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31.8.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 20 - Setembro de 2004


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
64 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano V
Nº 20
Setembro de 2004



REEDIÇÕES
SANTA MARIA, GASOLINA EM TEU VENTRE!
Aventuras Sónicas



Ao longo da sua já longa carreira, Jorge Ferraz passou por vários projectos. Actualmente a liderar os Fatimah X, o músico fundou, entre outros, os Ezra Pound e a Loucura, Bye Bye Lolita Girl, João Peste & O Acidoxibordel, God Speed My Aeroplane e Mua’dib Off Distortion. A sua vontade de desaparecer temporariamente do meio musical e uma cíclica vontade de começar de novo, fez com que Ferraz se desdobrasse em vários grupos. Os Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre!, banda que emerge em Lisboa, em 1986, e que durou cinco anos, foi talvez o projecto que lhe deu maior notoriedade, devido ao considerável impacto que tiveram na fértil cena independente portuguesa da segunda metade dos anos 80. Vítor Inácio, o principal cúmplice de Jorge Ferraz, em vários dos seus projectos, foi o único outro músico que integrou os Santa Maria desde o início. Pelas várias formações do grupo passaram músicos como Sapo (Pop Dell’Arte, Mão Morta) ou Tó Trips (Lulu Blind, Dead Combo). “Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção2, álbum editado em 1989 pela Ama Romanta e um EP de edição de autor de 1991, são agora oportunamente editados em conjunto pela Sabotage.




- Como surgiu a ideia de reeditar “Free Terminator” e o EP? Porquê uma reedição conjunta?
 A ideia partiu da Sabotage, que apresentou a proposta e demonstrou sempre grande empenho e ponderação nos contactos e nas negociações com todas as partes envolvidas, Santa Maria e Ama Romanta. Conseguiu-se igualmente que o Nuno Leonel, que já trabalhara connosco, fizesse uma nova capa. Quanto à edição ser conjunta; bem, teve a ver com questões práticas – os 2 discos têm no total uma duração comum à dos CDs actuais-, e afectivas – queríamos mostrar todo o trabalho que foi gravado em estúdio pelo grupo, dando igualmente, conta da sua riqueza e diversidade na evolução.
- Porque reeditar estes discos agora? Que reacções espera?
 Porque, para além do interesse que o João Peste sempre foi demonstrando com a reedição, só agora apareceu alguém, a Sabotage, entusiasmado com o projecto e que assumiu e financiou a sua edição. Por outro lado, espero que contribua para dar a conhecer a um público mais alargado e aos apaixonados que nunca conseguiram os discos, as gravações em estúdio do grupo. Que reacções?... Sinceramente, não sei. Tudo era um pouco paradoxal e contraditório. Na altura em que o LP foi editado, as críticas foram na generalidade muito boas ou “de perplexidade”. No entanto, repetiam-se aqui e acolá algumas ideias que me irritavam imenso pela sua incorrecção e injustiça. Falo em especial da colagem aos Sonic Youth que algumas pessoas faziam. Finalmente, depois deste tempo todo e do estatuto de culto e de “projecto irrepetível” ou “alienígena” que se foi paradoxalmente construindo em redor Santa Maria algum tempo depois do seu fim, espero que se perceba de vez que este grupo não era bem do mesmo mundo que os Sonic Youth, apesar da encruzilhada noise. Por outro lado, e para ser totalmente honesto é preciso dizer que os Santa Maria desfrutavam de uma “visibilidade” mediática superior ao seu peso em termos de número de pessoas a que chegavam ou encantavam. Convites para concertos eram poucos e só em Lisboa ou arredores e as tiragens dos discos foram pequenas. Veja-se, por exemplo, que o grupo era “apadrinhado” por 2 pessoas importantes do mundo da música alternativa portuguesa: João Peste e Adolfo Luxúria Canibal. Logo, isso contribuía muito para o “mediatismo” do grupo – embora não para o seu apelo “comercial”. No entanto, por outro lado, os apaixonados que conseguíamos, senão eram muitos, pelo menos ficavam bem enfeitiçados. Por isso, não sei que reacções esperar.
- Quando foi originalmente editado, “Free Terminator” surgiu como um ovni no underground. Pode-se afirmar que é um disco de pós-rock que apareceu alguns anos antes de se falar nesse estilo musical. É um disco avançado no tempo?
 Não sei se é ou não pós-rock ou avant-rock ou free rock ou etc. No entanto, se pensarmos no que se seguiu nos anos 90, talvez. Para ser rigoroso, estaria mais próximo do pós-rock o que fiz logo de seguida com God Speed My Aeroplane ou God Spirou. Por outro lado, nunca os Santa Maria tiveram o tom de frase – melodia e ritmo -, em evolução circular do pós-rock; os Santa Maria sempre foram romanticamente excessivos, irresponsavelmente “tecnológicos” e pouco hipnóticos. Por isso não sei se é antes do tempo ou fora do tempo.
- Que fontes de inspiração (discos, literatura, filmes, etc.) estiveram na origem de “Free Terminator”? Que música ouvias nessa altura?
 Bem, só posso falar por mim e, embora os Santa Maria espelhassem muito o meu imaginário, o grupo não era apenas eu. As outras pessoas também deixavam um cunho pessoal e importante, em particular o Vítor Inácio, o baixista. Sobre filmes, não sei – se há alguma relação, será inconsciente. Só se for toda a mitologia western, desde os clássicos até ao western spaghetti. Literatura, sim! Bem mais importante até que as influências musicais. Aliás, sempre quis fazer poesia em música. Assim, há claramente a paixão pela ficção científica “high tech-low life”. E, depois toda a tradição da literatura e poesia malditas da 2ª metade do século XIX até às vanguardas do século XX – em especial os modernismos, dadaísmos, surrealismos, saltando depois para a beat generation. Música, posso falar de quatro coisas -, que conscientemente tive como referência – pontos de navegação à vista, sem nunca querer ir morrer nos seus braços: Sun Ra, a no-wave, o dramatismo e a densidade melódico-harmónica de José Mário Branco e as canções de adeus e embalar. Certamente tive outras influências, e tenho, só que não são conscientes. O que mais ouvia na altura… havia um disco de versões de músicas de Ennio Morricone “The Big Gundown” coordenado por John Zorn, que eu ouvia muito, aliás era bem consumido pelos membros do grupo. E Robert Fripp, Sonic Youth, Public Enemy, Funkadelic, Can, Big Black, Love, Glenn Branca, Pop Dell’Arte, Terry Riley, Schooly D, Negativland, United States Of America, Thelonius Monk, Sun Ra, My Bloody Valentine, Elliot Sharp, Jimi Hendrix, Jacques Brel, etc.
- A música dos Santa Maria eram essencialmente instrumental. Não estava interessado em fazer canções mais formais, com letras e voz?
 Os temas eram compostos e arranjados como instrumentais que nos pareciam assim suficientemente falados, pois estavam cheios de imagens evocadas e de pequenos poemas na sombra e nos títulos. Além disso não havia ninguém vocacionado para cantar.
- O seu projecto anterior Ezra Pound e a Loucura tinha características sonoras diferentes dos Santa Maria. O que o fez evoluir para uma banda intensamente eléctrica e radical?
 Bem, entre Ezra Pound e a Loucura e os Santa Maria, ainda formei, com o Vítor Inácio, os Bye-Bye Lolita Girl. Não vejo essas diferenças assim tão acentuadamente. Nos timbres, na proficiência técnica, nas capacidades e nos conhecimentos técnico-musicais, na consciência em relação aos objectivos, sim, há diferenças. Além disso, os Santa Maria têm uma agressividade positiva, exaltante, excessiva que estava pouco presente nos grupos anteriores. Todavia, a desconstrução e brusquidão dos ritmos, a dissonância – a preto e branco nos Ezra Pound e de cores pop e doces nos Bye-Bye Lolita Girl -, as melodias excessivas e à beira da dissolução que os vários instrumentos punham em jogo, lutando e amando-se, um lirismo exacerbado, uma música aparentemente desajeitada e nunca totalitária, isso sempre existiu – com intencionalidade e consciência diversas -, em todos os meus projectos, até hoje. Ou melhor, foi progressivamente existindo… Certamente também houve um apuramento de programas e capacidades, interiorizando e sintetizando o que o tempo em volta e a técnica traziam. Ou, se calhar, arranjamos melhor equipamento e desenvolvemos as técnicas de guitarrear e distorcer o som dos instrumentos. A mudança foi gradual e em continuidade. Portanto sobre ruptura radical… nunca a vi desse modo.
- Havia muito espaço para improvisação nos concertos dos Santa Maria?
 Em geral, não; a densidade excessiva e a estrutura da nossa música não permitiam grandes improvisos, pois facilmente se chegaria a uma cacofonia injustificada e inconsequente, e esse não era o nosso objectivo.
- O título do tema “Era Uma Vez Um Preto Com SIDA (AIDS)!”, causou, na altura, alguma polémica e foram acusados de racismo.
 Para mim sempre foi de uma crueldade triste e irónica ouvir dizer isso. Só vejo 2 motivos para que se acredite numa coisa dessas: haverá gente que escutou demasiado en-passant e fixou certas frases bombásticas sem ouvir tudo atentamente. As palavras todas, a sua organização, o contexto, o modo como eram ditas, quem dizia, os vários níveis de significação que isso implica, etc., ou então reproduziu ideias de “ouvir dizer”, fiando-se em aparências não indagadas ou em associações incorrectas; haverá quem objectivamente teve má vontade e/ou preconceitos, ou foi facilmente manipulável, o que levou a uma recusa em ouvir, ver e entender para além dos lugares comuns, dos slogans e chavões de boas intenções e demagogia ou de artísticas frases-feitas. O texto é duro e nada fácil de digerir, por exemplo com enunciação de práticas sexuais polémicas, mas é um texto magoado; aliás como o tema. E, além disso, a arte não é entretenimento de beberete ou “belos” vazios consensuais, mas fundamentalmente beleza convulsiva, como dizia Breton, feitiço perturbante e despertar de corpos e sensações vivas e consciências e reflexão. O texto trata de uma realidade que, hoje, é ainda mais tragicamente apocalíptica: a devastação provocada pela Sida na África Negra. Um problema de uma parte enorme da humanidade, onde, ao contrário do sucedido com outros grupos – que estavam a ser alvo de ataque e discriminação como a comunidade homossexual do mundo ocidental – e isso era subliminarmente referido no poema -, e que tiveram e têm alguma capacidade de mobilização económica, política e social para enfrentar a questão com relativo sucesso – o ser cultural, política e economicamente da África Negra, no mundo actual, parece traçar um fatídico e ignorado destino. Além disso, o texto remetia também para um dos perigos das sociedades actuais, uma forma de alienação perigosa: é que ao invés de nada se dizer, fala-se antes de tudo e de uma forma telegráfico-noticiosa, ou numa linguagem clínica pseudo científica ou ainda tudo sendo apropriado como afirmações artístico-publicitárias pós-modernas, com enunciados desconstruídos que lhe tiram todo o sentido subversivo e a real capacidade de intervenção social. Aliás essa não foi a única acusação. Por muitas posições que fui assumindo, à boca pequena chamaram-me racista, militarista-fascista e até mesmo homofóbico. Talvez seja porque eu nunca partilhei do pensamento dominante de conservadorismo politicamente correcto e demagógico, travestido de discurso revolucionário e vanguardista, de uma certa esquerda portuguesa que pretende ou pretendia ser o guardião dos dogmas, político-sociais e das posições morais, no mundo artístico não comercial. E, talvez também porque tomei posições contra, ou não alinhei em, leninismos, trotskismos, maoísmos e guevarismo-castrismo, que nos meios ditos de cultura vanguardista, contaminam de uma forma dogmática e demagógica e intolerante o discurso e as ideias. Aliás onde é que está a liberdade inominável em todos esses movimentos e referências ideológicas, cujos mentores criaram ditaduras altamente violentas. E isto não faz de mim defensor de posições de direita, o que também não seria um pecado mortal, embora não o seja de todo. Agora, sim, sou um feroz individualista defensor de um “libertanismo” responsável que entende o solidarismo como uma responsabilidade ética fundamental, onde se mistura, nem sei como, uma crença que, à falta de melhor, eu diria ser católica, no aspecto encantatório dos mistérios e da fé, e na angústia da culpa, mas nunca na organização institucional e nos dogmas de comportamento social.
- Depois dos Santa Maria formou vários grupos e ainda faz música. Sendo um resistente da sua geração como vê a evolução do cenário musical português?
 De bom: muita quantidade e variedade com qualidade média, descentralização, maior actualidade nas linguagens, capacidade de auto-organização, produtos mais profissionais e exigentes nos aspectos técnico-formais, fim dos complexos de modernismo ou das crises de adolescência que leve a ignorar o que vem detrás. De menos bom: o provincianismo do “sou tão bom como lá fora”, as capelinhas, a guetização dos diferentes tipos de músicos e músicas que os leva a desconhecer ou a menosprezar o que no gueto ao lado se faz ou o que não vem com o formato normalizado e, acima de tudo, a excessiva preocupação com o fazer as coisas bem, parecer “pro” e estar bem com os media, em vez de se arriscar, criar, inovar, partir a cabeça e, no meio disso, se vislumbrar uma luz mágica que identifica os aventureiros e os descobridores de mundos, mesmo que morram na viagem.
Nuno M. Castêdo

