que ela não seja ouvida hoje, porque a nossa preocupação à priori, é a de que ela possa ser ouvida amanhã. E se calhar, o facto de ela vir a ser ouvida amanhã, implica que ela hoje seja um tanto ou pouco incompreendida. Não vou dizer com isto que nós somos uma banda do futuro, e não uma banda do presente. Mas, às vezes sentimo-nos um pouco desfasados, no lugar e no tempo. Se calhar não deveríamos estar aqui e agora, mas noutro lugar e noutros tempos.

 Ideal De Unificação Europeia

 Mas na realidade, os POP DELL’ARTE, vivem agora e aqui… e o facto de estarmos aqui influencia-nos, para o bem e para o mal. De qualquer maneira, neste momento, temos uma concepção muito europeia e, acreditamos numa unificação europeia, que deverá começar por uma unificação cultural. Porque o mercado cultural paralelo, no qual nos enquadramos, pode ser um dos pontos de partida para essa unificação cultural.

Mas isso nada tem a ver com a atitude expansionista que Portugal teve noutros tempos?

Em primeiro lugar, importa referi que, neste momento, Portugal não tem atitude nenhuma! Depois, nós nada temos a ver com os “valores nacionais”. Não pensamos em termos de Portugal, pensamos em termos de Europa, como um todo e, é isso que nos interessa. Essa é a única forma da Europa se levantar um pouco do jugo do Imperialismo Cultural que se estabeleceu a partir da II Guerra Mundial, unificando-se e criando um bloco forte, em termos culturais, para poder reagir contra as potências que a dominam. Mais a mais, sabendo que muitas dessas potências tiveram um avanço cultural à custa dos nomes europeus que surgiram no campo cultural, como é o caso dos EUA.

 Não Fazem A Apologia Da Social-Democracia

 Isso não tem nada a ver com uma apologia da social-democracia, tem mais a ver com o facto de poder reagir ao mundo dominado por potências e, saber que, neste momento, os nacionalismos podem ser sinónimos de fraqueza. No fundo, a melhor maneira de manter as identidades nacionais, segundo esta ideia, seria através de uma transnacionalização. Como diria Catherine Evert, “é preciso pensar globalmente actuar localmente”. Seria, e está a ser, essa a forma dos movimentos independentes, que se têm vindo a formar na Europa – teatro, música e cinema – intervirem para a tal unificação.

Trabalhar com uma editora independente é mais fácil, sobretudo, para se atingir tais objectivos. Ao contrário, da ilusão que possa ser criada, as editoras multinacionais em vez de unirem os países, onde operam, desunem-nos porque acabam por dominar a sua cultura. Um bom exemplo disto é o que se passa nalgumas estações de rádio em Portugal.

 O Público dos Pop Dell’Arte

 Daí que se possa concluir que o nosso público, nada tem a ver com as pessoas que ouvem essas estações de rádio.

O nosso público não tem nada a ver com o público da Mafalda Veiga e dos Xutos & Pontapés, e por aí fora… esses públicos precisam de que o disco passe de 5 em 5 minutos, na rádio, para o poderem fixar. O nosso público é diferente. E neste contexto, poderemos afirmar, que a atitude de alguns radialistas prova que o nosso disco é bom… pelo não o misturam com as outras porcarias que costumam passar. Pode se rum pouco pretensioso dizer isto, mas é a conclusão que eu tiro.

Mas será que o trabalho dos POP DELL’ARTE, pontas de contacto com discos de outros grupos portugueses?

Se tivesse que se aproximar com algum disco que foi feito, em Portugal, o ano passado, aproximar-se-ia, quando muito, do disco dos Mler Ife Dada. Apear de eu achar que é muito diferente do nosso. Também se poderia aproximar, num certo sentido, ao “Independanza” dos GNR. Contudo, “Free Pop”, é um disco diferente desses dois. O tema “Juramento Sem Bandeira”, incluído no nosso álbum, que também se poderia chamar “Sem Fronteiras”, encerra por si só, as diferenças de que falo: o ideal de pensar globalmente e actuar localmente.

 Projecto De Vida

 Tendo em conta o trabalho dos Pop Dell’Arte e o seu ideal de unificação europeia, até que ponto se pode pensar que o grupo é um projecto de vida para os seus membros?

Os POP DELL’ARTE deveriam ser um projecto de vida para as pessoas que os formam, só que até ao momento não tem podido ser, porque não tem sido suficientemente rentável, para podermos viver da música. Contudo, isso não é uma preocupação porque nós somos todos relativamente novos (temos idades compreendidas entre os 20 e os 25 anos). Até ao momento, isso não tem sido um pesadelo.

O balanço feito pelo grupo, no final de um ano em que lançaram o single “Querelle” e o álbum “Free Pop”, é muito bom. A demonstrá-lo fica a afluência aos concertos, por parte de um público, cuja idade era inferior aos vinte anos. Não sei, se isso significa alguma coisa, mas acredito que sim, pelo menos, o pessoal mais novo, ainda não tem o gosto formado ou deformado por uma série de coisas. É muito mais acessível a formas novas e, portanto, aceita-as muito mais facilmente.

 

MAIS MÚSICA PARA ESTE MÊS

Dia 6 – Em Mirandela, os HERÓIS DO MAR e os DELFINS

Dia 16 – Em Santarém, SÉTIMA LEGIÃO

Na Marinha Grande, os POP DELL’ARTE

Dia 19 – Em Santarém, SÉTIMA LEGIÃO

No Porto, POP DELL’ARTE

 

EDIÇÕES AMAROMANTA

Durante o mês de Fevereiro, a editora AMAROMANTA, lançará no mercado português os seguintes trabalhos discográficos:

- Mini LP dos LINHA GERAL, intitulado “Linha Geral”

- LP do PROJECTO SOM POP (P.S.P.), de Vítor Rua, intitulado “Pipocas”

- LP de PASCAL COMELADE, intitulado “Bel-Canto”. Trata-se de um disco de música minimal-rítmica, da autoria de um francês, oriundo de Montpellier.

 

O FIM DOS MALUCOS DA PÁTRIA

Os MALUCOS DA PÁTRIA, responsáveis pela organização de concertos com AS JORNADAS DO IMPÉRIO e que representavam os HERÓIS DO MAR, DELFINS, RADAR KADAFI, AGORACOLORA, chegaram ao fim, como empresa. No entanto o Vítor Silva, associado a outras pessoas, promete continuar a fazer concertos.

 

GRUPOS MUDAM DE MÃOS

Finda a actividade dos MALUCOS DA PÁTRIA, os HERÓIS DO MAR e os DELFINS, passam a ser contratados através do telefone 66 47 99, que já servia para os POP DELL’ARTE e para os DIAS DA MADREDEUS. A nova casa destes grupos fica na Rua do Século, 156. No caso dos DELFINS, também podem ser contactados através do 268 35 02 do Tó Cunha.





2. Requiem Pelos Vivos

INFIDELIDADES MARÍTIMAS


Os vencedores do 4º Concurso de Música Moderna, do Rock Rendez-Vous, REQUIEM PELOS VIVOS, ao contrário do que chegaram a afirmar, vão continuar vivos enquanto grupo, não para fazer um percurso de estrada, mas, sobretudo, para continuar esta “brincadeira” que começou em 1986, a quando da sua formação, para participarem no 3º Concurso do Rock Rendez-Vous. Neste momento estamos preocupados com a gravação do Maxisingle – prémio atribuído ao grupo vencedor do Concurso, segundo declarou à Bravo Carlos Carvalho (baixo e voz), um estudante de Arquitectura no Porto. Quanto aos restantes elementos: Pedro Lameirinhas (bateria) estuda em Vila Nova de Foz Côa, e o terceiro elemento, João Daniel (guitarra), também estuda, engenharia electrónica, em Coimbra. Esta dispersão só permite que os REQUIEM PELOS VIVOS se juntem para ensaios nas férias. Mas se por um lado pode constituir um problema, por outro, tendo em conta os objectivos do grupo, são suficiente para o seu trabalho as reuniões temporárias. Nunca seremos um grupo que apenas vive para música, mas sim que vivemos com ela. Até porque, tal como acontece com quase todas as formações, cada um de nós tem os seus próprios gostos musicais. Não andaremos a esfolar quilómetros de estrada, tocaremos apenas quando nos apetecer e em “sítios-chave”, locais onde nos dê prazer mostrar a nossa música.


Som Para Os Vivos

Ao contrário do que foi escrito na BRAVO de Dezembro, os REQUIEM PELOS VIVOS não são de modo algum um grupo de baile ou com um som de feira. Tratou-se de um lamentável equívoco, rubricado por uma ex-colaboradora nossa e, sobre o qual emendamos a mão.

Numa primeira fase o nosso som era um pouco fúnebre, mas, neste momento, é mais adequado aos vivos. O que está morto já era, o que está vivo é celebrado por um “requiem”.

Carlos Carvalho na conversa com a BRAVO teve o cuidado de não enquadrar o grupo na imagem e semelhança do que é feito por outras formações. Também não arriscou nomes quanto à actual música moderna portuguesa, estão-se a fazer coisas mais inteligentes, que deixam transparecer uma maior e melhor “organização” da música moderna que se faz em Portugal.

A caminho da gravação do Maxisingle a que têm direito, como justo prémio pela sua vitória no 4º Concurso do Rock Rendez-Vous, os REQUIEM PELOS VIVOS mostram a mesma preocupação, gostavamos, e esperamos que assim aconteça, porque caso contrário não valeria a pena gravar, que possamos dispor de condições de gravação capazes de estabelecer uma coerência entre o que fazemos e o produto que irá ser posto à disposição do público. Não temos pressas, queremos fazer uma coisa bem cuidada e que tenha alguma viabilidade enquanto edição discográfica. Para infidelidades bastam as marítimas! (Título de um dos temas apresentados pelo grupo neste Concurso do Rock Rendez-Vous e que sinceramente esperemos que faça parte do Maxisingle, tal como a “Canção do Marinheiro”).



 

3. DURUTTI COLUMN

IN “VINY” VERITAS


De todos os músicos “de culto” que a música moderna impôs como referências predominantes e de “confiança ilimitada”, Vini Reilly terá sido aquele que mais vezes passou pelos portugueses – três - , estando em Vilar de Mouros em Agosto de 82, tocando na Aula Magna em Março de 83, fechando o seu ciclo de concertos em Julho de 84 na F.I.L…. Reilly veio invariavelmente para mostrar o seu projecto musical, em que tem conhecido companheiros ocasionais e variáveis, sem que os discos registados deixem de ser assinados por essa estranha entidade que é Durutti Column.

Foi também para “alimentar” Durutti Column, mas sem contar com a ajuda do baterista e percussionista Bruce Mitchell, que Vini Reilly se dispôs a inaugurar um novo capítulo na história discográfica nacional , até agora – e para mal de todos nós -, sem seguimento: veio a Paço d’Arcos e gravou um álbum para uma editora independente portuguesa de boa memória chamada Fundação Atlântica, “Amigos em Portugal” seria assim, “argumento” suficiente para que Durutti Column ocupasse um lugar especial entre nós. Mas nem esse nem os discos antecedentes (“The Return Of The Durutti Column”, “LC” e “Another Setting”) nem os que se lhe seguiram (como “Without Mercy” ou “Circuses and Bread”, por exemplo) mereceram a devida atenção dos portugueses.

