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12.6.17

Livros Sobre O Post-Punk: "'Pós-Punk' Para Ler" - Artigo de Opinião -


DN-SONS

‘PÓS-PUNK’ PARA LER

Entre ensaios sobre o período 1978-84 e álbuns de fotografias, este é um espaço da cultura pop em fervilhante actividade editorial nos meios livreiros ingleses e norte-americanos.

No texto que agora apresenta no disco nascido do sucesso do seu livro Rip It Up (And Start Again), o jornalista Simon Reynolds sublinha que “estamos neste momento profundamente mergulhados num ressurgimento pós-punk”. E acrescenta que “não há ainda sinais de travagem”, tal é “a infindável procissão de novas bandas que procuram inspiração nessa era, colidindo com bandas veteranas que se reuniram, uma maré de reedições, compilações e antologias”. Quando, há um ano, o publicou, o fenómeno de concentração de atenções de novas bandas e públicos no legado pós-punk era já visível. E foi então sua a intenção de “mostrar a verdadeira diversidade” associada a este fenómeno, que considera menos uma questão de género, mas antes todo um conjunto de espaços e possibilidades que se abriram nos finais da década de 70.
Para Simon Reynolds, o punk “rejuvenesceu o rock, mas por alturas do Verão de 1977 o movimento tinha-se transformado numa paródia de si mesmo”. O livro explica, detalhada e claramente como bandas como a Joy Division, Gang Of Four, Talking Heads, The Fall, Associates ou Cabaret Voltaire, entraram em cena para cumprir a revolução incompleta lançada pelo punk alguns anos antes. “experimentando as electrónicas e os ritmos maquinais, adaptando ideias do dub, reggae e disco, tinham a certeza de que podiam inventar um novo futuro para a música”, explica no livro.
“Num tempo de tensão e ameaças”, que aponta num reaparecimento de figuras políticas de direita (nomeadamente Thatcher e Reagan), as bandas pós-punk “tentaram construir uma cultura alternativa através do nascimento de novas editoras independentes como a Rough Trade, Factory ou SST e a proliferação de uma política do it yourself”. Como retrata no seu livro, uma ideia de mudança constante morava entre os projectos desse tempo. Fala de intermináveis inovações “brilhantes” não apenas na música, mas também na escrita das letras, no desenvolvimento de novos conceitos performativos, nas ideias de estilo e design. Este é o espírito que Reynolds identifica e projecta como natural herança na nova pop de inícios de 80, em bandas como os Human League, Adam Ant, ABC, Madness, Dexy’s Midnight Runners ou Frankie Goes To Hollywood, “todas elas nascidas no punk, mas que a dada altura abraçaram um sentido de glamour e o vídeo de forma a projectar as suas ideias no coração da cultura mainstream”. O livro revela informação e reflexão, retrato exigente e claro de um tempo que, mais de 25 anos depois, volta a estar na ordem do dia.
Como complemento nas leituras ao fundamental livro de Simon Reynolds podemos ler um A a Z, sistematizando, não só o pós-punk, como o próprio punk em Up Yours!: A Guide to UK Punk, New Wave and Early Post Punk, de Vernon Joyson (Borderline Productions). Igualmente sistematizado, Post-Punk Diary (1980-82), de George Gimarc (Saint Martin’s Press), propõe um diário dos acontecimentos, citando 900 bandas e três mil gravações (com um CD como complemento à leitura).
A lista de livros sobre este período é vasta, podendo uma pesquisa mais profunda pedir leituras sobre o punk britânico em England’s Dreaming, de John Savage (Faber & Faber) ou o punk nova-iorquino em From the Velvets to the Voidoids: A Pre-punk History for the Post-punk World, de Clinton Heylin (em edições pela Helter Skelter e pela Penguin Books). Um retrato do punk em declarações na primeira pessoa lê-se em Please Kill Me, de Legs McNeil e Gillian McCain (Penguin Books).
Para o documentários visual deste período dois livros podem merecer algum destaque, ambos disponíveis em lojas online. Um deles, Made In The Uk: The Music Of Attitude, 1977-83 (Powerhouse Cultural Entertainment Books), reúne uma série de fotos de Janette Beckman que, em 132 páginas, documentam factos e rostos dos dias do punk e os que se lhe seguiram, abarcando diversas culturas pós-punk em solo inglês sem esquecer o movimento 2-Tone, os novos mods e os skinheads. Essencialmente centrado na cultura neo-romântica, Duran Duran Unseen é, apesar do que o título possa sugerir, um magnífico retrato da cultura nocturna (e seus protagonistas) na Birmingham de finais de 70, através de fotos de Paul Edmond, sob design de Malcolm Marrett e Kaspar de Graaff.
NG




George Gimarc
Post Punk Diary, 1980-1982
Saint Martin’s Press
374 páginas



Vernon Joynson
Up Yours! – A Guide To UK Punk...
Borderline Productions
450 páginas



Paul Edmond
Duran Duran: Unseen
Reynolds & Hearn
144 páginas




THE FACE
A “Bíblia Da Moda”  Dos Anos 80


Sem Internet, a propagação das boas novas que as descendências do punk projectavam na música e periferias (leia-se, sobretudo, o mundo da moda) fez-se através da publicações especializadas. E nenhuma serviu tão bem os primeiros anos da década de 80 como a revista mensal The Face, (1980-2004), valor acrescentado ao jornalismo musical sobre o fenómeno pós-punk que, desde o seu aparecimento em1978, se lia nas páginas dos há muito extintos semanários Melody Maker e The Sounds, e do ainda sobrevivente (mas descaracterizado) New Musical Express.
A The Face surgiu em Maio de 1980, sob o comando de Nick Logan, um antigo editor do NME nos anos 70 que, pouco tempo antes, criara a mais juvenil Smash Hits. Com um design revolucionário (durante os primeiros anos a cargo de Neville Broudie) e uma divisão de atenções entre a música, a moda, uma ideia discreta de club culture (ainda na sua proto-história) e espaços de cultura alternativa em geral, rapidamente conquistou leitores, em pouco tempo carinhosamente rotulada como a “bíblia da moda dos anos 80”.
O número um deu capa aos Specials, o segundo entrevistava Paul Weller (então nos The Jam), o terceiro assinalava a morte de Ian Curtis. No sexto revelavam-se os Spandau Ballet e, um mês depois, olhava-se cautelosamente para o emergente movimento neo-romântico, então apresentado como “o culto sem nome”... Vivienne Westwood, Bow Wow Wow, Ultravox, Human League, a implantação do teledisco, Julian Cope, Yazoo ou Haircut 100, Smiths ou a fotografia de Bruce Webber, entre muitos, passaram pelas páginas da Face nos seus primeiros anos de vida, quando não tinha rival à altura, estatuto que perdeu na segunda metade da década.

NG






4.5.17

DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (10)


DN:música
Os melhores álbuns de sempre

[49] SÉTIMA LEGIÃO

MAR D’OUTUBRO



‘Mar D’Outubro’, o fundamental segundo álbum da discografia da Sétima Legião representou, em 1987, uma das mais importantes declarações de identidade portuguesa sob linguística pop/rock. Um absoluto clássico do seu tempo.

TÍTULO Mar D’Outubro
ALINHAMENTO Sete Mares / Noites Brancas / Noutro Lugar / Este Amor Que Nos Separa / Saudades / Baile (das Sete Partidas) / Além-Tejo / A Reconquista / Os Limites do Mar / Onde Tem Estado o Outono?
ANO 1987 (EMI)
PRODUTOR Ricardo Camacho

T: N.G.

