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21.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (19)
DN - Diário de Notícias
3 Agosto 2002
Apesar da curta expressão e limitada duração em que se
manifestou entre nós, a «new wave» chegou mesmo assim a conhecer alguns dignos
representantes. Um deles, foi caso inesperado, nascendo de um grupo com
importante projecção no panorama «progressivo» na recta final de 70: os Tantra.
Uma das maiores forças da música rock feita em Portugal
na segunda metade de 70, os Tantra surgem em 1976 da reunião de Manuel Cardoso
(que tinha já passado pelos Beatnicks), Armando Gama, Américo Luís e Tozé
Almeida, editando logo nesse ano o single «Alquimia da Luz». Um ano depois, o
álbum «Mistérios e Maravilhas» (já disponível em CD) revelava a maioridade de
um som rock de cenografia sinfónica e alma «progressiva», constituindo
imediatamente um fenómeno, que se cimenta num tempo de desertificação na
cultura pop/rock lusitana.
São, ainda nesse ano, o primeiro grupo rock português a
encher o Coliseu dos Recreios, feito que repetem, em 1978, no concerto de
apresentação do segundo álbum, «Holocausto» (recentemente reeditado em CD),
evolução natural do disco de 1977.
Quando o grupo regressou ao Coliseu, em 1978, já Armando
Gama havia saído (para formar os Sarabanda, com Kris Kopke), sendo então
substituído, nas teclas, por Pedro Luís. Segue-se então um tempo de longo
silêncio, durante o qual se começam a manifestar sinais de mutação interna, que
levam ao afastamento de Américo Luís.
Estávamos na viragem de década, e nomes como os de Rui
Veloso, UHF, Salada de Frutas, GNR, Jáfumega e Táxi começavam a mostrar um novo
som rock cantado em português ao qual aderiam, como nunca antes, as rádios e
público. Numa decisão contra-corrente, tal como então se verifica em grupos
como os Roxigénio e Arte e Ofício (estes já com tradição no recurso ao inglês),
os Tantra abandonam a língua portuguesa. E, reduzidos a três elementos,
contando com a colaboração de «Dedos Tubarão» (Pedro Ayres Magalhães), dos
Corpo Diplomático, editam em 1981 o terceiro álbum, «Humanoid Flesh».
O disco causou acesa polémica, sobretudo por acender a
chama da discórdia na classe «crítica» de 70, mais dada a elogiar os
sinfonismos de «Mistérios e Maravilhas» e «Holocausto» que as novas canções de
dinâmica rítmica mais evidente e recorte «new wave» com o qual o grupo se
apresentava. Todavia, a rejeição não chegou apenas da «crítica», já que o
público acabou também por ignorar este terceiro disco dos Tantra, que pecava
por «erro» estratégico de «timing» ao adoptar o inglês numa altura em que as
multidões descobriam e abraçavam um novo rock (mesmo mais «quadrado») cantado
em português. A opção pelo inglês foi então justificada por Manuel Cardoso (já
a responder como Frodo) numa entrevista ao «Se7e», onde explica que uma luzinha
lhe dissera que Deus não passaria os discos dos Tantra no Paraíso, se estes
cantassem em Português.
«Humanoid Flesh» tem os seus méritos. Musicalmente é um
interessante manifesto estético de um movimento tangencial Às linhas de força
pop/rock lusitanas na alvorada de 80. E não só exibe um lote de canções
interessantes (algumas a revelar uma proximidade estranha com o som dos Classix
Nouveaux), como ousa transformar os «Verdes Anos» de Carlos Paredes, naquela
que é uma das mais interessantes manifestações de homenagem do rock português
ao grande mestre.
O fracasso do álbum acabaria por determinar o fim do
grupo. Frodo seguiu carreira a solo. Tozé Almeida juntou-se aos Heróis do Mar.
E Pedro Luís formou os Da Vinci.
N.G.
TANTRA
«Humanoid Flesh»
LP Valentim de Carvalho, 1981
Lado A:
«Girl In My Head», «Crazy Rock’N’Roll», «What Have Your Eyes Done To Me?»,
«Magic», «Verdes Anos»;
Lado B: «Dangerous Works», «Humanoid Flesh», «Just
Another Lie», «African Sands»
Produção: Tantra e SR
20.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (18)
DN - Diário de Notícias
29 Junho 2002
Discos Pe(r)didos
Emigrado para França depois de uma recusa em combater na
Guerra Colonial, Luís Cília é um entre uma “família” de músicos portugueses que
desviam de Lisboa para Paris o palco de criação de alguns dos mais importantes
discos que a língua portuguesa conheceu na década de 60. É em Paris que conhece
figuras como as de Paco Ibanez, Colette Magny, Georges Brassens, Luigi Nono...
É também em Paris que enceta a sua obra discográfica, com o fundamental
“Portugal-Angola: Chants de Lutte” (editado em 1964 pela Chant du Monde).
Ainda durante a década de 60 edita “Portugal Resiste” (um
EP) e os três álbuns da série “La Poèsie Portugaise”. Em 1969 assina “Avante
Camarada”, canção que, gravada por Luísa Basto, se transformaria depois no hino
do PCP. E, ainda antes do regresso a Portugal, grava e edita “Contra A Ideia da
Violência, a Violência da Ideia”, disco que assinala o seu reencontro com a Le
Chant du Monde.
Quatro dias depois do 25 de Abril, Luís Cília regressa a
Portugal e logo causa polémica ao afirmar que Alfredo Marceneiro era um cantor
revolucionário. A ligação que era feita, pela turba revolucionária, entre o
fado e o regime deposto, não permitia a aceitação deste tipo de opinião de bom
grado.
A demarcação mais efectiva ainda de Luís Cília face a
alguns excessos desses tempos ganhou forma naquele que foi o primeiro álbum
editado após a revolução. Sem embarcar na multidão que então fazia do canto de
intervenção a linguagem musical do Portugal de todos os dias, Luís Cília
procura reunir num disco uma colecção de romances antigos, os mais recentes
datados do século XIX, os mais remotos do século XIII!
Para o processo de recolha não recorreu aos trabalhos de
Michel Giacometti e Lopes Graça (duas referências já devidamente reconhecidas),
mas antes a uma busca em nome próprio, para tal socorrendo-se do acervo da
biblioteca da Fundação Gulbenkian em Paris, na qual consultou uma série de
cancioneiros. De uma série de trabalhos de recolha que vinham de antes do 25 de
Abril nasceu a ideia de um álbum que, no agitado 18«974, rumou então contra a
corrente.
Para a concretização do projecto, Luís Cília regressou a
Paris. Por companhia levara, de Portugal, o produtor executivo José Niza, nomeado
pela Orfeu, com quem o músico havia assinado. Na capital francesa tinha todos
os músicos que julgara necessários para dar forma ao projecto. Em primeiro
lugar o guitarrista clássico Bernard Pierrot, que Cília conhecia por ter sido,
também, aluno do seu professor de composição Michel Puig. Pierrot assinou os
arranjos e, com o seu grupo de música antiga, participou na gravação de “O
Guerrilheiro”, cujas sessões tiveram lugar nos estúdios Sofreson, em Paris.
Disco esquecido, importante registo de referência de uma
atitude muito particular perante a recolha do legado da música tradicional
portuguesa, “O Guerrilheiro” deu à Intersindical o seu hino, mais concretamente
na música do tema-título (originalmente uma canção alentejana do século XIX,
aparecida em 1852, por ocasião das lutas civis de Patuleia e Maria da Fonte).
Oito anos depois (em 1982), Luís Cília voltou ao estúdio,
onde regravou as partes vocais do álbum que, então, a Sassetti reeditou com o
título “Cancioneiro”. Todavia, nem esta versão de 1982, nem a histórica versão
original, tiveram ainda luz verde para a reedição em CD.
Teremos ainda de esperar muito?
N.G.