Talvez por isso “The Guita rand Other Machines”, com que Vini / Durutti fechou o ano de 1987, seja – pelo menos para já – um exclusivo do mercado de importação. E, no entanto, quantos predicados e qualificativos podiam ser alinhados para este disco… Por exemplo, o facto que não dá direito a enganos de a produção ter sido entregue a Stephen Street, antigo “comandante sonoro” dos Smiths e, desde a dissolução do quarteto de Manchester, o mais chegado colaborador de Steven Morrissey, o antigo cantor e poeta da banda que deixou “Hand in Glove” e “There is a Light That Never Goes Out” como herança. Ou a presenças de músicos do circuito alternativo como Atanton Miranda e John Metcalfe, bem como do trompetista Tim Kellet, dos Simply Red, a ajudar Mitchell. Mais claro está que aquilo que separa “The Guita rand Other Machines” de todos os outros discos é a inesgotável capacidade de Reilly de escrever canções imediatamente reconhecíveis e invariavelmente surpreendentes.

Muito mais apoiado na sua guitarra cristalina e fluente do que em todas as “outras máquinas”, Vini/Durutti garante uma continuidade à altura a uma das obras que fica como sinal “contrário” nestes tempos em que se abusa da padronização sonora e da rítmica “a metro”. Nesse aspecto, podem estar descansados aqueles que seguem de perto a carreira de Durutti Column – o lema parece continuar a ser uma quase obsessiva procura da “verdade” das canções. E seria preciso conhecer a fraca figura, maníaca e permanentemente tensa, de Vini Reilly, para se perceber até que ponto se adequa aqui a palavra obsessão… Seja como for, a beleza e a perenidade das canções supera as expectativas – pode continuar a dizer-se “in Viny Veritas”…



4. ANO NOVO: 5º CONCURSO…

O REQUIEM PELOS VIVOS

No dia 19 de Dezembro do passado ano foi o fecho do 4º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous / 1987.

Das 24 bandas, inicialmente concorrentes, ficaram apenas 3, que actuaram no dia 19, para vencer. Uma delas seria a escolhida, e o prémio era aliciante: a gravação de um disco para a etiqueta Dansa do Som, e cem mil escudos em dinheiro.

Os finalistas foram os MORITURI, os TRANZ IT e os REQUIEM PELOS VIVOS.


Não há dúvida de que, naquela noite, todos deram o seu melhor, ou não fosse a final. Dos mais relevantes, a voz de Isa, dos Morituri, parecia arrancada lá de dentro; o baterista dos Tranz It fez ali um trabalho de mãos que deu gosto ver; até os Requiem pelos Vivos deram o seu melhor.

Os MORITURI, de Lisboa, subiram ao palco com muita frescura, muita inspiração, grande presença de Isa, muito sentimento na sua voz; o público teve oportunidade de reouvir 4 dos temas do reportório do grupo: “Um Crime no Paraíso”, “Sonho Lento”, “Apátrida” e “Tédio”, esta com poema de Florbela Espanca.

Segunda banda a entrar em palco, os TRANZ IT. Vieram também com muita garra, com muita força e, não há dúvida de que deram o melhor de si, naquela sessão. Trouxeram os temas “Carne no Desejo da Carne”, “Chaminés da Siderurgia”, “Suor de Peito” e “Lucialima”.

A última banda do concurso foi a dos REQUIEM PELOS VIVOS. Mostraram com certeza o que eram capazes de fazer, e fizeram-no com muita vida, pouco incomodados com o favoritismo atribuído a outra formação. A banda tinha já estado no 3º Concurso, e, não contentes com a sua sorte, voltaram este ano. Tocaram os temas “Canção do Marinheiro”, “Desfolhada”, “Romaria” e “Caravelas Mutiladas”. A primeira canção, a “Canção do Marinheiro”, a banda dedicou-a “às raparigas que perdem os namorados no mar e aos rapazes que, ao morrer no mar, perdem as suas namoradas”.

Após a actuação das 3 bandas concorrentes foi a pausa… E, entretanto, actuaram os MELLERIL DE NEMBUTAL, vencedores do prémio de originalidade deste 4º Concurso. A banda é constituída por Hesskhé Yadalanah, no baixo, caixa chinesa, guitarra e voz, Itaperapetuxe, na bateria, percussões e ferros, Canto Silvestro, na voz e percussões, Canto Buendia, na guitarra, Camarada McGinty, nas percussões, xilofone, harmónico, ferros e voz, Justo Infantes, nos adufes, baixo e voz, Arcádio Maturina, na voz, percussões e maracas e, por fim, Céti Pápá, no violino e flauta. O grupo fez uma actuação que, entre outros, dedicou “ao Zé da Farmácia, que também queria um prémio, e ao Manuel Falcão e ao primo, que também trabalha na televisão”.


Depois da actuação dos Melleril de Nembutal, deram-se as pontuações, e ficou-se a saber quem ocupou que lugar.



Assim, no primeiro lugar ficaram os Requiem Pelos Vivos, com 171 pontos, o segundo lugar foi para os Morituri, com 137 pontos, e o terceiro lugar para os Tranz It, com 55 pontos. Todas as bandas receberam uma placa alusiva ao concurso; o grupo que ficou em 1º recebeu 100 contos em dinheiro e a gravação de um “single”, com três temas, para a etiqueta Dansa do Som, que será gravado dentro dos próximos três meses. O 2º lugar teve direito a 150 mil escudos em material para a banda e o 3º lugar, 100 mil escudos também em material. O grupo de originalidade recebeu um amplificador de som, no valor de 100 contos.

E pronto, assim terminou mais um concurso do Rock Rendez-Vous. Entretanto, é já este mês que se inicia o 5º Concurso, com as primeiras fases eliminatórias, das quais contamos ir dando, aqui, os pormenores. É assim, ano novo, novo concurso: o quinto.

Paula Ramos




CONSTITUIÇÃO DO JÚRI

O júri que acompanhou a última sessão do 4º Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous, foi constituído pelos seguintes elementos:

- João Botelho – Semanário “Êxito”

- João Gobern – Correio da Manhã Rádio

- Manuela Paraíso – Rádio Geste

- Pedro Duarte – RTP

- Pedro Luso – RFM

- Rui Monteiro – “A Capital”

- Sérgio Coimbra – “Blitz”

- António Pires – “Blitz”

- Rui Porteiro – RUT

 

7 ANOS DE ROCK E RENDEZ-VOUS

No passado dia 18 de Dezembro, o Rock Rendez-Vous comemorou o seu 7º aniversário… E a noite foi de festa. Eram 22 horas quando se abriram as portas, e, no palco desfilaram quatro das bandas mais actuais da música moderna Portuguesa;

Os CRITERIUM, uma das bandas preferidas pela crítica, no 4º Concurso de Música Moderna, e, segundo opinião do R.R.V., uma esperança para este ano.

LA VALISE, o pop simples e despretensioso de um dos grupos-revelação mais recente, que abandonaram o 4ºm C.M.M. para a gravação de um “single” na RM Discos.

POP DELL’ARTE, grupo vencedor do prémio de originalidade do 2º C.M.M.. O carácter vanguardista do som da banda e a recente publicação de um álbum foram razões fortes para o convite do R.R.V.;

Por fim, os SÉTIMA LEGIÃO, que, segundo o Rock Rendez-Vous, foram a banda revelação do 2º Concurso da casa. Eram então um quarteto algo hesitante. Cinco anos depois são um dos nomes mais importantes da nova música Portuguesa.

Foi assim que se comemorou o 7º aniversário desta Catedral do Rock Português. Reponsáveis por esta casa de espectáculos disseram que se “orgulham de 7 anos de apoio consecutivo e incondicional à música feita por Portugueses. Apresentaram mais de 1 000 espectáculos desde o dia da sua inauguração”.

Um folheto, distribuído pelso presentes, juntamente com o bilhete, no dia do aniversário, continha uma longa lista de nomes, dos grupos que já pisaram o palco do R.R.V.;

- As bandas Portuguesas eram 238 e estrangeiras 25; uma boa soma…

 

DANSA DO SOM NO ROCK RENDEZ-VOUS

Enquanto não chega o V Concurso de Música Moderna – primeira sessão com data marcada para a noite do próximo dia 20 – o ROCK RENDEZ-VOUS apresenta-nos, no dia 5, o grupo Graffiti, os Xeque Mate, dia 12, e os Morituri, dia 19. Depois do Coliseu, Anamar regressa à sala da Rua da Beneficência, no dia 26.

Entretanto a editora DANSA DO SOM, com sede na Av. Rossano Garcia, 39-A (próximo da Praça de Espanha), continua a oferecer a possibilidade de adquirir boas condições discográficas a preços mais acessíveis. Esta editora tem loja aberta no Rock Rendez-Vous. Na próxima edição começaremos a publicar a lista de importações das principais discotecas, que se dedicam a esta actividade.









21.12.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (129) - Música & Som #80


Música & Som
Nº 80
Março / Abril de 1983

Publicação Mensal
Número Duplo
Esc. 150$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
72 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio. Neste número, também as 16 páginas centrais a cores e papel brilhante, como a capa.


A Vibração Do Ar
por Eduardo Pais Mamede
Num país pequeno como o nosso, com uma produção musical e uma actividade artística mínima, é natural que as pequenas quezílias estético-musicais ganhem um certo fôlego entre os simpatizantes das diversas correntes musicais, denotando todo o provincianismo que é inerente a este país que, além de situado na cauda da Europa, sofreu, infelizmente, 45 anos de isolamento forçado, acontecendo as coisas, por esse motivo, com dezenas de anos de atraso. Vem isto a propósito de uma certa "guerra" generalizada, aberta ou encoberta, que se instalou desde há uns anos entre os simpatizantes, consumidores e produtores de diversos estilos musicais. Tal como se viveu em política após a legalização democrática, com a partidarização de tudo e todos - só com paralelo com a "clubite" futebolística, sempre moldada por paixões extremas - o ambiente musical é, especialmente após a explosão da "nossa" onda Rock, marcado por um mau-estar provocado pelos sectarismos, invejas, etc., que se manifesta até dentro da mesma área musical. Creio que posso afirmar que não existe nenhum domínio, desde a Música Erudita ao Rock, passando pela Música Popular, o Jazz e a Música Ligeira, em que o ambiente seja de cooperação e ajuda mútua, quanto mais na relacionação destes domínios entre si. Esta situação, aliás, reflecte-se muito bem nos "mass-media", em que cada um "puxa a brasa à sua sardinha", como se "mandar abaixo" este ou aquele fosse fundamental para vender mais ou criar obras melhores. Por mim, sou da opinião que em cada estilo musical se pode fazer boa ou má música e que, quanto mais pessoas houver a fazer música, editoras, estúdios, espectáculos, etc., melhor qualidade haverá, pois esta provém, também, da selecção da quantidade.
E eis-me chegado ao ponto fundamental deste meu artigo - a qualidade. Muito se fala desta palavra, toda a gente a utiliza, usufruindo a seu bel-prazer o peso mágico que este termo encerra. Qualidade... Mas o que é que isto quer dizer ao certo? Tomemos, por exemplo, o caso de um disco. Para se dizer se ele tem ou não qualidade, independentemente do seu género musical, é preciso em primeiro lugar analisá-lo nos seus aspectos técnicos e artísticos. A captação de som com a reprodução fiel dos instrumentos sem saturações nem distorções (corte do acetato), assim como uma prensagem silenciosa e uma impressão correcta e definida das cores e acabamentos da capa, são importantes na definição da qualidade técnica do disco. Em relação à parte artística, temos ainda alguns factores a levar em conta.
Em primeiro lugar, na análise detalhada do material registado, no caso de serem canções, examinaremos inicialmente a unidade letra/música, sua conjugação, a coincidência na tónica palavra/música, etc., e, seguidamente, debruçar-nos-emos sobre os seus elementos. A qualidade poética, a construção dos versos, as palavras utilizadas e a inserção cultural da temática são pontos de análise importantes no que diz respeito à letra. Sobre a música, teremos que apreciar a sua construção tonal, a riqueza ou ausência de modulações, a dinâmica (mudança de andamento, alternância de volumes), a complexidade ou simplicidade rítmica e a harmonização. De seguida, examinaremos a interpretação vocal do(s) artista(s) em relação aos aspectos de afinação, expressividade, timbre, colocação de voz, utilização de portamentos, etc. Um conjunto de pontos cuja leitura é muitas vezes subjectiva, pois tem a ver com a estética de cada um, ou, por outras palavras, com o bom ou mau gosto das pessoas. A produção e os arranjos ou orquestrações são também definidores importantes duma qualidade artística. Assim, teremos que notar que tipo de instrumentação foi escolhido para canção, os contracantos, a dose de utilização da reverberação, os efeitos (delays, harmonizadores, etc.), o equilíbrio dos instrumentos / vozes (mistura), etc. Finalmente, veremos a embalagem do disco (capa), a harmonização com o conteúdo, o arranjo gráfico, as indicações técnicas, as notas explicativas, etc., também importantes para a qualidade artística da obra. Enfim, só depois de toda esta análise detalhada poderemos falar de qualidade ou da ausência dela em relação a um disco.

