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4.4.23

Jorge Lima Barreto - "Solo Sobre Vítor Rua" (artigo de JLB sobre VR na revista anarquista A Ideia #30-31, 1983


Jorge Lima Barreto

Solo sobre Vítor Rua

Este meteórico músico Português é um talento precoce que caminha na via láctea dos sons, estrelando de melodias misteriosas o horizonte provável da música do mundo: Vítor Rua.

Analisar a sua música é descrevê-lo em acção, inebriar-se com a sua persona introvertida (intimista por natureza) é perceber que todas as estratégias da sua vida são assumidas em função do seu único e verdadeiro amor: a guitarra. Podemos falar das suas guitarras eléctricas inspirados na tensão com que as toca, as acaricia ou as erotiza como que fazendo transparecer através delas todo o seu sentimento: há a «Morris» que usou em CTU/TELECTU que é versátil e mesmo adúltera (com ela pode Vítor Rua fazer tudo desde um baixo pontilístico ao fraseado insinuante e melódico até aos experimentalismos mais ousados).

Na «Gibson», da qual se orgulha ser model usado por John Abercombie, fez correr os seus dedos delicados (toda a mão é fina e frágil, apenas a força de ser lírica); escalas mas escalas e outras escalas, escalando os domínios da sabedoria musical, até ao momento em que o gesto será perfeitamente o resultado da ideia musical. Nesta praxis, ele torna o trabalho no deleito da aprendizagem (de manhã inundado de sol, à tarde iludido pela solidão e à noite envolto no sonho).

É também um exímio guitarrista baixo; aqui embrenha-se no funky, marcado de límpidas rítmicas isocrónicas, expurgando timbres arrojados e viris; inultrapassável na sua qualidade, muito americano.

A «Jaguar» (Fender), um instrumento apreciável pela raridade e pela leveza, monopolizou o seu saber: parece-nos, ao vê-lo tocar, que a conhece desde a sua existência, a mão segura no braço em subtis movimentos e a palheta tacteia evanescente pelas cordas, enunciando frases, figuras, notas simples, uma empatia tal que pensamos que a guitarra é uma extensão física do seu corpo magro e aristocrático.

Os olhos negros, brilho de inteligência, contemplam viciosamente a «Dom de Louise» uma lito-slide-guitar, oferecida pelo seu maior admirador, que foi feita à mão por um expert de Brooklin e é peça única: um amplificador primitivo, as armações em porcelana branca e uma pedra-mármore polido a servir de corpo. Obra artesanal para as elocubrações electrónicas do Vítor; esperam-se daí milagres como estamos certos que a ciência deste solista irá oferecer-nos o luxo computacional na «Roland» com sintetizador. Embora Vítor Rua experimente sintetizadores variados (tem um fraco pelo electrónico realizarão todas as suas ficções. A «Roland» é um plano realizado em «Belzebu» (Jorje).

De tez cigana o Vítor Rua lembra, e a propósito de encarnações, uma metempsicose alucinada de Django cujo mundo ambiente são os contos electrizantes dasa aparelhagens (o misturador, os amplificadores, o rockman, os auscultadores, o equalizador, os gravadores, as cassettes e os discos – enfim, a parafernália maravilhosa da música contemporânea. Hoje Boulou Ferré magnetizou este manouche Vítor como um íman sobre limalha de ferro.

Catalogado, apressadamente como músico pop (os seus êxitos adolescentes do «GNR», os serviços prestados em favor de quase inevitáveis oportunismos) Vítor Rua situou-se na cimeira da pop nacional e projectou a sua autoridade de líder na estética do rock (a eminênciaoculta de «avarias», os arranjos pertinazes de «INDEPENDANÇA») até culminar a carreira em «TELECTU», onde se excede no artifício dos experimentalismos e na virtuosidade das dobragens, obra que ele considera cumular a sua criatividade no rock. Mas o Vítor Rua é insatisfeito, a sua ambição não pode ter fronteiras (para quê as fronteiras se ele é tido como o melhor solista do rock português?) quer abolir com os convencionalismos (porque não, se ele levou ao extremo uma estética pop?) e não hesita: inicia já neste crepúsculo magnífico de adolescência o incêndio do convencional e a beleza da maturidade elabora uma síntese intelectual de todos os desejos de infância.

É a sua idade de ouro: filigranas preciosamente elaboradas pelos seus dedos, arte sonora que vibra das cordas, habilidades electrónicas que a curiosa esperteza congemina; fios que entram num aparelho e surgem noutro, plugs e jacks, pequenas magias, insignificantes segredos que subentendem a idiossincrasia dum estilo. Nestes inventos edificam os grandes solistas a sua marca musical – por isso, os músicos medíocres (falsos músicos, logo a música é uma verdade) não trabalham na própria linguagem apenas se divertindo em decalcar os outros, utilizando o que a tecnologia lhes apresenta, plagiando o que está feitio.

Vítor Rua, mesmo quando se comprometeu com a música ligeira, nunca copiou ou extirpou o trabalho alheio: donde o imenso sentimento de frustração e erro ao analisar esse compromisso, jamais assumido, mas a certeza da criatividade não poderá permitir de futuro qualquer espécie de prostituição.

É um juramento que Vítor Rua fez perante a música e depois dum concerto de Derek Bailey, na «Kitchen», New York.

Havia sido na «Kitchen» que se revelou também o seu ídolo: Robert Fripp. Numa fase em que Fripp condena as suas ideias musicais so sistema «Frippertronics» e se recusa a tocar para mais de 250 pessoas, admitindo dez iluminados como assistentes e acusa o regime do rock com o epíteto de desportivo. É este Fripp que o seduz. Foi este Fripp que o avassalou no concerto King Crimson do Restelo.

Desde essa noite entre espectadores promíscuos de circo romano ele aderiu à luta de Spartacus e pôs termo à alienação a que os sedentos de vedetismos televisivos, os comerciantes do som, os empresários ávidos de lucro o haviam querido condenar.

Vítor Rua revelou-se ao ouvir Robert Fripp.

É um ser hiper-sensível, muitas vezes amedrontado com a saúde, pacifista e duma generosidade que raia o prodigalismo.

Foi manipulado pelos interesses da mais-valia, mas nem foi a «consciência política» nem a «raiva insana» que o fizeram tomar uma posição: só podia ser um grande guitarrista a motivá-lo: Robert Fripp. Vítor Rua só pode ser sensibilizado por um músico, ou por alguém que estude música. Fripp apontou-lhe não só a nova semiologia do rock mas também lhe forneceu os elementos necessários para uma disciplina musical. O Vítor ouve diariamente os discos de Fripp, procura arduamente repetir as suas frases, estuda atentamente o ataque das notas, investiga estupefacto a sistematização rigorosa deste mestre da guitarra eléctrica, sonda com avidez o contexto metódico, extasia-se perante a genialidade do modelo. Gosta de tomar café no Penguin Café ouvindo a Orchestra local.

Vítor Rua havia tocado blues com a «King Fisher Band» ainda muito novo e Jimi Hendrix catapultou-o para a realidade psicadélica do rock. Houve unitemas a marcarem ancestralmente a sua técnica: os «Yes» ou os «Pink Floyd». Depois a revolução da New Wave fê-lo aderir à nova tecnologia do rock e os «Talking Heads», «Joy Division», os «Devo», os «Sparks», David Bowie, o «Disco Sound», estão como mais significativos, embora um a um sejam contestados pela sua própria evolução, mesmo levados até ao desprezo ou à indiferença.

