KLAUS SCHULZE - Syntorama Nº 11 – MAR | ABR | MAI de 1987 - artigo + discografia + ENTREVISTA
KLAUS SCHULZE
Nesta altura, falar de KLAUS SCHULZE no fanzine era algo
obrigatório, ainda que noutros números tenhamos acompanhado pontualmente os
seus últimos discos. Haverá poucos músicos, na cena da música electrónica que
não reconheçam ter sido influenciados, em maior ou menor grau, por este músico,
que ao longo dos seus muitos anos de experiência criou m movimento em torno da
“ESCOLA DE BERLIM”, no qual se agrupariam a maioria dos músicos electrónicos do
passado e do presente.

Em 1969 começou por tocar bateria com um grupo chamado
PSY FREE, na cena de Berlim, até que em 1970 fez parte da criação dos TANGERINE
DREAM, com os quais gravou um LP “ELECTRONIC MEDITATION”, juntamente com FROESE
e SCHNITZLER. Depois deste disco, SCHULZE abandonou o grupo para iniciar a sua
prolífica carreira a solo. “IRRLICHT” foi o seu primeiro LP, com um sugestivo
subtítulo: “SINFONIA CUADROFONICA PARA ORQUESTRA E MÁQUINAS ELÉCTRICAS”,
SCHULZE deixou de tocar bateria, segundo ele por limitações do instrumento, e
começou a investigar com equipamento electrónicos (ecos, cassetes e feedbacks).
Este primeiro disco é realmente corrosivo, sobretudo o tema que ocupa o segundo
lado do disco “EXIL SOLS MARIA” e consiste numa verdadeira inovação musical em
relação ao que se fazia na altura. Colabora com SCHULZE a orquestra, composta
por vozes, violoncelos, saxofones, oboé, flautas e contrabaixo.




Por essa altura (1971) fundou os ASH RA TEMPEL, com quem
tocou bateria no seu primeiro LP “CYBORG”, gravado em 1973, ao mesmo tempo que
os TANGERINE DREAM lançam “ZEIT”; ambos os LPs são comparáveis no estilo,
completamente estático e minimal. Quatro faixas, uma por cada lado, este duplo
LP que nos faz voar a imaginação para paragens insuspeitadas, ou te pode aborrecer
de morte se realmente não entras nas suas esferas de sons etéreos. SHULZE
faz-se acompanhar também por orquestra e utiliza pela primeira vez o
sintetizador, um SEM SYNTHI A (VCS 3), continua com um 4 pistas (um velho
TELEFUNKEN).
1973 constitui um dos anos mais prolíficos da carreira de
SCHULZE. Por um lado, realiza uma digressão com os ASH RA TEMPEL, outra com os
TANGERINE DREAM, e toca a solo em alguns concertos. Colabora com os ASH RA
TEMPEL no seu LP “JOIN INN” e em inumeráveis LPs dos COSMIC JOKERS (formação
variável que agrupa vários músicos electrónicos de Berlim) e finalmente grava o
seu LP “PICTURE MUSIC”, uma autêntica maravilha da música electrónica.
“TOTEM” no lado 1 e “MENTAL DOOR” no 2, são duas
verdadeiras maravilhas da música flutuante e atmosférica, por vezes rítmica,
outras pausada. Juntamente com o seu VCS 3 e o órgão FARFISA, SCHULZE incorpora
dois novos sintetizadores: o ARP 2600 e o ODYSEE, também da ARP.

Em 1974 realiza uma digressão por França e Holanda,
juntamente com MICHAEL HONIG (teclados), participa na fundação do
DELTA-ACCUSTIC STUDIO de BERLIM, e prossegue as gravações com os seus amigos
dos COSMIC JOKERS (MANUEL GOTTSCHING, HARMUT ENKE, DIETER DIERKS, JORGEN
DOLLASE e KLAUS D. MULLER, entre outros) e grava o seu fantástico “BLACKDANCE”
já com contrato com a VIRGIN RECORDS. “WAYS OF CHANGES” tema rítmico onde
SCHULZE utiliza a percussão, junto com outros instrumentos, guitarra e, claro,
sintetizadores. “SOME VELVET PHASING” completamente em stereo, fecha o primeiro
lado. “VOICES OF SYN” ocupa todo o lado 2, começa com a voz baixa de ERNST
WALTER SIEMON executando uma colagem de Verdi, para dar lugar a SCHULZE,
magistral com os sintetizadores.