SANTA MARIA GASOLINA EM TEU VENTRE
Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção + EP (CD Sabotage)

“Free Terminator / Falcão Solitário Sem Ser Distorção”, álbum editado originalmente há 15 anos, permanece como uma das mais radicais experiências da história do rock português. De cariz arty, a música nele contida é misteriosa e agreste. Este não é um trabalho de fácil audição (até porque é essencialmente composto por instrumentais), mas é um disco aconselhável a quem procura ousadia estética no rock. Paisagens sónicas de um lirismo inflamado, súbitas explosões de electricidade, mudanças bruscas de direcção, diálogos de guitarras caóticos devedores do free jazz, atitude desconstrutivista e confrontacional da no wave, exploração das imensas possibilidades da guitarra eléctrica, torrentes de ruído branco, jogos tímbricos e harmónicos em rota de colisão… tudo isto forma um álbum singular onde dissonância, melodia e ritmo dissolvem-se num magma sonoro abrasivo e intenso. O EP (sem título) que assinalou o fim da banda beneficia de uma produção mais cuidada, mas mantendo intacta a expressividade das guitarras angulares e toda a estranheza que desde sempre caracterizou a banda. Saúda-se a reedição destes dois registos, com realce para “Free Terminator”, uma obra marcante da música urbana portuguesa.
Nuno M. Castêdo




FELIX KUBIN
Matki Wandalki (CD A-Musik)
E eis que chega a festa! Felix Kubin está de volta com um novo álbum, e com ele toda a gama de efeitos e de melodias sacadas do carrossel mágico ou de um Star Trek dopado com LSD. Completamente irrequieto, “Too Technical” é um exemplo disso, uma canção pop atravessada pela perversão do industrial (é o próprio Kubin que confessa a influência dos DAF e dos Throbbing Gristle) e pela irrisão dos Devo ou dos Negativland. Neste novo álbum há uma faixa com Holger Hiller (pioneiro na introdução do humor na electrónica alemã) em que o carrossel se torna evidente e surrealista qb, surrealismo que se torna particularmente óbvio na delirante versão do horripilante “Hello” de Lionel Richie. Kubin apropria-se da memória colectiva e rasga-a aos pedacinhos, reconstruindo-a de seguida com um sorriso simultaneamente infantil e perverso. Talvez por o novo álbum ser um pouco mais acessível, o humor exibe ainda mais a faceta rebelde e surpreendentemente reflexiva da forma com que Kubin se ouve a si próprio.
(8/10) CAL

SAMUEL JERÓNIMO
Redra, Andra, Endre De Fase (CD Thisco)
Eis que a Thisco, importante editora portuguesa vocacionada para as tendências alternativas da electrónica, muda radicalmente de diapasão e investe na edição de um disco de música minimal repetitiva. Na esteira de gurus desta linguagem musical como Steve Reich, Philip Glass, Terry Riley ou La Monte Young, Samuel Jerónimo apresenta três longas composições, tecnicamente irrepreensíveis e de difícil execução, que se baseiam, claramente, nos postulados da estética minimalista os quais norteiam o compositor a criar motivos melódicos (ou rítmicos) repetitivos que se vão complexificando, paulatinamente, com a junção progressiva de novos elementos que vão enriquecendo a estrutura no seu todo. É um disco que exige atenção por parte do ouvinte, dada a riqueza de pormenores e as subtis alterações estruturais. Seria um trabalho original, caso não estivesse datado (esta estética tem mais de 30 anos de vida nos EUA) e fosse uma experiência pioneira do género em Portugal, visto que a primeira fase da carreira dos Telectu (Jorge Lima Barreto e Vítor Rua) há vinte anos atrás, foi preenchida com trabalhos dentro desta abordagem Estética). De qualquer modo, “Redra, Andra, Endre De Fase” não deixa de ser um disco a descobrir por parte dos melómanos mais conhecedores deste tipo de composição musical.
(6/10) VA

VÁRIOS
Antologia De Música Electrónica Portuguesa (CD Plancton Music)
Faltava à discografia nacional um disco como este: um disco que compilasse alguns dos maiores nomes da música electrónica portuguesa, sendo esta entendida mais no sentido de música experimental ligada às correntes avant-garde (electro-acústica, concreta, livre-improvisação, etc.). O responsável por esta antologia (pela selecção e produção) é um músico que conhece por dentro todas as manifestações estéticas relacionadas com a música electrónica portuguesa: Rafael Toral. Assim, neste disco estão representadas as maiores referências nacionais das novas músicas contemporâneas. Filipe Pires (um dos pioneiros da criação musical por computador), Nuno Canavarro, Cândido Lima, João Pedro Oliveira, Carlos Zíngaro, Telectu, Nuno Rebelo ou o pioneiro (e tantas vezes incompreendido) Jorge Peixinho. “Antologia De Música Electrónica Portuguesa” tornar-se-á, desta feita, um importante documento histórico sobre esta faceta da criação musical portuguesa.
(7/10) VA

reedições
PHILIPPE BESOMBES
Philippe Besombes surge no contexto da cena avant garde dos anos 70, um território sem margem, influenciado pela cultura popular, numa Europa fértil de novas concepções artísticas e maiores revoluções sociais. Membro de dois grupos do circuito francês, Pôle e Hydravion, Besombes conseguiu relacionar através das suas incursões electrónicas diversos subgéneros do rock e do jazz convencional, encandeando-os num espaço de liberdade e experimentação, alcançando resultados verdadeiramente inovadores. A sua linguagem incaracterística destilou a animosidade aos cânones de Morton Feldman, aproximou-o do minimalismo de Tony Conrad, LaMonte Young e do “Dream Syndicate” em geral – com notável incidência na vertente psicadélica e étnica de Angus Maclise -, e encerrou-se nos primórdios do kraut rock. “Libra” (CD MIO) é o seu primeiro trabalho a solo e remonta a 1973. É também o primeiro de uma trilogia a ser reeditada pela Mio Records este ano. Composto por 17 peças distintas este disco foi feito enquanto banda sonora para um filme com o mesmo nome. Cada tema decorre num ambiente distinto, onde breves minutos de melodia sintetizada introduzem longos instrumentais de distorção. A percussão é muitas vezes extraída das cordas do piano. As colagens são quase sempre ambíguas e torna-se impossível identificar a origem do som. No mais fantasmagórico dos cenários percebe-se a voz de uma criança entrelaçada no ritmo de um texto a correr em código morse. No final, dois temas bónus interpretados em piano preparado, excluídos das sessões de gravação do disco.
Joana de Deus



