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5.7.22

Syntorama Nº 12 – meados de 1987 - artigo seleccionado #3: The Nightcrawlers (entrevista a Peter Gulch)


 


THE NIGHTCRAWLERS


Os The Nightcrawlers são um grupo de músicos do estado de New Jersey. Os irmãos Peter e Tom Gulch e David Lund, fundaram o grupo em 1981. Desde então grupo representa um símbolo de perseverança e qualidade dentro da música electrónica “não comercial”. Têm-se mantido fiéis ao seu estilo original produzindo e editando um grande número de cassettes e dois álbuns que eles próprios distribuem. A sua música passa frequentemente em emissoras de rádio do tipo “space music”. Têm dado também alguns concertos de vez em quando, na região de Filadélfia. Peter Gulch, porta- voz do grupo responde às nossas perguntas:

JUAN MANUEL MAZA: Que equipamento utilizam no vosso estúdio? Com que frequência adquirem equipamento novo?

PETER GULCH: Neste momento temos um estúdio pequeno de 8 pistas onde gravámos os dois primeiros LP’s “NIGHTCRAWLERS” e “SPACEWALK”. Fundamentalmente o estúdio é constituído por um Tascam 38 – 8 pistas, mesa de mistura Tascam M-50, Tascam 32 de pista média e eficiente para as nossas necessidades. Nós os três temos vários sintetizadores e usamo-los conforme precisamos para o trabalho que vamos realizando. Adquirimos equipamento novo de vez em quando, quando temos dinheiro.

MAZA: Quantas cassettes já produziram/editaram até este momento?

GULCH: Lançámos cerca de duas dezenas delas. Todas são completamente diferentes dos álbuns no que se refere ao modo de gravação. Essas cassettes foram gravadas “ao vivo” em um take. Não são gravações multipistas. A qualidade é muito boa mas não tão perfeita como a dos discos gravados cuidadosamente em estúdio. De toda a maneira mantêm a espontaneidade da música conforme ela se vai criando.

MAZA: Podes-nos explicar o vosso estilo de composição e gravação? Que importância tem a improvisação no vosso trabalho?

GULCH: O nosso estilo de composição é baseado na improvisação completa. Gostamos de tocar juntos e improvisar ideias. Quando o conseguimos, gravamo-las e mais tarde encaixamos as várias partes e polimo-las para que se tornem parte de um álbum. Não dedicamos muito tempo a uma ideia em particular porque se a manipulamos muito deixamos de desfrutar dela. Para que não haja mal-entendidos, na improvisação dos sons estes são fundamentalmente novos e criados para essa ideia em concreto.

JM. MAZA: Diz-nos o que influencia na vossa música. Quem admiram? Imitam o trabalho de algum outro músico?

GULCH: O nosso trabalho foi inspirado fundamentalmente por Klaus Schulze e pelos Tangerine Dream. Quanto ao estilo de música que fazemos, eles são a influência mais importante. O nosso grupo favorito são os T. Dream, não os copiamos mas seguimos o seu estilo.

J. MAZA: Se um produtor vos oferecesse a possibilidade de vender comercialmente a vossa música mas vos pede que façam alguma mudança fundamental no vosso estilo requerendo sons mais populares, qual seria a vossa resposta?

GULCH: Se tivéssemos que mudar as ideias básicas da nossa música teríamos que recusar a oferta. Não obstante a maioria dos produtores e companhias discográficas não pedem isso aos grupos. Na maioria dos casos tratam de refinar e polir as ideias e o estilo. Há muitíssimos grupos muito bons que fazem música popular. Mas nós não somos um deles.

J. MAZA: Quantos seguidores têm? Recebem muitos pedidos de cassettes? E cartas?

GULCH: É difícil dizer quantas pessoas seguem e apreciam a nossa música. Recebemos cartas de todo o mundo, incluindo Espanha, e sei que há muitas pessoas que gostam do nosso estilo. Não sei dizer um número certo mas a cada ano que passa o correio que recebemos aumenta. Quem sabe se o número de seguidores em Espanha não aumentará a partir de agora.



JUAN MAZA: Baseando-se na vossa experiência, que dirias aos músicos espanhóis que estão agora a começar a dar os primeiros passos na música electrónica independente?

PETER GULCH: A todos os músicos electrónicos de Espanha gostaria de os aconselhar a trabalhar duro de forma a chegar a serem bons naquilo que fazem. Com esta base podem decidir o que fazer com o seu trabalho no que se refere a edições. As cassetes são um bom começo. Intercambiar com outros músicos para adquirir ideias novas. Não desanimar ao princípio mesmo que não vejam os resultados que esperam. O trabalho sério e perseverante é o que ajuda realmente. Penso que é importante apresentar o trabalho a bons críticos que podem dar novas ideias e a melhorar certas áreas. Finalmente, desfrutar do que fazem. Boa sorte para todos.

JUAN MAZA: Para aquelas pessoas em Espanha que não conhecem o vosso grupo, poderias definir a vossa música?

