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15.4.26

LP - Jornal de Música - nº 14


 

 Diretor: Manuel Paraíso

ANO I

Nº 14

75$00

Semanário

2 de Fevereiro de 1989


Capa: Banda Do Casaco

+

Carlos Manso: rubrica Confesso... - página 9

Paulo Eno - artigo sobre Coimbra "Movida" na página 14

Banda do Casaco - Entrevistas a António Pinho e Nuno Rodrigues por Fernando Luís e Sérgio Noronha - 3 páginas, da 16 à 18

Laurent Pernice - A Metáfora dos Sentidos - artigo de Eugénio Teófilo, página 28























18.1.17

Banda do Casaco - Entrevista (2006)


Banda do Casaco
Entrevista
Diário de Notícias
01 de Dezembro de 2006
Suplemento "Sons" (Sábados)
Entrevistador: Nuno Galopim

Entrevista a propósito da reedição do álbum "Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos"

Uma reedição histórica da Banda do Casaco

Histórias do arco da velha

A mais importante e visonária das bandas nascidas no Portugal de 70 reedita, finalmente, o seu terceiro álbum ‘Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos’. O álbum, de 1977, pode ser o primeiro na reedição de uma fundamental integral da Banda do Casaco
Texto – Nuno Galopim
Fotos – Diana Quintela
Diferentes entre os diferentes, não alinhados, são, ainda hoje, memória de absoluta referência a resgatar ao esquecimento a que, muitas vezes, a história da música portuguesa é condenada. A reedição do seu álbum de 1977 voltou a juntar Nuno Rodrigues e António Pinho, o núcleo criativo da maior parte da obra da Banda do Casaco. E agora pensam numa justa (e urgente) reedição integral da obra. Passámos com eles uma tarde, trocando ideias e recordando verdadeiras histórias do arco da velha, sobretudo as que nos levam ao Portugal pós-revolucionário...

Quando a Banda do Casaco surge, eram ambos já músicos profissionais, com experiência (e discos) em projectos anteriores...

António Pinho – A Banda do Casaco, aliás, acontece por causa dessa experiência. Um dia o Nuno Telefona-me, diz que tem um grupo, chamado Musica Novarum, e que me gostava de conhecer. A Filarmónica Fraude tinha acabado e ele dizia que gostava de me fazer um desafio e ver se nos podíamos entender. Começou tudo assim. Curiosamente não havia muitos contactos entre a Filarmónica Fraude e a Música Novarum, mas logo que começámos a conversar vimos que havia afinidades nas maneiras de ser. Era uma maneira de ser diferente, que aconteceu com grande naturalidade. Era uma outra época em que não se procurava o êxito, o disco de prata ou de ouro. Procurava-se fazer o que nos apeteceria... Foi o que fizemos, e dali saiu uma coisa inesperada, que para muita gente causou alguma perturbação, especialmente para definir o que isto era.

No Portugal pós-25 de Abril a vontade de racionalizar e catalogar as coisas não se dava bem com o que fugia aos cânones...
Nuno Rodrigues – Continuo a pensar que o Dos Benefícios Dum Vendido No Reino Dos Bonifácios é uma das obras mais de esquerda que se fizeram. Mas de uma esquerda que não quero definir. Em relação à altura não era dar cabo do patrão e falar da conta na Suiça... As letras do António....
AP – Era falar das coisas de uma forma menos explícita, mais surrealista.

Contra a lógica do canto político...
NR – Que, antes do 25 de Abril, era obrigado a usar metáforas. Eles comem tudo... E nós fazemos o primeiro álbum antes do 25 de Abril. E aquela era uma tentativa de desmontagem da sociedade, mas de uma maneira diferente. Era difícil de catalogar. Mas o meu posicionamento político é, hoje, rigorosamente o que então já era. Isto é, não existe.



No pós-25 de Abril o discurso musical dominante em Portugal era politicamente posicionado, de leitura directa, já não metafórico. Mas mesmo assim a Banda do Casaco promovia um discurso não alinhado...
NR – Gravámos sete álbuns de originais entre 1974 e 1984. São dez anos de trabalho. E penso que foi sempre assim. E penso que isso tem a ver com a postura.
AP – Eu não estive lá, mas subscrevo os álbuns que o Nuno fez sozinho. Sobre música que se fazia depois do 25 de Abril tenho de reconhecer que já não usava a metáfora e era má. Na altura escrevia umas crónicas sobre música e numa dada altura falei de um canto livre a que me mandaram assistir. Foi um sacrifício enorme, e desanquei... Houve quem se tivesse indignado comigo, que não estava a compreender... A música pode servir muita coisa. Mas servir levianamente a política, acho uma coisa miserável.
NR – Eu arriscava a “sociolojar”, passando muito à superfície: da mesma maneira que hoje em dia não há público, porque só há artistas, no pós-25 de Abril, quem tinha a necessidade de transmitir ideologia tinha de se tornar artista, mesmo que não fosse. Agora, temos grandes nomes, e não estamos a falar nesses.

A Banda do Casaco sofreu algum revés por, nesses primeiros tempos quentes, não ser alinhada?
NR – Nós apresentámos o primeiro disco na editora Sassetti, que por piada a CNM depois comprou o espólio. Fomos mostrar o disco ao responsável na editora, que era o Pedro Osório. Estivemos lá a tarde e...
AP – Não sei precisar se foi nesse dia, se no seguinte, mas recebi um telefonema do Pedro Osório que foi mais ou menos isto: “vou-te pôr uma batata quente nas mãos... Gosto muito disto que está aqui escrito, mas a música não é grande coisa. Se quiseres eu faço a música para o trabalho”...
NR – Nunca falámos nisto... Esta é, de certa forma, uma resposta à pergunta. Ou seja, a música... não prestava. Não tinha nada a ver com a que se fazia cá, tinha-se de mudar.

Houve também textos críticos com alguma violência...
AP – Até na televisão nós éramos muito atrevidos na forma de nos apresentarmos.
NR – Estávamos a ser entrevistados e perguntaram-nos se não nos  incomodava fazermos passar a mensagem de sermos tão elitistas. E o António respondeu: “Ao estado competia criar escolas, a nós, fazer música, e talvez os tipos que andassem na escola pudessem aprender e gostar da música que nós fizéssemos”... É evidente que levámos uma grande cacetada do Mário Castrim.
AP – Lembro-me também dele ter escrito, sobre um programa de televisão onde entrámos: “mas estes rapazes são de esquerda, são de direita... não se definem”! Com uma grande preocupação. Isto porque dissemos no press release do primeiro disco, entre muitas coisas, algumas barbaridades, boas: “Que gostamos de achar bem quando se trata de achar bem, que gostamos de achar mal quando se trata de achar mal. E, infelizmente, hoje em dia, achamos mais mal que bem”...
NR – No press release dizíamos também que comungámos enquanto nos soube bem a bolacha, o que dava uma sensação de ser de esquerda. Mas mesmo em relação à minha família não percebiam bem qual era o posicionamento dominante... Os meus pais respeitavam muito o meu trabalho e gostavam do que fazia, mas perguntavam porque é que tínhamos de ser tão arrojados... As pessoas estavam a jantar e nós aparecíamos na televisão a catar “não há cu que não dê traque”...

E com os músicos da época, como se relacionavam?
NR – Relativamente mal, porque não nos percebiam. Lembro-me de um concerto, em 1977, na Aula Magna...
AP – Precisamente onde mostrámos o Hoje Há Conquilhas...
NR – Era um concerto com a Brigada Victor Jara, os Trovante e nós. Foi uma noite escaldante... A Né Ladeiras, que estava na Brigada Victor Jara (e veio depois para a Banda do Casaco), veio dizer-nos que parte da sala estava inflamada porque corria o boato que nós tínhamos acabado de chegar de Londres para gravar o hino do MIRN. Enviámos para o palco, primeiro, o Carlos Barreto. Pedimos-lhe que tocasse com o contrabaixo uma improvisação de uns dez minutos até toda a gente estar perfeitamente enraivecida.
AP – Não estávamos a fechar o espectáculo porque a organização achava que éramos os mais famosos. Eles prepararam o grande prato final que era o vamos massacrar estes tipos! Atirámos o Carlos Barreto. Estávamos todos nervosos porque era um apupo contínuo... A história está muito bem relatada no livro de memórias do Manuel Faria, dos Trovante. Aquilo era um urro tremendo. E fiz, à saloia, aquilo que, hoje, o cantor mais pimba faz num arraial popular: dirigi os apupos. Esquerda, direita, e de repente deixaram-se comandar...
NR – Começámos, depois, a tocar o Romance de Branca Flor, que começa connosco a bater palmas nas pernas... E alguém, na plateia, diz: “as palmas, seus fascistas, também são folclore?”... E o António salta para uma mesa e responde: “depende de quem as bate!”...
AP – Aquilo acalmou e começaram a gostar... Mas havia essa discussão estéril do se é ou não folclore... E perguntei se um penico de barro feito por um artesão do Minho é ou não folclore... Alguém responde que é. E eu respondo: “é, uma merda!”. Descambou... E, no fim, quando terminámos, queriam mais. Dissemos que não sabíamos tocar mais nada e que, então, fizessem como no Quando o Telefone Toca. Fizeram pedidos, e nós repetimos... Foi uma coisa de loucos!

O recurso à sátira no retrato das realidades poderá ter sido outro dos elementos causadores dessa estranheza?
AP – Presumo que sim, mas só tive a consciência disso mais tarde. Escrevíamos isto com enorme prazer, trocávamos ideias, divertíamo-nos imenso. Ainda hoje caio facilmente na tentação de satirizar, às vezes em excesso, reconheço. Mas é a minha maneira de ser. E o Nuno alinhou... Mas tratava-me bem.
NR – Sou menos extrovertido, mas gosto de humor. Quando participo nas letras é mais para a parte telúrica... Filosófica... Tentava compensar o “não há cu que não dê traque” e coisas assim. Via-me mais aflito a fazer música para versos muito provocatórios, que para coisas mais especulativas.
AP – E por vezes tinha de me socorrer de coisas em que a sátira passasse de uma forma levemente mais poética, e aí o Nuno fez obras geniais, como País: Portugal...