“TIMEWIND” é o seu primeiro disco editado no nosso país e
graças a ele, muitos dos que procuravam algo de novo em termos musicais,
pudemos aperceber-nos que havia um movimento mais para além das fronteiras do
rock. “TIMEWIND” é genial, completamente estático e atmosférico, sensual e
etéreo. Uma hora de música que no nosso país, infelizmente, em muitos casos,
terminou nos caixotes dos saldos.
Na contracapa há um bonito diagrama visual, que nos
indica a utilização dos sintetizadores. Juntamente com os que já referi,
SCHULZE incorpora o ELKA-STRING. O disco é dedicado a RICHARD WAGNER, de quem é
grande admirador.
Nessa época colabora com a bana japonesa recém-formada,
os FAR EAST FAMILY BAND, a quem ajuda a gravar os seus primeiros dois LP’s,
“NIPPONJIN” e “PARALLEL W.”. Nesta banda tocava KITARO.
1976 foi uma no muito prolífico para SCHULZE. Deu 27
concertos na Europa (Londres, França, Bélgica, Holanda e Alemanha), gravou em
conjunto com STOMU YAMASHTA “GO” e “GO LIVE” e gravou 2 LP’s, “MOONDAWN” e
“BODY LOVE I”. “MOONDAWN” foi gravado em Janeiro de 76 e editado no nosso país,
no mesmo dia da publicação mundial. É acompanhado na totalidade do disco por
HARALD GROSSKOPF na bateria, artista proveniente dos WALLENSTEIN.
Indubitavelmente, a inclusão da percussão dá um toque dá um toque rítmico de
que SCHULZE não se pode desprender, não esqueçamos que ele começou também como
baterista. Por outro lado, prossegue aumentando a sua dotação de sintetizadores
e sequenciadores.
“MIRAGE” é, segundo o meu critério pessoal, o melhor
disco de SCHULZE. Uma verdadeira obra de arte do princípio ao fim, um disco que,
penso, todos os fãs da música electrónica deveriam ouvir. Supostamente uma
introspecção da música de SCHULZE, de onde as ideias fluem deixando voar a
imaginação até ao infinito, o infinito do cosmos.
Entre 1976 e 1977 grava 2 LP’s: “BODY LOVE I” e “BODY
LOVE II”, este também conhecido por “MOOGETIQUE”. É a banda sonora do filme do
mesmo nome, dirigido por LASSE BRAUN. É evidente que a sua música vai à
perfeição para dotar o filme da “cereja no topo do bolo”, e os que o viram
dizem que realça até limites insuspeitados o resultado final do filme. Em “BODY
LOVE II” é acompanhado por HARALD GROSSKOPF na bateria.
E chegamos a uma das obras cimeiras de SCHULZE, “X”. Um
duplo LP dedicado a ampliar a sua obra com temas que só nomeá-los dizem tudo:
“FRIEDRICH NIETZSCHE”, “GEORG TRAKL”, “LUDWIG II, VON BAYERN”, “FRANK HERBERT”,
“FRIEDEMANN BACH” e “HEINRICH VON KLEIST”. Sem dúvida, do melhor.

“DUNE” foi publicado em 79. A inclusão do vocalista
ARTHUR BROWN, que canta no tema que dá o título ao álbum e ocupa todo o lado A
do LP e WOLFGANG TIEPOLD que toca violoncelo, dá um toque mais diversificado à
música de SCHULZE, mas sempre dentro dos parâmetros de qualidade que nos tem
habituado. Nesse mesmo ano funda a sua própria editora, INNOVATIVE
COMMUNICATION, que editou discos de R. SCHROEDER, P’COCK, LORRY, POPOL VUH,
KLAUS KRUGER, CLARA MONDSHINE, MICKIE DUWE, BAFFO BANFI, etc.. e RICHARD
WAHNFRIED. Dentro deste pseudónimo esconde-se a ideia de SCHULZE de tocar com
uma banda a música que toda ela decida. O seu primeiro LP como RICHARD
WAHNFRIED é “TIME ACTOR” e juntamente com ele tocam ARTHUR BROWN, HARMONY BROWN
(vozes), VINCENT CRANE, SCHULZE (teclados), MIKE SHRIEVE (percussão) e W.
