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30.6.17
Dead Can Dance - Dossier - "Na Terra Dos Sonhos"
DNMAIS
Sábado, / Junho 2003
DEAD CAN DANCE
Na Terra Dos Sonhos
O lançamento de um ‘best of’ convida a um reencontro com
a música dos Dead Can Dance, projecto de Brendan Perry e Lisa Gerrard que
marcou pela diferença o panorama alternativo dos anos 80 e vincou a identidade
de uma das vertentes do som da 4AD.
Nuno Galopim
É uma música nova ou uma amálgama de músicas antigas? É world music ou pop/rock? As
questões não são novas e, na verdade, recorrentes sempre que os Dead Can Dance
se apresentam na berlinda. Ao reencontrar a sua memória, através de uma
selecção de temas apresentados em Wake, um best of que nos convida a
(re)descobrir a aventura sem tempo nem fronteiras da música deste projecto que
nos revelou Brendan Perry e Lisa Gerrard, estas questões e memórias saudáveis
dos dias de ouro da 4AD regressam à ordem do dia.
Banda de referência do catálogo da editora independente
britânica 4AD, os Dead Can Dance definiram, disco após disco, um percurso entre
o antigo e o contemporâneo, doseando tonalidades e sabores renascentistas,
trovadorescos ou clássicos, juntando aromas mediterrânicos, africanos, do Leste
europeu, do médio oriente, da Ásia. Entre canções de forma mais tradicional e
uma requintada tecelagem de ambientes, a música oferece uma ideia de sonho sem
tempo nem lugar, de apelo suave aos sentidos... E decididamente difícil de
traduzir por palavras.
Começaram por ser um colectivo alargado, na clássica
tradição da banda pop/rock, mas ao segundo álbum era já uma dupla, repartindo
entre si as responsabilidades de composição e interpretação. Brendan Perry
sempre foi a voz herdeira da tradição pop/rock alternativa, entoando formas
concretas. Por seu lado, a Lisa Gerrard desde cedo coube o papel da libertação
dos espartilhos da arquitectura vocal pop/rock, trabalhando ao longo dos anos
um registo de vocalização decididamente pessoal que muito contribuiu para o
definir de uma identidade característica nos Dead Can Dance.
OS PRIMEIROS DIAS. Tanto Lisa Gerrard como Brendan Perry
têm ascendência anglo-irlandesa, remontando o encontro de ambos aos dias em que
viviam em Melbourne (Austrália), em 1980. Brendan revelava então sinais de
contaminação pela revolução punk que mudara a face da música no hemisfério
Norte poucos anos antes. Lisa, por seu lado, educada e crescida no melting pot
cultural de um bairro de emigrantes oriundos de regiões mediterrânicas,
mostrava já uma evidente predisposição para abraçar os sabores «exóticos» das
músicas desses muitos vizinhos... Curiosamente, depois de estabelecida uma
amizade e traçado um desejo de futuro na música, passaram ambos pela cozinha de
um restaurante libanês em Melbourne, no qual lavaram pratos a troco de um sonho
de partida para Londres. Assim foi. Fizeram as malas, e na bagagem traziam já
as primeiras canções. Mal imaginando que os aromas que traziam das vivências em
Melbourne vinham já nas entrelinhas das intenções musicais. Entre essas
primeiras composições encontrava-se já o hoje mítico Frontier, resultado de uma
sessão de trabalaho baseada na improvisação, que agora é incluído no
alinhamento de Wake.
NA CASA DE IVO. Os Dead Can Dance aterram em Londres em
1982, sem horizontes nem projectos concretos, mas donos de uma insistente
vontade em fazer a sua música. Esses primeiros dias não foram fáceis, vivendo
Lisa e Brendan do dinheiro do subsídio de desemprego, habitando um magro apartamento
num bloco na Isles of Dogs, a Leste de Londres e recebendo, uma após outra, as
recusas das mais diversas editoras...
Uma das cassetes foi deixada nos escritórios da
recentemente criada 4AD, uma operação paralela da editora Beggars Banquet,
formada para desenvolver emergente talento, e sob a direcção de Ivo Watts
Russel, um antigo discotecário. A editora, que tinha assegurado a estreia em
álbum dos Bauhaus e que era então «casa» de nomes como os Modern English e Dif
Juz, encontrou na proposta de Perry e Gerrard uma das suas pérolas, definindo
assim, em poucos anos, uma identidade muito peculiar de som e imagem, através
de uma mão cheia de edições dos p´roprios Dead Can Dance, Cocteau Twins e This
Mortal Coil, este último um projecto transversal às bandas da editora, reunindo
a colaboração de membros de vários grupos sob a batuta do «patrão» Ivo Watts
Russel.
Depois de um primeiro álbum menos característico, a
música dos Dead Can Dance mostra então, ao longo da segunda metade da década de
80, um percurso de evolução linguística, atingindo a definição clara de
identidade em Within The Realm Of A Dying Sun, e assinando as obras-primas da
sua discografia nos seguintes The
Serpent’s Egg e Aion. O grupo mostrava já ter-se liberto dos rumos mais
clássicos da tradição da canção pop/rock, optando antes por um labor centrado
nos discorrer de ambientes e cenários. Estas marcas de identidade contribuíram
rapidamente para o definir de uma admiração generalizada entre uma população
jovem de horizontes musicais mais exigentes, vincando assim um culto que
abraçou não só os Dead Can Dance, como também os restantes parceiros da «via
ambiental» da 4AD.
Em poucos anos os Dead Can Dance tornam-se num nome com
exposição global. Quando chegam ao circuito universitário norte-americano em
inícios de 90 trazem na mala os sons de Aion, que fazem das actuações ao vivo
um palco de encontro de fontes diferentes de som, permitindo o encontro dos
sintetizadores com instrumentos de outras geografias e outros tempos. É de
então que data o seu período de aposta mais evidente na estrada, assinando
diversas digressões (uma delas mais tarde registada num DVD agora
disponibilizado entre nós).
Tudo muda na vida dos Dead Can Dance quando, nos anos 90,
Brendan Perry se muda para uma residência na Irlanda rural e Lisa Gerrard se
instala numa casa de montanha na Austrália. O afastamento não impede a
continuação do trabalho, mas determina uma progressiva separação de tendências
e intenções que acabará por determinar o fim do grupo e a inevitável continuação
dos percursos individuais, em carreiras a solo. Lisa Gerrard, depois de
trabalhos nas bandas sonoras de O Informador, Gladiador e Ali, é hoje, mais que
Brendan Perry, dona de nova carreira em ascensão.
DVD
Dead Can
Dance
«Towards
The Within»
4AD/MVM
Concerto: ***
Extras: ***
Originalmente lançado em vídeo por alturas da edição do
álbum ao vivo com o mesmo título, este documentário sobre a digressão de 1993
cruza excertos de uma actuação no Mayfair Theatre em Santa Monica (Los Angeles,
EUA) com momentos de conversa com Brendan Perry e Lisa Gerrard. O alinhamento
live apresenta inúmeros inéditos, tal e qual a versão em disco. O melhor do DVD
está, contudo, nos cinco extras nele incluídos, nada mais nada menos que
videoclips, dois deles (The Host Of Seraphim e Yulunga) extraídos do filme
Baraka (de Ron Fricke), que contou com a contribuição dos Dead Can Dance na
respectiva banda sonora. O histórico Frontier e The Protagonist surgem em clips
rodados por Nigel Grieson, uma das almas da 23 Envelope, companhia de design
que definiu a imagem da 4AD.
Dead Can
Dance
«Wake»
4AD/MVM
****
O segundo best of dos Dead Can Dance propõe, num CD
duplo, um percurso de memórias captadas ao longo da discografia, não esquecendo
o registo ao vivo de 1994. Para os admiradores em busca de novidade, Wake
inclui o mítico Frontier, a primeira maquete dos Dead Can Dance, gravada ainda
em Melbourne.
DISCOGRAFIA
A discografia dos Dead Can Dance está integralmente
reeditada em CD pela 4AD (representada entre nós pela MVM). O ‘best of’ agora
editado pode perfeitamente servir de cartão de visita a quem não conhecer a
obra do grupo, assim como assegurar um bom retrato completo da sua obra para os
mais velhos fiéis de 80 e 90. Wake é, todavia, um primeiro passo num processo
de (re)descoberta que, para obter uma representação mais completa da obra
deverá, depois, passar por discos-chave como Within The Realm Of A Dying Sun,
The Serpent’s Egg e Aion, os melhore desta «safra». O álbum ao vivo de 1994 é
um bom retrato das artes do palco de um grupo que nunca chegou a actuar entre
nós (o DVD Towards The Within acrescenta depois o complemento directo visual).
Para carteiras mais recheadas, a caixa de 2001 oferece uma belíssima visão de
conjunto. Completar, depois, com os discos dos This Mortal Coil e, porque não,
um olhar atento pelo catálogo da 4AD (ver página 14 desta edição).
1984. «Dead Can Dance»
Mais «convencional», inclui o EP Garden Of Arcane
Delights na edição em CD.
1985. «Spleen And Ideal»
Começa aqui o percurso de definição da linguagem muito
peculiar do grupo.
1986.
«With The Realm Of A Dying Sun»
Lisa e Brendan dividem o disco ao meio e cada um canta
num dos lados.
1988. «The Serpent’s Egg»
Este é um dos dois discos obrigatórios do grupo, na
plenitude da sua linguagem.
1990. «Aion»
Dominado por referências renascentistas, outro episódio
fundamental.
1991. «A Passage In Time»
A primeira antologia, pensada para apresentar o grupo nos
EUA e Canadá.
1993. «Into Labyrinth»
O retomar do percurso, em forma, mas sem a mesma surpresa.
1994. «Towards The Within»
Disco ao vivo registado em Los Angeles durante a
digressão de 1993.
1996. «Spiritchaser»
Derradeiro registo de originais, muda azimutes, para o
hemisfério Sul.
2001.
«Dead Can Dance 1981-1998»
Caixa antológica com 3 CDs e o DVD de Towards The
Within».
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Nuno Galopim,
Post-Punk
18.6.17
Kraftwerk - Dossier - "Os Homens-Máquina"
DOSSIER
KRAFTWERK
OS HOMENS-MÁQUINA
17 anos depois de ‘Electric Cafe’, os Kraftwerk regressam
com um álbum que não esconde o tempo em que nasce mas que se mantém firme na
linguagem clássica do grupo. Não se procurem ‘modernices’ despropositadas nem
invenções para enganar a idade. Os mestres sabem que ainda o são.
Nuno Galopim
Como tão bem o poderiam ter dito os Xutos & Pontapés,
apesar de diametralmente opostos em termos musicais, longa se tornou a espera
por quem, ano após ano, aguardava por novidades do quarteto de Dusseldorf que,
como poucos grupos na história da música popular, é fonte de um raríssimo
sentido de unanimidade, sendo-lhes atribuída uma espécie de carga matricial de
tudo o que a pop herdou de electrónico nos últimos 30 anos...
