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21.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (19)



DN - Diário de Notícias
3 Agosto 2002

Discos Pe(r)didos


Apesar da curta expressão e limitada duração em que se manifestou entre nós, a «new wave» chegou mesmo assim a conhecer alguns dignos representantes. Um deles, foi caso inesperado, nascendo de um grupo com importante projecção no panorama «progressivo» na recta final de 70: os Tantra.
Uma das maiores forças da música rock feita em Portugal na segunda metade de 70, os Tantra surgem em 1976 da reunião de Manuel Cardoso (que tinha já passado pelos Beatnicks), Armando Gama, Américo Luís e Tozé Almeida, editando logo nesse ano o single «Alquimia da Luz». Um ano depois, o álbum «Mistérios e Maravilhas» (já disponível em CD) revelava a maioridade de um som rock de cenografia sinfónica e alma «progressiva», constituindo imediatamente um fenómeno, que se cimenta num tempo de desertificação na cultura pop/rock lusitana.
São, ainda nesse ano, o primeiro grupo rock português a encher o Coliseu dos Recreios, feito que repetem, em 1978, no concerto de apresentação do segundo álbum, «Holocausto» (recentemente reeditado em CD), evolução natural do disco de 1977.
Quando o grupo regressou ao Coliseu, em 1978, já Armando Gama havia saído (para formar os Sarabanda, com Kris Kopke), sendo então substituído, nas teclas, por Pedro Luís. Segue-se então um tempo de longo silêncio, durante o qual se começam a manifestar sinais de mutação interna, que levam ao afastamento de Américo Luís.
Estávamos na viragem de década, e nomes como os de Rui Veloso, UHF, Salada de Frutas, GNR, Jáfumega e Táxi começavam a mostrar um novo som rock cantado em português ao qual aderiam, como nunca antes, as rádios e público. Numa decisão contra-corrente, tal como então se verifica em grupos como os Roxigénio e Arte e Ofício (estes já com tradição no recurso ao inglês), os Tantra abandonam a língua portuguesa. E, reduzidos a três elementos, contando com a colaboração de «Dedos Tubarão» (Pedro Ayres Magalhães), dos Corpo Diplomático, editam em 1981 o terceiro álbum, «Humanoid Flesh».
O disco causou acesa polémica, sobretudo por acender a chama da discórdia na classe «crítica» de 70, mais dada a elogiar os sinfonismos de «Mistérios e Maravilhas» e «Holocausto» que as novas canções de dinâmica rítmica mais evidente e recorte «new wave» com o qual o grupo se apresentava. Todavia, a rejeição não chegou apenas da «crítica», já que o público acabou também por ignorar este terceiro disco dos Tantra, que pecava por «erro» estratégico de «timing» ao adoptar o inglês numa altura em que as multidões descobriam e abraçavam um novo rock (mesmo mais «quadrado») cantado em português. A opção pelo inglês foi então justificada por Manuel Cardoso (já a responder como Frodo) numa entrevista ao «Se7e», onde explica que uma luzinha lhe dissera que Deus não passaria os discos dos Tantra no Paraíso, se estes cantassem em Português.
«Humanoid Flesh» tem os seus méritos. Musicalmente é um interessante manifesto estético de um movimento tangencial Às linhas de força pop/rock lusitanas na alvorada de 80. E não só exibe um lote de canções interessantes (algumas a revelar uma proximidade estranha com o som dos Classix Nouveaux), como ousa transformar os «Verdes Anos» de Carlos Paredes, naquela que é uma das mais interessantes manifestações de homenagem do rock português ao grande mestre.
O fracasso do álbum acabaria por determinar o fim do grupo. Frodo seguiu carreira a solo. Tozé Almeida juntou-se aos Heróis do Mar. E Pedro Luís formou os Da Vinci.
N.G.

TANTRA
«Humanoid Flesh» 
LP Valentim de Carvalho, 1981
Lado A: «Girl In My Head», «Crazy Rock’N’Roll», «What Have Your Eyes Done To Me?», «Magic», «Verdes Anos»; 
Lado B: «Dangerous Works», «Humanoid Flesh», «Just Another Lie», «African Sands»

Produção: Tantra e SR






20.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (18)


DN - Diário de Notícias
29 Junho 2002

Discos Pe(r)didos


Emigrado para França depois de uma recusa em combater na Guerra Colonial, Luís Cília é um entre uma “família” de músicos portugueses que desviam de Lisboa para Paris o palco de criação de alguns dos mais importantes discos que a língua portuguesa conheceu na década de 60. É em Paris que conhece figuras como as de Paco Ibanez, Colette Magny, Georges Brassens, Luigi Nono... É também em Paris que enceta a sua obra discográfica, com o fundamental “Portugal-Angola: Chants de Lutte” (editado em 1964 pela Chant du Monde).
Ainda durante a década de 60 edita “Portugal Resiste” (um EP) e os três álbuns da série “La Poèsie Portugaise”. Em 1969 assina “Avante Camarada”, canção que, gravada por Luísa Basto, se transformaria depois no hino do PCP. E, ainda antes do regresso a Portugal, grava e edita “Contra A Ideia da Violência, a Violência da Ideia”, disco que assinala o seu reencontro com a Le Chant du Monde.
Quatro dias depois do 25 de Abril, Luís Cília regressa a Portugal e logo causa polémica ao afirmar que Alfredo Marceneiro era um cantor revolucionário. A ligação que era feita, pela turba revolucionária, entre o fado e o regime deposto, não permitia a aceitação deste tipo de opinião de bom grado.
A demarcação mais efectiva ainda de Luís Cília face a alguns excessos desses tempos ganhou forma naquele que foi o primeiro álbum editado após a revolução. Sem embarcar na multidão que então fazia do canto de intervenção a linguagem musical do Portugal de todos os dias, Luís Cília procura reunir num disco uma colecção de romances antigos, os mais recentes datados do século XIX, os mais remotos do século XIII!
Para o processo de recolha não recorreu aos trabalhos de Michel Giacometti e Lopes Graça (duas referências já devidamente reconhecidas), mas antes a uma busca em nome próprio, para tal socorrendo-se do acervo da biblioteca da Fundação Gulbenkian em Paris, na qual consultou uma série de cancioneiros. De uma série de trabalhos de recolha que vinham de antes do 25 de Abril nasceu a ideia de um álbum que, no agitado 18«974, rumou então contra a corrente.
Para a concretização do projecto, Luís Cília regressou a Paris. Por companhia levara, de Portugal, o produtor executivo José Niza, nomeado pela Orfeu, com quem o músico havia assinado. Na capital francesa tinha todos os músicos que julgara necessários para dar forma ao projecto. Em primeiro lugar o guitarrista clássico Bernard Pierrot, que Cília conhecia por ter sido, também, aluno do seu professor de composição Michel Puig. Pierrot assinou os arranjos e, com o seu grupo de música antiga, participou na gravação de “O Guerrilheiro”, cujas sessões tiveram lugar nos estúdios Sofreson, em Paris.
Disco esquecido, importante registo de referência de uma atitude muito particular perante a recolha do legado da música tradicional portuguesa, “O Guerrilheiro” deu à Intersindical o seu hino, mais concretamente na música do tema-título (originalmente uma canção alentejana do século XIX, aparecida em 1852, por ocasião das lutas civis de Patuleia e Maria da Fonte).
Oito anos depois (em 1982), Luís Cília voltou ao estúdio, onde regravou as partes vocais do álbum que, então, a Sassetti reeditou com o título “Cancioneiro”. Todavia, nem esta versão de 1982, nem a histórica versão original, tiveram ainda luz verde para a reedição em CD.
Teremos ainda de esperar muito?
N.G.

