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12.6.17
Livros Sobre O Post-Punk: "'Pós-Punk' Para Ler" - Artigo de Opinião -
DN-SONS
‘PÓS-PUNK’ PARA LER
Entre ensaios sobre o período 1978-84 e álbuns de
fotografias, este é um espaço da cultura pop em fervilhante actividade
editorial nos meios livreiros ingleses e norte-americanos.
No texto que agora apresenta no disco nascido do sucesso
do seu livro Rip It Up (And Start Again), o jornalista Simon Reynolds sublinha
que “estamos neste momento profundamente mergulhados num ressurgimento
pós-punk”. E acrescenta que “não há ainda sinais de travagem”, tal é “a
infindável procissão de novas bandas que procuram inspiração nessa era,
colidindo com bandas veteranas que se reuniram, uma maré de reedições,
compilações e antologias”. Quando, há um ano, o publicou, o fenómeno de concentração
de atenções de novas bandas e públicos no legado pós-punk era já visível. E foi
então sua a intenção de “mostrar a verdadeira diversidade” associada a este
fenómeno, que considera menos uma questão de género, mas antes todo um conjunto
de espaços e possibilidades que se abriram nos finais da década de 70.
Para Simon Reynolds, o punk “rejuvenesceu o rock, mas por
alturas do Verão de 1977 o movimento tinha-se transformado numa paródia de si
mesmo”. O livro explica, detalhada e claramente como bandas como a Joy
Division, Gang Of Four, Talking Heads, The Fall, Associates ou Cabaret
Voltaire, entraram em cena para cumprir a revolução incompleta lançada pelo
punk alguns anos antes. “experimentando as electrónicas e os ritmos maquinais,
adaptando ideias do dub, reggae e disco, tinham a certeza de que podiam
inventar um novo futuro para a música”, explica no livro.
“Num tempo de tensão e ameaças”, que aponta num
reaparecimento de figuras políticas de direita (nomeadamente Thatcher e
Reagan), as bandas pós-punk “tentaram construir uma cultura alternativa através
do nascimento de novas editoras independentes como a Rough Trade, Factory ou
SST e a proliferação de uma política do it yourself”. Como retrata no seu
livro, uma ideia de mudança constante morava entre os projectos desse tempo.
Fala de intermináveis inovações “brilhantes” não apenas na música, mas também
na escrita das letras, no desenvolvimento de novos conceitos performativos, nas
ideias de estilo e design. Este é o espírito que Reynolds identifica e projecta
como natural herança na nova pop de inícios de 80, em bandas como os Human
League, Adam Ant, ABC, Madness, Dexy’s Midnight Runners ou Frankie Goes To
Hollywood, “todas elas nascidas no punk, mas que a dada altura abraçaram um
sentido de glamour e o vídeo de forma a projectar as suas ideias no coração da
cultura mainstream”. O livro revela informação e reflexão, retrato exigente e
claro de um tempo que, mais de 25 anos depois, volta a estar na ordem do dia.
Como complemento nas leituras ao fundamental livro de
Simon Reynolds podemos ler um A a Z, sistematizando, não só o pós-punk, como o
próprio punk em Up Yours!: A Guide to UK Punk, New Wave and Early Post Punk, de
Vernon Joyson (Borderline Productions). Igualmente sistematizado, Post-Punk
Diary (1980-82), de George Gimarc (Saint Martin’s Press), propõe um diário dos
acontecimentos, citando 900 bandas e três mil gravações (com um CD como
complemento à leitura).
A lista de livros sobre este período é vasta, podendo uma
pesquisa mais profunda pedir leituras sobre o punk britânico em England’s
Dreaming, de John Savage (Faber & Faber) ou o punk nova-iorquino em From
the Velvets to the Voidoids: A Pre-punk History for the Post-punk World, de
Clinton Heylin (em edições pela Helter Skelter e pela Penguin Books). Um
retrato do punk em declarações na primeira pessoa lê-se em Please Kill Me, de
Legs McNeil e Gillian McCain (Penguin Books).
Para o documentários visual deste período dois livros
podem merecer algum destaque, ambos disponíveis em lojas online. Um deles, Made
In The Uk: The Music Of Attitude, 1977-83 (Powerhouse Cultural Entertainment
Books), reúne uma série de fotos de Janette Beckman que, em 132 páginas, documentam
factos e rostos dos dias do punk e os que se lhe seguiram, abarcando diversas
culturas pós-punk em solo inglês sem esquecer o movimento 2-Tone, os novos mods
e os skinheads. Essencialmente centrado na cultura neo-romântica, Duran Duran
Unseen é, apesar do que o título possa sugerir, um magnífico retrato da cultura
nocturna (e seus protagonistas) na Birmingham de finais de 70, através de fotos
de Paul Edmond, sob design de Malcolm Marrett e Kaspar de Graaff.
NG
George
Gimarc
Post
Punk Diary, 1980-1982
Saint
Martin’s Press
374
páginas
Vernon
Joynson
Up
Yours! – A Guide To UK Punk...
Borderline
Productions
450
páginas
Paul
Edmond
Duran
Duran: Unseen
Reynolds & Hearn
144 páginas
THE FACE
A “Bíblia Da Moda” Dos Anos 80
Sem Internet, a propagação das boas novas que as
descendências do punk projectavam na música e periferias (leia-se, sobretudo, o
mundo da moda) fez-se através da publicações especializadas. E nenhuma serviu
tão bem os primeiros anos da década de 80 como a revista mensal The Face,
(1980-2004), valor acrescentado ao jornalismo musical sobre o fenómeno pós-punk
que, desde o seu aparecimento em1978, se lia nas páginas dos há muito extintos
semanários Melody Maker e The Sounds, e do ainda sobrevivente (mas
descaracterizado) New Musical Express.
A The Face surgiu em Maio de 1980, sob o comando de Nick
Logan, um antigo editor do NME nos anos 70 que, pouco tempo antes, criara a
mais juvenil Smash Hits. Com um design revolucionário (durante os primeiros
anos a cargo de Neville Broudie) e uma divisão de atenções entre a música, a
moda, uma ideia discreta de club culture (ainda na sua proto-história) e
espaços de cultura alternativa em geral, rapidamente conquistou leitores, em pouco
tempo carinhosamente rotulada como a “bíblia da moda dos anos 80”.
O número um deu capa aos Specials, o segundo entrevistava
Paul Weller (então nos The Jam), o terceiro assinalava a morte de Ian Curtis.
No sexto revelavam-se os Spandau Ballet e, um mês depois, olhava-se
cautelosamente para o emergente movimento neo-romântico, então apresentado como
“o culto sem nome”... Vivienne Westwood, Bow Wow Wow, Ultravox, Human League, a
implantação do teledisco, Julian Cope, Yazoo ou Haircut 100, Smiths ou a fotografia
de Bruce Webber, entre muitos, passaram pelas páginas da Face nos seus
primeiros anos de vida, quando não tinha rival à altura, estatuto que perdeu na
segunda metade da década.
NG
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4.5.17
DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (10)
DN:música
Os melhores álbuns de sempre
[49] SÉTIMA LEGIÃO
MAR D’OUTUBRO
‘Mar D’Outubro’, o fundamental segundo álbum da
discografia da Sétima Legião representou, em 1987, uma das mais importantes
declarações de identidade portuguesa sob linguística pop/rock. Um absoluto
clássico do seu tempo.
TÍTULO Mar D’Outubro
ALINHAMENTO Sete Mares / Noites Brancas / Noutro Lugar /
Este Amor Que Nos Separa / Saudades / Baile (das Sete Partidas) / Além-Tejo / A
Reconquista / Os Limites do Mar / Onde Tem Estado o Outono?
ANO 1987 (EMI)
PRODUTOR Ricardo Camacho
T: N.G.