Publicações
BANANAFISH #17


(http://www.midheaven.com/labels/tedium.house.publications.html)
Com uma capa da autoria do cartoonista canadiano Jason McLean, eis que se nos apresenta – para gáudio de alguns e irritação de outros -, mais um número daquela que será a publicação sobre música mais radical da actualidade. O teor dos textos continua a ser elegantemente cáustico sem deixar de manifestar entusiasmo para com os seus objectos, e entre estes contam-se, desta vez, Carla Bozulich, o duo Jazzkamer ou o músico noise japonês Astro. O destaque vai contudo para a entrevista conduzida por Tim Barnes a Hetty MacLise (companheira de Angus MacLise) e para a peça sobre o próprio Jason McLen que aproveita para discorrer sobre os comics, o movimento fluxus e as doenças mentais. No que diz respeito à secção de críticas há muito por onde vaguear. Imaginem escritores ou artistas do movimento surrealista a escreverem sobre avant-rock, música improvisada, electrónica e reedições de nomes da música popular… JM





16.7.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 21 - Dezembro de 2004


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
64 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano VI
Nº 21
Dezembro de 2004



JOHN PEEL, Music Lover
25 de Outubro de 2004. Na cidade inca de Cuzco, no Peru, um ataque cardíaco rouba a vida a John Peel. De todo o mundo chegam lágrimas dos seus órfãos: os ouvintes semanais, entre um auditório que extravasava as ilhas britânicas, as bandas que deram os primeiros passos nos seus programas, os colecionistas de “Peel Sessions” de todo o mundo, ou, em abstracto, a música popular, de todas as cores e feitios. Aquela voz nem sempre perceptível, mas entusiasta, rebelde, britanicamente sarcástica e apaixonada não volta mais aos microfones da rádio. As novas bandas, para as quais Peter Hook, numa reacção à morte do radialista, prevê vidas difíceis, não vão poder ter no seu curriculum uma sessão gravada para o programa de Peel, nem tão pouco vão poder dizer, inchadas de orgulho, coisas como “o Peel ouviu-nos e gostou!”.
John Robert Parker Ravenscroft começou a fazer rádio nos EUA, em 1962. Cinco anos depois, regressou a  Inglaterra, para realizar na estação pirata Radio London o programa “The Perfume Garden”. Foi aí que se viu obrigado a mudar de nome: Ravenscroft era demasiado longo para os directores da Radio London e um funcionário sugeriu-lhe o nome Peel. Curiosamente, o novo apelido viria a tornar-se uma imagem de marca da BBC Radio One (em cujos quadros ingressou no mesmo ano do regresso a Inglaterra) devidos às Peel Sessions, sessões de estúdio exclusivas com bandas e artistas das mais diversas proveniências, tanto geográficas como estéticas, para posterior emissão nos seus programas. O obituário da BBC lembra que “quase toda a gente que é alguém no mundo da música gravou uma sessão para Peel”. Dos Pink Floyd aos Lightning bolt, dos Pixies aos Franz Ferdinand, de Marc Bolan aos Napalm Death, dos Joy Division aos Autechre, meio mundo gravou para Peel. A origem das Peel Sessions remonta ao tempo do “needletime” (tempo de agulha) dos anos 60, quando o sindicato dos músicos britânicos fixava uma quota de música gravada que as rádios podiam passar, conforme relata Ken Garner, autor do livro “In Session Tonight”. As novas Radio 1 e Radio 2, da BBC, especialmente orientadas para a música, tinham entre elas, em 1967, apenas sete horas de “needletime”. Para ultrapassar os limites, a programação via-se obrigada a incluir nas suas grelhas a emissão de música tocada ao vivo, e o novo programa de John Peel, “Top Gear”, mais tarde “John Peel Show”, não fugia à regra. Ao longo destes quase quarenta anos, o ouvido atento de Peel descobriu e ajudou a disseminar milhares de novos projectos e de revoluções estéticas que foram acontecendo. O punk, a new wave, o reggae, o hip hop e as electrónicas, para citar apenas alguns dos campos em que Peel se movimentava sem precisar de mapa, num saudável ecletismo, que contrasta fortemente com a ideia de rádios formatadas trazidas nos anos 90, nunca poderiam ter sido os mesmos se não tivesse um amigo tão esforçado e tão apaixonado quanto Peel. E muitos ouvintes encontravam aí uma prova de que é capaz de se ser simultaneamente aberto e crítico, e ainda melhor, surpreendente: quando o punk estava a rebentar em Inglaterra, e ele próprio era um dos instigadores dessa explosão, lembrou-se de gravar a cantora folk June Tabor para emitir num dos seus programas…
Era o único que até há poucas semanas, aos 65 anos de idade, continuava a apresentar novos sons com o mesmo entusiasmo que teria nos anos 60 e 70. “I may be old but the programme isn’t”, dizia numa entrevista realizada há poucos anos. Não é de estranhar que no obituário de uma revista como a Economist apareça, logo na linha por baixo de “Yasser Arafat, Leader Of The Palestians”, a seguinte inscrição: “John Peel, Music Lover”. Que bem que lhe cai o epíteto.

CURIOSIDADES
- Em 1967, Peel foi o primeiro homem da rádio a passar “Sergeant Pepper’s Lonely Heart Club Band”, dos Beatles.
- Era fanático pelos Fall. Entre as declarações que foram lembradas no funeral, ouviu-se uma onde Peel dizia: “Sou sortudo. Tenho tudo o que queria em miúdo (…). Se morrer amanhã, não terei nada de que me queixar – a não ser o facto de haver um álbum dos Fall no ano seguinte.”
- Clube favorito: Liverpool. Era habitual começar os DJ sets para os quais era convidado com uma gravação em vinil do relato do golo de Alan Kennedy ao Real Madrid, em 1981, quando o Liverpool ganhou a sua terceira Taça dos Campeões.
- Tema favorito: “Teenage Kicks”, dos Undertones. Peel Chegou a passa-lo duas vezes seguidas na rádio, algo de inédito até então. No seu funeral, ouviu-se “Teenage Kicks” e o hino do Liverpool, “You’ll Never Walk Alone”.
- Concerto favorito: The Faces, em Sunderland, 1977.
- John Peel tinha perto de trinta mil LPs em casa. Uma estação de rádio norte-americana já ofereceu um milhão de libras pelo espólio e existe também o interesse da British Library.
- O palco de novos talentos do festival de Glastonbury, de onde todos os anos Peel fazia reportagens, vai passar a ter o seu nome.
- John Peel tornou-se, em 1998, um OBE, ou seja, cavaleiro da Rainha de Inglaterra, e possuía vários doutoramentos honoris causa atribuídos por universidades britânicas.
Vítor Junqueira



LISTA
2004 – OS MELHORES DO ANO
1 – FRANZ FERDINAND: “Franz Ferdinand” (Domino / Edel)
2 – DEVENDRA BANHART: “Rejoicing In The Hands” (XL Recordings)
3 – SONIC YOUTH: “Sonic Nurse” (Geffen / Universal)
4 – MORRISSEY: “You Are The Quarry” (Attack / Sanctuary)
5 – ANIMAL COLLECTIVE: “Sung Tongs” (Fat Cat / Ananana)
6 – BLUES EXPLOSION: “Damage” (Mute / EMI-VC)
7 – TV ON THE RADIO: Desperate Youth, Blood Thirsty Babes” (4AD)
8 – TOM WAITS: “Real Gone” (Anti / Edel)
9 – TORTOISE: “It’s All Around You” (Thrill Jockey / Ananana)
10 – MARK LANEGAN BAND: Bubblegum” (Beggars Banquet)
11 – LORETTA LYNN: “Van Lear Rose” (Polydor / Universal)
12 – BLONDE READHEAD: “Misery Is A Butterfly” (4AD)
13 – FIERY FURNACES: “Blueberry Boat” (Rough Trade)
14 – INTERPOL: Antics” (Labels / EMI)
15 – THE STREETS: “A Grand Don’t Come For Free” (679 / Warner)
16 – EINSTURZENDE NEUBAUTEN: “Perpetuum Mobile (Mute / EMI)
17 - !!! – “Louden Up Now (Warp)
18 – NICK CAVE & THE BAD SEEDS: “Abattoir Blues / The Lyre Of Orpheus” (Mute / EMI)
19 – cLOUDDEAD: “Tem” (Big Dada / Ananana)
20 – COMETS ON FIRE: “Blue Cathedral” (Sub Pop)
21 – THE DATSUNS: “Outta Sight / Outta Mind” (V2 / Edel)
22 – BLANCHE: “If We Can’t Trust The Doctors (Loose / Ananana)
23 – DEAD COMBO: “Vol 1” (Transformadores) 
24 – RTX: “Transmaniacon” (Drag City / Ananana)
25 – WRAY GUNN: “Eclesiastes 1.11” (Nortesul)
26 – THE DILLINGER ESCAPE PLAN: “Miss Machine” (Relapse)
27 – PJ HARVEY: “Uh hu Her” (Island / Universal)
28 – THE MAHARAJAS: “Unrelated Statements” (Low Impact)
29 – FENNESZ: “Venice” (Touch)
30 – ONEIDA: “Secret Wars” (Rough Trade)
31 – THE PONYS: “Laced With Romance” (In The Red / Sabotage)
32 – N.E.R.D.: “Fly Or Die” (Virgin)
33 – WILCO: “A Ghost Is Born” (Nonesuch)
34 – AMERICAN MUSIC CLUB: “Love Songs For Patriots” (Cooking Vinyl / Farol)
35 – SHANNON WRIGHT: “Over The Sun” (Quarterstick / Sabotage)
36 – LAMBCHOP: “Aw C’mon – No, You C’mon (City Slang / EMI)
37 – ENTRANCE:  “Wandering Stranger” (Fat Possum)
38 – THE BLACK KEYS: “Rubber Factory” (Fat Possum / Edel)
39 – THE ICARUS LINE: “Penance Soirée” (V2 / Edel)
40 – FANTÔMAS: “Delirium Còrdia” (Ipecac / Sabotage)
41 – PAN SONIC: “Kesto” (Mute)
42 – COCOROSIE: “La Maison De Mon Rêve” (Touch & Go / Sabotage)
43 – LAURA VEIRS: “Carbon Glacier” (Bella Union / Symbiose)
44 – LIARS: “They Were Wrong So We Drowned” (Mute / EMI)
45 – THE MAGNETIC FIELDS: “I” (Nonesuch / warner)
46 – MR. DAVID VINER: “This Boy Don’t Care” (Loog)
47 – RADIO 4: “Stealing Of A Nation” (City Slang)
48 – GRAHAM COXON: “Happiness In Magazines” (parlophone)
49 – X-WIFE: “Feeding The Machine” (Nortesul)
50 – ROGUE WAVE: “Out Of The Shadow (Sub Pop / Musicactiva)