Essa canção, do álbum Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos, é um dos primeiros olhares sóbrios, distantes mesmo, do Portugal do pós-25 de Abril...
NR – Não foi preciso o distanciamento de 30 anos para poder falar sobre o passado.

O País: Portugal é a desconstrução do país pós-25 de Abril?
AP – É isso mesmo. É três anos depois, e 30 também...
NR – Dizemos, na capa desta reedição, que os royalties estão reservados para quem provar ser o seu proprietário. Nós somos os proprietários intelectuais. Quando dizemos, na capa, “que obscura guia de marcha terá tido o Património Cultural de empresas intervencionadas pelo estado e administrada por heróicos militares após o 25 de Abril?”... Eles desistiram...
AP – Houve na indústria um branqueamento que me doeu. Como é que se fizeram edições onde se misturou a Banda do Casaco com a Filarmónica Fraude?
NR – Há um branqueamento que não tem a ver só com a Banda do Casaco ou com a música portuguesa, e que tem a ver comigo e com o António. Um branqueamento que não é natural também em relação a mim como produtor. Em relação ao António Variações, por exemplo, estive dois anos para tentar saber o que era. E se o António Variações tivesse lançado o disco que já estava feito e para o qual eu só teria de ter dito que sim, ter-se-ia apresentado com o Jorge Machado. Era o que tinha feito... Aqui está um exemplo de branqueamento. O António seria eventualmente forte para vencer aquele lançamento, mas imagina o Morrissey a cantar em dueto com o Cliff Richard... No entanto, parece que só lancei aquele disco com que ele se apresenta depois. Mas na verdade foram dois anos, para tentar perceber o que era o tamborilar dos dedos dele...
AP – Nós tivemos sempre graus diferentes de incomodidade nas organizações onde trabalhámos.


Foram produtores e tiveram cargos importantes na indústria numa altura de vida activa da Banda do Casaco. Como geriam tudo isso?
AP – Dentro das editoras não sei se teríamos grande peso, pelo menos aos olhos dos patrões.

A Banda do Casaco, apesar do núcleo duro fixo, sempre foi uma identidade muito livre. Era este outro dos vossos motores de liberdade?
NR – Isso tem, por um lado, a ver com o aparecimento da Banda e da nossa vontade em fazer coisas novas. Depois alia-se também ao facto de sermos descobridores de talento e produtores. Na altura não havia agentes... E os produtores não se limitavam a ir para estúdio, porque tinham de tentar perceber qual era a direcção... Sem nos querermos afastar da história, aqui fica outra... O Valentim de Carvalho já não ia ao Festival da Canção há muitos anos, e havia uma vontade de voltar. Isto em finais dos anos 70. Apresentámos três propostas para irmos gravar a Espanha, com três projectos distintos: a Lara, a Gabriela Schaaf e a Concha. Não conheciam nenhuma delas e, das três, dissemos que duas delas certamente iriam... Não tínhamos músicas na gaveta e fizemo-las, cada qual, especificamente, para uma delas. Fizemos três receitas distintas... Isto para dizer que estávamos habituados a procurar timbres e maneiras diferentes de estar. Já tínhamos feito uma experiência com a Cândida Branca Flor na Banda do Casaco, que fazia parecer que ela nunca tinha estado num outro sítio. Mas não só tinha estado, como partiu, depois, para outras coisas. Na Banda do Casaco, como não tínhamos uma receita nem estávamos nunca à procura do follow up do disco anterior, precisávamos de encontrar pessoas que nos permitissem outro tipo de interpretação. O experimentalismo não dá para uma formação rígida. A Né Ladeiras, por exemplo, é uma voz de planície e não dava para cantar as coisas da Cândida Branca Flor. Tentávamos aproveitar o potencial e as características de cada pessoa.
AP – O núcleo duro éramos nós os dois, o Celso de Carvalho e o Nuno costuma juntar também a este trio o técnico, o José Fortes, que nos gravou. Era um músico imprescindível, embora não tocasse instrumento nenhum. Disciplinava-nos, de certa maneira. Hoje seria co-produtor.

O Hoje Há Conquilhas, por exemplo, sugere uma concepção cénica de sonoplastia...
AP – E esse é um sonho secreto do Nuno, o de ver um espectáculo encenado a partir daqui... É pena ser este um país onde as pessoas não pegam no trabalho dos outros. Não há continuidade...

Reconhecem descendências da Banda do Casaco em gerações posteriores de grupos ou músicos?
NR – Faça-se grande justiça ao Celso, porque levou muito bom músico a tocar violoncelo, porque percebeu que o instrumento podia ser solista. Geralmente o violoncelo fazia parte da orquestra e o Celso tirou-o de lá. E vemos isso nos Madredeus, mas são vestígios escassos...
A Sétima Legião também tem vestígios, até por gostos partilhados pelo Ricardo Camacho.
Mesmo em relação a Trovante não acredito que não tenha passado nada. As pessoas podiam não nos querer respeitar por sermos diferentes, mas existíamos e, mesmo sem atribuir grande valor a isso, nas listas dos melhores discos dos últimos dez anos nós e o Zeca Afonso tínhamos dois cada, o Zé Mário um e o Sérgio Godinho também um. Seria natural que qualquer grupo que ensaiasse pensasse porque é que estes tipos são diferentes?...
Espero que isto não pareça presunção.
AP – Não fazíamos de propósito, mas encenávamos um pouco as canções, e isso talvez complicasse a audição... Embora o Coisas do Arco da Velha tenha sido um sucesso de vendas. Era um disco mais de canções.
NR – Na história dos sete álbuns da Banda peguei no mesmo tema seis vezes e as pessoas não deram por isso. É espantoso.
AP – O Sufjan Stevens faz isso hoje em dia. Nunca é a mesma canção, mas pode lá estar mais vezes o mesmo tema... É perfeitamente legítimo.

A Banda do Casaco abordava também referências da música tradicional, não numa lógica de recolha, mas de transformação... E daí outras eventuais pontes com Trovante e Sétima Legião...
NR – Era mais um despertar para essas possibilidades...

Era fazer world music antes de se inventar a expressão?
AP – O Nuno faz o Canto de Amor e Trabalho, com uma letra original, para uma melodia original. Mas as pessoas podem ouvir aquilo e supor facilmente que pode ser um tema de tradição oral de uma região nortenha de Portugal. Capta o espírito. Pegar apenas na raiz folclórica e transpô-la houve muitos grupos a fazer... Depois houve umas experiências melhores, sobretudo no Norte. Mas lembro-me, depois do 25 de Abril, de dizer, acintosamente, que esses grupos pareciam ranchos folclóricos a tocar melhor e mais afinado.
Acho que temos uma tradição musical pobre em Portugal, com alguma excepção ou outra. E pegar apenas na raiz só... Não. Esfolávamo-nos para procurar coisas invulgares.
NR – As recolhas do Lopes Graça e Giacometti, foram muito importantes. Mas se soubesse música a sério, diria que está tudo por fazer. Não tivemos um Bartók...
AP – A música nordestina brasileira, coisas como o Mestre Ambrósio, toca em algumas coisas do Norte de Portugal, mas foi tratada de um modo difeente. Os brasileiros tiveram menos complexos de ser pop, como o Chico César... Em Portugal foram sempre muito a fotocópia da recolha...

Esta reedição devolve à vida um disco que até aqui só havia em vinil... Costuma falar-se neste como o melhor disco da Banda do Casaco...
AP – É-me difícil dizer qual... Este era o disco que dizíamos que era o nosso melhor. E talvez seja. Mas tinha problemas de som.
NR – É o único disco que está mais em esboço. Não foi terminado. Houve um fervilhão de ideias... Quase tentámos entrar pelo sinfónico com dois violinos...

De onde vem este título?
NR – Foi o único título que sugeri. Era uma ardósia num restaurante espanhol.

E de onde veio esta capa?
NR – A minha mãe tinha este grelhador e começámos a meter ovos... Foi imediato...
AP – Alguém disse que não íamos por conquilhas, que era demasiado óbvio, e sugeriu ovos, porque visualmente era mais forte. As letras, depois, são minhas.

Depois desta, podemos contar com mais reedições? Talvez uma integral?
NR – Estão a ser estabelecidos os contactos. Sete álbuns numa caixa, como os intermediários em Portugal ficam com fortunas, daria um preço inacreditável. Se fizermos vários digipacks com a possibilidade de os reunir numa caixa, com um livro... Vamos tentar.

Tocar estas músicas em palco?
AP – Falo por mim, tocar ao vivo, não faz o mínimo sentido. E penso que o Nuno estará de acordo comigo. Mas nessa caixa pôr alguma coisa faz parte do meu sonho. Há dias descobrimos que devemos ter cassetes, que devem estar completamente magnetizadas... Maquetes... Um desafio que não deixarei de fazer ao Nuno é poder gravá-las de forma simples. Guardo esses pedaços de letras... Gravar, não como aquele argumento de vendas que diz “com dois originais”. Nada disso!