Depois da explosão de 1980/81, na qual a grande novidade
era o recurso ao português, os músicos puderam então respirar e pensar como
descobrir um verdadeiro sentido de portugalidade com base numa linguagem com
raízes reconhecidamente anglo-saxónicas. Os primeiros a fazê-lo foram os Heróis
do Mar, numa abordagem temática, ideológica e iconográfica tão apurada e
evidente que lhes valeu até equívoca interpretação. Seguiu-se-lhes António
Variações, num encontro entre o cosmopolitismo pop e os cantos da Terra mãe, do
folclore minhoto ao fado.
Um terceiro nome, a entrar em cena pouco depois, acabaria
por conhecer um percurso de vida artístico que em si viu nascer a mais completa
e representativa visão moderna e urbana da música que brotou deste solo. Tinham
(e têm) nome de exército romano: Sétima Legião.
Se o mais recente Sexto Sentido (título fundamental da
discografia portuguesa recente, editado em 1999) representou o culminar dessa
demanda, definindo um conceito pop que expressa uma vivência que reconhece que
o que somos hoje é também resultado do confronto do presente com toda uma
genética cultural, o início de todo o processo remonta a um álbum que, como
poucos, marcou o Portugal da segunda metade de 80.
A Sétima Legião tinha dado os primeiros passos num single
que gerou culto (Glória, 1983) e num álbum que fez história 8ª Um Deus
Desconhecido, 1984), ambos editados pela independente Fundação Atlântica. Foram
Discos importantes, determinantes mesmo, mas reflectindo ainda mais os pontos
de partida, as referências e paixões, que uma alma própria.
Essa emergiu de transformações não só estéticas mas
também humanas no seio da banda, que de cinco passa a contar com oito elementos
e um diferente naipe de instrumentos. Aléms dos veículos tradicionais em
linguística pop/rock, a Sétima Legião mostra agora intensa relação com
percussões, acordeão, gaita de foles e até mesmo uma guitarra portuguesa.
Mar D’Outubro, do qual nasceram clássicos como Sete Mares
(que daria nome ao programa de Sílvia Alves na Antena 1) e Noutro Lugar, assim
como espantosos depoimentos instrumentais em Noites Brancas ou Este Amor Que
Nos Separa e ainda pujantes afloramentos de intensidade bebida na terra (de
geografia portuguesa, mas projectada a Sul) em Saudade, Além-Tejo ou
Reconquista materializou um novo e consequente sentido de identidade portuguesa
na pop do seu tempo. Isto sem perder, no processo de reinvenção da sua música,
as marcas de identidade e relação com os timoneiros estéticos de referência no
seu tempo. Sem dúvida, um absoluto clássico de 80.
3.5.17
Kraftwerk - Crítica de Discos - "Minimum Maximum"
DNm: 10 de Junho de 2005
A MÁQUINA AO VIVO
O Documento áudio da inesquecível digressão mundial dos
Kraftwerk que nos visitou em 2004 chega em ‘Minimum Maximum’. Um verdadeiro
‘Best Of’ de 36 anos de carreira gravado ao vivo.
T: N.G.
Apesar de terem protagonizado algumas digressões
históricas nos anos 70 e inícios de 80 (está de resto registada em disco a
Autobahn Tour de 1974, mais concretamente nos álbuns não oficiais Concert
Classics e Autobahn Live), os Kraftwerk não foram, durante uma série de anos,
grandes “amigos” da estrada. Nos últimos tempos, porém, têm corrido o mundo,
com a mais espantosa experiência audiovisual de alta tecnologia que os palcos
pop/rock alguma vez assistiram. Uma experiência que agora, a meio de uma
digressão que continua na estrada, se regista em álbum.
Há um ano, a dias da sua estreia em concerto em Portugal,
numa inesquecível noite de música no Coliseu dos Recreios, Ralf Hutter explicou
ao DN que só agora a tecnologia disponível lhes permite concretizar em palco
uma velha visão de conceito multimédia que há muitos anos alimentavam como
cenário de sonho para os seus espectáculos. “Temos o nosso próprio estúdio, o
Kling Klang Studio, que é como que um instrumento para os Kraftwerk. E agora,
no seu novo formato digital, é mais portátil, pode viajar...”, contou. “Pela
primeira vez podemos tocar a nossa música em sincronismo com gráficos gerados
por computador ou imagens de vídeo, pinturas electrónicas... Tudo o que a
tecnologia hoje permite! Estamos muito felizes porque nesta digressão mundial,
podemos apresentar, finalmente, as coisas que queremos segundo uma visão que há
muito tínhamos. Essa visão é, agora, para nós, uma realidade”.
Tendo o grupo nascido nos dias de 70 com uma filosofia e
imagem de clara oposição aos padrões tradicionais pelos quais se edificavam os
mitos rock’n’roll, a sua postura em palco nunca visou quaisquer intenções de
assimilar os hábitos performativos do rock. Pelo contrário, os quatro elementos
do grupo sempre se mantiveram quase inertes por detrás dos seus teclados e
consolas, deixando que o movimento necessário ao acompanhamento da música se
fizesse através do desenho de luz e de projecções. A digressão mundial que o
ano passado vimos em Lisboa e, depois, num serão acidentado no Sudoeste, e que
agora registam em disco, recorre ao que designam por protótipo móvel Kraftwerk
2002, um conjunto complexo de computadores e outras máquinas que gerem em
sincronismo a performance musical e o lançamento no espaço de imagens e
gráficos gerados por computador. Hutter sublinhou aqui que, desta maneira, a
tecnologia do século XXI deu assim a resposta a velhas Ânsias do grupo:
“Deu-nos ferramentas para poder tornar reais certas visões nossas. E também
mobilidade, movimento... Sempre nos interessámos bastante pelo movimento, daí a
conhecida velha fascinação pelo ciclismo.” Hutter recordou ainda que a busca
deste sentido de mobilidade das suas ferramentas electrónicas representou uma
das demandas fundamentais desde os primeiros tempos de vida do grupo. “Eu e o
meu amigo Florian Schneider criámos o nosso Kling Klang Studio em 1970 e
dispendemos então muito tempo na sua construção para que assim conseguíssemos
ser independentes e autónomos”, lembrou.
“Mas os nossos primeiros sintetizadores eram enormes e
estavam constantemente a desafinar. Eram muito caros... O nosso primeiro
sintetizador foi tão caro como o meu Volkswagen, que é o que está na capa de
Autobahn. Sendo estudantes, tínhamos então os nossos problemas naturais... O
Florian desenvolveu então o nosso primeiro instrumento electrónico de
percussão, a partir de um outro órgão meu. Um amigo nosso, que era pintor,
trabalhava connosco pintando as capas dos discos... Envolvíamo-nos em inúmeros
projectos além da música, num contexto multimédia electrónico. E agora estamos
a fazer a rodagem mundial do nosso protótipo móvel Kraftwerk 2002. Hoje podemos
viajar e ser como pilotos de ensaio para software electrónico relacionado com a
música. Continuamos, hoje, a trabalhar com o mesmo engenheiro musical que nos
acompanha, desde o The Man Machine... É um processo de continuidade...”.
Quem viu os concertos, sabe que fala verdade.