PETER GULCH: Actualmente os NIGHTCRAWLERS são um trio de músicos de instrumentos electrónicos (sintetizadores) que tocam aquilo que ficou conhecido com o nome de Berlim School. Esta forma musical diz-se que foi fundada na Alemanha por Klaus Schulze e Tangerine Dream. Também é chamada de “Música Cósmica” por alguns críticos. A ênfase está em criar uma paleta de cores tonais a partir das quais se podem desenhar pinturas sónicas.

JUAN MAZA: Ouvi que estão a trabalhar num novo LP. Podes contar-nos algo sobre isso? No passado tiveram certos problemas com companhias de gravação. Têm uma independência completa neste vosso terceiro LP?

PETER GULCH: Sim, estamos a trabalhar num terceiro LP que estará cá fora no final deste ano ou quiçá no Outono. Procuramos fazer algo de diferente em cada LP e este não é excepção.

Também, pela primeira vez, estamos a utilizar um “sampler” para alguns dos sons e efeitos do lado 2. Nunca tínhamos usado um sampler, é algo novo para nós que estamos a aprender e a usar. Este álbum vai ser mais rítmico que os anteriores mas manterá, todavia, partes mais espaciais. Neste momento temos uma oferta de edição de uma companhia importante da música electrónica para o produzir e distribuir. De toda a maneira isso ainda não está totalmente assente. Se não chegarmos a um acordo contactaremos outras editoras. Se tudo falhar produziremos nós de forma independente.



Nightcrawlers ‎– Spacewalk

1. Digitalis
 


2. Ombra



3. November Evening


4. Spacewalk



The Nightcrawlers - Crystal Loops (EP)









1.7.22

Syntorama Nº 12 – meados de 1987 - artigo seleccionado #2: Ian Boddy (artigo + entrevista)


 


IAN BODDY

IAN BODDY é sem dúvida, um músico importante dentro da música electrónica. Já há algum tempo que desejava falar dele e agora, aproveitando a sua recente edição do seu terceiro LP decidi-me então a fazê-lo. Ele começou como a maioria dos músicos, fazendo música em casa. Em 1980 publicou a sua primeira cassete, intitulada “IMAGES” através do selo independente (especializado em cassetes) MIRAGE. A verdade é que parece mentira que uma pessoa que acabava de começar pudesse fazer semelhantes jóias como “FLOATING” ou “VICEVERSA”, que merecem, por mérito próprio ser alcandorados à categoria de “soberbo”. Os sintetizadores, principalmente os ROLAND (CSQ-100, RE-501 e SH-2) dominam esta música fantástica.

Em 1981, também pela MIRAGE, edita a sua segunda cassete “ELEMENTS OF CHANCE”. O melhor deste trabalho, o extenso “FOUR VIEWS”, um tema genial, dividido em quatro partes, passando de uma para outra quase imperceptivelmente, sem te dares conta. Começa, durante uns poucos minutos com flauta, até que os sintetizadores terminam abrangendo tudo.


“OPTIONS” é a sua terceira cassete, editada igualmente pela MIRAGE. Contém material de estúdio e parte de um concerto no SPECTRO ART WORKSHOP de NEWCASTLE UPON TYNE. Indubitavelmente IAN BODDY encontrou e assentou o seu estilo, e esta não é mais do que outra preciosidade como aquelas que já nos tinha habituado. Nesse mesmo ano, 1982, colabora com dois temas para o LP “FLOWMOTION”, publicado pela INTEGRATED CIRCUIT RECORDS. Em 1983 colabora com temas para as cassetes “VISIONS”, “RISING FROM THE RED SAND VOL 4” da THIRD MIND RECORDS e “INTEGRATION” na ICR.

“THE CLIMB” é o seu primeiro LP, publicado pela etiqueta independente SIGNAL (actualmente descatalogado). Para mim é o seu melhor disco. “KINETICS” é totalmente rítmico, em boa parte devido ao labor de GLYN BUSH no baixo, mas o que mais me entusiasma é “DEJA VU”, um extenso tema de mais de 12 minutos, tema chave na carreira de I. BODDY. À parte a grande quantidade de sintetizadores, mostrados na contracapa, utiliza ainda o FAIRLIGHT C.M.I.


“SPIRITS” é o seu trabalho seguinte. Gravado entre 1983/84 pelo selo NEWCASTLE MEDIA WORKSHOP. É também um bom trabalho de música electrónica, mas não tão bom como “THE CLIMB”. O melhor é o extenso tema que ocupa todo o lado 2 e que dá o título ao disco. Além de I. BODDY nos sintetizadores, ele é acompanhado por BRIAN ROSS (vozes) e IAN McCORMACK (bateria). Menção especial para DAVID BERKELEY, acompanhante de BODDY nos concertos e um pouco o seu assessor cerebral, na sombra.


Depois da gravação de “SPIRITS”, I. BODDY embarca em digressão através das ILHAS. Inclui concertos no MAN & MACHINE FESTIVAL de STOCKTON, IPSWICH TOW HALL, RIVERSIDE, NEWCASTLE UPON TYNE e finaliza a sua tournée no UK ELECTRONICA’85 de SHEFFIELD.