O DISCO

Finalmente Há Conquilhas



Banda do Casaco
Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos
Companhia Nacional de Música
***** (5 estrelas – máximo)
Esta foi, durante anos, uma das obras-primas “perdidas” da música portuguesa, a redição em CD eventualmente impossibilitada pela inexistência de certezas sobre o paradeiro do espólio da editora Imavox (uma velha empresa do Estado). Quis a arte e a verdade histórica que a obra fosse mais urgente que essa geometria indescritível de destinos que empresas, como essa, tomaram depois da vida “normalizada”. E, acautelando a salvaguarda dos direitos a quem os merece, Nuno Rodrigues avançou com uma reedição. E que reedição! Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos não só é um dos mais importantes discos do Portugal musical de 70, como um caso à parte na discografia da Banda do Casaco. À parte, porque, por um lado, representa a sua obra mais próxima da ideia primordial que da eventual arte final que dela poderia ter evoluído. À parte, porque sintetiza conceitos (musicais e líricos) ensaiados nos dois primeiros álbuns e promove uma assimilação de colheitas feitas junto de heranças do Portugal (musical) profundo, com resultados mais pungentes que os que escutaríamos em discos posteriores.
A sátira incisiva nas palavras de António Pinho e as visionárias opções musicais de Nuno Rodrigues conhecem aqui um momento de afirmação superior, corajoso na desmontagem de um país onde criticar a recente revolução gerava erupções de intolerância. Este é um disco nascido de uma saudável inquietação não alinhada, onde além das ideias e palavras se ensaiava uma noção de world music antes mesmo do conceito ser inventado. Texturalmente fértil, cenográfico. Como poucos, um disco ácido, ousado, firme, verdadeiro. Haja conquilhas!
Nuno Galopim

OS OUTROS DISCOS

1975. “Dos Benefícios Dum Vendido No Reino Dos Bonifácios”
Um dos mais importantes discos de ruptura (e então mais “incómodos”) no Portugal de 70, revela uma linguagem diferente da que, politicamente alinhada, dominava os cenários do pós-revolução. A sátira é lei na palavra, aliando-se a uma música em busca de outros estímulos e novos destinos. Entre a banda militava então Carlos Zíngaro, que também assina a capa do álbum.



1976. “Contos do Arco Da Velha”
Considerado em alguns media da época como o “disco do ano”, é talvez o mais acessível dos álbuns da Banda do Casaco, talvez por ser o que mais vezes recorre à estrutura clássica da canção. Mesmo assim, um álbum de novas ideias, revelando a voz de Cândida Branca Flor. O seu Canto de Amor e Trabalho é um dos clássicos incontornáveis do Portugal de 70.



1978. “Contos da Barbearia”
O primeiro disco editado na Valentim de Carvalho (e agora o único sem reedição em CD), é como uma síntese das ideias ensaiadas nos anteriores, sublinhando sobretudo o interesse pela assimilação da música tradicional, num contexto instrumental no qual se destacava a presença de instrumentistas de jazz, como Carlos Zíngaro e Victor Mamede.



1980. No Jardim Da Celeste”
Novo álbum de ruptura, lançando demandas que levaram, pontualmente, a Banda do Casaco a explorar os terrenos do rock (com notáveis resultados em Natação Obrigatória ou Liliana Nibelunga). Né Ladeiras, depois de ter passado pela Brigada Victor Jara e Trovante, é a voz em maior evidência neste disco que, na bateria, apresenta Jerry Marrotta, da banda de Peter Gabriel.



1982. “Também Eu”
Primeiro álbum depois da saída de António Pinho, este é um disco claramente mais experimental, com uma considerável quantidade de temas instrumentais, os vocais frequentemente dominados por vocalizações. Na voz, Né Ladeiras é, pela primeira vez, a única presença. Do álbum surgiu o maior êxito de rádio da Banda do Casaco nos anos 80: Salve Maravilha.



1984. “Banda Do Casaco Com Ti Chitas”
No último álbum da Banda do Casaco, o reencontro mais presente com a música tradicional, em ousados híbridos entre a intensidade eléctrica do som da banda e a voz de Ti Chitas, uma pastora de Penha Garcia, ora em originais, ora em temas de origem popular, sobre novos arranjos. A edição em CD, de 1993, inclui um inédito expressamente composto para a ocasião.









14.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (151) - Pop-Clube #8


Pop-Clube
(Trap-Magazine)
Apartado 54 Almada
Director: Juvêncio Pires
Nº 8
Dezembro 76 / Janeiro 77

15$00

Director: Juvêncio A. Pires
Administrador: Luís Vieira
Propriedade: Juvêncio Pires e Luís Vieira
Chefe de Redacção: Carlos Lobo
Redacção: Rua Luís António Verney, 19 1º-Dto. - Cova da Piedade
Administração: Rua Dr. Julião de Campos, Nº 9 R/C, Almada

36 páginas A4 - papel fino um pouco brilhante p/b. A excepção é a capa que é de papel brilhante mais pesado e a cores.




AREA
Ao Vivo Na F.I.L.E A Boa Música Ao Serviço Do Povo
De entre os muitos artistas de renome internacional que participaram activamente na realização da grandiosa festa do Avante, saliente-se o grupo italiano - «AREA».
A sua actuação era aguardada com grande expectativa. Dadas as qualidades musicais por eles demonstradas através dos seus trabalhos em disco, colocando-os como um dos grandes na música rock contemporânea. Assim ansiava-se a todo o momento a chegada da hora prevista, mas eis que o tempo foi passando e os «AREA» não apareciam, enquanto um enorme coro de vozes gritava: «Area! Area! Area!...», e o palco permanecia vazio até que alguém veio esclarecer o imenso público sobre o que se passava. Foi então anunciado que era impossível a actuação dos «AREA» nesse dia (sábado dia 25 de Setembro). Devido ao facto de não ter havido tempo suficiente para transportar o material que os acompanhava, como também para o instalar devidamente em palco. Perante tal situação foi pedida a maior compreensão por parte do público, que apesar de tudo se manifestou decepcionado e desiludido. No entanto, no dia seguinte seriam dados dois espectáculos pelos «AREA» como estava programado. Diferindo apenas nos dias e os esclarecimento estava dado.
Parte do público que estava presente abandonou o recinto. Apesar de a festa ter continuado com outros artistas, mas a realidade é que os «AREA» eram a grande atracção para o público mais jovem que compareceu em massa a esta festa.
No dia seguinte, pouco antes do início da primeira actuação dos «AREA» marcada para as 15 horas, deparávamo-nos com um ambiente extenuante, onde milhares e milhares de pessoas vindas de todas as partes do país, enchiam por completo todo o recinto interior da F.I.L. e zonas exteriores de acesso às entradas, criando um clima pesado e tenso, quase irrespirável e intransitável, mas tudo decorria sem quaisquer problemas dentro dum sentido cívico digno de realce.
A hora desejada aproximava-se e o local onde se encontrava o palco, sobre o qual o grupo actuaria, estava repleto de gente de todas as idades, cuja participação na festa era transmitida por uma vivacidade, uma força, um sentimento de luta e uma unidade digna de um povo que quer libertar-se definitivamente das amarras da opressão e da exploração, sobre o palco podia-se ver todo o enorme conjunto de colunas, amplificadores, instrumentos musicais, microfones, fios, etc.... como uma amostra exterior e ao mesmo tempo a certeza de que os «AREA» iriam lá estar presentes.


Depois de uma breve apresentação sobre o grupo e a sua música, feita pela sua compatriota Io Apoloni, os elementos dos «AREA» entram em palco um por um, tomando as perspectivas posições junto dos seus instrumentos por entre as palmas e assobios, e o ruído ensurdecedor dos «AREA» em terras de Portugal.
Os instrumentos são afinados e em seguida dá-se início à sua exibição que, de exibicionismo nada teria, pois o grupo actuando como um todo homogéneo não punha em evidência qualquer um dos seus elementos. Não utilizava quaisquer artifícios comerciais para conquistar um público como a maior parte dos grupos rock fazem uso em festivais alienatórios e burgueses. Antes, demonstram sim a consciencialização de um trabalho positivo e válido dentro duma linha revolucionária, assente na plena liberdade de execução em que o rock progressivo da sua música é acentuado pelas palavras progressistas dos textos. Os «AREA» tentaram fazer desta nova música uma poderosa arma de luta, em prol das classes menos privilegiadas, que aqui correspondiam activamente com aplausos incansáveis que só por si demonstravam a sua extraordinária actuação, mesmo perante o insólito incidente surgido na bancada central - devido à elevada potência da música que provocou alguns distúrbios auditivos nos ouvidos de um assistente, o qual se exteriorizava através de gestos de dor, sendo alvo das atenções e de especulações da maior parte do público. Não quebraram no entanto a boa harmonia em que se desenrolava a actuação. Actuação em que a música do grupo é elaborada através da pesquisa de novos sons electrónicos com base essencialmente nos instrumentos de teclas (órgão, moog, sintetizador), reforçados pela guitarra eléctrica de P. Tofani que em «Setembro Negro» obtém solos magníficos e pela voz inconfundível do grego D. Slatos que por entre as mais variadas simulações vocais transmite-nos um sentimento de revolta, de dor, e de angústia de um povo oprimido, atingindo o seu mais alto valor em «Comgta» cantada em grego e dedicada a este povo.
A determinada altura os instrumentos param e D. Slatos com P. Farizgllo, põem-se a comer maçãs em frente aos microfones produzindo sons estranhos o que cria um ambiente invulgar e ao mesmo tempo interessante, mas o seu gesto posterior quer consistiu em partilhar estes frutos com o público, enviando-os para a assistência, exemplifica a sua tomada de posição, revelando um espírito de camaradagem e de solidariedade com o povo português. Ao terminar executaram um arranjo extraordinário da «Internacional» que teve o acompanhamento do público, sob um clima vivo e revolucionário, no auge de uma festa em que demonstraram a força que os une e ao mesmo tempo a solidariedade para com todos os povos oprimidos e para com o movimento internacionalista proletário.
Em resumo assistiu-se à presença de um grupo em que a sua qualidade musical e criatividade conseguem erguer uma estrutura musical servindo simultaneamente as necessidades e os objectivos tanto dos jovens como das massas trabalhadoras. O que é importante!!
Domingos Manuel Santana




Rock Alemão
Tangerine Dream
Este é um dos grupos que podemos considerar iniciadores do chamado «Rock Alemão».
As formas musicais por eles exploradas alguém chamou de espaciais ou cósmicas, decerto devido ao ambiente de misteriosa serenidade que compõem.
As influências principais destes músicos andam à volta dos trabalhos dos Pink Floyd, principalmente de «Ummagumma».
Os Tangerine Dream iniciaram-se em 1970 com a apresentação do álbum «Electronic Meditation». Nota-se neste primeiro trabalho uma procura de recursos musicais que os seus aparelhos electrónicos podem emitir em número quase infindável.
Nesta obra encontrámos Klaus Schultz que prefeiru uma carreira a solo, diga-se em verdade prometedora e convincente. Restou na formação dos T.D. os seus actuais elementos: Edgar Froese, Chris Franke e Peter Baumann.
O seu segundo trabalho foi «Alpha Centaury» saído em 1971 e a sua sonoridade base é idêntica ao anterior. O mesmo som planante apoiado em acordes harmoniosos mas pouco melódicos, o que torna difícil a sua audição.
O álbum seguinte foi um duplo de nome «Zeit» que ocupa uma faixa completa. O padrão musical é na essência o mesmo dos anteriores acetatos e do seguinte: Os efeitos sonoros, de maior ou menor evocação natural, de calma, suscita visões de sonho ao ouvinte atento. No ano seguinte, o de 1973, gravam «Atem» que termina esta fase de pesquisa musical e simples emissão sonora. É a partir daqui que nos aparece o álbum que chamou a atenção os T.D. - «Phaedra», em que a criação de melodia base, própria ao devaneio dos Moog Synthesizer perfeitamente dominados pelos executantes, torna-a admiravelmente agradável às primeiras audições.


