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1.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (140) - Música & Som #105


Música & Som
Nº 105

Agosto de 1985
Publicação Mensal
Esc. 200$00




Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Matos, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, José Guerreiro, José O. Fernandes, José Rúbio, Luís Maio, Manuel José Portela, Manuela Paraíso, Nuno Infante do Carmo, Pedro Cardoso, Pedro Ferreira e Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 20 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4 + suplemento/destacável Computadores... & Vídeo (16 páginas) - Nº 6
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.
poster: Kenny Loggins (A3 a cores - centrais)


Grupos Portugueses
3. Mler Ife Dada - Ou A Harmonia Dos Contrários
por Luís Maio

«Talvez a natureza goste dos contrários e saiba deles extrair a harmonia, ainda que não se interesse pelos semelhantes; é por isso que une o macho e a fêmea e não relaciona os seres do mesmo sexo; compôs a concórdia original pelos contrários e não pelos semelhantes. Parece que também a arte, imitando a natureza, faz o mesmo. (...) A música misturando notas agudas e graves, longas e breves, consegue uma só harmonia em tons diferentes».
in «Do Mundo», autor anónimo contemporâneo de Aristóteles.



As produções artísticas da cultura ocidental, como expressão e reflexo da sua configuração, são francamente dualistas. Alicerçam-se no posicionamento de contradições, para se cristalizarem sob a forma de compromisso com um dos dois pólos antagónicos. Com a descoberta, em finais do século passado, das lógicas trivalentes, o edifício científico clássico estremeceu e foi obrigado a remodelar-se; todavia, ao nível do senso comum e da arte, a bivalência foi mantida como se nada se tivesse passado - a tríade princípio de identidade / não contradição / terceiro excluído conservou-se intacta na regimentação das formas de pensar desses dois domínios de expressão. esta situação verifica-se particularmente no nosso país. Basta dizer que, no emprego corrente da nossa língua, a partícula 'ou' não conhece praticamente o uso inclusivo, acepção em que é sinónima de 'e'. «Ou isto ou aquilo» significa invariavelmente que um dos disjuntos é para ser excluído. Mas não é só no plano do senso comum e da sua linguagem que este estado de coisas se constata entre nós - também a criação artística se subordina a tal engrenagem de pensamento. A nossa música popular é a esse nível particularmente elucidativa: ou se faz música convencional ou vanguardista, ou comercial ou marginal, ou alienante ou interventiva. Mas a terceira possibilidade, a que a lógica aristotélica interditou, é a que ninguém se tem atrevido a explorar. Surge agora uma leve esperança com o projecto musical dos Mler Ife Dada, grupo vencedor do primeiro concurso de música moderna no Rock Rendez Vous, e que também gravou recentemente um máxi-single de estreia, como prémio pelo sucesso alcançado naquele certame. O ponto de partida desta nova proposta é, como nos explicou Nuno Rebelo, na circunstância o representante do agrupamento, uma visão da realidade que se distancia sensivelmente das mais ortodoxas entre a classe dos músicos portugueses.
«Quer em relação à vida, quer em relação à música, divido as coisas em duas partes distintas: há o que é conhecido e corrente, e há o que é novo e invulgar. Não faz sentido cingirmo-nos a uma dessas parcelas, visto em qualquer delas ser possível encontrar pontos de interesse e motivos de prazer. No que é conhecido, na medida em que o é, pode-se seleccionar aquilo que já se sabe agradar-nos, o que se encontra já consagrado como fonte de prazer. No que é inédito, vale sempre a pena apostar, porque sentir o novo, pelo menos no primeiro instante, funciona por si só como razão de satisfação». Ou seja, embora supondo uma base bipolar, esta perspectiva não se define, como é mais frequente, tomando partido por uma das antíteses.No lugar disso, procura integrar e conciliar as duas simultaneamente, não resvalando para qualquer unilateralidade.