Depois da explosão de 1980/81, na qual a grande novidade era o recurso ao português, os músicos puderam então respirar e pensar como descobrir um verdadeiro sentido de portugalidade com base numa linguagem com raízes reconhecidamente anglo-saxónicas. Os primeiros a fazê-lo foram os Heróis do Mar, numa abordagem temática, ideológica e iconográfica tão apurada e evidente que lhes valeu até equívoca interpretação. Seguiu-se-lhes António Variações, num encontro entre o cosmopolitismo pop e os cantos da Terra mãe, do folclore minhoto ao fado.
Um terceiro nome, a entrar em cena pouco depois, acabaria por conhecer um percurso de vida artístico que em si viu nascer a mais completa e representativa visão moderna e urbana da música que brotou deste solo. Tinham (e têm) nome de exército romano: Sétima Legião.
Se o mais recente Sexto Sentido (título fundamental da discografia portuguesa recente, editado em 1999) representou o culminar dessa demanda, definindo um conceito pop que expressa uma vivência que reconhece que o que somos hoje é também resultado do confronto do presente com toda uma genética cultural, o início de todo o processo remonta a um álbum que, como poucos, marcou o Portugal da segunda metade de 80.
A Sétima Legião tinha dado os primeiros passos num single que gerou culto (Glória, 1983) e num álbum que fez história 8ª Um Deus Desconhecido, 1984), ambos editados pela independente Fundação Atlântica. Foram Discos importantes, determinantes mesmo, mas reflectindo ainda mais os pontos de partida, as referências e paixões, que uma alma própria.
Essa emergiu de transformações não só estéticas mas também humanas no seio da banda, que de cinco passa a contar com oito elementos e um diferente naipe de instrumentos. Aléms dos veículos tradicionais em linguística pop/rock, a Sétima Legião mostra agora intensa relação com percussões, acordeão, gaita de foles e até mesmo uma guitarra portuguesa.

Mar D’Outubro, do qual nasceram clássicos como Sete Mares (que daria nome ao programa de Sílvia Alves na Antena 1) e Noutro Lugar, assim como espantosos depoimentos instrumentais em Noites Brancas ou Este Amor Que Nos Separa e ainda pujantes afloramentos de intensidade bebida na terra (de geografia portuguesa, mas projectada a Sul) em Saudade, Além-Tejo ou Reconquista materializou um novo e consequente sentido de identidade portuguesa na pop do seu tempo. Isto sem perder, no processo de reinvenção da sua música, as marcas de identidade e relação com os timoneiros estéticos de referência no seu tempo. Sem dúvida, um absoluto clássico de 80.





3.5.17

Kraftwerk - Crítica de Discos - "Minimum Maximum"


DNm: 10 de Junho de 2005

A MÁQUINA AO VIVO





O Documento áudio da inesquecível digressão mundial dos Kraftwerk que nos visitou em 2004 chega em ‘Minimum Maximum’. Um verdadeiro ‘Best Of’ de 36 anos de carreira gravado ao vivo.
T: N.G.
Apesar de terem protagonizado algumas digressões históricas nos anos 70 e inícios de 80 (está de resto registada em disco a Autobahn Tour de 1974, mais concretamente nos álbuns não oficiais Concert Classics e Autobahn Live), os Kraftwerk não foram, durante uma série de anos, grandes “amigos” da estrada. Nos últimos tempos, porém, têm corrido o mundo, com a mais espantosa experiência audiovisual de alta tecnologia que os palcos pop/rock alguma vez assistiram. Uma experiência que agora, a meio de uma digressão que continua na estrada, se regista em álbum.
Há um ano, a dias da sua estreia em concerto em Portugal, numa inesquecível noite de música no Coliseu dos Recreios, Ralf Hutter explicou ao DN que só agora a tecnologia disponível lhes permite concretizar em palco uma velha visão de conceito multimédia que há muitos anos alimentavam como cenário de sonho para os seus espectáculos. “Temos o nosso próprio estúdio, o Kling Klang Studio, que é como que um instrumento para os Kraftwerk. E agora, no seu novo formato digital, é mais portátil, pode viajar...”, contou. “Pela primeira vez podemos tocar a nossa música em sincronismo com gráficos gerados por computador ou imagens de vídeo, pinturas electrónicas... Tudo o que a tecnologia hoje permite! Estamos muito felizes porque nesta digressão mundial, podemos apresentar, finalmente, as coisas que queremos segundo uma visão que há muito tínhamos. Essa visão é, agora, para nós, uma realidade”.
Tendo o grupo nascido nos dias de 70 com uma filosofia e imagem de clara oposição aos padrões tradicionais pelos quais se edificavam os mitos rock’n’roll, a sua postura em palco nunca visou quaisquer intenções de assimilar os hábitos performativos do rock. Pelo contrário, os quatro elementos do grupo sempre se mantiveram quase inertes por detrás dos seus teclados e consolas, deixando que o movimento necessário ao acompanhamento da música se fizesse através do desenho de luz e de projecções. A digressão mundial que o ano passado vimos em Lisboa e, depois, num serão acidentado no Sudoeste, e que agora registam em disco, recorre ao que designam por protótipo móvel Kraftwerk 2002, um conjunto complexo de computadores e outras máquinas que gerem em sincronismo a performance musical e o lançamento no espaço de imagens e gráficos gerados por computador. Hutter sublinhou aqui que, desta maneira, a tecnologia do século XXI deu assim a resposta a velhas Ânsias do grupo: “Deu-nos ferramentas para poder tornar reais certas visões nossas. E também mobilidade, movimento... Sempre nos interessámos bastante pelo movimento, daí a conhecida velha fascinação pelo ciclismo.” Hutter recordou ainda que a busca deste sentido de mobilidade das suas ferramentas electrónicas representou uma das demandas fundamentais desde os primeiros tempos de vida do grupo. “Eu e o meu amigo Florian Schneider criámos o nosso Kling Klang Studio em 1970 e dispendemos então muito tempo na sua construção para que assim conseguíssemos ser independentes e autónomos”, lembrou.
“Mas os nossos primeiros sintetizadores eram enormes e estavam constantemente a desafinar. Eram muito caros... O nosso primeiro sintetizador foi tão caro como o meu Volkswagen, que é o que está na capa de Autobahn. Sendo estudantes, tínhamos então os nossos problemas naturais... O Florian desenvolveu então o nosso primeiro instrumento electrónico de percussão, a partir de um outro órgão meu. Um amigo nosso, que era pintor, trabalhava connosco pintando as capas dos discos... Envolvíamo-nos em inúmeros projectos além da música, num contexto multimédia electrónico. E agora estamos a fazer a rodagem mundial do nosso protótipo móvel Kraftwerk 2002. Hoje podemos viajar e ser como pilotos de ensaio para software electrónico relacionado com a música. Continuamos, hoje, a trabalhar com o mesmo engenheiro musical que nos acompanha, desde o The Man Machine... É um processo de continuidade...”.
Quem viu os concertos, sabe que fala verdade.
Com precisão germânica, os concertos começam sempre à hora marcada (o que no caso da actuação no Sudoeste acabou por não dar tempo para a reparação de uma má comunicação entre os computadores que geram as imagens e os ecrãs). Uma voz robótica anuncia que o espectáculo vai começar. E logo as cortinas se abrem para, ao som de The Man Machine, revelar os quatro elementos do grupo estáticos frente aos seus teclados. E, por detrás, um gigantesco ecrã por onde evoluem imagens digitalmente criadas, filmes vintage, referências claras às capas dos discos, palavras cantadas... Extensão directa do conceito total que é a arte dos Kraftwerk, o concerto materializa mais uma ideia de instalação musical electrónica, uma vez mais reinventando os Kraftwerk como um espaço de afirmação de uma identidade oposta à iconografia tradicional da cultura rock’n’roll. O alinhamento, invariável, passa por momentos do recente Tour De France Soundtracks (como Vitamin, Aero Dynamic, Elektro Kardiogramm e diversas variações em torno do clássico Tour DE France), como proporciona um coerente mergulho por um passado mítico, através da recuperação de peças-chave da história da música como Autobahn, Radioactivity (versão mista entre a original, de 1975, e a remistura de 1991), Trans Europe Express (com adenda Metal On Metal), The Model, Neon Lights, Computer World (e o complemento Home Computer), Numbers, It´s More Fun To Compute, Pocket Calculator, Dentaku, Music Non Stop ou o mais recente Expo 2000, na versão Planet Of Visions. No primeiro dos encores abandonam o palco deixando-o entregue aos seus célebres robots, numa magistral celebração do tema The Robots (novamente em versão “actualizada”, segundo a norma aplicada no álbum The Mix, de 1991).