 

Lições clássicas fugazes deixaram-lhe o conhecimento do dedilhado da guitarra erudita e a nominação de alguns compositores estereotipados pelo ensino académico.

Então e após o seu êxito com «INDEPENDANÇA» passa a tratar do progresso estilístico o que o leva a ultrapassar significativamente as directrizes iniciais do seu próprio grupo «GNR». Neste clima de tensões pessoais muito fortes, nem uma só vez o vi exasperado com os concorrentes do rock nacional. Ao contrário das estrelas cadentes (cujo brilho ofusca as mentalidades mais pobres) Vítor Rua não adere ao regime mercantilista que vigora localmente; qualquer dessas microcósmicas «vedetas» ao vê-lo de imediato o reverencia; até porque não é possível nenhuma hostilidade pessoal. Ele está verdadeiramente acima desse nível que os media (TV, Rádio, Jornais, Discos) impingem às massas e está assim sem elitismos repressivos porque já viveu essa realidade entre os considerados melhores e numa idade pouco comum.

Trabalhou um «GNR» táctico para o festival de Vilar de Mouros e angariou com «Anar Band» o primeiro prémio na Bienal de Vila Nova de Cerveira em contacto com performers e artistas plásticos no atelier musical do projecto «TELECTU».

Ash Ra Temple, melhor: Manuel Gotsching seduziu-o de forma totalitária; o regime melódico das repetições indu-lo a ouvir as escalas repetitivas americanas de música erudita. Steve Reich e Terry Riley interessaram-lhe de sobremaneira.

A rotura com a pop estava instaurada.

Ralph Towner, Metheny, Ryptall e a escola dos virtuosos neomelodiastas da guitarra interessam-lhe cada vez mais. Ouvira Tony Conrad e John Surman, este repetitivos esquisitos.

O Jazz insinua-se com Jim Hall, Joe Pass, Gabor Szabo, Mahavishnu, Coryell e tantos outros; mas é no contacto directo com grandes músicos (ele esteve ao lado de Cecil Taylor, Ed Blackwell) que o cativa em definitivo.

A repetição como estrutura estilística é um novo passo a dar pelo artista.

Já em Steve Hillage interessa-lhe o fraseado da repetição, unidas melódicas obsessivas ou discursos de conexão com obstinados e rasgos de improvisação (e aqui estão Harsall, Zappa, Hendrix, Eno ou os progressive lisergicamente projectando os delírios electrónicos nos rituais da guitarra, e o seu maxime: Robert Fripp).

Escutou atentamente música electrónica (de Stockhausen, Bério, Xenakis) para parâmetro de organização das escolas sonoras, sempre resultantes do solo de guitarra.

O Free-Jazz (Ornette) libertou-o de noções restritivas do tonalismo e a etnográfica (indiana e africana) salvou-o da imbecilidade binária da pop ou do infantilismo tonal do rock ligeiro. A escola da GRM de Paris dominou o critério sonoro.

Para o deliciar fale-se em Ash Ra ou Fripp ou Hendrix ou Hillage ou Bellow ou Frith (ele não se interessa muito por Clapton ou Page e abomina Alvin Lee e todo o hard rock, bem como exacra visceralmente o folk ou a canção ligeira ideológica).

A produção discológica apaixona-o. No estúdio discorre musicalmente entre as consolas, experimenta efeitos electro-acústicos e grande parte do seu êxito discográfico deve-se ao conhecimento empírico dos estúdios. Neste prisma do saber, Vítor Rua segue Eno e Rundgren para trabalhar a tessitura das vozes, estruturar as misturas, os replayings e as escalas disco-sound não lhe são alheias. O Free-Jazz tornou-o mais louco, arrebatado, sensual/frenético.

Esse empirismo é sobrepujado pela lógica improvisativa dos solos de guitarra. O destino da sua música está na guitarra e nos diálogos que a guitarra possa fazer com outros instrumentos (sintetizadores e caixas de ritmo têm a preferência).

Leão ou Caranguejo isso depende dos critérios astrológicos limítrofes. O seu corpo magérrimo de Cristo ou Mahatma é um fulcro impressionante de energia musical sempre produzido, em inovação constante.

Quando o pensamos abstraído, é por certo uma abstracção musical que o arranca à realidade. Muito reservado e calmo, inesperada loquacidade, esporadicamente eleva-se em psicotropia que excitam o seu ser sensível e levam a imaginação aos abismos da loucura. Tal um solista tribal, encara a música como uma imanência estupefaciente da realidade sonora.

Na nossa vagem a Nova York visitou, como disse, o oráculo da música contemporânea improvisada: a «Kitchen»! Aí ouviu e viu Derek Bailey Company. Bailey impressionou-o na música contemporânea improvisada para guitarra. Pessoalmente conotou as libertinagens deste virtuoso, a capacidade de criar dissimetrias rítmicas e explorar experimentalismos tímbricos.

Se Fripp o tornou um escravo revoltado, Bailey deu-lhe as armas da revolta. Mas talvez mais poderosa ainda foi a influência de Fred Frith, que na «Kitchen» fazia parte da Bailey Company. O prospecto da Company, distribuído à entrada, incutiu nele a ideia de poder um dia tocar junto a estes músicos. Frith surgiu com o seu arsenal home made, instrumentos artesanais, entrados sobre uma desmontagem virtual da guitarra que se extrapolava de um instrumental de percussão. Os discos de Frith, então, tornavam-se oráculos perante os quis Vítor Rua exercita a sua alma musical, beliscando com a palheta as cordas das suas guitarras, em emulação.

Como compositor é intuitivo. Conhecendo apenas rudimentos da musicografia (que o tempo irá transformar em ciência) tem para os eus modelos, os Faust, os Kraftwerk e a Penguim Café Orchestra (não escreveu Satie para orquestras de café?), Monk, Ellington, certa Soul Music; paradoxalmente não perfilha a estética de Zappa mas seduzem-nos os hits da história do rock (e agora do Jazz). Uma sinalética aberta (Cage) fundamenta «Belzebu» como escrita minimal, periódica.

Podemos situá-lo, como português e improvisador solista, na senda de Paredes ou Sarbib e estamos na espectativa do seu futuro apocalíptico.

Poder-se-á falar de um músico com apenas 21 anos de idade? Porque não se Mozart aos 6 jera já um notável compositor ou Charley Christian, que morreu com 22 anos?

A sua obra discográfica tem perceptíveis aberturas de talento em «Independança» GNR e fantásticas invenções tecno-melódicas em «Telectu Ctu», que faz desfilar os melhores solos da história do Rock em Portugal.

O caminho está rasgado entre o prazer da música (Rock ou não rock) e a força interior anima todos os gestos da forma musical.

Conheça-o quem o quiser amar.

 

P.S. – Agosto de 1983 –

 

A escrita desenvolveu-se em Telectu numa grafia deveras original. Qualquer guitarrista electrónico tem obrigação de consultar os esquematismos musicográficos de Vítor Rua da obra «Belzebu».

Agora pratica quase exclusivamente na Roland 808, no sentido de sobredeterminar a fase das guitarras acústicas electrificadas.

Num complexo regime minimal-repetitivo, que se filia na escola de Robert Fripp, arqueologicamente em Hillage, este guitarrista instaurou já uma sonoridade singular num fraseado económico, sintético, arrebatamento visceral.

Apoiando-se em esquemas repetitivos, regulares, dos fundos do sintetizador, Rua liberta-se em improvisações que merecem uma cuidadosa atenção e onde um jogo de tecnicismos electrónicos vanguardistas subscrevem a progressiva alteração melódica, impondo mesmo um novo conceito de melodia.