LUÍS CÍLIA
“O Guerrilheiro”
LP ORFEU, 1974
Lado A: “O Adeus d’um Proscrito”, “O Conde Ni#o”, “Flor
de Murta”, “A Guerra do Mirandum”, “O Conde de Alemanha”;
Lado B: “D João da
Armada”, “Canção do Figueiral”, “D. Sancho”, “O Guerrilheiro”
Produtor delegado: José Niza19.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (17)
DN - Diário de Notícias
13 Julho 2002
Os cenários de explosão rock que os portugueses viveram
entre os finais de 70 e inícios de 80 representaram, por si, as razões
fundamentais pelas quais se explica o fraco desenvolvimento dos fenómenos de
ligação das electrónicas à música pop entre nós. Com uma cultura pop/rock a
viver, em jeito de concentrado de acontecimentos, 20 anos de desenvolvimento
atrasado, os primeiros dias da década de 80 conheceram um estranho efeito de
salada russa na produção discográfica nacional, juntando estéticas já antigas a
fracções mais discretas de modernidade.
E é entre alguns destes mais ousados projectos que
irrompem as electrónicas, usando-as uns como mero tempero para uma refeição
pop/rock com guitarra, baixo e bateria, poucos tendo sido os que apostaram de
facto numa identidade «electro pop», que então conhecia messias não só nos alemães
Kraftwerk, mas na interessante multidão de projectos que entrava em cena em
Inglaterra (Human League, OMD, Depeche Mode, Yazoo, entre outros, todos eles
com considerável exposição na rádio portuguesa de então e grande aceitação
entre os mais novos). Nesta localização temporal convém ainda recordar que, na
época, os teclados e electrónicas eram olhados de soslaio pelos partidários das
guitarras, estes acusando as novas tecnológicas de ser música fácil,
automática, o que conferia às bandas electrónicas uma espécie de alvo imediato
do gozo dos espíritos mais duros de ouvido... Birra hoje resolvida,
naturalmente.
É certo que os Tantra usavam já sintetizadores
(particularmente no derradeiro «Humanoid Flesh», de 1980). O mesmo se
verificava nos Salada de Frutas («Robot», 1980), nos Heróis do Mar («Brava
Dança dos Heróis» / «Saudade», single de estreia em 1981), assim como em alguns
outros mais projectos. As electrónicas tomaram até protagonismo evidente em
«Foram cardos Foram Prosas» de Manuela Moura Guedes (produção de Ricardo
Camacho para um belo single em 1981).
Em 1982, uma série de projectos exclusivamente
electrónicos entram em cena no panorama português, reflectindo não só uma maior
abertura da rádio e editoras a estas estéticas, como sublinhando o que fora a
adesão dos portugueses a canções como «Just Can’t Get Enough» dos Depeche Mode
ou «Open Your Heart» dos Human League no ano anterior. Com «Lisboa Ano 10 Mil»
e «Fantasmas», os Da Vinci apresentam-se com um projecto esteticamente coerente
e musicalmente apoiado pela experiência de um ex-Tantra e de um músico de Jazz.
No mesmo ano apresentam-se ainda Tó Neto (o Jarre português, com o álbum
«Láctea»), Carlos Maria Trindade (Heróis do Mar) edita, a solo, «Princesa»,
Frodo lança «Zbaboo Dança»... Mais tarde haverá ainda que ter em conta o single
«Estou Além» de António Variações (1983), «Como Um Herói» (1984) do projecto
Stick (de Sérgio Castro e António Garcês), os Poke, de Quico, que em 1984
editam o fundamental máxi-single de pop electrónica «Digitalmente Afectivo», e
a aventura pop de Ana Paula Reis «Utopia» (1984).
Formados também em 1982, os Ópera Nova começaram por ser
um trio constituído por Luís Beethoven, Manuel Andrade Rodrigues e Pedro Veiga,
todos eles estudantes, entre os 18 e 20 anos. Com imagem apurada pelo
costureiro Zé Pedro apresentam-se em 1983 com o máxi-single «Sonhos», que
juntamente com o disco dos Poke e o álbum «Caminhando» (1983) dos Da Vinci,
representa a essência do breve movimento electro pop português de 80. Os Ópera
Nova apresentam uma música tecnicamente apurada, na qual se cruzam referências
dos OMD e Visage (atenção ao «lettering» na capa). Braunyno da Fonseca
substitui, pouco depois, Manuel Rodrigues. Luís Beethoven afasta-se mais tarde.
Editam ainda «México», single menor de 1984, e desaparecem do mapa.
N.G.
ÓPERA NOVA
«Sonhos»
máxi-single, Polydor, 1983
Lado A: «Sonhos» (versão longa);
Lado B: «Luar»,
«Palavras»
Produção: Carlos Maria Trindade
18.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (16)
DN - Diário de Notícias
27 Julho 2002
Discos Pe(r)didos
Tal como o californiano Darin Pappas nos anos 90 (ver
entrevista ao lado), Sheila Charlesworth encontrou em Portugal os estímulos que
a levaram a encetar uma carreira na música. Nascida em Toronto (Canadá) em
1949, viveu parte da infência e juventude em Montreal, onde conheceu os
primeiros sucessos como actriz e modelo.
Por ocasião de uma viagem a França, em 1970, assiste em
Paris a uma representação do musical «Hair», e algum tempo depois faz parte do
elenco, como actriz. É aí que conhece Sérgio Godinho, com quem terá uma relação
pessoal e em quem conhecerá um importante parceiro musical. Em 1971, Sheila
participa nas gravações de «Os Sobreviventes», álbum de estreia de Sérgio
Godinho, no qual surge depois creditada com «coros, sanduíches e amor».
Com Sérgio Godinho vive, então uma série de episódios
históricos. Juntam-se ao Living Theatre (com o qual vivem o «caso» brasileiro
de 71, com dois meses de prisão em Ouro Preto), residem temporariamente em
Amsterdão, regressam a Paris para gravar «Pré-Histórias» e, em 1972, partem
para o Canadá onde casam e se dedicam ao teatro.
Já com a filha Jwana, o casal regressa definitivamente a
Portugal. Sheila colabora então numa série de discos: «À Queima-Roupa» (Sérgio
Godinho, 1974), «Semear Salsa Ao Reguinho» (Vitorino, 1975), «De Pequenino Se
Torce O Destino» (Sérgio Godinho, 1976), «Fernandinho Vai Ao Vinho» (1976)...
Em 1977 grava finalmente, então já com o nome artístico
de Shila, um álbum de canções que conta com um lote de colaboradores de luxo já
que, além de Sérgio Godinho, estão presentes Fausto, Carlos Zíngaro, Júlio
Pereira, Paulo Godinho (ex-Pop Five Music Incorporated), Guilherme Scarpa,
Francisco Fanhais e uma bem jovem Eugénia Melo e Castro. O disco, que receb por
título «Doce de Shila» é um magnífico conjunto de canções, a maior parte delas
da autoria de Sérgio Godinho (duas em colaboração com Carlos Zíngaro, uma num
trabalho conjunto de adaptação de um tema popular com Fausto), uma de Júlio
Pereira e uma de Fausto (sobre poema de Reinaldo Ferreira). Os arranjos são
assinados por Godinho e Fausto, à excepção de «Entre a Flor e a Enxada», de
Júlio Pereira.
Tiveram particular exposição os temas «Chula»
(tradicional, com letra adaptada e transformada por Sérgio Godinho e Fausto,
dando origem ao conhecido refrão «P’ra melhor está bem está bem / P’ra pior já
basta assim») e «Mais Um Filho». Contudo, o «caso» deste álbum será
inevitavelmente o tema de abertura: «Espectáculo». Esta corresponde à primeira
gravação de um tema que Sérgio Godinho gravou, mais tarde em «Canto da Boca» e
que, recentemente, conheceu nova leitura na colaboração com os Clã para o
espectáculo (e disco) «Afinidades». Um ainda suave e delicioso «sotaque»
pontua, todavia, esta versão original de Shila, num momento histórico ainda à
espera de passaporte para a era digital.
Nos anos seguintes, Shila gravaria ainda o álbum
«Lengalengas e Segredos» (editado em 1979) e ainda alguns singles. Dedica-se
essencialmente ao teatro antes de, já em 1990, abandonar definitivamente a vida
artística.
N.G.