TIEPOLD (violoncelo). É uma experimentação entre a vanguarda e o muzak.


Em 1980 participa na “ARS ELECTRONICA” de LINZ (Áustria),
com um show que alucina toda a gente. Uma autêntica montagem. E das suas
inumeráveis digressões grava um duplo LP denominado simplesmente “LIVE”. Dois
lados do disco, um para cada tema, sendo uma
delas junto com H. GROSSKOPF (bateria) e outra com ARTHUR BROWN (voz),
quatro lados maravilhosos de música electrónica. Gravado a partir dos seus
concertos em AMSTERDAM, BERLIN e PARIS.
A continuação vem com “DIG IT” no qual SCHULZE se
introduz no mundo dos computadores, interpretando toda a música com o G.D.S.
COMPUTER. Recebe a ajuda do grupo IDEAL para o LOOPING de bateria em “WEIRD
CARAVAN”, o seu tema mais rítmico. Aparece um novo personagem em cena, MIKE
SHRIEVE, que se encarregará de tocar a percussão em “TRANCEFER”, junto com W.
TIEPOLD que toca violoncelo. Um LP dedicado por inteiro à música electrónica
rítmica, tudo baseado no seu G.D.S.COMPUTER. SCHULZE vai aperfeiçoando o seu
estúdio, que conta já com 24 pistas.
Também é lançado o segundo LP de RICHARD WAHNFRIED,
“TONWELLE”, com: MICHAEL GARVENS (voz), MANUEL GOTTSCHING (guitarra), SCHULZE
(teclas), MIKE SHRIEVE (percussão) e KARL WAHNFRIED (guitarra).
“AUDENTITY” pressupõe uma busca da própria identidade por
parte de SCHULZE, através dos sons e da música. Esta é outra das suas
obras-primas, um duplo LP que é dedicado à glorificação dos sintetizadores e
das novas técnicas musicais. Talvez a faixa que mais gosto seja “CELLISTICA”,
onde brilha W. TIEPOLD, “OPHEYLISSEM”, o mesmo para SHRIEVE… e atenção que
aparece um novo nome em cena, RAINER BLOSS, um homem que revolucionou as ideias
de SCHULZE quase por completo e que ma deixou um grande amargo de boca.
“AUDENTITY” foi publicado em alguns países como disco único, não duplo,
portanto.
Em 1983 realizou uma extensa digressão pela EUROPA,
incluindo a POLÓNIA, graças a um contacto que o seu agente KLAUS D. MULLER
tinha nesse país. A partir das suas actuações na POLÓNIA, SCHULZE editou um
duplo LP, na companhia do seu já inseparável companheiro RAINER BLOSS. O
resultado é bom, mas não tanto como seria de esperar. Indubitavelmente, e isso
é algo que não me sai da cabeça, a influência de BLOSS fazia com que a
imaginação de SCHULZE diminuísse. Os títulos de “LIVE IN POLAND” são bem
explícitos, “KATOWICE”, “WARSAW”, “LODZ”, “GDANSK” e “DZIEKUJE”, cidades onde
se gravaram os temas. Foi tudo gravado com a consola digital SONY PCM 100.
Em 1984 vende a IC e funda uma nova editora, a INTEAM. A
primeira edição foi o LP “APHRICA”, com ERNST FUCHS (vozes), BLOSS e o próprio
SCHULZE. Hoje em dia este LP está totalmente esgotado e a sua aquisição é
bastante difícil. Depois, “DRIVE INN”, com BLOSS a seu lado, é o pior que fez.
“ANGST” é a banda sonora de um filme, gravada a solo por
ele, sem acompanhantes de nenhum tipo e isso nota-se, a qualidade sobe muitos
degraus.
Também há um terceiro LP da aventura R. WAHNFRIED,
“MEGATONE”. Acompanhando SCHULZE, desta vez: MICHAEL GARVENS, OLDAUER MAIDEN
CHOIR, MIKE SHRIEVE, ULLI SCHOBER, AXEL e HARALD KATZSCH.