LUÍS CÍLIA 
“O Guerrilheiro” 
LP ORFEU, 1974
Lado A: “O Adeus d’um Proscrito”, “O Conde Ni#o”, “Flor de Murta”, “A Guerra do Mirandum”, “O Conde de Alemanha”; 
Lado B: “D João da Armada”, “Canção do Figueiral”, “D. Sancho”, “O Guerrilheiro”
Produtor delegado: José Niza






19.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (17)



DN - Diário de Notícias
13 Julho 2002

Discos Pe(r)didos



Os cenários de explosão rock que os portugueses viveram entre os finais de 70 e inícios de 80 representaram, por si, as razões fundamentais pelas quais se explica o fraco desenvolvimento dos fenómenos de ligação das electrónicas à música pop entre nós. Com uma cultura pop/rock a viver, em jeito de concentrado de acontecimentos, 20 anos de desenvolvimento atrasado, os primeiros dias da década de 80 conheceram um estranho efeito de salada russa na produção discográfica nacional, juntando estéticas já antigas a fracções mais discretas de modernidade.
E é entre alguns destes mais ousados projectos que irrompem as electrónicas, usando-as uns como mero tempero para uma refeição pop/rock com guitarra, baixo e bateria, poucos tendo sido os que apostaram de facto numa identidade «electro pop», que então conhecia messias não só nos alemães Kraftwerk, mas na interessante multidão de projectos que entrava em cena em Inglaterra (Human League, OMD, Depeche Mode, Yazoo, entre outros, todos eles com considerável exposição na rádio portuguesa de então e grande aceitação entre os mais novos). Nesta localização temporal convém ainda recordar que, na época, os teclados e electrónicas eram olhados de soslaio pelos partidários das guitarras, estes acusando as novas tecnológicas de ser música fácil, automática, o que conferia às bandas electrónicas uma espécie de alvo imediato do gozo dos espíritos mais duros de ouvido... Birra hoje resolvida, naturalmente.
É certo que os Tantra usavam já sintetizadores (particularmente no derradeiro «Humanoid Flesh», de 1980). O mesmo se verificava nos Salada de Frutas («Robot», 1980), nos Heróis do Mar («Brava Dança dos Heróis» / «Saudade», single de estreia em 1981), assim como em alguns outros mais projectos. As electrónicas tomaram até protagonismo evidente em «Foram cardos Foram Prosas» de Manuela Moura Guedes (produção de Ricardo Camacho para um belo single em 1981).
Em 1982, uma série de projectos exclusivamente electrónicos entram em cena no panorama português, reflectindo não só uma maior abertura da rádio e editoras a estas estéticas, como sublinhando o que fora a adesão dos portugueses a canções como «Just Can’t Get Enough» dos Depeche Mode ou «Open Your Heart» dos Human League no ano anterior. Com «Lisboa Ano 10 Mil» e «Fantasmas», os Da Vinci apresentam-se com um projecto esteticamente coerente e musicalmente apoiado pela experiência de um ex-Tantra e de um músico de Jazz. No mesmo ano apresentam-se ainda Tó Neto (o Jarre português, com o álbum «Láctea»), Carlos Maria Trindade (Heróis do Mar) edita, a solo, «Princesa», Frodo lança «Zbaboo Dança»... Mais tarde haverá ainda que ter em conta o single «Estou Além» de António Variações (1983), «Como Um Herói» (1984) do projecto Stick (de Sérgio Castro e António Garcês), os Poke, de Quico, que em 1984 editam o fundamental máxi-single de pop electrónica «Digitalmente Afectivo», e a aventura pop de Ana Paula Reis «Utopia» (1984).
Formados também em 1982, os Ópera Nova começaram por ser um trio constituído por Luís Beethoven, Manuel Andrade Rodrigues e Pedro Veiga, todos eles estudantes, entre os 18 e 20 anos. Com imagem apurada pelo costureiro Zé Pedro apresentam-se em 1983 com o máxi-single «Sonhos», que juntamente com o disco dos Poke e o álbum «Caminhando» (1983) dos Da Vinci, representa a essência do breve movimento electro pop português de 80. Os Ópera Nova apresentam uma música tecnicamente apurada, na qual se cruzam referências dos OMD e Visage (atenção ao «lettering» na capa). Braunyno da Fonseca substitui, pouco depois, Manuel Rodrigues. Luís Beethoven afasta-se mais tarde. Editam ainda «México», single menor de 1984, e desaparecem do mapa.
N.G.

ÓPERA NOVA 
«Sonhos» 
máxi-single, Polydor, 1983

Lado A: «Sonhos» (versão longa); 
Lado B: «Luar», «Palavras» 
Produção: Carlos Maria Trindade









18.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (16)



DN - Diário de Notícias
27 Julho 2002

Discos Pe(r)didos


Tal como o californiano Darin Pappas nos anos 90 (ver entrevista ao lado), Sheila Charlesworth encontrou em Portugal os estímulos que a levaram a encetar uma carreira na música. Nascida em Toronto (Canadá) em 1949, viveu parte da infência e juventude em Montreal, onde conheceu os primeiros sucessos como actriz e modelo.
Por ocasião de uma viagem a França, em 1970, assiste em Paris a uma representação do musical «Hair», e algum tempo depois faz parte do elenco, como actriz. É aí que conhece Sérgio Godinho, com quem terá uma relação pessoal e em quem conhecerá um importante parceiro musical. Em 1971, Sheila participa nas gravações de «Os Sobreviventes», álbum de estreia de Sérgio Godinho, no qual surge depois creditada com «coros, sanduíches e amor».
Com Sérgio Godinho vive, então uma série de episódios históricos. Juntam-se ao Living Theatre (com o qual vivem o «caso» brasileiro de 71, com dois meses de prisão em Ouro Preto), residem temporariamente em Amsterdão, regressam a Paris para gravar «Pré-Histórias» e, em 1972, partem para o Canadá onde casam e se dedicam ao teatro.
Já com a filha Jwana, o casal regressa definitivamente a Portugal. Sheila colabora então numa série de discos: «À Queima-Roupa» (Sérgio Godinho, 1974), «Semear Salsa Ao Reguinho» (Vitorino, 1975), «De Pequenino Se Torce O Destino» (Sérgio Godinho, 1976), «Fernandinho Vai Ao Vinho» (1976)...
Em 1977 grava finalmente, então já com o nome artístico de Shila, um álbum de canções que conta com um lote de colaboradores de luxo já que, além de Sérgio Godinho, estão presentes Fausto, Carlos Zíngaro, Júlio Pereira, Paulo Godinho (ex-Pop Five Music Incorporated), Guilherme Scarpa, Francisco Fanhais e uma bem jovem Eugénia Melo e Castro. O disco, que receb por título «Doce de Shila» é um magnífico conjunto de canções, a maior parte delas da autoria de Sérgio Godinho (duas em colaboração com Carlos Zíngaro, uma num trabalho conjunto de adaptação de um tema popular com Fausto), uma de Júlio Pereira e uma de Fausto (sobre poema de Reinaldo Ferreira). Os arranjos são assinados por Godinho e Fausto, à excepção de «Entre a Flor e a Enxada», de Júlio Pereira.
Tiveram particular exposição os temas «Chula» (tradicional, com letra adaptada e transformada por Sérgio Godinho e Fausto, dando origem ao conhecido refrão «P’ra melhor está bem está bem / P’ra pior já basta assim») e «Mais Um Filho». Contudo, o «caso» deste álbum será inevitavelmente o tema de abertura: «Espectáculo». Esta corresponde à primeira gravação de um tema que Sérgio Godinho gravou, mais tarde em «Canto da Boca» e que, recentemente, conheceu nova leitura na colaboração com os Clã para o espectáculo (e disco) «Afinidades». Um ainda suave e delicioso «sotaque» pontua, todavia, esta versão original de Shila, num momento histórico ainda à espera de passaporte para a era digital.
Nos anos seguintes, Shila gravaria ainda o álbum «Lengalengas e Segredos» (editado em 1979) e ainda alguns singles. Dedica-se essencialmente ao teatro antes de, já em 1990, abandonar definitivamente a vida artística.
N.G.

