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22.12.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (130) - Música & Som #especial "New Wave"


Música & Som
Nº ESPECIAL - NEW WAVE
Julho de 1980
Esc. 50$00




Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, António Pedro Ferreira, Bernardo Brito e Cunha, Fernando Peres Rodrigues, Henrique Amoroso, Hermínio Duarte-Ramos, João David Nunes, João Gobern, João de Menezes Ferreira, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Paulo Norberto, Pedro Ferreira, Pedro Cristina de Freitas, Raul Bernardo, Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Jorge Cortesão e Ray Bonici

Tiragem 15 000 exemplares
56 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.



AVE ROCK, Morituri te salutant
por Ana Rocha



«Já a minha pele encarquilhada estala
Já rastejo no meio de ervas e dos calhaus
Apesar de tanta terra absorvida
DESEJO UMA TERRA NOVA...
Acompanhando o meu rasto sinuoso
Ávido de comer o meu repasto
DESEJO UMA TERRA NOVA...»

Assim (quase que) falava o Rock...
Assim poderíamos exprimir a sensação de cansaço que antecedeu o movimento punk liderado por uma geração ("Blank Generation"...) enraivecida... revoltada... inconformada com o torpor circundante. O percurso musical dos primeiros cinco anos da década de 70 (não falamos em termos de homogeneidade absoluta) desenvolveu-se numa linha de continuidade em relação a um passado imediatamente anterior. Os rostos eram os mesmos, os envólucros eram outros.
A bomba rebentou no meio de um show-biz de chéchés desprevenidos e comodamente entretidos em ressuscitar a sua caducidade magra... famélica... hediona... A lamentável auto-complacência («Não é o vosso pecado, é a vossa banal satisfação que brada aos céus, é a vossa parcimónia mesmo no pecado que é chocante») para com a ausência de inspiração, o consequente recurso a repetições mais ou menos disfarçadas, a desagregação de grupos fundamentais (Doors, Beatles, Stooges, Velvet Underground, and so on), o desgaste, foram factores entre outros que muito terão contribuído para o emergir da revolta punk. Do desencanto surgiu a contestação disposta a abalar um edifício de ídolos balofos e entediadamente venerados).
A insurreição veio (como um cavalo louco...) ostensivamente quebrar velhas estruturas, apoiando-se num background social comum a anteriores movimentos de contestação (Rockers... Teddy-boys...). à frieza e habilidade técnica foram contrapostos valores como a espontaneidade, o entusiasmo, o frenesim desesperado. Deste conflito dinâmico, deste confronto entre dois mundos empenhados numa tentativa de exclusão mútua - um depositário e continuador de uma herança, o outro recusando os padrões estabelecidos, arrancando as suas raízes numa atitude simultaneamente brutal e vital) - resultou algo que rapidamente foi rotulado de «New-wave». Mas não nos antecipemos...
A sensação nada gratificante do «Nada mais há a esperar... chafurdamos nesta pocilga e estamos condenados a ficar nela...» conduziria irremediavelmente ao rebentar de uma reacção violenta e agressiva.
O sistema capitalista com as sempiternas promessas de melhoria da qualidade (QUAL?) de (sub)vida já não enganava a malta. Os projectos de reestruturação social eram uma blague-para-entreter- ingénuos sonhadores. As soluções apresentadas pelo sistema faziam parte de uma diabólica engrenagem e eram lançadas no mercado para serem consumidas por aqueles que ainda acredita(va)m na possibilidade de renovação do próprio sistema Transformação/Revolução na Continuidade... (Baaaahhhhh!).
Amargas ilusões, meus, paninhos mornos...
Ná, que a malta não é estúpida... nem sempre está numa de se deixar manipular (a manipulação actual porque mascarada... paternalista... subrreptícia... é a mais feroz de todas. Tudo permitindo acaba por nada permitir)...
E munidos de símbolos aterradores os punks invadiram a praça pública, dando largas a uma violência incontrolada... desafiando um quotidiano merdoso e entorpecente... o suborno sempre renovado do salário no fim do mês... o «Take it easy» era absolutamente intolerável. A pressa de (sub)(sobre)viver impunha-se como uma exigência imediata. Não dava para curtir (a merda) devagarinho. Devagar não se vai longe. (E depressa?). Àparte chato.
A finalidade óbvia pareceia ser o esmurrar de uma sensibilidade anémica... enfraquecida... modorrenta... por meio de uma subversão chocante / estimulante. Essa subversão tinha que ser posta em cena, tinha que ser montada num espaço cénico delimitado, de modo a forçar o (não respeitável) público a inventar / descobrir uma substância imaginária nova, emoções diferentes, em sintonia com os executores do cerimonial.
A figura humana... real e contudo afastada... a voz... o deambular... o jogo dos músculos... o suor do corpo... a crispação / tensão... a sombra... a luz dos projectores... a gesticulação... o espaço sagrado (do palco)... o espaço profano (o outro)... The ceremony is about to begin!
É que a atitude, o aspecto visual, o desafio corporal (esta história já é velhérrima...) foram aspectos determinantes no punk. E isto porque o rock (esse ainda não é muito velho...) veiculando uma maneira nova de encarar as relações entre as pessoas, veio exteriorizar uma sexualidade secularmente (e, porque não milenarmente... Ai!) recalcada. Os cabelos, os (des)penteados, as vestimentas, os adereços, o fétiche, as danças, as modas, o folclore, são aspectos facilmente constatados. Mas por detrás desta fachada houve um assumir deliberado e espectacular do corpo («Tenho uma palavra a dizer aos desprezadores do corpo... desfaçam-se dele... o que vos tornará mudos... não sois pontes do meu caminho...), bem como um pôr em questão de valores tradicionais - Trabalho, Exército, Autoridade, Dogmas políticos e religiosos, Moral, Estatuto... Uff! Enumerações chagas! Ó meus, utilizem a imaginação, não abusem da minha memória...
Regresso ao papel/função do espectáculo ao vivo, à importância da imagem do grupo condensador da revolta, do grito desesperado. Já toparam que não existe «teatro» sem delimitação do espaço cénico onde se exprimem personagens imaginárias (frequentemente catárticas)? Tomar o corpo como instrumento de criação de um personagem imaginário implica contudo condutas paralelas e marginais e o desdobramento que daí resulta não se opera nunca na quietude da intelectualidade banal e pacata. E nesta altura entra uma faca de dois gumes - a instituição (tenebrosa porque anónima... insondável) - dos mass media que vai tratar de divulgar rapidamente a imagem publicitária e (im)própria para consumo. Facto: só subsiste o que vem com aparato publicitário. Condição que frequentemente (Hèlas!) se transforma de necessária em suficiente... Mas isso são outras histórias...
O preço é pago com mais ou menos pestanejar. O melhor é pagar sem pudores hipócritas para não desgastar energias em cabeçadas na parede... As compensações são posteriores...



«Deixai a fúria ter a sua hora,
A raiva pode ser poder,
Não sabem que podem usá-la?»
São palavras actuais de um grupo que sobreviveu ao punk - os CLASH. O desespero primitivo / nihilista / suicida veio desembocar numa outra onda interessada em não se deixar destruir por um sistema que implacavelmente recupera (aniquilando) as contestações internas (das externas não reza esta história...).
Em suma, a maleabilidade, a renovação, a capacidade de conter a diversidade são alguns dos aspectos mais encorajantes do rock. A coexistência (não propriamente pacífica) de escolas modernistas determinadas pela electric music e de outras mais interessadas no ressurgimento de estilos anteriores (Rhythm & blues, rockabilly, reggae, ska...) tem tido momentos de invectiva vituperante e a - cerimoniosa. Mas, ultimamente os objectivos são similares - uma procura de maior honestidade sem chumaços ou postiços supérfluos e um ódio em relação aos complacentes excessos do rock & roll em épocas como o «Summer of Love» (67) e o «Summer of Hate» (77).
A new-wave é o sopro de vitalidade melódica que veio marginalizar as geladas manifestações do pseudo-intelectualismo caduco/barroco duns Pink FLOYD ou duns Yes (custa, meus, mas as verdades que calamos envenenam, repetimos). Não me lembro de ouvir o Iggy ou os Talking Heads entrando em 15 minutos de inúteis... entediantes jams («especialidade dos cor-de-rosa-fluídos...).
E aqui temos 1980.
Joy Division, Pop Group, Swell Maps, Talking Heads, Robert Fripp, Brian Eno, Urban Verbs, XTC, Wire, Clash, Tom Verlaine, Raincoats................................... O futuro somos nós que o fazemos.
«É terrível morrer de sede no mar. Porque salgar então a verdade de modo a já podermos matar a sede?»
LONG LIVE ROCK!
OH YEAH!
Ana Rocha



Artigos:
. Ave Rock, Morituri Te Salutant, por Ana Rocha
. Rocksex Rockpol Ecorock, por Pedro Ferreira
. Sex Pistols, por João Gobern
. Ladies & Gentlemen The Clash,
. The Jam, por João Gobern
. Xray Spex, por João Gobern
. Ramones, por Pedro Cristina de Freitas
. The Boomtown Rats, por João Gobern
. The Tubes, por João Gobern
. Patti Smith, por Ana Rocha
. Devo, por Pedro Ferreira
. The Police, por Pedro Cristina de Freitas
. The Stranglers, por Pedro Cristina de Freitas
. Blondie, por João Gobern
. Ian Dury, por João Gobern
. Os Pistols no Desarmamento, por João Gobern
. Mais Histórias Sobre As Falantes Cabeças E O Novo Mundo..., por Ana Rocha
. Tom Robinson Band, por Nuno Infante do Carmo
. La Dolce Nina, por Nuno Infante do Carmo
. The Motors, por Nuno Infante do Carmo
. E Agora? (da festa à razão de ser), por João Gobern




21.12.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (129) - Música & Som #80


Música & Som
Nº 80
Março / Abril de 1983

Publicação Mensal
Número Duplo
Esc. 150$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
72 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio. Neste número, também as 16 páginas centrais a cores e papel brilhante, como a capa.