Em termos musicais, um dos termos do confronto, o usual, corresponde às formas sonoras a que o público se encontra mais habituado, aquilo que vulgarmente se diz ser agradável. Por seu turno, o outro, o inusitado, emerge musicalmente em projecções sonoras pouco divulgadas, ou em que o público não está suficientemente adestrado.
«a nossa música contsrói-se em função de elementos absolutamente díspares. Por um lado, procuramos fazer uma música bonita e agradável que entre facilmente no ouvido dos auditores mais familiarizados com o comercial. Mas, por outro lado, procuramos também que o nosso som inclua elementos de maior elaboração e complexidade, susceptíveis de cativar um público musicalmente mais culto e, nessa medida, necessariamente minoritário. A procura do mais convencional faz-se sobretudo ao nível das melodias, enquanto é no timbre e, no caso do disco, na produção, que a outra componente vem a ser mais desenvolvida. Tentamos assim chegar a um estilo misto capaz de ser apreciado por facções do público bastante diversificadas». Há portanto, nos Mler Ife Dada uma intenção de extrapolar do plano vivencial para o musical a ideia de uma harmonia pela tensão entre os opostos.
Mas uma tal harmonia não é conseguida, nem sequer possível, pela simples reposição estática dos polos antitéticos. Essa compatibilização aponta necessariamente para o cruzamento, para a fusão dinâmica dos termos de que se parte. Disso estão perfeitamente conscientes os membros da banda, cujas composições são elaboradas pelo jogo subtil que consiste em recriar cada um desses termos de modo a transmudá-lo no seu oposto: «às vezes pegamos em padrões musicais muito batidos, perfeitamente banalizados. Na maior parte dos casos, são melodias caídas em desuso, já apagadas da memória do público. Nestas circunstâncias, retomá-las pode ter um efeito insólito, porque tendo sido esquecidas, a sua reposição pode aparecer como novidade genuína».
Não há pois instâncias fixas para esta empresa musical ocupar o lugar do seu oposto; tudo é e não é, tudo é possibilidade de deixar ou de vir a ser.
Evidentemente, toda esta ambiência musical que se pretende criar requer uma concretização, um trabalho compositivo ajustado ao tipo de resultados que se pretende alcançar. Sobre este tópico, o porta-voz dos Mler Ife Dada revela-nos que o seu labor criativo segue uma metodologia contígua aos seus objectivos: «usamos duas estratégias criativas. Uma: ligamos a caixa dos ritmos, escolhemos um tema base e sobre ele improvisamos. Outra: fazemos uma linha de guitarra ou de baixo e improvisamos a partir dela. Num ou noutro caso, gravamos o resultado, que ulteriormente será trabalhado até atingir uma forma mais definitiva. Note-se, todavia, que uma vez a canção acabada, mantém-se sempre um espaço, mais ou menos delimitado, para a improvisação.».
Como vimos, eles pretendem conciliar o habitual e o insólito. Mas, o habitual não precisa de ser procurado - está ali, nos temas dados pelas caixas de ritmos e nos acordes preparados pelas violas. Em contrapartida, o insólito necessita de despontar do acaso - ele requer a espontaneidade do improviso.
Eis como se atinge uma coincidência plena entre a inspiração conceptual e a concretização na obra produzida. Note-se, todavia, que a improvisação também pode funcionar como factor de repetição, enquanto o refrão pode preencher o lugar oposto, ou seja, o papel inovador. De facto, nesta música não há posições pré-determinadas, há sempre uma saudável instabilidade que nunca conduz à obstrução da vontade de criar e ouvir, porque não há nenhuma meta definitiva que ela se proponha atingir.
É claro que também se pode levantar a questão: onde será que esta música se expande mais directamente? Através do disco ou da actuação ao vivo? A pergunta posta a quem é não faz sentido, porque supõe a subvalorização de um dos termos em detrimento do outro, o que por princípio é recusado pela pessoa a quem é endereçada. São ainda as reminiscências dos vícios dualistas que nela se esbatem, mas importa ultrapassar: «É preciso fazer notar a grande diferença entre uma canção apresentada num concerto e executada num disco. O disco é feito essencialmente para ser ouvido à medida que o tempo passa, enquanto o concerto é mais imediato, tem a dimensão do acontecimento circunstancial. Por isso, a canção ao vivo tem de ser dirigida aos sentidos à maneira de estar momentânea; em contrapartida, quando ela é para aparecer em disco, tem de ser mais trabalhada, para poder atingir a longevidade. Todavia, apesar das diferenças, uma e outra formas de exposição completam-se e interpenetram-se, não havendo pois que desqualificar ou privilegiar uma única».
Talvez um dia, quando os músicos portugueses conseguirem resolver os dilemas de afirmação e de identidade, possam seguir este exemplo de superação da sua lógica simplista que é encarnado nos Mler Ife Dada.




Finalmente!...
Cocteau Twins e This Mortal Coil
Desde a edição do máxi «Song To The Siren» de This Mortal Coil que pairava no ar uma reclamação em surdina: e o resto? Cocteau Twins e o álbum «It'll End In Tears»? Afinal fomos surpreendidos com a edição de ambos: «Treasure» dos Cocteau Twins e «It'll End In Tears» de This Mortal Coil. Já não há motivo para renegar a nacionalidade. Portugal já pode comprar o melhor som da Grã-Bretanha, e mesmo da música popular.


O motivo por que se junta estes dois grupos numa só prosa, parece-me óbvio: LIZ FRAZER. Com efeito esta senhora passa por ter uma das melhores vozes actuais, e não é impunemente que isso acontece. Eu diria mesmo que Elizabeth Frazer é uma das melhores cantoras de sempre.
Mas este artigo não é sobre Frazer, porque ao referir Cocteau Twins ou This Mortal Coil está-se obrigatoriamente a falar dela. Esclarecida a situação, adiante.
A música «pop» está velha de trinta anos. É impossível fazer algo de novo, sem que não surjam referências já conhecidas. No entanto, é possível ainda reinventar sonoridades, reconverter fórmulas e reintegrá-las num todo inexplorado. Isto trocado por miúdos significa que com imaginação e muito talento consegue-se ser diferente, e mais do que isso, melhor. É claro que isso é privilégio de poucos, mas entre esses, encontram-se Cocteau Twins e This Mortal Coil, dois «primos» dentro da mesma companhia - a 4AD - pertença de um homem idealista e visionário, Mr. Ivo, uma peça-chave nesta história. Foi ele o responsável pelo nascimento de This Mortal Coil, ao recrutar para o Blackwing Studio, vários músicos ligados à sua editora. Deram o seu contributo para a sessão Michael Conroy (baixo) e Gary McDowell (guitarra) dos Modern English; Elizabeth Frazer (voz) e Robin Guthrie (guitarra) dos Cocteau Twins; Gordon Sharp (voz) dos Cindytalk; e Martin Young (teclas) dos Colour Box. O resultado veio em doze polegadas memoráveis. «Song To The Siren», um original de Tim Buckley é revelador da validade do projecto de Ivo, mercê de uma interpretação inesquecível de Liz Frazer. A onda de choque provocada pelo disco alarga-se a Portugal, que a partir daí passa a ser fiel seguidor da obra de This Mortal Coil. Não é por acaso que «It'll End In Tears» conviveu várias semanas com Wham, Alphaville, Scorpions e quejandos, na tabela dos vinte discos mais vendidos. Em que outro país isso poderia acontecer? Além de que essa estadia no «top» possibilitou a visão fascinante de Liz Frazer a cantar «Song To The Siren» num verdadeiro «anti-clip».
Em «Acabará Em Lágrimas» compareceram de novo Robin Guthrie, Gordon Sharp, Liz Frazer e Martin Young, e pela primeira vez, Robbie Gray (Modern English), Lisa Gerrard e Brendan Perry (Dead Can Dance) e Mark Cox (Wolfgang Press). «Another Day» de Roy Harper é revisitado por Liz Frazer com espantosa delicadeza, transformando-o no melhor tema do álbum.
Lisa Gerrard por seu lado não deixa em branco a sua contribuição: dois temas, «Waves Become Wings», e «Dreams Made Flesh» são uma pequena amostra do que Lisa é Capz. Ainda a destacar a repescagem de dois temas de Alex Chilton, «Kangoroo» e «Holocaust», sobriamente cantados por Gordon Sharp. Álbum muito heterogéneo, de um não menos heterogéneo grupo, «It'll End In Tears» inclui ainda temas de Rema-Rema, e do colectivo This Mortal Coil. E tal como é tradição e orgulho da 4AD, a capa é uma pequena obra de arte, da autoria de «23 Envelope».