Em 1985 publica os seus medíocres “MACKSY” (maxi), com um
tema de “ANGST” e outro inédito, e “INTER-FACE”, o pior que fez, e muita gente
coincide nesta opinião.
Em 1986 editou “MIDITATION” como R. WAHNFRIED e a verdade
é que gostando do disco acho que não faz parte do seu melhor trabalho. E, por
fim, o seu último LP, gravado em 86 e recentemente editado, “DREAMS”. Este
trabalho surpreendeu-me bastante, porque já não esperava nada de bom de
SCHULZE. Este “DREAMS” tenta enlaçar-se um pouco com o seu passado, com as suas
melhores obras como “MIRAGE”, como no seu extenso tema “KLAUS TROPHONY” que
ocupa todo o lado 2 assim o atesta.
Creio e espero que se tenha dado conta que o seu caminho
estava errado e tenha voltado à senda dos músicos que fazendo coisas com
qualidade e esmero, tentando sempre surpreender a audiência.
A seguir transcrevemos uma entrevista realizada a
SCHULZE, em duas partes, graças à colaboração do seu manager KLAUS D: MULLER, a
quem, obviamente, tenho de agradecer pelo seu serviço prestado. A entrevista
foi realizada por correio e foi concluída em Dezembro de 86.
DISCOGRAFIA
IRRLICHT 1972
CYBORG (LP duplo) 1973
PICTURE
MUSIC 1973
BLACKDANCE 1974
TIMEWIND 1975
MOONDAWN 1976
BODY
LOVE 1976
MIRAGE 1977
BODY
LOVE VOL. II 1977
“X” (LP
duplo) 1978
DUNE 1979
… LIVE …
(LP duplo) 1980
DIG IT 1980
TRANCEFER 1981
AUDENTITY (LP duplo) 1983
LIVE IN
POLAND (LP duplo) 1983
APHRICA 1984
DRIVE INN 1984
ANGST 1984
INTER-FACE 1985
MACKSY (Maxi) 1985
DREAMS 1986
RICHARD WAHNFRIED
TIME ACTOR 1979
TONWELLE 1981
MEGATONE 1984
MIDITATION 1986
Para contactar com o OFFICIAL FAN CLUB, os interessados
podem escrever para:
MIX
MUSIC
33 PEEL
ROAD
NORTH
WEMBLEY
MIDDLESEX
HA9 7 LY
ENGLAND
Recentemente foi publicado um livro sobre KLAUS SCHULZE,
escrito em alemão por MICHAEL SCHWINN (180 páginas e 15 – 20 fotos). Para os
interessados em adquiri-lo, enviar 13,80 DM para:
POSTGIROAMT HANNOVER
POSTGIRO 378499-302
(BLZ 25010030)
ENTREVISTA
SYNTORAMA: Como foi
o teu início?
K. SCHULZE: Fiz o meu primeiro trabalho “experimental”
com um trio chamado PSY FREE, muito selvagem, uma espécie de free jazz (porém,
na altura, não sabíamos nada disso). Isso foi em 69, nos clubes underground de
Berlin. O Edgar Froese ouviu-nos e pediu-me para tocar bateria com ele (nesses
tempos era baterista). Durante um ano e um disco fui membro dos TANGERINE
DREAM.
SYNTORAMA: Qual o significado de vanguarda para ti?
KLAUS S.: O termo “Avantgarde” não significa nada para
mim. Assim que o ouço fico logo muito cauteloso. Esse rótulo mostra a ignorância
das pessoas que não entendem alguma música ou alguns “artistas” que podem
estragá-la e esconder-se por detrás dela pra esconder a escassez de ideias.
SYNTORAMA: Que pensas acerca dos sintetizadores?
SCHULZE: Simplesmente encantam-me. Todavia, lembro-me que
quando comecei, não havia um desses instrumentos disponível especialmente para
mim. Não tinha dinheiro, como muitos artistas quando começam. Era jovem e a
minha cabeça cheia de ideias.
Todos esses anos tive de reagir à ignorância e censuras
que havia em relação aos sintetizadores. Esta luta com um novo instrumento,
esta constante interpretação dos meus sintetizadores elevaram-nos a um pedestal
que não merecem. Um sintetizador ou um estúdio de música são simples meios para
a música. Hoje um sintetizador é algo tão normal como uma guitarra eléctrica.