A Vibração Do Ar
por Eduardo Pais Mamede
Num país pequeno como o nosso, com uma produção musical e uma actividade artística mínima, é natural que as pequenas quezílias estético-musicais ganhem um certo fôlego entre os simpatizantes das diversas correntes musicais, denotando todo o provincianismo que é inerente a este país que, além de situado na cauda da Europa, sofreu, infelizmente, 45 anos de isolamento forçado, acontecendo as coisas, por esse motivo, com dezenas de anos de atraso. Vem isto a propósito de uma certa "guerra" generalizada, aberta ou encoberta, que se instalou desde há uns anos entre os simpatizantes, consumidores e produtores de diversos estilos musicais. Tal como se viveu em política após a legalização democrática, com a partidarização de tudo e todos - só com paralelo com a "clubite" futebolística, sempre moldada por paixões extremas - o ambiente musical é, especialmente após a explosão da "nossa" onda Rock, marcado por um mau-estar provocado pelos sectarismos, invejas, etc., que se manifesta até dentro da mesma área musical. Creio que posso afirmar que não existe nenhum domínio, desde a Música Erudita ao Rock, passando pela Música Popular, o Jazz e a Música Ligeira, em que o ambiente seja de cooperação e ajuda mútua, quanto mais na relacionação destes domínios entre si. Esta situação, aliás, reflecte-se muito bem nos "mass-media", em que cada um "puxa a brasa à sua sardinha", como se "mandar abaixo" este ou aquele fosse fundamental para vender mais ou criar obras melhores. Por mim, sou da opinião que em cada estilo musical se pode fazer boa ou má música e que, quanto mais pessoas houver a fazer música, editoras, estúdios, espectáculos, etc., melhor qualidade haverá, pois esta provém, também, da selecção da quantidade.
E eis-me chegado ao ponto fundamental deste meu artigo - a qualidade. Muito se fala desta palavra, toda a gente a utiliza, usufruindo a seu bel-prazer o peso mágico que este termo encerra. Qualidade... Mas o que é que isto quer dizer ao certo? Tomemos, por exemplo, o caso de um disco. Para se dizer se ele tem ou não qualidade, independentemente do seu género musical, é preciso em primeiro lugar analisá-lo nos seus aspectos técnicos e artísticos. A captação de som com a reprodução fiel dos instrumentos sem saturações nem distorções (corte do acetato), assim como uma prensagem silenciosa e uma impressão correcta e definida das cores e acabamentos da capa, são importantes na definição da qualidade técnica do disco. Em relação à parte artística, temos ainda alguns factores a levar em conta.
Em primeiro lugar, na análise detalhada do material registado, no caso de serem canções, examinaremos inicialmente a unidade letra/música, sua conjugação, a coincidência na tónica palavra/música, etc., e, seguidamente, debruçar-nos-emos sobre os seus elementos. A qualidade poética, a construção dos versos, as palavras utilizadas e a inserção cultural da temática são pontos de análise importantes no que diz respeito à letra. Sobre a música, teremos que apreciar a sua construção tonal, a riqueza ou ausência de modulações, a dinâmica (mudança de andamento, alternância de volumes), a complexidade ou simplicidade rítmica e a harmonização. De seguida, examinaremos a interpretação vocal do(s) artista(s) em relação aos aspectos de afinação, expressividade, timbre, colocação de voz, utilização de portamentos, etc. Um conjunto de pontos cuja leitura é muitas vezes subjectiva, pois tem a ver com a estética de cada um, ou, por outras palavras, com o bom ou mau gosto das pessoas. A produção e os arranjos ou orquestrações são também definidores importantes duma qualidade artística. Assim, teremos que notar que tipo de instrumentação foi escolhido para canção, os contracantos, a dose de utilização da reverberação, os efeitos (delays, harmonizadores, etc.), o equilíbrio dos instrumentos / vozes (mistura), etc. Finalmente, veremos a embalagem do disco (capa), a harmonização com o conteúdo, o arranjo gráfico, as indicações técnicas, as notas explicativas, etc., também importantes para a qualidade artística da obra. Enfim, só depois de toda esta análise detalhada poderemos falar de qualidade ou da ausência dela em relação a um disco.

Entrevista
TELECTU
Jorge Lima Barreto Diz Dos Telectu
"A Linguagem Mais Avançada Que Se Faz Por Aqui!"
Texto e Fotos: Manuela Paraíso




Telectu - subitamente, uma proposta arrojada na predominante mediania da música nova feita em Portugal. Resultante do encontro de dois músicos - Vítor Rua (ex-GNR) e Jorge Lima Barreto (criador da Anar Band) - o projecto TELECTU teve as suas primeiras apresentações na III Bienal de Vila Nova de Cerveira e no II Festival de Vilar de Mouros, após as quais se procedeu à gravação de um álbum, "Ctu Telectu", editado nos fins de 1982. Portador de esquemas construtivos absolutamente inéditos no nosso meio musical, "Ctu Telectu" revela-se como uma alternativa ao cliché da música plastificada, assentando bases na pesquisa sonora por intermédio de esquemas repetitivos. Acerca do disco e do própiro projecto do grupo, registámos as opiniões dos seus autores, numa conversa informal.

M&S - Como é que se proporcionou a gravação deste álbum?
Vítor Rua - Eu e o Jorge convidámos o Tóli e o Dr. Puto - o vocalista - para a gravação do disco. Em Vila Nova de Cerveira, onde ganhámos o prémio da Bienal, fizemos a demonstração de como se preparava um LP. Depois, fizemos a primeira apresentação em Vilar de Mouros, como quarteto, gravámos o disco para a Valentim e agora estamos em duo.
M&S - Portanto, o Tóli e o Dr. Puto funcionaram como convidados para a gravação do álbum... como é que vocês trabalham a nível de composição?
Jorge Lima Barreto - Nós agora mudámos completamente, éramos um quarteto e passámos a duo. Entrámos noutra estética, alterou-se tudo, e não há relação possível entre as duas coisas. O que se fez, foi uma coisa trabalhada durante quase um mês, em Cerveira, todos os dias nós trabalhávamos perante o público, fomos desenvolvendo programas de sintetizadores. O Vítor tocava baixo e preparava estruturas rítmicas com o Tóli... e depois, no estúdio, escolheram-se diversas sobreposições, usando-se vários canais. Em todos os temas, nós utilizámos seis canais cada um. Aliás, há dois temas que são quase metade do disco... a batida é dada por um computador de ritmos, e não pelo baterista.
M&S - Reparei que no disco há duas partes distintas e complementares - uma dada por uma acentuada secção rítmica, a outra por uma pesquisa a nível sonoro...
JLB - ...tímbrica... Claro, essa é a nossa parte principal. De resto, o disco também tende para o rock, porque era mesmo para se encaixar dentro de uma estética rock - utilizava um baterista rock, um cantor... senão, nós nem sequer tínhamos recorrido a isso. Nós agora estamos a desenvolver a outra parte, dentro de uma estética repetitiva...
M&S - Menciona-se no disco que todos os títulos são extraídos das obras do escritor Philip Dick. Isso é relativo a alguma espécie de influência?
JLB - Olhe, por exemplo, a capa do primeiro disco da Anar Band é uma pintura do Abel Mendes e chama-se "Science Fiction". Acabei um volume (que deve estar aí a sair), e estou a fazer um segundo, ambos sobre ficção científica. O Vítor também se interessa, e nós achamos que toda a música electrónica tem relação com a ficção científica. Entretanto, o ano passado morreu Philip Dick, que tem um certo peso como escritor de vanguarda de ficção científica, e nós fizemos-lhe um memorium. Os títulos foram escolhidos também em relação a isso.
M&S - Voltando à gravação do álbum, quando entraram em estúdio vocês já tinham determinados esquemas preconcebidos em relação àquilo que fizeram em Vilar de Mouros, ou tudo funcionou mais numa base de interpretação?
VR - A diferença fundamental entre a actuação em Vilar de Mouros e o disco, é que em Vilar de Mouros as secções rítmicas e os sintetizadores já estavam programados. Na gravação do disco, por exemplo, cheguei a dobrar seis vezes a guitarra, e o sintetizador foi também dobrado. Nas últimas composições somos só nós os dois, eu toco baixo e guitarra e o Jorge toca sintetizadores, em seis pistas para cada um; por isso é como se fossem doze instrumentos; e, além disso, o Dr. Puto duplicava ou triplicava a voz.
M&S - Em relação aos seus trabalhos antigos, acha que têm alguma coisa a ver com o tipo de linha que os Telectu estão a seguir agora?
JLB - Claro, há a própria evolução de um artista. Tal como um pintor, se fizer hoje uma coisa e tiver feito outras anteriormente, com certeza há uma evolução. Ou então não há, simplesmente, evolução. Neste caso acho que houve, nós estamos mais avançados neste momento, até pela tecnologia que temos, que é mais avançada.