SHILA
«Doce de Shila»
LP, Lá Mi Ré (1977)
Lado A: «Espectáculo», «Chula», «Doce de Shila», «Mais Um
Filho», «Entre a Flor e a Enxada»;
Lado B: «Rapa Tira Deixa e Põe», «Parteira do Mar»,
«Dança de Amargar», «Rosie», «Gente Assim».
Engenheiro de Som: José Fortes
DN - Série: Discos Pe(r)didos (15)
DN - Diário de Notícias
08 Junho 2002
Discos Pe(r)didos
Da revolução de 1980/81, quando na sequência dos êxitos
de Rui Veloso, dos UHF, GNR, Trabalhadores do Comércio e Salada de Frutas se
instituiu uma espécie de nova ordem de gostos e prioridades, colocando o novo
pop/rock cantado em português na primeira linha dos objectivos, nasceu um
verdadeiro cenário de explosão demográfica no panorama musical lusitano.
Grande parte das carreiras emergentes usavam o single
como veículo de exposição ideal para as suas canções, raros sendo os casos de
grupos e artistas que apostaram em primeiro lugar no formato de álbum. Rui
Veloso, Táxi e Opinião Pública são raros casos de apostas no LP, dele nascendo,
depois, os inevitáveis singles.
O clima de euforia colectiva que o meio pop/rock então
vivia levou a que muitas pequenas editoras se aventurassem na edição de rock
português. Afinal, nada mais que a aplicação (à nossa escala) de princípios que
a revolução punk e a continuidade via new wave tinham impresso recentemente À
bem nutrida indústria discográfica inglesa. Entre as pequenas editoras que
então entram em cena destaca-se a Rotação, na qual o homem do leme era António
Sérgio (já então um conhecido divulgador na rádio e com provas já prestadas na
edição discográfica, nomeadamente como co-produtor, em 1979, de «Música
Moderna», o álbum dos Corpo Diplomático, isto sem esquecer a «famosa»
compilação «Punk Rock 77»).
A «bandeira» da Rotação era, naturalmente, a estreia
discográfica dos Xutos & Pontapés, que ali editaram os dois primeiros
singles «Sémen» (1981) e «Toca e Foge» (1982), bem como o álbum de estreia
«78/81» (também em 1982). Perante o cenário de investimento que caracterizava
todos os pólos de edição na altura, a Rotação avança pelo ano de 1982 com uma
série de novos nomes: Mau Mau, com o single «Xangai», Tânger, com o single «Zé,
Zé Ninguém», Manifesto com o single «Nuclear (À Beira Mar)». A estes juntam-se
ainda os Malaposta e os Sub-Verso... Todavia, nenhum dos grupos da Rotação, à
excepção dos Xutos & Pontapés, conhecem tamanha expectativa interna e
alguns resultados concretos como os Opinião Pública, uma banda, de certa forma,
«apadrinhada» pelos UHF.
No quarteto, constituído por Carlos Estreia (voz,
guitarra), Pedro Lima (guitarra), Luís Fialho (baixo, teclas) e Carlos Baltasar
(bateria), António Sérgio identificara um caso de possível complementaridade
pop aos Xutos & Pontapés. A estreia faz-se com «Puto da Rua», canção que imediatamente
chega à rádio e tira os Opinião Pública do anonimato e apresenta o álbum «No
Sul da Europa», com o qual o grupo faz a sua estreia (encetando uma discografia
que receberia depois, apenas, o single «Puto da Rua»).
Se nos Xutos & Pontapés António Sérgio «ousara» um
lugar na produção, com os Opinião Pública cede a cadeira a António Manuel
Ribeiro (dos UHF) e à própria banda. De som seguro e muito característico. Das estéticas
da altura, «No Sul Da Europa» é um interessante (e quase esquecido) documento
do rock português de inícios de 80, dividindo as canções entre momentos de puro
prazer de uma pop lúdica (como «Ritmo de Vida» ou «Walkman», e alguns retratos
de cenas do quotidiano urbano de então (de que são bons exemplos «Puto da Rua»
e «Subúrbio»).
Apesar de coerente e significativamente mais interessante
que grande parte dos demais estreantes seus contemporâneos, os Opinião Pública,
tal como todo o restante catálogo da Rotação (à excepção dos Xutos &
Pontapés), desapareceram entre as primeiras vítimas da crise de 1982/84, uma
das mais «mortais» da história pop/rock cantada em português.
N.G.
OPINIÃO PÚBLICA
«No Sul da Europa»
LP Rotação
Lado A: «Ritmo de Vida», «Sem Destino», «Sul da Europa»,
«Puto da Rua», «Na Terra»;
Lado B: ««Walkman», «Cumprindo As Regras», «Duplo
Controle», «Subúrbio»
Produção: António Manuel Ribeiro e Opinião Pública17.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (14)
DN - Diário de Notícias
25 Maio 2002
Discos Pe(r)didos
A alvorada de uma cultura alternativa na música
portuguesa é uma das mais importantes conquistas da segunda geração de 80.
Depois de aberto o espaço à explosão de uma cena pop/rock local, em grande
parte cantada em português (mesmo que plena de referências estéticas
importadas), a segunda «leva» de acontecimentos no Portugal musical de 80 fez
coexistir um tempo de ressurgimento de músicas de raiz tradicional com um surto
de criatividade urbana ciente de uma vontade em romper as formas mais imediatas
pelas quais se haviam definido os primeiros traços de uma identidade pop/rock
lusitana.
Graças ao aparecimento de novos espaços de ensaio e
apresentação pública de projectos (e aqui é inevitável a referência a um Rock
Rendez Vous em Lisboa e um Luís Armastrondo no Porto), fruto também da abertura
de estúdios de gravação, e, muito importante, a criação de alguns programas
(poucos) na rádio e novos veículos de jornalismo musical escrito, uma cultura
alternativa começa a brotar de forma evidente entre nós.
Sob a batuta de João Peste, na altura já um nome de
respeito ca cena «alternativa» local, graças ao trabalho dos Pop Dell’Arte, a
Ama Romanta é uma entre as várias editoras independentes que se aventuram no
mercado discográfico português de meados de 80. DE 1986 a 1991 a actividade da
editora será irregular nos tempos de agenda, mas determinante no lançamento e
abertura de horizontes. De resto, ao revisitar o seu catálogo contamos com
discos dos Pop Dell’Arte (o máxi «Querelle», o single «Sonhos Pop» e o LP «Free
Pop», em 87, o máxi «Illogik Plastik», em 89, e o CD «Arriba Avanti! Pop
Dell’Arte», em 91), Mão Morta (o álbum «Mão Morta», em 88), Mler Ife Dada (o
single L’Amour Va Bien Merci», em 86), Cães Vadios (o single «Cães Vadios», em
87), Anamar (o máxi «Amar Por Amar», em 87), Projecto Som Pop (com o álbum
«Pipocas», em 88), Sei Miguel (os álbuns «Breaker», em 88, «Songs About
Terrorism», em 89) e «The Blue Record», também em 89), Telectu (o álbum
«Camerata Electronica», em 88), Tozé Ferreira (o álbum «Música de Baixa
Fidelidade», em 88), Nuno Canavarro (o fundamental «Plux Quba, em 89), Santa Maria
Gasolina em Teu Ventre (o álbum «Free Terminator», em 89) e João Peste e o
Axidoxibordel (o único EP, em 90).
O catálogo da Ama Romanta abriu, contudo, com uma
compilação. Uma espécie de carta de intenções na qual tanto encontrávamos
projectos e nomes que depois permaneceram ligados à editora, como projectos
expressamente gerados para as gravações ali registadas e casos que seguiram,
depois, vida própria, em outras paragens.
Nomes de proa da cena «alternativa» portuguesa de meados
de 80 juntam-se no disco (duplo) que mais fielmente ilustra movimentações
diferentes, algumas com descendência, outras episódios únicos.
Momento inesperado e curioso na compilação, uma
entrevista de João Peste a Paquete de Oliveira (com música do próprio João
Peste) conduz-nos por uma série de importantes reflexões, hoje incrivelmente
ainda com mais sentido que em 86. Com texto e contexto, «Divergências» é «o»
retrato mais completo da cultura musical alternativa do Portugal de meados de
80, com algumas das suas faixas entretanto reeditadas na compilação «Sempre»,
retrato de fragmentos da história da Ama Romanta editada pela Música
Alternativa em 1999.