Entrevista
TELECTU
Jorge Lima Barreto Diz Dos Telectu
"A Linguagem Mais Avançada Que Se Faz Por Aqui!"
Texto e Fotos: Manuela Paraíso




Telectu - subitamente, uma proposta arrojada na predominante mediania da música nova feita em Portugal. Resultante do encontro de dois músicos - Vítor Rua (ex-GNR) e Jorge Lima Barreto (criador da Anar Band) - o projecto TELECTU teve as suas primeiras apresentações na III Bienal de Vila Nova de Cerveira e no II Festival de Vilar de Mouros, após as quais se procedeu à gravação de um álbum, "Ctu Telectu", editado nos fins de 1982. Portador de esquemas construtivos absolutamente inéditos no nosso meio musical, "Ctu Telectu" revela-se como uma alternativa ao cliché da música plastificada, assentando bases na pesquisa sonora por intermédio de esquemas repetitivos. Acerca do disco e do própiro projecto do grupo, registámos as opiniões dos seus autores, numa conversa informal.

M&S - Como é que se proporcionou a gravação deste álbum?
Vítor Rua - Eu e o Jorge convidámos o Tóli e o Dr. Puto - o vocalista - para a gravação do disco. Em Vila Nova de Cerveira, onde ganhámos o prémio da Bienal, fizemos a demonstração de como se preparava um LP. Depois, fizemos a primeira apresentação em Vilar de Mouros, como quarteto, gravámos o disco para a Valentim e agora estamos em duo.
M&S - Portanto, o Tóli e o Dr. Puto funcionaram como convidados para a gravação do álbum... como é que vocês trabalham a nível de composição?
Jorge Lima Barreto - Nós agora mudámos completamente, éramos um quarteto e passámos a duo. Entrámos noutra estética, alterou-se tudo, e não há relação possível entre as duas coisas. O que se fez, foi uma coisa trabalhada durante quase um mês, em Cerveira, todos os dias nós trabalhávamos perante o público, fomos desenvolvendo programas de sintetizadores. O Vítor tocava baixo e preparava estruturas rítmicas com o Tóli... e depois, no estúdio, escolheram-se diversas sobreposições, usando-se vários canais. Em todos os temas, nós utilizámos seis canais cada um. Aliás, há dois temas que são quase metade do disco... a batida é dada por um computador de ritmos, e não pelo baterista.
M&S - Reparei que no disco há duas partes distintas e complementares - uma dada por uma acentuada secção rítmica, a outra por uma pesquisa a nível sonoro...
JLB - ...tímbrica... Claro, essa é a nossa parte principal. De resto, o disco também tende para o rock, porque era mesmo para se encaixar dentro de uma estética rock - utilizava um baterista rock, um cantor... senão, nós nem sequer tínhamos recorrido a isso. Nós agora estamos a desenvolver a outra parte, dentro de uma estética repetitiva...
M&S - Menciona-se no disco que todos os títulos são extraídos das obras do escritor Philip Dick. Isso é relativo a alguma espécie de influência?
JLB - Olhe, por exemplo, a capa do primeiro disco da Anar Band é uma pintura do Abel Mendes e chama-se "Science Fiction". Acabei um volume (que deve estar aí a sair), e estou a fazer um segundo, ambos sobre ficção científica. O Vítor também se interessa, e nós achamos que toda a música electrónica tem relação com a ficção científica. Entretanto, o ano passado morreu Philip Dick, que tem um certo peso como escritor de vanguarda de ficção científica, e nós fizemos-lhe um memorium. Os títulos foram escolhidos também em relação a isso.
M&S - Voltando à gravação do álbum, quando entraram em estúdio vocês já tinham determinados esquemas preconcebidos em relação àquilo que fizeram em Vilar de Mouros, ou tudo funcionou mais numa base de interpretação?
VR - A diferença fundamental entre a actuação em Vilar de Mouros e o disco, é que em Vilar de Mouros as secções rítmicas e os sintetizadores já estavam programados. Na gravação do disco, por exemplo, cheguei a dobrar seis vezes a guitarra, e o sintetizador foi também dobrado. Nas últimas composições somos só nós os dois, eu toco baixo e guitarra e o Jorge toca sintetizadores, em seis pistas para cada um; por isso é como se fossem doze instrumentos; e, além disso, o Dr. Puto duplicava ou triplicava a voz.
M&S - Em relação aos seus trabalhos antigos, acha que têm alguma coisa a ver com o tipo de linha que os Telectu estão a seguir agora?
JLB - Claro, há a própria evolução de um artista. Tal como um pintor, se fizer hoje uma coisa e tiver feito outras anteriormente, com certeza há uma evolução. Ou então não há, simplesmente, evolução. Neste caso acho que houve, nós estamos mais avançados neste momento, até pela tecnologia que temos, que é mais avançada.



M&S - Aliás, vocês propõem-se criar algo absolutamente novo em relação à música que se faz em Portugal...
JLB - Não é propormo-nos... nós já fizemos alguma coisa, não é? Aliás, qualquer disco dos meus é assim - e mesmo em relação ao Vítor, também - o GNR era uma coisa muito nova em relação ao que se fazia aí em matéria de rock. E acho que estávamos indicados para nos encontrarmos os dois.
M&S - Em relação às letras, elas têm algo a ver com as obras de Philip Dick?
JLB - Não, nada. As letras são do Dr. Puto, que teve total liberdade para as escrever. Há uma faixa que é cantada em italiano, outra em inglês...
M&S - Haverá algum tipo de música que vocês ouçam e que, de uma forma ou de outra, vos possa influenciar?
JLB - (apontando uma bela e comprida colecção de discos) Ali está electrónica, daquele lado, etnográfica; depois, música clássica, jazz; além, rock; e ali, jazz clássico. Ouvimos de tudo. Quando nos conhecemos, o Vítor tinha um tipo de audição muito específico de rock - porque ele era um músico 100% de rock - e foi-se abrindo... agora estamos os dois a incidir numa estética repetitiva. No disco há dois temas assim, o "Valis" e um outro, que nós achamos que é a melhor coisa que se fez aí, e que só tem dois minutos - "Martian Time - Slip". Queríamos fazer quase um lado inteiro com essa faixa, mas não nos foi permitido.
Uma coisa que eu gostava de focar, é que os discos de rock que se fazem em Portugal normalmente não são rock: ou são pop ou música ligeira. E, no nosso caso, apresentam-se solos de sintetizador e particularmente de guitarra eléctrica, em que o Vítor Rua se mostra como um caso ímpar no nosso nível instrumental, e no rock não há nenhum que tivesse atingido este nível de qualidade. E ele, particularmente neste disco, está na forma mais exemplar que se pode imaginar. Quem possuir um disco destes tem, com certeza, um exemplo da linguagem mais avançada que se faz aqui, quer mesmo a nível de produção; também a voz, que normalmente é tratada directamente, aqui surge filtrada, incluímos diversos panos de voz... e mesmo os arranjos electrónicos são casos aqui invulgares, nesse aspecto. Mas este disco não é experimental, é formalista, porque nós adoptámos a forma de rock. Claro que há improvisação, como houve em todo o rock, mas a partir de dados iniciais que vieram quer de programas de sintetizador, quer de composições melódicas que n´so adoptámos.
M&S - A vossa música parece-me ter muitos pontos de contacto com a música planante alemã...
JLB - Sim, o rock alemão, pois claro que isso se reflecte, foi o tipo de posição adoptada. Mas a nossa música está mais avançada e tem um sentido mais vanguardista do que a música alemã, porque não é uma coisa só mecânica... é um disco muito mais emocional. Há, por exemplo, improvisações jazzísticas da minha parte, que são incluídas.
M&S - Qual o verdadeiro sentido do nome do grupo, TELECTU?
JLB - TELECTU não tem sentido, é uma palavra semântica. Foi de um poema concreto de Melo e Castro que nós tirámos o nome, CTU TELECTU... como um jogo de palavras, Telectu Ctu... e a palavra em si também não é vazia, tem um sentido poético.
M&S - ...e até pode ser conotada com outras palavras, como por exemplo, INTELECTO...
JLB - Pois, pode-se conotar com diversas coisas, por exemplo, TELE, TELEVISÃO... mas realmente cremos que a palavra tem uma carga tecnológica muito grande. Por exemplo, "água doce" não tem qualquer carga tecnológica, não é? E além disso, "Telectu" tem também uma carga mental, que é importante.
M&S - Acha que as pessoas poderão ser motivadas a pensar, ouvindo este tipo de música?
JLB - Acho que sim, pois claro, e serão motivadas para a procura de outro tipo de música. Você falou em rock alemão, há pessoas que falam em música electrónica, outras em jazz mais avançado... o disco está cheio de referências, é uma obra rica, em si. Qualquer obra que esteja bem organizada convida as pessoas a consultar outras coisas; e coisas superiores, nunca é uma chamada para coisas inferiores. A partir disto, as pessoas só poderão ter o prazer de ouvir coisas efectivamente melhores.

Ouvir TELECTU. Um convite que poderá ou não ser aceite, correndo-se, neste último caso, o risco de deixar passar ao lado um trabalho importante porque inédito no nosso país. "Ctu Telectu" - um trabalho inteligente e ousado e, acima de tudo, DIFERENTE.



Concertos
Durutti Column
Tonight's The Night




Como era de esperar, o público que enchia a sala da Aula Magna da Reitoria, ocupando calmamente sentados, era constituído por adeptos incondicionais das melopeias dos Durutti Column. Não havia curiosos. Só entendidos. Fãs convictos. Cúmplices de um repertório sobejamente conhecido que, num ambiente cool, se começavam a impacientar ligeiramente com os 10 minutos que passavam das 21e 30. Sem grandes alaridos.
A organização preocupava-se com as condições em que o som seria transmitido. E com razões de sobra, dado que a fragilidade extrema, a sensibilidade comovente e as melodias mandraxizadas deste duo não permitem distorsões de sons, brincadeiras na mesa de mistura ou processos tipo vê-se-te-vias tão característicos na maioria dos concertos.
Já há sete meses, em Vilar de Mouros, os Durutti Column tinham constituído um dos momentos-chave do Festival. Vini Reilly, o seu guitarrista solitário, separado de todas as modas ou correntes, transportando atrás de si uma reputação misteriosa, autor de um som de guitarra sublime e de uma música angélica que manipule os sentimentos mais depressivos em nome de uma melancólica sabedoria, e o veterano Bruce Mitchell, responsável por um drumming modelo de concisão espantoso, seriam os nossos guias na histórica noite de um concerto perfeito, cujo único defeito pareceu consistir no set demasiado curto, seguido de dois parcos encores.
Céus, como Vini parecia sobre o palco! Tal uma gazela assustada e receosa, anunciava despretensiosamente os seus temas que ele próprio definia como "maçadores"!... Desde a sua aparição, foi saudado com delirantes ovações por parte de um público incondicionalmente rendido.
E os temas líquidos e cheios de mágoa de album LC começaram a desfilar, em momentos hipnóticos, atravessados por flashes e alucinações, testemunhando a conjugação raríssima de uma força elementar e de uma inspiração extraordinária, sombria, lúgrube e lastimosa. Há noites em que eu gostaria de ter a força de um Gulliver. Para empurrar montanhas. De desventuras, de adversidades, de infortúnios. Mas a guitarra minimalista e lancinante de Vini Reilly tal como uma renitentíssima cicatriz mal fechada, impelia-me a permanecer neste universo de sons sedativos e fascinantes, envolvida naquela perfomance mística e fria no exterior, mantendo paradoxalmente uma chama férvida no seu interior.
Um dos grandes acontecimentos musicais deste ano ainda agora iniciado. E já sabem: o missal é o LC o missal é o LC, o missal é o LC...
Ana Rocha


Entrevista
Vini Reilly
por Manuela Paraíso

A primeira vez que vi Vini Reilly foi no ano passado, em Vilar de Mouros. A impressão que desde essa altura guardei dele, não se modificou muito neste segundo encontro. Reservado mas cordial, oferecendo a ideia de uma profunda fragilidade e vulnerabilidade a par de uma total ausência de vaidade e presunção, Vini não é, afinal, muito diferente da sua própria música, maravilhosamente bela e sensível, emotiva, como uma lágrima morna, e suave, esbatendo-se na névoa clara e delicada de um instante eterno, cinzento.