Esta característica é aperfeiçoada e aumentada na produção do ano posterior - 1975.
Em «Rubycon», obra referida, as oportunidades concedidas aos Synthesizers e violas eléctricas «VCS3» até aí despercebidas, acentuam-se.
A criação de um ritmo bem compassado a apoiar a livre instrumentalização mantém um clima de paz interior e leveza espiritual que cativa o ouvinte menos receptivo a esta forma musical. Entretanto, chegou-se ao ano de 76 e, até aqui, os T.D. apenas possuíam obras de estúdio, aliás compreensível pois a produção destes sons ao vivo é tarefa muito difícil, exigindo um domínio perfeito das aparelhagens e uma compenetração bem apurada. Mas os T.D. iniciaram e levaram à prática uma gravação ao vivo já este ano. E curiosamente é um trabalho de excepcional técnica e grandeza musical.
Os T.D. puseram em palco o mesmo, ou melhor até, que tinham posto em estúdio. Nesta produção nota-se contudo a aproximação a uma som mais tradicional, a saliência do piano e por vezes da viola é maior que nos trabalhos anteriores. O álbum não se denomina «Line» mas sim «Ricochet» aludindo ao balanço sonoro conseguido, por vezes lembrando ecos e repercussões sonoras.
Desta escola musical podemos salientar Edgar Froese que pôs no mercado dois álbuns a solo. O primeiro é um trabalho experimental e que é limitado à produção de efeitos aquáticos essencialmente. Saído em 74, é um trabalho bastante curioso mas sem grande interesse musical. Tem o nome de «Aqua», simplesmente!
O segundo lançamento «Epsilon in Malaysan Pale» vindo a público este ano, é diferente em relação ao primeiro. Possui uma estrutura simples mas com situações de exuberante suavidade, uma melodia constante e muito bem harmonizada. Uma obra-prima dentro da música erudita que facilmente entrará no gosto dos mais sensíveis apreciadores da mesma.
Os Tangerine Dream, um dos grupos mais importantes dentro da música erudita, tem um largo horizonte a descobrir e mostrar a todos aqueles que a aceitem. E serão muitos!
José M. Abreu






Jimi Hendrix
O Homem, O Músico, O Mito
Local - Seattle, Washington.
Ano - 1942.
Lucille Hendrix, esposa de James Hendrix, dá à luz aquele que viria a ser um dos expoentes máximos da música americana contemporânea - James Marshall Hendrix, conhecido entre nós como Jimi Hendrix.
Passando grande parte da sua infância em Vancouver, onde frequentou a escola primária, James foi guiado nos primeiros passos musicais, por seu pai, organista na Dunlap Baptist Church.
Com doze anos de idade já Jimi James toca guitarra acústica, notando-se no adolescente, tendências para tocar com a mão esquerda.
Em Seattle Jimi frequenta a Garfield High School, embora nunca ponha a música de lado.
Em 1959, quando tinha 17 anos, Jimi convence o pai a assinar os papéis do alistamento militar voluntário.
Assim entra para a 101ª Divisão de Páraquedistas. Parte o pé e algumas costelas no seu 26º salto, sendo por isso afastado do serviço militar.
Entre 1963 e 1964, depois de uma longa convalescença, Jimi desloca-se ao sul da América fixando-se então em Nova York.
Em 1965 já tinha trabalhado com Ike e Tina Turner, Little Richard, Joey Deee, Jackie Wilson, James Brown, Wilson Pickett, B. B. King, The Isley Brother e Curtis Knight and the Squires.
É então que ele forma o seu próprio conjunto ao qual dá o nome de «The Blue Flames».
Em 1966 Jimi James aceita um lugar como principal guitarrista de John Hammond Jr., o que o levou a criar nome, mesmo entre a «elite» dos grandes músicos, a qual incluía Bob Dylan, The Beatles e The Animals.
Foi este lugar que o levou a ter uma visita fortuita de Bryan «Chas» Chandler, o baixo dos Animals, que depois de uma longa conversa o presenteou com um bilhete para Londres, algum dinheiro e a promessa de um encontro com Eric Clapton.
Alguns dias depois da partida do filho, o Sr. Hendrix, recebe um telefonema em que aquele lhe dizia que ia ser transformado numa super-estrela, e que a partir daí iria ser conhecido como Jimi Hendrix.
É em Londres que Jimi grava o seu primeiro álbum «Experience», que tendo o nome do conjunto formado por Jimi Hendrix nessa cidade, obteve grande êxito na Europa, principalmente com as canções «Hey Joe» e «Purple Haze».
Também nos E. U. o grupo não se manteria desconhecido, assim nos dias 16 e 18 de Junho de 1967, actua no Monterey Pop Festival. É aqui que pela primeira vez, Jimi se apercebe de tudo o que pode fazer com uma guitarra eléctrica.
Ainda em 1967 o grupo «Experience» fez uma tournée pelos E. U. com os «Monkees», o que não foi uma ideia brilhante, pois os fans dos «Monkees» não estavam preparados para a sensualidade selvagem da música de Jimi Hendrix.


Depois de 12 espectáculos, o grupo desiste da tournée e Jimi volta para Inglaterra onde a sua popularidade se mantinha.
Em 1968, com Buddy Miles na bateria e Bill Cox como baixo, Jimi forma outro conjunto: «The Band of Gypsys», tendo actuado no Filmore East em New York.
Em 1970 Jimi Hendrix atravessa um período de grande revalorização para a sua música:
Na Primavera e Verão fez várias tournées na companhia de Mitch Mitchel e Billy Cox, em Agosto tocou em Inglaterra no «Isle of Wight Festival», depois de ter estado acordado toda a noite com Eric Barrett para a abertura do seu próprio estúdio de gravação: Electric Lady Sutdios em Nova York.
Na Ilha de Wight a sua actuação foi bastante má, o que foi tomado como indicativo de depressão ou de declínio das suas habilidades.
Tentamos com esta pequena biografia dar vida àquilo que apelidámos de Jimi Hendrix - O Homem, O Músico, O Mito.
Quem foi Jimi Hendrix?
O que é que ele representava para as pessoas que trabalharam e viveram com ele? O que era para Jimi a música que ele tocava?
É a tudo isto que vamos tentar dar resposta nos próximos números.
Judite Cid






Cascais Jazz 76

1º Espectáculo
Sexta - 21,30
Com uma reduzida afluência de público esta primeira noite do Cascais-Jazz, revelou-se «fria» (o habitual), apesar do bom «naipe» de músicos. Com os Swing Machine, aliás experientes músicos, o ambiente não se modificou, a não ser na actuação «a solo» do baterista Sam Woodyard, que trouxe um toque de bateria, carregado dos melhores sentimentos de jazz. Com Swing Machine; Gérard Badini - saxofone tenor; Raymond Fol - piano; Michel Gandry - contrabaixo e Sam Woodyard - baterista, o público não reagiu.
Com Martial Solal, que veio substituir o grupo brasileiro Index de Marcos Resende, que à última hora cancelou o contrato, ressentiu-se fortemente a indiferença do público.
Com problemas técnicos, Gil Evans demonstrou uma virtuosidade pianística, mas a orquestra de que é leader, não se encontrava a si própria, pouco homogénea.
Com a onda de tédio que se tinha generalizado, a noite fria tornou o jazz frio.