A escrita, por ele adoptada, garante que esse sistema de improvisação, constituído por unidades sonoras electrónicas, se perpetue como uma possibilidade, entre outras, de criação sonora.

O rock está bem longe; novos mitos, novos ritos: Reich, Riley, Glass estão sempre a girar, repetitivamente, no prato do gira-discos.

Esta situação obrigou-o também a uma revisão radical dos métodos de interconexão eletrónica da diversificada aparelhagem sonora.

Na Roland 808 Vítor Rua distanciou-se do pelotão de guitarristas nacionais e isolado elevou a sua música a um estatuto só reconhecível por um público exigente, que escasseia neste país.

Na Roland 808 é simultaneamente, um técnico de som e um improvisador e tornou-se possível o surgimento em Portugal, paralelamente a Carlos Zíngaro, da música minimal repetitiva.

O projecto de Telectu define perfeitamente essa linha evolutiva de sintaxes repetitivas improvisadas (em Ctu Telectu) para uma linguagem paradigmática repetitiva (Belzebu) até um regime de valores minimais repetitivos, que a prática amadureceu, para o plano do disco futuro «off-off».

P.S. – Numa luta aberta e decidida contra o fascismo (na persona do administrador da Valentim de Carvalho que decidiu despedi-lo: ou ele tocava música ligeira e lhe dava lucro ou não interessava a «música», rua com o Rua), grava Telectu/Belzebu na única editora independente portuguesa.

Também de frisar, e após um contacto fundamental com António Palolo, a pluridisciplinaridade do discurso (música/vídeo), em que utiliza processos de sincronia, contiguidade e colagem, concomitantes à música minimal periódica.









A IDEIA anartista

N.º 30-31 TRIMESTRAL 170$00 OUTUBRO 1983

120 páginas

 

A IDEIA – revista de cultura e pensamento anarquista

Director e Proprietário: João C. O. M. Freire.

Redacção e Administração: Apartado 3122 – 1303 Lisboa Codex – Portugal

Execução Gráfica: Gráfica 2000, Cruz Quebrada.

Editores: João Freire, Maria G. Oliveira, J. Paulo Oliveira, Teresa Silva, M. Alexandre Lousada e Conceição Vieira.

Colaboradores permanentes: Domingos Amaro, Manuel A. Oliveira, Rogério Souza, Carlos Reis, José Francisco, Artur Modesto, J. M. Carvalho Ferreira e Miguel Serras Pereira.

Correspondentes: Santarém – José M. Leandro; Porto – Pedro Almeida; Inglaterra – Claude Moreira; Brasil – Edgar Rodrigues.

Capa e arranjo gráfico: Vasco Rosa

Coordenaram este número: Hermínio Monteiro, João Freire, Manuel P. Silva, M. Alexandre Lousada, Miguel Serras Pereira e Vasco Rosa.

Distribuidora: Dijornal, R. Joaquim António de Aguiar, 64-2.º - 1000 Lisboa – Telefones 657550 – 657450 – 657870.

Condições de assinatura: Assinatura anual (2 números duplos) – 300 Escudos; Assinatura de apoio – 400 Escudos ou superior; Estrangeiro – 300 Pesetas / 20 Francs F. / 5000 Lire / 2 Pounds / 5 US Dollars.

Nº de Depósito Legal: 3276/83

Nº de Reg. Título: 104197

Nº de Reg. Prop.: 207384

 

A IDEIA Anartista 30-31 Índice

Alberto Pimenta / Acerca da poética ainda possível / 7

Eduardo Colombo / Do Desejo À Utopia / 12

Kenneth White / Notas sobre o pensamento anarquista / 27

Marianne Enckel / Digressão inacabada sobre o movimento perpétuo / 30

Nuno Félix da Costa / A fotografia e a perversão do olhar / 35

Alexandra Vasilikian / Teoria de uma exposição / 40

Pedro Borges / O cinema ou o espelho que cega / 44

Fiama Hasse Pais Brandão / História: o direito á alucinação / 46

Susan Margaret Brown / O banqueiro anarquista ou o poeta anarquista mascarado? / 49

Mário Cesariny / Carta do Shaman / Nomenclatura para depois do último Katun / 55

Fernando Alves dos Santos / Jogo / 56

Miguel Serras Pereira / «El Angel Exterminador» / 57

António Maria Lisboa / Quatro Poemas / 58

Mário Cordeiro / Em maio… / 60

António Macedo / «Mágico do Tempo…» / 61

Isabel de Sá / A tarde falecia… / 62

Rogério José / Viagens / 64

Manuela Silva / Apocalipse, Agora / 65

Aura Amaral / Era maio… / 66

Gabriel Bonito / À Tona de Água / 67

José Bebiano / Duas Cartas de Para Cá das Aves III / 68

Eugénio de Andrade / Rosa do Mundo / 69

Eduardo Guerra Carneiro / Ano Novo, Vida Nova / 70

Helder Moura Pereira / Claroescuro / 72

Manuel Hermínio Monteiro / Semana Santa… / 78

Joaquim de Oliveira Caetano / Três Cartas de Beja / 80

Mário Cláudio / In extremis ou elegia a Rudolph Valentino / 81

Maria Carlos Radich / Bárbara / 84

José Dinis Fidalgo / Olhos gaios / 88

Regina Louro / O carro do lixo passa às sete da manhã / 94

Almeida e Sousa / Linhas do horizonte / 98

Jorge Lima Barreto / Solo sobre Vítor Rua / 101

António Brandão Moniz / Santos Barros: poeta da minoria / 107

Evocação:

Edgar Rodrigues / José Oiticica / 111

Maria da Conceição / Ferreira de Castro / 113

Miscelânea / 114

 

Desenhos de

António Palolo, Pedro de Sousa, Mário Botas, Jean-Jacques Dauben, Ilda David, Isabel de Sá, Manuel Rosa e Graça Martins
















28.12.20

Livros sobre música que vale a pena ler - Cromo #84: Vítor Rua - "Eu Só Queria Dizer O Seguinte..."


autor: Vítor Rua
título: eu só queria dizer o seguinte...
editora: asoka miau house
nº de páginas: 214
isbn: 978-989-20-4310-4
data: 2013






Vítor Rua - eu só queria dizer o seguinte..."

texto: Vítor Rua
Ilustrações: Ilda Teresa Castro
edição de 100 exemplares [livro feito à mão]
este é o #011 - autografado e numerado pelo autor.
uma edição asoka miau house
© 2013 Vítor Rua & Ilda Teresa Castro
ISBN: 978-989-20-4310-4

prefácio e resumo biográfico dos autores, por António Duarte, on demand.