M&S - Gostaria que começasses por falar sobre o concerto que deste na Aula Magna.
V.R. - Gostei bastante dele, mas houve muitos problemas com o PA, porque não era adequado para a amplificação de uma guitarra, de uma bateria e do piano. O som estava absolutamente terrível... E além disso nós utilizamos amplificadores de som dirigidos para o palco, de modo a que possamos ouvir o que o outro toca, e esses amplificadores estavam em condições ainda piores, e por isso não ouvíamos o que se estava a passar... não tocámos muito bem, juntos. O som estava realmente péssimo, e agora toda a gente nos pede desculpa por esse facto, mas nós já tínhamos explicado o que pretendíamos, bastante antes do concerto. De qualquer forma, e apesar disso tudo, eu gostei do concerto, porque as pessoas se sentaram e OUVIRAM verdadeiramente... gostei disso, foi óptimo. O público tornou o concerto verdadeiramente bom.
M&S - Preferes este público ou aquele que tiveste em Vilar de Mouros?
V.R. - Havia uma mistura maior, no festival. Não me importei com isso, mas acho que preferi o público desta vez. Talvez isso tenha acontecido por causa do lugar ser mais íntimo e o público mais jovem... Senti que me podia expressar melhor assim do que para pessoas mais velhas. Porque essas pessoas são provavelmente apreciadoras de jazz, e não consigo imaginar que elas gostem do que nós fazemos, porque a nossa música não é tecnicamente brilhante ou inteligente... por isso acho que para essas pessoas, a nossa música deve ser bastante maçadora, enquanto para as pessoas mais novas é muito melhor. Elas não se preocupam se tu és um tecnicista, ouvem a música.
M&S - Preferes tocar em clubes pequenos ou em algum lugar específico?
V.R. - Em qualquer lugar. Aborda-se sempre lugares diferentes de maneira diferente. Se estiver num clube pequeno, toco de modo diferente do que toquei, por exemplo, no festival. É sempre diferente. Mas eu não me importo com os sítios onde toco.
M&S - Gostas mais de tocar ao vivo ou de trabalhar em estúdio?
V.R. - São coisas muito diferentes, não prefiro uma nem outra. O trabalho de estúdio é mais criativo e há mais oportunidades de pesquisa sonora, etc. Mas eu também gosto de tocar em concertos, especialmente quando sou só eu e o Bruce, porque todas as notas têm que estar certas, tem que se tocar o melhor que se pode... porque se estás num grupo que tem mais quatro pessoas e tocas uma nota errada, não se nota tanto como se notaria se eu ou o Bruce o fizéssemos... connosco seria demasiado óbvio.






M&S - Mas tu utilizas uma certa improvisação em palco... o Bruce disse que às vezes não sabe que nota vais tocar a seguir...
V.R. - Isso é verdade, nós só ensaiámos duas vezes durante todo este tempo em que tocamos juntos... nunca ensaiamos. Por exemplo, uma das canções que tocámos neste concerto foi escrita três horas antes de termos vindo para Portugal, por isso nunca a tinha tocado ao vivo, e obviamente o Bruce nunca a tinha ouvido... Mas isso é giro porque é espontâneo e o Bruce sabe sempre exactamente o que tocar, sente-o. Nós nunca sabemos o que vai acontecer a seguir. Isso é muito melhor do que ensaiar o tema várias vezes.
M&S - Isso acontece possivelmente porque tu utilizas gravações de caixas de ritmos...
V.R. - Esta foi a primeira vez que utilizei uma gravação de fundo, e provavelmente foi também a última, porque não resultou... Especialmente quando se trata de uma gravação de fundo, é necessário ouvi-la através dos amplificadores, e tal como já expliquei, nós não nos conseguíamos ouvir a nós próprios, e por isso não sabíamos em que parte da gravação nós íamos. Por isso foi desastroso. Nós tocámos seis temas utilizando a gravação de fundo, e depois desligámo-la e continuámos sem ela. Por isso decidi não voltar a utilizá-la.
M&S - Vocês tocaram muito poucos temas de "LC", o único trabalho que foi editado em Portugal. Não te parece que o público português teria gostado que vocês tocassem mais temas desse álbum?
V.R. - Não sei. Há duas formas de encarar isso. Pode-se pensar que, se as pessoas querem ouvir temas de "LC" ou de outro álbum qualquer, podem ouvir o álbum em casa. E se querem ouvir algo diferente e novo, vêm aos concertos, porque muito do material que nós tocamos ao vivo jamais será incluído em discos - quando eu começo a pensar em fazer outro álbum, vão aparecendo novas canções.
M&S - Vocês vão gravar algum álbum brevemente?
V.R. - Acabámos de gravar um, que se tudo correr bem vai ser editado durante o próximo mês, e chama-se "Another Setting". Utilizámos um trompetista em duas faixas, um oboé noutras duas, e parte do material tem um som um bocado clássico, outra parte é experimental, e além disso há também uma sonoridade forte. É muito variável e bastante diferente de "LC". Eu sempre senti que "LC" é um álbum maçador, devido sobretudo ao facto de grande parte dele ter sido gravado no meu quarto de dormir, em casa, com o meu próprio gravador. Utilizei apenas uma caixa de ritmos e duas pistas de guitarra, e não há muito que se possa fazer nessas condições. Não me parece que "LC" seja muito bom... e o primeiro álbum, "The Return Of The Durutti Column" é horrível. Por isso espero que este terceiro álbum seja um pouco melhor, estou um bocado mais satisfeito com ele. Não sei o que o público irá achar dele.
M&S - Tu tiveste um tema teu incluído num disco editado pela companhia belga "Disques Du Crepuscule", mais precisamente "Lips That Would Kiss". Como é que aconteceu o contacto com essa editora?
V.R. - Bem, o Tony Wilson quis arranjar uma distribuidora da Factory Records na Bélgica, e encontrou lá algumas pessoas interessantes... assim, eu gravei esse disco. O trabalho de estúdio foi feito em cerca de meia hora, foi extremamente rápido. "Lips That Would Kiss" foi tirado de um poema de T.S.Elliot, e foi encontrado escrito numa das cartas que Ian Curtis deixou... foi a minha homenagem a Ian Curtis, o vocalista dos Joy Division, que morreu. Foi talvez essa a razão principal porque eu fiz esse disco.
M&S - Conhecias bem Ian Curtis?
V.R. - Não muito bem, mas começámos a conhecer-nos um ao outro e planeámos comprar uma casa juntos para nela fazermos um estúdio.
M&S - Achas que existem algumas semelhanças entre a tua pessoa e Ian Curtis? Tu tens declarado que é suma pessoa depressiva...
V.R. - Não sei, acho que é impossível afirmar-se isso.
M&S - Em que ocasiões costumas compor? Talvez quando estás deprimido?
V.R. - Estou sempre a compor. Posso escrever canções todos os dias, e por isso elas são diferentes porque reflectem a minha disposição momentânea.
M&S - Normalmente, preferes escrever sobre que temas?
V.R. Quase sempre sobre a minha vida pessoal, as coisas que me rodeiam e aquilo que me acontece, e tudo o que é importante para mim. É uma maneira de se dizer coisas que não podem ser ditas às pessoas em circunstâncias normais. Não podes ir ter com as pessoas e dizer-lhes determinadas coisas, é muito mais fácil escreveres uma música sobre isso, porque a ideia é melhor transmitida assim. E, para mim, é mais natural.
M&S - Acreditas que a música é ainda um forte meio de comunicação?
V.R. - Sim, sem dúvida, isso é o ponto fulcral da música. Quando ela deixa de comunicar algo às outras pessoas perde o seu objectivo... não há justificação para ela. E isso estende-se também a qualquer forma de arte.
M&S - Fundamentalmente, o que representa para ti criar música?
V.R. - É o meu meio de expressão, algo de muito natural. Não é nada que eu faça com o objectivo de lucrar alguma coisa com isso, é simplesmente algo que eu não posso evitar de fazer, porque TENHO que o fazer. Porquê? não sei. Acho que é como ter que comer ou que beber, é uma necessidade.