2º Espectáculo
Sábado - 21,30
I - O Espectáculo
Passavam alguns minutos das 21,30 quando Luís Villas-Boas deu início à 2º sessão do VI Cascais-Jazz. O público ocupava quase por completo o pavilhão.
O programa compunha-se de Rao Kyao c/ trio, Betty Carter c/ seu trio e a completar a sessão actuaria o quinteto do saxofonista Sonny Rollins.
Embora o programa da 1ª sessão tenha sofrido algumas modificações este foi rigorosamente cumprido neste capítulo, já que na fase inicial a coisa não «andou» lá muito bem e já veremos porquê.
Rao Kyao com trio iniciou a sua actuação. Formavam o trio, António Pinho da Silva em piano acústico e eléctrico; Jean Sarbib em contrabaixo e George Brown - bateria. Rao no sax confirmou em absoluto a sua classe de músico conseguindo «solos» de muito boa qualidade e desenvolvendo magnificamente os temas. António Pinho da Silva teve bons apontamentos embora não demonstrasse aquela exuberância que tem de existir no som afro-americano. Sarbib teve uma participação discreta. Mas no tocante a George Brown tudo foi nau, revelando-se um bateria sem a menor capacidade de execução, não procurando acompanhar o trabalho dos seus companheiros, Brown parecia que estava a tocar só para ele quando o trabalho a realizar era de conjunto.
Este pormenor teve o condão não só de estragar a actuação de Rao como também provocar no público uma certa frieza que se veio a manter durante toda a sessão. Até onde iria Rao se tivesse tido músicos de qualidade a apoiar o seu esforço?
Seguiu-se depois um pequeno intervalo e foi a vez de surgir em cena Betty Carter acompanhada por: John Hicks - piano; Dennis Irwin - contrabaixo e Clifford Barbaro - bateria. A actuação de Betty fez com que parte do ambiente frio que existia no Pavilhão. Ela revelou uma capacidade interpretativa muito pessoal conseguindo expressar na sua voz todas as «nuances» existentes nos temas, chegando ao ponto de imitar o som de um instrumento. Ao contrário do primeiro grupo Betty contou com o apoio dos seus músicos os quais revelaram para além duma técnica de execução bastante apurada demonstraram uma perfeita ligação de esforços prova bem evidente de um trabalho seguido conscientemente pois só assim é que se poderá construir algo de positivo.
Pouco passava das o horas quando começou a actuação do prato forte da 2ª sessão deste VI Cascais-Jazz era ele: Sonny Rollins e o seu quinteto composto por: Michael Blieden Wolff - piano acústico e eléctrico; Aurell Ray - guitarra eléctrica; Donald C. Pate - contrabaixo; Fender e Edward Moore bateria.
E na verdade a expectativa não foi iludida Sonny Rollins em sax-tenor demonstrou em Cascais a sua inegável classe construindo temas e desenvolvendo-os magnificamente conseguindo efeitos de rara beleza, aqui o jazz a brotar límpida e objectivamente numa execução correcta. Um excelente trabalho dos restantes elementos com especial destaque para Edward Moore que na bateria foi excepcional.
O certo ar frio que durante a maior parte do concerto existiu, dissipou-se completamente com a actuação de Sonny o qual executou extra-programa um outro tema que foi bem a apoteose final desta 2ª sessão da 6ª edição do Festival Internacional de Jazz de Cascais o que de certo modo não deixou frustrada a molde imensa de público que se deslocou ao Pavilhão para ouvir o som afro-americano, que teve altos e baixos.
II - Nota À Margem
Cada Cascais-Jazz passa por ser uma luta contra tudo e todos e sobretudo denota a «teimosia» de Luís Villas-Boas em divulgar a música afro-americana em Portugal.
É certo, é normal e sobretudo humano que esta realização encerre algumas limitações, mas qual será a realização que não as tenha isto mesmo em países com melhores condições do que nós para se efectuarem acontecimentos do género.
Só é de lamentar que certas pessoas confundam (?) Música com snobismo e que aproveitem estas reuniões para dizerem aos amigos ou amigas que também no Jazz em Cascais e «que aquilo foi porreiro pá» quando efectivamente a  música que ouviam não lhes dizia nada. Aliás quando perguntamos a uma certa pessoa como estava a achar o festival, a resposta foi esta «sabem, eu não gosto de jazz»! É triste, não acham? Até quando continuarão a existir casos destes?
José Salvador





Música Portuguesa
Coordenação de: Artur Vaz

Banda do Casaco - Autobiografia
Começámos há pouco mais de dois anos e parecem passados dois séculos.
É o fruto que teremos de trincar pelo caminho que escolhemos, mesmo que seja verde o fruto.
De início logo se pressentiram as dificuldades, grupo formado para registar em disco grande uma obra previamente escrita: «Dos Benefícios Dum Vendido No Reino Dos Bonifácios».
Éramos de procedências tão diversas e distintas, cheios todos de boas intenções, o que nem sempre é tudo como é sabido.
Do Plexus vinham o Carlos Zíngaro, o Celso de Carvalho e o Nélson Portelinha.
Da Filarmónica Fraude, o Luís Linhares e o António Pinho.
Da Música Novarum, a Judo Brennam e o Nuno Rodrigues.
Da Gulbenkian, a Helena Afonso.
Da casa de seus pais, o José de Campos e Sousa.

 Muitos, fizémos muito num LP que nos agradou especialmente fazer. Um erro neste trabalho (entre outros que haverá por certo) reconhecemos agora ao olhar para trás: No excesso do gozo de realizar fomos levados - inconscientemente é facto - a formas de música e texto menos fáceis, mais «invulgares» no nosso nacional panorama de música popular, se acaso este existe.
Se por um lado, tal proporcionou à crítica palavras que nos agradou sobremaneira ler e ouvir, já no público, por outro, causou estranheza e distanciação que em nada beneficiaram a banda.
Um de nós disse uma vez sobre isto... «Dos Malefícios Dum Vendido No Reino Dos Bonifácios».
Junte-se ao exposto contra a posição marcadamente anti-partidária do grupo (como grupo), posição que, aliás, é princípio que se mantém e manterá enquanto a banda for do Casaco.
Tudo isto conduz à receita ideal para atingir o ponto mais alto no gráfico instituído das dificuldades caseiras.
Não há lamentos: Se assim quizemos, como poderia havê-los?
Há apenas pena, é pena que assim cá seja.
Mas teimosia era connosco e acreditámos. (Já é preciso ser-se teimoso para acreditar!...).
E as dificuldades pressentidas foram-se concretizando.
Alguns saíram, quase todos.
Luís Linhares forma o «Pedra e Cal» e grava.
Helena Afonso, além da Gulbenkian tinha agora aos «Segréis de Lisboa».
Nélson Portelinha, desaparece.
Carlos Zíngaro segue no Plexus e nos «Cómicos».
Judi Brennam regressa a Londres.
António Pinho e Nuno Rodrigues (excessivamente teimosos nos seus propósitos de acreditar), vão escrevendo, entretanto, novo álbum - «Coisa Do Arco Da Velha» - e voltam a perguntar-se: com que Banda?
Restavam eles, restava o Celso. José Campos e Sousa vagueava Europa adentro.
Apesar de tudo, com as preciosas ajudas de vários músicos, volta-se ao estúdio e o LP vai tomando forma.
É então que se encontrava nova constituição para o grupo.
António Pinho, Nuno Rodrigues, Celso de Carvalho.
Cândida Soares, surgida a cantar nos ensaios lá em casa.
Mena Amaro, vinda duma sinfónica qualquer coisa e sequiosa de fazer algo.
José Campos e Sousa, o bom filho a casa torna.
Armindo Neves, revelado excelente guitarrista tem passagem meteórica pelo grupo;
Aqui descoberto, daqui o levam para o «1111» onde o «Roque» proporcionará o vil metal.
E persistem sempre os problemas. Como actuar? Como estarmos «vivos»?
Sabemos que há que exigir de nós próprios condições técnicas que não defraudem seja quem for: nós, a música, o público.
Que aparelhagem? Que dinheiro? Que ajudas?
Dificuldades caseiras de quem não faz «Roques» ao fim-de-semana.
Até que tudo se resolva será preferível a Clausura por mais triste que a nossos olhos nos apareça.
Seguimos, sofrendo as consequências, mas como queremos, na desvantajosa viagem que margina a partidarite. Mas acreditar em nós próprios é já vantagem, como o é acreditar na saída que terá de haver. Caso contrário confirmar-se-á: a anti-cultura está instituída e estatuída.
Simplificámos os processos de trabalho, temas de maior acesso e adaptámos de tradicionais portugueses: desejo que vinha desde a Filarmónica Fraude à Música Novarum.
Não é, ainda (não será a nossa meta), um álbum fácil, mas, seguramente, estável e tal importa para que seja, ao menos, eficaz - mais próximo de quem ouve.
Como nos «Benefícios...» ficam nele respostas por dar. É intencional.
Competirá ao ouvinte «Compor» o que falta como se um jogo fosse.
E é-o de facto. A música popular terá de ser como um jogo onde todos participem: quem a faz, quem a divulga, quem a ouve, quem a critica.
Banda do Casaco





6.1.16

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (145) - Musicalíssimo #1


Musicalíssimo
Dezembro - 78
Preço 50$00
Nº 1




Director e Editor: Jacques C. Rodrigues
Chefe de Redacção: J. Afonso Costa
Fotógrafos: J. Marques, Abel Dias e A. Capela
Propriedade: Editorial Globo - Apartado 10 - Queluz

54 páginas A4 - papel de peso médio - páginas a cores e a p/b numa proporção de cerca de fifty-fifty.
Poster A3 (centrais), papel brilhante - Phil Collins


Banda do Casaco
Entrevista
Nuno Rodrigues e António Pinho. Eles são indiscutivelmente os «leaders» de um dos mais importantes grupos da música portuguesa dos últimos anos - a «Banda do Casaco».


Esta banda, com cerca de 4 anos de existência, já produziu 3 álbuns cujos títulos são (por ordem cronológica) «Dos Benefícios Dum Vendido no Reino dos Bonifácios», «Coisas do Arco da Velha» (que mereceu a classificação de melhor álbum de música portuguesa produzido durante 1976, classificação dada por um grupo de críticos de música ligados a jornais, rádio e televisão) e «Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos», que conquistou idêntico «galardão» também.
A banda tem pronto para sair, um novo álbum cujo título genérico é «Contos da Barbearia». Como eles vão dizer mais adiante «este novo álbum» é muito simplesmente a história de um indivíduo que como todos nós vai ao barbeiro, adormece, e como na história da «Alice no País das Maravilhas» passa para lá do espelho e sonha coisas diversas»...
O «gozo» do trabalho desenvolvido ao longo destes 4 anos, o novo disco, a música portuguesa, foram os temas duma longa conversa que tivémos com o Nuno Rodrigues e o António Pinho e que fica aqui reproduzida.
Uma conversa com a «Banda» por alturas de «Contos da Barbearia». «Banda» que continua teimosa nos seus propósitos de acreditar na música popular portuguesa. E como alguém da «Banda» disse um dia - «a música popular terá de ser um jogo onde todos participem - quem a faz, quem a divulga, quem a ouve, quem a critica...» Jogamos nessa...
M - O que há de concreto acerca do vosso novo álbum?
BC - Já gravámos um disco que deve sair durante o mês de Outubro. Será o 4º álbum da «Banda do Casaco».
M - Isso quer dizer que a «Banda» ainda existe?
BC - Nunca deixou de existir.
M - Quem constitui a «Banda do Casaco» neste momento ou se preferires, quem participa neste novo trabalho de estúdio?
BC - António Pinho, o Nuno Rodrigues, o Celso de Carvalho, a Mena Amaro e o Tó Pinheiro da Silva. Portanto pessoas que participaram noutros discos.
M - E os outros elementos que participaram em discos anteriores?
BC - Esses elementos saíram... como as pessoas saem dos empregos. Não há incompatibilidades, no caso da «Banda», mas como as pessoas têm outras actividades e o grupo não lhes pode proporcionar uma permanência fixa é natural que algumas saiam.
M - Chegou a falar-se da formação de um grupo, que para além dos álbuns estava na disposição de orientar o seu trabalho para outros campos, como por exemplo a organização de espectáculos regulares?
BC - É evidente que nós estávamos cheios de boa vontade, fizémos ainda alguns espectáculos e demos provas de ser capazes. Mas desistimos porque, como temos afirmado noutras ocasiões, é preciso um grande «staff» de material, que nós não temos hipóteses de ter, e portanto preferimos, de momento, suspender esses projectos. Isto não quer dizer que seja um projecto abandonado definitivamente; o que acontece é que de momento não temos hipóteses de fazer concertos amplificados condignamente. Nós fizemos esta experiência 4 ou 5 vezes e resultou muito satisfatoriamente para nós e para as pessoas. Sucede que isso era uma coisa diabólica. Por exemplo, fomos tocar uma vez ao pé de Aveiro, o «cachet» era bom, mas desse «cachet» cada um de nós ganhou apenas 1200$00, porque tivemos de alugar aparelhagem a um grupo de rock, o que nos custou os olhos da cara...
M - Portanto só podemos contar com a «Banda» a nível de registos em estúdio?
BC - É evidente que ainda que cheguemos à conclusão de que não faremos mais espectáculos, continuaremos pelo menos a fazer discos, o que já não é mau num país onde há muita gente a fazer espectáculos e maus discos... Portanto dos discos não desistiremos tão depressa.