Com o esperado perfeccionismo áudio que caracteriza todas as gravações do grupo, Minimum Maximum traduz em disco o mais espantoso concerto que os palcos nos deram nos últimos anos. E consegue, talvez pela força do alinhamento best of, resistir à ausência da imagem (afinal, o concerto era, como se afirmou já, uma experiência audiovisual). A possibilidade de edição do DVD que documenta esta mesma digressão está na agenda imediata do grupo. Seguir-se-á a reedição remasterizada da obra editada entre 1974 e o presente. Hutter explicou que este trabalho de restauro lhes ocupou parte do tempo nos últimos anos: “estivemos a trabalhar na adaptação aos formatos digitais de toda a música dos Kraftwerk. Tínhamos fitas muito antigas que se estavam a degradar e havia muito trabalho para fazer. Estivemos a transformar 33 anos de trabalho de arquivo dos Kraftwerk em formato digital. Hoje todos os sons originais estão disponíveis e vamos brevemente lançar versões remasterizadas de todos os nossos álbuns desde Autobahn. Essa edição vai chamar-se The Catalog. E o grafismo dos discos vai incluir ideias que não pudemos usar no passado”, adiantou. Venham elas!





2.5.17

DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (9)


DN:música
Os melhores álbuns de sempre
15.07.2005

[48]        THIS MORTAL COIL

 IT’LL END IN TEARS



Criado por Ivo Watts Russell para promover uma série de colaborações entre músicos da sua editora, os This Mortal Coil, logo no seu álbum de estreia, acabaram por representar o paradigma da identidade atmosférica que caracterizou o som da 4AD em meados dos anos 80.

TÍTULO It’ll End In Tears
ALINHAMENTO Kangaroo / Song To The Siren / Holocaust / Fyt / Fond Afections / The Last Ray / Another Day / Waves Become Wings / Barramundi / Dreams Made Flesh / Not Me A Single Wish
ANO 1984 (4AD)
PRODUTOR Ivo Watts Russell

Além de ter representado uma fundamental (e então urgente) revolução estética e pragmática, o punk foi também catalisador de importantes transformações no meio editorial, tendo, tal como a música, devolvido o poder “Às bases”. Na Inglaterra de finais de 70, pequenas independentes apareceram por todo o lado, muitas associadas a redes de distribuição alternativas e lojas nas quais se podiam encontrar os singles das novas bandas. Entre as editoras que vingaram e sobreviveram à ressaca do punk, a 4AD (ligada à Beggars Banquet) cresceu para se afirmar como uma das mais importantes casas editoriais de 80. Editou Bauhaus (no início), Cocteau Twins, Dead Can Dance, Wolfgang Press e tantos outros nomes que então desenvolveram o emergente conceito de música indie, marcando identidade também através das capas desenhadas por Vaughan Oliver. Coordenada por um melómano, Ivo Watts Russell, a editora 4AD gerou em 1984 um colectivo transversal às bandas do catálogo: os This Mortal Coil.
Materialização evidente do gosto de Ivo Watts Russell, os This Mortal Coil foram um projecto de editora, juntando em estúdio músicos de difeentes grupos, tendo editado uma magnífica trilogia de álbuns entre 1984 e 1991.
O primeiro dos álbuns, o genial It’ll En In Tears reuniu músicos como Lisa Gerrard e Brandan Perry dos Dead Can Dance, Elisabeth Frazer, Simon Raymonde e Robin Guthrie dos Cocteau Twins, Gordon Sharp dos Cindytalk, Howard Devoto (dos Magazine, banda não assinada pela 4AD), Martyn Young dos Colourbox e Robbie Grey dos Modern English, entre alguns outros. O álbum, paradigma do som atmosférico que fez escola na 4AD em meados de 80, é uma pérola de bom gosto, subtileza melódica e riqueza textural.

Muitos recordam hoje o disco pela sublime e arrebatadora versão de Song To The Siren (de Tim Buckley) na voz de Elisabeth Frazer, um daqueles raros casos em que a versão supera o original (tendo David Lynch reconhecido ter servido de inspiração à sua aventura musical com Julee Cruise alguns anos depois) ou pelas não menos cativantes novas leituras de Kangaroo e Holocaust de Alex Chilton (dos Big Star) ou Not Me de Colin Newman. Mas It’ll End In Tears (tal como o álbum seguinte, Filigree And Shadow, de 1986) vale como um todo (que aacaba até por diluir em si as diferentes partes). A sucessão de canções define um percurso plácido por sonhos para voz e instrumentação quase ambiental, criando atmosferas de melodismo subtil e canções de complexa arte final numa linha próxima da que então tomava o rumo da obra dos Cocteau Twins e Dead Can Dance (claramente os pólos estéticos protagonistas nesta etapa dos This Mortal Coil).





30.4.17

DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (8)


DN:música
Os melhores álbuns de sempre
17 de Junho de 2005


[44] HERÓIS DO MAR

HERÓIS DO MAR


No meio da euforia editorial que caracterizou o Portugal Pop/Rock de inícios de 80 um álbum destacou-se dos demais e fez história. Apresentou os Heróis Do Mar e com eles conhecemos um verdadeiro sentido de portugalidade em regime pop que ainda hoje tem herdeiros na cena musical nacional

TÍTULO Heróis do Mar
ALINHAMENTO Brava Dança dos Heróis / Amantes Furiosos / Magia Papoila / Salmo / Bailar / Olhar No Oriente / Mar Alto / Saudade
ANO 1981 (edição Philips / Universal)
PRODUTOR António Pinho

T: Nuno Galopim

O Portugal musical de 1980/81 era um caldeirão em ebulição, entusiasmado com a descoberta da composição (e viabilidade no mercado) de uma música pop/rock feita em português. Depois dos sucessos iniciais de Rui Veloso, UHF, GNR, Táxi e Salada de Frutas, novas bandas, novos singles, surgiam a um ritmo alucinante, respondendo a uma procura igualmente ávida. Contudo, entre discos que denunciavam essencialmente um sentido de urgência prático, um acabou por se destacar pela inteligência formal, pela musicalidade atenta, actual e oportuna, pela ousadia estética, inscrevendo definitivamente um real sentido de portugalidade numa linguagem pop/rock. Chamou-se Heróis do Mar e revelou, em 1981, uma das mais marcantes bandas da história da música popular portuguesa.
Já havia antecedentes esteticamente estimulantes entre os elementos do grupo, alguns deles recém chegados da discreta (mas temporalmente consequente) aventura punk nos Faíscas e sua descendência natural nos Corpo Diplomático, banda cujo único e histórico álbum (Música Moderna, de 1979 e ainda por reeditar em CD) apresentava um título que sugeria a chegada de uma ideia de modernidade à pop portuguesa.
Firmes numa intenção política (leia-se ideário filosófico prático e não manifestação partidária) de dotar o país e uma nova geração de uma música “sua”, o disco nasce de longo período de reflexão durante o qual a atenção dos músicos pelos acontecimentos mais recentes da pop internacional se cruzou com leituras sobre a História de Portugal, preparação conceitual para um manifesto que desejou mudar a música portuguesa. E como mudou!
Num tempo ainda ecoando excessos revolucionários e receios perante inevitáveis e marcantes símbolos nacionais, numa altura em que se falava do futuro e parecia esquecer o passado, a música e atitude dos Heróis do Mar catalisou uma verdadeira revolução de mentalidades. Cruzou raízes da música portuguesa (e inclusivamente de África, como se escuta em Saudade) com a linguagem pop do momento, despertando um sentido de orgulho pela identidade cultural que fez carreira depois em diversos projectos musicais nacionais, da Sétima Legião aos Madredeus (vida posterior de Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade, respectivamente baixista e teclista dos Heróis do Mar).