Com precisão germânica, os concertos começam sempre à
hora marcada (o que no caso da actuação no Sudoeste acabou por não dar tempo
para a reparação de uma má comunicação entre os computadores que geram as
imagens e os ecrãs). Uma voz robótica anuncia que o espectáculo vai começar. E
logo as cortinas se abrem para, ao som de The Man Machine, revelar os quatro elementos
do grupo estáticos frente aos seus teclados. E, por detrás, um gigantesco ecrã
por onde evoluem imagens digitalmente criadas, filmes vintage, referências
claras às capas dos discos, palavras cantadas... Extensão directa do conceito
total que é a arte dos Kraftwerk, o concerto materializa mais uma ideia de
instalação musical electrónica, uma vez mais reinventando os Kraftwerk como um
espaço de afirmação de uma identidade oposta à iconografia tradicional da
cultura rock’n’roll. O alinhamento, invariável, passa por momentos do recente
Tour De France Soundtracks (como Vitamin, Aero Dynamic, Elektro Kardiogramm e
diversas variações em torno do clássico Tour DE France), como proporciona um
coerente mergulho por um passado mítico, através da recuperação de peças-chave
da história da música como Autobahn, Radioactivity (versão mista entre a
original, de 1975, e a remistura de 1991), Trans Europe Express (com adenda
Metal On Metal), The Model, Neon Lights, Computer World (e o complemento Home
Computer), Numbers, It´s More Fun To Compute, Pocket Calculator, Dentaku, Music
Non Stop ou o mais recente Expo 2000, na versão Planet Of Visions. No primeiro
dos encores abandonam o palco deixando-o entregue aos seus célebres robots,
numa magistral celebração do tema The Robots (novamente em versão
“actualizada”, segundo a norma aplicada no álbum The Mix, de 1991).
Com o esperado perfeccionismo áudio que caracteriza todas
as gravações do grupo, Minimum Maximum traduz em disco o mais espantoso
concerto que os palcos nos deram nos últimos anos. E consegue, talvez pela
força do alinhamento best of, resistir à ausência da imagem (afinal, o concerto
era, como se afirmou já, uma experiência audiovisual). A possibilidade de
edição do DVD que documenta esta mesma digressão está na agenda imediata do
grupo. Seguir-se-á a reedição remasterizada da obra editada entre 1974 e o
presente. Hutter explicou que este trabalho de restauro lhes ocupou parte do
tempo nos últimos anos: “estivemos a trabalhar na adaptação aos formatos
digitais de toda a música dos Kraftwerk. Tínhamos fitas muito antigas que se
estavam a degradar e havia muito trabalho para fazer. Estivemos a transformar
33 anos de trabalho de arquivo dos Kraftwerk em formato digital. Hoje todos os
sons originais estão disponíveis e vamos brevemente lançar versões
remasterizadas de todos os nossos álbuns desde Autobahn. Essa edição vai
chamar-se The Catalog. E o grafismo dos discos vai incluir ideias que não
pudemos usar no passado”, adiantou. Venham elas!
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2.5.17
DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (9)
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Os melhores álbuns de sempre
15.07.2005
[48] THIS MORTAL COIL
Criado por Ivo Watts Russell para promover uma série de
colaborações entre músicos da sua editora, os This Mortal Coil, logo no seu
álbum de estreia, acabaram por representar o paradigma da identidade
atmosférica que caracterizou o som da 4AD em meados dos anos 80.
TÍTULO
It’ll End In Tears
ALINHAMENTO
Kangaroo / Song To The Siren / Holocaust / Fyt / Fond Afections / The Last Ray
/ Another Day / Waves Become Wings / Barramundi / Dreams Made Flesh / Not Me A
Single Wish
ANO 1984
(4AD)
PRODUTOR
Ivo Watts Russell
Além de ter representado uma fundamental (e então
urgente) revolução estética e pragmática, o punk foi também catalisador de
importantes transformações no meio editorial, tendo, tal como a música,
devolvido o poder “Às bases”. Na Inglaterra de finais de 70, pequenas independentes
apareceram por todo o lado, muitas associadas a redes de distribuição
alternativas e lojas nas quais se podiam encontrar os singles das novas bandas.
Entre as editoras que vingaram e sobreviveram à ressaca do punk, a 4AD (ligada
à Beggars Banquet) cresceu para se afirmar como uma das mais importantes casas
editoriais de 80. Editou Bauhaus (no início), Cocteau Twins, Dead Can Dance,
Wolfgang Press e tantos outros nomes que então desenvolveram o emergente
conceito de música indie, marcando identidade também através das capas
desenhadas por Vaughan Oliver. Coordenada por um melómano, Ivo Watts Russell, a
editora 4AD gerou em 1984 um colectivo transversal às bandas do catálogo: os
This Mortal Coil.
Materialização evidente do gosto de Ivo Watts Russell, os
This Mortal Coil foram um projecto de editora, juntando em estúdio músicos de
difeentes grupos, tendo editado uma magnífica trilogia de álbuns entre 1984 e
1991.
O primeiro dos álbuns, o genial It’ll En In Tears reuniu
músicos como Lisa Gerrard e Brandan Perry dos Dead Can Dance, Elisabeth Frazer,
Simon Raymonde e Robin Guthrie dos Cocteau Twins, Gordon Sharp dos Cindytalk,
Howard Devoto (dos Magazine, banda não assinada pela 4AD), Martyn Young dos
Colourbox e Robbie Grey dos Modern English, entre alguns outros. O álbum,
paradigma do som atmosférico que fez escola na 4AD em meados de 80, é uma
pérola de bom gosto, subtileza melódica e riqueza textural.
Muitos recordam hoje o disco pela sublime e arrebatadora
versão de Song To The Siren (de Tim Buckley) na voz de Elisabeth Frazer, um
daqueles raros casos em que a versão supera o original (tendo David Lynch
reconhecido ter servido de inspiração à sua aventura musical com Julee Cruise
alguns anos depois) ou pelas não menos cativantes novas leituras de Kangaroo e Holocaust
de Alex Chilton (dos Big Star) ou Not Me de Colin Newman. Mas It’ll End In
Tears (tal como o álbum seguinte, Filigree And Shadow, de 1986) vale como um
todo (que aacaba até por diluir em si as diferentes partes). A sucessão de
canções define um percurso plácido por sonhos para voz e instrumentação quase
ambiental, criando atmosferas de melodismo subtil e canções de complexa arte
final numa linha próxima da que então tomava o rumo da obra dos Cocteau Twins e
Dead Can Dance (claramente os pólos estéticos protagonistas nesta etapa dos
This Mortal Coil).
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30.4.17
DN:música - Série: Os Melhores Álbuns De Sempre (8)
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Os melhores álbuns de sempre
17 de Junho de 2005
No meio da euforia editorial que caracterizou o Portugal Pop/Rock de inícios de 80 um álbum destacou-se dos demais e fez história. Apresentou os Heróis Do Mar e com eles conhecemos um verdadeiro sentido de portugalidade em regime pop que ainda hoje tem herdeiros na cena musical nacional
17 de Junho de 2005
[44] HERÓIS DO MAR
HERÓIS DO MAR
TÍTULO Heróis do Mar
ALINHAMENTO Brava Dança dos Heróis / Amantes Furiosos /
Magia Papoila / Salmo / Bailar / Olhar No Oriente / Mar Alto / Saudade
ANO 1981 (edição Philips / Universal)
PRODUTOR António Pinho
T: Nuno Galopim
O Portugal musical de 1980/81 era um caldeirão em
ebulição, entusiasmado com a descoberta da composição (e viabilidade no
mercado) de uma música pop/rock feita em português. Depois dos sucessos
iniciais de Rui Veloso, UHF, GNR, Táxi e Salada de Frutas, novas bandas, novos
singles, surgiam a um ritmo alucinante, respondendo a uma procura igualmente
ávida. Contudo, entre discos que denunciavam essencialmente um sentido de
urgência prático, um acabou por se destacar pela inteligência formal, pela
musicalidade atenta, actual e oportuna, pela ousadia estética, inscrevendo
definitivamente um real sentido de portugalidade numa linguagem pop/rock.
Chamou-se Heróis do Mar e revelou, em 1981, uma das mais marcantes bandas da
história da música popular portuguesa.
Já havia antecedentes esteticamente estimulantes entre os
elementos do grupo, alguns deles recém chegados da discreta (mas temporalmente
consequente) aventura punk nos Faíscas e sua descendência natural nos Corpo
Diplomático, banda cujo único e histórico álbum (Música Moderna, de 1979 e
ainda por reeditar em CD) apresentava um título que sugeria a chegada de uma
ideia de modernidade à pop portuguesa.