N.G.
VÁRIOS
«Divergências»
LP duplo, Ama Romanta, 1986
Lado A: Bastardos do Cardeal, Mler Ife Dada, Jorge
Martins, Miguel Morgado + Nuno Rebelo + Pedro Mourão, A Jovem Guarda;
Lado B:
Entrevista a Paquete de Oliveira, Pop Dell’Arte, Os Cães A Morte e o Desejo,
Mário e Peter, Maguedesi;
Lado C: Anamar, SPQR, Croix Sainte, Nuno Rebelo,
Extrema Unção;
Lado D: Bairro, Grito Final, João Peste, Bye Bye Lolita Girl,
Essa Entente, Linha Geral
Colectânea organizada por João Peste e Maria João Serra14.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (13)
DN - Diário de Notícias
11 Maio 2002
Tinham passado quase dez anos sobre o momento no qual os
GNR conheceram a sua segunda mudança de formação. Em finais de 1982, depois de
concluído e editado o fundamental e histórico «Independança» (ainda à espera de
reedição em CD, tal e qual o sucessor «Defeitos Especiais», de 1984), Vítor Rua
junta-se a Jorge Lima Barreto para concluir «CTU», o álbum de estreia dos Telectu,
o novo duo constituído por ambos, no qual se desenhavam rumos de fuga aos
passos pop/rock nos quais Vítor Rua circulara até então. Depois de editado o
álbum dos Telectu, Vítor Rua e Toli iniciam o trabalho de produção de «Anjo da
Guarda», o LP de estreia de António Variações, para a Valentim de Carvalho,
editora dos GNR e, até esse momento, também dos Telectu. Vítor Rua abandona o
trabalho no disco de Variações e parte para Nova Iorque. Ao regressar propõe
uma pausa nos GNR, o que não agrada aos restantes elementos do grupo. Decide,
então, afastar-se e seguir rumo próprio...
Apesar da separação, um diferendo oporá, durante anos,
Vítor Rua aos restantes elementos dos GNR. Um diferendo que parte da questão da
posse dos direitos do nome do grupo, que ficam pelo lado de Reininho, Toli e
Alexandre Soares. A 15 de Fevereiro de 1983, Vítor Rua escreve, no «Sete», um
texto no qual explica ser ele o proprietário do nome GNR e proíbe o grupo de
tocar ao vivo as composições que ele escrevera para a banda...
Um novo episódio deste complicado caso tem lugar quando
os GNR editam, em 1990, o duplo álbum ao vivo «In Vivo», gravado num concerto
na Alameda D. Afonso Henriques. O disco incluía «Hardcore (1º Escalão)»,
«Portugal na CEE» e «Sê Um GNR», todos eles interditados por Vítor Rua junto da
SPA. A primeira edição esgota, e é substituída por uma outra que passa a
incluir «Homens Temporariamente Sós»... A primeira edição é hoje uma peça
disputada no circuito de coleccionismo.
Um ano depois, num momento de pausa no trabalho dos
Telectu, Vítor Rua edita um disco através do projecto Vidya e um outro através
de um nome que gera nova polémica: Pós-GNR.
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja», apresentado aos media numa
conferência de imprensa na sede da PolyGram, onde se voltou a levantar o velho
drama dos direitos de utilização do nome GNR, é um disco no qual Vítor Rua
procura um interessante reencontro com as linguagens pop/rock. Depois de quase
uma década de experimentação noutros territórios, o reencontro faz-se segundo
regras distintas das que os próprios GNR tomaram, procurando antes um
entendimento entre formas da cultura popular e elementos da invenção «livre»
característica de correntes de vanguarda, temáticas de decadência, da vida na
grande cidade... De certa forma, «Mimi Tão Pequena e Tão Suja» procura ser uma
herança, distante, das pistas deixads em aberto no álbum de estreia dos GNR,
reencontradas e encaradas por um músico que, entretanto, acumulara outros
hábitos e percursos. Esta ideia de continuidade é sublinhada por temas como
«Hardcore II» e «Independança II»... Curiosamente, não se encontram aqui marcas
notórias de descendência de «Avarias»...
Com alguns bons momentos em canções como «In The City» ou
«City Of Love», o álbum passa a Leste das atenções, não só do público mas
também de muitas estações de rádio. Exactamente o cenário oposto ao que
receberia, um ano depois, «Rock In Rio Douro», dos GNR.
Em 1996, cinco anos depois deste único álbum sob o nome
Pós-GNR, Vítor Rua surgia (assim como Alexandre Soares) na festa de lançamento
do «best of» dos GNR. Pazes feitas, conflito sarado. A música agradece.
N.G.
PÓS-GNR
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja»
LP, PolyGram
Lado A:
«In The City», «City Of Love», «Very Speed Song», «Hardcore II», «Speak With Me
Please», «Nothing», «Independança II»;
Lado B: «Junkie Fly», «Wars Of Fights»,
«Scales Of Solos», «Strange Perception», «The Next Album...» Produção: Vítor Rua
13.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (12)
DN - Diário de Notícias
06 Abril 2002
Discos Pe(r)didos
Lisboa, 1984. Com quatro anos de vida, o Rock Rendez Vous
(RRV) encetava um certame que se transformaria, em pouco tempo, numa espécie de
ex-libris da «casa»: o Concurso de Música Moderna. Fruto de um momento de
fervilhante agitação nos espaços da criação e divulgação de uma emergente ideia
de música alternativa portuguesa. Resultado, por um lado, de uma natural
resposta dos músicos à implosão do mercado mais «oportunista» de 1982 e, por
outro, da solidificação de importantes espaços de divulgação na rádio
(Comercial e Renascença) e imprensa («Sete» e, mais tarde, já em finais de
1984, a entrada em cena de uma publicação de especialidade: o «Blitz»), um novo
mundo de bandas e conceitos aguardava a abertura de uma janela. E assim
aconteceu, na Rua da Beneficência ao Rego.
Para a primeira edição do Concurso de Música Moderna do
RRV inscreveram-se um total de 101 bandas, das quais 24 foram seleccionadas,
seis delas apuradas, depois como finalistas... Na final eram jurados António
Sérgio (Rádio Comercial), Ana Cristina (Rádio Comercial), Rui Pêgo (Rádio
Renascença), Ana Rocha («A Capital»), João Gobern («Sete»), Amílcar Fidélis
(«Diário Popular»), António Manuel Ribeiro (UHF), Manuel Cardoso (Frodo), Zé
Pedro (Xutos & Pontapés) e João Santos Lopes (RRV). Vencedores... os Mler
Ife Dada.
Formados poucos meses antes, os Mler Ife Dada eram, nesta
sua primeira formação, Nuno Rebelo (baixo), Pedro d’Orey (voz) e Kim (guitarra)
e mostraram desde logo, nas eliminatórias e final do concurso do RRV, uma ideia
de franca identidade e personalidade tanto no som como na imagem, deles
nascendo (de facto), a mais sólida proposta em competição.
Como parte do prémio, coube ao grupo a hipótese de
registar um primeiro disco, gravado pouco depois nos estúdios da Rádio Triunfo,
com Paulo Junqueiro (hoje A&R nacional da EMI-VC) e produção de Nuno
Canavarro (ex-Street Kids, tal como Nuno Rebelo).
«Zimpó», o máxi-single com o qual os Mler Ife Dada
assinalam, em inícios de 1985, a sua estreia editorial, é um interessante
representante da ponta do icebergue de uma multidão de projectos que procuravam
então novas formas na vanguarda de uma «nova» música portuguesa (chamavam-lhe
«moderna» na época).
O disco é constituído por apenas três temas, o primeiro
dos quais (o tema-título) ainda hoje
recordado como uma das pérolas esquecidas da pop alternativa lusitana de 80,
fluente na estrutura rítmica, animado e conduzido por uma guitarra que tanto
citava os Durutti Column como parecia assumir a essência antiga da guitarra
portuguesa. Na face B do máxi-single apresentavam-se dois temas cantados em
inglês, cativantes, mas em nada comparáveis a «Zimpó».