Em 2000, quando anunciaram o regresso ao activo para
então nos darem a conhecer a canção-tema «oficial» que haviam composto para a
exposição universal de Berlim – que simplesmente intitularam Expo 2000 – muitos
pensaram que talvez estivesse para breve a concretização de um há muito
aguardado álbum de originais, o sucessor de Electric Cafe que data já de...
1985!
Mas não foi ainda dessa vez que o grupo de quatro
elementos (dos quais se mantém apenas dois membros da formação «clássica», Ralf
Hutter e Florian Schneider) abriu as portas do secretismo ao qual há muito
envolveu o seu estúdio Kling Klang, que durante parte dos anos 90 serviu o
árduo e lento processo de digitalização de todas as fontes de som analógicas
usadas na extensa discografia lançada entre os anos 70 e 80. De resto, em The
Mix, álbum de remisturas lançado em 1991 e no site oficial do grupo (em www.kraftwerk.com) são visíveis marcas
desse trabalho de transposição de velhas fontes de som para os novos suportes
digitais. Tudo isto sem «alterar» a alma «tradicional» do som Kraftwerk.
Muitos foram os que, ao longo dos últimos anos,
defenderam a tese de que haveria uma suposta ansiedade instalada entre os
Kraftwerk, que lhes fazia temer a edição de algo que não acabasse considerado
ao nível da excelência da obra anterior. E aqui basta ouvir uma vez o novo e
belíssimo Tour De France Soundtracks para entendermos que estamos perante uma
obra que não só exala imediatamente as marcas dos seus autores, como sabe estar
à altura tanto de reencontros com exigências antigas e com novos desafios, até
mesmo novos sons, sem abusar, como em The Mix, dos «excessos» das novas
linguagens rítmicas. Aliás, a reduzida presença de «modernices» rítmicas, em
favor de um certo classicismo (mesmo com algumas excepções), acaba por ser uma
das mais notáveis conquistas deste regresso finalmente concretizado.
Apesar do «receio» ou «não vontade» em apresentar
qualquer material novo ao longo dos anos 90, nada impediu o grupo de, mesmo
depois dos abandonos de Karl Bartos e Wolfgang Flur, encarar a hipótese de
enfrentar plateias, o que aconteceu não muitas, mas suficientes vezes, ora
devidamente documentadas (como no vídeo de campanha Stop Sellafield), ora
registadas nas memórias dos felizardos que assistiram aos concertos em eventos
como, entre outros, o Sónar, em Barcelona...
Há cerca de dois anos, num gesto inesperado que ninguém
então ligou ao que acabaria por ser o futuro próximo do grupo, reeditaram em CD
o histórico EP de 1983 Tour De France, disco que assinalava um reencontro com
uma já antiga paixão pela ideia de viagem e dos percursos (basta evocar
Autobahn, isto é, auto-estrada, ou Trans Europe Express, um comboio),
adicionando ao som um elemento espantosamente novo e, oops, humano. Tour De
France fala do esforço e camaradagem entre ciclistas e baseia a sua estrutura
rítmica no arfar de quem pedala. Isto é, a máquina ainda está por lá como
elemento protagonista, mas a fonte de som prioritária e mais evidente ao longo
de toda a canção acaba por nascer do corpo humano. Contradição face a ditos do
passado ou, antes, o definitivo reconhecer do papel uno entre o homem e a
máquina, antes mesmo das invasões do mundo por «terríveis» cyborgs.
Tour De France Soundtracks tem tudo para ser um novo e um
absolutamente «tradicional» álbum dos Kraftwerk. Como em momentos de Trans
Europe Express e, sobretudo, Computer World e Electric Cafe, o álbum dedica
parte do seu alinhamento a uma espécie de ciclo que se estende por várias
etapas, aí uma evidente dedicatória à Volta a França em Bicicleta. Depois de um
prólogo (Prologue) entramos numa sequência de três etapas, que terminam com um
contra-relógio (Chrono), com uma continuidade de registos e soluções mecânicas
que quase nos fazem sentir a memória conceptual de um Autobahn... Todas estas
peças são novas, pontualmente captando um registo do Tour de France original,
que se serve em versão revista e melhorada a fechar o álbum, qual epílogo.
Esta nova versão de Tour de France corresponde ao único
momento não «inédito» do álbum, já que, ao contrário do que chegou a circular
como primeira notícia, este é mesmo um álbum de originais. Além da suite
dedicada à centésima Volta a França em Bicicleta (e ao próprio vigésimo
aniversário do original Tour de France), o álbum mostra quão fiéis a si mesmos
continuam a ser os «mestres» de Dusseldorf. Apesar de serem evidentes novas
estruturas e maquinarias rítmicas, as fórmulas melodistas e o modo de usar as palavras
seguem velhas e sábias fórmulas «robóticas». Evitando a contaminação do que não
é seu, como sábios professores que sabem que certos alunos levaram a outros
níveis os seus ensinamentos, mas que não têm o direito de agora as reclamar
para si, evitam recorrer a fórmulas downtempo, trip hop, techno ou aos blips
and blops tão na moda. Ideias que geneticamente descendem em alguns casos de
velhas bíblias escritas nas caves secretas dos estúdios Kling Klang, mas que
têm agora vida própria. Tal como vida própria continua a ter a estimulante
música dos Kraftwerk. Escutando temas como Vitamin, Aero Dinamik ou Titanium
verificamos quão perto estamos de presenciar um presente que sabe ser tão agora
como a herança do antes. Já em Elektro Kardiogramm e na sua continuação, em
Regeneration, reencontramos um sentido de melodismo que evoca os dias pop de
Computer World, embora seja evidente que tecnologicamente o discurso verbal e
musical seja do século XXI. As «máquinas», afinal, sabem bem onde e quando
estão neste momento de regresso...
Escutado por diversas vezes, e ultrapassando o efeito
viciante que o disco desencadeia sobre qualquer grande admirador do grupo sem
receios de neles encontrar hoje uma banda 17 anos mais velha que a que fez
Electric Cafe mas que formalmente não se afastou muito do seu rigor
linguístico, Tour de France Soundtracks revela-se um disco que facilmente
podemos colocar entre os melódica e espiritualmente mais tranquilos do
quarteto. Não é a resposta nunca dada ao álbum Techno Pop, que incidentes
passados impediram que alguma vez visse a luz do dia (nesse sentido, o tom
espartano da contenção melodista de Electric Cafe talvez seja até o que de mais
próximo dessa ideia perdida hoje podemos evocar).
Figuras de importância matricial na construção de uma
linguagem que explica muita da música dos últimos 30 anos, com a coragem de
evitar o chinfrim visual e eléctrico tão em voga nos inícios de 70, os mestres
estão de volta. Em primeiro lugar merecem respeito. E, em segundo, que se lhes
escute um álbum sóbrio e coerente, linguisticamente claro, esteticamente firme
no desejo de não mudar o que «não tem» de ser mudado. Regras são regras. E se
há grupo que as crie e siga à risca, esse grupo são os Kraftwerk!
A Paixão Pelo Ciclismo
Fruto de um interesse do grupo pelo ciclismo, ‘Tour de
France’ surgiu em 1983. Um acidente de Hütter impediu que o projecto fosse,
depois, mais longe.
A enorme popularidade angariada pelo grupo desde os
sucessos de finais de 70 fez dos Kraftwerk um motivo de desejo pop com valor acrescentado
na alvorada de 80.Contudo, contra o excesso de curiosidade, a resposta natural
do grupo acontecia pelo silêncio, pela sucessiva recusa em dar entrevistas,
pela cada vez mais discreta exposição. A dada altura há quase um regime de
black out imposto pelos próprios a si mesmos, num desejo de paz procurando no
«mui» secreto refúgio dos estúdios Kling Klang. Um silêncio coincidente com a
chegada ao número um em Inglaterra de uma reedição (com capa à Computer World)
do já clássico The Model... O silêncio é rompido apenas em 1983, com a edição
de um novo single, Tour de France, e o anúncio de um álbum que supostamente se
seguiria, que chegou mesmo a ter número de série mas acabou por nunca ser nem
gravado nem editado...
Tour de France reflectia já um crescente interesse do
grupo pelo ciclismo, desporto que se tornará entretanto actividade regular
entre os elementos do colectivo, sobretudo depois de terminada a cansativa
digressão que se seguiu a Computer World.
Chegados a uma meia idade na qual muito desperta um
renovado interesse pela preservação do corpo, os Kraftwerk encontraram no
ciclismo um desporto, sobre o qual Ral Hütter já nutria há muito um claro
interesse.
Em pouco tempo a discussão sobre esta nova fonte de
interesse passou da racionalização à acção, com encontros regulares num dos
clubes velocipédicos da cidade. Não só trabalhavam o corpo como se mantinham
juntos e, ao ar livre, asseguravam uma fuga pontual à relativa claustrofobia
dos estúdios onde só eles e os mais próximos amigos tinham ordem para entrar.
Ao mesmo tempo a actividade desportiva em conjunto permitiu-lhes criar um
uniforme negro (da cor da noite, isto é, das suas horas normais de trabalho em
estúdio) que todos usavam por igual. Enfim, a filosofia «kraftwerkiana» em
acção velocipédica!
Do interesse à concepção de uma canção que o reflectisse
o passo foi rápido e natural. Depois de temáticas de alta tecnologia nos anos
70, e de um olhar sobre os computadores na alvorada de 80, era o corpo humano,
em diálogo com a máquina, a fonte central de reflexão a quatro. Mais ainda,
depois dos motores dos carros e comboios, depois da radioactividade e dos
mecanismos das máquinas de calcular, a ideia era a de celebrar os músculos
humanos, o esforço físico. Tudo isto corresponde ainda a um momento histórico
de escalada de um certo discurso ecologista, que leva os próprios membros dos
Kraftwerk a trocar os seus belos Mercedes por carrinhos mais económicos.
A canção, em 1983, foi pensada segundo o som da
respiração e do pedalar, sugerindo em pleno as intenções conceptualizadas.
Infelizmente, um gravíssimo acidente de bicicleta de
Hütter não só atrasou o single como comprometeu um álbum de conceito de que
certamente esta canção seria uma peça central. Justiça feita agora, 20 anos
depois.
DISCOGRAFIA
Para uma discografia representativa, álbuns como
‘Autobahn’, ‘Radio-Activity’, ‘trans Europe Express’, ‘The Man Machine’ e
‘Computer World’ serão os essenciais. Os restantes completam apenas uma
discografia fundamental.
1969. ‘Tone Foat’
Originalmente assinado como Organisation, é um espaço de
improvisação.
1970. ‘Kraftwerk’
A «verdadeira» estreia demonstra ainda um predomínio do
ensaísmo.
1971. ‘Kraftwerk 2’
Apesar da continuidade, em Kling Klang surgem saudáveis
pistas novas
1973. ‘Ralf & Florian’
Momento de quase ruptura com o passado e desvio para o
melodismo
1974. ‘Autobahn’
O primeiro clássico, com uma aproximação à ideia de
canção pop!
1975. ‘Radio-Activity’
Novo registo conceptual, insiste na procura da linguagem
da canção pop.