Firmes numa intenção política (leia-se ideário filosófico
prático e não manifestação partidária) de dotar o país e uma nova geração de
uma música “sua”, o disco nasce de longo período de reflexão durante o qual a
atenção dos músicos pelos acontecimentos mais recentes da pop internacional se
cruzou com leituras sobre a História de Portugal, preparação conceitual para um
manifesto que desejou mudar a música portuguesa. E como mudou!
Num tempo ainda ecoando excessos revolucionários e
receios perante inevitáveis e marcantes símbolos nacionais, numa altura em que
se falava do futuro e parecia esquecer o passado, a música e atitude dos Heróis
do Mar catalisou uma verdadeira revolução de mentalidades. Cruzou raízes da
música portuguesa (e inclusivamente de África, como se escuta em Saudade) com a
linguagem pop do momento, despertando um sentido de orgulho pela identidade cultural
que fez carreira depois em diversos projectos musicais nacionais, da Sétima
Legião aos Madredeus (vida posterior de Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria
Trindade, respectivamente baixista e teclista dos Heróis do Mar).
Musicalmente arrebatador perante o restante cenário pop
imberbe da época, ideologicamente consequente, colocou no mapa pop uma nova
forma de ouvir Portugal). O terror perante certos símbolos (a cruz de Cristo,
as fardas), valeu-lhes as suspeitas de alguns. Derrubadas, um ano depois, pelo
êxito transversal de Amor.
21.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (19)
DN - Diário de Notícias
3 Agosto 2002
Apesar da curta expressão e limitada duração em que se
manifestou entre nós, a «new wave» chegou mesmo assim a conhecer alguns dignos
representantes. Um deles, foi caso inesperado, nascendo de um grupo com
importante projecção no panorama «progressivo» na recta final de 70: os Tantra.
Uma das maiores forças da música rock feita em Portugal
na segunda metade de 70, os Tantra surgem em 1976 da reunião de Manuel Cardoso
(que tinha já passado pelos Beatnicks), Armando Gama, Américo Luís e Tozé
Almeida, editando logo nesse ano o single «Alquimia da Luz». Um ano depois, o
álbum «Mistérios e Maravilhas» (já disponível em CD) revelava a maioridade de
um som rock de cenografia sinfónica e alma «progressiva», constituindo
imediatamente um fenómeno, que se cimenta num tempo de desertificação na
cultura pop/rock lusitana.
São, ainda nesse ano, o primeiro grupo rock português a
encher o Coliseu dos Recreios, feito que repetem, em 1978, no concerto de
apresentação do segundo álbum, «Holocausto» (recentemente reeditado em CD),
evolução natural do disco de 1977.
Quando o grupo regressou ao Coliseu, em 1978, já Armando
Gama havia saído (para formar os Sarabanda, com Kris Kopke), sendo então
substituído, nas teclas, por Pedro Luís. Segue-se então um tempo de longo
silêncio, durante o qual se começam a manifestar sinais de mutação interna, que
levam ao afastamento de Américo Luís.
Estávamos na viragem de década, e nomes como os de Rui
Veloso, UHF, Salada de Frutas, GNR, Jáfumega e Táxi começavam a mostrar um novo
som rock cantado em português ao qual aderiam, como nunca antes, as rádios e
público. Numa decisão contra-corrente, tal como então se verifica em grupos
como os Roxigénio e Arte e Ofício (estes já com tradição no recurso ao inglês),
os Tantra abandonam a língua portuguesa. E, reduzidos a três elementos,
contando com a colaboração de «Dedos Tubarão» (Pedro Ayres Magalhães), dos
Corpo Diplomático, editam em 1981 o terceiro álbum, «Humanoid Flesh».
O disco causou acesa polémica, sobretudo por acender a
chama da discórdia na classe «crítica» de 70, mais dada a elogiar os
sinfonismos de «Mistérios e Maravilhas» e «Holocausto» que as novas canções de
dinâmica rítmica mais evidente e recorte «new wave» com o qual o grupo se
apresentava. Todavia, a rejeição não chegou apenas da «crítica», já que o
público acabou também por ignorar este terceiro disco dos Tantra, que pecava
por «erro» estratégico de «timing» ao adoptar o inglês numa altura em que as
multidões descobriam e abraçavam um novo rock (mesmo mais «quadrado») cantado
em português. A opção pelo inglês foi então justificada por Manuel Cardoso (já
a responder como Frodo) numa entrevista ao «Se7e», onde explica que uma luzinha
lhe dissera que Deus não passaria os discos dos Tantra no Paraíso, se estes
cantassem em Português.
«Humanoid Flesh» tem os seus méritos. Musicalmente é um
interessante manifesto estético de um movimento tangencial Às linhas de força
pop/rock lusitanas na alvorada de 80. E não só exibe um lote de canções
interessantes (algumas a revelar uma proximidade estranha com o som dos Classix
Nouveaux), como ousa transformar os «Verdes Anos» de Carlos Paredes, naquela
que é uma das mais interessantes manifestações de homenagem do rock português
ao grande mestre.
O fracasso do álbum acabaria por determinar o fim do
grupo. Frodo seguiu carreira a solo. Tozé Almeida juntou-se aos Heróis do Mar.
E Pedro Luís formou os Da Vinci.
N.G.
TANTRA
«Humanoid Flesh»
LP Valentim de Carvalho, 1981
Lado A:
«Girl In My Head», «Crazy Rock’N’Roll», «What Have Your Eyes Done To Me?»,
«Magic», «Verdes Anos»;
Lado B: «Dangerous Works», «Humanoid Flesh», «Just
Another Lie», «African Sands»
Produção: Tantra e SR
20.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (18)
DN - Diário de Notícias
29 Junho 2002
Discos Pe(r)didos
Emigrado para França depois de uma recusa em combater na
Guerra Colonial, Luís Cília é um entre uma “família” de músicos portugueses que
desviam de Lisboa para Paris o palco de criação de alguns dos mais importantes
discos que a língua portuguesa conheceu na década de 60. É em Paris que conhece
figuras como as de Paco Ibanez, Colette Magny, Georges Brassens, Luigi Nono...
É também em Paris que enceta a sua obra discográfica, com o fundamental
“Portugal-Angola: Chants de Lutte” (editado em 1964 pela Chant du Monde).
Ainda durante a década de 60 edita “Portugal Resiste” (um
EP) e os três álbuns da série “La Poèsie Portugaise”. Em 1969 assina “Avante
Camarada”, canção que, gravada por Luísa Basto, se transformaria depois no hino
do PCP. E, ainda antes do regresso a Portugal, grava e edita “Contra A Ideia da
Violência, a Violência da Ideia”, disco que assinala o seu reencontro com a Le
Chant du Monde.
Quatro dias depois do 25 de Abril, Luís Cília regressa a
Portugal e logo causa polémica ao afirmar que Alfredo Marceneiro era um cantor
revolucionário. A ligação que era feita, pela turba revolucionária, entre o
fado e o regime deposto, não permitia a aceitação deste tipo de opinião de bom
grado.
A demarcação mais efectiva ainda de Luís Cília face a
alguns excessos desses tempos ganhou forma naquele que foi o primeiro álbum
editado após a revolução. Sem embarcar na multidão que então fazia do canto de
intervenção a linguagem musical do Portugal de todos os dias, Luís Cília
procura reunir num disco uma colecção de romances antigos, os mais recentes
datados do século XIX, os mais remotos do século XIII!
Para o processo de recolha não recorreu aos trabalhos de
Michel Giacometti e Lopes Graça (duas referências já devidamente reconhecidas),
mas antes a uma busca em nome próprio, para tal socorrendo-se do acervo da
biblioteca da Fundação Gulbenkian em Paris, na qual consultou uma série de
cancioneiros. De uma série de trabalhos de recolha que vinham de antes do 25 de
Abril nasceu a ideia de um álbum que, no agitado 18«974, rumou então contra a
corrente.