71. 45 & 33 rotações

… uma vez, pouco depois do 25 de Abril, o Jorge Lima Barreto, foi convidado a participar num colóquio sobre Jazz; estavam lá todos os do Jazz: o José Duarte, o Jorge Curvelo, o Raúl Bernardo, etc.; O Jorge queria falar de Free Jazz e das novas tendências do Jazz; enquanto os outros ainda estavam todos no BeBop; a determinada altura, eles começam todos a dizer ao Jorge que o Free Jazz não era música; e o Jorge diz-lhes: “Então ouçam isto e digam-me o que pensam”; e mete um disco a tocar; no final, começam todos a dizer que aquilo é só gritos, e barulheira e que, portanto se comprovava que o Free Jazz era “ruído”; então, o Jorge pega no disco que meteu a tocar, mostra-o ao público e diz: “A obra que eles estão a criticar e a dizer mal, é um disco do Thelonious Monk, só que o meti em 45 rotações quando é um LP de 33 rotações; ora, estes imbecis, nem sequer foram capazes de reparar nisso. Nem distinguiram que os instrumentos estavam a ser tocados a uma velocidade diferente; agora, querem continuar este colóquio comigo, ou com estes tipos?”; e o público em uníssono disse o nome do Jorge e os outros tiveram de abandonar a sala…

 

92. chocolate & chocolate

… uma vez eu e o Jorge Lima Barreto, fomos a Londres para dar um concerto Telectu; encontramos os nossos amigos Gonçalo Falcão e a Inês W Carmo; e andamos a passear por Londres os quatro; eu e a Inês fomos a uma gelataria assim para o chic; sentámo-nos e veio um empregado; era preto; eu peço um “ice cream” e ele pergunta “What flavour?”, e eu digo em português “chocolate”; e ele “Sorry?”; e eu “chocolate” e o gajo “I don’t understand”; até que eu, já nervoso, aponto para a cara dele, e digo-lhe “Chocolat… Chocolat”; aí ele entendeu. Depois, estávamos no metro, nas escadas rolantes, e o Jorge em vez de se meter do lado direito, estava no lado esquerdo; ora, isso fazia com que as pessoas passassem a todo o gás por ele, e dissessem “Please Sir” ou “Sorry Sir”; e o Jorge parado, olhava com estranheza, pensando porque estariam aquelas pessoas a andar numa escada rolante; até que, passa, um muito irritado com ele e diz-lhe “Go to your right”, e vira-se o Jorge para ele, em português: “Estás com muita pressa, tu… Até parece que vais apanhar o metro”…

 

5. Telectu na china

#01 – “o subsídio de cachet”

… fomos à China através do nosso amigo António Duarte; fomos lá tocar; tocámos, por exemplo, no maior clube de jazz de hong kong; tocámos num show multimédia na Casa de Macau; mas o que o António Duarte nos arranjou foi uma outra coisa única; sermos os primeiros ocidentais a gravar na China Record Company. Mas era necessário dinheiro para as viagens de Macau para Pequim; então fomos falar com o presidente do Instituto Cultural de Macau; já não me recordo se falámos com o Monjardino ou com o João Amorim; o que importa é que, a determinada altura, o presidente diz: “Nós não temos cachet para os Telectu”, e o Jorge, olha para ele e diz: “Mas nós não vimos aqui pedir-lhe cachet nenhum!”, e o outro: “Então, o que pretendem?”, e o Jorge: “O que nós estamos a pedir não é um cachet, isso sabemos que vocês não podem dar, o que nós queremos é apenas um subsídio de cachet!”, o presidente do instituto olha para o Jorge e pergunta: “Um subsídio de cachet? O que é isso?”, e o Jorge: “O nosso cachet seriam uns mil contos, ora nós só lhe vamos pedir trezentos contos, logo, o que estamos a pedir-lhe é apenas um subsídio de cachet!” o gajo riu-se e deu-nos o subsídio de cachet!





24.8.17

Memorabilia - Bilhetes (25) - GNR no Coliseu de Lisboa - 1987


GNR
Coliseu de Lisboa
24 de Abril de1987






14.8.17

Memorabilia - Bilhetes (18)


Neste concerto tocaram, por esta ordem:
Croix Sainte
Ban
Xutos & Pontapés
GNR

Sei porque, neste caso (coisa rara - vide bilhetes do RRV)) apontei isso no verso do bilhete, como podem confirmar.
Quanto à pontuação dada, por um jovem crítico frustrado, não façam caso :-)
















24.2.17

DN - Série: Discos Pe(r)didos (2)


DN - Diário de Notícias


Discos pe(r)didos



Juntamente com os Heróis do Mar, os GNR foram um dos grupos mais prolíficos da cena pop/rock portuguesa de 80. Prolíficos não só em nome próprio, mas também como troncos de árvores genealógicas que cresceram dos elementos ligados às duas bandas, quer em carreiras paralelas ou em caminhos a solo depois da separação da «nave-mãe».
Comecemos por recuar a 1979, ano no qual o grupo nasce quando Vítor Rua (ex King Fischer’s Band) começa a ensaiar com Alexandre Soares (ex-Pesquisa), Tóli César Machado e Mano Zé. Em 1980 assinam pela Valentim de Carvalho, editora para quem se estreiam, já em 1981, com o single Portugal na CEE. Alexandre Soares é, então, guitarrista e vocalista. Mano Zé deixa, entretanto, a banda, que fica reduzida a um trio, o mesmo que grava o segundo single, Sê Um GNR, lançado ainda em 1981.
Vítor Rua foi, dos elementos do grupo, o primeiro a encetar uma carreira paralela, editando CTU, nos Telectu, ainda em 1982. Deixa os GNR pouco depois, abrindo então um caso de disputa jurídica pela posse do nome da banda, que se estenderá durante anos, até ao cachimbo da paz, que acontece apenas em meados de 90, quando é editada a compilação Tudo O Que Você Queria Saber: O Melhor dos GNR. Até lá continua a editar regularmente, com os Telectu. Grava ainda o álbum Pipocas (1986), Clássicos GNR (1989) e Mimi Tão Pequena e Tão Suja (como Pós-GNR, em 1991).
Alexandre Soares, que sai do grupo entre 1982 e 83, participa nos quatro primeiros álbuns de originais dos GNR. Deixa, contudo, o microfone a Rui Reininho (que surge como vocalista em Independança, álbum de estreia em 1982). Depois de Psicopátria decide, contudo, afastar-se definitivamente. É então que enceta uma brevíssima carreira a solo, que se materializa em apenas um álbum: Um Projecto Global.
Um simples olhar pelas duas fotos que se apresentam na capa interior do álbum indiciam o cenário no qual nasceu: a própria casa de Alexandre Soares. Numa espécie de antevisão do conceito de home recording, as canções, nas quais se torna evidente o porquê da vontade em sair dos GNR, foram pensadas, tocadas e gravadas numa sala, pelo próprio Alexandre Soares (pontualmente com a ajuda de alguns amigos, entre eles Quico, nas teclas e programações). Teclados, guitarras, gira-discos, uma mesa de mistura, gravadores de bobinas... A maquinaria mostra-se sobre mesas e livros, sublinhando o tom quase anarca e desenrascado do ambiente em que nasce o disco.
Um Projecto Global, na verdade, é um disco no qual valem mais as ideias que as formas finais. O som mais parece o de uma maquete que o de uma gravação «oficial». Contudo, esta falta de polimento parece intencional. Não só pela falta de  meios que terão sido colocados à disposição do músico, mas certamente por uma vontade de mostrar e viabilizar caminhos seus. Entre os mais curiosos elementos deste disco a solo de Alexandre Soares destaca-se a presença de Pedro Ayres Magalhães, que assina a letra de Luzes no Hotel, a faixa de abertura do disco. Entre a lista de colaboradores referidos na ficha técnica do álbum, embora sem designação específica da sua contribuição, surge Jorge Romão (dos GNR).
Pela evidente diferença de formas face ao que eram os GNR de finais de 80, o passado de Alexandre Soares pouco lhe valeu junto aos media. Um Projecto Global mal se deve ter escutado na rádio. E, por várias razões, o disco acabou ignorado...
Esse insucesso deverá estar na origem do ponto final que Alexandre Soares então colocou à sua carreira em nome individual. E a ideia de eventuais sucessotres deste disco (de que fala em entrevista a Luís Maio no livro Afectivamente GNR) acabou sem concretização.
Alexandre Soares voltou a estar no centro das atenções quando, já nos anos 90, surge integrado na segunda formação dos Três Tristes Tigres, assinando com Ana Deus e Regina Guimarães os álbuns, de absoluta referência, Guia Espiritual (1996) e Comum (1998).
Nuno Galopim

ALEXANDRE SOARES LP «Um Projecto Global», Polygram, 1988, LADO A: Luzes No Hotel, Hibernar, (Que) Ricos Dias, Fora de Casa; LADO B: Respirar Chambo, Uma Coisa, Meus Amigos, Vozes, Recordo-me? PRODUÇÃO: Alexandre Soares.