1977. ‘Trans Europe Express’
De grande importância histórica futura, definiu uma
linguagem europeia.
1978. ‘The Man Machine’
A obra-prima da pop electrónica é a base da música dos
últimos 25 anos.
1981. ‘Computer World’
Novo depoimento «conceptual», centra-se na relação com o
computador.
1986. ‘Electric Cafe’
Em vez do «abortado» Techno Pop, um disco minimalista e
experimental.
1991. ‘The Mix’
Uma revisão da matéria dada à luz das emergentes corrente
rítmicas.
1998. ‘The Best Of Kraftwerk’
Editado apenas no Japão, um simples apanhado de clássicos
para recordar.
1998. ‘Concert Classics’
Um dos dois discos live do grupo, esta ainda antes da
chegada de Bartos.
1999. ‘Autobahn Tour’
Gravado na mesma digressão, um documento da era anterior
à da «fama».
2000. ‘Expo 2000’
A canção oficial da Expo de Hannover surgiu em vários
EPs, com remisturas.
PARA LÁ DA DISCOGRAFIA
LEITURAS E CONSULTAS
LIVROS
Bussy,
Pascal: ‘Kraft-werk: Man Machine And Music’
S.A.F.
1993
Barr,
Tim: ‘Kraftwerk – From Düsseldorf To The Future (With Love)’, Telbury Press,
1998.
Flür,
Wolfgang: ‘Kraft-werk: I Was A Robot’, Sanctuary 2000
HOMENAGENS E TRIBUTOS
Uma banda com o peso histórico e matricial de uns
Kraftwerk só podia gerar uma série de compilações de tributo. O curioso é que,
além dos muitos tributos que existem no mercado, dois discos de autores
concretos lhes dedicam atenção protagonista. Um deles é ‘Possessed’, que o
Balanescu Quartet gravou em 1992, álbum sublime e referencial que assume uma
abordagem por um quarteto de cordas à música destes quatro alemães. Igualmente
‘estranha’ e diferente foi a homenagem de Senor Coconut em ‘El Baile Alemán’,
transformando as canções dos Kraftwerk em temas conduzidos por ritmos
latino-americanos. Além destes dois discos temáticos abundam no mercado os
álbuns-tributo aos Kraftwerk, do já histórico ‘Trans-Slovenia Express’ com
bandas balcânicas e todo um extenso rol de propostas oriundas dos mais diversos
cantos de actividade musical electrónica. Afinal, mestres são mestres e sabem
ter descendência!
SITE OFICIAL
Vale a pena espreitar, com tempo, o site oficial dos
Kraftwerk, em www.kraftwerk.com.
Seguindo uma lógica de interactividade, o site convida à «visita» a várias
canções que fizeram história, muitas delas permitindo ao visitante a hipótese
de criar as suas versões, quebrar esquemas rígidos, interferir. Podemos, por
exemplo, alterar as sequências de efeitos em ‘Boing Boom Tchak’, somar melodias
aleatórias em ‘Pocket Calculator’ ou fazer dançar os quatro robôs em ‘The
Robots’... O grafismo que acompanha cada canção respeita capas e motivos dos
originais.
N.G.
15.5.17
Coleccionismo De Discos - Dossier -
DIÁRIO DE NOTÍCIAS
21 DE SETEMBRO DE 2002
DOSSIER COLECCIONISMO
DISCOS E DISCOS AOS MONTES
Filmes como «Alta Fidelidade» de Stephen Frears e «Ghost
World» de Terry Zwygoff» mostraram recentemente, nas salas de cinema, histórias
em torno de coleccionadores de discos. Mas em Portugal eles também existem São
muitos. E todos certamente passarão, na próxima semana, pela Mega Feira do
Disco, na Gare do Oriente.
Nuno Galopim
Porque colecciona discos? Pelas mesmas razões pelas quais
se colecciona selos, moedas, modelos de automóveis, canecas, porta-chaves ou
vacas em barro? Talvez sim e talvez não. Como qualquer outra colecção, os
discos têm o seu mundo próprio, passível de ser visitado e admirado a diversos
níveis, em função das preocupações de quem os compra, reúne e ouve. Como em
todas as colecções, cada qual reúne as peças consoante os seus interesses e
objectivos. Por artistas, por épocas, por temas, até mesmo pelas capas.
O coleccionismo de discos existe em Portugal enquanto
prazer individual desde que há vinil. Mas nos últimos anos, com o aparecimento
de algumas lojas essencialmente dedicadas ao disco de colecção e a entrada em
cena de um calendário regular de feiras (sobretudo em Lisboa e em Cascais),
aumentou significativamente o número de coleccionadores e as mais incríveis
temáticas coleccionistas. «Há quem coleccione aquelas capas de raparigas
bonitas, em estados mais ou menos despidos. As capas dos anos 50 eram muito
sugestivas», explica ao DN Victor Nunes, da loja Discolecção, uma casa pequena,
mas muito confortável, forrada a madeira e álbuns e singles de Tim Buckley,
David Bowie ou Sérgio Godinho, na qual é raro entrarmos sem que lá esteja uma
ou mais outra cara habitual, fazendo dali uma espécie de ponto regular de
encontro. Coisa, de resto, frequente nas lojas de discos de colecção aqui ou
noutro lugar.
Victor começou a coleccionar discos aos 14 anos, e foi
acumulando-os, com a «avidez de ter coisas sempre diferentes para ouvir». O seu
primeiro disco foi Made In Japan dos Deep Purple, mas não esconde grande paixão
pela música de David Bowie, de Marc Bolan, Alex Harvey e, descoberto mais
tarde, o rock alemão. «No progressivo nunca entrei muito. Cheirava-me a
pretensioso. Depois entrei no jazz e ultimamente estou mais na música
contemporânea, embora reconheça que não percebo nada. Ainda estou a começar»,
completa... Victor Nunes, todavia, não se considera um verdadeiro
coleccionador, já que defende que um cloleccionador é aquele que procura apenas
os discos de 45 rotações: «Quem junta LPs faz apenas um amontoar de discos,
mesmo que tenha as discografias completas de várias bandas ou cantores». Para o
dono da Discolecção, a verdadeira colecção faz-se em vinil, apesar de aceitar
que o CD possa, também, ser coleccionável. «Há determinadas edições que podem
ser coleccionáveis. Edições pequenas, como a primeira do Bowie, por exemplo. E
à medida que vai avançando a tecnologia, alguns CDs tornam-se coleccionáveis»,
defende.
Opinião contrária tem Custódio Simão, o dono das lojas
Jukebox, para quem há dois tipos de coleccionador: «por um lado aquele que quer
todos os discos de um determinado artista ou, por outro, o que procura todos os
discos de uma determinada época, seja os anos 50 ou 60... Ou estilos»,
independentemente do formato, mas sem o CD por perto. «Nos singles há mais
acesso ao coleccionismo porque as capas, sendo mais e mais diferentes, permitem
isso mesmo». Custódio começou, muito novo, a comprar discos dos Herman’s
Hermits e dos Beatles. «Queria as edições originais. Comprei cada vez mais e
cheguei a um ponto em que não tinha mais capacidades financeiras. Comecei então
a negociá-los», recorda. Hoje tem na Jukebox lisboeta (perto de Santa Apolónia)
um espaço onde o vinil é rei, com uma área de consulta geral e uma, mais
restrita, forrada a peças tão incríveis como o primeiro álbum de Bowie,
clássicos de Gainsbourg, Durutti Column e outros. Mas é logo à entrada que se
constata que entramos numa loja especial. Se olharmos para a parede entre o 130
e o 132 da Rua do Jardim do Tabaco vemos, expostos, discos de discursos de
Salazar e Marcello Caetano, registos áudio do 25 de Abril, um álbum do Papa ou
raridades de Amália.
O COLECCIONADOR PORTUGUÊS
O rock português dos anos 60 é, segundo Victor Nunes, uma
colecção «muito interessante, toda feita de EPs» (isto é, discos de 45 rotações
com duas faixas de cada lado). Igualmente frequente é a colecção de prensagens
de discos dos anos 60 (sobretudo os EPs, com capas diferentes e com valor nos
circuitos internacionais). «A colecção portuguesa de EPs é uma das melhores do mundo»,
adverte Victor Nunes: «Houve capas portuguesas lindas, mas sem o verniz usado
nas capas francesas... As pessoas não tinham cuidado e aquelas cores foram-se
esbatendo muitas vezes. As editoras portuguesas, na altura, não apostavam muito
na qualidade», explica. E continua: «Os LPs eram caros e, em Portugal, nos anos
60, as pessoas compravam essencialmente EPs... Por isso faziam-se muitos EPs. E
as edições, como têm capas diferentes e, por vezes, alinhamentos também
diferentes, têm valor lá fora. Portugal teve EPs do Jimi Hendrix, coisa que não
houve em mais lado nenhum! Até os Jethro Tull... Têm quatro EPs em Portugal!».
Ao rock português de 60 e aos EPs pop/rock Custódio Simão
acrescenta ainda as frequentes colecções de Amália Rodrigues, de nomes ligados
«À música de intervenção» (como José Afonso, Sérgio Godinho, Luís Cília) e, do
panorama internacional, «em primeiro lugar os Rolling Stones, logo depois os
Beatles e os anos 60 e 70 em geral, quer nas prensagens portuguesas, como nas
edições originais». Nesse momento olha para a sua direita e, na parede da loja,
aponta o dedo a um raríssimo LP de estreia de David Bowie, na edição original
da Deram Records (1967). «Muitos dos coleccionadores têm entre 30 e 45 anos. Os
mais novos procuram, sobretudo, heavy metal», completa o dono da Jukebox, que
continua: «actualmente colecciona-se também bastantes discos da Eurovisão. Era
uma coisa que antes se via, principalmente, nos países nórdicos. E agora chegou
cá. Não atinge é valores muito elevados».
Francisco Dias, da Neon Records, tem 27 anos e
colecciona, sobretudo, vinil de punk rock e hard rock dos anos 70. «Cresci com
o vinil, a vasculhar nas lojas todas», recorda, explicando a sua opção. De
resto, antes de ter loja, nos dias em que trabalhava apenas por mail order, só
lidava com vinil. Na sua loja, com características diferentes, tem um público
essencialmente entre os 18 e 30 anos, e com uma opção clara pelas áreas do
rock’n’roll às quais se dedica a Neon Records. O espaço é pequeno, mas os
posters e capas que decoram a loja, no andar superior do Centro Comercial
Portugália, criam o ambiente que define as opções estéticas. Aqui não se serve
apenas o coleccionador, mas o consumidor de rock em geral, especialmente o que
opta pelo vinil.
Ao procurar algumas características do coleccionador
lusitano verificamos que, contra hábitos de outros países, o português não
gosta de company sleeves (isto é, discos de 45 rotações sem capa, apenas
guardados em saquetas de papelão com o selo da editora). «Só mesmo os mais fanáticos
coleccionadores dos Who, dos Beatles ou Stones procuram esses discos entre nós.
Algumas dessas edições, sobretudo as bandas psicadélicas dos anos 60 têm enorme
valor», sublinha Victor Nunes.