ANN SHENTON / ANA DA SILVA
Anas Em Colisão Electrónica Feminina (Versão 2004)



Ann e Ana, Ana e Ann. Uma esteve nos Add N To (X), a outra nas Raincoats. Este ano editaram respectivamente “The Electronic Bible Chapter 1” e “The Lighthouse”, dois discos onde a electrónica assume muitas formas.
A música electrónica tem sido um género em que poucas mulheres se têm aventurado – apesar da forte expansão que o género conheceu nos anos 90 -, ao contrário da área do pop-rock, onde a presença feminina sempre foi uma constante. Certamente este fenómeno tem muito a ver com o facto da música electrónica ser essencialmente instrumental, recorrendo muitas vezes a um imaginário tipicamente masculino, quer no culto do DJ nas pistas de dança, quer na presença fortemente maquinal que acontecia nos Kraftwerk. Simplesmente não parecia haver muito espaço para uma sensibilidade que fugisse ao simples apelo à dança ou ao fascínio das máquinas. Ainda assim, ao longo do tempo, diversas produtoras foram aparecendo com novas propostas, como Mira Calix, Neotropic ou Andrea Parker. As coisas só começaram verdadeiramente a mudar quando a pop começou a apropriar-se novamente da electrónica, na onda de revivalismo dos anos 80, que caracteriza o electroclash. As Chicks On Speed, estiveram, de certa forma, na liderança desse movimento feminista, trazendo grupos como as Le Tigre ou os DAT Politics para uma ribalta quase a raiar o mainstream. No lado mais intrspospectivo da indietrónica, apareceram também os Lali Puna liderados por Valerie Trebeljahr, e tornou-se óbvio que as mulheres tinham chegado à electrónica e estavam a trazer algo de novo. Chegamos a 2004 e surgem álbuns de Ann Shenton [ex-Add N To (X] e Ana Da Silva (ex-Raincoats, agora amadrinhada pelas Chicks On Speed).
Ann Shenton foi certamente uma das pioneiras femininas na electrónica. Ex-membro do trio Add N To (X), Ann é uma exímia instrumentista fascinada por instrumentos electrónicos antigos como os Moog ou o Theremin. Mais importante ainda, os Add N To (X) foram uma banda fundamental na integração do rock mais experimental da época (pós-rock?) num contexto electrónico, buscando inspiração no krautrock dos Neu! Ou Can; na electrónica divertida de Jean Jacques Perrey ou de Raymond Scott; no underground sórdido das bibliotecas de sons de filmes pornográficos e no rock de uns Cramps e de uns Suicide (se não no som, pelo menos na atitude). A extinção dos Add N To (X) foi o resultado natural de um projecto que explorou o que tinha para explorar, e Ann Shenton virou-se imediatamente para um projecto a solo adaptando o nome de Large Number (título de uma canção dos Add N To (X), lançado no ano passado “Spray On Sound”. Neste primeiro álbum de originais o fascínio pelo retro é exacerbado por sons que parecem vir directamente de um estranho clube nocturno dos anos 70. Com muitos ecos de Raymond Scott pelo meio, é um álbum simultaneamente experimental e divertido quanto baste para o tornar quase pop. Este ano, e depois da aparição no Festival Número, em Lisboa, Ann Shenton propõe uma colectânea ironicamente chamada de “The Electronic Bible Chapter I”, o que parece ser uma espécie de resposta à compilação de temas antigos de electrónica “Connectors” do ex-companheiro dos Add N To (X), Barry 7. Só que para Ann Shenton faz tanto sentido o presente / futuro quanto o passado, e é assim que na sua compilação marcam presença nomes como Sean O’Hagan dos High Llamas (e colaborador assíduo dos Stereolab) ou Richard H Kirk, dos Cabaret Voltaire (sob o pseudónimo Pat Riot). Entre o retro e o noise futuristas Ann Shenton não conhece barreiras, apontando diferentes perspectivas musicais.
A presença de Ana da Silva na editora das Chicks On Speed é uma daquelas coisas que deve dar mais prestígio à editora que à artista. Presença fundamental da new-wave no início dos anos 80 através das Raincoats, a portuguesa Ana da Silva atravessou uma fase de semi-obscurantismo até que um dia Kurt Cobain a redescobriu numa livraria de Londres. De pioneira da new-wave a exploradora de novos sons com um instrumento electrónico digital, que lhe caiu nas mãos, vai apenas um pequeno passo. E é fácil de perceber que algo assim seria inevitável acontecer quando se ouve “The Lighthouse”, o seu novo álbum. Pegando num passado que não se deita para trás assim tão facilmente, a sonoridade das Raincoats e dos Young Marble Giants aparece recontextualizada num novo mundo digital, explorando as possibilidades de fazer canções dentro das perspectivas que o novo brinquedo abriu para Ana da Silva. Curiosamente, em muitas canções, “The Lighthouse” lembra “Scary World Theory” dos Lali Puna, e não só por causa de algumas canções serem cantadas em português. Tal como os Neu! E os United States Of America foram bandas importantíssimas para os Stereolab e Broadcast, os Young Marble Giants e Laurie Anderson são a grande fonte de inspiração dos Lali Puna e de Ana da Silva. Os arquétipos do passado são usados então em “The Lighthouse”, permitindo a produção de um som mais acessível para os ouvintes desejosos por canções e pouco adeptos das paisagens sonoras da música instrumental.
Até que ponto o impacto da sensibilidade feminina vai ser importante na electrónica só o futuro dirá. Para já as duas An (n)as distinguem-se por um universo pessoal completamente aparte dos seus pares. No fundo a boa música não conhece géneros sexuais: brota de pessoas que sentem que têm algo para dizer ao mundo.
César A. Laia

Discos
LAIBACH
Anthems (CD Mute)
Os Laibach, eminentes pseudo-fascistas da Eslovénia, são herdeiros da atitude provocadora dos Throbbing Gristle e foram uma das bandas mais importantes da cena industrial dos anos 80. Com um humor corrosivo, os Laibach apropriaram-se da estética militarista fascista como meio de provocação das flores luminosas da pop de então. E não olharam a meios para o fazer, como demonstra esta compilação. Canções horripilantes como “The Final Countdown” dos Europe ou “In The Army Now” dos Status Quo foram revisitadas como uma caricatura, onde tudo o que estaria menos evidente se torna claro como água. A boçalidade foi usada como uma arma, mas também serviu para transformar canções dos Beatles como “Get Back” em hinos para fascistas desprevenidos. “Anthems” demonstra toda esta evolução, desde o passado ainda agarrado aos Throbbing Gristle, passando pela sátira, até ao presente com a excelenete canção “Tanz Mit Laibach”. Tudo isto acompanhado de um segundo CD com remisturas difíceis de encontrar, para atrair os fãs que têm os álbuns todos. Há que redescobrir os Laibach, e nada melhor do que começar por aqui.
(9/10)
CAL




STEALING ORCHESTRA
Bu! (MP3 You Are Not Stealing Records)
Os criminosos voltam sempre ao local do crime. Os maiores ladrões de samples que se conhecem em Portugal, regressam ao Far-West dos assaltos a carruagens de sons, prontos a montar, desmontar e remontar o que se apanhar. É a lógica dos irmãos Metralha aplicada à música, e qual é o melhor sítio para uma banda como esta lançar EPs? Uma netlabel, pois claro! E como se diz que ladrão que rouba a ladrão tem mil mp3 de perdão… “Bu!” é o segundo EP dos Stealing Orchestra lançado na netlabel You Are Not Stealing Records, e sucede ao irreverente “É Português?! Não Gosto!”. A forma como os Stealing Orchestra têm evoluído é notável. Quando começaram, com o álbum “Stereogamy”, tinham imensas boas ideias, mas eram ainda mal aplicadas. Eram um circo ainda com os palhaços por todo o lado e faltava um pouco de organização. Já no ano passado, contudo, “The Incredible Shrinking Band”, o segundo álbum, mostrava uma banda que preferia a ironia è piada desbragada da D. Lina, tornando-se mais refinada e atenta aos pormenores. “Bu!” é a evolução lógica do álbum do ano passado, apontando ainda mais para um imaginário cinemático underground, à procura dos monstros da série Z. Bem, não é tanto assim, afinal agora surgem textos de Miguel Torga e de Alexandre O’Neill. Marco Paulo deu lugar à literatura? Não, o que aconteceu foi uma apropriação dos textos para a criação de ambientes de terror, quase a lembrar Vincent Price ou então Mão Morta, nas declamações descritivas do terror feitas por Adolfo Luxúria Canibal. “Bu!” lembra mais filmes do que discos de outros grupos. Ou seja, este bando de malfeitores está cada vez mais a cruzar as plataformas mas entre a música e a imagem, entre o humor e o gore. O medo vai ter tudo, inclusive um excelente EP de graça.
(8,5/10)
César A. Laia