Musicalmente arrebatador perante o restante cenário pop imberbe da época, ideologicamente consequente, colocou no mapa pop uma nova forma de ouvir Portugal). O terror perante certos símbolos (a cruz de Cristo, as fardas), valeu-lhes as suspeitas de alguns. Derrubadas, um ano depois, pelo êxito transversal de Amor.








21.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (19)



DN - Diário de Notícias
3 Agosto 2002

Discos Pe(r)didos


Apesar da curta expressão e limitada duração em que se manifestou entre nós, a «new wave» chegou mesmo assim a conhecer alguns dignos representantes. Um deles, foi caso inesperado, nascendo de um grupo com importante projecção no panorama «progressivo» na recta final de 70: os Tantra.
Uma das maiores forças da música rock feita em Portugal na segunda metade de 70, os Tantra surgem em 1976 da reunião de Manuel Cardoso (que tinha já passado pelos Beatnicks), Armando Gama, Américo Luís e Tozé Almeida, editando logo nesse ano o single «Alquimia da Luz». Um ano depois, o álbum «Mistérios e Maravilhas» (já disponível em CD) revelava a maioridade de um som rock de cenografia sinfónica e alma «progressiva», constituindo imediatamente um fenómeno, que se cimenta num tempo de desertificação na cultura pop/rock lusitana.
São, ainda nesse ano, o primeiro grupo rock português a encher o Coliseu dos Recreios, feito que repetem, em 1978, no concerto de apresentação do segundo álbum, «Holocausto» (recentemente reeditado em CD), evolução natural do disco de 1977.
Quando o grupo regressou ao Coliseu, em 1978, já Armando Gama havia saído (para formar os Sarabanda, com Kris Kopke), sendo então substituído, nas teclas, por Pedro Luís. Segue-se então um tempo de longo silêncio, durante o qual se começam a manifestar sinais de mutação interna, que levam ao afastamento de Américo Luís.
Estávamos na viragem de década, e nomes como os de Rui Veloso, UHF, Salada de Frutas, GNR, Jáfumega e Táxi começavam a mostrar um novo som rock cantado em português ao qual aderiam, como nunca antes, as rádios e público. Numa decisão contra-corrente, tal como então se verifica em grupos como os Roxigénio e Arte e Ofício (estes já com tradição no recurso ao inglês), os Tantra abandonam a língua portuguesa. E, reduzidos a três elementos, contando com a colaboração de «Dedos Tubarão» (Pedro Ayres Magalhães), dos Corpo Diplomático, editam em 1981 o terceiro álbum, «Humanoid Flesh».
O disco causou acesa polémica, sobretudo por acender a chama da discórdia na classe «crítica» de 70, mais dada a elogiar os sinfonismos de «Mistérios e Maravilhas» e «Holocausto» que as novas canções de dinâmica rítmica mais evidente e recorte «new wave» com o qual o grupo se apresentava. Todavia, a rejeição não chegou apenas da «crítica», já que o público acabou também por ignorar este terceiro disco dos Tantra, que pecava por «erro» estratégico de «timing» ao adoptar o inglês numa altura em que as multidões descobriam e abraçavam um novo rock (mesmo mais «quadrado») cantado em português. A opção pelo inglês foi então justificada por Manuel Cardoso (já a responder como Frodo) numa entrevista ao «Se7e», onde explica que uma luzinha lhe dissera que Deus não passaria os discos dos Tantra no Paraíso, se estes cantassem em Português.
«Humanoid Flesh» tem os seus méritos. Musicalmente é um interessante manifesto estético de um movimento tangencial Às linhas de força pop/rock lusitanas na alvorada de 80. E não só exibe um lote de canções interessantes (algumas a revelar uma proximidade estranha com o som dos Classix Nouveaux), como ousa transformar os «Verdes Anos» de Carlos Paredes, naquela que é uma das mais interessantes manifestações de homenagem do rock português ao grande mestre.
O fracasso do álbum acabaria por determinar o fim do grupo. Frodo seguiu carreira a solo. Tozé Almeida juntou-se aos Heróis do Mar. E Pedro Luís formou os Da Vinci.
N.G.

TANTRA
«Humanoid Flesh» 
LP Valentim de Carvalho, 1981
Lado A: «Girl In My Head», «Crazy Rock’N’Roll», «What Have Your Eyes Done To Me?», «Magic», «Verdes Anos»; 
Lado B: «Dangerous Works», «Humanoid Flesh», «Just Another Lie», «African Sands»

Produção: Tantra e SR






20.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (18)


DN - Diário de Notícias
29 Junho 2002

Discos Pe(r)didos


Emigrado para França depois de uma recusa em combater na Guerra Colonial, Luís Cília é um entre uma “família” de músicos portugueses que desviam de Lisboa para Paris o palco de criação de alguns dos mais importantes discos que a língua portuguesa conheceu na década de 60. É em Paris que conhece figuras como as de Paco Ibanez, Colette Magny, Georges Brassens, Luigi Nono... É também em Paris que enceta a sua obra discográfica, com o fundamental “Portugal-Angola: Chants de Lutte” (editado em 1964 pela Chant du Monde).
Ainda durante a década de 60 edita “Portugal Resiste” (um EP) e os três álbuns da série “La Poèsie Portugaise”. Em 1969 assina “Avante Camarada”, canção que, gravada por Luísa Basto, se transformaria depois no hino do PCP. E, ainda antes do regresso a Portugal, grava e edita “Contra A Ideia da Violência, a Violência da Ideia”, disco que assinala o seu reencontro com a Le Chant du Monde.
Quatro dias depois do 25 de Abril, Luís Cília regressa a Portugal e logo causa polémica ao afirmar que Alfredo Marceneiro era um cantor revolucionário. A ligação que era feita, pela turba revolucionária, entre o fado e o regime deposto, não permitia a aceitação deste tipo de opinião de bom grado.
A demarcação mais efectiva ainda de Luís Cília face a alguns excessos desses tempos ganhou forma naquele que foi o primeiro álbum editado após a revolução. Sem embarcar na multidão que então fazia do canto de intervenção a linguagem musical do Portugal de todos os dias, Luís Cília procura reunir num disco uma colecção de romances antigos, os mais recentes datados do século XIX, os mais remotos do século XIII!
Para o processo de recolha não recorreu aos trabalhos de Michel Giacometti e Lopes Graça (duas referências já devidamente reconhecidas), mas antes a uma busca em nome próprio, para tal socorrendo-se do acervo da biblioteca da Fundação Gulbenkian em Paris, na qual consultou uma série de cancioneiros. De uma série de trabalhos de recolha que vinham de antes do 25 de Abril nasceu a ideia de um álbum que, no agitado 18«974, rumou então contra a corrente.
Para a concretização do projecto, Luís Cília regressou a Paris. Por companhia levara, de Portugal, o produtor executivo José Niza, nomeado pela Orfeu, com quem o músico havia assinado. Na capital francesa tinha todos os músicos que julgara necessários para dar forma ao projecto. Em primeiro lugar o guitarrista clássico Bernard Pierrot, que Cília conhecia por ter sido, também, aluno do seu professor de composição Michel Puig. Pierrot assinou os arranjos e, com o seu grupo de música antiga, participou na gravação de “O Guerrilheiro”, cujas sessões tiveram lugar nos estúdios Sofreson, em Paris.
Disco esquecido, importante registo de referência de uma atitude muito particular perante a recolha do legado da música tradicional portuguesa, “O Guerrilheiro” deu à Intersindical o seu hino, mais concretamente na música do tema-título (originalmente uma canção alentejana do século XIX, aparecida em 1852, por ocasião das lutas civis de Patuleia e Maria da Fonte).
Oito anos depois (em 1982), Luís Cília voltou ao estúdio, onde regravou as partes vocais do álbum que, então, a Sassetti reeditou com o título “Cancioneiro”. Todavia, nem esta versão de 1982, nem a histórica versão original, tiveram ainda luz verde para a reedição em CD.
Teremos ainda de esperar muito?
N.G.