M&S - Aliás, vocês propõem-se criar algo absolutamente novo em relação à música que se faz em Portugal...
JLB - Não é propormo-nos... nós já fizemos alguma coisa, não é? Aliás, qualquer disco dos meus é assim - e mesmo em relação ao Vítor, também - o GNR era uma coisa muito nova em relação ao que se fazia aí em matéria de rock. E acho que estávamos indicados para nos encontrarmos os dois.
M&S - Em relação às letras, elas têm algo a ver com as obras de Philip Dick?
JLB - Não, nada. As letras são do Dr. Puto, que teve total liberdade para as escrever. Há uma faixa que é cantada em italiano, outra em inglês...
M&S - Haverá algum tipo de música que vocês ouçam e que, de uma forma ou de outra, vos possa influenciar?
JLB - (apontando uma bela e comprida colecção de discos) Ali está electrónica, daquele lado, etnográfica; depois, música clássica, jazz; além, rock; e ali, jazz clássico. Ouvimos de tudo. Quando nos conhecemos, o Vítor tinha um tipo de audição muito específico de rock - porque ele era um músico 100% de rock - e foi-se abrindo... agora estamos os dois a incidir numa estética repetitiva. No disco há dois temas assim, o "Valis" e um outro, que nós achamos que é a melhor coisa que se fez aí, e que só tem dois minutos - "Martian Time - Slip". Queríamos fazer quase um lado inteiro com essa faixa, mas não nos foi permitido.
Uma coisa que eu gostava de focar, é que os discos de rock que se fazem em Portugal normalmente não são rock: ou são pop ou música ligeira. E, no nosso caso, apresentam-se solos de sintetizador e particularmente de guitarra eléctrica, em que o Vítor Rua se mostra como um caso ímpar no nosso nível instrumental, e no rock não há nenhum que tivesse atingido este nível de qualidade. E ele, particularmente neste disco, está na forma mais exemplar que se pode imaginar. Quem possuir um disco destes tem, com certeza, um exemplo da linguagem mais avançada que se faz aqui, quer mesmo a nível de produção; também a voz, que normalmente é tratada directamente, aqui surge filtrada, incluímos diversos panos de voz... e mesmo os arranjos electrónicos são casos aqui invulgares, nesse aspecto. Mas este disco não é experimental, é formalista, porque nós adoptámos a forma de rock. Claro que há improvisação, como houve em todo o rock, mas a partir de dados iniciais que vieram quer de programas de sintetizador, quer de composições melódicas que n´so adoptámos.
M&S - A vossa música parece-me ter muitos pontos de contacto com a música planante alemã...
JLB - Sim, o rock alemão, pois claro que isso se reflecte, foi o tipo de posição adoptada. Mas a nossa música está mais avançada e tem um sentido mais vanguardista do que a música alemã, porque não é uma coisa só mecânica... é um disco muito mais emocional. Há, por exemplo, improvisações jazzísticas da minha parte, que são incluídas.
M&S - Qual o verdadeiro sentido do nome do grupo, TELECTU?
JLB - TELECTU não tem sentido, é uma palavra semântica. Foi de um poema concreto de Melo e Castro que nós tirámos o nome, CTU TELECTU... como um jogo de palavras, Telectu Ctu... e a palavra em si também não é vazia, tem um sentido poético.
M&S - ...e até pode ser conotada com outras palavras, como por exemplo, INTELECTO...
JLB - Pois, pode-se conotar com diversas coisas, por exemplo, TELE, TELEVISÃO... mas realmente cremos que a palavra tem uma carga tecnológica muito grande. Por exemplo, "água doce" não tem qualquer carga tecnológica, não é? E além disso, "Telectu" tem também uma carga mental, que é importante.
M&S - Acha que as pessoas poderão ser motivadas a pensar, ouvindo este tipo de música?
JLB - Acho que sim, pois claro, e serão motivadas para a procura de outro tipo de música. Você falou em rock alemão, há pessoas que falam em música electrónica, outras em jazz mais avançado... o disco está cheio de referências, é uma obra rica, em si. Qualquer obra que esteja bem organizada convida as pessoas a consultar outras coisas; e coisas superiores, nunca é uma chamada para coisas inferiores. A partir disto, as pessoas só poderão ter o prazer de ouvir coisas efectivamente melhores.

Ouvir TELECTU. Um convite que poderá ou não ser aceite, correndo-se, neste último caso, o risco de deixar passar ao lado um trabalho importante porque inédito no nosso país. "Ctu Telectu" - um trabalho inteligente e ousado e, acima de tudo, DIFERENTE.



Concertos
Durutti Column
Tonight's The Night




Como era de esperar, o público que enchia a sala da Aula Magna da Reitoria, ocupando calmamente sentados, era constituído por adeptos incondicionais das melopeias dos Durutti Column. Não havia curiosos. Só entendidos. Fãs convictos. Cúmplices de um repertório sobejamente conhecido que, num ambiente cool, se começavam a impacientar ligeiramente com os 10 minutos que passavam das 21e 30. Sem grandes alaridos.
A organização preocupava-se com as condições em que o som seria transmitido. E com razões de sobra, dado que a fragilidade extrema, a sensibilidade comovente e as melodias mandraxizadas deste duo não permitem distorsões de sons, brincadeiras na mesa de mistura ou processos tipo vê-se-te-vias tão característicos na maioria dos concertos.
Já há sete meses, em Vilar de Mouros, os Durutti Column tinham constituído um dos momentos-chave do Festival. Vini Reilly, o seu guitarrista solitário, separado de todas as modas ou correntes, transportando atrás de si uma reputação misteriosa, autor de um som de guitarra sublime e de uma música angélica que manipule os sentimentos mais depressivos em nome de uma melancólica sabedoria, e o veterano Bruce Mitchell, responsável por um drumming modelo de concisão espantoso, seriam os nossos guias na histórica noite de um concerto perfeito, cujo único defeito pareceu consistir no set demasiado curto, seguido de dois parcos encores.
Céus, como Vini parecia sobre o palco! Tal uma gazela assustada e receosa, anunciava despretensiosamente os seus temas que ele próprio definia como "maçadores"!... Desde a sua aparição, foi saudado com delirantes ovações por parte de um público incondicionalmente rendido.
E os temas líquidos e cheios de mágoa de album LC começaram a desfilar, em momentos hipnóticos, atravessados por flashes e alucinações, testemunhando a conjugação raríssima de uma força elementar e de uma inspiração extraordinária, sombria, lúgrube e lastimosa. Há noites em que eu gostaria de ter a força de um Gulliver. Para empurrar montanhas. De desventuras, de adversidades, de infortúnios. Mas a guitarra minimalista e lancinante de Vini Reilly tal como uma renitentíssima cicatriz mal fechada, impelia-me a permanecer neste universo de sons sedativos e fascinantes, envolvida naquela perfomance mística e fria no exterior, mantendo paradoxalmente uma chama férvida no seu interior.
Um dos grandes acontecimentos musicais deste ano ainda agora iniciado. E já sabem: o missal é o LC o missal é o LC, o missal é o LC...
Ana Rocha


Entrevista
Vini Reilly
por Manuela Paraíso

A primeira vez que vi Vini Reilly foi no ano passado, em Vilar de Mouros. A impressão que desde essa altura guardei dele, não se modificou muito neste segundo encontro. Reservado mas cordial, oferecendo a ideia de uma profunda fragilidade e vulnerabilidade a par de uma total ausência de vaidade e presunção, Vini não é, afinal, muito diferente da sua própria música, maravilhosamente bela e sensível, emotiva, como uma lágrima morna, e suave, esbatendo-se na névoa clara e delicada de um instante eterno, cinzento.