Complemento fundamental às três canções apresentadas no
disco, a capa do máxi-single é mais uma clara manifestação das intenções
estéticas de um grupo com uma consciência de arte final invulgarmente apurada
para o que era norma na época. Uma pintura de Mateus e Sérgio, sobre a qual se
inscrevem (na contracapa) os créditos e fotografias é interessante expressão
visual de um som novo, moderno, desafiante, avesso à prática d o «mais do
mesmo».
O grupo não conheceu, contudo, vida longa com esta
formação tanto que, alguns meses depois, apenas Nuno Rebelo se mantinha nos
Mler Ife Dada, acompanhado por uma série de novos músicos, entre eles a
vocalista Anabela Duarte, que se estreariam no single «L’Amour Va Bien Merci»
(1986), ao que se seguiria, já em 1987, o clássico «Coisas Que Fascinam», álbum
de estreia e um dos mais importantes registos da história do pop/rock lusitano.
N.G.
MLER IFE DADA
«Zimpó»
Máxi-single, Dansa do Som, 1985
Lado A: «Zimpó»;
Lado B: «Stretch My Face», «Spring Swing»
Produção: Nuno
Canavarro
11.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (11)
DN - Diário de Notícias
30 Março 2002
Discos Pe(r)didos
Na recta final de 70 os Tantra eram um dos raros casos de
sucesso no rarefeito panorama pop rock português. A estreia, com «Mistérios e
Maravilhas» (1977), seguida de um inesperado triunfo no Coliseu dos Recreios,
gerava um fenómeno que nascia nas esferas de um som sinfónico, com alguma
contaminação progressiva, um pouco nos caminhos sugeridos pelo eixo Genesis /
Yes. Seguiu-se, no ano seguinte, «Holocausto», disco que volta a gerar um caso
de popularidade no circuito «roqueiro luso», com duas noites de triunfo no
Coliseu. A estes espectáculos, nos quais surge já nas teclas Pedro Luís (em
substituição de Armando Gama, que partira para formar os Sarabanda), segue-se
inesperado silêncio de três anos. E o grupo, que havia assumido a ideia de um
som rock cantado em português, vê-se então ultrapassado pela popularidade dos
novos nomes que entram em cena. Manuel Cardoso, o vocalista e um dos fundadores
dos Tantra, havia já assumido o seu alter-ego de Frodo...
Quando, em 1981, é editado o derradeiro álbum dos Tantra,
«Humanoid Flesh» (no qual participa, no baixo, Pedro Ayres Magalhães), o fim do
grupo está à vista, sobretudo dado o fracasso de um disco talvez
incompreendido, que trocava as linguagens progressivas de 70 por uma
aproximação às emergentes sugestões da new wave.
Manuel Cardoso toma então definitivamente o nome do seu alter-ego
Frodo e parte em busca, não de respostas sobre um anel, mas para uma carreira a
solo que nos deixou dois registos dignos de referência. Estreia-se com o single
«Machos Latinos» (ainda em 1981), ao qual sucede o álbum «Noites de Lisboa», no
qual se conhece, de certa forma, uma lógica de continuidade face a alguns
elementos da música dos Tantra, nomeadamente o prazer pela elaboração dos
fundos (um pouco ao jeito das normas sinfonistas), aqui, todavia, empregando
regras de maior simplicidade ao nível dos recursos, sublinhando assim critérios
de contemporaneidade, aceitando as marcas de um presente onde uma nova lógica
electrónica encontrava o seu espaço no contexto da canção pop.
Ao seu lado, neste «Noites de Lisboa», encontramos alguns
ex-Tantra, como Pedro Luís (que então dava também os primeiros passos com o seu
projecto pessoal, os Da Vinci) e António José Almeida (o baterista que seguia,
então, rumo próprio com os Heróis do Mar). António Emiliano (teclas) é outro
dos convidados a desenhar retratos nocturnos de Lisboa com os quais Frodo
propõe uma ideia de sofisticação pop que não se enquadrava nos padrões de um
momento onde se descobriam ainda as adaptações lusitanas das normas do «fast
and furious».
Nem muito «fast», nem muito «furious», mas enfim...
A capa do álbum, que reflecte uma ideia de identidade
teatral e lembra, de longe, a figura do austríaco Falco (na altura na berra com
«Der Komissar»), é um primeiro indício de um processo de autodeterminação de
uma ideia pop que conduzia Frodo na alvorada de 80. A foto interior, onde junta
a si os músicos, exibe uma noção de imagem apurada no sentido de uma
sofisticação chique, quase neo-romântica, embora sem maquilhagem...
Musicalmente, sem se apresentar como um álbum
revolucionário, «Noites de Lisboa» é um disco curioso e competente, bem mais
interessante e representativo de uma proposta individual de rumo que muitos dos
pastiches que o ano de 1982 vê nascer (e morrer) entre nós. Poucos meses
volvidos sobre a edição deste seu álbum de estreia, Frodo edita um sucessor, no
bizarro formato de duplo (álbum + máxi) «Zbaboo Dança», uma mais directa aposta
na exploração de electrónicas, mas num recuo linguístico rumo ao inglês... E,
como o anel, desapareceu em Mordor...
N.G.
FRODO
«Noites de Lisboa»
Vadeca, 1982
Lado A: «Vou Acordar No Paraíso», «Máquinas na Multidão»,
«Feitiço», «Labirinto»;
Lado B: «Noites de Lisboa», «Manhãs Submersas», «Fado
Louco», «Heróis da Noite»
Produção: Frodo
10.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (10)
DN - Diário de Notícias
09 Março 2002
Chamava-se Carlos Cordeiro, mas ficou por muitos
conhecido como Farinha Master, a voz e a alma dos Ocaso Épico. Morreu no
passado dia 17 de Fevereiro. E, sem querer fazer desta uma coluna de
necrologia, não podemos deixar de evocar «Muito Obrigado», um dos mais
interessantes e escandalosamente esquecidos dos álbuns portugueses da segunda
metade de 80. Um caso ímpar na história da família pop/rock lusitana.
Farinha Master era uma figura única, conhecida no eixo
dos acontecimentos da Lisboa «esclarecida» de meados de 80, figura sobretudo
regular nas melhores noites do Rock Rendez Vous. Tinha passado já pelos WC
quando lança as bases de um projecto que procura novas formas de explorar dados
«kitsch» em linguagens urbanas. Em busca de uma nova música «foleira», cria as
bases dos Ocaso Épico, colectivo musicalmente interventivo e esteticamente
desbragado pelo qual passaram nomes como os de Alberto Garci (baterista dos
Rádio Macau e Mler Ife Dada), Rui Fingers, Manuel Machado (Essa Entente) ou
Anabela Duarte (Mler Ife Dada).
De um desafio de Mário Guia (do Rock Rendez Vous), nasce
a proposta de gravação de um álbum, com edição garantida pela Dansa do Som, a
etiqueta ligada à mítica sala da Rua da Beneficência ao Rego.
Gravado «em prestações» (como se lê na capa interior)
entre 1987 e 88, o álbum representa uma das mais incríveis aventuras do
pop/rock português de então, num espaço que lança pistas tão díspares quanto
bases electropop, fraseados rítmicos beirões, teclas do melhor plástico-pop e
pontuais cenografias magrebinas (como em «Cortar Ou Cortar-se»)... Tudo isto
devidamente «arrumado» numa lógica quase conceptual que concentrou na face A do
vinil as canções do apregoado «neo-foleirismo» urbano e, na face B, três
suculentas fatias de curioso e cativante paisagismo ensaísta.
O disco é dominado por teias de programações, linhas
melódicas que nasceram de fragmentos e se foram juntando em momentos de ensaio
e erro... A ideia de experimentar terá certamente presidido a todos os
episódios de criação, conseguindo o disco um efeito de desafio à audição atenta
de cada um que, anos depois, se detenha atentamente frente aos muitos sons,
linhas e ideias que encerra. Nele participaram, além de Farinha Master, nomes
como os de Pedro Barrento (programações), Zé Nabo (baixo), Ricardo Camacho
(piano) e Rui Fingers (guitarra), entre outros.