LUÍS CÍLIA 
“O Guerrilheiro” 
LP ORFEU, 1974
Lado A: “O Adeus d’um Proscrito”, “O Conde Ni#o”, “Flor de Murta”, “A Guerra do Mirandum”, “O Conde de Alemanha”; 
Lado B: “D João da Armada”, “Canção do Figueiral”, “D. Sancho”, “O Guerrilheiro”
Produtor delegado: José Niza






19.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (17)



DN - Diário de Notícias
13 Julho 2002

Discos Pe(r)didos



Os cenários de explosão rock que os portugueses viveram entre os finais de 70 e inícios de 80 representaram, por si, as razões fundamentais pelas quais se explica o fraco desenvolvimento dos fenómenos de ligação das electrónicas à música pop entre nós. Com uma cultura pop/rock a viver, em jeito de concentrado de acontecimentos, 20 anos de desenvolvimento atrasado, os primeiros dias da década de 80 conheceram um estranho efeito de salada russa na produção discográfica nacional, juntando estéticas já antigas a fracções mais discretas de modernidade.
E é entre alguns destes mais ousados projectos que irrompem as electrónicas, usando-as uns como mero tempero para uma refeição pop/rock com guitarra, baixo e bateria, poucos tendo sido os que apostaram de facto numa identidade «electro pop», que então conhecia messias não só nos alemães Kraftwerk, mas na interessante multidão de projectos que entrava em cena em Inglaterra (Human League, OMD, Depeche Mode, Yazoo, entre outros, todos eles com considerável exposição na rádio portuguesa de então e grande aceitação entre os mais novos). Nesta localização temporal convém ainda recordar que, na época, os teclados e electrónicas eram olhados de soslaio pelos partidários das guitarras, estes acusando as novas tecnológicas de ser música fácil, automática, o que conferia às bandas electrónicas uma espécie de alvo imediato do gozo dos espíritos mais duros de ouvido... Birra hoje resolvida, naturalmente.
É certo que os Tantra usavam já sintetizadores (particularmente no derradeiro «Humanoid Flesh», de 1980). O mesmo se verificava nos Salada de Frutas («Robot», 1980), nos Heróis do Mar («Brava Dança dos Heróis» / «Saudade», single de estreia em 1981), assim como em alguns outros mais projectos. As electrónicas tomaram até protagonismo evidente em «Foram cardos Foram Prosas» de Manuela Moura Guedes (produção de Ricardo Camacho para um belo single em 1981).
Em 1982, uma série de projectos exclusivamente electrónicos entram em cena no panorama português, reflectindo não só uma maior abertura da rádio e editoras a estas estéticas, como sublinhando o que fora a adesão dos portugueses a canções como «Just Can’t Get Enough» dos Depeche Mode ou «Open Your Heart» dos Human League no ano anterior. Com «Lisboa Ano 10 Mil» e «Fantasmas», os Da Vinci apresentam-se com um projecto esteticamente coerente e musicalmente apoiado pela experiência de um ex-Tantra e de um músico de Jazz. No mesmo ano apresentam-se ainda Tó Neto (o Jarre português, com o álbum «Láctea»), Carlos Maria Trindade (Heróis do Mar) edita, a solo, «Princesa», Frodo lança «Zbaboo Dança»... Mais tarde haverá ainda que ter em conta o single «Estou Além» de António Variações (1983), «Como Um Herói» (1984) do projecto Stick (de Sérgio Castro e António Garcês), os Poke, de Quico, que em 1984 editam o fundamental máxi-single de pop electrónica «Digitalmente Afectivo», e a aventura pop de Ana Paula Reis «Utopia» (1984).
Formados também em 1982, os Ópera Nova começaram por ser um trio constituído por Luís Beethoven, Manuel Andrade Rodrigues e Pedro Veiga, todos eles estudantes, entre os 18 e 20 anos. Com imagem apurada pelo costureiro Zé Pedro apresentam-se em 1983 com o máxi-single «Sonhos», que juntamente com o disco dos Poke e o álbum «Caminhando» (1983) dos Da Vinci, representa a essência do breve movimento electro pop português de 80. Os Ópera Nova apresentam uma música tecnicamente apurada, na qual se cruzam referências dos OMD e Visage (atenção ao «lettering» na capa). Braunyno da Fonseca substitui, pouco depois, Manuel Rodrigues. Luís Beethoven afasta-se mais tarde. Editam ainda «México», single menor de 1984, e desaparecem do mapa.
N.G.

ÓPERA NOVA 
«Sonhos» 
máxi-single, Polydor, 1983

Lado A: «Sonhos» (versão longa); 
Lado B: «Luar», «Palavras» 
Produção: Carlos Maria Trindade









18.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (16)



DN - Diário de Notícias
27 Julho 2002

Discos Pe(r)didos


Tal como o californiano Darin Pappas nos anos 90 (ver entrevista ao lado), Sheila Charlesworth encontrou em Portugal os estímulos que a levaram a encetar uma carreira na música. Nascida em Toronto (Canadá) em 1949, viveu parte da infência e juventude em Montreal, onde conheceu os primeiros sucessos como actriz e modelo.
Por ocasião de uma viagem a França, em 1970, assiste em Paris a uma representação do musical «Hair», e algum tempo depois faz parte do elenco, como actriz. É aí que conhece Sérgio Godinho, com quem terá uma relação pessoal e em quem conhecerá um importante parceiro musical. Em 1971, Sheila participa nas gravações de «Os Sobreviventes», álbum de estreia de Sérgio Godinho, no qual surge depois creditada com «coros, sanduíches e amor».
Com Sérgio Godinho vive, então uma série de episódios históricos. Juntam-se ao Living Theatre (com o qual vivem o «caso» brasileiro de 71, com dois meses de prisão em Ouro Preto), residem temporariamente em Amsterdão, regressam a Paris para gravar «Pré-Histórias» e, em 1972, partem para o Canadá onde casam e se dedicam ao teatro.
Já com a filha Jwana, o casal regressa definitivamente a Portugal. Sheila colabora então numa série de discos: «À Queima-Roupa» (Sérgio Godinho, 1974), «Semear Salsa Ao Reguinho» (Vitorino, 1975), «De Pequenino Se Torce O Destino» (Sérgio Godinho, 1976), «Fernandinho Vai Ao Vinho» (1976)...
Em 1977 grava finalmente, então já com o nome artístico de Shila, um álbum de canções que conta com um lote de colaboradores de luxo já que, além de Sérgio Godinho, estão presentes Fausto, Carlos Zíngaro, Júlio Pereira, Paulo Godinho (ex-Pop Five Music Incorporated), Guilherme Scarpa, Francisco Fanhais e uma bem jovem Eugénia Melo e Castro. O disco, que receb por título «Doce de Shila» é um magnífico conjunto de canções, a maior parte delas da autoria de Sérgio Godinho (duas em colaboração com Carlos Zíngaro, uma num trabalho conjunto de adaptação de um tema popular com Fausto), uma de Júlio Pereira e uma de Fausto (sobre poema de Reinaldo Ferreira). Os arranjos são assinados por Godinho e Fausto, à excepção de «Entre a Flor e a Enxada», de Júlio Pereira.
Tiveram particular exposição os temas «Chula» (tradicional, com letra adaptada e transformada por Sérgio Godinho e Fausto, dando origem ao conhecido refrão «P’ra melhor está bem está bem / P’ra pior já basta assim») e «Mais Um Filho». Contudo, o «caso» deste álbum será inevitavelmente o tema de abertura: «Espectáculo». Esta corresponde à primeira gravação de um tema que Sérgio Godinho gravou, mais tarde em «Canto da Boca» e que, recentemente, conheceu nova leitura na colaboração com os Clã para o espectáculo (e disco) «Afinidades». Um ainda suave e delicioso «sotaque» pontua, todavia, esta versão original de Shila, num momento histórico ainda à espera de passaporte para a era digital.
Nos anos seguintes, Shila gravaria ainda o álbum «Lengalengas e Segredos» (editado em 1979) e ainda alguns singles. Dedica-se essencialmente ao teatro antes de, já em 1990, abandonar definitivamente a vida artística.
N.G.