SHILA
«Doce de Shila» 
LP, Lá Mi Ré (1977)
Lado A: «Espectáculo», «Chula», «Doce de Shila», «Mais Um Filho», «Entre a Flor e a Enxada»;
Lado B: «Rapa Tira Deixa e Põe», «Parteira do Mar», «Dança de Amargar», «Rosie», «Gente Assim».

Engenheiro de Som: José Fortes






DN - Série: Discos Pe(r)didos (15)



DN - Diário de Notícias
08 Junho 2002

Discos Pe(r)didos



Da revolução de 1980/81, quando na sequência dos êxitos de Rui Veloso, dos UHF, GNR, Trabalhadores do Comércio e Salada de Frutas se instituiu uma espécie de nova ordem de gostos e prioridades, colocando o novo pop/rock cantado em português na primeira linha dos objectivos, nasceu um verdadeiro cenário de explosão demográfica no panorama musical lusitano.
Grande parte das carreiras emergentes usavam o single como veículo de exposição ideal para as suas canções, raros sendo os casos de grupos e artistas que apostaram em primeiro lugar no formato de álbum. Rui Veloso, Táxi e Opinião Pública são raros casos de apostas no LP, dele nascendo, depois, os inevitáveis singles.
O clima de euforia colectiva que o meio pop/rock então vivia levou a que muitas pequenas editoras se aventurassem na edição de rock português. Afinal, nada mais que a aplicação (à nossa escala) de princípios que a revolução punk e a continuidade via new wave tinham impresso recentemente À bem nutrida indústria discográfica inglesa. Entre as pequenas editoras que então entram em cena destaca-se a Rotação, na qual o homem do leme era António Sérgio (já então um conhecido divulgador na rádio e com provas já prestadas na edição discográfica, nomeadamente como co-produtor, em 1979, de «Música Moderna», o álbum dos Corpo Diplomático, isto sem esquecer a «famosa» compilação «Punk Rock 77»).
A «bandeira» da Rotação era, naturalmente, a estreia discográfica dos Xutos & Pontapés, que ali editaram os dois primeiros singles «Sémen» (1981) e «Toca e Foge» (1982), bem como o álbum de estreia «78/81» (também em 1982). Perante o cenário de investimento que caracterizava todos os pólos de edição na altura, a Rotação avança pelo ano de 1982 com uma série de novos nomes: Mau Mau, com o single «Xangai», Tânger, com o single «Zé, Zé Ninguém», Manifesto com o single «Nuclear (À Beira Mar)». A estes juntam-se ainda os Malaposta e os Sub-Verso... Todavia, nenhum dos grupos da Rotação, à excepção dos Xutos & Pontapés, conhecem tamanha expectativa interna e alguns resultados concretos como os Opinião Pública, uma banda, de certa forma, «apadrinhada» pelos UHF.
No quarteto, constituído por Carlos Estreia (voz, guitarra), Pedro Lima (guitarra), Luís Fialho (baixo, teclas) e Carlos Baltasar (bateria), António Sérgio identificara um caso de possível complementaridade pop aos Xutos & Pontapés. A estreia faz-se com «Puto da Rua», canção que imediatamente chega à rádio e tira os Opinião Pública do anonimato e apresenta o álbum «No Sul da Europa», com o qual o grupo faz a sua estreia (encetando uma discografia que receberia depois, apenas, o single «Puto da Rua»).
Se nos Xutos & Pontapés António Sérgio «ousara» um lugar na produção, com os Opinião Pública cede a cadeira a António Manuel Ribeiro (dos UHF) e à própria banda. De som seguro e muito característico. Das estéticas da altura, «No Sul Da Europa» é um interessante (e quase esquecido) documento do rock português de inícios de 80, dividindo as canções entre momentos de puro prazer de uma pop lúdica (como «Ritmo de Vida» ou «Walkman», e alguns retratos de cenas do quotidiano urbano de então (de que são bons exemplos «Puto da Rua» e «Subúrbio»).
Apesar de coerente e significativamente mais interessante que grande parte dos demais estreantes seus contemporâneos, os Opinião Pública, tal como todo o restante catálogo da Rotação (à excepção dos Xutos & Pontapés), desapareceram entre as primeiras vítimas da crise de 1982/84, uma das mais «mortais» da história pop/rock cantada em português.
N.G.

OPINIÃO PÚBLICA
«No Sul da Europa»
LP Rotação
Lado A: «Ritmo de Vida», «Sem Destino», «Sul da Europa», «Puto da Rua», «Na Terra»;
Lado B: ««Walkman», «Cumprindo As Regras», «Duplo Controle», «Subúrbio»
Produção: António Manuel Ribeiro e Opinião Pública






17.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (14)



DN - Diário de Notícias
25 Maio 2002

Discos Pe(r)didos


A alvorada de uma cultura alternativa na música portuguesa é uma das mais importantes conquistas da segunda geração de 80. Depois de aberto o espaço à explosão de uma cena pop/rock local, em grande parte cantada em português (mesmo que plena de referências estéticas importadas), a segunda «leva» de acontecimentos no Portugal musical de 80 fez coexistir um tempo de ressurgimento de músicas de raiz tradicional com um surto de criatividade urbana ciente de uma vontade em romper as formas mais imediatas pelas quais se haviam definido os primeiros traços de uma identidade pop/rock lusitana.
Graças ao aparecimento de novos espaços de ensaio e apresentação pública de projectos (e aqui é inevitável a referência a um Rock Rendez Vous em Lisboa e um Luís Armastrondo no Porto), fruto também da abertura de estúdios de gravação, e, muito importante, a criação de alguns programas (poucos) na rádio e novos veículos de jornalismo musical escrito, uma cultura alternativa começa a brotar de forma evidente entre nós.
Sob a batuta de João Peste, na altura já um nome de respeito ca cena «alternativa» local, graças ao trabalho dos Pop Dell’Arte, a Ama Romanta é uma entre as várias editoras independentes que se aventuram no mercado discográfico português de meados de 80. DE 1986 a 1991 a actividade da editora será irregular nos tempos de agenda, mas determinante no lançamento e abertura de horizontes. De resto, ao revisitar o seu catálogo contamos com discos dos Pop Dell’Arte (o máxi «Querelle», o single «Sonhos Pop» e o LP «Free Pop», em 87, o máxi «Illogik Plastik», em 89, e o CD «Arriba Avanti! Pop Dell’Arte», em 91), Mão Morta (o álbum «Mão Morta», em 88), Mler Ife Dada (o single L’Amour Va Bien Merci», em 86), Cães Vadios (o single «Cães Vadios», em 87), Anamar (o máxi «Amar Por Amar», em 87), Projecto Som Pop (com o álbum «Pipocas», em 88), Sei Miguel (os álbuns «Breaker», em 88, «Songs About Terrorism», em 89) e «The Blue Record», também em 89), Telectu (o álbum «Camerata Electronica», em 88), Tozé Ferreira (o álbum «Música de Baixa Fidelidade», em 88), Nuno Canavarro (o fundamental «Plux Quba, em 89), Santa Maria Gasolina em Teu Ventre (o álbum «Free Terminator», em 89) e João Peste e o Axidoxibordel (o único EP, em 90).
O catálogo da Ama Romanta abriu, contudo, com uma compilação. Uma espécie de carta de intenções na qual tanto encontrávamos projectos e nomes que depois permaneceram ligados à editora, como projectos expressamente gerados para as gravações ali registadas e casos que seguiram, depois, vida própria, em outras paragens.
Nomes de proa da cena «alternativa» portuguesa de meados de 80 juntam-se no disco (duplo) que mais fielmente ilustra movimentações diferentes, algumas com descendência, outras episódios únicos.
Momento inesperado e curioso na compilação, uma entrevista de João Peste a Paquete de Oliveira (com música do próprio João Peste) conduz-nos por uma série de importantes reflexões, hoje incrivelmente ainda com mais sentido que em 86. Com texto e contexto, «Divergências» é «o» retrato mais completo da cultura musical alternativa do Portugal de meados de 80, com algumas das suas faixas entretanto reeditadas na compilação «Sempre», retrato de fragmentos da história da Ama Romanta editada pela Música Alternativa em 1999.
N.G.