Gémeos

Cocteau Twins estando muito próximo de This Mortal Coil, segue no entanto outro caminho. Sendo também um colectivo de três pessoas, que assina todos os discos e músicos, simplesmente como Cocteau Twins, sem nunca existir referências a nomes, os Twins possuem um trunfo que falta a T.M.C. - Liz Frazer a tempo inteiro.
Frazer personaliza indelevelmente o som Cocteau Twins. E embora no início fossem acusados de cópia de Siouxsie And The Banshees (com algum fundamento), hoje os Cocteau Twins ultrapassaram por completo essa influência. Liz Frazer, que se diz usar uma tatuagem de Siouxsie no braço, suplantou largamente a sua musa, em todos os aspectos, inclusive, o canto de Liz é muito superior ao da líder dos Banshees.
A edição no nosso país de «treasure», o mais recente álbum do grupo, datado de 1984, constitui um marco nas edições discográficas nacionais, arriscando-se desde já, a ser o melhor disco do ano. Para trás, ficam dois outros álbuns, «Garlands» e «Head Over Heels», e o espantoso 12 polegadas «Pearly Dewdrop's Drops». A última produção do trio chama-se «Aikea-Guinea», um máxi-single, colocado semanas a fio na chart independente da Grã-Bretanha. Se «Treasure» é um precioso e raríssimo tesouro, para guardar cuidadosamente como quem guarda uma jóia, «Aikea-Guinea» é uma dádiva dos Twins aos seus adeptos. Contendo quatro temas este máxi exala a mesma atmosfera de «Treasure», perpetuando o invulgar esquema rítmico dos Twins, e fazendo justiça, ao fabuloso jogo de guitarras acústicas e eléctricas com o piano, há que destacar «Aikea-Guinea» e «Quisquose». O clima onírico de sons e palavras, cantado por Liz Frazer podia ser operático («Kookaburra») ou tão perfeito como uma arte decorativa («Rococo»). Em «Quisquose» percorre todo o seu manancial vocal, que vai de Siouxsie a Kate Bush, numa reminiscência de «Persophone» do álbum «Treasure».
E se no álbum, «Aloysius», «Domino», «Ivo» (uma dedicatória ao «boss») ou «Lorelei» são momentos difíceis de ultrapassar, pensava-se, «Aikea-Guinea» desmente-o à primeira audição. Depois destes discos, tudo pode acontecer na música popular. Até capas tão excelentes como estas.
Célia Pedroso



Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. 15º Festival Cascais-Jazz - reportagem e textos de Trindade Santos - Fotos de Fernando Peres Rodrigues
. Discos em Análise:
.. Associates - «Perhaps» [WEA 229240497.1, por Luís Maio
.. José Mário Branco - «A Noite» [UPAV-001], por Luís Maio
. Rock Em Família - The Moody Blues, por Fernando Matos




24.12.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (132) - Música & Som #91


Música & Som
Nº 91

Maio de 1984
Publicação Mensal
Esc. 150$00





Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Amílcar Fidélis, Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Matos, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, João Gobern, José Guerreiro, José Tavares, Manuel José Portela, Manuela Paraíso, Nuno Infante do Carmo, Pedro Ferreira, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores (8 exteriores + 16 centrais com brilho) e outras a p/b, todas elas também com um papel com um certo brilho mas de pesagem menor que as referidas anterioremente entre parênteses..



Como Voam As Aves E Correm As Águas
por Rui Monteiro

A música popular está a mudar. É, de certa forma, um lugar-comum, esta frase dita e repetida desde nem se sabe quando, mas acontece que a música popular, uma vez mais, se predispõe a mudar de princípios; quer dizer que agora se acabou a marmelada que o pop foi (e continua a ser para a grande massa dos consumidores), que não interessa mais fazer cançonetas mentirosas porque os novos valores pretendem-se belos e eternos, querem o que é impossível mas se deseja com o ardor de uma paixão.
A nova música popular tem já vários nomes e vários discos. Tem Virginia Astley e o álbum «From Gardens Where We Feel Secure», a chama lírica onde se alimenta de convicções, tem «The Smiths», o álbum do conjunto com o mesmo nome, onde as ideias ganham definitivamente as palavras.
Como é costume, antes das revoluções, os revolucionários conspiraram, em esconsos cantos semiclandestinos e relacionaram-se com as editoras mais ousadas, e um dia nasceram para consumo popular, quer dizer, chegaram aos ouvidos de um crítico esclarecido que de pronto os mitificou tão enfeitiçado ficou.
Mas, antes de tudo, antes dos novos líricos, um dos seus professores mais prestigiados: Brian Eno, o álbum «Apollo», e outros esclarecedores do seu direito de cátedra.