SHILA
«Doce de Shila» 
LP, Lá Mi Ré (1977)
Lado A: «Espectáculo», «Chula», «Doce de Shila», «Mais Um Filho», «Entre a Flor e a Enxada»;
Lado B: «Rapa Tira Deixa e Põe», «Parteira do Mar», «Dança de Amargar», «Rosie», «Gente Assim».

Engenheiro de Som: José Fortes






DN - Série: Discos Pe(r)didos (15)



DN - Diário de Notícias
08 Junho 2002

Discos Pe(r)didos



Da revolução de 1980/81, quando na sequência dos êxitos de Rui Veloso, dos UHF, GNR, Trabalhadores do Comércio e Salada de Frutas se instituiu uma espécie de nova ordem de gostos e prioridades, colocando o novo pop/rock cantado em português na primeira linha dos objectivos, nasceu um verdadeiro cenário de explosão demográfica no panorama musical lusitano.
Grande parte das carreiras emergentes usavam o single como veículo de exposição ideal para as suas canções, raros sendo os casos de grupos e artistas que apostaram em primeiro lugar no formato de álbum. Rui Veloso, Táxi e Opinião Pública são raros casos de apostas no LP, dele nascendo, depois, os inevitáveis singles.
O clima de euforia colectiva que o meio pop/rock então vivia levou a que muitas pequenas editoras se aventurassem na edição de rock português. Afinal, nada mais que a aplicação (à nossa escala) de princípios que a revolução punk e a continuidade via new wave tinham impresso recentemente À bem nutrida indústria discográfica inglesa. Entre as pequenas editoras que então entram em cena destaca-se a Rotação, na qual o homem do leme era António Sérgio (já então um conhecido divulgador na rádio e com provas já prestadas na edição discográfica, nomeadamente como co-produtor, em 1979, de «Música Moderna», o álbum dos Corpo Diplomático, isto sem esquecer a «famosa» compilação «Punk Rock 77»).
A «bandeira» da Rotação era, naturalmente, a estreia discográfica dos Xutos & Pontapés, que ali editaram os dois primeiros singles «Sémen» (1981) e «Toca e Foge» (1982), bem como o álbum de estreia «78/81» (também em 1982). Perante o cenário de investimento que caracterizava todos os pólos de edição na altura, a Rotação avança pelo ano de 1982 com uma série de novos nomes: Mau Mau, com o single «Xangai», Tânger, com o single «Zé, Zé Ninguém», Manifesto com o single «Nuclear (À Beira Mar)». A estes juntam-se ainda os Malaposta e os Sub-Verso... Todavia, nenhum dos grupos da Rotação, à excepção dos Xutos & Pontapés, conhecem tamanha expectativa interna e alguns resultados concretos como os Opinião Pública, uma banda, de certa forma, «apadrinhada» pelos UHF.
No quarteto, constituído por Carlos Estreia (voz, guitarra), Pedro Lima (guitarra), Luís Fialho (baixo, teclas) e Carlos Baltasar (bateria), António Sérgio identificara um caso de possível complementaridade pop aos Xutos & Pontapés. A estreia faz-se com «Puto da Rua», canção que imediatamente chega à rádio e tira os Opinião Pública do anonimato e apresenta o álbum «No Sul da Europa», com o qual o grupo faz a sua estreia (encetando uma discografia que receberia depois, apenas, o single «Puto da Rua»).
Se nos Xutos & Pontapés António Sérgio «ousara» um lugar na produção, com os Opinião Pública cede a cadeira a António Manuel Ribeiro (dos UHF) e à própria banda. De som seguro e muito característico. Das estéticas da altura, «No Sul Da Europa» é um interessante (e quase esquecido) documento do rock português de inícios de 80, dividindo as canções entre momentos de puro prazer de uma pop lúdica (como «Ritmo de Vida» ou «Walkman», e alguns retratos de cenas do quotidiano urbano de então (de que são bons exemplos «Puto da Rua» e «Subúrbio»).
Apesar de coerente e significativamente mais interessante que grande parte dos demais estreantes seus contemporâneos, os Opinião Pública, tal como todo o restante catálogo da Rotação (à excepção dos Xutos & Pontapés), desapareceram entre as primeiras vítimas da crise de 1982/84, uma das mais «mortais» da história pop/rock cantada em português.
N.G.

OPINIÃO PÚBLICA
«No Sul da Europa»
LP Rotação
Lado A: «Ritmo de Vida», «Sem Destino», «Sul da Europa», «Puto da Rua», «Na Terra»;
Lado B: ««Walkman», «Cumprindo As Regras», «Duplo Controle», «Subúrbio»
Produção: António Manuel Ribeiro e Opinião Pública






17.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (14)