Clássicos
SCARLET STREET
Fritz Lang (USA 1945)
Fritz Lang foi reconhecidamente um dos realizadores imigrantes em Hollywood que mais se preocupou com o cariz não linear de desenvolvimento do comportamento das personagens. A sua abordagem cinematográfica passou repetidamente pela procura do lado recôndito, obscuro e pessimista da condição humana, na perspectiva da sua génese e da sua manifestação mais consequente. Esta direcção, alinhada com os principais arquétipos do filme noir, contribuiu fortemente para a caracterização desse género e para a sua solidificação e disseminação no período do pós-guerra. Scarlet Street tornou-se uma das principais marcas iconoclastas do mestre Lang e desse género transversal que é o film noir. Lang reutilizou o trio de actores do seu filme anterior “The Woman In The Window” – Edward J. Robinson, Joan Bennett e Dan Duryea -, na mesma trama triangular clássica. Robinson é Christopher Cross (excelente a sua conotação com o significado do diminutivo criss-cross), um homem de meia-idade, caixa de um banco, desiludido com a monotonia problemática da sua vida afectiva, resultado de um casamento despropositado com uma mulher anódina, tendo, no entanto, nas suas aspirações artísticas de pintor, a única fuga ao seu tormento quotidiano. O aparecimento casual de Kitty March (Joan Bennett) na sua vida facilmente se torna uma via para a sua realização pessoal e afectiva, cedendo imediatamente às suas faculdades físicas e representação de liberdade. Kitty, mulher de expedientes fáceis sempre à procura do próximo golpe, ladeada por Johnny (Dan Duryea), híbrido de namorado e chulo, aceita a relação na suposição de que Chris é um pintor rico e excêntrico de Manhattan. A preocupação psicanalítica de Lang em conferir um realismo cru, de certa forma frio, ao percurso de Chris realça e eleva o drama e a profundidade da história. A não linearidade referida no início torna-se evidente na associação que Lang trabalha entre contexto-causa-efeito: um homem com valores éticos tradicionais, uma aderência procurada ao adultério e a inusitada recorrência ao roubo, mentira e… crime. Lang como que opera uma metamorfose no triângulo de personagens da sua trama juntando imaginariamente os três vértices num mesmo ponto comum. A conclusão do filme é extraordinariamente brutal, sem concessões, mostrando os caminhos para lelos da punição como uma realidade comum e fulminante nas suas consequências e sem necessidade de promoção artificial de moral (o que nos faz pensar em “M”, outra obra-prima assinada pelo mestre ainda na Alemanha). Trata-se de um dos finais mais emblemáticos, surpreendentes e marcanteMiguel S. Leocádios da história do cinema, ao lado de “White Heat”, de Raoul Walsh, e “Kiss Me Deadly”, de Robert Aldrich. Um tour-de-force negro, frio e sem eufemismos. Para ver e rever, sobretudo para quem tem saudades de “filmes totais”, que não sucumbem na sua criatividade aos sessenta minutos.
Miguel S. Leocádio









16.5.18

Memorabilia - Revistas - Mondo Bizarre - Nº 23 - Julho de 2005


Mondo Bizarre
Revista / Magazine
A4 - papel de jornal - a corres capa e contracapa
48 páginas
Publicação Trimestral
Distribuição Gratuita
Ano VI
Nº 23
Julho de 2005



ELECTRELANE
Um Foguetão Em Direcção À Lua



Elas são quatro. Quatro meninas de aspecto tímido, fãs do legado do krautrock, de teclados (especialmente do órgão Farfisa) e outros equipamentos com o selo vintage – elementos facilmente confirmados pela audição atenta dos seus discos. Os três discos, pois se ao disco de estreia “Rock It To The Moon” se sucedeu “The Power Out” (um disco acentuadamente pop, quanto mais não seja pelo relevo dado às vocalizações), agora é “Axes” que chegou para mais uma reviravolta na bússola estouvada das Electrelane. O tempo passado no estúdio de Steve Albini em Chicago foi o suficiente para limar algumas arestas, reunir forças e preparar o tal foguetão rock para a sua viagem – mais uma -, até à Lua. Antes de mais, os propulsores de “Axes” alimentam-se essencialmente e cada vez mais do krautrock, e colocam quase de parte qualquer tipo de combustão com a marca Stereolab – tudo o que sobe tem sempre que descer, e essa descida leva as Electrelane de volta aos territórios pisados no disco de estreia. E o mesmo vai para as vocalizações, que diminuíram e de que maneira, em detrimento da evidente exploração sónica que marca quase todas os treze temas deste “Axes”. Pegue-se por exemplo em “Bells” ou em “If Not Now, When?”, coloquem-nas lado a lado e percebam instantaneamente que a marca de água das Electrelane, ou o pão-nosso de cada dia, é a justaposição de estruturas inversamente dinâmicas, ou seja, há todo aquele preparo inicial meticuloso e fantasmagórico que, mais tarde ou mais cedo, desemboca num acelerar quase intuitivo do batimento do ritmo cardíaco e no aumento da percussão que arrastam consigo todo um remoinho de teclados (que soam mais cabaréticos que nunca) e alguma electricidade. E aí, nesse preciso momento, há qualquer coisa de perseguição típica da máfia – com os carros robustos e pretos e disparos certeiros – que está ainda por explicar. Se ainda restarem dúvidas quanto à fórmula, ouça-se “Eight Steps” e contemple-se a escuridão, e alguma teatralidade como se a luz ao fundo do túnel fosse a última esperança. E do outro lado desse mesmo túnel surge “Gone Darker”, ou pelo menos o som do comboio que a anuncia. Depois é ver esse mesmo som misturar-se com o som de um saxofone, o saxofone confundir-se com a percussão e perceber que o facto das Electrelane terem gravado o disco live (o dedo mágico de Steve Albini não pode deixar de ser referido mais uma vez naquilo que é a concretização de um desejo das próprias Electrelane) resultou na perfeição tendo em conta o tipo de composições que aqui se alicerçam. “Business Or Otherwise” é a associação livre de ideias de Freud em versão musical, metrónomo que orienta e conduz a entrada de cada elemento, mímica cacofónica como nunca antes se viu nas Electrelane. É uma espécie de pausa para repouso, intervalo para recompor forças das emoções fortes que os primeiros trinta minutos proporcionam. “Those Pockets Are People” é ver as Electrelane sobreporem camadas sobre camadas, resolverem conflitos internos enquanto fazem com que as guitarras rujam como se não houvesse amanhã. Até ao final do disco, há ainda espaço para o rasgo enérgico que é “The Partisan” e para intromissões de um banjo inesperado. Fosse “Axes” um livro, e “Suitcase” seria um posfácio perfeito, por concluir e encerrar nos seus quase dez minutos, aquilo que as Electrelane têm de melhor: os teclados, as acelerações quase matemáticas (elogio), as descargas de electricidade. O parar para recomeçar novamente. E com convidados: o Chicago A Cappella Choir, que por momentos faz lembrar “Atom Heart Mother” dos Pink Floyd, na peça central que dá nome ao disco – já em “Rock It To The Moon” se tinha feito sentir a presença dos britânicos. E não sendo um passo atrás, “Axes” funciona como uma espécie de actualização da primeira viagem à Lua, ou se quiserem, o aperfeiçoamento desejado do horizonte lunar. Para nosso bem.
André Tiago Gomes



AUTECHRE
Desbloqueados



Com uma das carreiras mais influentes na área da electrónica, os Autechre regressam este ano com o novo álbum “Untitled”, lançado mais uma vez na Warp, que relança o duo inglês para territórios mais acessíveis, rebuscando no seu próprio passado.

Já lá vão muitos anos desde que os então adolescentes Sean Booth e Rob Brown, apaixonados pelo hip-hop instrumental, começaram as primeiras gravações a partir de colagens de sons em cassetes. Na os mais tarde lançaram o primeiro álbum “Incunabula”, já na editora Warp, seguido de “Amber”, lançando as bases de uma carreira que buscou inspiração em coisas tão diferentes como o hip-hop, a música ambiental de Brian Eno e o industrial dos anos 80. Foi um ponto de partida ao qual os Autechre nunca mais iriam voltar, o início de uma viagem que estabeleceu de uma forma clara a idm (iniciais de inteligente dance music) como um dos mais importantes subgéneros da electrónica.
A inovação e importância dos Autechre encontrou especial eco em álbuns como “Tri Repetae”, um épico mecânico e industrial, com robots a enroscar parafusos nos androides do futuro, ou em discos como “EP7”, que é considerado um EP quando tem mais de 70 minutos de música. A par com o desenvolvimento do software e hardware, os Autechre deixaram-se influenciar pelo drum ‘n’ bass, criando novas batidas arrítmicas que deram origem a discos como “LP5”. Mas foi com “Confield” que a evolução deste duo atingiu o pico. Este é um disco que mergulha definitivamente no experimentalismo e em conceitos como a música generativa, gerando paixões acérrimas que foram da devoção absoluta a acusações daquelas músicas não conterem alma. A melodia quase que desaparece, e o lado ambiental que ainda existia anteriormente foi rasgado por sons metálicos que a alguns ouvidos pareciam quase aleatórios. Naturalmente, depois da compressão veio a descompressão, e o novo álbum “Untitled” marca o regresso dos Autechre a territórios mais familiares. Neste novo disco os Autechre voltam um pouco atrás, procurando apurar novamente o tipo de batida que caracterizava álbuns como “LP5”, agora com uma perspectiva diferente. De certa forma a procura incessante pela inovação foi domada, para dar lugar a motivos mais melódicos. Faixas como “Ipacial Section” ou “Sublimit” mostram uns Autechre invulgarmente descontraídos, a brincar um pouco com a sua própria obra e explorando novas potencialidades. “Untitled é um disco que mostra alguma felicidade, e que pela primeira vez mostra uns Autechre com vontade de ir um pouco ao encontro do seu público. Desbloqueados da necessidade permanente de trilhar novos caminhos, os Autechre estão francamente mais acessíveis e capazes de gerir, pelo menos por agora, o que conseguiram fazer no passado. E voltam a mostrar que as emoções nunca deixaram de estar presentes na sua música, simplesmente elas estarão mais evidentes em discos como o recente “Untitled”.
CAL
César A. Laia



LOOSERS
Uma Certa Lisboa Que Lateja Lá No Fundo



Os Loosers andam a provocar a cidade de Lisboa com a mesma arte de perfil selvático e bas-fond que noutros tempos terá pertencido a grupos como os Mão Morta ou os Pop Dell’Arte (o cabecilha dos Loosers, Tiago Miranda, chegou a fazer parte dos últimos, por sinal). Um monstro ressurge para perturbar o sossego instalado e os Loosers exibem-no no álbum de estreia “For All The Round Suns”, produzido por Vítor Rua, Pedro Alçada e pelo grupo.