Antes de Virginia Astley

Escutem o silêncio. É como o espaço entre os pensamentos que nos escapam. Repousadamente declinem as preocupações e as agruras de todas as espécies, afastem-se da angústia, não se iludam com o sonho, pretendam que não sabem rir, nem sorrir, esqueçam-se até que existem e queiram-se sós, uma solidão verdadeira e crua e não classificável. O silêncio, só, como um enorme espaço sem formas nem cores onde se pode tudo imaginar e tudo querer, e tudo ter; é um espaço onde se pode fazer tudo, mas se permanece quedo, sem dor nem alegria que confundam. Se ouvirem um som não liguem, é a imaginação que, irrequieta, se introduz. O espaço, e o silêncio, e a música proporcionada pela imaginação, existem, afinal, são uma matéria sonora, um disco, «Apollo», de Brian Eno, existem para além da vontade de desejar o vazio porque podem sê-lo, como podem ser movimentos e cores e formas.
Usar a palavra «utilidade» relacionada com música popular tem sido uma tarefa vã, mas é este sentido de utilidade que a música popular começou a ter (naturalmente já o teve mas não é importante agora) com Brian Eno, e agora com Virginia Astley e os Smiths, mas que poucos, até «From The Gardens Where We Feel Secure», conseguiram concretizar e fazer sentir. A música que serve para entreter também pode servir para criar um sentido de espaço e de tempo, ter uma utilidade mais nobre dedicada à beleza e não pretender apenas o reles passar do tempo, era isto que queria Eno, encontrar esta utilidade para a criação de vários sentidos de espaço, e é a isto que se tem dedicado, entre muitas outras coisas, desde «Another Green World», de 1975, a «Apollo», de 1983, onde o seu trabalho atinge uma beleza permissiva e rara.
Digo música popular apesar de ser difícil fazer crer que Brian Eno é um artista popular, particularmente em Portugal onde o seu trabalho depois de abandonar os Roxy Music é praticamente desconhecido e, nada indica, que os seus mais recentes discos venham a ser editados deixando a ignorância continuar a grassar. Na realidade ele não tem um grupo, nunca faz concertos e digressões, e os seus discos têm modestos números de venda, que, se forem comparados aos volumes atingidos pelos frequentadores do topo das tabelas, são ridículos. Mas, o volume de pedidos para a colaboração de Eno no trabalho de outros músicos nunca pára de crescer e ele divide-se, fazendo com que o seu nome acabe por se tornar familiar a quem nunca lhe ouviu um disco próprio. Além dos dois discos com Roxy Music, Eno gravou uma trilogia com David Bowie, dois LP com Robert Fripp, outros dois com David Byrne dos Talking Heads, grupo para quem produziu três álbuns, produziu ainda o primeiro álbum de Ultravox e gravou com Jon Hassell e Harold Budd.
Durante anos recusou considerar-se músico e preferia ser tratado como manipulador de sons desde que apanhou a tremenda pancada que tem por gravadores e tudo o que meta fitas magnéticas. Outra pancada definitiva na sua formação, se alguma coisa, é definitiva em Brian Eno?, foi o trabalho do músico contemporâneo John Cage. Ao tempo de Roxy Music Eno estava com os maiores expoentes do chamado «glitter-rock», verdadeiramente empenhado no movimento, ostentando uma longa cabeleira, os olhos pintados e o rosto coberto de maquilhagem, mas o seu verdadeiro comprometimento traduzia-se na inovação dos conceitos de utilização de sintetizadores e fitas magnéticas pré-gravadas; enquanto trabalhava com Roxy Music entretinha-se nos projectos experimentalistas de Robert Fripp. Gravou «Here Comes The Warm Jets», o seu primeiro LP a sós e, até hoje, não só não parou de gravar como produziu algumas das melhores bandas norte-americanas, compôs música para filmes, fez (e faz) vídeo-arte (pode ver-se uma imagem de um vídeo seu na capa de «My Life In The Bush Of Ghosts»).
O seu projecto mais ambicioso foi a série «Music For Ambients», em que pretendia estabelecer uma relação entre as pessoas e o espaço substituindo os habituais arranjos muzaque por peças da sua autoria. No entanto, depois de «Another Green World» e até o recente «Apollo», não contando com o intervalo, digamos assim, de «My Life In The Bush Of Ghosts» e «The Catherine Wheel», com David Byrne, Brian Eno parece ter perseguido sempre o mesmo objectivo: criar uma música, ou um som se preferirem, que crie uma situação diferente em cada auditor e que permita a este diferentes opções.
«Apollo» é, provavelmente, o corolário desse projecto, pela disponibilidade que pressupõe do ouvinte e pelas imensas possibilidades de transformação sonora que o grau de disponibilidade em que seja recebido igualmente proporcionam.
E aqui começa outra história.