VÁRIOS 
«Divergências» 
LP duplo, Ama Romanta, 1986
Lado A: Bastardos do Cardeal, Mler Ife Dada, Jorge Martins, Miguel Morgado + Nuno Rebelo + Pedro Mourão, A Jovem Guarda; 
Lado B: Entrevista a Paquete de Oliveira, Pop Dell’Arte, Os Cães A Morte e o Desejo, Mário e Peter, Maguedesi; 
Lado C: Anamar, SPQR, Croix Sainte, Nuno Rebelo, Extrema Unção; 
Lado D: Bairro, Grito Final, João Peste, Bye Bye Lolita Girl, Essa Entente, Linha Geral
Colectânea organizada por João Peste e Maria João Serra










14.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (13)



DN - Diário de Notícias
11 Maio 2002

Discos Pe(r)didos


Tinham passado quase dez anos sobre o momento no qual os GNR conheceram a sua segunda mudança de formação. Em finais de 1982, depois de concluído e editado o fundamental e histórico «Independança» (ainda à espera de reedição em CD, tal e qual o sucessor «Defeitos Especiais», de 1984), Vítor Rua junta-se a Jorge Lima Barreto para concluir «CTU», o álbum de estreia dos Telectu, o novo duo constituído por ambos, no qual se desenhavam rumos de fuga aos passos pop/rock nos quais Vítor Rua circulara até então. Depois de editado o álbum dos Telectu, Vítor Rua e Toli iniciam o trabalho de produção de «Anjo da Guarda», o LP de estreia de António Variações, para a Valentim de Carvalho, editora dos GNR e, até esse momento, também dos Telectu. Vítor Rua abandona o trabalho no disco de Variações e parte para Nova Iorque. Ao regressar propõe uma pausa nos GNR, o que não agrada aos restantes elementos do grupo. Decide, então, afastar-se e seguir rumo próprio...
Apesar da separação, um diferendo oporá, durante anos, Vítor Rua aos restantes elementos dos GNR. Um diferendo que parte da questão da posse dos direitos do nome do grupo, que ficam pelo lado de Reininho, Toli e Alexandre Soares. A 15 de Fevereiro de 1983, Vítor Rua escreve, no «Sete», um texto no qual explica ser ele o proprietário do nome GNR e proíbe o grupo de tocar ao vivo as composições que ele escrevera para a banda...
Um novo episódio deste complicado caso tem lugar quando os GNR editam, em 1990, o duplo álbum ao vivo «In Vivo», gravado num concerto na Alameda D. Afonso Henriques. O disco incluía «Hardcore (1º Escalão)», «Portugal na CEE» e «Sê Um GNR», todos eles interditados por Vítor Rua junto da SPA. A primeira edição esgota, e é substituída por uma outra que passa a incluir «Homens Temporariamente Sós»... A primeira edição é hoje uma peça disputada no circuito de coleccionismo.
Um ano depois, num momento de pausa no trabalho dos Telectu, Vítor Rua edita um disco através do projecto Vidya e um outro através de um nome que gera nova polémica: Pós-GNR.
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja», apresentado aos media numa conferência de imprensa na sede da PolyGram, onde se voltou a levantar o velho drama dos direitos de utilização do nome GNR, é um disco no qual Vítor Rua procura um interessante reencontro com as linguagens pop/rock. Depois de quase uma década de experimentação noutros territórios, o reencontro faz-se segundo regras distintas das que os próprios GNR tomaram, procurando antes um entendimento entre formas da cultura popular e elementos da invenção «livre» característica de correntes de vanguarda, temáticas de decadência, da vida na grande cidade... De certa forma, «Mimi Tão Pequena e Tão Suja» procura ser uma herança, distante, das pistas deixads em aberto no álbum de estreia dos GNR, reencontradas e encaradas por um músico que, entretanto, acumulara outros hábitos e percursos. Esta ideia de continuidade é sublinhada por temas como «Hardcore II» e «Independança II»... Curiosamente, não se encontram aqui marcas notórias de descendência de «Avarias»...
Com alguns bons momentos em canções como «In The City» ou «City Of Love», o álbum passa a Leste das atenções, não só do público mas também de muitas estações de rádio. Exactamente o cenário oposto ao que receberia, um ano depois, «Rock In Rio Douro», dos GNR.
Em 1996, cinco anos depois deste único álbum sob o nome Pós-GNR, Vítor Rua surgia (assim como Alexandre Soares) na festa de lançamento do «best of» dos GNR. Pazes feitas, conflito sarado. A música agradece.
N.G.

PÓS-GNR 
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja» 
LP, PolyGram
Lado A: «In The City», «City Of Love», «Very Speed Song», «Hardcore II», «Speak With Me Please», «Nothing», «Independança II»; 
Lado B: «Junkie Fly», «Wars Of Fights», «Scales Of Solos», «Strange Perception», «The Next Album...» Produção: Vítor Rua






13.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (12)



DN - Diário de Notícias
06 Abril 2002

Discos Pe(r)didos


Lisboa, 1984. Com quatro anos de vida, o Rock Rendez Vous (RRV) encetava um certame que se transformaria, em pouco tempo, numa espécie de ex-libris da «casa»: o Concurso de Música Moderna. Fruto de um momento de fervilhante agitação nos espaços da criação e divulgação de uma emergente ideia de música alternativa portuguesa. Resultado, por um lado, de uma natural resposta dos músicos à implosão do mercado mais «oportunista» de 1982 e, por outro, da solidificação de importantes espaços de divulgação na rádio (Comercial e Renascença) e imprensa («Sete» e, mais tarde, já em finais de 1984, a entrada em cena de uma publicação de especialidade: o «Blitz»), um novo mundo de bandas e conceitos aguardava a abertura de uma janela. E assim aconteceu, na Rua da Beneficência ao Rego.
Para a primeira edição do Concurso de Música Moderna do RRV inscreveram-se um total de 101 bandas, das quais 24 foram seleccionadas, seis delas apuradas, depois como finalistas... Na final eram jurados António Sérgio (Rádio Comercial), Ana Cristina (Rádio Comercial), Rui Pêgo (Rádio Renascença), Ana Rocha («A Capital»), João Gobern («Sete»), Amílcar Fidélis («Diário Popular»), António Manuel Ribeiro (UHF), Manuel Cardoso (Frodo), Zé Pedro (Xutos & Pontapés) e João Santos Lopes (RRV). Vencedores... os Mler Ife Dada.
Formados poucos meses antes, os Mler Ife Dada eram, nesta sua primeira formação, Nuno Rebelo (baixo), Pedro d’Orey (voz) e Kim (guitarra) e mostraram desde logo, nas eliminatórias e final do concurso do RRV, uma ideia de franca identidade e personalidade tanto no som como na imagem, deles nascendo (de facto), a mais sólida proposta em competição.
Como parte do prémio, coube ao grupo a hipótese de registar um primeiro disco, gravado pouco depois nos estúdios da Rádio Triunfo, com Paulo Junqueiro (hoje A&R nacional da EMI-VC) e produção de Nuno Canavarro (ex-Street Kids, tal como Nuno Rebelo).
«Zimpó», o máxi-single com o qual os Mler Ife Dada assinalam, em inícios de 1985, a sua estreia editorial, é um interessante representante da ponta do icebergue de uma multidão de projectos que procuravam então novas formas na vanguarda de uma «nova» música portuguesa (chamavam-lhe «moderna» na época).
O disco é constituído por apenas três temas, o primeiro dos quais (o tema-título)  ainda hoje recordado como uma das pérolas esquecidas da pop alternativa lusitana de 80, fluente na estrutura rítmica, animado e conduzido por uma guitarra que tanto citava os Durutti Column como parecia assumir a essência antiga da guitarra portuguesa. Na face B do máxi-single apresentavam-se dois temas cantados em inglês, cativantes, mas em nada comparáveis a «Zimpó».
Complemento fundamental às três canções apresentadas no disco, a capa do máxi-single é mais uma clara manifestação das intenções estéticas de um grupo com uma consciência de arte final invulgarmente apurada para o que era norma na época. Uma pintura de Mateus e Sérgio, sobre a qual se inscrevem (na contracapa) os créditos e fotografias é interessante expressão visual de um som novo, moderno, desafiante, avesso à prática d o «mais do mesmo».
O grupo não conheceu, contudo, vida longa com esta formação tanto que, alguns meses depois, apenas Nuno Rebelo se mantinha nos Mler Ife Dada, acompanhado por uma série de novos músicos, entre eles a vocalista Anabela Duarte, que se estreariam no single «L’Amour Va Bien Merci» (1986), ao que se seguiria, já em 1987, o clássico «Coisas Que Fascinam», álbum de estreia e um dos mais importantes registos da história do pop/rock lusitano.
N.G.