Farinha Master e as suas palavras (sem travão nem filtro)
servem depois de lógica de unidade entre experiências lançadas em diversos
rumos estéticos. No todo, «Muito Obrigado» é um coeso manifesto de
versatilidade pop onde o «kitsch» deve ser entendido como mais que a mera
anedota para gargalhada imediata. O humor é franco e sólido, entendido
sobretudo como recurso de estilo numa linguagem que, mesmo tecnicamente
debilitada pelos recursos à sua disposição, não deixa de criar um pequeno
concentrado de ideias que cativaram um pequeno culto e garantiram aplausos a um
disco que, todavia, passou a Leste de muitas atenções.
Uma cassete, em 1989 («Desperdícios»), representou a
única sucessão registada de «Muito Obrigado», tendo o grupo desaparecido depois
de pontual actuação em 1993. Farinha formou, entretanto, os Angra do Budismo,
projecto através do qual gravou «Transformação», em 2001.
N.G.
OCASO ÉPICO
«Muito Obrigado»
Dansa do Som, 1988
Lado A: «Tinto If», «O Camelo», «Cafécucerto», «Da Beira
Baixa à Extrema-Dura»;
Lado B: «Adamastor», «Desoriental», «Cortar Ou
Cortar-se»
Produção: Zé Nabo e Mário Guia9.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (9)
DN - Diário de Notícias
02 Março 2002
Sinais dos tempos, o Portugal de finais de 70 vivia ainda
os reflexos próximos da revolução. Na música era ainda notória a presença
protagonista dos espaços de intervenção e afins, notando-se sinais de reacção
apenas nas esferas de propostas mais ligeiras, que então começam a emergir. O
rock vivia uma existência meio adormecida, sem Norte, com pontuais focos de
agitação em aventuras próximas do som progressivo. Aventuras alheias às
dinâmicas dos espaços de divulgação radiofónicos e televisivos, quase votando o
tímido silêncio toda a força que eventualmente brotasse de um amplificador em
ensaios de garagem.
Enquanto por aqui se ensaiavam as primeiras eleições
livres da «era moderna», Londres e Nova Iorque acolhiam uma importante
revolução musical que reflectia as angústias e limitações de uma nova geração
de filhos de uma economia global desfavorável. Com um semelhante sentido de
urgência, apesar das francas diferenças entre as manifestações em Nova Iorque
(mais letradas e abraçadas pelos círculos intelectuais alternativos) ou em
Londres (com origens num proletariado urbano culturalmente desfavorecido) o
punk rompia os cenários da música feita teatro e negócio de meados de 70, e
apresentava ao mundo uma nova forma de estar na música. Rude, rápida, viva,
ansiosa, de concretização imediata, independentemente dos meios.
Apesar de pontuais faróis (um deles o fulcral programa
«Rotação», de António Sérgio, na Rádio Renascença), o fenómeno ameaçava passar
a Oeste do Cabo da Roca, já que nem a Phonogram (hoje universal) e Valentim de
Carvalho (hohe EMI-VC) mostravam vontade de editar Sex Pistols, The Clash,
X-Ray Spex...
Nos escaparates de algumas discotecas da baixa lisboeta
surge, de um dia para o outro, uma compilação de capa a preto e branco, de
«design» rude (onde não faltam alfinetes e lâminas de barbear). «Punk Rock /
New Wave ‘77» era o título, editado pela desconhecida Pirate Dream Records...
Com Zhe Guerra e Joaquim Lopes, António Sérgio havia formado a primeira
etiqueta independente da indústria discográfica, destinada assim a divulgar os
nomes do punk e new wave aos quais pareciam estar alheias as multinacionais do
ramo. O trio regista a editora e licencia temas dos Sex Pistols, Skrewdriver,
Motorhead, Eater, The Jam, London, The Rings, Generation X, The Radiators From
Space, Warm Gun e Hideous Strenght, que logo reúne para esta compilação que cai
no panorama nacional como uma pedrada no charco, decidida a representar e
divulgar sons que ameaçavam escapar à atenção dos portugueses.
A pax lusitana é, entretanto, interrompida por uma acção
judicial contra o disco, lançada pela Phonogram que acusa a editora de
pirataria e afirma serem seus os direitos dos Sex Pistols. A Valentim de
Carvalho despede, então, António Sérgio, que ali trabalhava emtão como
promotor. A acção do director de programas da Rensacença, Albérico Fernandes,
impede que semelhante cenário se repita no éter, que diariamente continua a
receber as emissões de «Rotação». O julgamento prolonga-se até 1981, sendo os
réus absolvidos sem que as acusações fossem provadas.
O disco, que teve uma tiragem de 500 exemplares, é hoje
peça cobiçada nos circuitos de coleccionismo. Quanto Às multinacionais
incomodadas com o «caso», apressaram-se a editar compilações e singles punk e
new wave! A palavra tinha passado.
N.G.
VÁRIOS
«Punk Rock – New Wave ‘77»
Pirate Dream Records
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7.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (8)
DN - Diário de Notícias
Discos Pe(r)didos
Lisboa, 1978. Os Tantra enchiam o Coliseu, José Cid
apostava em «10 Mil Anos Depois Entre Vénus e Marte», os Petrus Castrus
regressavam aos álbuns com «Ascensão e Queda»... O rock de alma sinfónica
tentava borbulhar à superfície num tempo ainda dado a protagonismos nas esferas
da intervenção política, suas sequelas e primeiras reacções opostas em domínios
ligeiros...
Em espaços de ebulição no restrito circuito underground
da capital, dois projectos encabeçaram então uma vaga de reacção ao sistema,
assimilando a essência da revolução punk que varrera Londres em 76. São eles os
Faíscas (de quem nasceriam os Corpo Diplomático), que acabam por não editar, e
os Aqui d'El Rock.
Os Aqui d’EL Rock são uma banda nascida em filhos do
proletariado urbano de 70, com uma crueza punk primordial no seu discurso,
diferente dos Faíscas, filhos da classe média. A violência verbal é a arma
primordial, e a seu favor pende ainda uma rodagem maior dos quatro elementos,
em tempos conhecidos como Osíris, numa encarnação formal bem diferente. Com uma
linguagem muito próxima das manifestações de raiz do punk londrino, os Aqui
d’El Rock são o primeiro e, na absoluta verdade, o único grupo punk português a
editar discos, já que os restantes praças do movimento que também chegaram ao
registo discográfico o fizeram já em momentos das suas carreiras em que o punk
havia já evoluído uma linguagem própria, ou no sentido da new wave (Corpo
Diplomático) ou para um novo, e menos espartano, rock urbano, mais temperado
(Xutos & Pontapés).
A estreia dos Aqui d’El Rock faz-se com o single «Há Que
Violentar O Sistema», single que incluía «Quero Tudo» no lado B, duas canções
que traduzem hoje a essência possível do punk português, fenómeno que viveu
mais de boas intenções e desejos de mudança que de factos realmente consumados.
A sua importância seria, sobretudo marcante ao nível da abertura de frestas na
consciência de alguns divulgadores e editores, preparando, inconscientemente, o
caminho para a revolução que assolaria o país musical em 1980.
Sem papas na língua e «speedados» (como se anunciam),
desferem golpes no sistema, que violentam por uma música não sofisticada, directa.
Todavia, estávamos em tempos de poucas atenções mediáticas por fenómenos
corrosivos a um sistema que ensaiava uma ideia de democracia de facto, que só
seria devidamente estabilizada (social e economicamente) depois. E excluindo
timoneiros da divulgação como António Sérgio, a revolução punk ficou sem
amplificação para o país real.
N.G.