SYNTORAMA: Porque deixaste os TANGERINE DREAM?
SCHULZE: Queria ir mais além na música electrónica. Usava
já maquetas estranhas durante os concertos dos T. DREAM. Edgar queria uma
bateria “normal”. Conny Schnitzler tinha também ideias estranhas. E segiu-o.
SYNTORAMA: Como compões os teus temas?
SCHULZE: Nos meus primeiros tempos, maioritariamente
improvisada. Pouco a pouco aprendi a formar a minha música, chama-se “compor”.
Mas eu não escrevo peças em papel, toco-as e gravo-as em cassetes e toco-as
também na minha cabeça. Porque na maioria do tempo faço música, tenho muitas
cassetes cheias de ideias musicais. Acontece que eu gravo um lado de um LP numa
noite, mas isso corresponde normalmente a muitos meses de duro trabalho.
SYNTORAMA: Que pensas acerca das outras músicas?
SCHULZE: Raramente ouvia música para além da minha. Isso
mudou um pouco quando comecei a produzir para a minha editora (IC). Hoje ouço
de tudo, mas, todavia, não tenho sensibilidade para o jazz. Aborrece-me gente
como Jan Hammer ou Hancock e o que eles fazem com os sintetizadores. Quando era
novo gostava de grupos como os “VENTURES” ou os “SPUTNICKS”.
SYNTORAMA: De que forma trabalhas no estúdio?
SCHULZE: Estou contente comigo mesmo. Enquanto trabalho
não posso estar com ninguém perto de mim. Não creio que alguém seja capaz de
fazer o meu tipo de música sem alterá-la. Sentar-me no misturador é parte da
minha composição. Faço sempre o que quero, sem compromissos. Essa é a razão de
estar por aí e ser respeitado, e, por outro lado a razão para que não tenha
nenhum “hit”.
SYNTORAMA: Qual a tua opinião sobre a música ao vivo?
SCHULZE: Diverte-me. Tive a oportunidade, ou melhor,
aproveitei a oportunidade, de dar concertos e fazer digressões desde 1973.
Juntamente com os T. DREAM fui o único neste tipo de música que tocava ao vivo.
Nos primeiros tempos éramos duas pessoas, uma pequena Ford Transit, um “show de
luzes” de 8 lâmpadas de 100 W, e viajávamos através de França, a maioria das
vezes na Primavera, tocávamos aqui e ali, concertos maiores e outros menores,
organizados por fãs. Hoje somos 7 ou mais, usamos um “11 toner”, e a organização
somente leva meio ano e a maior parte do orçamento. Os meus concertos
preferidos foram os da Polónia, em Junho de 83. Essa é a razão por que editei
um disco ao vivo, LIVE – gravação desses concertos.
SYNTORAMA: Por quê RICHARD WAHNFRIED?
SCHULZE: Sou casado e tenho dois filhos. O mais velho
chama-se Richard. Nasceu quando comecei a IC, e gravei sob o pseudónimo de
Richard Wahn fried em modo de “grupo de sessão” livre, com mudanças de membros.
Todos os lucros dessas gravações vão para os outros músicos e para o meu filho
Richard.
SYNTORAMA: Que se passou com INNOVATIVE COMMUNICATION?
SCHULZE: Já em 1974 tinha a ideia de uma editora própria
(de música electrónica), porém não possuía dinheiro nem conhecimentos. Em 1978
tentei de novo. Primeiro com o dinheiro e pressão da WEA (Warner Brothers). As
vendas foram boas, mas não suficientes para o “irmão maior”. Eles queimaram-nos.
Nessa altura tínhamos algumas produções terminadas e contratos com artistas.
Outras companhas grandes rechaçaram as nossas ofertas, pelo que tivemos que
prosseguir como independentes… e tivemos um milhão de vendas com o nosso LP
“IDEAL”. Infelizmente esse não era música electrónica. IC avançou, eu segui
para uma grande digressão a solo. Por volta do verão de 83, a política da IC tinha
mudado drasticamente para música M.O.R.
Vendi a IC e voltei para o meu estúdio. Juntamente com Rainer Bloss
criei uma nova editora: INTEAM. É estritamente para editar a música do tipo
electrónico que amo e prefiro.