MLER IFE DADA 
«Zimpó»
Máxi-single, Dansa do Som, 1985 
Lado A: «Zimpó»; 
Lado B: «Stretch My Face», «Spring Swing» 
Produção: Nuno Canavarro








11.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (11)



DN - Diário de Notícias
30 Março 2002

Discos Pe(r)didos



Na recta final de 70 os Tantra eram um dos raros casos de sucesso no rarefeito panorama pop rock português. A estreia, com «Mistérios e Maravilhas» (1977), seguida de um inesperado triunfo no Coliseu dos Recreios, gerava um fenómeno que nascia nas esferas de um som sinfónico, com alguma contaminação progressiva, um pouco nos caminhos sugeridos pelo eixo Genesis / Yes. Seguiu-se, no ano seguinte, «Holocausto», disco que volta a gerar um caso de popularidade no circuito «roqueiro luso», com duas noites de triunfo no Coliseu. A estes espectáculos, nos quais surge já nas teclas Pedro Luís (em substituição de Armando Gama, que partira para formar os Sarabanda), segue-se inesperado silêncio de três anos. E o grupo, que havia assumido a ideia de um som rock cantado em português, vê-se então ultrapassado pela popularidade dos novos nomes que entram em cena. Manuel Cardoso, o vocalista e um dos fundadores dos Tantra, havia já assumido o seu alter-ego de Frodo...
Quando, em 1981, é editado o derradeiro álbum dos Tantra, «Humanoid Flesh» (no qual participa, no baixo, Pedro Ayres Magalhães), o fim do grupo está à vista, sobretudo dado o fracasso de um disco talvez incompreendido, que trocava as linguagens progressivas de 70 por uma aproximação às emergentes sugestões da new wave.
Manuel Cardoso toma então definitivamente o nome do seu alter-ego Frodo e parte em busca, não de respostas sobre um anel, mas para uma carreira a solo que nos deixou dois registos dignos de referência. Estreia-se com o single «Machos Latinos» (ainda em 1981), ao qual sucede o álbum «Noites de Lisboa», no qual se conhece, de certa forma, uma lógica de continuidade face a alguns elementos da música dos Tantra, nomeadamente o prazer pela elaboração dos fundos (um pouco ao jeito das normas sinfonistas), aqui, todavia, empregando regras de maior simplicidade ao nível dos recursos, sublinhando assim critérios de contemporaneidade, aceitando as marcas de um presente onde uma nova lógica electrónica encontrava o seu espaço no contexto da canção pop.
Ao seu lado, neste «Noites de Lisboa», encontramos alguns ex-Tantra, como Pedro Luís (que então dava também os primeiros passos com o seu projecto pessoal, os Da Vinci) e António José Almeida (o baterista que seguia, então, rumo próprio com os Heróis do Mar). António Emiliano (teclas) é outro dos convidados a desenhar retratos nocturnos de Lisboa com os quais Frodo propõe uma ideia de sofisticação pop que não se enquadrava nos padrões de um momento onde se descobriam ainda as adaptações lusitanas das normas do «fast and furious».
Nem muito «fast», nem muito «furious», mas enfim...
A capa do álbum, que reflecte uma ideia de identidade teatral e lembra, de longe, a figura do austríaco Falco (na altura na berra com «Der Komissar»), é um primeiro indício de um processo de autodeterminação de uma ideia pop que conduzia Frodo na alvorada de 80. A foto interior, onde junta a si os músicos, exibe uma noção de imagem apurada no sentido de uma sofisticação chique, quase neo-romântica, embora sem maquilhagem...
Musicalmente, sem se apresentar como um álbum revolucionário, «Noites de Lisboa» é um disco curioso e competente, bem mais interessante e representativo de uma proposta individual de rumo que muitos dos pastiches que o ano de 1982 vê nascer (e morrer) entre nós. Poucos meses volvidos sobre a edição deste seu álbum de estreia, Frodo edita um sucessor, no bizarro formato de duplo (álbum + máxi) «Zbaboo Dança», uma mais directa aposta na exploração de electrónicas, mas num recuo linguístico rumo ao inglês... E, como o anel, desapareceu em Mordor...
N.G.

FRODO 
«Noites de Lisboa» 
Vadeca, 1982
Lado A: «Vou Acordar No Paraíso», «Máquinas na Multidão», «Feitiço», «Labirinto»; 
Lado B: «Noites de Lisboa», «Manhãs Submersas», «Fado Louco», «Heróis da Noite» 
Produção: Frodo










10.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (10)


DN - Diário de Notícias
09 Março 2002

Discos Pe(r)didos


Chamava-se Carlos Cordeiro, mas ficou por muitos conhecido como Farinha Master, a voz e a alma dos Ocaso Épico. Morreu no passado dia 17 de Fevereiro. E, sem querer fazer desta uma coluna de necrologia, não podemos deixar de evocar «Muito Obrigado», um dos mais interessantes e escandalosamente esquecidos dos álbuns portugueses da segunda metade de 80. Um caso ímpar na história da família pop/rock lusitana.
Farinha Master era uma figura única, conhecida no eixo dos acontecimentos da Lisboa «esclarecida» de meados de 80, figura sobretudo regular nas melhores noites do Rock Rendez Vous. Tinha passado já pelos WC quando lança as bases de um projecto que procura novas formas de explorar dados «kitsch» em linguagens urbanas. Em busca de uma nova música «foleira», cria as bases dos Ocaso Épico, colectivo musicalmente interventivo e esteticamente desbragado pelo qual passaram nomes como os de Alberto Garci (baterista dos Rádio Macau e Mler Ife Dada), Rui Fingers, Manuel Machado (Essa Entente) ou Anabela Duarte (Mler Ife Dada).
De um desafio de Mário Guia (do Rock Rendez Vous), nasce a proposta de gravação de um álbum, com edição garantida pela Dansa do Som, a etiqueta ligada à mítica sala da Rua da Beneficência ao Rego.
Gravado «em prestações» (como se lê na capa interior) entre 1987 e 88, o álbum representa uma das mais incríveis aventuras do pop/rock português de então, num espaço que lança pistas tão díspares quanto bases electropop, fraseados rítmicos beirões, teclas do melhor plástico-pop e pontuais cenografias magrebinas (como em «Cortar Ou Cortar-se»)... Tudo isto devidamente «arrumado» numa lógica quase conceptual que concentrou na face A do vinil as canções do apregoado «neo-foleirismo» urbano e, na face B, três suculentas fatias de curioso e cativante paisagismo ensaísta.
O disco é dominado por teias de programações, linhas melódicas que nasceram de fragmentos e se foram juntando em momentos de ensaio e erro... A ideia de experimentar terá certamente presidido a todos os episódios de criação, conseguindo o disco um efeito de desafio à audição atenta de cada um que, anos depois, se detenha atentamente frente aos muitos sons, linhas e ideias que encerra. Nele participaram, além de Farinha Master, nomes como os de Pedro Barrento (programações), Zé Nabo (baixo), Ricardo Camacho (piano) e Rui Fingers (guitarra), entre outros.
Farinha Master e as suas palavras (sem travão nem filtro) servem depois de lógica de unidade entre experiências lançadas em diversos rumos estéticos. No todo, «Muito Obrigado» é um coeso manifesto de versatilidade pop onde o «kitsch» deve ser entendido como mais que a mera anedota para gargalhada imediata. O humor é franco e sólido, entendido sobretudo como recurso de estilo numa linguagem que, mesmo tecnicamente debilitada pelos recursos à sua disposição, não deixa de criar um pequeno concentrado de ideias que cativaram um pequeno culto e garantiram aplausos a um disco que, todavia, passou a Leste de muitas atenções.
Uma cassete, em 1989 («Desperdícios»), representou a única sucessão registada de «Muito Obrigado», tendo o grupo desaparecido depois de pontual actuação em 1993. Farinha formou, entretanto, os Angra do Budismo, projecto através do qual gravou «Transformação», em 2001.
N.G.