Discografia Seleccionada
«Roxy Music» ... Roxy Music
«For Your Pleasure» ... Roxy Music
«No Pussyfooting» ... com Robert Fripp
«Evening Star» ... com Robert Fripp
«Heroes» ... com David Bowie
«Lodger» ... com David Bowie
«Low» ... com David Bowie
«Fourth World (Possible Music)» ... com Jon Hassell
«The Plateaux Of Mirrors (Ambient 2» ... com Harold Budd
«Here Come The Warm Jets» ... Brian Eno
«Another Green World» ... Brian Eno
«Before And After Science» ... Brian Eno
«Discreet Music» ... Brian Eno
«Music For Films» ... Brian Eno
«Music For Airports» ... Brian Eno
«On Land (Ambient 4)» ... Brian Eno
«Apollo» ... Brian Eno

Depois de Brian Eno



Há um ribeiro por onde a água corre entre pedrinhas polidas e peixes pequenos deixam ver, sem medo de serem pescados, saracotear as escamas de cores brilhantes, e há um prado em cuja frescura já não se acredita apesar de as vacas ali pastarem e os pássaros debicarem entre as ervas. Estamos no Verão, os sinos da igreja chamam à missa os paroquianos, as crianças aproveitam o percurso para debicarem algumas árvores alheias e verificarem da segurança dos seus segredos escondidos entre as pedras dos muros, a passarada esvoaça para aqui e para ali numa actividade que parece preguiçosa e faz grande algazarra quando em bando pousam na copa de uma árvore e disputam os galhos onde se empoleirar melhor.
Virginia Astley tem uma voz maravilhosa que encanta e enternece mas «From Gardens Where We Feel Secure» é um disco totalmente instrumental, passado no Verão, de manhã e À tarde. O piano que soa não lembra uma canção popular enquanto cria um ambiente mas, a breve trecho, todo o desconhecimento da música de Virginia Astley parece desaparecer e as suas mensagens sonoras tornam-se claras na difusão encantada que se espraia pelo ar. Ao contrário da música de Brian Eno, não é preciso predisposição, basta deixar-se enredar e ter coragem para depois nos enfrentarmos em sobressalto de sentimentos. Este é o disco mais penetrante desde «Closer», de Joy Division, é a música onde nos perdemos entre a melancolia e o riso franco e ficamos sem jeito a tentar sorver as cores diáfanas da paisagem criada para um jardim interior a nós próprios.
Os novos líricos começaram a ser falados o ano passado, na Grã-Bretanha, e entre os novos géneros populares, ou a revisitação inspirada de antigos modelos, são quem mais beleza trouxe à música popular. Não é uma beleza vulgar a dos novos líricos, é uma beleza profunda que se entranha na pele quando procura as soluções que sabe não existirem. Não há desespero mas a esperança parece um pouco envergonhada, como se dissesse que as desfeitas sofridas já bastam, e insinua-se na pele como se se escondesse de algum mau devir, ou pelo contrário comporta-se assim para melhor servir os seus propósitos de traduzir a beleza e não se sujeitar à erosão das discussões sentimentais. Há Virginia Astley (cujo álbum de que falo tem edição prevista para Portugal) e há Troy Tate, velho conhecido dos Teardrop Explodes, ou Care, e ainda Durutti Column, cujo novo LP é muito prezado pelos novos líricos britânicos.
Mas há mais. Há Smiths (sem intenção de edição portuguesa anunciada) e Steven Morrissey que ali canta e escreve os melhores poemas dos últimos anos (de sempre?), para as melodias que Johnny Marr desenha nas guitarras. Como acontece com a música de Virginia Astley, as canções de Morrissey e Marr, entranham-se e provocam as maiores paixões com todo o seu dramatismo, desencadeiam furores desconhecidos e fulgores nos olhaares que se cruzam. As canções dos Smiths, mesmo quando não parecem trazer nada de novo à música popular encantam pelos versos e a voz de Steven Morrissey e o belo dedilhar subtil das guitarra de Marr mal chegam a recordar Tim Buckley. No seu único LP, «The Smiths», conseguiram a proeza magnífica e raras vezes alcançada de escrever dez maravilhosas canções de amor e de as interpretarem com uma fé nas palavras e na música que não se via desde o tempo de Joy Division e Ian Curtis, embora não haja outra comparação possível entre os dois grupos de Manchester.




Antes de retirar para o resguardo de uma sala com um gira-discos onde, mais uma vez, possa deleitar os sentidos escutando Virginia Astley e Smiths, não posso perder a oportunidade de referir o álbum «Soul Mining», de The The, ou Matt Johnson se preferirem, e o máxi-single «Uncertain Smile» / «Soul Mining» (apenas porque está editado em Portugal já que as duas canções constam do LP referido), e que é outro amor recente. O grupo de Matt Johnson não atinge a excelência de Virginia Astley ou Smiths - nem todos têm lugar no céu - mas as canções, canções como «This Is The Day» ou «The Twilight Hour», recordam momentos inesquecíveis de emoção e desejo, prazeres que escondidos na memória se perderiam não fora a música e as letras de Johnson; uma certa raiva, ainda, sobressai uma vez ou outra como uma necessidade de dizer, de contar para que não se esqueça e se recorde no futuro a lição.
Deixem as árvores voar, os rios correrem para a nascente, as aves plantarem-se e cantarem quando enraízam na terra fresca, permitam-se ao desejo de concretizar um sonho, tem uma música que os deixa livres para tudo, basta querer.