AQUI D’EL ROCK
«Há Que Violentar O Sistema»
Metro-Som,
single, 1978
Lado A: «Há Que Violentar O Sistema»;
Lado B: «Quero Tudo»
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11.3.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (7)
DN - Diário de Notícias
16 de Março de 2002
Discos pe(r)didos
Porto, 1967. Numa cidade onde se fala de novas músicas e
surgem pequenas novas bandas, uma destaca-se pelo apuro técnico dos seus
elementos. O Pop Five Music Incorporated entra em cena com uma primeira
formação na qual encontramos David Ferreira (teclas, viola, vozes... e não
confundir com o actual «patrão» da EMI-VC, apesar do mesmo nome) Luís Vareta
(baixo e vozes), Tozé Brito (baixo, viola e vozes, na altura conhecido como
António Brito, hoje o «patrão» da Universal), Paulo Godinho (o irmão de Sérgio
Godinho, nas teclas, viola e vozes principais) e Álvaro Azevedo (bateria e
vozes).
Com uma sonoridade dominada pelos Hammond (tecnologia de
ponta na música para teclas), os Pop Five depressa ganharam notoriedade
conseguindo garantir a estreia discográfica em 1969, pela Arnaldo Trindade.
A abrir o disco, um convite à atenção para o espectáculo
que vai começar, ao que se seguem as pancadas de Molière e... uma versão de
«Jesus, Alegria dos Homens» de Bach! Era a mais evidente ousadia de um álbum
que conseguia assim assimilar sementes de uma rebeldia característica das
linguagens pop/rock que escapara até então a muitos dos grupos portugueses de
60, grande parte deles alinhados na facção limpinha, lavadinha e penteadinha,
ao som de versões certinhas de canções e estéticas em voga em Londres e na
Paris do yé-yé. A versão angariou os discursos de suspeita dos puristas da
clássica, num momento em que o sonho de frestas de ruptura era natural em
qualquer proposta pop/rock com os mínimos olímpicos de consciência estética.
O Pop Five Music Incorporated regista no disco uma série
de outras versões, acabando, na verdade, por residir na leitura «livre» da peça
de Bach o seu mais notável feito. As restantes versões apresentadas no disco
mostram, mesmo assim, operações de transformação personalizada e tecnicamente
apurada de canções como «Blackbird» dos Beatles, «To Love Somebody» dos Bee
Gees, «Proud Mary» dos Creedence Clearwater Revival, «Fire» de Jimi Hendrix ou
«Sour Milk Team» de George Harrison... Todas elas são ordenadas de forma a
constituir uma peça virtual em tr~es actos («Soft», «Crescendo» e «Clímax»),
com prelúdio e final («Hysterical»).
A sublinhar as qualidades interpretativas e instrumentais
reveladas na gravação, o disco representa ainda um marco de invulgar
consciência técnica para o Portugal de finais de 69, já que não só é gravado em
som estereofónico como apresenta, creditado, o trabalho de um produtor
(Fernando Matos), facto não frequente na época.
Prensado em Inglaterra, o disco mostra uma qualidade
sonora de igualmente apurado requinte... Apurado é, entretanto, o valor que o
disco atingiu nos circuitos do coleccionismo de vinil, podendo uma cópia usada
(em boas condições), valer algo na casa dos 100 Euros.
Um ano depois da edição do álbum, a formação do Pop Five
sofre modificações com as saídas de David Ferreira e Tozé Brito e entrada de
Miguel Graça Moura, então com 22 anos, que terminara o curso de piano do
conservatório. Segue-se uma inevitável alteração nas características do som e
repertório. De lado ficam as adaptações de clássicos às linguagens rock e na
berlinda é focada uma aposta na criação. Editam, em primeiro lugar, o single
«Menina», ao qual sucede o genial «Page One» (tema do genérico do programa
«Página Um» da Rádio Renascença), o ainda mais bem sucedido «Orange» e alguns
outros 45 rotações. O grupo separa-se em 1972 sem registar um segundo álbum.
Não está na altura de pensar uma antologia?
N.G.
«Pop
Five Music Incorporated», LP, Orfeu, 1969
Lado A.
«Overture», «Jesus, Alegria dos Homens», «Blackbird», «To Love Somebody»,
«Proud Mary», «Medicated Goo», «Mess Around»; Lado B. «Hush», «C’Mon Down To My
Boat», «Fire», «Sour Milk Sea», «Can I Get A Witness». Produção: Fernando de
Matos.
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dnmais,
Hammond,
Ié-Ié,
Nuno Galopim,
Pop Five Music Incorporated,
Yé-Yé
10.3.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (6)
DN - Diário de Notícias
16 de Fevereiro de 2002
Discos pe(r)didos
Nascida de uma amizade entre Miguel Esteves Cardoso e Pedro
Ayres de Magalhães, a Fundação Atlântica apresentou-se, em 1983, como o
primeiro exemplo de editora independente portuguesa capaz de traduzir o
conceito das novas «indies» que haviam brotado da Inglaterra de meados de 70. A
Fundação Atlântica recebeu, desde logo, o apoio incondicional de Francisco
Vasconcelos, da Valentim de Carvalho, que assegurou assim o fabrico e
distribuição dos discos. À equipa juntar-se-iam, logo depois, Ricardo Camacho,
Francisco Sande e Castro, Pedro Bidarra e Isabel Castanho (Inha para os
amigos), em casa de quem a editora conheceu morada oficial durante algum tempo.
Apresentada com um manifesto que fez história, a Fundação
Atlântica deixou desde logo claro que ia aliar a edição de novos valores da
música moderna portuguesa à representação local de discos de peso nos cenários
alternativos de então. Pela Fundação Atlântica editaram os Xutos & Pontapés
(single «Remar Remar»), estrearam-se os Delfins, a Sétima Legião, Anamar, Luís
Madureira, as Clube Naval (êxito no Verão de 84 com «Professor Xavier»)... Os
Duruti Column lançaram, através da Fundação, «Amigos em Portugal». E o lote de
referências não ficaria nunca completo sem uma referência aos discos a solo de
elementos dos Heróis do Mar, mais concretamente o single (também com edição em
máxi-single) «Rapazes de Lisboa», de Paulo Pedro Gonçalves, e o máxi «Ocidente
Infernal», de Pedro Ayres Magalhães.
Este disco, que assinalou, até hoje, a única aventura a solo
do ideólogo dos Faíscas, Corpo Diplomático, Heróis do Mar e Madredeus, era
apresentado, em 1985, como o primeiro de uma série de máxis instrumentais que o
músico pretendia editar mas que, por razões que o destino traçou, acabaram por
não acontecer nunca, ficando o projecto com uma ideia de continuidade por
concretizar (quem sabe um dia? Não seria má ideia...).
O disco
apresenta duas faixas instrumentais onde as ideias de paisagismo ambiental são
vitaminadas por um conceito que o próprio Pedro Ayres Magalhães explica em
texto publicado na contra-capa do máxi-single. «Janeiro de um ano qualquer. As
espirais do fumo negro, avançam da margem sul para noroeste, quentes ainda do
incêndio lento, que foi pouco a pouco consumindo as válvulas últimas, soltando
a grande pressão. Das águas já tépidas do Tejo liberta-se um cheiro pegajoso
misturado com o pó, acrescentado ao pavor. Os homens gastaram a terra, como
quem quer devorar. O tempo cumpriu mesmo assim. Exposição dos quadros sonoros
de Lisboa no último quartel do séc. XX, o ranger dos ferrolhos nas portas da
Europa. Aquelas colunas...», escrevia sobre «Ocidente Infernal», tema título
dominado por uma pulsação forte para guitarras, que rasgam uma melodia entre a
contenção e o grito. No lado B, «Adeus Torre de Belém», sublinha novo retrato
lisboeta, desta feita sob um conceito em duas partes, uma primeira feita de
sons reais, captados na cidade (mais concretamente no Barreiro, em Dezembro de
84), uma segunda, de perfil quase minimalista pop, «sob os destroços duma metrópole
afundada».
É possível encontrar aqui laços da finidade para com
algumas intenções retratistas em pontuais aventuras dos Heróis do Mar mas,
acima de tudo, e particularmente na atitude expressa no conceito e textos de
apresentação, manifestam-se claramente já intenções, caminhos poéticos e
ideários que tomariam forma, pouco depois, nos Madredeus. As fotos eram de
Pedro Ayres e Miguel Esteves Cardoso; o design, de Jorge Colombo.