M&S - Gostaria que começasses por falar sobre o concerto que deste na Aula Magna.
V.R. - Gostei bastante dele, mas houve muitos problemas com o PA, porque não era adequado para a amplificação de uma guitarra, de uma bateria e do piano. O som estava absolutamente terrível... E além disso nós utilizamos amplificadores de som dirigidos para o palco, de modo a que possamos ouvir o que o outro toca, e esses amplificadores estavam em condições ainda piores, e por isso não ouvíamos o que se estava a passar... não tocámos muito bem, juntos. O som estava realmente péssimo, e agora toda a gente nos pede desculpa por esse facto, mas nós já tínhamos explicado o que pretendíamos, bastante antes do concerto. De qualquer forma, e apesar disso tudo, eu gostei do concerto, porque as pessoas se sentaram e OUVIRAM verdadeiramente... gostei disso, foi óptimo. O público tornou o concerto verdadeiramente bom.
M&S - Preferes este público ou aquele que tiveste em Vilar de Mouros?
V.R. - Havia uma mistura maior, no festival. Não me importei com isso, mas acho que preferi o público desta vez. Talvez isso tenha acontecido por causa do lugar ser mais íntimo e o público mais jovem... Senti que me podia expressar melhor assim do que para pessoas mais velhas. Porque essas pessoas são provavelmente apreciadoras de jazz, e não consigo imaginar que elas gostem do que nós fazemos, porque a nossa música não é tecnicamente brilhante ou inteligente... por isso acho que para essas pessoas, a nossa música deve ser bastante maçadora, enquanto para as pessoas mais novas é muito melhor. Elas não se preocupam se tu és um tecnicista, ouvem a música.
M&S - Preferes tocar em clubes pequenos ou em algum lugar específico?
V.R. - Em qualquer lugar. Aborda-se sempre lugares diferentes de maneira diferente. Se estiver num clube pequeno, toco de modo diferente do que toquei, por exemplo, no festival. É sempre diferente. Mas eu não me importo com os sítios onde toco.
M&S - Gostas mais de tocar ao vivo ou de trabalhar em estúdio?
V.R. - São coisas muito diferentes, não prefiro uma nem outra. O trabalho de estúdio é mais criativo e há mais oportunidades de pesquisa sonora, etc. Mas eu também gosto de tocar em concertos, especialmente quando sou só eu e o Bruce, porque todas as notas têm que estar certas, tem que se tocar o melhor que se pode... porque se estás num grupo que tem mais quatro pessoas e tocas uma nota errada, não se nota tanto como se notaria se eu ou o Bruce o fizéssemos... connosco seria demasiado óbvio.






M&S - Mas tu utilizas uma certa improvisação em palco... o Bruce disse que às vezes não sabe que nota vais tocar a seguir...
V.R. - Isso é verdade, nós só ensaiámos duas vezes durante todo este tempo em que tocamos juntos... nunca ensaiamos. Por exemplo, uma das canções que tocámos neste concerto foi escrita três horas antes de termos vindo para Portugal, por isso nunca a tinha tocado ao vivo, e obviamente o Bruce nunca a tinha ouvido... Mas isso é giro porque é espontâneo e o Bruce sabe sempre exactamente o que tocar, sente-o. Nós nunca sabemos o que vai acontecer a seguir. Isso é muito melhor do que ensaiar o tema várias vezes.
M&S - Isso acontece possivelmente porque tu utilizas gravações de caixas de ritmos...
V.R. - Esta foi a primeira vez que utilizei uma gravação de fundo, e provavelmente foi também a última, porque não resultou... Especialmente quando se trata de uma gravação de fundo, é necessário ouvi-la através dos amplificadores, e tal como já expliquei, nós não nos conseguíamos ouvir a nós próprios, e por isso não sabíamos em que parte da gravação nós íamos. Por isso foi desastroso. Nós tocámos seis temas utilizando a gravação de fundo, e depois desligámo-la e continuámos sem ela. Por isso decidi não voltar a utilizá-la.
M&S - Vocês tocaram muito poucos temas de "LC", o único trabalho que foi editado em Portugal. Não te parece que o público português teria gostado que vocês tocassem mais temas desse álbum?
V.R. - Não sei. Há duas formas de encarar isso. Pode-se pensar que, se as pessoas querem ouvir temas de "LC" ou de outro álbum qualquer, podem ouvir o álbum em casa. E se querem ouvir algo diferente e novo, vêm aos concertos, porque muito do material que nós tocamos ao vivo jamais será incluído em discos - quando eu começo a pensar em fazer outro álbum, vão aparecendo novas canções.
M&S - Vocês vão gravar algum álbum brevemente?
V.R. - Acabámos de gravar um, que se tudo correr bem vai ser editado durante o próximo mês, e chama-se "Another Setting". Utilizámos um trompetista em duas faixas, um oboé noutras duas, e parte do material tem um som um bocado clássico, outra parte é experimental, e além disso há também uma sonoridade forte. É muito variável e bastante diferente de "LC". Eu sempre senti que "LC" é um álbum maçador, devido sobretudo ao facto de grande parte dele ter sido gravado no meu quarto de dormir, em casa, com o meu próprio gravador. Utilizei apenas uma caixa de ritmos e duas pistas de guitarra, e não há muito que se possa fazer nessas condições. Não me parece que "LC" seja muito bom... e o primeiro álbum, "The Return Of The Durutti Column" é horrível. Por isso espero que este terceiro álbum seja um pouco melhor, estou um bocado mais satisfeito com ele. Não sei o que o público irá achar dele.
M&S - Tu tiveste um tema teu incluído num disco editado pela companhia belga "Disques Du Crepuscule", mais precisamente "Lips That Would Kiss". Como é que aconteceu o contacto com essa editora?
V.R. - Bem, o Tony Wilson quis arranjar uma distribuidora da Factory Records na Bélgica, e encontrou lá algumas pessoas interessantes... assim, eu gravei esse disco. O trabalho de estúdio foi feito em cerca de meia hora, foi extremamente rápido. "Lips That Would Kiss" foi tirado de um poema de T.S.Elliot, e foi encontrado escrito numa das cartas que Ian Curtis deixou... foi a minha homenagem a Ian Curtis, o vocalista dos Joy Division, que morreu. Foi talvez essa a razão principal porque eu fiz esse disco.
M&S - Conhecias bem Ian Curtis?
V.R. - Não muito bem, mas começámos a conhecer-nos um ao outro e planeámos comprar uma casa juntos para nela fazermos um estúdio.
M&S - Achas que existem algumas semelhanças entre a tua pessoa e Ian Curtis? Tu tens declarado que é suma pessoa depressiva...
V.R. - Não sei, acho que é impossível afirmar-se isso.
M&S - Em que ocasiões costumas compor? Talvez quando estás deprimido?
V.R. - Estou sempre a compor. Posso escrever canções todos os dias, e por isso elas são diferentes porque reflectem a minha disposição momentânea.
M&S - Normalmente, preferes escrever sobre que temas?
V.R. Quase sempre sobre a minha vida pessoal, as coisas que me rodeiam e aquilo que me acontece, e tudo o que é importante para mim. É uma maneira de se dizer coisas que não podem ser ditas às pessoas em circunstâncias normais. Não podes ir ter com as pessoas e dizer-lhes determinadas coisas, é muito mais fácil escreveres uma música sobre isso, porque a ideia é melhor transmitida assim. E, para mim, é mais natural.
M&S - Acreditas que a música é ainda um forte meio de comunicação?
V.R. - Sim, sem dúvida, isso é o ponto fulcral da música. Quando ela deixa de comunicar algo às outras pessoas perde o seu objectivo... não há justificação para ela. E isso estende-se também a qualquer forma de arte.
M&S - Fundamentalmente, o que representa para ti criar música?
V.R. - É o meu meio de expressão, algo de muito natural. Não é nada que eu faça com o objectivo de lucrar alguma coisa com isso, é simplesmente algo que eu não posso evitar de fazer, porque TENHO que o fazer. Porquê? não sei. Acho que é como ter que comer ou que beber, é uma necessidade.