OCASO ÉPICO 
«Muito Obrigado»
Dansa do Som, 1988
Lado A: «Tinto If», «O Camelo», «Cafécucerto», «Da Beira Baixa à Extrema-Dura»; 
Lado B: «Adamastor», «Desoriental», «Cortar Ou Cortar-se»
Produção: Zé Nabo e Mário Guia

    




9.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (9)



DN - Diário de Notícias
02 Março 2002

Discos Pe(r)didos



Sinais dos tempos, o Portugal de finais de 70 vivia ainda os reflexos próximos da revolução. Na música era ainda notória a presença protagonista dos espaços de intervenção e afins, notando-se sinais de reacção apenas nas esferas de propostas mais ligeiras, que então começam a emergir. O rock vivia uma existência meio adormecida, sem Norte, com pontuais focos de agitação em aventuras próximas do som progressivo. Aventuras alheias às dinâmicas dos espaços de divulgação radiofónicos e televisivos, quase votando o tímido silêncio toda a força que eventualmente brotasse de um amplificador em ensaios de garagem.
Enquanto por aqui se ensaiavam as primeiras eleições livres da «era moderna», Londres e Nova Iorque acolhiam uma importante revolução musical que reflectia as angústias e limitações de uma nova geração de filhos de uma economia global desfavorável. Com um semelhante sentido de urgência, apesar das francas diferenças entre as manifestações em Nova Iorque (mais letradas e abraçadas pelos círculos intelectuais alternativos) ou em Londres (com origens num proletariado urbano culturalmente desfavorecido) o punk rompia os cenários da música feita teatro e negócio de meados de 70, e apresentava ao mundo uma nova forma de estar na música. Rude, rápida, viva, ansiosa, de concretização imediata, independentemente dos meios.
Apesar de pontuais faróis (um deles o fulcral programa «Rotação», de António Sérgio, na Rádio Renascença), o fenómeno ameaçava passar a Oeste do Cabo da Roca, já que nem a Phonogram (hoje universal) e Valentim de Carvalho (hohe EMI-VC) mostravam vontade de editar Sex Pistols, The Clash, X-Ray Spex...
Nos escaparates de algumas discotecas da baixa lisboeta surge, de um dia para o outro, uma compilação de capa a preto e branco, de «design» rude (onde não faltam alfinetes e lâminas de barbear). «Punk Rock / New Wave ‘77» era o título, editado pela desconhecida Pirate Dream Records... Com Zhe Guerra e Joaquim Lopes, António Sérgio havia formado a primeira etiqueta independente da indústria discográfica, destinada assim a divulgar os nomes do punk e new wave aos quais pareciam estar alheias as multinacionais do ramo. O trio regista a editora e licencia temas dos Sex Pistols, Skrewdriver, Motorhead, Eater, The Jam, London, The Rings, Generation X, The Radiators From Space, Warm Gun e Hideous Strenght, que logo reúne para esta compilação que cai no panorama nacional como uma pedrada no charco, decidida a representar e divulgar sons que ameaçavam escapar à atenção dos portugueses.
A pax lusitana é, entretanto, interrompida por uma acção judicial contra o disco, lançada pela Phonogram que acusa a editora de pirataria e afirma serem seus os direitos dos Sex Pistols. A Valentim de Carvalho despede, então, António Sérgio, que ali trabalhava emtão como promotor. A acção do director de programas da Rensacença, Albérico Fernandes, impede que semelhante cenário se repita no éter, que diariamente continua a receber as emissões de «Rotação». O julgamento prolonga-se até 1981, sendo os réus absolvidos sem que as acusações fossem provadas.
O disco, que teve uma tiragem de 500 exemplares, é hoje peça cobiçada nos circuitos de coleccionismo. Quanto Às multinacionais incomodadas com o «caso», apressaram-se a editar compilações e singles punk e new wave! A palavra tinha passado.
N.G.

VÁRIOS
«Punk Rock – New Wave ‘77»
Pirate Dream Records








7.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (8)


DN - Diário de Notícias

Discos Pe(r)didos


Lisboa, 1978. Os Tantra enchiam o Coliseu, José Cid apostava em «10 Mil Anos Depois Entre Vénus e Marte», os Petrus Castrus regressavam aos álbuns com «Ascensão e Queda»... O rock de alma sinfónica tentava borbulhar à superfície num tempo ainda dado a protagonismos nas esferas da intervenção política, suas sequelas e primeiras reacções opostas em domínios ligeiros...
Em espaços de ebulição no restrito circuito underground da capital, dois projectos encabeçaram então uma vaga de reacção ao sistema, assimilando a essência da revolução punk que varrera Londres em 76. São eles os Faíscas (de quem nasceriam os Corpo Diplomático), que acabam por não editar, e os Aqui d'El Rock.
Os Aqui d’EL Rock são uma banda nascida em filhos do proletariado urbano de 70, com uma crueza punk primordial no seu discurso, diferente dos Faíscas, filhos da classe média. A violência verbal é a arma primordial, e a seu favor pende ainda uma rodagem maior dos quatro elementos, em tempos conhecidos como Osíris, numa encarnação formal bem diferente. Com uma linguagem muito próxima das manifestações de raiz do punk londrino, os Aqui d’El Rock são o primeiro e, na absoluta verdade, o único grupo punk português a editar discos, já que os restantes praças do movimento que também chegaram ao registo discográfico o fizeram já em momentos das suas carreiras em que o punk havia já evoluído uma linguagem própria, ou no sentido da new wave (Corpo Diplomático) ou para um novo, e menos espartano, rock urbano, mais temperado (Xutos & Pontapés).
A estreia dos Aqui d’El Rock faz-se com o single «Há Que Violentar O Sistema», single que incluía «Quero Tudo» no lado B, duas canções que traduzem hoje a essência possível do punk português, fenómeno que viveu mais de boas intenções e desejos de mudança que de factos realmente consumados. A sua importância seria, sobretudo marcante ao nível da abertura de frestas na consciência de alguns divulgadores e editores, preparando, inconscientemente, o caminho para a revolução que assolaria o país musical em 1980.
Sem papas na língua e «speedados» (como se anunciam), desferem golpes no sistema, que violentam por uma música não sofisticada, directa. Todavia, estávamos em tempos de poucas atenções mediáticas por fenómenos corrosivos a um sistema que ensaiava uma ideia de democracia de facto, que só seria devidamente estabilizada (social e economicamente) depois. E excluindo timoneiros da divulgação como António Sérgio, a revolução punk ficou sem amplificação para o país real.
N.G.