M&S - Creio que declaraste uma vez que ouves sobretudo música clássica e muito pouca música moderna. Sentes-te influenciado pelos clássicos?
V.R. - Não sei ao certo. Acho que nós somos influenciados por tudo, seja de uma forma positiva ou negativa. Se ouvirmos um disco pop absolutamente idiota, até por isso somos influenciados, porque dizemos a nós próprios "Eu não vou fazer nada como aquilo". Portanto, de certo modo, somos influenciados por isso. E eu acho que sou influenciado por tudo. Mas se há vestígios dos elementos, que existem na actual música clássica, na minha própria música, eu sentir-me-ei orgulhoso por isso, embora me pareça que eu não sou suficientemente bom para poder afirmar uma coisa dessas. Acho que a minha música é muito simples e básica, porque os meus conhecimentos de música são muito básicos. Os actuais compositores clássicos fazem-me sentir envergonhado, porque parte da música que eles escrevem é incrível. Mas pelo simples facto de ser apresentada de uma forma particular, utilizando violinos e orquestras inteiras, as pessoas rejeitam essa música. E isso é devido ao facto das pessoas encararem a música pela sua forma e não pelo seu conteúdo. Se se orquestrasse a música que eu faço, as pessoas não a ouviriam sequer. Mas como eu utilizo a guitarra e o piano, isso permite uma audição mais fácil.
M&S - Mas tu disseste que neste teu último álbum resolveste incluir um oboé e outros instrumentos. Será que isso não significa uma espécie de contacto com a música clássica?
V.R. - Bem, parte deste último álbum é como que meio clássico. Eu nunca seria pretensioso ao ponto de afirmar que se trata de música clássica, porque de modo algum é tão bom como isso. Simplesmente, tem um som um bocado clássico, mas de maneira nenhuma é suficientemente inteligente para ser considerada música clássica.
M&S - Preocupas-te, de algum modo, com os problemas sociais em Inglaterra ou em qualquer outra parte do mundo?
V.R. - Sim... por exemplo, é estranho estar aqui a dar esta entrevista ou fazer um concerto.. é bom quando as pessoas nos dão atenção, toda a gente gosta de ser alvo de atenções, mas às vezes gostaria de pedir às pessoas que não levassem a música tão a sério... Embora seja bom ter-se a atenção das outras pessoas, por um outro lado é também chato. Às vezes apetece-me dizer: "Meio mundo está a morrer à fome, e afinal de contas isto é só música." O que é mais importante afinal? As pessoas deviam preocupar-se mais com o facto de meio mundo estar a morrer por falta de comida, e a distribuição do poder económico ser absolutamente estúpida, por exemplo, em Inglaterra, qualquer coisa como 2% da população detém 70% da riqueza do país, e esse tipo de coisas é totalmente absurdo. Eu preocupo-me com o que se passa à minha volta, mas não me parece que eu possa fazer muito contra isso. Afinal o que é que nós podemos fazer? A única coisa que se pode fazer é dizer isso às outras pessoas. Mas sempre que eu tento escrever letras de carácter político ou social, as palavras parecem tropeçar umas nas outras e tudo soa um bocado atabalhoado e a "slogan", e parece que estou a tentar impor as minhas ideias às pessoas... Cada um devia estar consciente dessas coisas ele-próprio. E eu acho que sou bastante egoísta e obcecado com os meus próprios problemas, e por isso escrevo sobre mim e sobre as coisas que me acontecem.
M&S - Acabaste de dizer que a música não é tão importante como diversos problemas sociais - por exemplo, o de tanta gente estar a morrer à fome. Mas disseste também que, para ti, compor música é algo tão importante como comer e beber. Não te parece que para as outras pessoas a música pode também ser tremendamente importante? Por exemplo, ouvir os teus discos pode ser um tipo de estímulo quase vital...
V.R. - ... Esse é um bom argumento... Eu penso que sim, mas não percebo porquê. Talvez isso aconteça porque, por exemplo em Inglaterra existe muita gente jovem que prefere comprar um disco a comer, e por isso não comem durante uma semana para juntarem dinheiro. Por isso acho que deves ter razão. Mas eu não sei porque é que isso acontece.
M&S - Achas que pode existir uma certa identificação da parte das pessoas que ouvem e sentem a tua música, para contigo?
V.R. - Era óptimo pensar isso. Não sei se será ou não verdade, mas se isso acontecesse seria óptimo.
M&S - Falou-se há pouco dos Joy Division. Acreditas na possibilidade de um dia aparecer um grupo capaz de retomar o espírito da música deles?
V.R. - Bem, é difícil de dizer, porque no momento actual (e eu estou a falar unicamente da situação em Inglaterra, obviamente porque é com ela que eu tenho contacto), há muitos imitadores dos Joy Division, e são todos muito, muito maus. Não se pode imitar pessoas como eles. Nunca haverá outro Ian Curtis, e essa foi uma das razões porque os Joy Division mudaram o nome para New Order quando Ian morreu. O que eles hoje fazem é totalmente diferente do que faziam os Joy Divison. Os New Order actualmente têm muito êxito e estão muito distantes do estilo e espírito original dos Joy Division. T~em um tipo de música muito própria e válida. São pessoas únicas e muito talentosas... e também há muitos imitadores deles. No último álbum dos New Order, que vai ser editado possivelmente dentro de um mês, eles mudaram de direcção uma vez mais, e consequentemente todos os imitadores ficaram para trás, e hão-de estar sempre um passo atrás. Não deixa de ser divertido. Mas ao mesmo tempo é deprimente ver que as pessoas têm necessidade de imitar porque não conseguem criar algo próprio. E isso é justamente o que está a acontecer em Inglaterra, no music business. A música continua a estar nas mãos dos "businessmen", e isso é muito triste. A única coisa que eu vi, e que me pareceu interessante, foi, para dar um exemplo, um disco de Marvin Gaye chamado "Sexual Dealing", que está a ter um enorme sucesso. Esta música é do último álbum do Marvin Gaye e de certo modo tem muito a ver com a música de um grupo que são os Orchestral Manoeuvres In The Dark, que são um grupo post-punk de música electrónica. O que parece estar a acontecer agora é uma fusão entre a músic apost-punk electrónica feita em Inglaterra baseada na soul-disco americana. Há agoar um tipo de música baseado em sintetizadores programáveis por computador, e para além disso utilizam-se técnicas de estúdio que se costumavam usar na música reggae, e obtém-se esta estranha combinação de coisas que agora está a evoluir e a dar lugar a uma forma de música bastante excitante. É a única coisa nova, que ainda dá algum sinal de vida, que eu ouvi de há algum tempo para cá. E uma das coisas mais excitantes é que um dos melhores produtores deste tipo de música, nos Estados Unidos, é um homem chamado Arthur Baker, e os New Order foram a Nova Iorque para trabalhar com ele. Talvez daí apareça alguma coisa nova. Estou bastante curioso para ouvir o resultado. Para além disso, não há nada de novo na música inglesa. Na minha opinião, é tudo bastante maçador.
M&S - Porque é que deixaste de trabalhar com o produtor Martin Hannett?
V.R. - Fundamentalmente porque eu pretendia um maior controlo. O novo álbum foi produzido por mim e por um engenheiro, porque eu queria obter maior controlo sobre o som total. Muito frequentemente acontece que entre o que é gravado e o que se ouve no fim, após a mistura, não há grandes semelhanças. O produtor pode mudar tudo. O que está errado. O Martin Hannett é muito bom nisso, mas eu não queria que as coisas se processassem dessa maneira. Pretendo uma maior honestidade, de modo a que o que as pessoas ouçam no fim seja o mesmo que eu gravei. Foi por isso que eu deixei de trabalhar com o Martin.
M&S - Bruce Mitchell disse-me que a capa de "LC" é a reprodução de uma pintura da mulher dele. Achas que existe uma identificação entre a tua música e as capas de "LC" e de "The Return Of The Durutti Column"?
V.R. - Acontece que eu gosto de artes visuais, especialmente de pintura, mas sou ignorante a esse respeito. O meu pintor preferido é um francês de quem usei três quadros na capa de "The Return Of The Durutti Column". Quando eu fui a casa de Bruce para lhe pedir que tocasse bateria comigo, reparei nos quadros pendurados na parede dos quais eu gostei muito, mas não fiz nenhum comentário a esse respeito, nem lhe perguntei de quem eles era. Mais tarde soube que a Jackie, a mulher dele, que tinha deixado de pintar algum tempo antes, recomeçou a pintar quando ouviu a minha música, porque isso fê-la ter vontade de pintar outra vez. Houve como que um encontro das duas mentes, e eu pedi-lhe imediatamente que fizesse a capa de "LC". Além disso, ela também fez a capa de um disco editado na Bélgica, "Two Triangles", e está a fazer a capa do novo álbum. Há realmente um relacionamento espiritual, e isso é óptimo.
M&S - Tu referiste-te à pintura. Tens algum tipo de interesses, para além disso e da música?
V.R. - Sim, eu gosto muito de ler. Provavelmente o meu autor preferido é Graham Greene. Gosto também de fotografia, e acabei de comprar um carro, porque adoro guiar. Mas essencialmente, o que aprecio mais é a música. Sou realmente obcecado por música.
M&S - Achas que existe relação entre a música e outras formas de arte?
V.R. - Sim, sem dúvida. Uma das coisas que eu espero poder fazer é escrever o guião de um filme, o qual está agora a ser estudado. E acho que a música completa um filme. A imagem faz com que a música soe melhor, e a música faz com que a imagem pareça melhor. Complementam-se uma à outra. E isso acontece também no caso do teatro, da pintura... Uma das coisas que eu gostava de fazer era realizar uma exposição dos quadros de Jackie, utilizando a minha música como complemento sonoro. Tenho montes e montes de música que nunca será editada em disco, é o material que eu componho no meu quarto. Por isso gostaria de gravar todo esse material que nunca há-de ser editado, numa bobina, e utilizar essa gravação numa exposição das pinturas de Jackie. Acho que isso resultaria muito bem, foi uma ideia que nós tivemos recentemente.
M&S - Gostarias de fazer um filme ou vídeo para ilustrar a tua música?
V.R. - Sim, mas não saberia como fazê-lo (ri-se). É uma ideia gira, mas para isso teria que trabalhar com especialistas de vídeo.
M&S - Gostava que me falasses sobre o teu trabalho com Bruce. Como é que aconteceu o vosso encontro?
V.R. - Foi bizarro, porque ele vive a curta distância das instalações da Factory Records e eu nem sabia disso. Um dia, quando eu estava na Factory, queixei-me de não conseguir encontrar um baterista com quem eu pudese trabalhar, e que fosse original. O único baterista que me ocorria era Bruce, que tocava na banda Alberto Y Los Trios Paranoias, e eu achava-o um músico incrível. Pensava que nunca haveria possibilidades de ele vir tocar bateria comigo. Aconteceu que eu mencionei isto, nesse dia, quando estava na Factory, e Alan, um homem que trabalha lá, telefonou imediatamente ao Bruce e disse-lhe "Vini Reilly vai aí agora. Vais ficar em casa?". Então eu dei a volta ao quarteirão e fui a casa dele, e quando lhe perguntei se queria trabalhar comigo ele disse-me imediatamente que sim. Desde essa altura tudo tem sido perfeito, não há outro baterista com quem eu possa trabalhar.
M&S - Não achas que é espantoso como duas pessoas tão diferentes uma da outra, como são tu e Bruce, podem trabalhar juntas de uma forma tão harmoniosa?
V.R. - Acho que é precisamente por causa dessa diferença que tudo resulta tão bem. Eu estou a viver em casa do Bruce até ter a minha própria casa. Por isso, além de trabalharmos juntos, nós vivemos juntos, e mesmo assim de maneira nenhuma nós temos discussões ou rixas. E eu acho que isso é devido precisamente ao facto de nós sermos tão diferentes e de ele   Acho que essa é a única explicação. Há uma grande ligação entre nós.
M&S - Que idade tens?
V.R. Idade? (ri-se) A isso não respondo...
M&S - OK, é tudo. Obrigada.
V.R. - Obrigado eu.
Manuela Paraíso 


Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. Blancmange - "Galinhas Computorizadas", artigo por Fernando Neves
. Altered Images - "A Reinvenção Do Pop", artigo por Célia Pedroso
. Laurie Anderson - "A Ciência Da Iniciação", artigo por Amílcar Fidélis
. ABC - entrevista por José Maria Corte-Real
. Syd Barrettt - artigo por Manuel José Portela
. Japan - "(Un)quiet Life", artigo por Manuela Paraíso
. Discos em Análise:
.. Blue Oyster Cult - «Extraterrestrial Live" [CBS 22203], por Nuno Infante do Carmo
.. Depeche Mode - «A Broken Frame» [MUTE 609302], por Célia Pedroso
.. Peter Hammill - «Enter K» [Mercury 6302215], por Carlos Marinho Falcão
.. Go-Go's - «Vacation» [Illegal Records ILP 85961], por Célia Pedroso 




4.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (127) - Música & Som #75


Música & Som
Nº 75
Setembro de 1982
Publicação Mensal
Esc. 100$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lsª
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.



Entrevista Com Os Durutti Column
por: Ana Rocha

Suaves Revoluções




Bastante antes da sua actuação, já Vini Reilly (guitarrista, teclista e responsável por todos os temas) e Bruce Mitchell (baterista) se passeavam pelos bastidores do palco montado em Vilar de Mouros. Tony Wilson, o patrão da Factory, e o manager da Coluna de Durutti seguiam constantemente Vini, um jovem enfezado e tímido, de pequeninos olhos azuis, enfiado numas colossais pantalonas de ganga, nervoso e pálido. Bruce Mitchell, um quarentão jovial e jocoso, procurava garrafas de vinho nacional à falta de melhor. Só no dia seguinte é que conseguiria arranjar umas ervinhas muito procuradas pelos agentes da Judiciária.
Depois de muita insistência junto do manager de Vini Reilly, conseguimos que ele se sentasse a um canto. Vini não parecia contrariado ou enfadado por ir dar uma entrevista. Mostrava, sobretudo, um certo alheamento relativamente ao que se passava à sua volta.