M&S - Creio que declaraste uma vez que ouves sobretudo música clássica e muito pouca música moderna. Sentes-te influenciado pelos clássicos?
V.R. - Não sei ao certo. Acho que nós somos influenciados por tudo, seja de uma forma positiva ou negativa. Se ouvirmos um disco pop absolutamente idiota, até por isso somos influenciados, porque dizemos a nós próprios "Eu não vou fazer nada como aquilo". Portanto, de certo modo, somos influenciados por isso. E eu acho que sou influenciado por tudo. Mas se há vestígios dos elementos, que existem na actual música clássica, na minha própria música, eu sentir-me-ei orgulhoso por isso, embora me pareça que eu não sou suficientemente bom para poder afirmar uma coisa dessas. Acho que a minha música é muito simples e básica, porque os meus conhecimentos de música são muito básicos. Os actuais compositores clássicos fazem-me sentir envergonhado, porque parte da música que eles escrevem é incrível. Mas pelo simples facto de ser apresentada de uma forma particular, utilizando violinos e orquestras inteiras, as pessoas rejeitam essa música. E isso é devido ao facto das pessoas encararem a música pela sua forma e não pelo seu conteúdo. Se se orquestrasse a música que eu faço, as pessoas não a ouviriam sequer. Mas como eu utilizo a guitarra e o piano, isso permite uma audição mais fácil.
M&S - Mas tu disseste que neste teu último álbum resolveste incluir um oboé e outros instrumentos. Será que isso não significa uma espécie de contacto com a música clássica?
V.R. - Bem, parte deste último álbum é como que meio clássico. Eu nunca seria pretensioso ao ponto de afirmar que se trata de música clássica, porque de modo algum é tão bom como isso. Simplesmente, tem um som um bocado clássico, mas de maneira nenhuma é suficientemente inteligente para ser considerada música clássica.
M&S - Preocupas-te, de algum modo, com os problemas sociais em Inglaterra ou em qualquer outra parte do mundo?
V.R. - Sim... por exemplo, é estranho estar aqui a dar esta entrevista ou fazer um concerto.. é bom quando as pessoas nos dão atenção, toda a gente gosta de ser alvo de atenções, mas às vezes gostaria de pedir às pessoas que não levassem a música tão a sério... Embora seja bom ter-se a atenção das outras pessoas, por um outro lado é também chato. Às vezes apetece-me dizer: "Meio mundo está a morrer à fome, e afinal de contas isto é só música." O que é mais importante afinal? As pessoas deviam preocupar-se mais com o facto de meio mundo estar a morrer por falta de comida, e a distribuição do poder económico ser absolutamente estúpida, por exemplo, em Inglaterra, qualquer coisa como 2% da população detém 70% da riqueza do país, e esse tipo de coisas é totalmente absurdo. Eu preocupo-me com o que se passa à minha volta, mas não me parece que eu possa fazer muito contra isso. Afinal o que é que nós podemos fazer? A única coisa que se pode fazer é dizer isso às outras pessoas. Mas sempre que eu tento escrever letras de carácter político ou social, as palavras parecem tropeçar umas nas outras e tudo soa um bocado atabalhoado e a "slogan", e parece que estou a tentar impor as minhas ideias às pessoas... Cada um devia estar consciente dessas coisas ele-próprio. E eu acho que sou bastante egoísta e obcecado com os meus próprios problemas, e por isso escrevo sobre mim e sobre as coisas que me acontecem.
M&S - Acabaste de dizer que a música não é tão importante como diversos problemas sociais - por exemplo, o de tanta gente estar a morrer à fome. Mas disseste também que, para ti, compor música é algo tão importante como comer e beber. Não te parece que para as outras pessoas a música pode também ser tremendamente importante? Por exemplo, ouvir os teus discos pode ser um tipo de estímulo quase vital...
V.R. - ... Esse é um bom argumento... Eu penso que sim, mas não percebo porquê. Talvez isso aconteça porque, por exemplo em Inglaterra existe muita gente jovem que prefere comprar um disco a comer, e por isso não comem durante uma semana para juntarem dinheiro. Por isso acho que deves ter razão. Mas eu não sei porque é que isso acontece.
M&S - Achas que pode existir uma certa identificação da parte das pessoas que ouvem e sentem a tua música, para contigo?
V.R. - Era óptimo pensar isso. Não sei se será ou não verdade, mas se isso acontecesse seria óptimo.
M&S - Falou-se há pouco dos Joy Division. Acreditas na possibilidade de um dia aparecer um grupo capaz de retomar o espírito da música deles?
V.R. - Bem, é difícil de dizer, porque no momento actual (e eu estou a falar unicamente da situação em Inglaterra, obviamente porque é com ela que eu tenho contacto), há muitos imitadores dos Joy Division, e são todos muito, muito maus. Não se pode imitar pessoas como eles. Nunca haverá outro Ian Curtis, e essa foi uma das razões porque os Joy Division mudaram o nome para New Order quando Ian morreu. O que eles hoje fazem é totalmente diferente do que faziam os Joy Divison. Os New Order actualmente têm muito êxito e estão muito distantes do estilo e espírito original dos Joy Division. T~em um tipo de música muito própria e válida. São pessoas únicas e muito talentosas... e também há muitos imitadores deles. No último álbum dos New Order, que vai ser editado possivelmente dentro de um mês, eles mudaram de direcção uma vez mais, e consequentemente todos os imitadores ficaram para trás, e hão-de estar sempre um passo atrás. Não deixa de ser divertido. Mas ao mesmo tempo é deprimente ver que as pessoas têm necessidade de imitar porque não conseguem criar algo próprio. E isso é justamente o que está a acontecer em Inglaterra, no music business. A música continua a estar nas mãos dos "businessmen", e isso é muito triste. A única coisa que eu vi, e que me pareceu interessante, foi, para dar um exemplo, um disco de Marvin Gaye chamado "Sexual Dealing", que está a ter um enorme sucesso. Esta música é do último álbum do Marvin Gaye e de certo modo tem muito a ver com a música de um grupo que são os Orchestral Manoeuvres In The Dark, que são um grupo post-punk de música electrónica. O que parece estar a acontecer agora é uma fusão entre a músic apost-punk electrónica feita em Inglaterra baseada na soul-disco americana. Há agoar um tipo de música baseado em sintetizadores programáveis por computador, e para além disso utilizam-se técnicas de estúdio que se costumavam usar na música reggae, e obtém-se esta estranha combinação de coisas que agora está a evoluir e a dar lugar a uma forma de música bastante excitante. É a única coisa nova, que ainda dá algum sinal de vida, que eu ouvi de há algum tempo para cá. E uma das coisas mais excitantes é que um dos melhores produtores deste tipo de música, nos Estados Unidos, é um homem chamado Arthur Baker, e os New Order foram a Nova Iorque para trabalhar com ele. Talvez daí apareça alguma coisa nova. Estou bastante curioso para ouvir o resultado. Para além disso, não há nada de novo na música inglesa. Na minha opinião, é tudo bastante maçador.
M&S - Porque é que deixaste de trabalhar com o produtor Martin Hannett?
V.R. - Fundamentalmente porque eu pretendia um maior controlo. O novo álbum foi produzido por mim e por um engenheiro, porque eu queria obter maior controlo sobre o som total. Muito frequentemente acontece que entre o que é gravado e o que se ouve no fim, após a mistura, não há grandes semelhanças. O produtor pode mudar tudo. O que está errado. O Martin Hannett é muito bom nisso, mas eu não queria que as coisas se processassem dessa maneira. Pretendo uma maior honestidade, de modo a que o que as pessoas ouçam no fim seja o mesmo que eu gravei. Foi por isso que eu deixei de trabalhar com o Martin.
M&S - Bruce Mitchell disse-me que a capa de "LC" é a reprodução de uma pintura da mulher dele. Achas que existe uma identificação entre a tua música e as capas de "LC" e de "The Return Of The Durutti Column"?
V.R. - Acontece que eu gosto de artes visuais, especialmente de pintura, mas sou ignorante a esse respeito. O meu pintor preferido é um francês de quem usei três quadros na capa de "The Return Of The Durutti Column". Quando eu fui a casa de Bruce para lhe pedir que tocasse bateria comigo, reparei nos quadros pendurados na parede dos quais eu gostei muito, mas não fiz nenhum comentário a esse respeito, nem lhe perguntei de quem eles era. Mais tarde soube que a Jackie, a mulher dele, que tinha deixado de pintar algum tempo antes, recomeçou a pintar quando ouviu a minha música, porque isso fê-la ter vontade de pintar outra vez. Houve como que um encontro das duas mentes, e eu pedi-lhe imediatamente que fizesse a capa de "LC". Além disso, ela também fez a capa de um disco editado na Bélgica, "Two Triangles", e está a fazer a capa do novo álbum. Há realmente um relacionamento espiritual, e isso é óptimo.
M&S - Tu referiste-te à pintura. Tens algum tipo de interesses, para além disso e da música?
V.R. - Sim, eu gosto muito de ler. Provavelmente o meu autor preferido é Graham Greene. Gosto também de fotografia, e acabei de comprar um carro, porque adoro guiar. Mas essencialmente, o que aprecio mais é a música. Sou realmente obcecado por música.
M&S - Achas que existe relação entre a música e outras formas de arte?
V.R. - Sim, sem dúvida. Uma das coisas que eu espero poder fazer é escrever o guião de um filme, o qual está agora a ser estudado. E acho que a música completa um filme. A imagem faz com que a música soe melhor, e a música faz com que a imagem pareça melhor. Complementam-se uma à outra. E isso acontece também no caso do teatro, da pintura... Uma das coisas que eu gostava de fazer era realizar uma exposição dos quadros de Jackie, utilizando a minha música como complemento sonoro. Tenho montes e montes de música que nunca será editada em disco, é o material que eu componho no meu quarto. Por isso gostaria de gravar todo esse material que nunca há-de ser editado, numa bobina, e utilizar essa gravação numa exposição das pinturas de Jackie. Acho que isso resultaria muito bem, foi uma ideia que nós tivemos recentemente.
M&S - Gostarias de fazer um filme ou vídeo para ilustrar a tua música?
V.R. - Sim, mas não saberia como fazê-lo (ri-se). É uma ideia gira, mas para isso teria que trabalhar com especialistas de vídeo.
M&S - Gostava que me falasses sobre o teu trabalho com Bruce. Como é que aconteceu o vosso encontro?
V.R. - Foi bizarro, porque ele vive a curta distância das instalações da Factory Records e eu nem sabia disso. Um dia, quando eu estava na Factory, queixei-me de não conseguir encontrar um baterista com quem eu pudese trabalhar, e que fosse original. O único baterista que me ocorria era Bruce, que tocava na banda Alberto Y Los Trios Paranoias, e eu achava-o um músico incrível. Pensava que nunca haveria possibilidades de ele vir tocar bateria comigo. Aconteceu que eu mencionei isto, nesse dia, quando estava na Factory, e Alan, um homem que trabalha lá, telefonou imediatamente ao Bruce e disse-lhe "Vini Reilly vai aí agora. Vais ficar em casa?". Então eu dei a volta ao quarteirão e fui a casa dele, e quando lhe perguntei se queria trabalhar comigo ele disse-me imediatamente que sim. Desde essa altura tudo tem sido perfeito, não há outro baterista com quem eu possa trabalhar.
M&S - Não achas que é espantoso como duas pessoas tão diferentes uma da outra, como são tu e Bruce, podem trabalhar juntas de uma forma tão harmoniosa?
V.R. - Acho que é precisamente por causa dessa diferença que tudo resulta tão bem. Eu estou a viver em casa do Bruce até ter a minha própria casa. Por isso, além de trabalharmos juntos, nós vivemos juntos, e mesmo assim de maneira nenhuma nós temos discussões ou rixas. E eu acho que isso é devido precisamente ao facto de nós sermos tão diferentes e de ele   Acho que essa é a única explicação. Há uma grande ligação entre nós.
M&S - Que idade tens?
V.R. Idade? (ri-se) A isso não respondo...
M&S - OK, é tudo. Obrigada.
V.R. - Obrigado eu.
Manuela Paraíso 


Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. Blancmange - "Galinhas Computorizadas", artigo por Fernando Neves
. Altered Images - "A Reinvenção Do Pop", artigo por Célia Pedroso
. Laurie Anderson - "A Ciência Da Iniciação", artigo por Amílcar Fidélis
. ABC - entrevista por José Maria Corte-Real
. Syd Barrettt - artigo por Manuel José Portela
. Japan - "(Un)quiet Life", artigo por Manuela Paraíso
. Discos em Análise:
.. Blue Oyster Cult - «Extraterrestrial Live" [CBS 22203], por Nuno Infante do Carmo
.. Depeche Mode - «A Broken Frame» [MUTE 609302], por Célia Pedroso
.. Peter Hammill - «Enter K» [Mercury 6302215], por Carlos Marinho Falcão
.. Go-Go's - «Vacation» [Illegal Records ILP 85961], por Célia Pedroso 




5.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (128) - Música & Som #78


Música & Som
Nº 78
Janeiro de 1983

Publicação Mensal
Esc. 100$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lda.
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.


O Leitor Escreve
A Paixão Heróica Dos Anos 80
"What are we fighting for?"

Marianne Faithfull in "Broken English"
O Rock, nas suas díspares emoções, sempre se tem comportado como um movimento flexível, sujeito a amores fugazes, a modas estranhas, a ciclos destemidos, a concepções flutuantes. Quando o rock, nos primeiros anos da década de 70, se começou a disciplinar, tornando-se uma execução ritual de sons que assim haviam sido baptizados, a paixão generosa dos jovens achou-se momentaneamente órfá, sem a vocação de insubmissão que marcava o rock, como mais do que um qualquer movimento musical.
Assim, essa imagem enevoada a que ainda se chama rock (mais até por uma questão de definição), foi perdendo a inocência que os jovens movimentos loucos e nihilistas transportam. Ginsberg e Warhol, Velvert Underground e Jefferson Airplane passaram a fazer unicamente parte de um mito que alguns (já poucos) reverenciam e que a maior parte olha como se de uma cicatriz adiada se tratasse. O rock havia-se tornado uma indústria obcecada pela perfeição, gingando entre correntes amorfas e doentias (a primeira metade de 70 é de uma pobreza quase confrangedora) e opções que se identificavam com uma evolução negativa.
Quando em 1976 rebenta o fenómeno Punk, há finalmente a clara demarcação de eixos tendenciais da evolução da música. O Punk, mais do que uma sacudidela na saturação que o rock apresentava, foi uma opção, em termos de novas vias, para o percurso musical dos nossos dias. O Punk trouxe à música rock aquilo que ela há muito tempo já não conhecia: inquietação. Ignorou a harmonia, mas saudou o imediatismo rítmico. Mas, mais do que isso, trouxe-lhe o esclarecimento profissional que, curiosamente, havia sido a base de contestação sonora punk (é espantoso como um movimento que nasce nas ruas, de jovens sedentos, da recusa de tecnicistas, será hegemonizado pelos futuros tecnocratas que hoje pululam pelas maiores editoras conhecidas e dos quais Malcolm McLaren, no seu exotismo, é o mais conhecido).
No fundo, o punk estabeleceu novas opções, não só musicais, mas, fundamentalmente, traduziu-se em propostas inovadoras no savoir-faire comercial (vide as editoras que conhecem o seu salto, a Virgin e a Stiff, e a nova geração de "independentes" que se lançam no rescaldo do pandemónio punk), ao chocar com as concepções musicais dominantes nas editoras estabelecidas. Mas, a insubmissão punk (curioso como as suas "eminence grise" estão hoje no topo do universo musical britânico) durou pouco tempo. Depois disso, quase todas as bandas, estrangulando o movimento, se dirigiram para uma área bem mais frutuosa: o pop.
Não gostar, pelo menos minimamente, do som que hoje as ilhas britânicas produzem é um passo muito tentador, a que só os resignados defensores da geração hippie ainda têm a coragem de opor o dogma da nostalgia. É impossível resistir ao fascínio que emana das bandas pop de hoje e da sua ideologia (simples) de lazer e prazer. O nosso cepticismo face ao valor da simplicidade que elas nos trazem é o discurso possível para quem (como nós) se recusa cada vez mais a seguir unicamente os ímpetos racionais (não gostar) e se lança numa aproximação incómoda porque unicamente emocional (gostar). Mas isto é algo que geralmente se sente em cada meteórica pista de dança e que não ultrapassa a mera paixão idiota. Na verdade, a lírica pop é insípida e o seu imediatismo musical é esquecível a curto prazo. As suas propostas sedativas são trabalho excelente de produtores (Trevor Horn, Martin Rushent) e, cada vez menos, de músicos. Mas, as correntes pós-punk a que a sua raiz ainda consegue dar uma consistência mínima, debatem-se hoje com o pavor quase chocante de serem ultrapassados pela Moda. No fundo, na sua renovada arqueologia de um exotismo esclarecido, caem (ressalvando as diferentes causas e efeitos) nos erros que os esforçados (mas pouco convincentes) defensores do paradigma hippie também caíram: o serem ultrapassados pelas circunstâncias.
A crise, apesar de tudo, é visível, mas as distracções são ainda mais evidentes. Hoje já não se mete em questão a problemática da vanguarda musical e o pop é antes vocacionado para receber juízos apressados. Gosta-se e gasta-se. E é isso: crítica de música hoje (assim como o consumidor) já não pensa o que ouve (apenas julga que ama). Mas o nosso amor compreende, hoje, um período bastante restrito. O pop é de tal maneira efémero que surpreende como os discos vulgarmente designados de importantes se sucedem vertiginosamente nos nossos pick-ups. Hoje, a originalidade é algo que se procura incessantemente, através de rasgos de exotismo, geralmente desastrosos (vide os Modern Romance ou os Blue Rondo à la Turk). Felizmente, nos últimos dois anos, surgiram algumas propostas que ultrapassaram a banalização de sons gerada pela secura de opções com que se debatia o rock: o caso da Joy Division, dos Specials, dos Young Marble Giants ou, agora, de Rupert Hine, Peter Gabriel, Durutti Column, New Order ou Dexys prova que ainda existe encanto inovatório. O que não deixa de ser reconfortante...
Porque, não nos iludamos, o rock, hoje (sobre)vive através de um novo paradigma: a venda. Mas nem por isso é correcto falar apressadamente (e pejorativamente) de "comercialismo". O sempre honesto Kevin Rowland dizia, recentemente, que dava entrevistas porque estas eram razão sine qua non para vender os seus discos e que continuara  trabalhar para meia dúzia de iluminados não valia a pena, já que era necessário que todos conhecessem os seus trabalhos (e todos sabemos que assim deveria ser). O comercialismo tem sido um tabu que artistas (geralmente falhos de imaginação) sempre t~em combatido. E outro tabu, não menos incrível, é o da defesa das editoras independentes. E ambos têm servido enquanto alibi vulgarmente chamado de ideológico.
Tomemos o caso das "independentes" britânicas: a sua táctica é simples (descrevia há tempos um dos seus homens de ponta: uma mistura de Marx - analisar as movimentações de infra-estrutura - e de Maquiavel - como conseguir os tops e lá se manter). No fundo, muitos dos discos das independentes (vide Joy Division, Depeche Mode ou Yazoo!) vendem mais que os das grandes editoras (o único óbice é sua entrada nos tops normais é o sítio onde vendem). Ora, se se seguir a lógica (sedutora e, ainda que nos custe, correcta) de que tanto se suja as mãos com lucro, seja este muito ou pouco, vale mais aderir às grandes editoras. As "independentes" têm assim funcionado como verdadeiros indicadores de mercado, conseguindo lucro onde e como as "gtrandes" nunca conseguira (devido à sua estrutura burocrática e pouco adaptável a conjunturas que as ultrapassem), devido à sua elasticidade num mercado móvel como é o actual (ao contrário do que havia sido no período anterior à revolução punk). As linhas de força da compreensão do fenómeno rock residem hoje em como vender (segundo os modelos tradicionais ou segundo os alternativos) e em fazer produtos que resistem ao tempo, como abstracção possível da moda que hoje nos submerge. E é só isso que conta.
Dizia Malcolm McLaren que "um homem que se senta no seu escritório, vendendo discos, não é um homem muito criativo". E nós, pragmaticamente, não podemos deixar de concordar.
Fernando Almeida Sobral