Apesar de valiosos e coleccionáveis, sobretudo as edições
de Amália Rodrigues, de Elvis Presley e outros nomes do rock’n’roll, os discos
de 78 rpm são raramente encontrados no circuito do coleccionismo de discos. Os
antiquários asseguram geralmente este segmento «pré-histórico», mas muito
cativante, de algumas colecções.
OS LOCAIS DO CRIME
A Discolecção surgiu, nos anos 90, meio escondida nas
galerias do Hotel Amazónia. «Era uma loja do Dr. Gamito, um homem que foi
pioneiro neste negócio. Quando toda a gente já não acreditava no vinil, ele
abriu a loja, à qual aderiram logo os fanáticos do vinil», recorda Victor
Nunes, que ficou depois com a loja, que depois se mudou para o Centro Comercial
Paladium e, desde há poucas semanas, mora agora nas Escadinhas do Duque. «Isto
não é um grande negócio, mas é um prazer e vai funcionando. Dá para pagar as
contas», explica. Por seu lado, Francisco Dias, da Neon Records, explica que «a
loja vai aguentando», e apresenta um mail order organizado na Internet, bem
como a expansão da sua actividade a uma distribuidora.
Custódio Simão, da Jukebox (Lisboa e Pinhal Novo),
acrescenta que há «um pequeno mercado. Comparativamente ao resto da Europa
somos fracos, mas há 20 anos não havia aqui mesmo nada. Hoje já há um suporte
mínimo para se poder fazer uma colecção. Há um embrião...». O recente
aparecimento das lojas e a regularidade das feiras tem sido motor para o aparecimento
de muitos novos coleccionadores: «Nunca pensei que atingíssemos o estado em que
estamos actualmente», confessa.
As lojas de discos de colecção, apesar da frequente visita
de forasteiros de ocasião, acabam inevitavelmente, como em pequenos bares, por
criar uma espécie de família de clientes habituais. «Há pessoas que são
residentes da loja, e com elas discuto as músicas, os músicos, a subjectividade
que existe nisso... Às vezes fala-se também de política», diz Victor Nunes. «Há
quem aqui venha por vezes só para ver e ouvir discos e conversar um bocado. Os
clientes tornam-se amigos ao fim de um certo tempo, e depois há pequenas
histórias a contar», acrescenta Custódio Simão. Todavia, fique claro que não
são só os coleccionadores quem visita as lojas de vinil antigo. Muitos músicos,
em busca de sons para samplar, procuram também raridades ou bizarrias entre
peças esquecidas.
Muitos destes clientes «habituais» chegam a procurar,
anos a fio, um disco que têm como peça a conseguir por tudo... «Ainda há dias
um cliente conseguiu aqui um disco que há muito procurava, e ficou tão contente
que andou a passear o disco por Lisboa», revela Victor Nunes. Destas e outras
histórias vivem as tardes nas lojas de discos de colecção. Fala-se da vez em
que apareceu este disco, ou aquele... «Do primeiro disco de Fausto tive apenas
duas cópias em 20 anos... É muito raro... Dos Pop Five tive umas sete cópias»,
recorda Custódio Simão.
Sem fornecedores nem uma grande rede de fábricas, apesar
de haver ainda algumas editoras especializadas a produzir discos em vinil (quer
novas edições, quer, sobretudo, reedições de clássicos com grande qualidade
técnica), as lojas de discos de colecção têm o seu modo muito próprio de
procurar matéria-prima. E, muitas vezes, é de particulares que chegam reforços
para os escaparates das lojas de discos de colecção. Todas elas vendem, compram
e trocam discos. «Há discos que não têm interesse, sobretudo os de artistas que
não continuaram e as pessoas não se lembram deles. Esses não têm valor»,
reforça Victor. «Além dos particulares, há profissionais que procuram discos
entre particulares e depois os vêm vender», revela Custódio Simão.
A Feira
3ª Mega Feira Internacional do Disco (IWT)
27 a 29 de Setembro, Lisboa
De 27 a 29 deste mês decorre, na Gare do Oriente (Parque
das Nações, Lisboa) a terceira Mega Feira do Disco. Será a maior de sempre das
feiras de disco de colecção em Lisboa, contudo com uma embaixada internacional
de peso. Entre os expositores internacionais estão já confirmadas as presenças
da Beewax Records (japoneses especializados em prensagens japonesas dos anos
60), Record Palace (holandeses especializados em prensagens raras dos anos 60),
Let It Rock (franceses, especializados em Bowie e Rolling Stones), JBL Mail
Order (franceses, especializados em 45 rpm caros e CD singles), Big Beat
Records (franceses, especializados em anos 50 e 60), Malaga Records (espanhóis,
especializados em álbuns dos anos 70), Sitar Discos (espanhóis, com raridades
generalistas), Scratch Records (alemães, especializados em anos 70 e 80),
Timeless Records (alemães, especializados em rock progressivo), Storm Bringer
Records (alemães, especializados em Deep Purple) e Straub Records (franceses,
generalistas). O facto de haver especialidade nestes vendedores não exclui que
alguns não apresentem material diferente, em outros formatos e de outras
épocas. Haverá representação das duas lojas de coleccionismo portuguesas
(Jukebox e Discolecção), de editoras (como a Música Alternativa, MVM e
Sabotage), e inúmeros particulares nacionais. Esperam-se perto de 50 feirantes
neste certame.
AS LOJAS
DISCOLECÇÃO
Lisboa: Escadinas do Duque, 17-A Tel: 21.3471486
Recentemente instalada neste novo espaço, é uma loja
pequena, mas de ambiente convidativo e música em constante rotação. Com um
stock apenas em vinil, a Discolecção apresenta uma oferta diversificada de
títulos, sobretudo no formato de álbum (apesar de ter também singles e EPs).
Pop/rock de 50 a 90, indie, portugueses, bandas sonoras, jazz e clássica...
Preços variados, mas sem sustos, salvo em raridades maiores, que frequentemente
aparecem. Compra e vende.
JUKEBOX
Lisboa: Rua do Jardim do Tabaco, 130-132 Tel: 21.8869072
Pinhal Novo: Rua Ferreira de Castro, Lt 180 R/C Dto. Tel:
21.2385289
Com o mote «from Presley to punk», as lojas Jukebox
apresentam a mais vasta selecção de discos de colecção entre nós. Apesar de
vender CDs, a loja é claramente apontada ao disco de colecção, com aposta nas
áreas de música portuguesa, pop/rock de 50 a 90, indie, heavy metal e punk. Boa
selecção de 45 rpm, sobretudo portugueses. Compra e vende.
NEON RECORDS
Lisboa: Av. Almirante Reis, 113, Centro Comercial
Portugália, Loja 325 Tel: 96.2363982 Email: neonrecords@hotmail.com
Loja especializada em vinil e CD de rock & roll,
surf, psychobilly, garage, punk, hardcore, metalcore... Apresenta ainda uma
selecção de vinil usado em diversas áreas pop/rock de 60 a 80, boas propostas
na área do gótico, speed, thrash, death metal, industrial e diversas outras
expressões alternativas. Aos quatro anos de vida, esta aposta de Francisco Dias
tem o seu público e respira boa saúde. Recentemente abriu uma distribuidora, a
Sleazy Records. Compra, vende e troca.
OUTRAS
Além destas lojas especializadas em vinil, podem procurar
ainda discos nas lojas Carbono (Lisboa, Almada, Amadora), King Size (Lisboa) ou
Jo Jo’s (Porto).
BOLSA DE VALORES
1964. JOSÉ AFONSO «Baladas e Canções» (Ofir): Álbum de
estreia, reeditado em CD pela EMI-VC, mas com capa diferente. A capa original é
um dos trunfos desta edição, que pode valer entre 20 a 35 euros.
1969. FAUSTO «Fausto» (Philips)
Extremamente raro, sem reedição em CD, o álbum de estreia
de Fausto, gravado por este às escondidas dos pais, pode valer entre os 75 e
100 euros.
1968.
POP FIVE MUSIC INCORPORATED «A Peça» (Orfeu). Uma epopeia feita de
versões é um disco relativamente raro, ainda sem reedição em CD. Pode valer
entre 60 e 75 euros.
1969. FILARMÓNICA FRAUDE «Epopeia» (Philips ou Fontana).
Há duas edições deste magnífico álbum. A original é extremamente rara. A
segunda poderá valer de 60 a 100 euros.
1970. QUARTETO 1111 «Quarteto 1111» (Valentim de
Carvalho). É um dos mais interessantes discos do rock português. Foi reeditado
em CD, mas o vinil pode valer de 80 a 100 euros.
1971. AMÁLIA RODRIGUES «Cantigas de Amigos» (Valentim de
Carvalho)
Disco centrado na poesia medieval portuguesa, com Ary dos
Santos e Natália Correia. Sem reedição em CD, pode valer entre 30 e 50 euros.
1973. PETRUS CASTRUS «Mestre» (Guilda da Música). Um dos
mais raros álbuns portugueses, com procura internacional, e sem reedição em CD.
Pode valer mais de 150 euros.
1978. TANTRA «Holocausto» (Valentim de Carvalho). O
segundo álbum dos Tantra foi recentemente reeditado em CD. O vinil, é difícil
de encontrar, e pode valer entre 30 e 35 euros.
1979. JOSÉ CID «10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte»
(Movieplay)
Reeditado em CD em 94 tem grande procura no circuito do
rock progressivo. Pode valer de 75 a 100 euros.
1979. CORPO DIPLOMÁTICO «Música Moderna» (Nova). A
pré-história dos Heróis do Mar, ainda sem reedição em CD. Sem o single
promocional pode valer entre os 20 e 50 euros.
COLECÇÃO DE SONS
Cada coleccionador tem a sua mania. Luís Pinheiro de
Almeida quer ter todos os discos dos Beatles, Heitor de Vasconcelos só compra
vinil e João Afonso pede autógrafos aos seus músicos preferidos.
Maria João Caetano
Têm as casas repletas de discos e, mesmo assim, continuam
a comprar mais porque, explicam, uma colecção nunca está completa. Três
coleccionadores muito diferentes mostram-nos as suas raridades.
LUÍS PINHEIRO DE ALMEIDA
Luís Pinheiro de Almeida tinha 11 anos quando o pai lhe
ofereceu o seu primeiro disco: a italiana Nilla Pizzi a cantar um dos temas do
Festival de San Remo. «Os discos eram caríssimos», recorda. «Só ganhava um no
dia dos anos ou no Natal». Para combater esta falta, Luís e os amigos do Liceu
de Coimbra tinham uma espécie de clube: «como só um é que tinha dinheiro, ele
comprava os discos e nós reuníamo-nos todos para os ouvir debaixo de uma
oliveira com o gira-discos portátil». Depois, o precioso disco ia rodando entre
o grupo e foi assim que descobriram Petula Clark e os Shadows, Cliff Richards e
todos os outros êxitos da sua época. Em Novembro de 1963, foi-lhes revelado um
segredo. Foi lançado o EP português dos Beatles, Do You Want To Know A Secret,
que trazia outro tema fantástico – She Loves You – e ainda I’ll Get You e Twist
and Shout. «Foi um marco», reconhece Luís. Um amor para a vida.