Para a concretização do projecto, Luís Cília regressou a
Paris. Por companhia levara, de Portugal, o produtor executivo José Niza, nomeado
pela Orfeu, com quem o músico havia assinado. Na capital francesa tinha todos
os músicos que julgara necessários para dar forma ao projecto. Em primeiro
lugar o guitarrista clássico Bernard Pierrot, que Cília conhecia por ter sido,
também, aluno do seu professor de composição Michel Puig. Pierrot assinou os
arranjos e, com o seu grupo de música antiga, participou na gravação de “O
Guerrilheiro”, cujas sessões tiveram lugar nos estúdios Sofreson, em Paris.
Disco esquecido, importante registo de referência de uma
atitude muito particular perante a recolha do legado da música tradicional
portuguesa, “O Guerrilheiro” deu à Intersindical o seu hino, mais concretamente
na música do tema-título (originalmente uma canção alentejana do século XIX,
aparecida em 1852, por ocasião das lutas civis de Patuleia e Maria da Fonte).
Oito anos depois (em 1982), Luís Cília voltou ao estúdio,
onde regravou as partes vocais do álbum que, então, a Sassetti reeditou com o
título “Cancioneiro”. Todavia, nem esta versão de 1982, nem a histórica versão
original, tiveram ainda luz verde para a reedição em CD.
Teremos ainda de esperar muito?
N.G.
LUÍS CÍLIA
“O Guerrilheiro”
LP ORFEU, 1974
Lado A: “O Adeus d’um Proscrito”, “O Conde Ni#o”, “Flor
de Murta”, “A Guerra do Mirandum”, “O Conde de Alemanha”;
Lado B: “D João da
Armada”, “Canção do Figueiral”, “D. Sancho”, “O Guerrilheiro”
Produtor delegado: José Niza19.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (17)
DN - Diário de Notícias
13 Julho 2002
Os cenários de explosão rock que os portugueses viveram
entre os finais de 70 e inícios de 80 representaram, por si, as razões
fundamentais pelas quais se explica o fraco desenvolvimento dos fenómenos de
ligação das electrónicas à música pop entre nós. Com uma cultura pop/rock a
viver, em jeito de concentrado de acontecimentos, 20 anos de desenvolvimento
atrasado, os primeiros dias da década de 80 conheceram um estranho efeito de
salada russa na produção discográfica nacional, juntando estéticas já antigas a
fracções mais discretas de modernidade.
E é entre alguns destes mais ousados projectos que
irrompem as electrónicas, usando-as uns como mero tempero para uma refeição
pop/rock com guitarra, baixo e bateria, poucos tendo sido os que apostaram de
facto numa identidade «electro pop», que então conhecia messias não só nos alemães
Kraftwerk, mas na interessante multidão de projectos que entrava em cena em
Inglaterra (Human League, OMD, Depeche Mode, Yazoo, entre outros, todos eles
com considerável exposição na rádio portuguesa de então e grande aceitação
entre os mais novos). Nesta localização temporal convém ainda recordar que, na
época, os teclados e electrónicas eram olhados de soslaio pelos partidários das
guitarras, estes acusando as novas tecnológicas de ser música fácil,
automática, o que conferia às bandas electrónicas uma espécie de alvo imediato
do gozo dos espíritos mais duros de ouvido... Birra hoje resolvida,
naturalmente.
É certo que os Tantra usavam já sintetizadores
(particularmente no derradeiro «Humanoid Flesh», de 1980). O mesmo se
verificava nos Salada de Frutas («Robot», 1980), nos Heróis do Mar («Brava
Dança dos Heróis» / «Saudade», single de estreia em 1981), assim como em alguns
outros mais projectos. As electrónicas tomaram até protagonismo evidente em
«Foram cardos Foram Prosas» de Manuela Moura Guedes (produção de Ricardo
Camacho para um belo single em 1981).
Em 1982, uma série de projectos exclusivamente
electrónicos entram em cena no panorama português, reflectindo não só uma maior
abertura da rádio e editoras a estas estéticas, como sublinhando o que fora a
adesão dos portugueses a canções como «Just Can’t Get Enough» dos Depeche Mode
ou «Open Your Heart» dos Human League no ano anterior. Com «Lisboa Ano 10 Mil»
e «Fantasmas», os Da Vinci apresentam-se com um projecto esteticamente coerente
e musicalmente apoiado pela experiência de um ex-Tantra e de um músico de Jazz.
No mesmo ano apresentam-se ainda Tó Neto (o Jarre português, com o álbum
«Láctea»), Carlos Maria Trindade (Heróis do Mar) edita, a solo, «Princesa»,
Frodo lança «Zbaboo Dança»... Mais tarde haverá ainda que ter em conta o single
«Estou Além» de António Variações (1983), «Como Um Herói» (1984) do projecto
Stick (de Sérgio Castro e António Garcês), os Poke, de Quico, que em 1984
editam o fundamental máxi-single de pop electrónica «Digitalmente Afectivo», e
a aventura pop de Ana Paula Reis «Utopia» (1984).
Formados também em 1982, os Ópera Nova começaram por ser
um trio constituído por Luís Beethoven, Manuel Andrade Rodrigues e Pedro Veiga,
todos eles estudantes, entre os 18 e 20 anos. Com imagem apurada pelo
costureiro Zé Pedro apresentam-se em 1983 com o máxi-single «Sonhos», que
juntamente com o disco dos Poke e o álbum «Caminhando» (1983) dos Da Vinci,
representa a essência do breve movimento electro pop português de 80. Os Ópera
Nova apresentam uma música tecnicamente apurada, na qual se cruzam referências
dos OMD e Visage (atenção ao «lettering» na capa). Braunyno da Fonseca
substitui, pouco depois, Manuel Rodrigues. Luís Beethoven afasta-se mais tarde.
Editam ainda «México», single menor de 1984, e desaparecem do mapa.
N.G.
ÓPERA NOVA
«Sonhos»
máxi-single, Polydor, 1983
Lado A: «Sonhos» (versão longa);
Lado B: «Luar»,
«Palavras»
Produção: Carlos Maria Trindade
18.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (16)
DN - Diário de Notícias
27 Julho 2002
Discos Pe(r)didos
Tal como o californiano Darin Pappas nos anos 90 (ver
entrevista ao lado), Sheila Charlesworth encontrou em Portugal os estímulos que
a levaram a encetar uma carreira na música. Nascida em Toronto (Canadá) em
1949, viveu parte da infência e juventude em Montreal, onde conheceu os
primeiros sucessos como actriz e modelo.
Por ocasião de uma viagem a França, em 1970, assiste em
Paris a uma representação do musical «Hair», e algum tempo depois faz parte do
elenco, como actriz. É aí que conhece Sérgio Godinho, com quem terá uma relação
pessoal e em quem conhecerá um importante parceiro musical. Em 1971, Sheila
participa nas gravações de «Os Sobreviventes», álbum de estreia de Sérgio
Godinho, no qual surge depois creditada com «coros, sanduíches e amor».
Com Sérgio Godinho vive, então uma série de episódios
históricos. Juntam-se ao Living Theatre (com o qual vivem o «caso» brasileiro
de 71, com dois meses de prisão em Ouro Preto), residem temporariamente em
Amsterdão, regressam a Paris para gravar «Pré-Histórias» e, em 1972, partem
para o Canadá onde casam e se dedicam ao teatro.
Já com a filha Jwana, o casal regressa definitivamente a
Portugal. Sheila colabora então numa série de discos: «À Queima-Roupa» (Sérgio
Godinho, 1974), «Semear Salsa Ao Reguinho» (Vitorino, 1975), «De Pequenino Se
Torce O Destino» (Sérgio Godinho, 1976), «Fernandinho Vai Ao Vinho» (1976)...