Concerto de Peter Hammill
Para Além De Todas As Palavras

por Ana Rocha
Fotos: José Tavares

Há nomes que nunca mais se esquecem. Há figuras que se libertam da lei do esquecimento, pela qualidade das obras que transportaram a sua chancela. Peter Hammill faz parte desse Panteão de Heróis. Distancia-se do grupo de funcionários que faz música para vender, para entreter, para se escutar enquanto se deglute o almoço no snack. A sua música exige uma concentração total. Não é possível estar a ler um livro enquanto se escuta os VDGG. Uma actividade exclui a outra. Opta-se. Impreterivelmente.
Fazendo progredir a sua música, extirpando-lhe arremedos sinfónicos, Peter Hammill, muito inteligentemente, constrói música dos anos 80, mantendo-lhe no entanto uma dimensão muito pessoal (quase mística), sem ceder a modas e tendências de momento. É actual e moderno sem estar na moda. Soube terminar os VDGG num momento em que tal decisão se impunha. Soube encetar uma carreira a solo sem recorrer aos conceitos expressos nos LPs dos Van Der Graaf Generator.
O último concerto de Dezembro foi o seu. A temporada de 82 fechou-se com chave de oiro.
Milhares de adeptos dos VDGG e de Peter Hammill reuniram-se no Pavilhão de Alvalade para escutar ao vivo um dos mais interessantes músicos destes últimos 12 anos. E não saíram desiludidos. Interpretando temas dos seus três últimos LPs (PH7, Sitting Targets e Enter K), acompanhado por dois ex-Van Der Graaf Generator - na bateria Guy Evans, um veterano, e no baixo Nic Potter - e por um terceiro elemento vindo dos lados de Peter Gabriel, o guitarrista John Ellis, Peter Hammill agarrado à sua guitarra, seca e nervosa, envolto numa camisola com o Frank Sinatra gravado, a todos envolveu na sua aura de mistério e emoção, atingindo momentos de verdadeiro delírio num Pavilhão cheio de adeptos e convertidos. Três calorosos encores - por exigência do público, que nestas coisas, manda - terminaram uma actuação límpida e grandiosa.
A primeira parte foi preenchida pela actuação da Lena D'Água & Banda Atlântida, que, em tempo breve, interpretaram seis dos seus temas mais conhecidos do público. Deu direito a um encore.







Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. artigo sobre os Magazine, de autor não identificado
. artigo / coluna: Prosas de Fogo e Água - "O Rock e a Droga: Elogio do Quotidiano (2ª parte)"
. Discos em Análise:
.. The Durutti Column - «LC» [Factory VFACT 111-18], por Carlos Marinho Falcão
.. Kate Bush - «The Dreaming» [AMI IIC 078 64589], por Manuela Paraíso





4.9.15

Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (127) - Música & Som #75


Música & Som
Nº 75
Setembro de 1982
Publicação Mensal
Esc. 100$00

Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: A. Duarte Ramos
Chefe de Redacção: Jaime Fernandes
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lsª
Colaboradores:
Ana Rocha, Carlos Marinho Falcão, Célia Pedroso, Fernando Peres Rodrigues, Hermínio Duarte-Ramos, Humberto Boto, João David Nunes, João Freire de Oliveira, João Gobern, João de Menezes Ferreira, José Guerreiro, Miguel Esteves Cardoso, Nuno Infante do Carmo, Manuel Cadafaz de Matos, Pedro Ferreira, Raul Bernardo, Ricardo Camacho, Rui Monteiro,Trindade Santos.
Correspondentes:
França: José Oliveira
Holanda: Miguel Santos e João Victor Hugo
Inglaterra: Ray Bonici

Tiragem 16 000 exemplares
Porte Pago
56 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.



Entrevista Com Os Durutti Column
por: Ana Rocha

Suaves Revoluções




Bastante antes da sua actuação, já Vini Reilly (guitarrista, teclista e responsável por todos os temas) e Bruce Mitchell (baterista) se passeavam pelos bastidores do palco montado em Vilar de Mouros. Tony Wilson, o patrão da Factory, e o manager da Coluna de Durutti seguiam constantemente Vini, um jovem enfezado e tímido, de pequeninos olhos azuis, enfiado numas colossais pantalonas de ganga, nervoso e pálido. Bruce Mitchell, um quarentão jovial e jocoso, procurava garrafas de vinho nacional à falta de melhor. Só no dia seguinte é que conseguiria arranjar umas ervinhas muito procuradas pelos agentes da Judiciária.
Depois de muita insistência junto do manager de Vini Reilly, conseguimos que ele se sentasse a um canto. Vini não parecia contrariado ou enfadado por ir dar uma entrevista. Mostrava, sobretudo, um certo alheamento relativamente ao que se passava à sua volta.