3.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (142) - Música & Som #109


Música & Som
Ano IX
Nº 109

Janeiro de 1986
Publicação Mensal
Esc. 200$00




Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Matos, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, José Guerreiro, José O. Fernandes, José Rúbio, Luís Maio, Manuel José Portela, Manuela Paraíso, Nuno Infante do Carmo, Pedro Cardoso, Pedro Ferreira e Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 20 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4 (16 páginas centrais tipo jornal - papel e conteúdo -)
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.
poster: Simone (A3 a cores - centrais)



Concertos
No Aniversário Do RRV
por Maria Paula Monteiro

1. Os Xutos
Já pela noitinha, na noite da festa de Aniversário do Rock Rendez-Vous, uma juventude híbrida enchia o local meio escuro, pronto a rebentar de luz na ocasião do espectáculo. Pelo menos assim se esperava.
O ambiente era de expectativa. Iam-se acendendo cigarros calmamente e sorvendo as bebidas a que o bilhete de 400$ dava direito.
Contudo, era marcante a falta de exuberância deste espectador que cultiva na estética a sensualidade e o género feminino. O vestuário e o corte de cabelo eram acentuadamente hibernantes: Anos 30, 50 e 60, acentuadamente, a entrarem no percurso dos Anos 80 - saias justas compridas, camisolões, sobretudos e gabardines, calças largachonas a fazerem ver as botas ou sapatos rasos e, de vez em quando, as meias. Cabelos curtos à James Dean ou a lembrarem a onda punk que ainda se vive. Cabelos apanhados ao alto. Chapéus pretos. Cores a incidirem, ainda, sobre o cinzento e o preto.
O último dos temas (insistentemente pedido) tocado pelos Xutos foi «O voo das Águias» que é um instrumental verdadeiramente exuberante.
À juventude espectadora faltou-lhes, apesar de tudo, seguir a direcção do primeiro impulso - estender os braços ao alto, descontrair o corpo da tensão e acompanharem fervorosamente o ritmo da música com a batida ritmada das mãos.
Ao Zé Pedro ou ao Tim, sobretudo o primeiro, que conseguiram agitar os olhares de todos quantos lá estiveram pelo movimento inebriante do corpo, faltou-lhes um gesto para conseguirem uma maior autenticidade do público e transformar o RRV num mar de palmas a jogarem com a cadência acelerada da música; redobrar-lhes o que lhes ia na alma - um misto de surpresa e entusiasmo verdadeiramente aprazível. Pena é que as vozes não coincidam com a excelente técnica e bom gosto dos Xutos e Pontapés, porque considerá-los-ia o melhor grupo a trabalhar ao vivo em Portugal.



2. Os Ena Pá 2000
O desconcertante grupo, os Ena Pá 2000 pretenderam e pretendem, presumivelmente, ser uma caricatura não se sabe se daquelas bandas de baile, «conjuntos coça na barriga», se do grupo que eles gostariam de poder formar. Actuaram em palco com funis no alto da cabeça que o cantor usava, não sempre, na construção de sons grotescos. Vestiam-se pessimamente e, por isso, fizeram-me lembrar palhaços pobres dum circo em ruínas.
São 5 elementos; entra um baixo, uma guitarra, uma bateria e bongós e são duas vozes, a primeira e a segunda voz. Cantaram temas em ritmo de samba e rock 'n' roll num tom verdadeiramente jocoso. Usaram dizeres visíveis misturados com impropérios, próprios para chocarem jovens aos quais já nada parece ter o poder de chocar.

3. Os THC
Os THC são uma formação proveniente dos Vodka com Laranja, feita a partir de dois bons elementos dos Xutos, o João Cabeleira e o Gui, e um elemento extra-Xutos, o Marco. Têm sempre programada a caixa de ritmos, o baixo e os sintetizadores. Este grupo comportou-se medianamente, não fosse o som bonito da guitarra do João, o som acertado do saxofone do Gui bem como a voz agradavelmente romântica do Marco. Gostei do movimento de exposição do corpo do cantor, que podia até ter sido mais arrojado, a lembrar a alguns dos elementos do público que um «betinho» vestido de gravata, pode também estar equipado de raios «beta» e animado de uma velocidade tão elevada que os subjuga necessariamente.
Como diria o cantor «eu sei que nada pode vir finalmente», um bonito tema, aliás. E realmente nada veio. Feliz, o público.

4. Pop Dell'Arte
São sete em palco - um baterista, percussões, um saxofonista, uma conga (bongós), duas violas, uma marimba e duas vozes, uma permanente, a masculina, outra raramente frequente, a feminina.
Na realidade, conseguem um som diferente evidenciado pela secção rítmica e pelo desconcertante som emitido pelas vozes, mas são taciturnos na maneira de se exporem.
As vozes resultavam lamúrias lancinantes.
Penso que o ser diferente implicou-lhes o cansaço da melodia no exagero da demarcação do baixo, conjuntamente com percussão e bateria, e ainda o pesadelo da voz cantada.
Agora os meus parabéns ao João, o cantor, pela poesia da voz.
Fez, constantemente, uma espécie de declamação com acompanhamento musical o que o tornou um excelente recitador e um desconcertante cantor.
Era conceito inovador se o grupo em vez de fazer concertos passasse a fazer recitais.

5. Os GNR
Do pouco que se ouviu dos GNR, que assim estava combinado, (somente dois temas), dou um destaque particular ao Rui Reininho que teve um papel importante na desestabilização de alguns dos jovens que assistiam. Apareceu em palco com o cabelo exageradamente liso, penteado para a direita, com uma túnica bizarra cor-de-rosa, onde enfiou alguns colares. Com este aparato cantou «Fumas», a nova versão de «Dunas». É importante que os grupos incluam a «graça» no mise-en-scène dos seus espectáculos, duma maneira descomprometida para que o público, também ele, se descomprometa, descontraia. Desta forma pouparia duas intervenções marcantes ao longo da noite que o fez nadar num silêncio embaraçoso. Uma delas foi do João dos Pop Dell'Arte; foi tão incisiva que se permitiu divagar num tema musical. Disse somente isto: «caladinho!».
A outra foi jocosa e por isso suficientemente cómica. Converteu uma pergunta supostamente risível, dirigida ao Rui - «Olha lá! Eras capaz de andar lá fora com essa túnica?», num curto silêncio a partir do qual o cantor dos GNR curiosamente indagou: «Tens espaço social?».