Em 1977 grava finalmente, então já com o nome artístico
de Shila, um álbum de canções que conta com um lote de colaboradores de luxo já
que, além de Sérgio Godinho, estão presentes Fausto, Carlos Zíngaro, Júlio
Pereira, Paulo Godinho (ex-Pop Five Music Incorporated), Guilherme Scarpa,
Francisco Fanhais e uma bem jovem Eugénia Melo e Castro. O disco, que receb por
título «Doce de Shila» é um magnífico conjunto de canções, a maior parte delas
da autoria de Sérgio Godinho (duas em colaboração com Carlos Zíngaro, uma num
trabalho conjunto de adaptação de um tema popular com Fausto), uma de Júlio
Pereira e uma de Fausto (sobre poema de Reinaldo Ferreira). Os arranjos são
assinados por Godinho e Fausto, à excepção de «Entre a Flor e a Enxada», de
Júlio Pereira.
Tiveram particular exposição os temas «Chula»
(tradicional, com letra adaptada e transformada por Sérgio Godinho e Fausto,
dando origem ao conhecido refrão «P’ra melhor está bem está bem / P’ra pior já
basta assim») e «Mais Um Filho». Contudo, o «caso» deste álbum será
inevitavelmente o tema de abertura: «Espectáculo». Esta corresponde à primeira
gravação de um tema que Sérgio Godinho gravou, mais tarde em «Canto da Boca» e
que, recentemente, conheceu nova leitura na colaboração com os Clã para o
espectáculo (e disco) «Afinidades». Um ainda suave e delicioso «sotaque»
pontua, todavia, esta versão original de Shila, num momento histórico ainda à
espera de passaporte para a era digital.
Nos anos seguintes, Shila gravaria ainda o álbum
«Lengalengas e Segredos» (editado em 1979) e ainda alguns singles. Dedica-se
essencialmente ao teatro antes de, já em 1990, abandonar definitivamente a vida
artística.
N.G.
SHILA
«Doce de Shila»
LP, Lá Mi Ré (1977)
Lado A: «Espectáculo», «Chula», «Doce de Shila», «Mais Um
Filho», «Entre a Flor e a Enxada»;
Lado B: «Rapa Tira Deixa e Põe», «Parteira do Mar»,
«Dança de Amargar», «Rosie», «Gente Assim».
Engenheiro de Som: José Fortes
DN - Série: Discos Pe(r)didos (15)
DN - Diário de Notícias
08 Junho 2002
Discos Pe(r)didos
Da revolução de 1980/81, quando na sequência dos êxitos
de Rui Veloso, dos UHF, GNR, Trabalhadores do Comércio e Salada de Frutas se
instituiu uma espécie de nova ordem de gostos e prioridades, colocando o novo
pop/rock cantado em português na primeira linha dos objectivos, nasceu um
verdadeiro cenário de explosão demográfica no panorama musical lusitano.
Grande parte das carreiras emergentes usavam o single
como veículo de exposição ideal para as suas canções, raros sendo os casos de
grupos e artistas que apostaram em primeiro lugar no formato de álbum. Rui
Veloso, Táxi e Opinião Pública são raros casos de apostas no LP, dele nascendo,
depois, os inevitáveis singles.
O clima de euforia colectiva que o meio pop/rock então
vivia levou a que muitas pequenas editoras se aventurassem na edição de rock
português. Afinal, nada mais que a aplicação (à nossa escala) de princípios que
a revolução punk e a continuidade via new wave tinham impresso recentemente À
bem nutrida indústria discográfica inglesa. Entre as pequenas editoras que
então entram em cena destaca-se a Rotação, na qual o homem do leme era António
Sérgio (já então um conhecido divulgador na rádio e com provas já prestadas na
edição discográfica, nomeadamente como co-produtor, em 1979, de «Música
Moderna», o álbum dos Corpo Diplomático, isto sem esquecer a «famosa»
compilação «Punk Rock 77»).
A «bandeira» da Rotação era, naturalmente, a estreia
discográfica dos Xutos & Pontapés, que ali editaram os dois primeiros
singles «Sémen» (1981) e «Toca e Foge» (1982), bem como o álbum de estreia
«78/81» (também em 1982). Perante o cenário de investimento que caracterizava
todos os pólos de edição na altura, a Rotação avança pelo ano de 1982 com uma
série de novos nomes: Mau Mau, com o single «Xangai», Tânger, com o single «Zé,
Zé Ninguém», Manifesto com o single «Nuclear (À Beira Mar)». A estes juntam-se
ainda os Malaposta e os Sub-Verso... Todavia, nenhum dos grupos da Rotação, à
excepção dos Xutos & Pontapés, conhecem tamanha expectativa interna e
alguns resultados concretos como os Opinião Pública, uma banda, de certa forma,
«apadrinhada» pelos UHF.
No quarteto, constituído por Carlos Estreia (voz,
guitarra), Pedro Lima (guitarra), Luís Fialho (baixo, teclas) e Carlos Baltasar
(bateria), António Sérgio identificara um caso de possível complementaridade
pop aos Xutos & Pontapés. A estreia faz-se com «Puto da Rua», canção que imediatamente
chega à rádio e tira os Opinião Pública do anonimato e apresenta o álbum «No
Sul da Europa», com o qual o grupo faz a sua estreia (encetando uma discografia
que receberia depois, apenas, o single «Puto da Rua»).
Se nos Xutos & Pontapés António Sérgio «ousara» um
lugar na produção, com os Opinião Pública cede a cadeira a António Manuel
Ribeiro (dos UHF) e à própria banda. De som seguro e muito característico. Das estéticas
da altura, «No Sul Da Europa» é um interessante (e quase esquecido) documento
do rock português de inícios de 80, dividindo as canções entre momentos de puro
prazer de uma pop lúdica (como «Ritmo de Vida» ou «Walkman», e alguns retratos
de cenas do quotidiano urbano de então (de que são bons exemplos «Puto da Rua»
e «Subúrbio»).
Apesar de coerente e significativamente mais interessante
que grande parte dos demais estreantes seus contemporâneos, os Opinião Pública,
tal como todo o restante catálogo da Rotação (à excepção dos Xutos &
Pontapés), desapareceram entre as primeiras vítimas da crise de 1982/84, uma
das mais «mortais» da história pop/rock cantada em português.
N.G.
OPINIÃO PÚBLICA
«No Sul da Europa»
LP Rotação
Lado A: «Ritmo de Vida», «Sem Destino», «Sul da Europa»,
«Puto da Rua», «Na Terra»;
Lado B: ««Walkman», «Cumprindo As Regras», «Duplo
Controle», «Subúrbio»
Produção: António Manuel Ribeiro e Opinião Pública17.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (14)
DN - Diário de Notícias
25 Maio 2002
Discos Pe(r)didos
A alvorada de uma cultura alternativa na música
portuguesa é uma das mais importantes conquistas da segunda geração de 80.
Depois de aberto o espaço à explosão de uma cena pop/rock local, em grande
parte cantada em português (mesmo que plena de referências estéticas
importadas), a segunda «leva» de acontecimentos no Portugal musical de 80 fez
coexistir um tempo de ressurgimento de músicas de raiz tradicional com um surto
de criatividade urbana ciente de uma vontade em romper as formas mais imediatas
pelas quais se haviam definido os primeiros traços de uma identidade pop/rock
lusitana.
Graças ao aparecimento de novos espaços de ensaio e
apresentação pública de projectos (e aqui é inevitável a referência a um Rock
Rendez Vous em Lisboa e um Luís Armastrondo no Porto), fruto também da abertura
de estúdios de gravação, e, muito importante, a criação de alguns programas
(poucos) na rádio e novos veículos de jornalismo musical escrito, uma cultura
alternativa começa a brotar de forma evidente entre nós.