AQUI D’EL ROCK 
«Há Que Violentar O Sistema» 
Metro-Som, single, 1978 
Lado A: «Há Que Violentar O Sistema»; 
Lado B: «Quero Tudo»








11.3.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (7)


DN - Diário de Notícias

16 de Março de 2002

Discos pe(r)didos



Porto, 1967. Numa cidade onde se fala de novas músicas e surgem pequenas novas bandas, uma destaca-se pelo apuro técnico dos seus elementos. O Pop Five Music Incorporated entra em cena com uma primeira formação na qual encontramos David Ferreira (teclas, viola, vozes... e não confundir com o actual «patrão» da EMI-VC, apesar do mesmo nome) Luís Vareta (baixo e vozes), Tozé Brito (baixo, viola e vozes, na altura conhecido como António Brito, hoje o «patrão» da Universal), Paulo Godinho (o irmão de Sérgio Godinho, nas teclas, viola e vozes principais) e Álvaro Azevedo (bateria e vozes).
Com uma sonoridade dominada pelos Hammond (tecnologia de ponta na música para teclas), os Pop Five depressa ganharam notoriedade conseguindo garantir a estreia discográfica em 1969, pela Arnaldo Trindade.
A abrir o disco, um convite à atenção para o espectáculo que vai começar, ao que se seguem as pancadas de Molière e... uma versão de «Jesus, Alegria dos Homens» de Bach! Era a mais evidente ousadia de um álbum que conseguia assim assimilar sementes de uma rebeldia característica das linguagens pop/rock que escapara até então a muitos dos grupos portugueses de 60, grande parte deles alinhados na facção limpinha, lavadinha e penteadinha, ao som de versões certinhas de canções e estéticas em voga em Londres e na Paris do yé-yé. A versão angariou os discursos de suspeita dos puristas da clássica, num momento em que o sonho de frestas de ruptura era natural em qualquer proposta pop/rock com os mínimos olímpicos de consciência estética.
O Pop Five Music Incorporated regista no disco uma série de outras versões, acabando, na verdade, por residir na leitura «livre» da peça de Bach o seu mais notável feito. As restantes versões apresentadas no disco mostram, mesmo assim, operações de transformação personalizada e tecnicamente apurada de canções como «Blackbird» dos Beatles, «To Love Somebody» dos Bee Gees, «Proud Mary» dos Creedence Clearwater Revival, «Fire» de Jimi Hendrix ou «Sour Milk Team» de George Harrison... Todas elas são ordenadas de forma a constituir uma peça virtual em tr~es actos («Soft», «Crescendo» e «Clímax»), com prelúdio e final («Hysterical»).
A sublinhar as qualidades interpretativas e instrumentais reveladas na gravação, o disco representa ainda um marco de invulgar consciência técnica para o Portugal de finais de 69, já que não só é gravado em som estereofónico como apresenta, creditado, o trabalho de um produtor (Fernando Matos), facto não frequente na época.
Prensado em Inglaterra, o disco mostra uma qualidade sonora de igualmente apurado requinte... Apurado é, entretanto, o valor que o disco atingiu nos circuitos do coleccionismo de vinil, podendo uma cópia usada (em boas condições), valer algo na casa dos 100 Euros.
Um ano depois da edição do álbum, a formação do Pop Five sofre modificações com as saídas de David Ferreira e Tozé Brito e entrada de Miguel Graça Moura, então com 22 anos, que terminara o curso de piano do conservatório. Segue-se uma inevitável alteração nas características do som e repertório. De lado ficam as adaptações de clássicos às linguagens rock e na berlinda é focada uma aposta na criação. Editam, em primeiro lugar, o single «Menina», ao qual sucede o genial «Page One» (tema do genérico do programa «Página Um» da Rádio Renascença), o ainda mais bem sucedido «Orange» e alguns outros 45 rotações. O grupo separa-se em 1972 sem registar um segundo álbum. Não está na altura de pensar uma antologia?
N.G.

«Pop Five Music Incorporated», LP, Orfeu, 1969
Lado A. «Overture», «Jesus, Alegria dos Homens», «Blackbird», «To Love Somebody», «Proud Mary», «Medicated Goo», «Mess Around»; Lado B. «Hush», «C’Mon Down To My Boat», «Fire», «Sour Milk Sea», «Can I Get A Witness». Produção: Fernando de Matos.











10.3.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (6)


DN - Diário de Notícias

16 de Fevereiro de 2002

Discos pe(r)didos



Nascida de uma amizade entre Miguel Esteves Cardoso e Pedro Ayres de Magalhães, a Fundação Atlântica apresentou-se, em 1983, como o primeiro exemplo de editora independente portuguesa capaz de traduzir o conceito das novas «indies» que haviam brotado da Inglaterra de meados de 70. A Fundação Atlântica recebeu, desde logo, o apoio incondicional de Francisco Vasconcelos, da Valentim de Carvalho, que assegurou assim o fabrico e distribuição dos discos. À equipa juntar-se-iam, logo depois, Ricardo Camacho, Francisco Sande e Castro, Pedro Bidarra e Isabel Castanho (Inha para os amigos), em casa de quem a editora conheceu morada oficial durante algum tempo.
Apresentada com um manifesto que fez história, a Fundação Atlântica deixou desde logo claro que ia aliar a edição de novos valores da música moderna portuguesa à representação local de discos de peso nos cenários alternativos de então. Pela Fundação Atlântica editaram os Xutos & Pontapés (single «Remar Remar»), estrearam-se os Delfins, a Sétima Legião, Anamar, Luís Madureira, as Clube Naval (êxito no Verão de 84 com «Professor Xavier»)... Os Duruti Column lançaram, através da Fundação, «Amigos em Portugal». E o lote de referências não ficaria nunca completo sem uma referência aos discos a solo de elementos dos Heróis do Mar, mais concretamente o single (também com edição em máxi-single) «Rapazes de Lisboa», de Paulo Pedro Gonçalves, e o máxi «Ocidente Infernal», de Pedro Ayres Magalhães.
Este disco, que assinalou, até hoje, a única aventura a solo do ideólogo dos Faíscas, Corpo Diplomático, Heróis do Mar e Madredeus, era apresentado, em 1985, como o primeiro de uma série de máxis instrumentais que o músico pretendia editar mas que, por razões que o destino traçou, acabaram por não acontecer nunca, ficando o projecto com uma ideia de continuidade por concretizar (quem sabe um dia? Não seria má ideia...).
O disco apresenta duas faixas instrumentais onde as ideias de paisagismo ambiental são vitaminadas por um conceito que o próprio Pedro Ayres Magalhães explica em texto publicado na contra-capa do máxi-single. «Janeiro de um ano qualquer. As espirais do fumo negro, avançam da margem sul para noroeste, quentes ainda do incêndio lento, que foi pouco a pouco consumindo as válvulas últimas, soltando a grande pressão. Das águas já tépidas do Tejo liberta-se um cheiro pegajoso misturado com o pó, acrescentado ao pavor. Os homens gastaram a terra, como quem quer devorar. O tempo cumpriu mesmo assim. Exposição dos quadros sonoros de Lisboa no último quartel do séc. XX, o ranger dos ferrolhos nas portas da Europa. Aquelas colunas...», escrevia sobre «Ocidente Infernal», tema título dominado por uma pulsação forte para guitarras, que rasgam uma melodia entre a contenção e o grito. No lado B, «Adeus Torre de Belém», sublinha novo retrato lisboeta, desta feita sob um conceito em duas partes, uma primeira feita de sons reais, captados na cidade (mais concretamente no Barreiro, em Dezembro de 84), uma segunda, de perfil quase minimalista pop, «sob os destroços duma metrópole afundada».
É possível encontrar aqui laços da finidade para com algumas intenções retratistas em pontuais aventuras dos Heróis do Mar mas, acima de tudo, e particularmente na atitude expressa no conceito e textos de apresentação, manifestam-se claramente já intenções, caminhos poéticos e ideários que tomariam forma, pouco depois, nos Madredeus. As fotos eram de Pedro Ayres e Miguel Esteves Cardoso; o design, de Jorge Colombo.
O «Ocidente Infernal», mesmo longe de representar o melhor de Pedro Ayres Magalhães, é uma peça de inegável valor histórico e, como muitos outros momentos registados pela Fundação Atlântica, justifica que a ideia de uma reedição em CD do acervo da editora, que já tarda.
Nuno Galopim

PEDRO AYRES MAGALHÃES «O Ocidente Infernal» Máxi-single, Fundação Atlântica / EMI, 1985 Lado A: «O Ocidente Infernal»; Lado B: «Adeus Torre de Belém» Produção: Pedro Ayres de Magalhães.