6. Uma noite bem passada
Foi mais uma noite a salvaguardar o interesse de todos aqueles que estão dispostos a fazer culminar todos os seus esforços na propagação e projecção do rock nacional.
A música portuguesa é prejudicada pelos Mass Media. Sabemos que este sector não arrisca o que nós forçosamente arriscamos. Não devemos permitir a invasão constante de outras músicas e temos de estar atentos à invasão da música espanhola. Agora com a entrada de Portugal para a CEE nunca se sabe... Por mim, estou disposto a fazer tudo quanto estiver ao meu alcance para a divulgar. Estás a ver... até desistir do 3º Ano do Técnico para me assumir neste campo o mais realisticamente possível. Espero um dia (e que este esteja próximo) poder fazer um programa de rádio, transformando-o num verdadeiro espectáculo de música portuguesa.
Aqui fica o depoimento final de Peter, figura conhecida do RRV (agora também manager dos Heróis do Mar), numa extensa conversa que tivemos os dois numa tarde de trabalho, a anteceder a noite do aniversário desta casa, que muitos consideram a catedral velhinha do rock português.




Balanço / 85
Internacional

Do que não se editou às razões para editar
por Luís Maio

Que importância poderá ter, para a generalidade do auditório de música moderna, os discos que por cá não chegam a ser editados? Encarando o problema de frente, é necessário reconhecer que esse é um tema de reduzido ou mesmo nulo interesse no que respeita às maiorias.

Em primeiro lugar, o português que é consumidor médio de música pop não consegue por regra comprar todos os discos que considera indispensáveis embora estando disponíveis no nosso mercado. Então, se já não tem posses para acompanhar o (lento) ritmo das nossas publicações discográficas, que sentido pode ter para ele reivindicar a saída de outras coisas? Quem discutir este problema na sua presença quer de certeza zombar da sua triste pobreza. Aqui, pode invocar-se a objecção segundo a qual os pobres que são apaixonados por música pop são, já à partida, pobres com gostos de ricos e que, nessa medida, um tal debate não faz mais do que favorecer a implementação da fineza do seu gosto. A mim, isto não me convence. O gosto musical das maiorias, em especial no capítulo da pop, nada tem de selectivo. Mais parece que ele lhes é subtilmente imposto pelos media e outros organismos publicitários, do que livremente determinado. E aqui reside um segundo motivo para que o presente tema não se adeque ao maior número - é que, em boa parte, o que eles apreciam é o que esses dispositivos publicitários lhes dão a apreciar, os discos que se editam a pensar neles, o resto torna-se irrelevante.
Se uma tal manipulação, ou o que se lhe quiser chamar, e em que também acabo por participar, é necessária e até benéfica para o público musical, é uma questão sobre a qual não sei pronunciar-me. Do que não duvido, contudo, é que quem desejar produzir alguma agitação junto a esse público, não deverá dirigir-se-lhe abertamente, porque é quase inútil lutar contra a rede de preconceitos que o vitima e que acaba subscrevendo. Na verdade, devemos escolher como interlocutores as minorias que o influenciam mais marcadamente, a elas nos endereçando, não com os argumentos mais legítimos, mas com aqueles susceptíveis de surtir maior impacto. Por consequência, este texto destina-se prioritariamente a dois géneros de leitores, a (algumas) companhias discográficas (as quais nos compete convencer do potencial comercial dos discos que ainda não editaram) e a (alguns) críticos de música (os quais devemos sensibilizar para os mesmos através da «demonstração» das suas qualidades).
Como comercialismo e qualidade são, frequentemente, coisas contraditórias, embora aconteça muitas vezes os que se reclamam de um e de outro estarem de acordo, teremos, em certas alturas, de argumentar em dois sentidos opostos acerca de um só trabalho, para assim satisfazer os dois tipos de leitores que temos em vista. Escolhemos discografias de grupos nunca editados em Portugal, razão pela qual os seis «itens» têm os respectivos nomes. Não há organização hierárquica, mas sim alfabética. As bandas foram escolhidas de acordo com um critério pessoal e subjectivo, procurando no entanto abarcar, através delas, estilos musicais diversificados e representativos da primeira metade desta década.

Capítulo I: CRAMPS
Aos Mercadores.
Não é grande ideia editar um disco destinado a ser ouvido ou só pelos saudosos da primeira geração do punk, que não toleram os imitadores da segunda, ou só pelos últimos que, por sua vez, não suportam os traidores da primeira. Até porque ninguém entre nós tem dado grande importância, quer a uns, quer a outros, eles constituem aqui bandos minoritários. Juntos, todavia, já são em número considerável e, se a coisa fosse tão bem explorada, como o é a outros níveis, a partir desse núcleo poder-se-ia formar uma nova maioria.
Logo, para já, o golpe de mestre seria o de intentar a aproximação das duas facções divergentes, publicando um trabalho que agradasse a qualquer delas. Os Cramps são dos poucos agrupamentos em relação ao qual o dito consenso se verifica. Talvez por não serem punks no sentido restrito da palavra, mas investirem numa espécie de fusão desse estilo com o rockabilly, que é uma das suas principais fontes históricas, eles sobreviveram à queda do punk da primeira levada sendo depois reabilitados pelos seus sucessores como símbolo raro de coerência.
Aos Escribas - Os Cramps são aquilo a que se poderia chamar «uma legenda viva», um dos grupos norte-americanos com um currículo marginal mais célebre em toda a história do rock. Por consequência, são um excelente tema de dissertação: não é preciso o escriba dar-se ao sempre fastidioso trabalho de analisar os seus discos, que é uma coisa que já nem se usa, basta que traduza um dos inúmeros artigos sobre a banda, escritos nas revistas estrangeiras.

Capítulo II: THE FALL



Aos Mercadores - Eis o grupo ideal para ser publicado por uma pequena editora ou uma recém-nascida com necessidade de prestígio reconhecido. Os Fall são um verdadeiro certificado de seriedade. O senhor Mark Smith e companhia têm provado, ao longo de dez discos e mais de oito anos de carreira, que é possível sobreviver por vontade própria nos movediços terrenos da pop sem fazer concessões ao comercialismo, denunciando e satirizando a orgânica social do que a pop é cada vez mais uma parte integrante. Depois de se editar esta banda, fica-se para sempre com uma reputação segura, porque é mais que evidente que os seus discos só se conciliam com os elitismos intelectuais e, portanto, não se vendem. A partir daí, pode-se tranquilamente editar o que se quiser, mesmo os subprodutos mais execráveis, visto que os críticos mais inflamados estarem recatadamente no seu canto a roer o osso tão graciosamente oferecido.
Aos Escribas - Dos críticos de música diz-se vulgarmente que são escritores falhados ou incompreendidos. Os Fall, pela sua mensagem complexa e dufusa são uma óptima oportunidade de exercício dessas suas faculdades literárias. Podem, numa prosa sobre a banda, falarem á vontade do que quiserem, porque há quase sempre um trecho da sua obra que para isso serve de ilustração.