M&S - Gostava que falasses sobre a parte inicial da tua carreira como músico, antes de Durutti Column.
Vini Reilly - No início eu fiz parte de uma banda que se intitulava The Noise Please. Trabalhei em programas de televisão. Fazia música de filmes. Foi por essa altura que eu conheci o Tony Wilson. Eu já tinha ideia de que a música pop passava por um momento de crise, que a indústria tinha tomado conta dela e que a tinha totalmente destruído. O pop tinha-se tornado num verdadeiro negócio. Não valia a pena ser tocado. E eu comecei a sentir-me tremendamente deprimido. Tive de passar a depender de comprimidos. O médico receitava-me imensos. Eu sofro de falta de apetite e o médico que me acompanhou é de opinião que os comprimidos de LSD estimulam os aminoácidos. Portanto eu tenho autorização de consumir desse tipo de coisas, com receita médica. Entretanto, o Tony viu que a música me podia safar desse estado depressivo e pensou que seria bom eu formar uma nova banda. Depois de muita hesitação, finalmente concordei em reunir um guitarrista, um baixista e um baterista. Começámos a trabalhar e comecei a notar que eles tinham a mania que eram estrelas. Eles insistiam no seu estatuto de estrelas e eu resolvi abandonar o grupo. Escrevi um bilhete ao Tony Wilson a informá-lo desse facto. Mas o Tony veio ter comigo e disse-me que estava interessado em trabalhar comigo e não queria nada com os restantes elementos da banda. Despediu-os e fiquei eu.
M&S - Isso aconteceu por volta de 1979.
Vini Reilly - Pois. Eu já estava a escrever pequenas composições. Mas como o punk e o Malcolm McLaren estavam na berra, o Tony e eu pensámos que seria pouco correcto lançar um álbum de temas muito suaves, com música de piano, tudo muito doce.
M&S - O Malcolm McLaren teve alguma coisa a ver contigo?
V.R. - Ele sempre teve umas ideias muito concretas sobre a situação que se estava a viver no momento. Ele era situacionista.
M&S - E que é que isso teve a ver contigo?
V.R. - Basta dizer-te que escolhi o nome Durutti Column em homenagem a um tipo que era anarquista e que foi abatido por volta de 1920; chamava-se Durutti, claro.
M&S - E isso quer dizer que os Durutti Column são anarquistas?
V.R. - (sorrindo ligeiramente) - Não somos activos...
M&S - Essa medalha que trazes pendurada ao peito o que representa?
V.R. - Deu-ma a minha irmã no dia dos meus anos. É uma moeda antiga. Dum lado tem o signo e do outro tem a efígie do rei.
M&S - Porque motivo andas com a imagem do rei pendurada ao peito? Isso tem a ver com qualquer posição a favor da monarquia?
V.R. - Não quero responder a isso.
M&S - Como é que foi gravado o teu LP?
V.R. Eu não queria pactuar com a indústria discográfica. E ia fazendo os meus temas, distanciado dela. Aliás penso que a indústria discográfica é verdadeiramente patética. Já levava para o estúdio cerca de trinta temas acabados, e em apenas duas sessões, o álbum ficou pronto. O Tony e o Martin Hannett decidiram quais é que eram os temas adequados.
M&S - Tencionas voltar a trabalhar com o Martin Hannett?
V.R. - Não. Quero ser eu a produzir os meus trabalhos. Não quero mais nada com ele em termos de produção. Sou eu o único responsável pelos temas dos Durutti Column. Sou eu que componho, interpreto, toco todos os instrumentos, escrevo as letras...
M&S - E o Bruce Mitchell?
V.R. - Ele faz a parte da percussão e da bateria. No palco só estamos nós os dois. Eu ando dum lado para o outro a tocar os restantes instrumentos.
M&S - Quais são os teus planos para já?
V.R. - Eu estou a escrever música para alguns filmes de televisão. Durante cinco semanas vou-me dedicar a isso e depois vou preparar o meu novo álbum. Vai ser totalmente diferente do que aquilo que tenho feito até agora. Mas os temas continuarão a ser muito pessoais. Vou tentar aventurar-me mais, sendo menos tecnicista.
M&S - Sentes muita necessidade de criar, de escrever música? Isso liberta-te da tua depressão?
V.R. - Eu penso que compor música é a única justificação que eu encontro para continuar a viver. Acho que, a todos nós são dados uns tantos anos para fazer alguma coisa, para viver. E eu tenho que justificar a minha existência. Eu vejo que as pessoas que me rodeiam, a sociedade em que eu vivo nada faz para merecer viver. Eu sinto necessidade de fazer coisas.
M&S - Gostas mais de actuar em Inglaterra ou em países que não sejam de expressão inglesa?
V.R. - Penso que é um desafio maior vir tocar para pessoas que não conhecem a minha música. Em Inglaterra, a imprensa procura dar cabo dos grupos. Passam a vida a aborrecer os músicos. A imprensa cheira mal, tresanda... E esquece-se que, apesar de todas as críticas que ela produz, os discos continuam a vender-se. A indústria discográfica está corrupta. É necessário empreender uma revolução para alterar o estado das coisas.
M&S - E os Durutti Column estão dispostos a estar na vanguarda desse movimento revolucionário, a fazer a revolução?
V.R. - Estamos preparados para o fazer de uma maneira muito suave, muito calma.
M&S - Encontraste uma boa recepção na América?
V.R. - Fiz concertos em Boston, Nova Iorque, Toronto e Montreal e posso afiançar-te que fiquei agradavelmente surpreendido com a boa recepção que por lá tive. Poucas pessoas conheciam a minha música e no entanto reagiram muito bem.
M&S - Preocupa-te o tamanho do recinto onde actues? Preferes actuar em salas pequenas ou grandes?
V.R. - Para mim, não interessa nada o tamanho do recinto onde actuo. Depende das músicas que interpreto. Se vejo que há mais público a encher a grande área, recorro a um material mais excitante. Principalmente se noto que as pessoas estão a impancientar-se...
M&S - Tens alguma preferência relativamente à música que se faz na Grã-Bretanha?
V.R. - Há centenas de grupos que não são comerciais e que fazem boa música. Eu tive a sorte de me encontrar com o Tony Wilson e de poder gravar a minha música. Há muito mais pessoas criadoras que ainda não tiveram essa chance. Ouço os A Certain Ratio, por exemplo... mas não ouço muita música desta que se faz actualmente... Ouço aquele material maçador (That boring stuff) do Tchaikovsky... do Benjamin Britten... Isto que eu estou a dizer pode parecer preconceituoso, mas, na realidade, eu tenho muita dificuldade em concentrar-me e não escuto muito a música que os outros fazem.
M&S - Quando sobes para o palco, sentes-te deprimido?
V.R. - Durante 50 minutos, esqueço o meu estado de espírito, a depressão.

Vini parecia fatigado. Afastámo-nos para tentar encontrar o acompanhante, Bruce Mitchell. Não tardou muito que o mesmo estivesse sentado no mesmo sítio onde, meia-hora antes, tinha estado Vini. Bruce pareceu estar com vontade de falar e de contar histórias. Aqui estão elas.



M&S - Sabemos que tu também tens trabalhado com o grupo Alberto & Los Trios Paranóias. Como é, trabalhar em dois grupos tão diversos?
Bruce Mitchell - São dois estilos completamente opostos. Mas eu, essencialmente, acredito no talento, nas pessoas que o t~em. E tenho estado a trabalhar com o Vini de há um ano para cá.
M&S - Preferes trabalhar inserido nos Durutti Column ou nos Alberto & Los Trios Paranóias?
B.M. - Não sei fazer a escolha, porque são dois estilos completamente opostos. É como estar a trabalhar em dois mundos diferentes. Eu «sou» duas pessoas, mudo de personalidade. Estou sempre a trabalhar em duas esferas opostas.
M&S - Que pensas da vossa vinda a Portugal?
B.M. - Eu já vivi em Portugal há cerca de 12 anos, durante três meses, integrado num grupo, The Flame. vivi em Cascais. Adoro a comida portuguesa. E o vinho!
M&S - Como é trabalhar com o Vini Reilly?
B.M. - Penso que isso constitui um desafio muito grande para mim, dado que o Vini é um grande estilista. Nunca sei qual é a nota que ele vai tocar a seguir. E penso que nem ele próprio sabe o que vai tocar! É perfeitamente imprevisível! É a mesma sensação que eu teria se estivesse com o Ravi Shankar!!! Mas tu já topaste como é o Vini? É um tipo cheio de piada! Reparaste nas calças que ele traz?!!!
M&S - E como era trabalhar com o Alberto & Los Trios Paranóias?
B.M. - Eles são completamente chanfrados! Totalmente! São giríssimos! Já fizemos uns shows para a televisão, em que entrou também o lunático do John Cooper Clark e asseguro-te que os espectáculos foram bizarrissímos!
M&S - O Alberto já morreu há uma data de tempo, não é?
B.M. - Há cerca de três anos. Morreu com um cancro. Ele sabia que ia morrer e nas últimas semanas de vida foi visitado no seu quarto do hospital por uma data de celebridades... O Elvis Costello... o Ian Dury... muita malta da Stiff... E quando foi o enterro?!!! Então aí é que foi o fim da picada! Foi enterrado nos montes dos Peninos. O cemitério ficava no topo do monte e tivemos de transportar o Ian Dury até lá acima numa padiola! Estava um frio danado! Nevava! E agora vamos lá todos os anos dançar sobre a tumba! Nunca me diverti tanto num funeral!! Estavam montes de pessoas conhecidas! E o Alberto, como não gramava o padre e já esperava um discurso fúnebre viciado, resolveu fazer um elogio fúnebre e um comentário que depois entregou ao padre, exortando-o a lê-lo durante as cerimónias do enterro. E esse discurso fazia críticas à malta que estava presente, dava agradecimentos e cumprimentos a outros... enfim... aquilo foi um verdadeiro pandemónio! E quando ele estava no hospital, o Ian Dury foi lá para lhe cortar o cabelo! Ai, aquele Alberto!...

Já estava quase na hora da actuação. Bruce Mitchell revelou ser o oposto de Vini Reilly. Mais comunicativo, mais brincalhão, sempre com piadas na ponta da língua, com histórias mirabolantes resultado de uma longa carreira no interior do show-business, muitos contactos com vários grupos, muitos anos como baterista. Ao longo do espectáculo, era o contraponto do sisudo e alheado Vini Reilly, sempre com o sorriso nos lábios. Eis uma das facetas dos Durutti Column, uma banda verdadeiramente genial, com um mentor jovem como Vini a brindar-nos com as suas efusões musicais.



Vilar De Mouros 82:
Estranhas coisas.
Estranhos lugares.
Estranhas gentes!


Do nosso enviado especial Carlos Marinho Falcão
Fotos: Luís Ramos

«Loucura! Loucura! Loucura controlada... sem medicamentos... sem camisas de força! Loucura controlada pela vossa inteligência e pelo amor! Adeus, adeus... obrigado, obrigado!...»
Com estas palavras épicas, sem dúvida, se declarou averto o festival de Vilar de Mouros de 82, pela voz do dr. Barge, essa mistura deliciosa de português à moda antiga e de louco sem idade. Eram cerca de 22.30 e o público começava a impancientar-se...

Entre coelhos e estranguladores

Um riozinho mimoso, uma meiguice bucólica, uma paisagem campestre subitamente invadida por uma estranha romaria. Bonito e curioso, um painel cheio de contrastes - porreirinho. Sobre o palco, finalmente, Echo & The Bunnymen, a bandazinha deliciosamente atormentada de Ian McCullogh e, presentemente, uma das minhas favoritas. Não desiludiram, os Bunnymen. Capazes de transpor para o palco todo o ambiente impetuoso e lírico dos seus trabalhos em disco, eles foram justamente os primeiros heróis do festival e, como a seguir veremos, talvez os únicos da noite.