~Como Voam As Aves E Correm As Águas
por Rui Monteiro

A música popular está a mudar. É, de certa forma, um lugar-comum, esta frase dita e repetida desde nem se sabe quando, mas acontece que a música popular, uma vez mais, se predispõe a mudar de princípios; quer dizer que agora se acabou a marmelada que o pop foi (e continua a ser para a grande massa dos consumidores), que não interessa mais fazer cançonetas mentirosas porque os novos valores pretendem-se belos e eternos, querem o que é impossível mas se deseja com o ardor de uma paixão.
A nova música popular tem já vários nomes e vários discos. Tem Virginia Astley e o álbum «From Gardens Where We Feel Secure», a chama lírica onde se alimenta de convicções, tem «The Smiths», o álbum do conjunto com o mesmo nome, onde as ideias ganham definitivamente as palavras.
Como é costume, antes das revoluções, os revolucionários conspiraram, em esconsos cantos semiclandestinos e relacionaram-se com as editoras mais ousadas, e um dia nasceram para consumo popular, quer dizer, chegaram aos ouvidos de um crítico esclarecido que de pronto os mitificou tão enfeitiçado ficou.
Mas, antes de tudo, antes dos novos líricos, um dos seus professores mais prestigiados: Brian Eno, o álbum «Apollo», e outros esclarecedores do seu direito de cátedra.

Antes de Virginia Astley

Escutem o silêncio. É como o espaço entre os pensamentos que nos escapam. Repousadamente declinem as preocupações e as agruras de todas as espécies, afastem-se da angústica, não se iludam com o sonho, pretendam que não sabem rir, nem sorrir, esqueçam-se até que existem e queiram-se sós, uma solidão verdadeira e crua e não classificável. O silêncio, só, como um enorme espaço sem formas nem cores onde se pode tudo imaginar e tudo querer, e tudo ter; é um espaço onde se pode fazer tudo, mas se permanece quedo, semm dor nem alegria que confundam. Se ouvirem um som não liguem, é a imaginação que, irrequieta, se introduz. O espaço, e o silêncio, e a música proporcionada pela imaginação, existem, afinal, são uma matéria sonora, um disco, «Apollo», de Brian Eno, existem para além da vontade de desejar o vazio porque podem sê-lo, como podem ser movimentos e cores e formas.
Usar a palavra «utilidade» relaicionada com música popular tem sido uma tarefa vã, mas é este sentido de utilidade que a música popular começou a ter (naturalmente já o teve mas não é importante agora) com Brian Eno, e agora com Virginia Astley e os Smiths, mas que poucos, até «From The Gardens Where We Feel Secure», conseguiram concretizar e fazer sentir. A música que serve para entreter também pode servir para criar um sentido de espaço e de tempo, ter uma utilidade mais nobre dedicada à beleza e não pretender apenas o reles passar do tempo, era isto que queria Eno, encontrar esta utilidade para a criação de vários sentidos de espaço, e é a isto que se tem dedicado, entre muitas outras coisas, desde «Another Green World», de 1975, a «Apollo», de 1983, onde o seu trabalho atinge uma beleza permissiva e rara.
Digo música popular apesar de ser difícil fazer crer que Brian Eno é um artista popular, particularmente em Portugal onde o seu trabalho depois de abandonar os Roxy Music é praticamente desconhecido e, nada indica, que os seus mais recentes discos venham a ser editados deixando a ignorãncia continuar a grassar. Na realidade ele não tem um grupo, nunca faz concertos e digressões, e os seus discos têm modestos números de venda, que, se forem comparados aos volumes atingidos pelos frequentadores do topo das tabelas, são ridículos. Mas, o volume de pedidos para a colaboração de Eno no trabalho de outros músicos nunca pára de crescer e ele divide-se, fazendo com que o seu nome acabe por se tornar familiar a quem nunca lhe ouviu um disco próprio. Além dos dois discos com Roxy Music, Eno gravou uma trilogia com David Bowie, dois LP com Robert Fripp, outros dois com David Byrne dos Talking Heads, grupo para quem produziu três álbuns, produziu ainda o primeiro álbum de Ultravox e gravou com Jon Hassell e Harold Budd.
Durante anos recusou considerar-se músico e preferia ser tratado como manipulador de sons desde que apanhou a tremenda pancada que tem por gravadores e tudo o que meta fitas magnéticas. Outra pancada definitiva na sua formação, se alguma coisa, é definitiva em Brian Eno?, foi o trabalho do músico contemporâneo John Cage. Ao tempo de Roxy Music Eno estava com os maiores expoentes do chamado «glitter-rock», verdadeiramente empenhado no movimento, ostentando uma longa cabeleira, os olhos pintados e o rosto coberto de maquilhagem, mas o seu verdadeiro comprometimento traduzia-se na inovação dos conceitos de utilização de sintetizadores e fitas magnéticas pré-gravadas; enquanto trabalhava com Roxy Music entretinha-se nos projectos experimentalistas de Robert Fripp. Gravou «Here Comes The Warm Jets», o seu primeiro LP a sós e, até hoje, não só não parou de gravar como produziu algumas das melhores bandas norte-americanas, compôs música para filmes, fez (e faz) vídeo-arte (pode ver-se uma imagem de um vídeo seu na capa de «My Life In The Bush Of Ghosts»).
O seu projecto mais ambicioso foi a série «Music For Ambients», em que pretendia estabelecer uma relação entre as pessoas e o espaço substituindo os habituais arranjos muzaque por peças da sua autoria. No entanto, depois de «Another Green World» e até o recente «Apollo», não contando com o intervalo, digamos assim, de «My Life In The Bush Of Ghosts» e «The Catherine Wheel», com David Byrne, Brian Eno parece ter perseguido sempre o mesmo objectivo: criar uma música, ou um som se preferirem, que crie uma situação diferente em cada auditor e que permita a este diferentes opções.
«Apollo» é, provavelmente, o corolário desse projecto, pela disponibilidade que pressupõe do ouvinte e pelas imensas possibilidades de transformação sonora que o grau de disponibilidade em que seja recebido igualmente proporcionam.
E aqui começa outra história.