Capítulo III - LOUNGE LIZARDS



Aos Mercadores - Apostar nos Lounge Lizards é aquilo a que se costuma chamar «jogar pelo seguro». Tanto os amantes do rock, como os de free-jazz, quando chegam a certa idade, tendem a afastar-se do seu tipo usual de audições - «À la loungue», o rock revela-se demasiado linear e o free-jazz demasiado repetitivo. Normalmente, os seus ex-apaixonados trocam o interesse da música pelo dos trapos, que é sempre uma forma mais segura de mitificação, visto que os seus padrões mudam todos os anos. E pronto, deixam de comprar discos para passarem a adquirir roupas mais sofisticadas e é toda uma clientela que as editoras perdem ingloriamente. Os Lounge Lizards permitem a reconciliação de qualquer desses grupos com a música, porque o que eles praticam não é rock, nem é jazz - é a recriação do jazz clássico de 40 e 50, no formato de três minutos típico da pop. Ao mesmo tempo, e aprtir daqui tudo bate certo, eles viabilizam também essa modalidade subtil de identificação pela indumentária, porque o que eles costumam usar nas fotos das capas dos discos concorda rigorosamente com o look «retro/decadente» que os trintões tanto divinizam.
Aos Escribas - Discursar sobre a música dos Lounge Lizards não é provavelmente obra fácil, porque ela é inócua em referências imediatas, em especial para aqueles que só são versados em música pop. Mas o obstáculo demove-se sem dificuldade de maior - de «Os Passageiros Da Noite» a «Para Além Do Paraíso», passando por «Desesperadamente Procurando Suzana», os irmãos Lurie, o núcleo de base dos Lizards, têm aparecido em tudo o que é filme independente nova-iorquino. São pois uma oportunidade magnífica para mostrar erudição cinematográfica, coisa que a um crítico de música fica sempre bem, dadas as conivências entre os dois ramos artísticos.

Capítulo IV: PSYCHIC TV
Aos Mercadores - Editar os Psychic TV é um lance estratégico fabuloso para uma etiqueta governada por gente inteligente. Na rádio, nos jornais e outros media aparecem sempre uns quantos «engraçados» que gostam de exibir a sua erudição falando em música experimental. É claro que ninguém os lê e é também evidente que, se um disco desses saísse no nosso país, ninguém o compraria a não ser para fins decorativos. Mas, um grupo com um passado e uma reputação vanguardista que actualmente investe nos terrenso da pop ortodoxa seria um achado. Porque, para além de contentar os eruditos, daria ao auditor comum a impressão de finalmente estar à sua altura e, ao mesmo tempo, seria mais uma ocasião para continuar a impingir-lhes sempre o mesmo. Os Psychic TV reúnem todos estes atributos: procedem de uma das bandas electrónicas mais vanguardistas do Reino Unido, os Throbbing Gristle, e, simultaneamente, praticam no presente um pop razoavelmente comestível.
Aos Escribas - A dualidade Throbbing Gristle/Psychic TV pode ser interpretada como instância ilustrativa da antítese «merginalidade de vanguarda» / «Reconversão aos esquemas comerciais». Mas não é este um dos temas predilectos mais bem decorados pelos articulistas da pop? Já está preparado de antemão, só precisa de uma nova chávena para voltar a ser servido.

Capítulo V: SUICIDE
Aos Mercadores - Os Suicide, pelo menos nos seus inícios, eram uma banda praticamente inaudível. Martin Rev, o instrumentista, não tocava, martelava os sintetizadores; Alan Vega, o vocalista, não cantava, vomitava palavras. Por essas e por outras, os Suicide ganharam rapidamente o estatuto de banda «incompreendida». Editá-los é um «must» para toda a companhia que, por uma acção demasiado zelosa dos seus interesses comerciais, já não passa incólume aos olhos da comunidade de auditores pop. Se fizer então sair o disco dos Suicide, não vende nada, ou quase, mas pelo menos sacode a hostilidade de que vem sendo alvo, pode continuar a lançar no mercado todas as aberrações em que é perita. Depois, se voltar a ser criticada, poderá sempre invocar em defesa da sua filantropia a edição da banda norte-americana e convencer os auditores que, tal como esta, é incompreendida nos seus nobres desígnios.
Aos Escribas - Simultaneamente, haverá alguém mais injustamente objecto de críticas e calúnias nos meios pop que os próprios críticos de música? Se os Suicide saírem em Portugal, a altura terá chegado para falar sem restrições da incompreensão de que são vítimas, servindo-se do exemplo artístico destes últimos. É também óbvio que devem no entanto evitar usar as imagens aqui empregadas, isto é, não devem dizer coisas «tal como Martin Rev, eu martelo as teclas da máquina de escrever», «tal como Alan Vega, eu vomito palavras», etc. Esse género de observações não fica bem.




Capítulo VI: YELLO
Aos Mercadores - As editoras necessitam (é nisso que consiste o seu principal objectivo) editar discos que se vendam. É um dado adquirido, ainda que muito boa gente nunca mais abra os olhos, que elas não são, nem têm de ser, associações de caridade. Agora, é igualmente elementar que o que se vende mais é a música de dança, aquela que tem uma melodia simples e uma batida certa, que entra imediatamente e sem esforço na «programação» auditiva do receptor corrente. Mas, ao mesmo tempo, a maior parte dos receptores e dos críticos como seus representantes, exigem que ela tenha mais qualquer coisa, uma espécie de mais-valia do puro consumismo, que é também o que muitas vezes lhes falta - é essa qualidade suplementar que, contudo, é difícil de descortinar na música de dança mais vulgar.
Os Yello são uma das poucas excepções à regra, um caso único de harmoniosa fusão entre a dançabilidade instantânea e a sofisticação compositiva e instrumental.
Logo, eles são o máximo. Cumprem às maravilhas essas duas funções normalmente disjuntivas: vender em larga escala como a espuma para a barba, que é o que tem sucedido com os seus discos no estrangeiro, e ensaboar a boca à crítica mais refinada.
Aos Escribas - Embora não costume deixar transparecer, a não ser quando bebe demais, o crítico de música é um auditor como outro qualquer, que como toda a gente gosta de dançar e trautear «We Are The World». Só que nele a vontade de discursar é um vício pior que fumar, a imparcialidade analítica um imperativo sombrio de que certamente já procurou (sem conseguir) libertar-se. Os Yello permitem-lhe compatibilizar essas pulsões opostas que nele mutuamente se combatem - sozinho à noite, no seu quarto de velho celibatário poderá pular à vontade ao som da rítmica contagiante dessa banda; depois no dia seguinte, no jornal, em companhia dos seus parceiros da redacção, perante o olhar silencioso e sempre severo dos «estimados leitores», poderá discorrer fluentemente sobre as ocultas virtualidades que a sua brilhante mente divisa na música. Haverá melhor do que isto?




28.8.13

k7 pirata - #3: Vítor Rua - Entrevista RUT, 1988




Vítor Rua - Entrevista_RUT_1988 by Luis Jeronimo on Mixcloud



Entretanto... I was there!





4.4.13

Livros sobre música que vale a pena ler (e que eu tenho, lol) - Cromo #25: Luís Maio - "Afectivamente GNR"


autor: Luís Maio
título: Afectivamente GNR
editora: Assírio & Alvim (colecção Rei Lagarto - 17)
nº de páginas: 147
isbn: 972-37-0225-8
data: 1989