Sob a batuta de João Peste, na altura já um nome de
respeito ca cena «alternativa» local, graças ao trabalho dos Pop Dell’Arte, a
Ama Romanta é uma entre as várias editoras independentes que se aventuram no
mercado discográfico português de meados de 80. DE 1986 a 1991 a actividade da
editora será irregular nos tempos de agenda, mas determinante no lançamento e
abertura de horizontes. De resto, ao revisitar o seu catálogo contamos com
discos dos Pop Dell’Arte (o máxi «Querelle», o single «Sonhos Pop» e o LP «Free
Pop», em 87, o máxi «Illogik Plastik», em 89, e o CD «Arriba Avanti! Pop
Dell’Arte», em 91), Mão Morta (o álbum «Mão Morta», em 88), Mler Ife Dada (o
single L’Amour Va Bien Merci», em 86), Cães Vadios (o single «Cães Vadios», em
87), Anamar (o máxi «Amar Por Amar», em 87), Projecto Som Pop (com o álbum
«Pipocas», em 88), Sei Miguel (os álbuns «Breaker», em 88, «Songs About
Terrorism», em 89) e «The Blue Record», também em 89), Telectu (o álbum
«Camerata Electronica», em 88), Tozé Ferreira (o álbum «Música de Baixa
Fidelidade», em 88), Nuno Canavarro (o fundamental «Plux Quba, em 89), Santa Maria
Gasolina em Teu Ventre (o álbum «Free Terminator», em 89) e João Peste e o
Axidoxibordel (o único EP, em 90).
O catálogo da Ama Romanta abriu, contudo, com uma
compilação. Uma espécie de carta de intenções na qual tanto encontrávamos
projectos e nomes que depois permaneceram ligados à editora, como projectos
expressamente gerados para as gravações ali registadas e casos que seguiram,
depois, vida própria, em outras paragens.
Nomes de proa da cena «alternativa» portuguesa de meados
de 80 juntam-se no disco (duplo) que mais fielmente ilustra movimentações
diferentes, algumas com descendência, outras episódios únicos.
Momento inesperado e curioso na compilação, uma
entrevista de João Peste a Paquete de Oliveira (com música do próprio João
Peste) conduz-nos por uma série de importantes reflexões, hoje incrivelmente
ainda com mais sentido que em 86. Com texto e contexto, «Divergências» é «o»
retrato mais completo da cultura musical alternativa do Portugal de meados de
80, com algumas das suas faixas entretanto reeditadas na compilação «Sempre»,
retrato de fragmentos da história da Ama Romanta editada pela Música
Alternativa em 1999.
N.G.
VÁRIOS
«Divergências»
LP duplo, Ama Romanta, 1986
Lado A: Bastardos do Cardeal, Mler Ife Dada, Jorge
Martins, Miguel Morgado + Nuno Rebelo + Pedro Mourão, A Jovem Guarda;
Lado B:
Entrevista a Paquete de Oliveira, Pop Dell’Arte, Os Cães A Morte e o Desejo,
Mário e Peter, Maguedesi;
Lado C: Anamar, SPQR, Croix Sainte, Nuno Rebelo,
Extrema Unção;
Lado D: Bairro, Grito Final, João Peste, Bye Bye Lolita Girl,
Essa Entente, Linha Geral
Colectânea organizada por João Peste e Maria João Serra14.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (13)
DN - Diário de Notícias
11 Maio 2002
Tinham passado quase dez anos sobre o momento no qual os
GNR conheceram a sua segunda mudança de formação. Em finais de 1982, depois de
concluído e editado o fundamental e histórico «Independança» (ainda à espera de
reedição em CD, tal e qual o sucessor «Defeitos Especiais», de 1984), Vítor Rua
junta-se a Jorge Lima Barreto para concluir «CTU», o álbum de estreia dos Telectu,
o novo duo constituído por ambos, no qual se desenhavam rumos de fuga aos
passos pop/rock nos quais Vítor Rua circulara até então. Depois de editado o
álbum dos Telectu, Vítor Rua e Toli iniciam o trabalho de produção de «Anjo da
Guarda», o LP de estreia de António Variações, para a Valentim de Carvalho,
editora dos GNR e, até esse momento, também dos Telectu. Vítor Rua abandona o
trabalho no disco de Variações e parte para Nova Iorque. Ao regressar propõe
uma pausa nos GNR, o que não agrada aos restantes elementos do grupo. Decide,
então, afastar-se e seguir rumo próprio...
Apesar da separação, um diferendo oporá, durante anos,
Vítor Rua aos restantes elementos dos GNR. Um diferendo que parte da questão da
posse dos direitos do nome do grupo, que ficam pelo lado de Reininho, Toli e
Alexandre Soares. A 15 de Fevereiro de 1983, Vítor Rua escreve, no «Sete», um
texto no qual explica ser ele o proprietário do nome GNR e proíbe o grupo de
tocar ao vivo as composições que ele escrevera para a banda...
Um novo episódio deste complicado caso tem lugar quando
os GNR editam, em 1990, o duplo álbum ao vivo «In Vivo», gravado num concerto
na Alameda D. Afonso Henriques. O disco incluía «Hardcore (1º Escalão)»,
«Portugal na CEE» e «Sê Um GNR», todos eles interditados por Vítor Rua junto da
SPA. A primeira edição esgota, e é substituída por uma outra que passa a
incluir «Homens Temporariamente Sós»... A primeira edição é hoje uma peça
disputada no circuito de coleccionismo.
Um ano depois, num momento de pausa no trabalho dos
Telectu, Vítor Rua edita um disco através do projecto Vidya e um outro através
de um nome que gera nova polémica: Pós-GNR.
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja», apresentado aos media numa
conferência de imprensa na sede da PolyGram, onde se voltou a levantar o velho
drama dos direitos de utilização do nome GNR, é um disco no qual Vítor Rua
procura um interessante reencontro com as linguagens pop/rock. Depois de quase
uma década de experimentação noutros territórios, o reencontro faz-se segundo
regras distintas das que os próprios GNR tomaram, procurando antes um
entendimento entre formas da cultura popular e elementos da invenção «livre»
característica de correntes de vanguarda, temáticas de decadência, da vida na
grande cidade... De certa forma, «Mimi Tão Pequena e Tão Suja» procura ser uma
herança, distante, das pistas deixads em aberto no álbum de estreia dos GNR,
reencontradas e encaradas por um músico que, entretanto, acumulara outros
hábitos e percursos. Esta ideia de continuidade é sublinhada por temas como
«Hardcore II» e «Independança II»... Curiosamente, não se encontram aqui marcas
notórias de descendência de «Avarias»...
Com alguns bons momentos em canções como «In The City» ou
«City Of Love», o álbum passa a Leste das atenções, não só do público mas
também de muitas estações de rádio. Exactamente o cenário oposto ao que
receberia, um ano depois, «Rock In Rio Douro», dos GNR.
Em 1996, cinco anos depois deste único álbum sob o nome
Pós-GNR, Vítor Rua surgia (assim como Alexandre Soares) na festa de lançamento
do «best of» dos GNR. Pazes feitas, conflito sarado. A música agradece.
N.G.
PÓS-GNR
«Mimi Tão Pequena e Tão Suja»
LP, PolyGram
Lado A:
«In The City», «City Of Love», «Very Speed Song», «Hardcore II», «Speak With Me
Please», «Nothing», «Independança II»;
Lado B: «Junkie Fly», «Wars Of Fights»,
«Scales Of Solos», «Strange Perception», «The Next Album...» Produção: Vítor Rua
13.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (12)
DN - Diário de Notícias
06 Abril 2002
Discos Pe(r)didos
Lisboa, 1984. Com quatro anos de vida, o Rock Rendez Vous
(RRV) encetava um certame que se transformaria, em pouco tempo, numa espécie de
ex-libris da «casa»: o Concurso de Música Moderna. Fruto de um momento de
fervilhante agitação nos espaços da criação e divulgação de uma emergente ideia
de música alternativa portuguesa. Resultado, por um lado, de uma natural
resposta dos músicos à implosão do mercado mais «oportunista» de 1982 e, por
outro, da solidificação de importantes espaços de divulgação na rádio
(Comercial e Renascença) e imprensa («Sete» e, mais tarde, já em finais de
1984, a entrada em cena de uma publicação de especialidade: o «Blitz»), um novo
mundo de bandas e conceitos aguardava a abertura de uma janela. E assim
aconteceu, na Rua da Beneficência ao Rego.