Discografia Seleccionada
«Roxy Music» ... Roxy Music
«For Your Pleasure» ... Roxy Music
«No Pussyfooting» ... com Robert Fripp
«Evening Star» ... com Robert Fripp
«Heroes» ... com David Bowie
«Lodger» ... com David Bowie
«Low» ... com David Bowie
«Fourth World (Possible Music)» ... com Jon Hassell
«The Plateaux Of Mirrors (Ambient 2» ... com Harold Budd
«Here Come The Warm Jets» ... Brian Eno
«Another Green World» ... Brian Eno
«Before And After Science» ... Brian Eno
«Discreet Music» ... Brian Eno
«Music For Films» ... Brian Eno
«Music For Airports» ... Brian Eno
«On Land (Ambient 4)» ... Brian Eno
«Apollo» ... Brian Eno

Depois de Brian Eno

Há um ribeiro por onde a água corre entre pedrinhas polidas e peixes pequenos deixam ver, sem medo de serem pescados, saracotear as escamas de cores brilhantes, e há um prado em cuja frescura já não se acredita apesar de as vacas ali pastarem e os pássaros debicarem entre as ervas. Estamos no Verão, os sinos da igreja chamam à missa os paroquianos, as crianças aproveitam o percurso para debicarem algumas árvores alheias e verificarem da segurança dos seus segredos escondidos entre as pedras dos muros, a passarada esvoaça para aqui e para ali numa actividade que parece preguiçosa e faz grande algazarra quando em bando pousam na copa de uma árvore e disputam os galhos onde se empoleirar melhor.
Virginia Astley tem uma voz maravilhosa que encanta e enternece mas «From Gardens Where We Feel Secure» é um disco totalmente instrumental, passado no Verão, de manhã e À tarde. O piano que soa não lembra uma canção popular enquanto cria um ambiente mas, a breve trecho, todo o desconhecimento da música de Virginia Astley parece desaparecer e as suas mensagens sonoras tornam-se claras na difusão encantada que se espraia pelo ar. Ao contrário da música de Brian Eno, não é preciso predisposição, basta deixar-se enredar e ter coragem para depois nos enfrentarmos em sobressalto de sentimentos. Este é o disco mais penetrante desde «Closer», de Joy Division, é a música onde nos perdemos entre a melancolia e o riso franco e ficamos sem jeito a tentar sorver as cores diáfanas da paisagem criada para um jardim interior a nós próprios.
Os novos líricos começaram a ser falados o ano passado, na Grã-Bretanha, e entre os novos géneros populares, ou a revisitação inspirada de antigos modelos, são quem mais beleza trouxe à música popular. Não é uma beleza vulgar a dos novos líricos, é uma beleza profunda que se entranha na pele quando procura as soluções que sabe não existirem. Não há desespero mas a esperança parece um pouco envergonhada, como se dissesse que as desfeitas sofridas já bastam, e insinua-se na pele como se se escondesse de algum mau devir, ou pelo contrário comporta-se assim para melhor servir os seus propósitos de traduzir a beleza e não se sujeitar à erosão das discussões sentimentais. Há Virginia Astley (cujo álbum de que falo tem edição prevista para Portugal) e há Troy tate, velho conhecido dos Teardrop Explodes, ou Care, e ainda Durutti Column, cujo novo LP é muito prezado pelos novos líricos britânicos.
Mas há mais. Há Smiths (sem intenção de edição portuguesa anunciada) e Steven Morrissey que ali canta e escreve os melhores poemas dos últimos anos (de sempre?), para as melodias que Johnny Marr desenha nas guitarras. Como acontece com a música de Virginia Astley, as canções de Morrissey e Marr, entranham-se e provocam as maiores paixões com todo o seu dramatismo, desencadeiam furores desconhecidos e fulgores nos olahares que se cruzam. As canções dos Smiths, mesmo quando não parecem trazer nada de novo à música popular encantam pelos versos e a voz de Steven Morrissey e o belo dedilhar subtil das guitarra de Marr mal chegam a recordar Tim Buckley. No seu único LP, «The Smiths», conseguiram a proeza magnífica e raras vezes alcançada de escrever dez maravilhosas canções de amor e de as interpretarem com uma fé nas palavras e na música que não se via desde o tempo de Joy Division e Ian Curtis, embora não haja outra comparação possível entre os dois grupos de Manchester.
Antes de retirar para o resguardo de uma sala com um gira-discos onde, mais uma vez, possa deleitar os sentidos escutando Virginia Astley e Smiths, não posso perder a oportunidade de referir o álbum «Soul Mining», de The The, ou Matt Johnson se preferirem, e o máxi-single «Uncertain Smile» / «Soul Mining» (apenas porque está editado em Portugal já que as duas canções constam do LP referido), e que é outro amor recente. O grupo de Matt Johnson não atinge a excelência de Virginia Astley ou Smiths - nem todos têm lugar no céu - mas as canções, canções como «This Is The Day» ou «The Twilight Hour», recordam momentos inesquecíveis de emoção e desejo, prazeres que escondidos na memória se perderiam não fora a música e as letras de Johnson; uma certa raiva, ainda, sobressai uma vez ou outra como uma necessidade de dizer, de contar para que não se esqueça e se recorde no futuro a lição.
Deixem as árvores voar, os rios correrem para a nascente, as aves plantarem-se e cantarem quando enraízam na terra fresca, permitam-se ao desejo de concretizar um sonho, tem uma música que os deixa livres para tudo, basta querer.