6.3.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (5)


DN - Diário de Notícias

20 de Abril de 2002

Discos pe(r)didos




No início dos anos 80, a explosão do que então se convencionou chamar por «rock português» apontou essencialmente as suas linhas de acção a um som pop/rock convencional (para o clássico trio eléctrico de guitarra, baixo e bateria), em alguns casos até em momentos de franco afastamento face ao que eram já as formas em exploração noutras capitais dos acontecimentos musicais de então. As electrónicas eram, ainda para alguns, ferramentas «bizarras», pontualmente utilizadas, muitas vezes ainda com aquela suspeita, muito «anos 70», que dizia que música com electrónica não era música... Balelas!
A verdade é que eram poucos os projectos que apostavam nos novos instrumentos electrónicos com claro protagonismo e projectos como, para citar alguns exemplos, os Da Vinci ou Ópera Nova, onde as «novas» teclas eram evidentes, tornavam-se alvo duplo de «maus olhados» de quem nem aceitava certas simplicidades das linguagens technopop (mas se fosse nos Depeche Mode ou OMD já «marchava»...) nem encarava de bom grado que fosse música digna desse nome toda aquela que resultasse de programações e sons sintetizados...
Num tempo de mau relacionamento entre a opinião musical e a música electrónica (com naturais excepções em mestres como os Kraftwerk, Yello, Yellow Magic Orchestra e outros visionários mais «unânimes»), a proposta de Tó Neto surge um pouco como a de um «outsider», que não se parece enquadrar nem na família do «rock português» nem no das esferas mais populares da criação, naturalmente fora também dos universos de experimentação mais vanguardista da electrónica...
Com 32 anos de idade, os últimos dez vividos em Portugal (onde chegara em 1973, vindo de Luanda), António Eduardo Benedy Neto contava já com um vasto historial de vivências musicais. Em Lisboa havia já desenvolvido estudos de música e jazz (na Academia dos Amadores de Música e no Hot Club de Portugal), tendo também experimentado já percursos de vida nos Estados Unidos e Reino Unido. Do regresso, em 1983, nasce uma proposta de música pop electrónica instrumental em nome próprio. E, como Tó Neto, assina pela Sassetti (pela qual acabaria por editar apenas um álbum).
«Láctea», o seu disco de estreia, resulta de uma «maratona» de 40 horas de estúdio, durante as quais o próprio Tó Neto é o único instrumentista em cena. A produção, de Eduardo Paes Mamede, assegura ao disco um som final limpo e directo , ago próximo do que eram as composições de alma pop dos álbuns «Equinoxe» e «Magnetic Fields» de Jean Michel Jarre, músico que começava a gozar de enorme fama internacional. De resto, muita da imprensa nacional logo tratou de apelidar Tó Neto como o «Jean Michel Jarre Português», numa comparação menos intencional que a de um Daniel Bacelar quando, valentes anos antes, se mostrava como o Pat Boone lusitano! Temas como «Odisseia», «Lisa» e «Cristal» são exemplos da dignidade da proposta pop electrónica de Tó Neto neste primeiro álbum, sendo então frequentes referências em programas de rádio (uma delas «virou» indicativo do «Círculo em FM» na Rádio Comercial) e inúmeros momentos de televisão.
O disco foi apresentado num espectáculo especial no Planetário Calouste Gulbenkian (preparado em conjunto com Máximo Ferreira), através do qual se sublinhava a face «futurista» de um álbum apontado a visões do cosmos (um tema então em voga). Apesar de alguma ingenuidade (inerente aos dias de juventude destas formas e rumos), o álbum de estreia de Tó Neto não deixa de ser uma referência de mais uma marca da diversidade de propostas que animaram a criação musical lusitana na aurora de 80. Nenhum dos seus três álbuns editados posteriormente voltou a ter o «peso» e interesse deste disco hoje quase esquecido.

TÓ NETO «Láctea» Sassetti, 1983 Lado A: «Odisseia», «Lisa», «Cristal», «África Blue»; Lado B: «D. Vagabundo», «Devoção», «Zuzu» Produção: Eduardo Paes Mamede






27.2.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (4)


DN - Diário de Notícias

19 de Outubro de 2002

Discos pe(r)didos



CARLOS MARIA TRINDADE Single, «Princesa», Vimúsica, 1982 Lado A: «Princesa»; Lado B: «Em Campo Aberto»

Quando o actual teclista dos Madredeus, Carlos Maria Trindade se juntou, em 1979, aos Corpo Diplomático, a sua carreira na música contava já oito anos de vida. Tudo começou em 1971, quando formou os Soft Thurd com Paulo Pedro Gonçalves. Algum tempo mais tarde muda-se para Inglaterra onde vive dois anos, regressando mais tarde para estudar. Em 1976 focaliza as suas atenções nas áreas da música contemporânea. Esta etapa de dedicação à música contemporânea, que culmina com a apresentação de peças suas nos Encontros de Música Contemporânea de 1978 termina, de certa forma, com a ligação aos Corpo Diplomático em 1979, onde assume o lugar de teclista.
Ao fim dos Corpo Diplomático segue-se a etapa Heróis do Mar banda que, de resto, herda grande parte dos músicos desse projecto fulcral da new wave lusitana de finais de 70.
Evolução directa dos Corpo Diplomático, os Heróis do Mar reflectem, contudo, uma mais evidente atenção para com as novas formas que então a pop britânica ensaiava a experimentava, denunciando fundamentalmente um tempo de deslumbramento pelos recursos que as novas tecnologias traziam à canção. Os sintetizadores ganhavam protagonismo e, com eles, o mesmo sucedia a prestação de Carlos Maria Trindade no som do grupo. Todavia, apesar do empenhamento na sua faceta pop/rock, Carlos Maria Trindade não fecha a ligação a outras músicas. Em 1980 é convidado a actuar no Festival de Bristol, onde se apresenta com um projecto.
A partir de 1981 os Heróis do Mar absorvem grande parte das atenções dos seus músicos. Mesmo assim, alguns discos a solo são editados, nomeadamente o single e máxi Rapazes de Lisboa de Paulo Pedro Gonçalves (em 1984) e o máxi single Ocidente Infernal de Pedro Ayres de Magalhães (1985). O primeiro dos discos a solo de elementos dos Heróis do Mar é, contudo, o single Pricnesa, lançado em 1982 por Carlos Maria Trindade.
Trata-se de uma importante experiência pioneira na área da pop electrónica, árvore de poucos frutos no Portugal de então, e com melhores exemplos precisamente neste single, assim como nos 45 rpm de estreia dos Ópera Nova, Da Vinci e António Variações. Princesa, a faixa que encontramos no lado A é uma forte canção pop com a condimentação característica do som electro pop da época, mas animada de uma identidade melódica mais exigente que a norma, não se afastando muito do que seria, um ano depois, a essência da alma do álbum Mãe, dos Heróis do Mar. Em Campo Aberto, a canção que encontramos no lado B é um caso igualmente sério, revelando algumas afinidades com alguns discos de Gary Numan da etapa 1979/81.
O single aterra nos circuitos em ano de crise no panorama pop/rock nacional, precisamente naquele momento em que os excessos de 1980/81 se transformam em pesadelos. Em tempo de maré adversa poucos se salvam, entre eles os Heróis do Mar com Amor. Princesa, que alguns meses antes poderia ter gerado um êxito de grande escala, acaba despercebido.
Nuno Galopim









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