sinopse:
Apresentação
Este livro é em princípio uma estreia. O primeiro entre nós publicado a respeito de uma formação portuguesa na área da chamada «música moderna». Um acontecimento que desde logo remete para o espaço cultural onde se vem inscrever, para eventualmente forçar a estreiteza dos seus actuais parâmetros.
A tradicional subalternidade do sector pop/rock no círculo musical nacional pode considerar-se, a nível de produção, em fase de ser superada. Processo germinal nos inícios da década, ainda incluído ou requerendo ulterior reiteração, não parece por isso menos irreversível. Porque, embora pese a fragilidade inerente ao sinuoso fluir local do género, é também incontestável o crescendo quantitativo, e sobretudo qualitativo, que nele se tem vindo a testemunhar. Deu-se o grande safanão musical no complexo de inferioridade perante o estrangeiro, durante cerca de três decénios pouco ou nada disfarçado por glosas desinspiradas, quando não desastrosamente incompetentes. Graças às aquisições cada vez mais seguras da geração de 80, estamos agora no ponto em que se torna improvável a regressão ao obscurantismo, pelo menos, em que se esconjurou a empecida apatia do passado.
Se a incriatividade traumática no capítulo pop/rock foi aqui ultrapassada, em contrapartida não se chegou sequer a visar o bloqueio anexo que por sistema o tem relegado para o charco das artes menores. Aliás, a submersão no embrutecimento não fez senão radicalizar-se por via de uma espécie de aliança tácita dos músicos com os média e o público, como se a desqualificação do estatuto artístico fosse certificado de vitalidade das obras. Assim, evitando higienicamente quaisquer conotações passadistas com a concorrência moribunda da mpp, a nossa música moderna ergueu-se e persistiu empunhando a diversão como exclusivo estandarte. Rejeitou-se, portanto, a marca da intelectualização, dispensou-se a própria intencionalidade, incluindo circunstâncias onde «leituras» trivializantes por força soaram a falso.
Ao promover a descuidada negligência que é a de se reflectir como endémica e estouvada, a nova comunidade musical tem resvalado continuamente para o precipício das aberrações culturais. Daí, em particular, a situação de «alegre analfabetismo» que faz o grosso do luso discurso metamusical, a futilidade mentecapta da maioria das entrevistas, a ignara ligeireza das revisões críticas e, a rematar tudo isto, a ausência de uma leitura adequada a quase quatro décadas, em especial aos agitados últimos anos da nossa história pop/rock.

Os GNR aparecem neste contexto em posição privilegiada a exigir um tipo de tratamento diferente. São uma das bandas mais resistentes da nossa «vaga moderna», uma das raras sobreviventes do seu primeiro «boom» em 80 a conservar-se actualmente em actividade. Apesar de, ou graças às sucessivas mudanças de formação e variações de estilo, a apreciação do seu trabalho em termos globais aponta para um saldo francamente positivo, por certo sem rival à escala nacional. Não embarcaram na onda do rock português, nem na moda mais recente dos revivalismos de veia popularista. No entanto, ou não obstante se terem sabido manter à margem dos movimentos que têm dominado a nossa cena pop/rock, poucos serão aqueles que como eles se podem vangloriar de a terem tanto e tão bem servido. Descolando de qualquer tipo de tributagem mimética, colhendo influências nos mais diversos estilos musicais para as devolver em configurações próprias e com frequência brilhantes, eles criaram um estilo. Foram e são exemplo paradigmático de uma independência que se reconhece como apanágio do mais apurado escol cultural lusitano. Depois, na sua atitude artística, a exemplaridade tem vindo a par com a excepcionalidade. Desde os primórdios, e cada vez mais, os GNR pautam a sua actividade por um princípio de prazer, imediato e pregnante, perfeitamente ajustado aos requisitos do campo pop/rock. Nisso têm alinhado a concurso e boa parte das vezes vencido aos pontos os mais sérios candidatos a «entertainers» surgidos entre nós nesse âmbito. As músicas nunca deixaram de ser sedutoras e contagiantes, recentemente também muito dançáveis, as palavras só têm ganho calo na ludicidade hilariante e irresistível, ao passo que os concertos já foram delirantes para agora se tornarem de uma espectacularidade mais mesurada e profissional. No entanto, no grupo portuense, o encanto e a fruição são possíveis na medida em que se desencadeiam, como bem mais que puro entretenimento. É discutível se a música dos GNR corresponde aos objectivos dos instrumentalistas que a têm rubricado e, como mesmo aqui se poderá constatar, várias são as situações de declarada discrepância que a este respeito há a citar. Contudo, desde o semi-experimental «Avarias» aos instrumentais de Alexandre Soares, passando pelo vasto rol de canções de estrutura pouco ortodoxa que amiúde constela todos os álbuns, esta banda nunca se rendeu à facilidade e simplismo acreditados nos tops. Por outro lado, se é também duvidoso Rui Reininho ter alguma vez ambicionado algo mais que divertir divertindo-se, convenhamos que por regra escolhe vias pouco pacíficas de saciar semelhante propensão. Será um ponto a aprofundar mais tarde, mas é evidente desde o primeiro contacto que o riso que investe em palavras, voz e perfomance, é tudo menos o «saudável» conformismo. A sua gargalhada é sempre a «outra» a que provoca o poder e o instituído, a que faz alvo da «seriedade trágica» no esteio das normas e usos correntes.
Assim tem evoluído o grupo pop/erock português rompendo a autocastradora malha dualista onde o género se vem a arrastar, apostando na sensualidade e na inteligência como duas faces da uma única moeda. Tendo em vista a relevância da banda na nossa música moderna e a especificidade do seu posicionamento, sobre outro nome não poderia recair este projecto. Porque se reclama refractário no espírito àquela antítese de que eles são os detractores autorizados, porque, complementarmente, se supõe inaugural na fórmula literária que eles melhor que ninguém entre nós justificam.
Este livro não é, portanto, o tipo de brochura singela feita de encomenda para aterrar nas estantes dos adolescentes entre os compêndios escolares e os policiais de bolso. Não se satisfaz no desvendamento de «segredos escaldantes», supondo que os há na vida privada dos artistas, nem no historial epicamente relatado do seu currículo. É claro que a história do grupo e a vida dos músicos nos importam, mas apenas na medida em que possam contribuir para elucidar a obra. Porém, o objectivo não é académico, estando longe do nosso propósito impor abordagens na linha de uma musicologia científica ao que pela sua natureza própria é estranho a esse aparelho conceptual. A análise interessa-nos, todavia, na perspectiva de uma abertura de pistas que em vez de fornecer uma única chave de interpretação possa sugerir várias. Pretendemos expor os GNR tal como os entendemos e, em última análise, acreditamos que a moderna música portuguesa na sua globalidade é qualquer coisa de estimulante entre o prazer e a razão. Evidentemente, o facto de se tratar de um ensaio para o qual partimos sem rodagem prévia, num espaço em que não se encontram precedentes locais, dificulta e contingencia tal experiência.
É provável, em particular, que surjam acusações quanto à atitude genérica que assumimos sobre o nosso objecto. Não adoptamos a apologia incondicional, rejeitamos o olhar distanciado do observador imparcial. Mantemo-nos antes numa espécie de meio termo entre a objectividade analítica e a apreciação valorativa, quase, mas nem sempre, favorável. Para muitos será um erro metodológico, sê-lo-á provavelmente, para nós é uma opção ditada pelos pressupostos de onde toda a empresa descola. Não interpelamos uma banda de que gostamos numa óptica de desempenhamento, como não deixamos de examinar com rigor crítico os aspectos nela estimados negativos.
Uma última questão preliminar: o aparecimento deste livro não representará para os GNR, como já sucedeu com tantas estrelas pop em situação análoga, uma sentença de morte, ou pelo menos de declínio? Não é este, faça-se notar, o nosso ponto de vista. É opinião corrente entre os especialistas e auditores mais qualificados sertem os mais recentes trabalhos da banda portuguesa os seus piores até à data, e é bem possível que seja o caso. Não obstante, pensamos que por enquanto merecem o benefício da dúvida. Este livro nasceu das razões que já indicámos, e também porque sendo nós capazes ou não de lhes fazer justiça, é verdade que os GNR já há muito conquistaram o direito a um tributo deste tipo.





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