Nina Em Lisboa Sem Medo
por Célia Pedroso



Apesar do discurso religioso Nina Hagen não ultrapassou a imagem mitificada de cantora punk que inicialmente criou, conforme provaram o concerto de Alvalade e a posterior conferência de imprensa. Em relação ao concerto começou mal e terminou pior, isto em termos de organização e, sobretudo, de actuação das forças policiais. A (des)organização primou pela anarquia total em relação às entradas, o que gerou cenas de pancadaria e violência gratuitas, evitáveis se o acesso ao pavilhão estivesse devidamente facilitado. Depois há aquela mania policial de bater em tudo o que mexe, e o ripostar com calhaus que por acaso até estavam bem à mão de semear, quase de propósito. Enfim, o que é mais lamentável nisto tudo é a implantação deste hábito de pagar 750 (ou mais) escudos e ainda por cima ter de levar cacetada cada vez que se pretende assistir a um concerto de rock.
O pavilhão de Alvalade rebentou literalmente pelas costuras. Na parte superior do recinto irrompiam acrobatas decididos a não perder o concerto, originando cenas de pugilato nada meigas. O ambiente estava tenso, quente, pronto para que Nina despoletasse a bomba iminente. Ela e os seus acólitos entram no palco e é vê-los abanar a carola, comprimindo-se junto ao palco num vaivém humano movido sabe-se lá porque energia(s). Ela, vestida com umas vestas de cabedal, levou ao rubro um público que já estava em brasa, movendo-se divertida e provocatoriamente, cantando um reportório apunkalhado que incluía «White Punks On Dope» («TV-Glotzer»), «African Reggae», «Glória Aleluia», «O Sole Mio», «Smack Jack», e uma sexpistoliana versão de «My Way». Os temas sucediam-se ininterruptamente numa massa musical indistinta, produzida por um grupo de músicos (?) que mais pareceia um grupo de autistas, cada um a tocar para seu lado. Ainda por cima o som estava péssimo, como é aliás habitual neste pavilhão. Ressalve-se o cenário cuidado e atraente, e o jogo de luzes menos rotineiro do que é costume.
Nina Hagen não cantou «Naturtrane», mas fez uns exercícios vocais passando de graves aos falsetes com um poderio e amplitude que outra garganta dificilmente igualará, mesmo com o microfone dentro da boca... O público marado como estava, atirava-lhe com papéis, copos, beatas (o que levou Nina a gritar várias vezes «Don't hit me!») e muitas peças de roupa que ela divertida ia vestindo. No «encore» a alemã surge bem mais provocante com uma cabeça de touro estrategicamente colocada, numa sequência que seria a melhor do espectáculo. No final benzeu os presentes e a si própria com água mineral, que nunca teve tão delirante publicidade. No entanto, Hagen é, em 1984, uma desilusão para quem esperava um show compatível no mínimo com a sua divina loucura. Faltou aquele clic que se esperava de uma personalidade tão rica, mas não há dúvida que Nina Hagen continua a ser uma das referências imprescindíveis do rock, mesmo que ande tão mal acompanhada e se tenha acomodado à sua imagem.
Após o concerto de novo cacetada na zona do Campo Grande e só não sei por que carga de água eu própria não levei com a moca policial. Já no hotel, Nina Hagen deu uma conferência de imprensa a que compareceram também os elementos da banda. Inicialmente nervosa, esfregando as mãos constantemente e desatinando com as perguntas dos jornalistas (aliás as suas respostas foram sempre a dar para o azar), a vedeta guardada por dois gaurda-costas esquisitíssimos, surgiu very stylish com peruca verde eléctrico e maquilhagem carregadíssima. Ia respondendo às questões com uma malícia e ironia, trocando olhares e sorrisos cúmplices com Karl Rucker, o negro do turbante, e com uma louraça alemã provavelmente uma groupie ou lover, pouco interessa para o caso. Confesso que não sei se ela nos esteve a gozar a todos, tal a maluqueira do seu discurso. Entre outras coisas ficámos a saber que vai fazer um filme com Billy Idol, em Hollywood, um dueto com James Brown, de quem aliás é grande admiradora. Disse-me que ouvia todos os tipos de música, e como grupos favoritos citou Brown, David Bowie, Erythmics «e muitos outros que vocês não conhecem e provavelmente nunca conhcerão». Falou sobretudo da religião que contacta diariamente com Fátima e com todos os santos. Adiantou ainda que também em Berlim Oeste utilizam as suas músicas para ballets, e que os travestis também o fazem. Sobre como será o próximo álbum a resposta foi «Who knows?» para mais tarde corrigir para «Só Deus Sabe». Deu luta incessante aos jornalistas e, no fim, deu autógrafos mirabolantes aos numerosos presentes, onde se encontravam os fans que entretanto tinham conseguido entrar. Mas o culminar desta criatura branquíssima, irreverente e sabidona, mas de aspecto frágil quando olhada de perto, foi quando lhe perguntaram o porquê do sinal vermelho na testa e se tinha algum significado religioso: «Uso este sinal porque tenho de tapar este buraco onde mora um grande pássaro. Sim claro que o meu pássaro é muito religioso...»
Oito dias depois no Coliseu, Rui Veloso e a sua banda demosntraram que em toda a parte há bons e maus músicos.










Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. Especial Inglaterra, por Célia Pedroso
. Métodos De Dança - Entrevista com Steve Rawlings e Lyndon Scarfe, por Manuela Paraíso
. Discos em Análise:
.. Cure - «Japanese Whispers: The Cure Singles Nov 82, Nov 83» [Polygram 817 470-1], por Rui Monteiro
. Rock Em Família - Biografia dos Yes, por Fernando Matos
. Thompson Twins - Breve Aventura No Reino Dos Algarves, por Manuela Paraíso




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