Licenciado em Direito, jornalista na área da justiça e da
política, sempre com uma perninha na música (foi colaborador do Blitz, fez
rádio), na juventude Luís coleccionou um pouco de tudo – papéis de rebuçados,
botões, caricas, pratas de chocolates – mas a única colecção que ainda hoje,
aos 55 anos, continua a alimentar, é a de discos. «Mas não sou um profissional,
não tenho muito espírito de coleccionador», desculpa-se. Apesar disso, neste
momento tem 30 mil discos (mais ou menos metade em vinil e metade em CD), todos
numerados e registados na base de dados pessoal – demorou dois anos a inserir
todos os dados no computador! É que Luís é um coleccionador com método. Com o
apartamento literalmente forrado de música, sabe sempre onde está cada uma das
suas preciosidades. Todos os álbuns de vinil estão guardados em capinhas de
plástico transparente, todos os discos mantêm a etiqueta do preço e, às vezes,
outro tipo de informações (data de compra, quem ofereceu, onde foi comprado,
etc.). Com a mesma paciência com que, em jovem, se entretinha a passar a
escrito, palavra por palavra, todas as emissões do «Em Órbita» (programa do
Rádio Clube Português), Luís Pinheiro de Almeida tem pastas recheadas de
recordações musicais, onde os Beatles têm o papel principal: recortes de
jornais e revistas; bilhetes de concertos; fotografias tiradas no Strawberry
Fields de Nova Iorque ou no Cavern de Liverpool; porta-chaves, canecas,
canetas, livros, álbuns e o que mais houver para coleccionar. «Dos Beatles
tenho que ter tudo», explica. Todos os álbuns e singles, editados em todos os
países, as diferentes versões das músicas (das mais banais às mais estranhas),
os especiais, as colectâneas, as homenagens, as aventuras a solo de cada um
deles. Procura as raridades e, apesar de não saber exactamente o valor dos seus
discos, sabe que um dos mais preciosos será certamente a primeira edição do
Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – uma autêntica raridade, com capas
interiores ilustradas.
Além dos Beatles e dos «afilhados» destes, os Oasis, Luís
Pinheiro de Almeida ouve e compra um pouco de tudo (tem quase tudo de Neil
Young ou dos U2); embora com o «coração partido», está a comprar em CD os
discos que antes tinha em vinil; insiste em comprar os discos da sua juventude
e ainda tem mais duas «pancadas»: discos de Natal e discos de futebol (hinos de
clubes, temas interpretados por futebolistas). «Não consigo explicar mas não
consigo resistir», diz. Muitas das coisas encontra-as na Internet, método que
considera rápido e barato. «Além disso, muitas vezes até posso ouvir o disco
antes de o comprar», explica.
O seu maior orgulho? Um disco que parece de papel. Os
Beatles a cantar Everywhere It’s Christmas numa edição especial para o clube de
fãs. «Não deve ser o mais valioso mas é muito raro, o Paul McCartney ficou
maluco quando o viu, queria comprá-lo». Impossível, claro. «Nunca vendi um
disco na minha vida, raramente empresto e só às vezes troco.»
HEITOR DE VASCONCELOS
Heitor de Vasconcelos não se lembra qual foi o primeiro
disco que comprou: terá sido dos Beatles ou dos Yes? Mas sabe que até 1984
nunca tinha comprado um 45 rotações. Não simpatizava com o formato. Um dia,
regressou a S. Pedro do Sul, a sua terra, visitou o café onde passou parte da
juventude e encontrou a juke-box onde costumava gastar várias moedas de dez
tostões para ouvir sempre o mesmo disco: Ai Hana, de Paul Anka. Os discos com
que tinha dançado e namorado estavam para ali, ao abandono, e Heitor não lhes
resistiu e quis trazê-los para sua casa. «Todas as colecções começam assim, por
motivos afectivos», explica. «Queria regressar à meninice, talvez não quisesse
envelhecer». Nessa altura, Heitor ainda não era um coleccionador. Foi buscar os
discos antigos do pai, comprava o que lhe aparecia. «De repente dei por mim muito
disperso. E, depois, olho para o mercado internacional e tento perceber como é
que eu posso concorrer com os outros coleccionadores, onde é que eu poderia
marcar a diferença? Compreendi, então, que era nos discos portugueses ou
editados em Portugal.»
Estava definido o principal critério. Outro se lhe
seguiu: agora, Heitor de Vasconcelos já prefere os 45 rotações ao grande
formato: «O EP tem um charme que os LPs não têm. Por um lado, condensa os
êxitos, são apenas quatro músicas. Por outro, é o formato habitual da
fotografia e cria-se uma estética destas capas, há coisas fantásticas.» Heitor
tem mais de oito mil desses pequenos discos, em 45 rotações (75 por cento dos
quais com prensagem portuguesa) e cerca de quatro mil em formato LP. Os discos,
guardados em álbuns próprios, arrumados em estantes ou empilhados pelo chão,
recheiam a sua pequena «sala de música», onde não tem nenhum leitor de CDs
(porque não precisa) mas continua a ter todo o prazer com o acto de colocar um
disco no prato e, com uma precisão cirúrgica, fazer mover a agulha até à faixa
pretendida.
Nesta fantástica colecção, Amália é a rainha com mais de
500 discos. «Eu nem sequer gosto muito de fado mas a Amália é uma coisa
diferente, não é só o fado, é tudo. Era a maneira como cantava e era o facto de
ser muito fotogénica e ter umas capas geniais. É uma colecção especial.» No
gira-discos de Heitor de Vasconcelos, Amália Rodrigues canta em vários formatos
(até no raro 78 rotações) e em edições do Japão, da Turquia, do México, do
Brasil, dos Estados Unidos, da França, do mundo inteiro. Mas há mais. Heitor de
Vasconcelos orgulha-se de ter praticamente todos os discos do pop-rock
português e ainda todos os discos estrangeiros prensados em Portugal. Em 45
rotações, claro.
«Pode-se ter muitos discos e não se ter uma colecção»,
explica. «Uma colecção tem de ter uma coerência.» Ao contrário de Luís, Heitor
não tem qualquer ligação profissional com a música. Foi oficial da força aérea
durante 12 anos e depois trabalhou na Junta de Turismo da Costa do Estoril.
Hoje, com 60 anos, está reformado. Tem tempo para procurar todas as raridades,
ir semanalmente à feira da ladra, visitar as feiras internacionais (a de
Barcelona é a melhor, afiança). Só assim conseguiu reunir os seus maiores
orgulhos, desde uma secção assumidamente kitsch (até lá está Luís Piçarra a
cantar Ser Benfiquista) até à colecção dos temas portugueses na Eurovisão, nas
suas diversas edições. Raridades: quatro discos dos Queen prensados em
Portugal, um David Bowie editado pela Philips Portuguesa, um EP português dos
Kinks, apenas para dar alguns exemplos.
Existe uma espécie de bolsa de valores dos discos e
Heitor está sempre a par. O disco mais caro que já comprou foi a edição
francesa de Light My Fire, dos Doors. «O disco vale pelo conjunto – o bom
estado do vinil e da capa – mas se tiver de fazer uma opção, opto pela capa.»
JOÃO AFONSO
Profissionalmente, João Afonso sempre esteve ligado à
música. Colaborou no Rádio Clube Português no Porto; fez, no vespertino Diário
do Norte, um dos primeiros suplementos de cultura popular (música, teatro,
cinema e poesia) da imprensa portuguesa, chamado O Elefante e, em 1970, foi um
dos quatro fundadores do jornal especializado em música A Memória do Elefante.
O actual responsável pelo departamento de marketing estratégico da Sony Music
nasceu há 57 anos na Régua e, aos cinco anos, mudou-se para o Porto. Foi aí
que, durante a adolescência, se iniciou no mundo fantástico dos bailes
organizados nas garagens dos pais e das bandas mais do que amadoras. O primeiro
disco que comprou, com 17 anos, só podia ser dos Kinks, a banda do momento: foi
o single Tired Of Waiting For You, em 45 rotações, e custou-lhe uns 15 ou 20
escudos, um absurdo na altura. Ainda para mais porque João nem sequer tinha
gira-discos, ouvia-o na casa dos amigos. «Era moda comprar os discos que eram
primeiro lugar em Inglaterra», recorda.
A colecção de discos que hoje tem – cerca de 15 mil em
vinil e 20 mil em CD – foi construída à medida do seu gosto e das descobertas
musicais que foi fazendo. Não admira, por isso, que tenha muita música francesa
e brasileira, blues, pop-rock, jazz, música celta. «Sou muito eclético»,
confessa. «Mas quando gosto de um artista tenho que ter tudo dele.» É a isto
que se chama mania de coleccionador. Veja-se o caso de Amália Rodrigues, a dona
Amália, como lhe chama. A sua colecção pode não ser tão completa quanto a de
Heitor, mas João orgulha-se de ter todos os discos que Amália editou em
Portugal e ainda por cima assinados pela própria.
É qua a grande particularidade da colecção de João Afonso
não é a quantidade nem sequer o facto de ter algumas discografias completas ou
raridades. O seu maior orgulho são as assinaturas, os autógrafos das estrelas,
os rabiscos quase indecifráveis nas capas dos discos. A primeira vez que se
atreveu a pedir um autógrafo foi quando os Procol Harum vieram tocar a Cascais.
«Não tenho vergonha nenhuma, assumo-me como um fã, espero um momento em que se
proporcione e peço», explica. Grand Hotel foi o primeiro dos cerca de 2 mil
discos que João Afonso já tem assinados. A lista de troféus inclui três discos
assinados por Frank Sinatra, outros tanto por Miles Davis, mais de 30 por
Sakamoto, quase todos os de Bruce Springsteen. E ainda Frank Zappa, Roberto
Carlos, Ney Matogrosso, Milton Nascimento, Djavan, Genesis, Leo Ferré, Peter
Gabriel, Noel Gallagher, Chuck Berry, Donovan, Chieftains, Luciano Pavarotti,
Leonard Cohen, Yo Yo Mama, Rolling Stones, Eric Clapton... é impossível
enumerá-los todos. Mesmo assim, João Afonso faz questão de dizer que não anda a
pedir autógrafos só por pedir: «Tenho que gostar do artista, primeiro da música
e também da pessoa, se não não peço.»
Claro que o facto de trabalhar numa grande editora lhe
facilita muito a colecção. João Afonso não tem que esperar nas filas, como os
outros fãs. Conhece as estrelas nos bastidores, convive com elas,
conquista-lhes a confiança e só depois lhes apresenta os discos para assinar.
Foi assim que conseguiu os autógrafos de Lou Reed, Bob Dylan ou Miles Davis –
de quem todos dizem que é quase impossível obter uma assinatura, quanto mais um
simpático «para o João».