DN - Diário de Notícias
25 Maio 2002

Discos Pe(r)didos


A alvorada de uma cultura alternativa na música portuguesa é uma das mais importantes conquistas da segunda geração de 80. Depois de aberto o espaço à explosão de uma cena pop/rock local, em grande parte cantada em português (mesmo que plena de referências estéticas importadas), a segunda «leva» de acontecimentos no Portugal musical de 80 fez coexistir um tempo de ressurgimento de músicas de raiz tradicional com um surto de criatividade urbana ciente de uma vontade em romper as formas mais imediatas pelas quais se haviam definido os primeiros traços de uma identidade pop/rock lusitana.
Graças ao aparecimento de novos espaços de ensaio e apresentação pública de projectos (e aqui é inevitável a referência a um Rock Rendez Vous em Lisboa e um Luís Armastrondo no Porto), fruto também da abertura de estúdios de gravação, e, muito importante, a criação de alguns programas (poucos) na rádio e novos veículos de jornalismo musical escrito, uma cultura alternativa começa a brotar de forma evidente entre nós.
Sob a batuta de João Peste, na altura já um nome de respeito ca cena «alternativa» local, graças ao trabalho dos Pop Dell’Arte, a Ama Romanta é uma entre as várias editoras independentes que se aventuram no mercado discográfico português de meados de 80. DE 1986 a 1991 a actividade da editora será irregular nos tempos de agenda, mas determinante no lançamento e abertura de horizontes. De resto, ao revisitar o seu catálogo contamos com discos dos Pop Dell’Arte (o máxi «Querelle», o single «Sonhos Pop» e o LP «Free Pop», em 87, o máxi «Illogik Plastik», em 89, e o CD «Arriba Avanti! Pop Dell’Arte», em 91), Mão Morta (o álbum «Mão Morta», em 88), Mler Ife Dada (o single L’Amour Va Bien Merci», em 86), Cães Vadios (o single «Cães Vadios», em 87), Anamar (o máxi «Amar Por Amar», em 87), Projecto Som Pop (com o álbum «Pipocas», em 88), Sei Miguel (os álbuns «Breaker», em 88, «Songs About Terrorism», em 89) e «The Blue Record», também em 89), Telectu (o álbum «Camerata Electronica», em 88), Tozé Ferreira (o álbum «Música de Baixa Fidelidade», em 88), Nuno Canavarro (o fundamental «Plux Quba, em 89), Santa Maria Gasolina em Teu Ventre (o álbum «Free Terminator», em 89) e João Peste e o Axidoxibordel (o único EP, em 90).
O catálogo da Ama Romanta abriu, contudo, com uma compilação. Uma espécie de carta de intenções na qual tanto encontrávamos projectos e nomes que depois permaneceram ligados à editora, como projectos expressamente gerados para as gravações ali registadas e casos que seguiram, depois, vida própria, em outras paragens.
Nomes de proa da cena «alternativa» portuguesa de meados de 80 juntam-se no disco (duplo) que mais fielmente ilustra movimentações diferentes, algumas com descendência, outras episódios únicos.
Momento inesperado e curioso na compilação, uma entrevista de João Peste a Paquete de Oliveira (com música do próprio João Peste) conduz-nos por uma série de importantes reflexões, hoje incrivelmente ainda com mais sentido que em 86. Com texto e contexto, «Divergências» é «o» retrato mais completo da cultura musical alternativa do Portugal de meados de 80, com algumas das suas faixas entretanto reeditadas na compilação «Sempre», retrato de fragmentos da história da Ama Romanta editada pela Música Alternativa em 1999.
N.G.

VÁRIOS 
«Divergências» 
LP duplo, Ama Romanta, 1986
Lado A: Bastardos do Cardeal, Mler Ife Dada, Jorge Martins, Miguel Morgado + Nuno Rebelo + Pedro Mourão, A Jovem Guarda; 
Lado B: Entrevista a Paquete de Oliveira, Pop Dell’Arte, Os Cães A Morte e o Desejo, Mário e Peter, Maguedesi; 
Lado C: Anamar, SPQR, Croix Sainte, Nuno Rebelo, Extrema Unção; 
Lado D: Bairro, Grito Final, João Peste, Bye Bye Lolita Girl, Essa Entente, Linha Geral
Colectânea organizada por João Peste e Maria João Serra










14.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (13)



DN - Diário de Notícias
11 Maio 2002

Discos Pe(r)didos


Tinham passado quase dez anos sobre o momento no qual os GNR conheceram a sua segunda mudança de formação. Em finais de 1982, depois de concluído e editado o fundamental e histórico «Independança» (ainda à espera de reedição em CD, tal e qual o sucessor «Defeitos Especiais», de 1984), Vítor Rua junta-se a Jorge Lima Barreto para concluir «CTU», o álbum de estreia dos Telectu, o novo duo constituído por ambos, no qual se desenhavam rumos de fuga aos passos pop/rock nos quais Vítor Rua circulara até então. Depois de editado o álbum dos Telectu, Vítor Rua e Toli iniciam o trabalho de produção de «Anjo da Guarda», o LP de estreia de António Variações, para a Valentim de Carvalho, editora dos GNR e, até esse momento, também dos Telectu. Vítor Rua abandona o trabalho no disco de Variações e parte para Nova Iorque. Ao regressar propõe uma pausa nos GNR, o que não agrada aos restantes elementos do grupo. Decide, então, afastar-se e seguir rumo próprio...
Apesar da separação, um diferendo oporá, durante anos, Vítor Rua aos restantes elementos dos GNR. Um diferendo que parte da questão da posse dos direitos do nome do grupo, que ficam pelo lado de Reininho, Toli e Alexandre Soares. A 15 de Fevereiro de 1983, Vítor Rua escreve, no «Sete», um texto no qual explica ser ele o proprietário do nome GNR e proíbe o grupo de tocar ao vivo as composições que ele escrevera para a banda...
Um novo episódio deste complicado caso tem lugar quando os GNR editam, em 1990, o duplo álbum ao vivo «In Vivo», gravado num concerto na Alameda D. Afonso Henriques. O disco incluía «Hardcore (1º Escalão)», «Portugal na CEE» e «Sê Um GNR», todos eles interditados por Vítor Rua junto da SPA. A primeira edição esgota, e é substituída por uma outra que passa a incluir «Homens Temporariamente Sós»... A primeira edição é hoje uma peça disputada no circuito de coleccionismo.
Um ano depois, num momento de pausa no trabalho dos Telectu, Vítor Rua edita um disco através do projecto Vidya e um outro através de um nome que gera nova polémica: Pós-GNR.
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja», apresentado aos media numa conferência de imprensa na sede da PolyGram, onde se voltou a levantar o velho drama dos direitos de utilização do nome GNR, é um disco no qual Vítor Rua procura um interessante reencontro com as linguagens pop/rock. Depois de quase uma década de experimentação noutros territórios, o reencontro faz-se segundo regras distintas das que os próprios GNR tomaram, procurando antes um entendimento entre formas da cultura popular e elementos da invenção «livre» característica de correntes de vanguarda, temáticas de decadência, da vida na grande cidade... De certa forma, «Mimi Tão Pequena e Tão Suja» procura ser uma herança, distante, das pistas deixads em aberto no álbum de estreia dos GNR, reencontradas e encaradas por um músico que, entretanto, acumulara outros hábitos e percursos. Esta ideia de continuidade é sublinhada por temas como «Hardcore II» e «Independança II»... Curiosamente, não se encontram aqui marcas notórias de descendência de «Avarias»...
Com alguns bons momentos em canções como «In The City» ou «City Of Love», o álbum passa a Leste das atenções, não só do público mas também de muitas estações de rádio. Exactamente o cenário oposto ao que receberia, um ano depois, «Rock In Rio Douro», dos GNR.
Em 1996, cinco anos depois deste único álbum sob o nome Pós-GNR, Vítor Rua surgia (assim como Alexandre Soares) na festa de lançamento do «best of» dos GNR. Pazes feitas, conflito sarado. A música agradece.
N.G.