O «Ocidente Infernal», mesmo longe de representar o
melhor de Pedro Ayres Magalhães, é uma peça de inegável valor histórico e, como
muitos outros momentos registados pela Fundação Atlântica, justifica que a
ideia de uma reedição em CD do acervo da editora, que já tarda.
Nuno Galopim
PEDRO AYRES MAGALHÃES «O Ocidente Infernal» Máxi-single,
Fundação Atlântica / EMI, 1985 Lado A: «O Ocidente Infernal»; Lado B: «Adeus
Torre de Belém» Produção: Pedro Ayres de Magalhães.
6.3.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (5)
DN - Diário de Notícias
20 de Abril de 2002
Discos pe(r)didos
No início dos anos 80, a explosão do que então se
convencionou chamar por «rock português» apontou essencialmente as suas linhas
de acção a um som pop/rock convencional (para o clássico trio eléctrico de
guitarra, baixo e bateria), em alguns casos até em momentos de franco
afastamento face ao que eram já as formas em exploração noutras capitais dos
acontecimentos musicais de então. As electrónicas eram, ainda para alguns,
ferramentas «bizarras», pontualmente utilizadas, muitas vezes ainda com aquela
suspeita, muito «anos 70», que dizia que música com electrónica não era
música... Balelas!
A verdade é que eram poucos os projectos que apostavam
nos novos instrumentos electrónicos com claro protagonismo e projectos como,
para citar alguns exemplos, os Da Vinci ou Ópera Nova, onde as «novas» teclas
eram evidentes, tornavam-se alvo duplo de «maus olhados» de quem nem aceitava
certas simplicidades das linguagens technopop (mas se fosse nos Depeche Mode ou
OMD já «marchava»...) nem encarava de bom grado que fosse música digna desse
nome toda aquela que resultasse de programações e sons sintetizados...
Num tempo de mau relacionamento entre a opinião musical e
a música electrónica (com naturais excepções em mestres como os Kraftwerk,
Yello, Yellow Magic Orchestra e outros visionários mais «unânimes»), a proposta
de Tó Neto surge um pouco como a de um «outsider», que não se parece enquadrar
nem na família do «rock português» nem no das esferas mais populares da criação,
naturalmente fora também dos universos de experimentação mais vanguardista da
electrónica...
Com 32 anos de idade, os últimos dez vividos em Portugal
(onde chegara em 1973, vindo de Luanda), António Eduardo Benedy Neto contava já
com um vasto historial de vivências musicais. Em Lisboa havia já desenvolvido
estudos de música e jazz (na Academia dos Amadores de Música e no Hot Club de
Portugal), tendo também experimentado já percursos de vida nos Estados Unidos e
Reino Unido. Do regresso, em 1983, nasce uma proposta de música pop electrónica
instrumental em nome próprio. E, como Tó Neto, assina pela Sassetti (pela qual
acabaria por editar apenas um álbum).
«Láctea», o seu disco de estreia, resulta de uma
«maratona» de 40 horas de estúdio, durante as quais o próprio Tó Neto é o único
instrumentista em cena. A produção, de Eduardo Paes Mamede, assegura ao disco
um som final limpo e directo , ago próximo do que eram as composições de alma
pop dos álbuns «Equinoxe» e «Magnetic Fields» de Jean Michel Jarre, músico que
começava a gozar de enorme fama internacional. De resto, muita da imprensa
nacional logo tratou de apelidar Tó Neto como o «Jean Michel Jarre Português»,
numa comparação menos intencional que a de um Daniel Bacelar quando, valentes
anos antes, se mostrava como o Pat Boone lusitano! Temas como «Odisseia»,
«Lisa» e «Cristal» são exemplos da dignidade da proposta pop electrónica de Tó
Neto neste primeiro álbum, sendo então frequentes referências em programas de
rádio (uma delas «virou» indicativo do «Círculo em FM» na Rádio Comercial) e
inúmeros momentos de televisão.
O disco foi apresentado num espectáculo especial no
Planetário Calouste Gulbenkian (preparado em conjunto com Máximo Ferreira),
através do qual se sublinhava a face «futurista» de um álbum apontado a visões
do cosmos (um tema então em voga). Apesar de alguma ingenuidade (inerente aos
dias de juventude destas formas e rumos), o álbum de estreia de Tó Neto não
deixa de ser uma referência de mais uma marca da diversidade de propostas que
animaram a criação musical lusitana na aurora de 80. Nenhum dos seus três
álbuns editados posteriormente voltou a ter o «peso» e interesse deste disco
hoje quase esquecido.
TÓ NETO «Láctea» Sassetti, 1983 Lado A: «Odisseia», «Lisa»,
«Cristal», «África Blue»; Lado B: «D. Vagabundo», «Devoção», «Zuzu» Produção:
Eduardo Paes Mamede
27.2.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (4)
DN - Diário de Notícias
19 de Outubro de 2002
Discos pe(r)didos
CARLOS MARIA TRINDADE Single, «Princesa», Vimúsica, 1982
Lado A: «Princesa»; Lado B: «Em Campo Aberto»
Quando o actual teclista dos Madredeus, Carlos Maria
Trindade se juntou, em 1979, aos Corpo Diplomático, a sua carreira na música
contava já oito anos de vida. Tudo começou em 1971, quando formou os Soft Thurd
com Paulo Pedro Gonçalves. Algum tempo mais tarde muda-se para Inglaterra onde
vive dois anos, regressando mais tarde para estudar. Em 1976 focaliza as suas
atenções nas áreas da música contemporânea. Esta etapa de dedicação à música
contemporânea, que culmina com a apresentação de peças suas nos Encontros de
Música Contemporânea de 1978 termina, de certa forma, com a ligação aos Corpo
Diplomático em 1979, onde assume o lugar de teclista.
Ao fim dos Corpo Diplomático segue-se a etapa Heróis do
Mar banda que, de resto, herda grande parte dos músicos desse projecto fulcral
da new wave lusitana de finais de 70.
Evolução directa dos Corpo Diplomático, os Heróis do Mar
reflectem, contudo, uma mais evidente atenção para com as novas formas que
então a pop britânica ensaiava a experimentava, denunciando fundamentalmente um
tempo de deslumbramento pelos recursos que as novas tecnologias traziam à
canção. Os sintetizadores ganhavam protagonismo e, com eles, o mesmo sucedia a
prestação de Carlos Maria Trindade no som do grupo. Todavia, apesar do
empenhamento na sua faceta pop/rock, Carlos Maria Trindade não fecha a ligação
a outras músicas. Em 1980 é convidado a actuar no Festival de Bristol, onde se
apresenta com um projecto.
A partir de 1981 os Heróis do Mar absorvem grande parte
das atenções dos seus músicos. Mesmo assim, alguns discos a solo são editados,
nomeadamente o single e máxi Rapazes de Lisboa de Paulo Pedro Gonçalves (em
1984) e o máxi single Ocidente Infernal de Pedro Ayres de Magalhães (1985). O
primeiro dos discos a solo de elementos dos Heróis do Mar é, contudo, o single
Pricnesa, lançado em 1982 por Carlos Maria Trindade.
Trata-se de uma importante experiência pioneira na área
da pop electrónica, árvore de poucos frutos no Portugal de então, e com
melhores exemplos precisamente neste single, assim como nos 45 rpm de estreia
dos Ópera Nova, Da Vinci e António Variações. Princesa, a faixa que encontramos
no lado A é uma forte canção pop com a condimentação característica do som
electro pop da época, mas animada de uma identidade melódica mais exigente que
a norma, não se afastando muito do que seria, um ano depois, a essência da alma
do álbum Mãe, dos Heróis do Mar. Em Campo Aberto, a canção que encontramos no
lado B é um caso igualmente sério, revelando algumas afinidades com alguns
discos de Gary Numan da etapa 1979/81.
O single aterra nos circuitos em ano de crise no panorama
pop/rock nacional, precisamente naquele momento em que os excessos de 1980/81
se transformam em pesadelos. Em tempo de maré adversa poucos se salvam, entre
eles os Heróis do Mar com Amor. Princesa, que alguns meses antes poderia ter
gerado um êxito de grande escala, acaba despercebido.
Nuno Galopim
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