Mais do que um coleccionador, diz que é um «apreciador de
música». É por gostar de tudo o que lhe está relacionado que tem também uma
colecção de rádios antigos (cem, todos a funcionar), três grafonolas e ainda
uma juke-box dos anos 50. O que é capaz de fazer por um disco? Muito pouco. Não
se dá ao trabalho de frequentar feiras de coleccionismo e nem sequer gosta de
encomendar discos na Internet, mas frequenta as principais discotecas,
aproveita as viagens para procurar as coisas mais raras, faz encomendas aos
amigos - «quase tudo se encontra no Japão, embora caríssimo» - e gasta imenso
dinheiro, confessa. Tal como Luís Pinheiro de Almeida e Heitor de Vasconcelos,
João Afonso traz sempre na carteira uma lista de compras. «Andamos sempre à
procura de qualquer coisas.» E de vez em quando encontra umas raridades. A
maior de todas será o duplo vinil que os Genesis gravaram ao vivo em 1987 em
Leicester e Manchester e que nunca chegou a ser editado. O «disco de fábrica»
foi-lhe oferecido pelo dono da Charisma e tem ainda mais uma especificidade:
uma versão do Supper’s Ready com 26 minutos, absolutamente única. «Só há quatro
exemplares em todo o mundo e um é meu», orgulha-se João Afonso. «Nem o Peter
Gabriel tem um.»
12.2.17
Rock Psicadélico - Dossier
Rock Psicadélico
Dossier de 5 páginas, no
DN:música de 09 de Setembro de 2005
Autor: Mário Lopes
DOSSIER
ROCK PSICADÉLICO
Entre 1966 e 1969, o universo musical transformou-se. Na Califórnia, os Grateful Dead reabriram as portas da percepção. Em Londres, reescreviam-se as regras da pop numa espiral experimentalista inaudita. O psicadelismo anunciou-se e nunca nada mais foi o mesmo.
Em 1954, quando Aldous Huxley publicou As Portas da Percepção, inspirado num poema de William Blake, estava longe de imaginar que o “porta” descoberto em gotas de mescalina despoletaria uma revolução em forma artística ainda não oficialmente fundada – falamos do rock’n’roll cujo nascimento se assinala à volta de 1956, ano do primeiro álbum de Elvis Presley. No livro, o escritor partia da sua primeira experiência alucinogénea e traçava um retrato histórico da experiência psicadélica ao longo da história da Humanidade. Na Idade Média, o povo vivia-a olhando a luz reflectida pelos vitrais das Catedrais, explosão de cor incandescente para olhos habituados a escuridão e a cores desmaiadas. Cinco séculos depois, essa luz continuava a impressionar, mas num mundo de televisão, cinema e néons, num mundo tornado eléctrico, os vitrais de Catedrais medievais eram mais experiência estética calmante, absorvente, que extática e transportadora. Aldous Huxley, antes do rock’n’roll, antes de psicadélico ser palavra cunhada no léxico comum – a primeira vez que foi publicada num jornal britânico, já na década de 60, foi acompanhada de nota de rodapé explicativa -, deu de caras, assombrado, com novos vitrais. Por umas horas, despediu-se do mundo como o conhecemos e descreveu a essência da vida que julgava ver na textura de uma folha de árvore, num pô-do-sol de glória até então escondida., numa sensação de plenitude sobre a qual lera em textos de religiões orientais. Essa alteração do estado de consciência, vista como anúncio de chagada a um patamar superior, tornar-se-ia uma década depois um dos principais motores de mudança de uma cultura que, então, tentou fazer do escapismo realidade constante. Assim foi com o advento do psicadelismo que, em meados da década de 60, transformaria para sempre o cenário da música popular urbana e, durante um período de tempo alargado por quase meia década, a própria paisagem social e cultural na sua globalidade.
Por agora, contudo, voltemos ao 1954 de Aldous Huxley. Enquanto o escritor britânico, refugiado na Califórnia, entrava no último período da sua carreira, um canadiano por nascença, americano de espírito, Jack Kerouac, preparava-se para editar, em 56, aquele que seria, juntamente com o poema Howl, de Allen Ginsberg, o documento definitivo da geração beat. Pela Estrada Fora, misto de viagem iniciática e relato de uma nova forma de vida pulsando nos interstícios da normalidade – em viagem, sempre em viagem -, distorcia as regras narrativas clássicas ao abrir-se a influências que lhe eram exteriores. Kerouac queria inscrever nas frases o ritmo e a respiração do jazz de Charlie Parker e Dizzy Gillespie e fazia da escrita um fluxo de consciência onde revisão era palavra interdita e a pontuação estrutura moldável. A sua vida em vertigem – excessiva, diletante, boémia, insaciável, um poético titubear em busca de satisfação sempre incumprida na sua plenitude – vertia-se no papel com a mesma voracidade e consciente ausência de planeamento que as aventuras Estados Unidos fora na companhia de Dean Moriarty. A geração beat, centro espiritual em São Francisco, inventou-se como refúgio de desalinhados de uma América que tentavam reinventar pela poesia, literatura e música, por uma vivência feita conjugação paradoxal de zen budista com prazeres mundanos sorvidos intensamente.
Os químicos de Huxley e a personalidade libertária dos beatnicks encontrar-se-iam, anos mais tarde, reunidos numa mesma atitude perante a criatividade cujo objectivo era quebrar barreiras pela invenção de uma nova paleta de cores, garridas e faiscantes.
PSICADELISMO AMERICANO. Quando os Beatles aterraram em Nova Iorque, em 1964, encontraram-se rodeados de um ambiente de excitação adolescente e de extrema curiosidade mediática. Contudo, a British Invasion que despoletaram e que definiria o curso futuro da música pop não foi recebida com igual entusiasmo em todos os quadrantes.
No Beatles First US Visit realizado pelos irmãos Moysles, ouvimos as vozes da discórdia. Enquanto, no próprio aeroporto, a maioria declarava a passagem de Elvis à categoria de “velhote”, enquanto David Crosby e uma série de futuros actores principais da cena musical americana esperavam a actuação no Ed Sullivan Show para viverem uma epifania definidora do que seriam daí para a frente, a câmara dos Moysles captava a opinião de alguns hipsters saídos, imaginamos, do esclarecido Greenwich Village de folk e jazz. Que sim, diziam, agradava-lhes o fenómeno pelo corte que representava com o cinzento conservadorismo da geração anterior. Que não, acrescentavam, não era aquela a música mais excitante e inovadora que o mundo recebia na altura: coisa básica e demasiado adolescente, sentenciavam.
Nessa mesma noite, imaginamos, terão regressado ao seu campo de acção e, com sorte, depararam com um concerto em que Bob Dylan, apresentando as novidades de Another Side of Bob Dylan, tocou Chimes of Freedom e antecipou a transformação de inspiradíssimo cantor de intervenção em poeta folk imprescindível – metade beatnick, metade surrealista, todo Dylan.
Os Beatles libertaram o som, Dylan, através da palavra, libertou a música pop para outros universos além do habitual boy meets girl e, rondando a Universidade de Berkeley, Timothy Leary, ex-professor universitário – expulso de Harvard pelos estudos com drogas aluconogénas que ali desenvolveu -, preparava o “turn on, tune in, drop out” que se tornaria lema do rock psicadélico em gestação.
Entretanto, os dois “folkies” pouco excitados com a música dos Beatles não demorariam a deixar-se entusiasmar por ela, à medida que She Loves You e I Wanna Hold Your Hand davam lugar a Ticket To Ride e I Feel Fine. Tal como eles, toda uma geração de jovens folkies não tardaram a insuflar a sua formação neo-beatnick da electricidade do rock’n’roll, acrescentando-lhe pelo caminho um desejo de criar música verdadeiramente nova, onde a liberdade do jazz, a espiritualidade oriental e o escapismo colorido do LSD se uniam sob o mote: “a regra é não haver regras”.
O grande centro criativo, pólo onde o psicadelismo como o viémos a conhecer se alargaria a todo o mundo, foi a Califórnia de São Francisco e Los Angeles. É do estado americano que Ken Kesey (autor de Voando Sobre Um Ninho de Cucos) parte com o colectivo Merry Pranksters para “iniciar” a juventude americana na revelação dos Acid Tests (antepassados das actuais raves, festas onde a música das bandas em palco e a profusão de jogos de luzes psicadélicos potenciavam o efeito do LSD, cuja proibição só chegaria no final de 1966, distribuído gratuitamente pelos organizadores). Como banda residente dos eventos encontrávamos uns Warlocks que se revelariam fundamentais na definição e propagação do psicadelismo América fora. Actuando em palcos onde a distância entre o grupo e o público era inexistente, também eles participantes activos no “teste ácido”, os seus concertos eram verdadeiros “happenings” prolongados pelas horas que durasse o efeito do LSD nos corpos na assistência. Clássicos folk e r&b distorciam-se pelo longo improviso e pelas mutações provocadas pelo ambiente e estado químico dos elementos da banda e transformavam-se em prolongados jams com o cosmos por objectivo último.
Nesta altura, estávamos em 1965. No ano seguinte, já os Warlocks eram conhecidos pelo nome com que ficariam para a história, Grateful Dead, e o seu centro de operações, uma mansão vitoriana na zona de Aight-Ashbury, em São Francisco, tornava-se foco central da revolução em construção. O bairro, a 10 minutos de distância da Universidade de Berkeley e muito procurado pela população jovem pelo baixo preço das rendas, transformar-se-ia em viveiro de bandas e numa espécie de Meca da contracultura de 60, que suscitava curiosidade mundo fora. Seria visitada pelos Stones e por George Harrison e teria direito pouco depois, no final da década, a visitas turísticas organizadas.
É neste contexto que surgem as bandas mais marcantes do psicadelismo americano. Os folkies deixaram-se tocar pelo rock’n’roll, ingeriram ácidos de boa colheita e, “mente expandida”, partiram numa viagem em busca dos sons que melhor representassem a experiência. Assim foi com os Jefferson Airplane, com os Country Joe & The Fish, com os Big Brother & The Holding Company que serviram de rampa de lançamento a Janis Joplin, com os HP Lovecraft e uma série de outras bandas nascidas na cidade ou que para lá se deslocaram a partir do momento em que se espalha a sua fama como capital psicadélica mundial. A música que ali floresce passa a olhar com desdém para o limite temporal estabelecido para uma canção, privilegia o improviso e a procura de novos sons – quer na utilização de instrumentos até então arredios da tradição pop, quer naqueles que, depois do impacto de Sgt. Peppers, se descobriam no estúdio – e liberta em verso o imaginário surreal das experiências alucinogéneas. Farfisas e Hammonds reverberam como nunca antes, as guitarras descobrem-se ácidas e repletas de fuzz, o bucolismo folk ganha sentido cósmico e o rock’n’roll o sentido exploratório do jazz, transformando-se em mero ponto de partida para a descoberta de novos universos musicais.
Movidos por um forte sentido comunal, todos pareciam comprometidos à causa. Artistas plásticos desenvolviam os cartazes que se tornariam indissociáveis da música da época, fotógrafos traduziam-na em grandes angulares e em mil manipulações de cor, realizadores levavam a contracultura ao grande ecrã, em filmes como Psych Out, The Trip (argumento de Jack Nicholson) ou Head (a transformação da boys-band Monkees em hipsters alucinados) e promotores de concertos anunciavam bilhetes a 5 dólares (notas queimadas à entrada, s.f.f.).