M - Daí a saída próxima dum novo álbum?
BC - Exacto. O nosso 4º ábum chama-se «Contos da Barbearia» e é uma série de contos desligados uns dos outros e têm como elo comum o facto de começarem com uma historieta que se chama «Na cadeira do barbeiro», que é muito simplesmente a história de um indivíduo que como todos nós vai ao barbeiro, adormece, e como na história da «Alice nos País das Maravilhas» passa para lá do espelho e sonha coisas diversas que vão constituir o disco. Portanto histórias perfeitamente desligadas umas das outras mas à que demos o título genérico de «Contos da Barbearia». Digamos que este disco é a continuação mais ou menos lógica do «Coisas do Arco da Velha». Provavelmente este disco deveria ter sido o 3º e as «Conquilhas» o 4º. Será portanto natural que no futuro disco (o do ano que vem) retomemos o esquema das «Conquilhas». Aliás acho que um dos aspectos curiosos da «Banda» é que ao ouvirmos os trabalhos que foram feitos já há 4 anos eles continuam perfeitamente actuais.
M - A continuidade deste novo disco em relação ao «Coisas do Arco da Velha», com o «Hoje Há Conquilhas...», pelo meio, terá implicações a nível musical; terá implicações na vossa maneira de fazer as coisas; de compor?
BC - Posso adiantar que vocês vão encontrar neste novo disco uma coisa que se chama «Godofredo cheio de medo» que vai sugerir, embora sendo diferente na linguagem de texto e musical, o «Virgolino faz o pino», ou seja, a descrição de um personagem típico. Vão ter um romance tradicional cantado em Mirandez, que poderá ser o paralelo em relação ao «Romance de Branca Flor», etc....
M - Como vocês sabem a maior parte da crítica e toda a gente que ouviu bem os vossos dois últimos álbuns, fizeram referências ao «Coisas do Arco da Velha» em relação ao «Hoje Há Conquilhas...», como um disco com um som muito mais apreensível, sendo este último um trabalho muito mais amadurecido, de mais difícil assimilação. Este o que é que vai ser?
BC - Digamos que é o retomar do caminho do «Coisas do Arco da Velha» dois anos depois. Não há grandes pormenores de facilidade, mas há um esquema que lembra este nosso álbum. De qualquer forma passaram-se dois anos e as pessoas evoluem.
M - Tu Nuno, continuas a inspirar-te nos tradicionais?
BC - Continuo; se bem que pelo facto de termos pesquisado durante bastante tempo e de termos estudado as nossas características etnográficas, agora começam a surgir temas com essas características populares de forma espontânea. Chegámos portanto a uma altura em que pelo facto de estarmos a pesquisar os instrumentos populares e as próprias melodias as coisas acontecem espontaneamente. Neste álbum acontece uma coisa curiosa. Aparecem canções com música minha e texto baseado ou inspirado em temas tradicionais e da autoria do António Pinho; aparece o inverso e aparecem ainda temas completamente originais mas que têm já um sabor tradicional.


M - Uma constante do vosso trabalho é a pesquisa. Há alguma novidade neste novo álbum por exemplo em relação a instrumentos tradicionais ou formas musicais?
BC - Não. Em relação a instrumentos populares não aparece nada de novo, excepto o bombarda que não é propriamente um instrumento tradicional português mas mais bretão. Mas como há afinidades muito grandes, pelo menos nós temo-las descoberto, entre o nosso folclore e aquilo que se faz na Bretanha e na Galiza, nós vamos usar este instrumento que aliás é muito idêntico à gaita de foles na sua sonoridade. Exceptuando este pormenor não há grandes novidades a nível instrumental no novo álbum da «Banda». Usamos também uma cítara indiana na introdução de um dos temas, porque é uma fábula que se chama «Retrato de homenzinho pequenino com frasco». E não nos repugna nada meter ou utilizar instrumentos de culturas completamente distintas da nossa. Achamos que o importante é a forma como esses instrumentos são utilizados.
M - Será legítimo falar de fases distintas em relação ao trabalho que vocês desenvolveram em disco até agora?
BC - Os trabalhos feitos até agora são completamente distintos uns dos outros. O 1º é-o totalmente do 2º e este do terceiro. Talvez que o próximo álbum seja mais um trabalho de ligação. Os álbuns anteriores foram de pesquisa sonora, de forma de expressão. Este talvez seja o não nos atirarmos para outros voos e comentarmos um pouco mais as descobertas feitas nas etapas anteriores, ou seja nos anteriores álbuns, se bem que se possa considerar que alguns temas de «Hoje Há Conquilhas...», eram do «Hoje Há Conquilhas...», eram temas mais de vanguarda do que aquilo que estamos a fazer agora. Aliás este aspecto poderá vir a tornar-se polémico ou seja, até que ponto é menos na sua escalada! Há um outro aspecto que importa realçar que é o de entretanto terem aparecido outros grupos a tratar a música popular portuguesa. Se não estamos em erro só pouco tempo depois do aparecimento da «Banda» surgiu o GAC e agora existem vários grupos a trabalhar a nossa música tradicional. Havendo já uma série de escolas, de tendências, de trabalhar a música portuguesa, a nós dá-nos um certo prazer continuar a trabalhá-la de maneiras diferentes e descobrir novas formas.
M - Para além dos nomes já indicados há mais gente a colaborar neste novo álbum?
BC - Exactamente. Por exemplo o Armindo Neves (guitarra), o Carlos Zíngaro, o Zé Eduardo que nunca tinha trabalhado connosco e fez baixo-eléctrico, o Rui Reis (piano e órgão) e o Victor Mamede (bateria). E parece que não esquecemos ninguém.
M - E a nível de vocais?
BC - A esse nível não há novidades. É evidente que não houve preocupação de lançar pessoas através da «Banda». Parece que a «Banda» é que tem servido a várias pessoas para se lançarem. Isto não é uma crítica mas apenas uma observação. Neste LP não aparece nenhuma Cândida Branca-Flor ou Gabriela Shaaaf. Utilizámos como coro umas pessoas com quem estamos a trabalhar agora num álbum de música tradicional portuguesa, recolhas totalmente puras. É um grupo que estava ligado à Juventude Musical Portuguesa mas que vai ter um nome próprio e que verá o seu 1º álbum lançado no início do próximo ano.
M - «Benefícios...», «Coisas do...» e «Hoje Há Conquilhas...» são os álbuns editados até agora e que fizeram chegar até ao público o vosso trabalho desenvolvido ao longo de alguns anos, trabalho de pesquisa e tratamento da música tradicional portuguesa. Naturalmente a receptividade desse mesmo público foi diferente de álbum para álbum. Qual terá sido o mais bem aceite?
BC - O segundo foi o que vendeu mais e isso é um indicador. O 1º vendeu pouco, talvez porque foi o 1º. O 2º, talvez por ser o 2º ou pelas suas características, ou ainda por ter passado mais na rádio, foi aquele êxito de vendas. O 3º, por deficiências de promoção, porque já era mais difícil ou mais de vanguarda não foi um grande êxito mas apesar de tudo vendeu-se bem. Pelo menos no nosso entender!
M - Este é o vosso 4º álbum e a vossa 3ª editora. Até que ponto é que este pormenor pode ter tido influência no aspecto criativo dos elementos da «Banda» enquanto músicos? O facto de vocês poderem contar com mais ou com menos da editora não tem qualquer influência no produto final apresentado?
BC - Feito o balanço das editoras por onde passámos e aquela onde estamos, pode-se dizer que temos vindo a subir uma escada nas condições que nos são oferecidas para gravar os discos. De qualquer modo queremos salientar que não tem surgido qualquer tipo de limitação com a mudança de editora, nem essas mudanças nos têm condicionado para um tipo de reportório mais fácil ou mais difícil. Não há condicionantes de qualquer espécie. A única vez que tivemos de mostrar à editora aquilo que se pretendia fazer em disco (o que é perfeitamente natural), e nós numa situação de produtores sentimo-nos na obrigação de exigir isso das pessoas novas que apareçam, foi apresentar uma estrutura, uma maquete daquilo que se iria fazer no primeiro disco. Uma editora não aposta num LP duma coisa nova, sem saber o que é que se vai passar. A partir daí não houve uma editora que nos dissesse «Eu quero ver o que é que se vai fazer». E isto não será uma excepção connosco. Estas mudanças sucedem-se por diversos factores. Até pela mudança da nossa vida. Nós antes éramos «out-siders» da música e em determinada altura assentámos arraiais.
M - Voltando ao vosso novo álbum. Mias algum pormenor de relevo?
BC - Para nós o facto mais importante é que ele é uma súmula do que foi o passado da «Banda do Casaco» no aspecto de conhecimentos. Não demos outro salto para a frente, porque se todos os anos esse salto fosse dado havia qualquer coisa que não estava a funcionar bem. Se é verdade que apareceram vários grupos tratando a música portuguesa, pensamos que ainda não há nenhum que se identifique com a linha seguida pela «Banda». É provável que quando outros grupos começarem a trabalhar, duma maneira mais ou menos idêntica à nossa, a música portuguesa, a «Banda», dê mais um salto em frente.
M - E vocês pensam que isso possa vir a acontecer, a curto ou mesmo a médio prazo? Que apareçam portanto vários grupos tratando a música portuguesa duma forma semelhante à vossa?
BC - Pelo menos até agora, a forma como se tem estado a trabalhar a música portuguesa compreende algumas variantes. Há grupos que estão a fazer a pesquisa e a apresentar os temas da mesma maneira como os foram encontrar. Há grupos que seguem o mesmo esquema, mas ao nível de textos imprimem-lhe um cunho político-partidário. Será uma sequência natural e lógica que se comece a tratar a música popular de várias formas. A este respeito há um aspecto que queria salientar. Como no nosso país não temos um cancioneiro-geral, é muito difícil encontrarmos as fontes. É natural que daqui a dois ou três anos vários grupos estejam a tratar os mesmos temas, precisamente porque não há tantos temas como isso. Desta forma parece-me que estamos a caminhar para um ponto em que haverá tratamentos mais ou menos idênticos.
M - Vamos pensar que apareciam vários grupos tratando a música popular portuguesa. Vocês acreditam que todos esses grupos tinham possibilidade de sobreviver, de se manter a trabalhar a sério, sem o incentivo que é a gravação de um disco, considerada a eternização do trabalho desenvolvido, muitas vezes um trabalho árduo...
BC - ... Desculpa interromper, mas não estou de acordo, até porque os grupos que são conhecidos e que estão a trabalhar a música tradicional estão todos a ser postos em disco. Dá-me a sensação é que se esses grupos não evoluírem na forma de tratar essa música, então poder-se-á cair numa situação de apatia. Não se pode eternamente tratar as coisas ficando pela recolha pura, pondo o acordeão, a guitarra braguesa ou o adufe e mais nada. Há que evoluir dentro disso e essa é a nossa preocupação de facto. É evidente que temos uma canção tratada só com adufes, castanholas, um violoncelo e pouco mais, portanto quase no estado puro, como nós a apreendemos na origem. Achamos é que não se deve ficar por aí criando uma outra sonoridade para se fugir a essa apatia. Nota que nós, encontramos no nosso país os mesmos temas tratados de maneira diferente, de aldeia para aldeia, por vezes bem perto uma da outra. Acontece nestes casos que um tema foi assimilado pela cultura própria duma determinada aldeia duma maneira específica. Se havia naquela aldeia um indivíduo que tocava por exemplo bandolim, esse tema começava a ser interpretado com o bandolim, enquanto noutra aldeia era só cantado e com adufes. Ainda noutra aldeia (a 50 ou 70 km) o mesmo tema podia passar a ter outros instrumentos. Ora nós estamos em Lisboa, estamos no século XX, e temos portanto possibilidades de dispor de determinados instrumentos.
M - Isso é a velha discussão entre os puristas da folk e os modernistas, e sobre a qual se continuará sempre a dizer o mesmo. Uns dizem que sim, outros dizem que não...
BC - ... Resta saber é se às vezes a capa de purista não serve pura e simplesmente para encobrir incapacidades. De facto, muitas vezes, e por aquilo que nos é dado ouvir é essa a conclusão a que chegamos.