SYNTORAMA: Que é a INTEAM?
SCHULZE: A INTEAM produz música electrónica e tenta
editá-la em discos. Os discos que prefiro devem ser os da editora INTEAM,
outras produções tentaremos que saiam noutras editoras. A meu lado e do Rainer
Bloss temos uma companhia de três pessoas, desde os dias da –IC-: Claudio
Cordes, que produz vídeos, capas e publicidade. Michael Garvens responsável
pela contabilidade e coordenação, e Klaus D. Mueller, que está no negócio em
Berlim, com ideias e promoção.
SYNTORAMA: Que pensas acerca das novas tecnologias?
SCHULZE: Quando comecei não tinha sintetizadores. Usava
um velho órgão, um equipamento de eco barato, feedback, e backward tapes, além
da minha imaginação. O primeiro sintetizador, tive-o durante muito tempo, foi
um SEM. Através desse SEM aprendi a lógica de todos os sintetizadores que se
seguiram. Tive que aprender de novo somente quando apareceram os digitais e os
computadores. Essa é outra história.
SYNTORAMA: Estás interessado nos ritmos feitos com
instrumentos acústicos?
SCHULZE: Isso é importante. Cada músico deveria tocar
bateria. Obteria com isso um sentido de ritmo, até quando normalmente toque
teclados, saxofone ou qualquer outra coisa. Eu compreendi isto quando
trabalhava com o Michael Shrieve. Ele não sabia manipular sequenciadores, porém
sabia das configurações do meu sintetizador: tentava acompanhar esse ritmo. Eu
não conseguia. Portanto, com a ajuda de Michael eu alterei o sequenciador até
que consegui acompanhar o seu ritmo, até que o meu corpo se sentiu bem com
isso. O ritmo é importante, mesmo quando não haja um golpe audível.
SYNTORAMA – Acompanhas as modas?
SCHULZE: Na minha carreira vi ondas musicais ir e vir.
Uma moda musical é curta, e tenho sorte de nunca ter feito música da moda.
Quando a minha música alguma vez fez alguma sensação, por causa da novidade
superficial da inovação que era suposto os sintetizadores e os sequenciadores
darem, senti-me muito responsável. Todas essas questões técnicas. Hoje esses
instrumentos são normais, e todos os grupos de discoteca os usam, até as mais
pequenas. (No bar de um hotel em Hamburgo, ouvi uma vez o pianista residente.
Tinha à sua volta três sintetizadores, a melhor bateria electrónica desses
tempos, e uma gama completa de equipamentos de efeitos, estava bêbado e era
maravilhoso.) Nos anos setenta tinha que explicar o que era um sintetizador,
tinha que lutar contra todos os preconceitos existentes que havia contra este
equipamento. Em cada texto de promoção, em cada entrevista tinha que explicar:
O que é um sintetizador?. Hoje os grupos jovens da moda em Inglaterra podem
usá-lo, construí-lo e avançar com eles. Tocam outra música, são comerciais.
Eles devem tudo aos Kraftwerk (energia eléctrica) e sabem-no, espero. Mas está
na natureza das modas que têm de desaparecer. Voltam as guitarras e os temas
dos sessentas… até à moda seguinte. Eu continuo vivo e activo.

SYNTORAMA: Estás muito interessado em comercializar os
teus produtos?
SCHULZE: O comércio não é bom nem mau. É necessário. Sem
comércio a música seria apenas elitista. Não há que misturar a música com os
jogos olímpicos. Ou com desportos de alto rendimento. O comércio é preciso para
a técnica. A técnica torna possível que toda a sociedade viva em e com a
música, e essa música pode actualmente ser produzida. A música comercial
precisa de talentos diferentes “bem” ou “mal”, contam.
SYNTORAMA: Qual é, para ti, o teu melhor disco?
SCHULZE: Claro que é sempre o último, de outra forma não
o faria. Desde as minhas gravações mais antigas isso era e é uma miragem.
SYNTORAMA: Fizeste muitas gravações. Estás contente com o
trabalho que realizaste?