Vital e expressiva, caudalosa e explosiva, a música dos Bunnymen em Vilar de Mouros foi capaz de criar toda uma ambiência sonora, cardíaca e impetuosa, arrebatadora e empolgante, conducente directamente ao coração da festa, ao centro da paixão, à sístole e à diástole do corpo em estreita comunhão com a terra e o céu. Concentrado e conciso, tímido e neurótico, Ian McCullogh foi o mestre de cerimónias. Por vezes, o charme demasiado vivo, embora fugaz - quase sempre a melancolia. Belo e sedutor. Não faço ideia que tragédias perseguem McCullogh para este se embrenhar daquela maneira nos seus indecifráveis tormentos interiores, mas é o espectáculo que aqui importa e, como espectáculo, é indubitável que a coisa resulta. Com uma fluidez onírica feroz, caóticos e introvertidos, quase todos os temas de «Crocodiles» e «Heaven Up Here» desfilaram perante um público dividido e impaciente, já com um olho posto nos Stranglers, tidos a priori como as grandes estrelas da noite. Puro engano. E, sobretudo, uma atitude injusta para com a banda de McCullogh, que, em Vilar de Mouros, demonstrou ser, na verdade, uma das mais interessantes do rock actual.

Recebidos com pompa e circunstância de superstars, os Stranglers acabaram por ser a grande desilusão da noite. Para eles, de facto, a hora da retirada estratégica parece ter soado. Os lançadores de anátemas, sem dúvida arrefecidos pelos incidentes numerosos com a Polícia ao longo da sua carreira, acalmaram-se. Pelo menos na aparência. Terminada parece estar a época dos concertos/happening, da algazarra tempestuosa. Agora, as palavras-chaves são o rigor, a frieza, a distância. Estranguladores estrangulados pela perfeição formal. Nada de notas deslocadas, uma presença minimal, relâmpagos sóbrios e fugazes de quatro personagens que se apagam humildemente (?) por detrás da sua música. Uma sensação de ausência. Demasiado aplicados na recriação perfeita do som dos sues últimos discos, os Stranglers tornaram-se glaciais, límpidos e indiferentes como a virtude. Negligenciando todo o sentido de dinâmica, em Vilar de Mouros os temas seguiram-se uns atrás dos outros todos semelhantes, sem qualquer subida ou descida de tensão, como que apontados a um alvo (qual?) como a flecha de um arqueiro zen. Autores festejados de uma música feia, o belo-horrível por excelência, em Vilar de Mouros eles não passaram de uma desilusão. No fim, a sensação amarga de nada se ter passado. Nada. A não ser que se trate de uma nova maneira de provocar. Mais subtil...



A Importância de Ser Zé Pereira

Por mais herética que passa ser esta afirmação, não me parece ter sido Vilar de Mouros o lugar ideal para um concerto clássico - pelo menos para aquele concerto clássico. No fundo, sob a capa de uma convivência entre tradições musicais e públicos diferentes reunidos num espaço comum, o que se passou, em parte, foi a simples transposição da ambiência geral de uma sala de concertos tradicional para o campo, para o ar livre.
Neste sentido, se não deixou de ser interessante apreciar o contraste cómico entre a casaca de Vitorino de Almeida e as fatiotas sem dúvida peculiares dos Claudius Qualquerius do rock, forçados ali, um pouco contra-natura, a curtir uma de clássica; se não foi menos interessante notar como essa mesma casaca contrastava com a poeirada que se erguia no ar e nos impestava a todos de alto a baixo, o certo é que, se não fossem os Zés Pereiras, os seus tambores, o seu ritmo, a sua exuberância contagiante, tão próxima do rock, afinal, talvez nos tivéssemos todos limitado a caricaturar o S. Carlos, o S. Luís ou a Gulbenkian, numa paródia burlesca a uma verdadeira convivência entre géneros e tradições musicais diversas, obviamente desejável. E depois, aquela sinfonia (des)concertante!...

A terminar, uma referência muito especial a uma curiosa intervenção de Jorge Lima Barreto (incansável no seu linguajar típico, ao longo de todo o festival...) ao microfone: «Isto que está a acontecer é importante, porque prova que o público não está aqui só para o rock, tem sensibilidade...» Querendo apesar de tudo acreditar não ser isto, exactamente, que ele queria dizer, não deixou de ter piada o dichote. Pela parte que lhe cabe, o rock agradece. Mais que não seja, por uma questão de sensibilidade...

Os Anti-Heróis

Suponho que com o objectivo - muito válido, certamente - de divulgar a cultura do Minho e a sua música, se incluiu no programa a desfolhada à minhota. Só que, efectivamente, aquilo não resultou. Não resultou, porque não podia resultar num palco daqueles, com aquelas luzes, naquele ambiente muito mais virado para outro tipo de acontecimentos. Não quero com isto dizer, atenção, que não fossem de incluir no programa diversas actividades directamente relacionadas com a cultura da região. Pelo contrário, seria até desejável que esse aspecto fosse incrementado já no próximo festival (se houver...), em 84. Mas, definitivamente, não àquela hora, com o público muito mais motivado para outro tipo de música! E, sobretudo, nunca durante duas horas! Desfolhadas à minhota, grupos folclóricos? Por que não durante o dia, como forma de preencher o tempo que, desta vez, as pessoas passaram sem qualquer tipo de ocupação? O mesmo, aliás, se poderá dizer acerca da música clássica. Mas não sinfónica, por favor! Amplificada, medonha - naquele lugar impróprio...

Uma vez desfolhada a espiga, vieram os The Gist - uma banda originada a partir dos defuntos Young Marble Giants. Os anti-heróis, por excelência. A fusão inteligente, ingénua e original do músico com a electrónica, aqui claramente posta ao serviço do homem e não o contrário. Uma experiência curiosa, uma música estranha e bela na sua ornamentação frágil e em metamorfose constante, The Gist foram em Vilar de Mouros a recusa do supérfluo, a provocação atrevida. Sublimes no seu delicioso «crew cut», rapazitos malandros fascinados pela electrónica e procurando tirar dela o melhor partido, eles foram, sobretudo, o escândalo de Vilar de Mouros, diante de um público que nunca conseguiu digerir muito bem aquele gravador «pespegado» mesmo à sua frente, bem no centro do palco. A sua música: um complexo rendilhado elaborado a partir de esquemas rítmicos muito simples, melodias banais a fazer lembrar os bailes de sábado À noite num qualquer clube de bairro, apontamentos melódicos breves, subtis e entrecruzados, acumulados em redor de um tema base. Nada daquilo tem o aparato megalítico do rock, de um certo rock. Ausentes de espectacularidade. The Gist terão sido a primeira grande surpresa de Vilar de Mouros. Apesar da discordância do público...

Você Também?

Pondo de lado a inútil e despropositada tirada antifascista de Vitorino de Almeida (outro incansável do linguajar fácil em Vilar de Mouros), a noite de terça-feira começou com a actuação banal da Orquestra (!?) Mikis Theodorakis. Entoando umas melopeias ditas de intervenção, melodias de sempre para antifascistas, a referida Orquestra (!?) sumiu-se da mesma forma como apareceu - ninguém deu por isso.
Após a actuação relâmpago de Carlos do Carmo, que afirmou estar em Vilar de Mouros com propósitos inteiramente pacíficos (numa brilhante tirada que comoveu toda a assistência), os Jafu'mega foram a primeira banda portuguesa a subir ao palco, dada a ausência dos Heróis do Mar no primeiro dia. Baseando a sua actuação essencialmente em temas do seu segundo álbum, os Jafu'mega revelaram-se aquilo que realmente são: uma banda dotada de músicos de boa craveira (com especial realce para o guitarrista Mário Barreiros - estupendo! - e para Zé Nogueira, no sax), fazendo uma música cuidada, uns quantos furos acima do que é comum nas chamadas bandas de «rock português». Criando um som aqui e ali a fazer lembrar os Police (talvez devido ao timbre vocal de Luís Portugal), no final a banda foi fortemente aplaudida, culminando-se assim uma actuação de mérito, um espectáculo dignificante.
Finalmente, a coqueluche da noite, o primeiro momento verdadeiramente alto do festival. No palco, U-2, uma banda cujo primeiro trabalho - «Boy» - se encontra editado em Portugal, embora esgotado.
Pretendem as más línguas que os irlandeses dos U-2, não são os novos Boomtown Rats, mas antes os novos Taste (lembram-se de Rory Gallagher?). Bono (o cantor) não será, talvez, o monstro do palco que ele sempre sonhou ser. The Edge (guitarrista) não é ainda Tom Verlaine, mas, não obstante, os U-2 trazem consigo o expressionismo, a potência inquieta e o lirismo negro capazes de dar um nome decente ao heavy-metal. Isso mesmo, ao heavy-metal.



Porque os U-2 são um caso único. O que é que eles tocam afinal? Qual o género em que se enquadram? Nenhum. Em todo o caso, não é nem novo nem moderno. Vestem-se como se estivessem em casa e tocam os seus instrumentos como se o mundo deixasse de existir à volta deles. Um grupo sem imagem, «Gloria», «Rejoice», «Fire» - três avalanches sonoras condensadas e envolvidas num lirismo elementar. Rod Stewart cantava assim, quando não era ainda o borregão ridículo que hoje é. Obcecada pelo público, a banda rapidamente se torna imbatível no palco: uma voz que fere e emociona, guitarras que inundam, um ritmo diabólico que vibra até à saturação. Optimistas e emocionantes, os temas vão-se sucedendo, entrecruzados de intenções por vezes ingénuas de delicadeza e meiguice. Guiando-se exclusivamente pelo instinto, é como que a um público virgem de toda a cultura rock que a banda se dirige em primeiro lugar. Um público autêntico, capaz de reagir também por instinto, por intuição. Lá, onde outros grupos se apoiam nos truques mais corriqueiros para impressionar e cativar o público, os U-2 surgem-nos armados apenas de uma honestidade humilde, desmunida, ingénua, mas cem por cento eficaz. O som: maciço, épico, cheio de souplesse e energia. Há nesta banda o mesmo deslumbramento do circo. Pequenos grandes truques como «ladies and gentlemen and now, the great!... Bono». E Bono, levado pela densidade empolgante de todo aquele ritmo explosivo, erguido no ar pela guitarra dilacerante e enorme de The Edge, vai aos poucos, através do seu lirismo instintivo, subjugando a multidão - sem se dar por isso, com uma dignidade natural, diluindo-se progressivamente no fluxo sonoro, por vezes para o exaltar, outras, em contraponto, para o «apaziguar», através de uma inflexão violentamente interior. Em suma, foi este vaivém instável, este desequilíbrio eléctrico e pungente que fez da música dos U-2 em Vilar de Mouros uma das mais combativas, persuasivas e atraentes apresentadas ao longo do festival. Uma música unidimensional, sem dúvida, mas, sobretudo, visceral.
Johnny Copeland veio a seguir. O blues do Texas. Apesar do êxito retumbante dos U-2 pouco tempo antes, não foi difícil a este bluesman soberbo agarrar o público, chamá-lo a si. O blues. Sempre o bom velho som cadenciado, aqui e ali a resvalar para o rythm'n'blues, um piano discreto mas tão rigoroso como eficaz nas suas intervenções breves e incisivas, uma guitarra tocada com a alma, uma voz quente, audível até ao pormenor. O blues de Johnny Copeland pode ser escutado como um longo apelo arrancado à alegria e à tristeza, à dor e à melancolia, qualquer coisa langorosamente sensual apontada directamente ao centro da paixão. O homem tem estilo, uma dignidade negra muito especial, cheia de humor e savoir-faire. Enfim, Johnny Copeland: a continuação desejada para o caminho anteriormente aberto pelos U-2. Musicalmente, Vilar de Mouros vibrava verdadeiramente pela primeira vez. Felizmente não seria a última...



Jazz, Jazz, Jazz...