Há uma Lisboa subterrânea que tem latejado com maior ou menor intensidade ao longo destas três últimas décadas de liberdade de costumes. Devemos estar numa das fases intensas. Neste três ou quatro últimos anos, essa estranha criatura chamada underground tem enviado à superfície sinais claros do seu resfolgar; sente-se o bafo quente da fera nos concertos de grupos como os Loosers, Dead Combo ou Vicious 5. E o odor acre da besta incensa de novo alguns antros da cidade, como o da galeria Zé dos Bois, onde os próprios Loosers aliás cresceram. Acrescente-se ainda que por todo o lado, não só por Lisboa, vão brotando novos projectos, alguns deles seguidores à letra da proposta do grupo. Perante isto, convenhamos, começam a ser sinais a mais para ainda se continuar a fazer de conta que nada está a acontecer.
O curto percurso dos Loosers tem sido curioso. Conduzido pelo guitarrista, vocalista e percussionista Tiago Miranda, ao qual se juntam o baixista Rui Dâmaso e o baterista Zé Miguel, o trio tem encontrado nos palcos o campo de acção ideal para expor as suas manobras de guerrilha sónica junto de uma cada vez maior legião de militantes. Entre estes, assenta a opinião de que cada concerto é diferente do anterior e nada tem a ver com o da semana ou do mês seguinte, uma opção errante que se estende, de alguma forma, aos EPs lançados até agora (ver caixa). No primeiro disco, “Six Songs EP”, assim como nos primeiros espectáculos, ouvia-se o que, aproximadamente, podemos designar por canção, com uma estrutura rítmica que muito fazia lembrar os Joy Division ou os Gang Of Four, mas, logo a seguir, as referências divergiriam noutros sentidos. Desceu-se às caves mais escuras de Nova Iorque anos 80, forradas com o ruído sincopado das guitarras e dos baixos como os que se ouvem no primeiro LP dos Sonic Youth ou com as arritmias da no wave dos Teenage Jesus & The Jerks ou dos DNA, elementos entretanto recuperados por outras pandilhas de lunáticos como a dos Liars, com os quais os Loosers, afinal de contas, partilham um notória afinidade estética. Numa ou noutra situação, as baterias pareceram também apontar para os minimalistas norte-americanos ou para os fazedores de ruído japoneses. Estas mutações transglobalistas têm ocorrido, convém sublinhar-se, no curto espaço de alguns meses ou até mesmo semanas. É o exercício quase académico a que se entrega o grupo de Tiago Miranda, ele próprio graduado nas mais diversas escolas do rock e da música urbana em geral, conforme evidencia a sua eclética e bizarra residência como DJ no Lux. Tal vagabundagem estética tem impedido, conforme já se dizia acima, que se possa levar qualquer tipo de expectativa para um concertos dos Loosers. Pode sair tudo ao contrário da ideia com que entramos na sala. É verdade que o grupo não poderá jurar fidelidade eterna ao exercício, mas a estratégia seguida tem permitido, até agora, manter ao largo a monotonia.
A monotonia também não marca presença em “For All The Round Suns”, o primeiro álbum, que agora sai em formato LP e limitado a 500 exemplares, numa edição da Ruby Red Records, o selo DIY criado pelo próprio grupo. Depois de uma abertura sombria, eminentemente gótica, de “Dakantala”, somos assaltados pela trepidante “The Craft”, onde quase parece que ouvimos Lee Ranaldo a cantar “Mole”, para, em seguida, sermos hipnotizados pelo longo mantra de um baixo entretido com escalas médio-orientais, em “Aboriginal Urine Down The Slope Of A Tight Vagina”. No lado B, o maior realce tem que ir para o tema que dá título ao disco, que serve de base a um interessante texto aparentemente construído com a técnica do cut up. “For All The Round Suns”, produzido por Vítor Rua, por Pedro Alçada e pelo próprio grupo, tem a força de conseguir capturar a fascinante selvajaria que os Loosers t~em espalhado pelas salas por onde têm passado. A criatura que se falava mais acima, que até pode ser a capa deste disco, está bem desperta.
Vítor Junqueira



KUBIK
Estilhaços De Uma Metamorfose



Kubik é Victor Afonso, o músico da Guarda que em 2001 marcou a sua estreia oficial com 2Oblique Musique”, um disco editado pela Zounds. “Oblique Musique” fundia vários universos que passavam pela música electrónica, pela colagem e pelo experimentalismo, e acabou por receber vários prémios e críticas entusiasmantes. A sua carreira musical prosseguiu, quer no que diz respeito ao trabalho desenvolvido através de alter-egos, quer nas constantes colaborações com o cinema (uma área onde se sente em casa), e a lista de projectos onde participou nunca mais tem fim. Um desses projectos consistiu na criação de uma espécie de banda sonora para a história da Guarda: “Guarda: A Memória Das Coisas” surgiu num CD integrado na revista Praça Velha. Mas agora Kubik está de volta com “Matamorphosia”, um disco que conta com as participações de Adolfo Luxúria Canibal (voz), Old Jerusalem (voz9, Américo Rodrigues (voz), César Prata (gaita de foles, electrónica e voz), Luís Andrade (guitarra, baixo, programações) e Alberto Rodrigues (saxofone alto). Victor Afonso, com uma disponibilidade impressionante, fala-nos do passado e traz-nos de volta ao seu presente e obviamente a este “Matamorphosia”.