SCHULZE: Muitos anos de trabalho intensivo com a música,
foram indispensáveis para descobrir um som adequado aos sintetizadores. O uso
adequado de efeitos especiais, as características de um som em locais e
espaços. Este saber converteu-se numa minha segunda natureza. No entanto
continuo a aprender todos os dias algo de novo. Eu acredito realmente na
intuição do génio artístico, mas devo dizer que a maioria do êxito vem do
trabalho duro. Como uma vez escrevi em resposta a uma questão, não há truques,
apenas o conhecimento adquirido e e experimentado sobre a própria intenção,
tentar pôr em prática as próprias ideias e a falta de respeito pelas concepções
convencionais, onde isso seja necessário.
SYNTORAMA: Que pensas da imprensa musical?
SCHULZE: Preferem a música da moda, tentam criar modas. A
maioria são jovens e assim têm que provar que estão na última onda. Alguns
deles sentem-se como músicos frustrados e outros são simplesmente invejosos.
Falta-lhes experiência e conhecimento. Em Janeiro publicam listas de 20 Discos
do Ano, e no ano seguinte a mesma coisa, claro. Alguns são melhores e, por
isso, mudam de trabalho. Fico contente sempre que escrevem o meu nome
correctamente, e que não escrevam sobre concertos que não tiveram lugar. Alguns
sabem escrever e têm uma escrita de qualidade e criativa.
SYNTORAMA: Por que razão não deste ainda concertos na
América?
SCHULZE: Não surgiu nenhuma oportunidade, no futuro
próximo, de dar concertos no Canadá, USA ou qualquer outro local desse
continente. O mesmo acontece com o Japão. Não tenho uma grande distribuidora
que me apoie e o transporte marítimo é demasiado caro, e o negócio musical na
América… é melhor ficar em casa e vivo.
SYNTORAMA: Fazes vídeo?
SCHULZE: Quando estava com a –IC- tinha um estúdio de
vídeo. Fazíamos vídeos de todos os nossos artistas, excepto de mim.
SYNTORAMA: Que pensas dos computadores?
SCHULZE: Os computadores digitais modernos são excelentes
ferramentas. Um chip para mim não é algo sagrado e sim uma ferramenta. O medo
dos computadores desaparecerá se trabalharmos com eles e com carinho. Uso as
tecnologias apenas para pôr em prática uma minha ideia musical. As ferramentas
técnicas têm que funcionar como eu quero. Isso, claro, necessita de muito
esforço.
Alguns podem dizer que temem os computadores, mas na
realidade temem o trabalho que têm de ter para os dominar e utilizar
convenientemente. Perdem a paciência. Outros utilizam os computadores como um
jogo, como se fossem jogos, como crianças que nada sabem fazer com o seu novo
jogo. Às vezes encontram aquilo que pensam ser único… Isso tem a ver com com os
simples sintetizadores e com os antigos, assim como com cada instrumento ou
cada ferramenta de cada profissão. Imagino…
SYNTORAMA: Que instrumentos usas agora?
SCHULZE: Em geral o sampler e equipamento MIDI e muito,
muito pequeno.
SYNTORAMA: Que novos projectos tens na INTEAM?
SCHULZE: Não haverá mais edições na INTEAM?
SYNTORAMA: Que novos projectos e concertos previstos tens?
SCHULZE: A minha próxima digressão será no outono de
1987, mas ainda não há locais acertados.
SYNTORAMA: Que novos projectos tens?
SCHULZE: Fiz um projecto longo com o ANDREAS GROSSER. A
gravação dura mais de 50 minutos, mas no momento não sei ainda em que companhia
será editado, nem sequer se alguma vez será editado. Também há um ballet
americano de Nova Iorque que está a utilizar “SPIELGLCKEN” de “AUDENTITY” na
sua representação. Estarão em Amesterdão em 2 de Fevereiro e então falaremos
sobre novos projectos com o ballet e quiçá um trabalho especial para eles.
NOTA: A tradução da presente entrevista foi feita por
ROSI, a quem agradecemos a colaboração.
Todos os discos de KLAUS SCHULZE podem ser obtidos
através da LOTUS RECORDS, escrevendo para a morada seguinte:
LOTUS
RECORDS
14-20-
BRUNSWICK STREET
HANLEY
STOKE –
ON TRENT
STAFFS,
ST1 1DR
ENGLAND