M - A existência de vários grupos tratando a música portuguesa pressupõe naturalmente a existência de muitos músicos. Na vossa opinião, existem neste país músicos para garantir o mínimo de qualidade ao trabalho desenvolvido por esses grupos que poderão vir a aparecer?
BC - Aí é que me parece que a situação é mais difícil. Parece-me que haveria músicos mas é preciso uma grande dose de «carolice», de trabalho e de dedicação à música para funcionar como nós funcionamos. Todos nós sabemos que lá fora os intérpretes, os grupos, etc.... não começam em disco mas sim por espectáculos. Cá em Portugal acontece normalmente o contrário. Começa-se pelo disco e raramente se fazem espectáculos. Ora, enquanto não houver condições para se fazerem espectáculos, é difícil surgirem os tais novos valores e por outro lado empurram-se as editoras para o papel ingrato de investirem um pouco às escuras. Parece-nos que para além do pôr o fado ao vivo, ou a balada, ou ainda por exemplo os «cantos livres», as coisas tornam-se mais complicadas. Também será mais ou menos fácil a um grupo coral que cante música tradicional portuguesa e não necessita de grandes meios de amplificação, bastar-se numa sala. No nosso caso, se calhar escolhemos o caminho mais difícil, e temos esse drama que é misturar num palco um violino, uma guitarra acústica, uma guitarra eléctrica, um órgão se necessário, uma bateria em determinada altura, etc. Portanto uma miscelânea de instrumentos acústicos com eléctricos, que exigem requisitos técnicos que custam fortunas.
M - De qualquer modo temos tido a oportunidade de assistir a alguns concertos de rock feito por músicos portugueses...
BC - Isso tem sido verdade nos últimos anos, mas atenção! A maior parte deles angariaram os fundos necessários para comprar a aparelhagem sofisticada que é necessária, muitas vezes indo por essas terras fora tocando em bailes os Cha-Cha-Chas, sambas, tangos e «carnavais», antes de poderem tocar as suas coisas em concertos. A maior parte desses grupos tiveram que passar por uma fase crítica, fazendo muita porcaria, para conseguirem chegar ao ponto em que se encontram neste momento.
M - Vocês pensam que a Televisão e a Rádio poderiam dar uma ajuda nesse aspecto, organizando concertos, mesmo em estúdio, onde fosse possível apresentar os grupos portugueses que existem, ou mesmo novos grupos?
BC - Em relação à Televisão, não sei quais são os seus planos futuros. No entanto parece-me que continua a passar pelas coisas. De facto os magazines são importantes como noticiários, mas depois passa superficialmente pelas coisas. Por exemplo a TV vai filmar os Festivais de Jazz de Cascais. Sim senhor, está no seu direito e na sua obrigação, mas há bons concertos de rock feitos por grupos portugueses e que não são aproveitados, e aí dá-me a sensação que é uma falha da televisão. Em relação à rádio, pois se neste momento tu estivesses a formular um convite para fazer um concerto em estúdio eu diria «Estamos interessados, vamos a isso», mas a médio prazo. Uma vez que estamos nesta situação de não fazer espectáculos, não ensaiamos tanto como ensaiaríamos se estivéssemos a funcionar em pleno ao vivo. Mas parece-me que era um passo importante a dar.
Entrevista conduzida por
João Filipe Barbosa
e Fernando Quinas








Van Der Graaf
O Fim De Um Ciclo

 
Na Universidade de Manchester, em 1967, cinco amigos resolvem formar um grupo - Keith Ellis, Peter Hammill, Hugh Banton, Guy Evans e Chris Judge Smith. Este último, foi quem deu o nome ao grupo mas pouco mais fez, já que passado pouco tempo o abandonaria. E pouco tempo depois, ainda sem terem gravado qualquer trabalho, dava-se a primeira dissolução dos V.D.G.G.
Peter Hammill continuou a trabalhar a solo, intensamente, aparecendo constantemente em pequenos espectáculos, cumprindo alguns compromissos que o grupo efectuara. No final de 1968, P.H., tem já uma proposta elaborada para um álbum, que é aceite. Durante as sessões de gravação, vão aparecendo todos os músicos, à excepção de Smith, que compunham os Van Der Graaf Generator, e que servirá de pretexto para a reformação do grupo. Assim, é editado, ainda em 1968, «Aerosol Grey Machine», primeiro álbum dos Van Der Graaf Generator.
Não passava ainda um ano sobre a data do lançamento do primeiro álbum e já o grupo sofrera novas alterações. Keith Ellis (baixo) abandona o grupo, entrando para o seu lugar Nic Potter. Nessa altura ingressa também um novo membro, Dave Jackson, que vem acrescentar ao grupo novas sonoridades com saxes e flautas. E é com esta formação que são gravados os dois seguintes álbuns, «The Last We Can Do Is Wave To Each Other», e «H to He I'm The Only One».
«H To He...» é um álbum que marca importantes mudanças no som do grupo. Peter Hammill, exímio guitarrista acústico, recusava o som da guitarra eléctrica nos álbuns do grupo. Neste álbum, esse som aparece pela primeira vez, no entanto não pela mão de Hammill mas por um amigo, nessa época um ilustre desconhecido que começava a chamar a atenção, e hoje mais que famoso, Robert Fripp.
Em «Pawn Hearts» Nic Potter já não aparece: - havia abandonado o grupo ainda durante as gravações do álbum anterior. O disco conta com a participação de Fripp nalgumas passagens, como artista convidado - o único na vida do grupo até hoje.