O seu ultimo LP, “PHOENIX” apareceu há alguns meses, na sua própria etiqueta, SOMETHING ELSE RECORDS. Ainda que sendo um disco electrónico desvia-se um pouco para essa outra faceta que é o sinfonismo. O bombástico é por vezes a nota dominante. O melhor, “THE NECROMANCES” e “WATERSWAY”. É acompanhado por DAVID BERKELEY (sintes), PETE GREENWAY (saxos), STUART HAIKNEY (percussão) e ANNA ROSS (vozes). Foi gravado em NEWCASTLE entre Janeiro e Maio de 86. Nesse mesmo ano dá alguns concertos (algo que IAN BODDY está acostumado a fazer) no PURCELL ROOM de Londres e de novo no LOTUS ELECTRONICA’86 em STOKE ON TRENT.


As cassetes de I. BODDY podem conseguir-se, todavia, através da MIRAGE, e ainda que estejam esgotadas aconselho-os a pedir o catálogo da MIRAGE, onde encontrareis verdadeiras surpresas, pois é, quiçá, o melhor catálogo especializado em cassetes da GRÃ-BRETENHA.

MIRAGE

612 SOUTHMEAD ROAD

FILTON

BRISTOL BS12 7RF

ENGLAND

“SPIRITS” e “PHOENIX” podem obter-se por correio através do contacto com o próprio IAN BODDY, ou seja, da sua editora, a SOMETHING ELSE RECORDS.

Eu importei 10 cópias, das quais só me restam 3, para os primeiros que cheguem, sendo o seu preço 1.100, - Ptas. Contra reembolso.

SOMETHING ELSE RECORDS

P.O. BOX 3, ROWLANDS GILL

TYNE & WEAR, NE 39 1 HP

ENGLAND

 

ENTREVISTA COM IAN BODDY

SYNTORAMA: Tu já editaste trabalhos em cassete e em LP, pensa editar mais trabalhos em cassete?

IAN BODDY: Não, penso que a partir de agora toda a minha música será editada em vinyl, e espero que num futuro não muito longínquo, também em disco-compacto (CD). Este último media é o ideal para a música electrónica porque reproduz os sons com clareza.

SYNTORAMA: Como vês o panorama dos concertos ao vivo? Normalmente tocas ao vivo?

I. BODDY: Gosto muito de tocar ao vivo. Parece-me que as horas e horas de programação no estúdio têm mais valor. Não há muita gente que toque música electrónica ao vivo, e dos que tocam muitos não o fazem como deve ser. Gostaria de actuar em mais concertos. De resto, planeámos em INGLATERRA mais concertos dos que na realidade conseguimos depois contratar (à volta de 50). Penso que é muito importante tocar ao vivo porque muda a mística da música electrónica e faz parece-la mais humana, em vez de ser apenas criada por computadores no estúdio.

SYNTORAMA: Quais são os principais problemas com que te deparas para distribuir os teus discos?

I. BODDY: O meu problema (e objectivo) principal no que toca à distribuição é ter bons contactos, especialmente no estrangeiro. São eles que me ajudam a arriscar nos meus discos.

SYNTORAMA: Manténs-te interessado nas novas técnicas e instrumentos?

BODDY: Sempre estive. Apenas posso dominar aquilo com que trabalho, elegendo para isso os instrumentos que uso actualmente. Procuro para cada tema o instrumento que me dá o som correcto para o mesmo, seja a pandeireta, o saxofone ou o YAMAHA DX7. Recentemente ocupei muito do meu tempo em experimentações com amostras de som (samples), usando o AKAI S900, que me dá acesso a muitas texturas étnicas e me fez trabalhar com um pouco de calma. Sons como a flauta de bambu, a sitar ou o gamelão.

SYNTORAMA: Por que incluis outros instrumentos e vozes nos teus discos?

I. BODDY: Basicamente, penso que as fontes puramente sintéticas de som não são o único caminho com o qual eu quero compor. Usarei sempre aquilo que creia necessário para fazer um tema.

SYNTORAMA: Pensas que a música electrónica em INGLATERRA está neste momento com a qualidade da música electrónica na Alemanha e nos EUA (em geral)?

I. BODDY: Creio que a música electrónica em Inglaterra melhorou muito nos últimos cinco anos, e agora pode considerar-se de qualidade equivalente aos exemplos que me citaste. O mal da Alemanha é que infelizmente resvalou devido a muitas produções de qualidade inferior. Os EUA têm, provavelmente, a cadeia mais organizada e comum de artistas de qualidade similar e superior.

SYNTORAMA: Quais são os teus próximos projectos?

I. BODDY: Incluem a preparação de outra série de concertos. O primeiro foi realizado em Maio em Newcastle. O seguinte será em Agosto, em Londres. Também estou a trabalhar num novo álbum que me está a dar um prazer enorme. Terá um som distinto dos anteriores trabalhos. Nele utilizarei muitos samples de sons étnicos. Em muitos dos temas uso escalas orientais, tais como a pentatónica e a javanesa. Não tenho ainda, todavia, data de términus.

-- Entrevista realizada por correio em finais do mês de Junho. --









 

 






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