Num ápice, a onda psicadélica varria todo o território americano e o underground atingia o mainstream. Em 1967 o Monterey Pop Festival, o primeiro grande festival rock, organizado pelos The Mamas & The Papas, consagra a nova geração – por lá passaram os Jefferson Airplane, os Byrds, os Buffalo Springfield, Janis Joplin, Jimi Hendrix ou The Who. No ano seguinte, os Airplane chegam à capa da Life e a revista, pegando nos autores de White Rabbit, nos Cream, Country Joe & The Fish e Big Brother & The Holding Company, apresenta aos mais desatentos o “novo rock”. Nesse mesmo ano, Grace Slick e Marty Balin transformariam o Ed Sullivan Show e televisões de milhões de lares americanos em palco para projecção psicadélica pouco consentânea com o horário nobre.
Do Texas, os 13th Floor Elevators apresentam a versão mais negra e psicótica do psicadelismo, em LA os Byrds passam do jingle-jangle de Mr. Tambourine Man para as planagens e as vozes encantatórias de Eight Miles High, os Doors criam o épico definitivo do período, The End e os Love fazem com Da Capo a mais elegante estilização da estética da época.
Se, na sua génese e na definição das suas (rarefeitas) coordenadas, o psicadelismo está umbilicalmente ligado ao consumo de drogas alucinogéneas, a partir do momento em que se multiplicam as referências e em que se definem traços característicos do género, o psicadelismo é abraçado por todos e manifesta-se mesmo na música de quem não tinha por hábito pintalgar o chá de aditivos – os Temptations não eram propiramente dados ao LSD, mas Psychedelic Shack tem as propiredades ácidas indispensáveis, o mesmo acontecendo com os delírios sónicos desenvolvidos pelos Sagitarius sobre as lições de Pet Sounds.
Durante um breve período, que podemos balizar entre 1966 e 1969, cores e sons psicadélicos brotaram de todo o lado, inclusivé dos locais mais suspeitos. Até os Bee Geees o exploraram em início de carreira, mesmo os Status Quo aplicaram o “turno on, tune in, drop out” a pop distante do boogie rock pelo qual se tornaram conhecidos na década de 70 – é só ouvir Pictures of Matchstick Man. E com a referência aos autores de Whatever You Want, saltamos até Inglaterra ao encontro do outro grande centro difusor de psicadelismo como definido em 60.
PSICADELISMO BRITÂNICO. Os primeiros sinais vinham de trás. Os Kinks, em 1965, editavam uma See My Friends que levava a ideia de canção pop, escorreita, até ao onirismo da música tradicional indiana. Psicadelismo era palavra sussurrada por poucos, mas não tardaria a fazer-se ouvir. Deste lado do Atlântico, o grande propulsor surge da decisão dos Beatles em abandonarem as digressões. Imersos nas potencialidades do estúdio, libertam a sua música e quando, em 1966, editam Revolver, as mudanças são já evidentes. Os drones orientais criados com cítaras e tablas de Love You Too alimentam a divagação, o riff para um acorde só, a voz repleta de eco, a batida insistente e os ruídos em loop de Tomorrow Never Knows fazem o resto. Fechados no estúdio, os Beatles tornam-se pesquisadores sónicos irrecuperáveis e, reflectindo o sabor dos tempos deparam-se fascinados com o psicadelismo. Um ano depois, todas essas explorações são extremadas em Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.
Os motivos circenses, o vaudeville reflectido nos ângulos de um caleidoscópio, as canções que se desdobram em várias suites organizadas segundo a lógica pouco rígida do sonho. A Day in the Life, Fixing a Hole, Being For The Benefit of Mr. Kytee, obviamente, Lucy In The Sky With Diamonds, todas elas compõem o retrato de uma banda que partira À descoberta de novas formas. Segundo reza a lenda, no decorrer da gravação do álbum, os Beatles escapavam-se do estúdio para, longe do olhar de George Martin, sorver umas pitadas de ácido. Tal como na Califórnia dos Grateful Dead e dos Acid Tests de Ken Kesey, viagens regadas a LSD serviram de ponto de partida para outras músicas. No Reino Unido, contudo, não eram a folk e o blues as linguagens que maioritariamente se distorciam para criar uma nova (apesar dos Cream operarem sobre o segundo, apesar dos The Incredible String Band erigirem a partir da primeira a obra definitiva no que à folk psicadélica diz respeito – está tudo em Wee Tam & The Big Huge).
Território pop por excelência, foi no seu âmago que se operaram as maiores transformações. Os sinais vinham de trás, nos raveups dos Yardbirds, na violência distorcida dos riffs dos Creation ou nos feed-backs que os The Who exploravam em Anyway, Anyhow, Anywhere, mas é no contexto dos três minutos de uma canção pop que o psicadelismo britânico primeiro se manifesta.
Na avassaladora sequência de acontecimentos que foi a segunda metade da década de 60, o psicadelismo surge quando alguns ainda acabavam de comprar fatos de melhor recorte mod. Os Small Faces, por exemplo, nem se deram ao trabalho de se metamorfosearem, limitaram-se a fundir a atitude dandy dos mods com o abandono à delícias da divagação psicadélica enquanto inventavam passeios por Itchycoo Park.
Com um underground fervilhando de actividade – com direito a jornal e a clube “oficiais”, o International Times e o UFO de Totenham Court Road -, a swinging London tornou-se um centro criativo ímpar. Estudantes de Arte abandonavam as escolas para formar bandas, as que existiam previamente como combos de r&b adoptavam a nova ordem e, numa mistura explosiva de excentricidade britânica, ecos distantes do psicadelismo californiano e levitação tripada (Maharishi facultativo), o cenário pop alterava-se definitivamente.
Donovan chegava de Glasgow como elfo armado de guitarra para cantar sobre Hurdy Gurdy Men e para nos dizer que, em South Kensignton, “Mary Quant and Jean Paul Belmondo got stoned to say the least”. Os Cream, três “veteranos” do british blues revival – Jack Bruce, Ginger Baker e Eric Clapton -, editavam Disraeli Gears e sobrepunham um arco-irís incandescente sobre os riffs clássicos do blues e um americano resgatado para Londres por Chas Chandler, ex-baixista dos Animals, surge em palco como feiticeiro eléctrico de uma outra galáxia – o seu nome, claro, é Jimi Hendrix e depois dele o rock’n’roll nunca mais foi o mesmo.
Enquanto isso, os Tomorrow, estetas pop da escola Ray Davies, tornam-se heróis do underground britânico ao editarem um álbum de estreia homónimo que se ouve como versão psicadélica dos Kinks e, no UFO, o público dança ao som de uma banda que estilhaça todas as fronteiras conhecidas quando a ressonância dos instrumentos faz com que o Interstellar Overdrive anunciado se cumpra. São os Pink Floyd de Syd Barrett e, com os dois singles iniciais – Arnold Layne e See Emily Play, pérolas pop gloriosamente danificadas -, com os concertos tornados matéria de mito e com o álbum de estreia, The Piper At The Gates Of Dawn, fazem desaparecer todos os traços de matéria reconhecível para dar lugar a uma expressão única, intensíssima, da experiência psicadélica.
Até os Stones cedem ao momento para, 10,000 Light Years From Home, criar o magnífico Their Satanic Majesties Request, os proto-punks Troggs cantam sobre borboletas gigantes e os Moody Blues oferecem-se como cobaias de teste de um novo sistema sonoro para cruzar opulência orquestral e medievalismo britânico com resquícios de pop. Víamos Michael Caine fazer um cameo em filme experimental com Syd Barrett em destaque, um gigantesco armazém vitoriano tornava-se palco para a celebração da comunidade underground – 0 14 Hour Technicolor Dream -, os The Who declaravam I Can See For My Miles e todos acreditávamos, McCartney confessava em entrevistas o consumo de LSD, víamos Magical Mistery Tour e não tínhamos dúvidas que assim era. Neste profícuo e fecundo ritual iniciático, todas as excentricidades eram não só permitidas como incentivadas – Arthur Brown levava à letra a esquizofrenia para órgão, baixo e bateria de Fire e transformava-se em fósforo humano, Marc Bolan dava vida à Terra Média e, como Tyranossaurus Rex, criava alguma da folk mais fora deste mundo que ouvidos lúcidos já ouviram.
Todos os excessos conduziriam, inevitavelmente, a uma prolongada ressaca. A experiência, contudo, tornar-se-ia fascinante ponto de partida para toda uma série de exploradores e sonhadores que, desde então, prosseguiram nos trilhos aí desvendados. O rock progressivo e o kraut-rock, pouco depois, seriam exemplos perfeitos disso. Essas contudo, são história que guardaremos para outras páginas.
ESTAVAM TODOS COMPROMETIDOS
Em 1970, Timothy Leary, professor de Harvardtransformado em guru do psicadelismo, gravava You Can Be Anyone this Time Around, álbum de spoken word em que o autor da frase “turn on, tune in, drop out” era ladeado por Stephen Stills, John Sebastian, Jimi Hendrix e Buddy Miles. Anos antes, ele e Allen Ginsberg eram os oradores em destaque no primeiro Human Be-In de São Francisco, evento celebratório da contra-cultura em desenvolvimento na cidade na década de 60. O autor de Howl, aliás, assinava textos de apresentação de álbuns dos nova-iorquinos Fugs, aproximava-se de Bob Dylan e, décadas depois, confessava a Paul McCartney o seu sonho nunca cumprido de pertencer a uma banda rock’n’roll.
Se o advento da cultura pop gerou entusiasmo e empatia junto de muitos dela aparentemente distantes, o psicadelismo surge como um momento em que todas as manifestações culturais são contaminadas pela sua ética e estética – quer por convicção, quer como aproveitamento.
Como se lia num dos posters de promoção a concertos tornados imagem de marca do período, da autoria de Rick Griffin, um dos seus autores mais celebrados: “Renaissance or Die”. De facto, da literatura ao cinema, da arquitectura ao design, da moda à pintura, passando pela fotografia, toda uma série de expressões extra-musicais tornam-se extensões de uma mesma atitude.
Olhamos para o design de interiores que Verner Panton criou no período e as cores garridas, as formas resgatadas à natureza, distantes de qualquer precisão geométrica, utilizadas pelo designer dinamarquês parecem saídas, salvaguardadas as devidas distâncias, do mesmo universo que originou a estética imaginada por Roger Vadim para Barbarella – que não seria possível sem o psicadelismo. A liberdade que lhe está em génese terá tido a sua influência no cimentar do gonzo journalism de Tom Wolfe ou Hunter S. Thompson – The Electric Kool-Aid Acid Test ou Fear & Loathing in Las Vegas são, de facto, versões psicadélicas de jornalismo e literatura beatnick. Reunindo tudo, quando deparávamos com espirais op-art a espreitar de um vestido, tornava-se claro: todos estavam comprometidos.