Para a primeira edição do Concurso de Música Moderna do
RRV inscreveram-se um total de 101 bandas, das quais 24 foram seleccionadas,
seis delas apuradas, depois como finalistas... Na final eram jurados António
Sérgio (Rádio Comercial), Ana Cristina (Rádio Comercial), Rui Pêgo (Rádio
Renascença), Ana Rocha («A Capital»), João Gobern («Sete»), Amílcar Fidélis
(«Diário Popular»), António Manuel Ribeiro (UHF), Manuel Cardoso (Frodo), Zé
Pedro (Xutos & Pontapés) e João Santos Lopes (RRV). Vencedores... os Mler
Ife Dada.
Formados poucos meses antes, os Mler Ife Dada eram, nesta
sua primeira formação, Nuno Rebelo (baixo), Pedro d’Orey (voz) e Kim (guitarra)
e mostraram desde logo, nas eliminatórias e final do concurso do RRV, uma ideia
de franca identidade e personalidade tanto no som como na imagem, deles
nascendo (de facto), a mais sólida proposta em competição.
Como parte do prémio, coube ao grupo a hipótese de
registar um primeiro disco, gravado pouco depois nos estúdios da Rádio Triunfo,
com Paulo Junqueiro (hoje A&R nacional da EMI-VC) e produção de Nuno
Canavarro (ex-Street Kids, tal como Nuno Rebelo).
«Zimpó», o máxi-single com o qual os Mler Ife Dada
assinalam, em inícios de 1985, a sua estreia editorial, é um interessante
representante da ponta do icebergue de uma multidão de projectos que procuravam
então novas formas na vanguarda de uma «nova» música portuguesa (chamavam-lhe
«moderna» na época).
O disco é constituído por apenas três temas, o primeiro
dos quais (o tema-título) ainda hoje
recordado como uma das pérolas esquecidas da pop alternativa lusitana de 80,
fluente na estrutura rítmica, animado e conduzido por uma guitarra que tanto
citava os Durutti Column como parecia assumir a essência antiga da guitarra
portuguesa. Na face B do máxi-single apresentavam-se dois temas cantados em
inglês, cativantes, mas em nada comparáveis a «Zimpó».
Complemento fundamental às três canções apresentadas no
disco, a capa do máxi-single é mais uma clara manifestação das intenções
estéticas de um grupo com uma consciência de arte final invulgarmente apurada
para o que era norma na época. Uma pintura de Mateus e Sérgio, sobre a qual se
inscrevem (na contracapa) os créditos e fotografias é interessante expressão
visual de um som novo, moderno, desafiante, avesso à prática d o «mais do
mesmo».
O grupo não conheceu, contudo, vida longa com esta
formação tanto que, alguns meses depois, apenas Nuno Rebelo se mantinha nos
Mler Ife Dada, acompanhado por uma série de novos músicos, entre eles a
vocalista Anabela Duarte, que se estreariam no single «L’Amour Va Bien Merci»
(1986), ao que se seguiria, já em 1987, o clássico «Coisas Que Fascinam», álbum
de estreia e um dos mais importantes registos da história do pop/rock lusitano.
N.G.
MLER IFE DADA
«Zimpó»
Máxi-single, Dansa do Som, 1985
Lado A: «Zimpó»;
Lado B: «Stretch My Face», «Spring Swing»
Produção: Nuno
Canavarro
11.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (11)
DN - Diário de Notícias
30 Março 2002
Discos Pe(r)didos
Na recta final de 70 os Tantra eram um dos raros casos de
sucesso no rarefeito panorama pop rock português. A estreia, com «Mistérios e
Maravilhas» (1977), seguida de um inesperado triunfo no Coliseu dos Recreios,
gerava um fenómeno que nascia nas esferas de um som sinfónico, com alguma
contaminação progressiva, um pouco nos caminhos sugeridos pelo eixo Genesis /
Yes. Seguiu-se, no ano seguinte, «Holocausto», disco que volta a gerar um caso
de popularidade no circuito «roqueiro luso», com duas noites de triunfo no
Coliseu. A estes espectáculos, nos quais surge já nas teclas Pedro Luís (em
substituição de Armando Gama, que partira para formar os Sarabanda), segue-se
inesperado silêncio de três anos. E o grupo, que havia assumido a ideia de um
som rock cantado em português, vê-se então ultrapassado pela popularidade dos
novos nomes que entram em cena. Manuel Cardoso, o vocalista e um dos fundadores
dos Tantra, havia já assumido o seu alter-ego de Frodo...
Quando, em 1981, é editado o derradeiro álbum dos Tantra,
«Humanoid Flesh» (no qual participa, no baixo, Pedro Ayres Magalhães), o fim do
grupo está à vista, sobretudo dado o fracasso de um disco talvez
incompreendido, que trocava as linguagens progressivas de 70 por uma
aproximação às emergentes sugestões da new wave.
Manuel Cardoso toma então definitivamente o nome do seu alter-ego
Frodo e parte em busca, não de respostas sobre um anel, mas para uma carreira a
solo que nos deixou dois registos dignos de referência. Estreia-se com o single
«Machos Latinos» (ainda em 1981), ao qual sucede o álbum «Noites de Lisboa», no
qual se conhece, de certa forma, uma lógica de continuidade face a alguns
elementos da música dos Tantra, nomeadamente o prazer pela elaboração dos
fundos (um pouco ao jeito das normas sinfonistas), aqui, todavia, empregando
regras de maior simplicidade ao nível dos recursos, sublinhando assim critérios
de contemporaneidade, aceitando as marcas de um presente onde uma nova lógica
electrónica encontrava o seu espaço no contexto da canção pop.
Ao seu lado, neste «Noites de Lisboa», encontramos alguns
ex-Tantra, como Pedro Luís (que então dava também os primeiros passos com o seu
projecto pessoal, os Da Vinci) e António José Almeida (o baterista que seguia,
então, rumo próprio com os Heróis do Mar). António Emiliano (teclas) é outro
dos convidados a desenhar retratos nocturnos de Lisboa com os quais Frodo
propõe uma ideia de sofisticação pop que não se enquadrava nos padrões de um
momento onde se descobriam ainda as adaptações lusitanas das normas do «fast
and furious».
Nem muito «fast», nem muito «furious», mas enfim...
A capa do álbum, que reflecte uma ideia de identidade
teatral e lembra, de longe, a figura do austríaco Falco (na altura na berra com
«Der Komissar»), é um primeiro indício de um processo de autodeterminação de
uma ideia pop que conduzia Frodo na alvorada de 80. A foto interior, onde junta
a si os músicos, exibe uma noção de imagem apurada no sentido de uma
sofisticação chique, quase neo-romântica, embora sem maquilhagem...
Musicalmente, sem se apresentar como um álbum
revolucionário, «Noites de Lisboa» é um disco curioso e competente, bem mais
interessante e representativo de uma proposta individual de rumo que muitos dos
pastiches que o ano de 1982 vê nascer (e morrer) entre nós. Poucos meses
volvidos sobre a edição deste seu álbum de estreia, Frodo edita um sucessor, no
bizarro formato de duplo (álbum + máxi) «Zbaboo Dança», uma mais directa aposta
na exploração de electrónicas, mas num recuo linguístico rumo ao inglês... E,
como o anel, desapareceu em Mordor...
N.G.
FRODO
«Noites de Lisboa»
Vadeca, 1982
Lado A: «Vou Acordar No Paraíso», «Máquinas na Multidão»,
«Feitiço», «Labirinto»;
Lado B: «Noites de Lisboa», «Manhãs Submersas», «Fado
Louco», «Heróis da Noite»
Produção: Frodo
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