«Pawn Hearts», editado em 1971, marca também o fim do segundo ciclo da vida do Van Der Graaf Generator e o início da carreira a solo de Hammill.
Assim, ainda no decorrer de 1971, é editado «Fools Mate» sob o nome de Peter Hammill, e onde vamos encontrar de novo os V.D.G.G., a tocarem com ele. E é esta situação, com pequenas alterações, que se vai verificar nos quatro álbuns seguintes, «Chameleon In The Shadow Of Night», «The Silent Corner In An Empty Stage», «In Camera» e «Nadir«s Big Chance». *
«Nadir's Big Chance» é o apogeu da sua carreira como solista. É uma sátira Rock ao Rock, através da história de uma fictícia Pop-Star. Este álbum anteced a reestruturação do grupo, que irá produzir três novos trabalhos, com Peter Hammill nas guitarras e voz, Hugh Banton nos teclados, Guy Evans na bateria e percussão e David Jackson no sax e flautas. Este é o único período cujos álbuns são possíveis de se encontrarem no nosso país.
«God Bluff», «Still Life» e «World Record» não são três obras díspares mas formam uma autêntica trilogia, dinâmica e evolutiva. Um período de enorme riqueza criativa de Hammill. Musicalmente, o grupo expande-se para além de fronteiras inimagináveis, tornando-se definitivamente, quanto a mim, no mais extraordinário grupo musical dos nossos dias. Após os climas acústicos, tão ao gosto de Hammill nos primeiros tempos da existência do grupo, os Graaf passam a utilizar os mais sofisticados meios tecnológicos ao seu alcance, utilizados cada vez, maior insistência, dominando-os e manipulando-os de uma forma tão original quanto subtil. Geram climas emocionais intensíssimos, arrazantes. Uma música incrivelmente elaborada, trabalhada e desenvolvida; tão irreal por fora quanto real por dentro; fluxos sonoros que se sucedem numa cadência delirante, deixando-nos perfeitamente extasiados. Por vezes solene e grandiosa, outras, duma simplicidade e pureza notáveis. E Peter Hammill é um poeta, um verdadeiro poeta em toda a acepção da palavra. Místico, gnóstico, biófilo, desencantado, lúcido, angustiosamente lúcido. Crítico feroz, mesmo sarcástico por vezes. Ficcionista. Simbolista. Apaixonado.


Peter Hammill canta com tanta paixão e devoção, como se desse acto dependesse a sua vida. A sua voz, de dicção pura e cristalina, extraordinariamente melodiosa, é trabalhada na perfeição, muitas vezes dobrada em vários tons. Tanto pode expressar júbilo como desespero. Torna-se áspera quando necessário e suave quando lhe é exigido. Um ligeiro sussurro, quase inaudível e calmo, transforma-se num imenso grito de angústia, lancinante e dilacerante. Uma voz cristalina como uma gota de água, vigorosa como a terra, abrasadora como o fogo. Variando entre nuances de enorme beleza, é fascinante a projecção alcançada, sempre com a exacta expressividade.
Em 1977, Jackson e Banton abandonam o grupo, sendo substituídos por Nic Potter, que regressa ao grupo, e pelo violinista, ex-String Driven Thing, Graham Smith. Já com a nova formação grava Peter Hammill novo trabalho a solo, «Over». Um trabalho intimista, que é como uma reflexão, uma breve paragem, a busca de um sentido desaparecido. Um dos mais belos trabalhos de Hammill, tanto no aspecto musical como literário. Infelizmente não foi publicado no nosso país.


Pouco tempo depois grava novo álbum dos Van Der Graaf (agora sem Generator), «The Quiet Zone / The Pleasure Dome», que trás grandes alterações a nível estrutural e sonoro. O regresso de Nic Potter dá uma maior liberdade de movimentos a Guy Evans, impondo simultaneamente uma marcação mais forte e cerrada. Mas a grande novidade sonora é-nos dada através do violino de Graham Smith. O violino é um instrumento de enorme versatilidade, muito mais que o sax, deixando a Hammill uma maior amplitude de escolha de estruturas rítmicas e melódicas. O violino vem tomar um lugar de destaque, quer em solos, quer como suporte de todos os desenvolvimentos e discursos musicais. Os temas ganham uma nova flexibilidade. Dão-se frequentes mudanças rítmicas em cada tema, chegando mesmo por vezes a uma mudança radical do tempo, dando-lhes um novo dinamismo e vigor. A música ganha novos contrastes e uma maior unidade.
Era a entrada do grupo numa nova era. Infelizmente, hoje sabemos que efémera. Os Van Der Graaf desapareceram mais uma vez. Deixam um vazio que ninguém jamais poderá preencher até um novo regresso!?1
Mas Peter Hammill não ficou parado. Na altura em que a notícia do fim do grupo foi dada, acabava de gravar novo álbum-solo «Future Now».
«Future Now», como não podia deixar de ser, é um álbum fabuloso, que se segue a linha (se é que se pode chamar «linha» à evolução constante do grupo por caminhos tão pouco esperados como surpreendentes), iniciada em «Over».
Van Der Graaf, o mais espantoso grupo rock, voltará de novo um dia, quando ninguém esperar. Ficam-nos as obras a solo de Hammill, não menos espantosas. E esperemos que Peter Hammill passe a aparecer regularmente no nosso mercado discográfico. Pode ser que lá pelo Natal, como presente, a Polygram portuguesa edite «Future Now».
Van Der Graaf, patético. A emoção de se estar vivo.

G.T.

* No ano de 1974 a «família» Van Der Graaf Generator publicou um trabalho, que segundo informações que possuo somente foi editado em Itália e cujo título genérico é «The Long Hello». Um álbum totalmente instrumental em que participam David Jackson, Guy Evans, Nic Potter, e Hugh Banton. Curiosamente o próprio Peter Hammill aparece sob o nome de Pietro Messina, executando guitarras acústica e eléctrica e piano. O álbum regista ainda a participação dum tal Ced Curtis. Edição do LP na etiqueta United Artists.




O Rock Português
BEATNICKS



«Musicalíssimo» divulgará em todos os números nomes que constituem o panorama rock português, que por mais que certos detractores queiram evitar, existe mesmo e em força.
Para iniciar esta secção, que incluirá num futuro próximo também entrevistas com músicos rock portugueses, seus problemas e demais assuntos ligados com o movimento rock em Portugal, nada melhor que começar com os Beatnicks, que acabam de ver lançado no mercado discográfico português o seu primeiro trabalho em single, um trabalho bem esquematizado e promissor, que nos alerta para futuros discos e nos dá a consoladora certeza de em Portugal ser possível fazer rock do bom, e sobretudo apoiado por textos em português!
Os Beatnicks são actualmente: Jorge Casanova (guitarra-solo), Luís Araújo (bateria), António Emiliano (teclas), Ramiro Martins (guitarra-baixo) e António «Stratos» Leal (vos), e têm como não poderia deixar de ser uma história para contar: Reuniram-se há cerca de três anos Jorge Casanova e Ramiro Martins (que havia integrado uma formação mais antiga do grupo) e resolveram começar a tocar os dois. O «genesis» aconteceu numa peça de teatro cujo título era «Viagem à Íris».
Entretanto o nome Beatnicks, havia sido escolhido, uma vez que Ramiro tinha tocado nesse mesmo grupo e logicamente isso ajudaria imenso, por ser um nome já conceituado, que disfrutava inclusivamente de certo prestígio no meio musical português. Aliás, Ramiro é neste momento o único «sobrevivente» da formação original.
Sobre as influências que se evidenciam na música praticada pelos Beatnicks, Casanova acha que o grupo tem forçosamente que sofrer certas influências por tudo aquilo que os membros ouvem, porque é praticamente impossível uma pessoa alhear-se de várias coisas, nomeadamente pelo facto de toda a gente ouvir rádio todos os dias!
Sobre aquilo que para certos músicos é extremamente difícil - cantar em português - o grupo tem as suas próprias convicções e é de opinião, que se os habituais ouvintes da sua música são portugueses, a maneira mais eficaz e correcta de se expressarem será em língua portuguesa! O grupo afirma mesmo: - «As pessoas em Portugal tem a mania de que aqui nunca nada é bom, lá fora é que é! Mas nós, não pensamos do mesmo modo: - temos uma língua própria, devemos cantar nessa língua, até porque assim é muito mais fácil fazê-las sentir o que queremos dizer!». Todavia o grupo faz questão de frizar que este sentir, é apenas uma opção do grupo, e não uma dificuldade de «fabricar» as letras em inglês.
O responsável pelas líricas dos Beatnicks é Jorge Casanova; a música vem na continuação. Quando um trecho tem letra, o que nem sempre acontece, ou quando acontece ter só música, ou até ter só voz, Jorge Casanova faz o que falta, completando posteriormente o grupo os arranjos, que são feitos em conjunto.
Para já os Beatnicks ensaiam numa sala instalada num andar, em relação ao qual o senhorio impôs terminantes condições: - só poderiam ensaiar ali, se conseguissem isolar acusticamente o local. O isolamento foi feito - até porque se isso não se verificasse o grupo ficava de repente sem sítio para poder ensaiar-se - e assim, pouco a pouco, nasceu o estúdio onde o quinteto ensaia hoje em dia, produzindo rock, que a avaliar pela amostra contida no trabalho discográfico de lançamento - «Somos o Mar» e «Jardim Terra» - é do melhor que se tem feito no nosso País até ao momento, apoiado sobretudo nas potencialidades vocais de Tó «Stratos», a grande revelação do conhecido Musical Açores de 1977!
«Musicalíssimo» cá fica à espera de novos trabalhos e notícias dos Beatnicks, e de outros grupos rock portugueses claro!
J.A.C.


Outro conteúdo interessante, eventualmente a divulgar posteriormente:
. Dossier sobre os Genesis
--> GENESIS - «...Ant Then There Were Three...» - Entrevista (10 pgs.), por J. Afonso Costa
--> Keith Moon - baterista dos WHO - Morreu Uma Estrela Do Rock (artigo de 3 pgs.), por J.A.C.
--> O 8º Festival de Jazz de Cascais - reportagem de 3 pgs., por Fernando Quinas
--> Colosseum II - Artigo/Reportagem do Concerto de Lisboa (3 pgs.), por J. Afonso Costa
--> Uma Boite - Scarllaty
--> Novidade - Discos
Blondie - «Plastic Letters», por G.T.
Squeeze - «Squeeze», por G.T.
Stranglers - «Black And White», por G.T.
Moody Blues - «Octave», por JAC
Brand X - «Livestock», por JAC
Sparks - «Introducing Sparks», por JAC
Renaissance - «A Song For All Seasons», por JAC





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