PÓS-GNR 
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja» 
LP, PolyGram
Lado A: «In The City», «City Of Love», «Very Speed Song», «Hardcore II», «Speak With Me Please», «Nothing», «Independança II»; 
Lado B: «Junkie Fly», «Wars Of Fights», «Scales Of Solos», «Strange Perception», «The Next Album...» Produção: Vítor Rua






13.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (12)



DN - Diário de Notícias
06 Abril 2002

Discos Pe(r)didos


Lisboa, 1984. Com quatro anos de vida, o Rock Rendez Vous (RRV) encetava um certame que se transformaria, em pouco tempo, numa espécie de ex-libris da «casa»: o Concurso de Música Moderna. Fruto de um momento de fervilhante agitação nos espaços da criação e divulgação de uma emergente ideia de música alternativa portuguesa. Resultado, por um lado, de uma natural resposta dos músicos à implosão do mercado mais «oportunista» de 1982 e, por outro, da solidificação de importantes espaços de divulgação na rádio (Comercial e Renascença) e imprensa («Sete» e, mais tarde, já em finais de 1984, a entrada em cena de uma publicação de especialidade: o «Blitz»), um novo mundo de bandas e conceitos aguardava a abertura de uma janela. E assim aconteceu, na Rua da Beneficência ao Rego.
Para a primeira edição do Concurso de Música Moderna do RRV inscreveram-se um total de 101 bandas, das quais 24 foram seleccionadas, seis delas apuradas, depois como finalistas... Na final eram jurados António Sérgio (Rádio Comercial), Ana Cristina (Rádio Comercial), Rui Pêgo (Rádio Renascença), Ana Rocha («A Capital»), João Gobern («Sete»), Amílcar Fidélis («Diário Popular»), António Manuel Ribeiro (UHF), Manuel Cardoso (Frodo), Zé Pedro (Xutos & Pontapés) e João Santos Lopes (RRV). Vencedores... os Mler Ife Dada.
Formados poucos meses antes, os Mler Ife Dada eram, nesta sua primeira formação, Nuno Rebelo (baixo), Pedro d’Orey (voz) e Kim (guitarra) e mostraram desde logo, nas eliminatórias e final do concurso do RRV, uma ideia de franca identidade e personalidade tanto no som como na imagem, deles nascendo (de facto), a mais sólida proposta em competição.
Como parte do prémio, coube ao grupo a hipótese de registar um primeiro disco, gravado pouco depois nos estúdios da Rádio Triunfo, com Paulo Junqueiro (hoje A&R nacional da EMI-VC) e produção de Nuno Canavarro (ex-Street Kids, tal como Nuno Rebelo).
«Zimpó», o máxi-single com o qual os Mler Ife Dada assinalam, em inícios de 1985, a sua estreia editorial, é um interessante representante da ponta do icebergue de uma multidão de projectos que procuravam então novas formas na vanguarda de uma «nova» música portuguesa (chamavam-lhe «moderna» na época).
O disco é constituído por apenas três temas, o primeiro dos quais (o tema-título)  ainda hoje recordado como uma das pérolas esquecidas da pop alternativa lusitana de 80, fluente na estrutura rítmica, animado e conduzido por uma guitarra que tanto citava os Durutti Column como parecia assumir a essência antiga da guitarra portuguesa. Na face B do máxi-single apresentavam-se dois temas cantados em inglês, cativantes, mas em nada comparáveis a «Zimpó».
Complemento fundamental às três canções apresentadas no disco, a capa do máxi-single é mais uma clara manifestação das intenções estéticas de um grupo com uma consciência de arte final invulgarmente apurada para o que era norma na época. Uma pintura de Mateus e Sérgio, sobre a qual se inscrevem (na contracapa) os créditos e fotografias é interessante expressão visual de um som novo, moderno, desafiante, avesso à prática d o «mais do mesmo».
O grupo não conheceu, contudo, vida longa com esta formação tanto que, alguns meses depois, apenas Nuno Rebelo se mantinha nos Mler Ife Dada, acompanhado por uma série de novos músicos, entre eles a vocalista Anabela Duarte, que se estreariam no single «L’Amour Va Bien Merci» (1986), ao que se seguiria, já em 1987, o clássico «Coisas Que Fascinam», álbum de estreia e um dos mais importantes registos da história do pop/rock lusitano.
N.G.


MLER IFE DADA 
«Zimpó»
Máxi-single, Dansa do Som, 1985 
Lado A: «Zimpó»; 
Lado B: «Stretch My Face», «Spring Swing» 
Produção: Nuno Canavarro








11.4.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (11)



DN - Diário de Notícias
30 Março 2002

Discos Pe(r)didos



Na recta final de 70 os Tantra eram um dos raros casos de sucesso no rarefeito panorama pop rock português. A estreia, com «Mistérios e Maravilhas» (1977), seguida de um inesperado triunfo no Coliseu dos Recreios, gerava um fenómeno que nascia nas esferas de um som sinfónico, com alguma contaminação progressiva, um pouco nos caminhos sugeridos pelo eixo Genesis / Yes. Seguiu-se, no ano seguinte, «Holocausto», disco que volta a gerar um caso de popularidade no circuito «roqueiro luso», com duas noites de triunfo no Coliseu. A estes espectáculos, nos quais surge já nas teclas Pedro Luís (em substituição de Armando Gama, que partira para formar os Sarabanda), segue-se inesperado silêncio de três anos. E o grupo, que havia assumido a ideia de um som rock cantado em português, vê-se então ultrapassado pela popularidade dos novos nomes que entram em cena. Manuel Cardoso, o vocalista e um dos fundadores dos Tantra, havia já assumido o seu alter-ego de Frodo...
Quando, em 1981, é editado o derradeiro álbum dos Tantra, «Humanoid Flesh» (no qual participa, no baixo, Pedro Ayres Magalhães), o fim do grupo está à vista, sobretudo dado o fracasso de um disco talvez incompreendido, que trocava as linguagens progressivas de 70 por uma aproximação às emergentes sugestões da new wave.
Manuel Cardoso toma então definitivamente o nome do seu alter-ego Frodo e parte em busca, não de respostas sobre um anel, mas para uma carreira a solo que nos deixou dois registos dignos de referência. Estreia-se com o single «Machos Latinos» (ainda em 1981), ao qual sucede o álbum «Noites de Lisboa», no qual se conhece, de certa forma, uma lógica de continuidade face a alguns elementos da música dos Tantra, nomeadamente o prazer pela elaboração dos fundos (um pouco ao jeito das normas sinfonistas), aqui, todavia, empregando regras de maior simplicidade ao nível dos recursos, sublinhando assim critérios de contemporaneidade, aceitando as marcas de um presente onde uma nova lógica electrónica encontrava o seu espaço no contexto da canção pop.
Ao seu lado, neste «Noites de Lisboa», encontramos alguns ex-Tantra, como Pedro Luís (que então dava também os primeiros passos com o seu projecto pessoal, os Da Vinci) e António José Almeida (o baterista que seguia, então, rumo próprio com os Heróis do Mar). António Emiliano (teclas) é outro dos convidados a desenhar retratos nocturnos de Lisboa com os quais Frodo propõe uma ideia de sofisticação pop que não se enquadrava nos padrões de um momento onde se descobriam ainda as adaptações lusitanas das normas do «fast and furious».
Nem muito «fast», nem muito «furious», mas enfim...
A capa do álbum, que reflecte uma ideia de identidade teatral e lembra, de longe, a figura do austríaco Falco (na altura na berra com «Der Komissar»), é um primeiro indício de um processo de autodeterminação de uma ideia pop que conduzia Frodo na alvorada de 80. A foto interior, onde junta a si os músicos, exibe uma noção de imagem apurada no sentido de uma sofisticação chique, quase neo-romântica, embora sem maquilhagem...
Musicalmente, sem se apresentar como um álbum revolucionário, «Noites de Lisboa» é um disco curioso e competente, bem mais interessante e representativo de uma proposta individual de rumo que muitos dos pastiches que o ano de 1982 vê nascer (e morrer) entre nós. Poucos meses volvidos sobre a edição deste seu álbum de estreia, Frodo edita um sucessor, no bizarro formato de duplo (álbum + máxi) «Zbaboo Dança», uma mais directa aposta na exploração de electrónicas, mas num recuo linguístico rumo ao inglês... E, como o anel, desapareceu em Mordor...
N.G.

FRODO 
«Noites de Lisboa» 
Vadeca, 1982
Lado A: «Vou Acordar No Paraíso», «Máquinas na Multidão», «Feitiço», «Labirinto»; 
Lado B: «Noites de Lisboa», «Manhãs Submersas», «Fado Louco», «Heróis da Noite» 
Produção: Frodo










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