- Como é que foi olhar para o final de 2001 e para “Oblique Musique” e partir para um novo disco? O que é que mudou do primeiro para este segundo disco?
Depois das óptimas críticas que o “Oblique Musique” recebeu aquando da sua edição, tornou-se, efectivamente, mais complicado “pensar” num novo trabalho. Há sempre aquele estigma de se saber se o álbum sucessor de um disco de estreia consegue igualar ou até superar o predecessor. Mas é óbvio que se trata de um estigma estimulante e motivador. Por isso demorei quatro anos a arquitectar o sucessor de “Oblique Musique”, porque tomei o meu tempo a considerar em que direcção haveria de fazer este disco. Não acredito que tenha havido assim tantas mudanças entre um disco e outro, antes assumo que houve uma evolução significativa na minha forma de criação musical: desenvolvi ideias que no primeiro eram meramente esboços, melhorei a produção e aprofundei a minúcia de cada som, de cada montagem e manipulação sonoras, abri portas a novas colaborações, redobrei o carácter surreal e aparentemente caótico da minha sonoridade, não deixando quaisquer coordenadas de orientação ao ouvinte (e por isso tentando surpreendê-lo a cada momento, ainda que não de forma gratuita). “Metamorphosia” acaba por ser um disco bem mais elaborado e, quiçá, mais arriscado. É um trabalho de um alquimista dos sons, que os trabalha como se tratassem de peças de puzzle ou de lego com vista à construção de algo original e intrépido.
- Quanto tempo demorou a concepção deste “Metamorphosia”?
A partir do momento em que decidi avançar para este novo álbum decorreram dois anos. Foi um processo algo longo e demorado, sobretudo para uma pessoa pouco paciente como eu. A demora deveu-se também ao facto de ter tido um maior número de colaborações (Adolfo Luxúria Canibal, Old Jerusalem, Luís Andrade,…), o que acarreta sempre uma demora no processo de criação. Basta dizer que os temas em que participam alguns dos músicos convidados demoraram um ano a serem concluídos.
- Como foi lidar com a habitual pressão e a problemática cada vez mais presente do segundo disco?
Pressão nunca senti muita.Aliás, nem concebo que um músico como eu, independente e alheio à lógica de mercado da indústria discográfica e da comunicação social, sinta alguma vez pressão exterior pela edição de um segundo trabalho. Se alguma pressão senti, entenda-se, foi de índole interior, no que ao processo criativo diz respeito. Com o primeiro álbum não tinha que provar nada, houve uma maior libertação e sentido de aventura no momento de editar o disco. Com este segundo disco, as coisas passaram-se de modo distinto. As comparações serão inevitáveis entre os dois álbuns e o sentido de responsibilização para mim é, quer queira quer não, de maior envergadura. Mas isso é algo perfeitamente normal e pacífico.
- “Matamorphosia” surge dividido em dois espaços abstractos designados por A e B. Em que consiste propriamente a divisão do disco?
Numa perspectiva eminentemente saudosista, representa ao mesmo tempo um sereno sentido nostálgico pela divisão dos discos de vinil e cassetes, e também por um assumido carácter conceptual que existe no “Metamorphosia”. Isto é, há claramente esse sentido abstracto de divisão de temas que representa, no fundo, uma estrutura própria do disco, numa divisão quase matemática ou geométrica: o lado A tem 7 temas, o lado B tem outros 7 temas. E há um princípio, meio e fim no disco com três falsos “intros”. Isto tudo fará mais sentido quando se ouvir o disco, dado que há uma lógica estrutural interna com base nesta divisão.
- Além disso optou por incluir em todos os temas, assim como uma maior utilização de instrumentos reais. Porquê? “Metamorphosia” constitui uma aproximação ao formato canção?
Decididamente, o formato canção não é algo que eu preze muito. Há, nos meus discos, músicas que obedecem a uma estrutura própria (nem que seja uma estrutura ilógica!9, mas nunca se submetem àquele formato rígido de canção standard, com princípio, meio e fim e, - oh heresia! – com refrão. O tema mais próximo desse formato é a remistura que fiz para um tema dos Bypass, mas mesmo aí subverti, deliberadamente, o sentido dinâmico e estrutural desse mesmo formato. Interessa-me muito mais o processo criativo inerente à desestruturação, à fragmentação estética, ao estilhaçar de fronteiras, de limites estilísticos. E o facto de ter utilizado em “Metamorphosia” mais instrumentos ditos “reais” e mais vozes, não significa, tacitamente, que tenha recorrido ao formato de canção tradicional. Longe disso…
- Este novo disco conta com mas participações de Adolfo Luxúria Canibal (voz), Old Jerusalem (voz9, Américo Rodrigues (voz9, César Prata (gaita de foles, electrónica e voz), Luís Andrade (guitarra, baixo, programações) e Alberto Rodrigues (saxofone alto). Tendo em conta a diversidade dos músicos e das suas áreas de acção, pode-se dizer que “Metamorphosia” percorre vários caminhos dentro do mesmo percurso?
É uma boa definição. Na capa do disco vem impressa uma afirmação de um compositor italiano do início do século (Ferruccio Busonni) que resume na perfeição a ideia do projecto Kubik – “a música nasceu livre, e o seu destino é ganhar essa liberdade”. Ou seja, partilho muito dessa ideia de que a arte deve manifestar-se livremente, rompendo fronteiras, padrões estandardizados, numa via de busca incessante de novas formas de expressão. A história da arte prova que os movimentos artísticos – da música ao cinema ou à literatura – mais ricos e fracturantes foram aqueles que romperam esses padrões e revelaram inéditas formas de criação – surrealismo, dadaísmo, vanguarda soviética, free-jazz, electrónica experimental, Fluxus, etc. O meu trabalho musical é, por isso, fundamentalmente “livre”, espartilha-se numa espécie de bricolage electrónica multi-tentacular, não revelando quaisquer compromissos de ordem estética com este ou aquele estilo ou tendência. Por conseguinte, os músicos colaboradores, todos oriundos de universos bem distintos entre si, acabaram por me ajudar a trilhar essa pesquisa de novas formas de experimentação, que é o que mais me interessa.
- Acaba por ser curiosa a participação de Francisco Silva (Old Jerusalem) em “Metamorphosia”, visto serem dois projectos aparentemente tão distintos…
No tal sentido de procura de novas formas de expressão libertária de que falei anteriormente, o convite ao Old Jerusalem veio permitir isso mesmo: o confronto de sensibilidades e universos sonoros aparentemente antagónicos ou inconciliáveis. O Francisco Silva gostou muito do meu primeiro disco, aconteceu conhecê-lo pessoalmente numa actuação de Old Jerusalem na Guarda e aproveitei para convidá-lo a participar neste disco. Achou o desafio fantástico e aceitou de imediato. E deu um excelente contributo para o tema “I’m a Vampire, I’m Disgust”, uma música que irá surpreender muita gente, precisamente porque o trabalho vocal do Francisco afasta-se muito daquilo que conhecemos do projecto Old Jerusalem. Ou seja, o Francisco soube adaptar-se brilhantemente ao universo sonoro “kubikiano” (tal como os outros convidados, diga-se). Foi uma colaboração bastante frutífera para ambas as partes, uma colaboração entrosada como peças de um relógio suíço.
- Ao longo da sua carreira, nota-se a predilecção pela composição de bandas sonoras. É um mundo que o encanta particularmente?
A música e o cinema (e também o teatro) são as duas áreas artísticas que me fascinam desde miúdo. De resto, antes de ter enveredado por um curso superior de música ponderei entrar para o curso de cinema… Sou um cinéfilo inveterado, tenho muitos mais livros sobre cinema do que sobre música e sempre tive a paixão pela descoberta e experimentação da relação entre o som e a imagem, desde os primórdios do cinema. Quanto ao teatro, já tive cinco experiências de composição de bandas sonoras originais, assim como música para performance, vídeo e e cinema. O trabalho de construção de bandas sonoras para estas áreas é bastante peculiar e motivante. Sou grande admirador do expressionismo alemão e da vanguarda soviética e o afã de experimentar este campo de relação som-imagem levou-me a arriscar criar uma banda sonora original para o filme surrealista “Un Chien Andalou” (1928) da dupla Luís Bunuel e Salvador Dali.
- Em 2004 foi convidado pessoalmente por Mike Patton para actuar na primeira parte do concerto dos Fantômas na Aula Magna, em Lisboa. Como é que foi a experiência?
Detestável!... Não, foi óptima. Na verdade, já tinha sido excelente o facto de o Mike Patton ter manifestado gostar imenso do “Oblique Musique”, depois, mais extraordinário ainda, o facto de me ter convidado pessoalmente para abrir o concerto dos Fantômas na Aula Magna, foi algo completamente fabuloso. Esta consideração crítica favorável do Mike pelo meu trabalho é algo que contribuiu, em larga escala, para um maior reconhecimento do projecto Kubik. É claro que havia muita gente na Aula Magna que não fazia ideia quem eu era, uma espécie de extraterrestre solitário a fazer música bizarra antes dos Fantômas (alguns pensaram mesmo que eu era uma “banda” estrangeira de suporte da digressão da banda do Mike), mas acabou por ser uma experiência única, valha a verdade.
- Como vê actualmente a cidade da Guarda, tendo em conta que contribui largamente para a sua dinamização cultural?
A cidade da Guarda sempre foi conhecida, nos últimos anos, como uma cidade muito dinâmica culturalmente e que tem, proporcionalmente, mais dinamização cultural do que certas cidades do litoral do país. Basta dizer que é pioneira nalgumas iniciativas, como o festival de Novas Músicas “Ó da Guarda” dedicado às músicas ditas experimentais, electroacústicas e de improvisação; o ciclo de conferências sobre Cibercultura, festival “Correntes de Ar” (sobre poesia sonora, spoken word e experimental), etc. A Câmara detém três equipamentos culturais que têm dinamizado o panorama cultural da cidade e da região. Músicos como Elliott Sharp, Meira Asher, Chris Cutler, Xiu Xiu t~em passado pela Guarda. E agora a cidade mais alta tem um novo Teatro Municipal com capacidade para a realização de maiores eventos (em dimensão e qualidade), como é o festival de Jazz, que traz à Guarda músicos da craveira de Nils Petter Molvaer ou Anthony Braxton Trio. Curiosamente, um dos grandes promotores culturais da cidade é o músico, actor e poeta sonoro Américo Rodrigues, que já participara no meu primeiro trabalho e que volta a participar em “Metamorphosia”. A Guarda é, por isso, uma cidade que apesar de ser do chamado interior do país (sem sentidos pejorativos) tem sabido apresentar uma programação cultural diversificada e de grande valor artístico. A área da programação cultural e educativa é, actualmente, a minha área profissional propriamente dita.
André Tiago Gomes (Mondo Bizarre / Bodyspace.com)



A OUVIR:
Kubik
Metamorphosia (CD Zounds / Sabotage)



Os gestos e nostalgia estão um pouco por todo o lado, e a música não é excepção. Considere-se desde já “Metamorphosia” como uma espécie de máquina do tempo, que tanto viaja para o passado na procura da magia dos discos de vinil e das cassetes (o seguidor do aclamado “Oblique Musique” surge dividido em dois lados designados por A e B, contendo cada um desses lados sete temas), assumindo igualmente o lado conceptual da obra, como ao mesmo tempo aponta o dedo ao futuro e abraça ainda mais elementos no já de si abrangente mundo de Kubik. Depois tenha-se em atenção que em “Metamorphosia” Kubik utiliza mais vozes e instrumentos reais, e que para isso contou com as participações de Adolfo Luxúria Canibal (voz), Old Jerusalem (voz), Américo Rodrigues (voz), César Prata (gaita de foles, electrónica e voz), Luís Andrade (guitarra, baixo, programações) e Alberto Rodrigues (saxofone alto). Desde que foi pensado até ao momento em que foi concluído, “Metamorphosia” demorou dois anos, facto que acaba por se relacionar e de que maneira com a complexidade das suas composições. Mas mais do que a complexidade que “Metamorphosia” emana, o que aqui realmente sobressai é a capacidade de Victor Afonso – o verdadeiro nome por detrás do epíteto Kubik – na costura de uma manta feita de retalhos provenientes de cosmos distintos. A prova mais evidente dessa harmoniosa convivência é “Night And Fog: Ya!”, anunciada por vários “ya” e “que ritmo” de “acento” latino e trespassada por furiosas rajadas metal, o cheiro boémio de Paris e um acordeão, uma gaita de foles, interferências vindas deste e de outros planetas, chuva mágica e manifestações intensas de percussão – não obrigatoriamente por esta ordem. Kubik mistura tudo, passa a matéria para outro lugar e volta a misturar tudo de novo, desta vez com intensidade redobrada. Como bom artesão que é, Kubik equilibra todo este mundo aparentemente complicado de controlar – mas a verdade é que o consegue, e com superior mestria – com três intros, responsáveis pela definição de uma estrutura “discursiva”. “Metamorphosia” é, do início ao fim, um registo notável, um disco que estabelece cada vez mais Victor Afonso como um dos músicos portugueses que pretendem e conseguem romper os limites que a música, por vezes, parece pressupor. (8 / 10) André Tiago Gomes.



LIVROS
DUZENTOS E TRINTA E UM DISCOS
PARA UM PERCURSO PELA MÚSICA URBANA EM PORTUGAL  tenho
Henrique Amaro, Jorge Mourinha, Pedro Félix (Fnac)



“Duzentos E Trinta E Um Discos – Para Um Percurso Pela Música Urbana Em Portugal” é um livro de pequeno formato (12 X 14,5 centímetros), de poucas palavras, mas de grande valor. Compilado pelo divulgador e radialista Henrique Amaro, pelo jornalista Jorge Mourinha – que aqui entrevistamos – e pelo antropólogo Pedro Félix, “Duzentos E Trinta E Um Discos” abarca quatro décadas e meia (de 1960 a 2005) de música portuguesa moderna e urbana. Começando com Zeca do Rock e terminando nos M’as Foice esta não é, nem pretende ser, a listagem definitiva da Música Urbana portuguesa.