Finalmente, o jazz. Após a ausência forçada e um tanto inesperada dos Old & New Dreams, que, dois dias antes, deixara muita gente desiludida, chegara o momento de destemperar as orelhaças com outras sonoridades, outras estéticas.
O quarteto de Saheb Sarbib foi o primeiro. Com Paul Motian (bateria), Joe Ford (sax soprano) e Booker T (sax tenor), além do próprio Saheb Sarbib no contrabaixo, estes quatro músicos encheram o recinto com uma música rigorosa, um trabalho interessante e homogéneo, com alguns momentos de rara beleza e emoção. Sarbib e Motian: o diálogo perfeito, a malha complexa e subtil sobre a qual os dois saxofones iam construindo quer em dueto, quer a solo, pequenas e (por vezes) maravilhosas viagens melódicas, gemidos orgásmicos gritados cá de dentro (Booker T, principalmente, com apontamentos notáveis nos agudos), ou, pelo contrário, doces melodias coloridas e rendilhadas, tristes e melancólicas, desenhadas com a mestria ímpar de 4 músicos acima de qualquer suspeita. No todo, um jazz muito certinho, sim, mas mais pela qualidade de cada um dos músicos individualmente considerados, do que, propriamente, pelo rasgo inovador, o tom de ruptura, o toque impetuoso da música interpretada pelo grupo. Em suma, quatro músicos de craveira técnica muito acima da média e uma música escorreita, rigorosa, feita sem grandes alardes, mas, ainda assim, recheada de pequenas pe´rolas, momento privilegiados, instantes compensadores. Uma abertura boa quanto baste, enfim, para a noite de quarta-feira...



Rão Kyao foi, sobretudo, uma vítima das circunstâncias. Abstraindo-nos agora de quaisquer problemas havidos com a organização, sucedeu ter sido no momento da sua actuação que ocorreram os incidentes junto da paliçada, com o consequente desvio da atenção de grande parte do público para outro tipo de acontecimentos protagonizados pela GNR e por algumas dezenas de indivíduos que tentavam - e conseguiram - entrar sem pagar, derrubando a paliçada. Talvez por essa razão e também pelo tipo de música tocada, a actuação de Rão Kyao's Goa foi, no seu todo, bastante apagada. Faltou atenção e disponibilidade por parte do público; faltou a Rão Kyao capacidade para (re)conquistar esse mesmo público. Talvez o tipo de música escolhida para o concerto não fosse o mais indicado para aquela ocasião - em que se pediria, talvez, qualquer coisa mais «Swingante», mais festiva. É uma hipótese...
A actuação da Anar Band acabou por não ser mais feliz do que a de Rão Kyao, embora por motivos diferentes. Pomposamente fantasiada com o epíteto de «música de vanguarda», espalhafatosa na sua apresentação, aparatosa na sua redundância, no final, apenas a sensação vaga de nada ter sucedido. Tal como com os Stranglers, a sensação de vazio, de inutilidade, de uma vanguarda vã e fútil submersa e perdida nos meandros da sua auto-indulgência. Como contrapartida positiva, dois aspectos: os diaporamas projectados pelo grupo Neon - sensacionais, sem dúvida! - e a soberba actuação de Vítor Rua, no baixo, fazendo-nos amiúde esquecer o papel essencialmente rítmico normalmente desempenhado por este instrumento. Um acabou por ser só por si o motivo porque a Anar Band não teve um débito de fracasso ainda maior em Vilar de Mouros.
Por fim, e a culminar uma noite apesar de tudo positiva em termos musicais, um dos momentos mais ansiosamente esperados de todo o festival: a actuação da Sun Ra Arkestra.




A primeira conclusão a tirar é: não é possível rotular esta música, porque ela, simplesmente, foge a qualquer tipo de etiqueta. De Ellington a Count Basie, passando, sobretudo, pelo free: tambores africanos e o sax epiléptico de John Gillmore; bailado de influências ocidentais (um pouco desenquadrado de toda aquela euforia negra) e um dançarino capaz de recriar em cada movimento todo o mistério do sentir africano; por fim, a culminar, uma maestro fabulosamente negro (Sun Ra), um Gungunhana do palco, um músico que, não obstante a obesidade, acaba por ser ainda mais escorregadio que uma enguia. Eis a Sun Ra Arkestra: um espectáculo musical e uma cerimónia litúrgica. Uma forma fabulosa de entretenimento e um jazz que, englobando os mais diversos estilos, acaba por ser em si mesmo um estilo. Único. Cíclico. Fechado em si e, simultaneamente, aberto a todas as influências, não simplesmente para as reproduzir, mas, muito pelo contrário, para as recriar e incorporar no todo único e autónomo que é a Sun Ra Arkestra - um ritual pagão transposto para o palco (o altar), em que o público, mais do que nunca, é assumido como um instrumento activo do que se está a passar em palco. Uma música panteísta, uma maestro tirânico, uma enxurrada deliciosamente caótica de música tribal, de simples, primordial e excitante música tribal, o concerto da Arkestra foi a chave de ouro com que se encerrou Vilar de Mouros em termos de jazz.




A Beleza Do Silêncio

Após os episódios pitorescos de quinta-feira (invasão pacífica do palco por alguns elementos do público), que puseram mais uma vez em destaque a fragilidade da segurança (chamar àquilo segurança é já um eufemismo), sexta-feira chegou e com ela a promessa de mais rock, afinal o prato forte deste Festival de Vilar de Mouros 82.



Contratados à última hora por razões obscuras, os Renaissance vieram a Vilar de Mouros demonstrar que, apesar de fora de moda, o chamado rock sinfónico ainda reúne muitos adeptos em Portugal. Fazendo uma música que integra elementos clássicos com algumas influências folk, possuidores de um som personalizado e forte todo ele construído em volta de Jon Camp (baixo) e da voz magnífica de Annie Haslam, os Renaissance podem, na verdade, não ter deslumbrado, mas certo é que também não desiludiram. Com uma actuação bastante fria a princípio, é verdade que só no encore cedido a banda mostrou mais algum entusiasmo, alguma entrega. No baixo, Jon Camp demonstrou o seu virtuosismo espectacular, assumindo-se como o elemento impulsionador de todo o som da banda. Em suma, uma actuação apesar de tudo discreta, uma música hesitante entre a espectacularidade sumptuosa e fácil e um ou outro momento mais interessante, no fundo, fica apenas a questão: para quê trazer esta banda a Vilar de Mouros? Desnecessário e incoerente, se se tiver em conta a importância e, sobretudo, a actualidade das restantes bandas de rock trazidas ao festival.
Com o Durutti Column atingiu-se mais um momento privilegiado em Vilar de Mouros. Uma bateria e uma guitarra. De vez em quando um piano eléctrico. O uso e abuso consciente do eco, como forma de definir um estilo, uma música. O eco. Luminoso e ondulante, marítimo e interior, a utilização exacerbada do eco assume nos Durutti Column um papel fundamental. A música do tempo interior. Apaziguante e bela. Comovente e frágil - a fragilidade dos titãs. Sendo, como se disse, uma música interior, um som que, pura e simplesmente, prescinde rigorosamente de qualquer ideia de espaço, a música dos Durutti Column serve-se do eco como forma de reforçar a permanência do tempo. Neste sentido, elogio da memória por excelência, subtil e bela como só o silêncio, um longo riacho límpido e cristalino correndo serenamente em direcção ao fundo de nós, sente-se (fisicamente) esta música como uma ferida que nunca deixou, afinal, de sangrar, embora por vezes possa parecer o contrário... Memória e silêncio, jardins, flores e infância, com os Durutti Column a viagem faz-se, sim, mas para dentro. Em direcção ao tempo perdido.

O Rodopio Saboroso Do Caos

No sábado, penúltimo dia do Festival, e antecedendo o último grande momento deste Vilar de Mouros 82, tivemos em versão reduzida uma actuação (a última?) dos GNR. No fundo, uma Anar Band revisitada e (felizmente) melhorada - talvez pela presença e pela força cénica e interpretativa de Rui Reininho; talvez pela ausência (no palco) de Jorge Lima Barreto. Enfim, tocando apenas três temas, um realce muito especial para a interpretação (corajosa) de «Avarias», com um final (improvisado pelo Rui) verdadeiramente empolgante pelo seu apropósito.
Por fim, os Rip Rip and Panic...
Um baterista epiléptico, um baixo black funky com visual rasta, eis a base de sustentação rítmica sobre a qual se iria fundar cada um dos temas. Um ritmo completamente infernal, cataratas do Niagara a domicílio, servindo de ponto de partida para o delírio de cada um. Cada um: uma cantora negra, que dança como deve dançar alguém que foi educado nos altos cumes do Quénia, passando depois 5 anos numa art-school de New York - numa palavra, um truque autêntico, coreográfico, improvisado e sensual simplesmente fabuloso. Por vezes, ela canta e então é fantástica, uma voz que grita, improvisa e se transcende, a meio caminho entre o encantatório e o sublime. A seu lado, um companheiro branco em calções, tão caótico ou ainda mais que ela. Tudo isto se passa na parte da frente do palco. Atrás, há um pianista a resvalar para o free de vez em quando; um tipo a tocar trompete e outro a tocar sax e ainda o maluco branco que canta e dança, por vezes toca piano, outras clarinete, após o que vem para diante do público fazer caretas, deitar a língua de fora, incitá-lo. E tudo isto na coisa mais louca e impensável jamais vista. Servindo de pano de fundo, uma música por vezes funky, apelando irresistivelmente à dança, outras vezes free - a improvisação total, o gosto saboroso do caos. Enfim, Rip Rig and Panic: tudo aquilo que os Talking Heads da fase «Remain in Light» nunca conseguiram fazer e que, afinal, aparece aqui incrivelmente simples e louco e sedutor. Uma banda digna do seu nome...
E com os Rip Rig and Panic estava, praticamente, o Festival terminado. De facto, nem a Tom Robinson Band (chamada à última hora para substituir os Hawkwind, impedidos de vir por um dos seus elementos se ter ferido numa mão), nem A Certain Ratio, conseguiram conduzir o concerto em crescendo até ao seu final.
Tom Robinson pode ser simpático, pode ser um mestre em fazer músicas catitas para pôr toda a gente a cantar, mas está longe, muito longe, de ser qualquer coisa mais do que isso (o que já não é pouco, podem dizer-me...);



quanto aos A Certain Ratio, após tê-los visto, parece-me fazerem uma música demasiado pretensiosa, tendo em conta os resultados obtidos - que, convenhamos, foram bastante exíguos. Ideia final: um excelente baterista e um bando de rapazinhos à sua volta, todos muito senhores do seu nariz, experimentando tudo quanto é instrumento diante de um público estranhamente receptivo. Como conclusão, pelo que me foi dado a ver, sobre esta banda terminarei dizendo o seguinte: faz coisas curiosas em disco (algumas delas interessantes mesmo); ao vivo, dificilmente me tornarão a ver num concerto seu. Em Vilar de Mouros não me pareceu valer a pena...


Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. "Conversa" com Gareth Sager (Rip Rig & Panic), entrevista por Ana Rocha
. Pop Musik - artigo de fundo por Célia Pedroso
. Discos em Análise:
.. Roxy Music - «Avalon» [Polydor 2311 154] por Carlos Marinho Falcão
.. Jethro Tull - «Broadsword and the Beast» [Crysalis, 6399343], por Carlos Marinho Falcão
.. Opinião Pública - «No Sul da Europa» [Rossil Doze/998], por Carlos Marinho Falcão
.. Pigbag - «Dr. Heckle and Mr. Jive» [Y Records - CM LP-003], por Trindade Santos
.. Gang of Four - «Songs of the Free» [EMI 11C 078 64792], por Ana Rocha
.. Né Ladeiras - «Alhur» [EMI 11C 052 40594], por Carlos Marinho Falcão
. Marc Bolan «...Como Um Meteoro», artigo de José Ângelo Guerreiro






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