SEMPRE PRESENTE
A partir do momento em que se abriu a caixa de Pandora já não havia retrocesso. Imersos no momento, ou indiferentes às suas tendências, os conspiradores continuaram a magicar fugas à realidade.
Primeiro, os descendentes directos do psicadelismo de 60, prog-rockers como Yes ou King Crimson, pretenderam criar um universo próprio onde se pudessem instalar. À medida que cada vez mais se perdiam no barroquismo arquitectónico erigido, psicadelismo pareceu tornar-se palavra interdita. Claro que era só fogo de vista. Em Inglaterra, em pleno pós-punk, os Soft Boys aplicavam tratamento Barrettiano à ideia de canção, os XTC preparavam-se para homenagear os criadores do paradigma psicadélico no projecto Dukes of Stratosphear e os Teardrop Explodes de Julian Cope faziam da electrónica palco para delírios alucinógeneos. Algures pelos Estados Unidos, os sempre delirantes Flaming Lips davam os primeiros passos, ainda em busca de um futuro que projectaria a alma do psicadelismo em glorioso Technicolor. Já em plena década de 90, os Estados Unidos seriam palco para uma reposição da explosão criativa de 60, quando o colectivo Elephant 6, que reunia Olivia Tremor Control, Neutral Milk Hotel ou Apples In Stereo recuperou métodos pop do passado para nova viagem. Nessa altura, já Manchester tinha encontrado correspondência para o hedonismo escapista do psicadelismo no acid-house e os Spacemen 3 desaparecido em levitação espiralada num riff dos Velvet Underground. Actualmente, free-folkies pintalgam paisagens bucólicas de ácidos da melhor colheita, alienados do trance procuram transcendência em cítaras e beats impossíveis e artífices armados de laptop, como os Boards of Canada ou Caribou, dizem que, por mais mutações que sofra, a experiência psicadélica não mais desaparecerá da música popular urbana.
ENTRETANTO EM PORTUGAL
Se as manifestações pop no Portugal de 60 eram na sua maioria pálidas imagens da efervescência vivida no exterior, a explosão do psicadelismo teve por cá ecos ainda menos audíveis. O Quarteto 1111 foi o que a absorveu e apresentou de forma mais consistente. A par dele, é imprescindível referir os Jets que, com o EP Let Me Live My Life – o tema título é encontro magnífico dos Byrds com os Zombies -, criaram um oásis de cor e modernidade no Portugal pop de então.
A DISCOGRAFIA
Os anos da explosão do psicadelismo foram de uma fertilidade criativa ímpar na história da música pop. 1967, por exemplo, é um ano paradigmático, sendo certo que poucos haverá a congregar tantos álbuns fundamentais. Ao lado escolhemos nove, tentando o equilíbrio possível entre o inequivocamente essencial e o mais representativo das diversas formas assumidas pelas experiências do psicadelismo.
A verdade é que, no limite, por cada um deles, outro poderia tomar-lhe o lugar sem que isso enfraquecesse a representatividade daquilo que foram aqueles anos de pesquisa frenética.
Poderíamos lembrar-nos dos descendentes da British Invasion que, depois de entranhadas as lições de Rolling Stones, Animals ou The Who, partiram em busca de ácido de colheita própria e acabaram exclamando I Had Too Much To Dream Last Night (Electric Prunes) ou Pushin’ Too Hard (The Seeds).
Inseridos no viveiro que era, naquela altura, Los Angeles e São Francisco, seria inevitável referir uns Byrds fazendo um jingle-jangle do passado ponto de partida para novos voos.
Depois de criarem uma das canções mais marcantes da época, Eight Miles High, chegariam à sua obra-prima, Notorious Bird Brothers. Também da cidade dos Anjos, os desalinhados Doors – Jim Morrison não era propriamente uma alma dada a encontros comunais – davam sequência à bem sucedida estreia com um Strange Days cuja música era correspondência directa dos estranhos saltimbancos da capa.
Não muito longe, a São Francisco concentrada na zona de Haight-Ashbury tinha como representantes principais os Grateful Dead e os Jefferson Airplane que, com Surrealistic Pillow, o segundo álbum, o primeiro com Grace Slick como vocalista, e principalmente com o genial After Bathing At Baxters, se tornariam para sempre indissociáveis do psicadelismo – por perto, como inseparáveis companheiros de viagem, encontrávamos os Quicksilver Messenger Service e os Big Brother & The Holding Company de Janis Joplin (Cheap Thrills é indispensável na cartografia musical da cidade no período).
Por esta altura, os ecos da nova cultura dispersavam-se em todas as direcções e o psicadelismo tornava-se fenómeno global.
Se os Iron Butterfly aproveitavam para deixar a sua marca com In-A-Gadda-Da-Vida, se Alexander Skip Spence – um ex-Jefferson Airplane e ex-Moby Grape – se isolava em Nashville para compor “o” manifesto psicadélico a uma alma em colapso, Oar, se os Kaleidoscope, com Side Trips, acrescentavam música turca e ragtime à banda sonora e se os Vanilla Fudge, com o álbum de estreia homónimo, faziam a ponte entre a trip de hoje e o hard-rock de amanhã, o Brasil, por exemplo, mostrava com os fantásticos Mutantes a versão tropical da atitude criativa disseminada mundo fora.
Neste intricado processo de intercâmbios, poderíamos mesmo voltar atrás no tempo e lembrar-nos que, em plena British Invasion, os The Who de Sell Out e os Yardbirds de Roger the Engineer exploravam terrenos sónicos que, pouco depois, serviriam de mote para novas construções. Depois disso, contudo, todos pareciam em sintonia. Os Small Faces passavam a “psymodelics” com Odgen’s Nut Gone Flake, os Cream faziam um acid-test sobre o blues e gravavam Disraeli Gears e até os Kinks, pouco dados aos excessos coloridos da época, distorciam o bucolismo idealizado inglês em Village Green Preservation Society. De obra-prima em obra-prima, cada um dos anos em que o psicadelismo foi rei pareciam guardar em si material para uma década inteira.
13TH FLOOR ELEVATORS
1966. The Psychedelic Sounds Of...
Era na Califórnia que, com Grateful Dead, Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service ou Country Joe & The Fish, o psicadelismo começava a espalhar os seus raios de luz mundo fora, contudo, no Texas, Rocky Erickson liderava uns 13th Floor Elevators que se estrearam discograficamente antes de qualquer um dos pesos pesados de São Francisco e Los Angeles. Quase tétrico – o jug eléctrico dá-lhe uma estranheza inimitável -, o álbum explora como nenhum outro o mistério e a psicose do psicadelismo.
THE BEATLES
1967. Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band
Sgt. Peppers foi editado e, a partir dele, nada foi o mesmo. Hoje pode não ser tão indis cutível como foi durante longos anos, ams a sua relevância como despoletador de mudanças radicais no cenário pop é inquestionável. A utilização do estúdio como instrumento, o surrealismo sónico e lírico e o recolher de influências tão díspares quanto o vaudeville e a música indiana, fizeram dele o disco mais importante do seu tempo, abrindo caminho a um período em que todas as experiências se tornaram possíveis.
COUNTRY JOE & THE FISH
1967. Electric Music For The Mind And Body
Poucas bandas haverá que representem tão bem o que foi o psicadelismo de 60. Liderados por um ex-folkie, Country Joe McDonald, os Country Joe & The Fish de Electric Music For The Mind and Body são um caleidoscópio de sons reverberantes, de melodias encantatórias, de trips feitas canção – ora acelerada vertigem, ora lentas, narcóticas – e de etórica do lado certo do flower-power. Folkies místicos transformados em exploradores eléctricos, os Country Joe & The Fish são um filme de época fascinante.
THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE
1967. Are You Experienced?
Considerado por muitos o álbum de estreia mais influente de sempre, Are You Experienced? Dá início à carreira de Jimi Hendrix como feiticeiro eléctrico inultrapassável. Gravado nos curtos espaços de tempo permitidos pelo intenso calendário de concertos, abre a guitarra eléctrica a todo um novo universo. Intenso, feérico, alucinante, onírico, são blues, rock’n’roll, r&b, divagações jazzy ou maquinações de estúdio transformadas pelas mãos de um talento de génio, único e inclassificável.
LOVE
1967. Da Capo
Com Forever Changes, os Love assinaram um dos melhores álbuns da história da música popular urbana. Antes dele, contudo, editaram um Da Capo que é estilização perfeita do colorido psicadélico. Do lado A, uma sequência imbatível em que melodias delico-doces feitas de jazz, folk, música latina e pop desalinhada convivem com a explosão punk de 7 & 7 is. Do lado B, uma jam de r&b agressivo, Revelations, estabelecendo ponto com o passado da banda. Em conjunto, a primeira obra-prima dos Love.
PINK FLOYD
1967. The Piper At The Gates Of Dawn
Antes da estreia em longa duração, os Pink Floyd tinham editado Arnold Layne e See Emily Play, dois singles de pop excentricamente britânica, deliciosamente psicadélica. The Piper At The Gates Of Dawn, o disco que se lhes seguiu, é uma experiência completamente diferente. Liderados pelo génio de Syd Barrett, os Floyd saltam para a linha da frente do psicadelismo britânico com um disco em que paisagens medievais e futuristas, lullabies e viagens espaciais compõem um hino ao sonho e à liberdade criativa.
THE ROLLING STONES
1967. Their Satanic Majesties Request
Durante muitos anos foi o álbum maldito dos Rolling Stones, desvalorizado como resposta a Sgt. Peppers. A passagem dos anos, contudo, colocou-o no lugar que merece. OVNI na discografia da banda, é também a magistral concretização das experiências pop que a banda vinha realizando nos anos anteriores. Marcado pelas pesquisas e viagens da época, abraça ficção científica, festins comunais e uma miríade de instrumentos para fazer dos Stones príncipes negros do psicadelismo.
THE SOFT MACHINE
1968. Volume 1
Enquanto se congeminava a revolução psicadélica em Londres, Los Angeles e São Francisco, em Canterbury nascia uma terceira via. Nos Soft Machine de Robert Wyatt, Kevin Ayers e Mike Ratledge – Syd Barrett como fã número 1 -, não havia vestígios de folk, blues, Tolkien ou vaudeville. Na sua música, a libertinagem do jazz cruzava-se com um irreprimível anseio experimentalista bem no coração pop e rock’n’roll. Resultado? Música de uma inventividade e uma capacidade transportadora como poucas desde então.
THE GRATEFUL DEAD
1969. Live/Dead
Os Grateful Dead tornaram-se exemplo máximo do rock psicadélico americano quando a banda residente dos Acid Tests que Ken Kesey e os seus Merry Pranksters levavam a toda a América. Dessas actuaçõesnada mais resta que o mito. Live/Dead, álbum duplo editado em 1969, é o mais próximo que dele nos podemos aproximar. Nele, os Grateful Dead como máquina cósmica revolvendo as entranhas do rock’n’roll. Jerry Garcia apontando às estrelas e levando-nos consigo ao longo dos 25 minutos de Dark Star.
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