O que é que a FNAC vos pediu em termos de abordagem e do conteúdo para este livro?
As “regras” impostas pelo Jorge Coelho foram muito simples: criar uma listagem relativamente alargada e nada “definitiva” de discos. A ideia seria mais a de propor uma diagonal personalizada, se calhar passando por coisas menos evidentes, em vez de andar a querer fazer a lista definitiva dos melhores discos de sempre da música portuguesa.
Quanto tempo levaram a selecionar os 231 discos que surgem no livro?
Eu diria aí um, dois meses, entre reuniões em conjunto e trabalho pessoal de cada um. Quanto a horas de trabalho pessoal… isso depende de cada um de nós!
Porquê 231 e não 250 discos?
Precisamente para evitar a “listagem definitiva” do que quer que fosse. Não quisemos um número certinho e redondo… E ficou 231 porque foi o número de discos que tínhamos acordado quando o prazo de entrega fechou.
Sendo que apenas 16 discos estavam nas listas dos três foi difícil escolher os restantes 215 discos?
Nem por isso… Havia muitos artistas que estávamos de acordo que deveriam entrar, só não estávamos de acordo quanto aos discos. Eu diria que para aí 80 por cento da selecção foi relativamente fácil. Os outros 20 por cento… enfim, como em qualquer trabalho de grupo, a democracia é sempre a melhor opção, mesmo que nem sempre concordemos!
Qual foi o principal critério de selecção dos discos? Que géneros / áreas musicais foram deliberadamente deixados de fora?
Procurámos um equilíbrio entre o valor histórico, o valor musical e o valor de referência social ou cultural de cada disco. Trabalhámos essencialmente na área da música urbana moderna, ou eléctrica, abrindo algumas excepções para trabalharmos mais ligados à tradição ou às raízes que tinham um ponto de vista criativo essencialmente urbano. Não quisemos entrar em áreas mais específicas como o Fado, por exemplo, que daria um outro livro completamente diferente, mas abrimos espaço a alguma canção ligeira paredes-meias com o rock, ou a bandas que fizeram do seu som um espaço de trabalho e modernização da tradição.
Há bandas que surgem com mais do que um disco, como os casos dos Mão Morta ou dos Três Tristes Tigres. Não teria sido preferível optar por discos de outros artistas de modo a alargar o número de presentes?
Mmmm… Não procurámos fazer uma listagem exaustiva. É um percurso cruzado de três vivências e concepções diferentes e específicas. As bandas que têm mais de um disco têm-no porque são bandas cuja importância social, cultural, histórica ou musical ou cuja carreira não se consegue resumir a um único disco. E limitámos deliberadamente cada artista a um máximo de três discos, para não sobrecarregar a listagem – de qualquer maneira a ideia original seria sempre uma apresentação cronológica dos discos, não alfabética. Seria muito difícil escolher um disco dos Mão Morta, um disco dos Xutos ou um disco do Jorge Palma para resumir carreiras tão ricas… E cada um de nós escolheria discos diferentes para cada um destes artistas – foi, aliás, o que aconteceu durante a elaboração! Acontecia-nos cada um de nós propor três discos que nada tinham a ver com as escolhas dos outros.
Que discos é que, após o livro terminado e impresso, lá deveriam estar e não estão?
Eu lembro-me, de cabeça, do “Foram Cardos Foram Prosas”, da Manuela Moura Guedes, que nos passou completamente ao lado… Mas acho que isso acaba por jogar a nosso favor, na medida em que a lista nunca foi pensada como exaustiva ou definitiva. É um ponto de partida para cada leitor partir à descoberta de coisas que não conhecia, ou recordar coisas de que não se lembrava. É normal que faltem coisas numa lista que não se quis exaustiva nem definitiva!
Portugal é um país com muito pouca memória e no caso da Música Popular essa memória é ainda mais difusa quando não inexistente. Têm noção da importância do vosso livro no escasso panorama da História e da Memória fixada da Música Popular Portuguesa das últimas décadas?
Não gosto nada de pôr as coisas nesses termos. O livro é um modesto contributo para a preservação dessa memória, mas não pretende de todo ser uma obra definitiva.
A gratuitidade do livro foi condição imposta por vós ou era já essa a ideia da FNAC?
Não, isso era já ideia da FNAC, oferecer o livro gratuitamente, mas eu acho muito bem!
Raquel Pinheiro


LIVROS
RIP IT UP AND START AGAIN
Simon Reynolds
(Faber Books)
tenho



Basta uma leitura para eleger “Rip It Up And Start Again” como um dos pontos altos da literatura sobre música editada em 2005. Editada, obviamente, não entre nós. Mas isso porventura não interessa. O tema em causa, o pós-punk, é afinal um género que todos (re)conhecem, ora como música localizada num tempo específico, ora enquanto música (como outras, hoje) destituída de um tempo. “Rip It Up And Start Again” não nos vem dizer qual é o tempo verdadeiro, vem antes falar daquele que o autor viveu entre 1978 e 1984. Nesse sentido podemos falar de um livro sobre e de uma geração: aquela que se fez expelir pelo punk e que em fuga nem se lembrou de olhar pata trás, para o gesto, já paralisado, de 76-77. Sem quase nunca sair do contexto anglo-saxónico, Simon Reynolds dedica capítulos a alguns desses fugitivos: PIL, Devo, Vic Godard, Pere Ubu, DNA, Talking Heads, Gang Of Four, Cabaret Voltaire, Chrome, The Fall, Joy Division entre outros. E lentamente nos vai revelando uma das suas teses: o pós-punk foi um momento só comparável aos anos 60. Não só pelos seus excessos estéticos e culturais, mas pela vontade constante e quase obsessiva em inovar e experimentar. Os métodos, linguagens e instrumentos eram variados mas acessíveis, mesmo quando estranhamente contraditórios. Havia quem propusesse um reencontro com a música negra enquanto fonte de ideias e sons. Grupos rejeitavam o texto (do rock9 em prol das texturas e ambientes. A contaminação com outras artes era incentivada assim como a procura e o extremar consequente de antinomias, enquanto uma nova atenção às músicas dos outros mundos acontecia em simultâneo com a atenção que a presença das mulheres enquanto artistas requeria no contexto da pop. Transversal a todas estas abordagens a ideia de desenvolvimento formal da música, de avanço estético movimenta-se em sossegadamente em “Rip It Up And Start Again”. Ou pelo menos é o que nos diz Simon Reynolds, parecendo vislumbrar um modernismo da música popular urbana. Em causa estava a necessidade de abater de vez o obscurantismo que já se havia apoderado dos lugares comuns do rock e nos quais o punk havia caído. Por momentos parece que isso de facto aconteceu e o autor até parece congratular-se com o sucedido, mas face ao título da segunda parte do livro (New Pop And New Rock), dedicado ao goth rock, aos novos-românticos ou à segunda onda industrial, facilmente percebemos que as suas certezas foram-se tornando menos certas. O pós-punk foi de facto um momento libertador e único e almejou, nalguns casos, os tops. Ao contrário dos anos 60 contudo não intensificou mudanças directamente no campo social. Disseminou-as primeiro no contexto musical e através dos meios de comunicação social insinuou a sua concretização como algo inevitável. Depois, esgotado nas suas contradições, deu lugar às novas aventuras do rock e da pop. Aventuras que, diga-se, foram cada vez mais sujeitas a novas repetições e variações. E dispersas, pulverizadas, perderam eficácia enquanto momentos políticos, sociais ou culturais. Seria necessário esperar pelo hip hop e pelo fenómeno Nirvana para que um novo abalo se fizesse sentir. Mas já não se podia, como em 1978, começar de novo. Eis o drama que vive em “Rip It Up And Start Again”. E o fascínio que transporta.
JM
José Marmeleira


Clássicos
DISCOS
BOURBONESE QUALK
Unpop (LP/CD Funfundviertzig, 1992)



Nascidos em Liverpool, algures em 1979, quando no ar ainda se podiam sentir as cinzas do punk, os Bourbonese Qualk passaram a maior parte da sua existência de costas viradas para o mundo. Recusando todas as etiquetas que lhes queriam colar criavam alguma da mais entusiasmante música que ia surgindo nos squats britânicos, à qual aliavam uma componente visual igualmente forte e original. Aliás, Simon Crab, um dos elementos chave do grupo sempre preferiu ver os Bourbonese Qualk como um projecto multimédia em vez de como uma banda. Passam a década de 80 a desenvolver uma sonoridade própria, muitas vezes enfiada no saco da música industrial. Destacam-se os álbuns “Laughing Afternoon (1983), “The Spike” (1985), “Bourbonese Qualk (1988) e “My Government Is My Soul” (1989) como pilares importantes na construção do som dos Bourbonese Qualk, um som imaginativo, personalizado e de difícil categorização. Prometido para 1990, “Unpop” (abreviatura de unpopular) surge apenas em 1992, depois da primeira versão ter sido gravada e regravada. Essencialmente instrumental (excepção feita a quatro dos catorze temas do disco) “Unpop” converge em si uma miríade de sonoridades díspares que vão da música electrónica a étnica, passando pelo jazz e pelo pós-rock (antes mesmo de este estilo ter sido “inventado”). A constante procura de uma sonoridade única levou os Bourbonese Qualk até “Unpop”, um disco todo ele feito em regime DIY e que conseguiu chamar (finalmente) a atenção da cruel imprensa britânica, que sempre os havia ignorado. Difícil de encontrar nos escaparates, “Unpop” pode ser descarregado gratuitamente no site da banda (www.bourbonesequalk.com), onde está disponível para download toda a discografia dos Bourbonese Qualk
Hugo Moutinho







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