M&S - Gostava que falasses sobre a parte inicial da tua carreira como músico, antes de Durutti Column.
Vini Reilly - No início eu fiz parte de uma banda que se intitulava The Noise Please. Trabalhei em programas de televisão. Fazia música de filmes. Foi por essa altura que eu conheci o Tony Wilson. Eu já tinha ideia de que a música pop passava por um momento de crise, que a indústria tinha tomado conta dela e que a tinha totalmente destruído. O pop tinha-se tornado num verdadeiro negócio. Não valia a pena ser tocado. E eu comecei a sentir-me tremendamente deprimido. Tive de passar a depender de comprimidos. O médico receitava-me imensos. Eu sofro de falta de apetite e o médico que me acompanhou é de opinião que os comprimidos de LSD estimulam os aminoácidos. Portanto eu tenho autorização de consumir desse tipo de coisas, com receita médica. Entretanto, o Tony viu que a música me podia safar desse estado depressivo e pensou que seria bom eu formar uma nova banda. Depois de muita hesitação, finalmente concordei em reunir um guitarrista, um baixista e um baterista. Começámos a trabalhar e comecei a notar que eles tinham a mania que eram estrelas. Eles insistiam no seu estatuto de estrelas e eu resolvi abandonar o grupo. Escrevi um bilhete ao Tony Wilson a informá-lo desse facto. Mas o Tony veio ter comigo e disse-me que estava interessado em trabalhar comigo e não queria nada com os restantes elementos da banda. Despediu-os e fiquei eu.
M&S - Isso aconteceu por volta de 1979.
Vini Reilly - Pois. Eu já estava a escrever pequenas composições. Mas como o punk e o Malcolm McLaren estavam na berra, o Tony e eu pensámos que seria pouco correcto lançar um álbum de temas muito suaves, com música de piano, tudo muito doce.
M&S - O Malcolm McLaren teve alguma coisa a ver contigo?
V.R. - Ele sempre teve umas ideias muito concretas sobre a situação que se estava a viver no momento. Ele era situacionista.
M&S - E que é que isso teve a ver contigo?
V.R. - Basta dizer-te que escolhi o nome Durutti Column em homenagem a um tipo que era anarquista e que foi abatido por volta de 1920; chamava-se Durutti, claro.
M&S - E isso quer dizer que os Durutti Column são anarquistas?
V.R. - (sorrindo ligeiramente) - Não somos activos...
M&S - Essa medalha que trazes pendurada ao peito o que representa?
V.R. - Deu-ma a minha irmã no dia dos meus anos. É uma moeda antiga. Dum lado tem o signo e do outro tem a efígie do rei.
M&S - Porque motivo andas com a imagem do rei pendurada ao peito? Isso tem a ver com qualquer posição a favor da monarquia?
V.R. - Não quero responder a isso.
M&S - Como é que foi gravado o teu LP?
V.R. Eu não queria pactuar com a indústria discográfica. E ia fazendo os meus temas, distanciado dela. Aliás penso que a indústria discográfica é verdadeiramente patética. Já levava para o estúdio cerca de trinta temas acabados, e em apenas duas sessões, o álbum ficou pronto. O Tony e o Martin Hannett decidiram quais é que eram os temas adequados.
M&S - Tencionas voltar a trabalhar com o Martin Hannett?
V.R. - Não. Quero ser eu a produzir os meus trabalhos. Não quero mais nada com ele em termos de produção. Sou eu o único responsável pelos temas dos Durutti Column. Sou eu que componho, interpreto, toco todos os instrumentos, escrevo as letras...
M&S - E o Bruce Mitchell?
V.R. - Ele faz a parte da percussão e da bateria. No palco só estamos nós os dois. Eu ando dum lado para o outro a tocar os restantes instrumentos.
M&S - Quais são os teus planos para já?
V.R. - Eu estou a escrever música para alguns filmes de televisão. Durante cinco semanas vou-me dedicar a isso e depois vou preparar o meu novo álbum. Vai ser totalmente diferente do que aquilo que tenho feito até agora. Mas os temas continuarão a ser muito pessoais. Vou tentar aventurar-me mais, sendo menos tecnicista.
M&S - Sentes muita necessidade de criar, de escrever música? Isso liberta-te da tua depressão?
V.R. - Eu penso que compor música é a única justificação que eu encontro para continuar a viver. Acho que, a todos nós são dados uns tantos anos para fazer alguma coisa, para viver. E eu tenho que justificar a minha existência. Eu vejo que as pessoas que me rodeiam, a sociedade em que eu vivo nada faz para merecer viver. Eu sinto necessidade de fazer coisas.
M&S - Gostas mais de actuar em Inglaterra ou em países que não sejam de expressão inglesa?
V.R. - Penso que é um desafio maior vir tocar para pessoas que não conhecem a minha música. Em Inglaterra, a imprensa procura dar cabo dos grupos. Passam a vida a aborrecer os músicos. A imprensa cheira mal, tresanda... E esquece-se que, apesar de todas as críticas que ela produz, os discos continuam a vender-se. A indústria discográfica está corrupta. É necessário empreender uma revolução para alterar o estado das coisas.
M&S - E os Durutti Column estão dispostos a estar na vanguarda desse movimento revolucionário, a fazer a revolução?
V.R. - Estamos preparados para o fazer de uma maneira muito suave, muito calma.
M&S - Encontraste uma boa recepção na América?
V.R. - Fiz concertos em Boston, Nova Iorque, Toronto e Montreal e posso afiançar-te que fiquei agradavelmente surpreendido com a boa recepção que por lá tive. Poucas pessoas conheciam a minha música e no entanto reagiram muito bem.
M&S - Preocupa-te o tamanho do recinto onde actues? Preferes actuar em salas pequenas ou grandes?
V.R. - Para mim, não interessa nada o tamanho do recinto onde actuo. Depende das músicas que interpreto. Se vejo que há mais público a encher a grande área, recorro a um material mais excitante. Principalmente se noto que as pessoas estão a impancientar-se...
M&S - Tens alguma preferência relativamente à música que se faz na Grã-Bretanha?
V.R. - Há centenas de grupos que não são comerciais e que fazem boa música. Eu tive a sorte de me encontrar com o Tony Wilson e de poder gravar a minha música. Há muito mais pessoas criadoras que ainda não tiveram essa chance. Ouço os A Certain Ratio, por exemplo... mas não ouço muita música desta que se faz actualmente... Ouço aquele material maçador (That boring stuff) do Tchaikovsky... do Benjamin Britten... Isto que eu estou a dizer pode parecer preconceituoso, mas, na realidade, eu tenho muita dificuldade em concentrar-me e não escuto muito a música que os outros fazem.
M&S - Quando sobes para o palco, sentes-te deprimido?
V.R. - Durante 50 minutos, esqueço o meu estado de espírito, a depressão.

Vini parecia fatigado. Afastámo-nos para tentar encontrar o acompanhante, Bruce Mitchell. Não tardou muito que o mesmo estivesse sentado no mesmo sítio onde, meia-hora antes, tinha estado Vini. Bruce pareceu estar com vontade de falar e de contar histórias. Aqui estão elas.



M&S - Sabemos que tu também tens trabalhado com o grupo Alberto & Los Trios Paranóias. Como é, trabalhar em dois grupos tão diversos?
Bruce Mitchell - São dois estilos completamente opostos. Mas eu, essencialmente, acredito no talento, nas pessoas que o t~em. E tenho estado a trabalhar com o Vini de há um ano para cá.
M&S - Preferes trabalhar inserido nos Durutti Column ou nos Alberto & Los Trios Paranóias?
B.M. - Não sei fazer a escolha, porque são dois estilos completamente opostos. É como estar a trabalhar em dois mundos diferentes. Eu «sou» duas pessoas, mudo de personalidade. Estou sempre a trabalhar em duas esferas opostas.
M&S - Que pensas da vossa vinda a Portugal?
B.M. - Eu já vivi em Portugal há cerca de 12 anos, durante três meses, integrado num grupo, The Flame. vivi em Cascais. Adoro a comida portuguesa. E o vinho!
M&S - Como é trabalhar com o Vini Reilly?
B.M. - Penso que isso constitui um desafio muito grande para mim, dado que o Vini é um grande estilista. Nunca sei qual é a nota que ele vai tocar a seguir. E penso que nem ele próprio sabe o que vai tocar! É perfeitamente imprevisível! É a mesma sensação que eu teria se estivesse com o Ravi Shankar!!! Mas tu já topaste como é o Vini? É um tipo cheio de piada! Reparaste nas calças que ele traz?!!!
M&S - E como era trabalhar com o Alberto & Los Trios Paranóias?
B.M. - Eles são completamente chanfrados! Totalmente! São giríssimos! Já fizemos uns shows para a televisão, em que entrou também o lunático do John Cooper Clark e asseguro-te que os espectáculos foram bizarrissímos!
M&S - O Alberto já morreu há uma data de tempo, não é?
B.M. - Há cerca de três anos. Morreu com um cancro. Ele sabia que ia morrer e nas últimas semanas de vida foi visitado no seu quarto do hospital por uma data de celebridades... O Elvis Costello... o Ian Dury... muita malta da Stiff... E quando foi o enterro?!!! Então aí é que foi o fim da picada! Foi enterrado nos montes dos Peninos. O cemitério ficava no topo do monte e tivemos de transportar o Ian Dury até lá acima numa padiola! Estava um frio danado! Nevava! E agora vamos lá todos os anos dançar sobre a tumba! Nunca me diverti tanto num funeral!! Estavam montes de pessoas conhecidas! E o Alberto, como não gramava o padre e já esperava um discurso fúnebre viciado, resolveu fazer um elogio fúnebre e um comentário que depois entregou ao padre, exortando-o a lê-lo durante as cerimónias do enterro. E esse discurso fazia críticas à malta que estava presente, dava agradecimentos e cumprimentos a outros... enfim... aquilo foi um verdadeiro pandemónio! E quando ele estava no hospital, o Ian Dury foi lá para lhe cortar o cabelo! Ai, aquele Alberto!...

Já estava quase na hora da actuação. Bruce Mitchell revelou ser o oposto de Vini Reilly. Mais comunicativo, mais brincalhão, sempre com piadas na ponta da língua, com histórias mirabolantes resultado de uma longa carreira no interior do show-business, muitos contactos com vários grupos, muitos anos como baterista. Ao longo do espectáculo, era o contraponto do sisudo e alheado Vini Reilly, sempre com o sorriso nos lábios. Eis uma das facetas dos Durutti Column, uma banda verdadeiramente genial, com um mentor jovem como Vini a brindar-nos com as suas efusões musicais.



Vilar De Mouros 82:
Estranhas coisas.
Estranhos lugares.
Estranhas gentes!


Do nosso enviado especial Carlos Marinho Falcão
Fotos: Luís Ramos

«Loucura! Loucura! Loucura controlada... sem medicamentos... sem camisas de força! Loucura controlada pela vossa inteligência e pelo amor! Adeus, adeus... obrigado, obrigado!...»
Com estas palavras épicas, sem dúvida, se declarou averto o festival de Vilar de Mouros de 82, pela voz do dr. Barge, essa mistura deliciosa de português à moda antiga e de louco sem idade. Eram cerca de 22.30 e o público começava a impancientar-se...

Entre coelhos e estranguladores

Um riozinho mimoso, uma meiguice bucólica, uma paisagem campestre subitamente invadida por uma estranha romaria. Bonito e curioso, um painel cheio de contrastes - porreirinho. Sobre o palco, finalmente, Echo & The Bunnymen, a bandazinha deliciosamente atormentada de Ian McCullogh e, presentemente, uma das minhas favoritas. Não desiludiram, os Bunnymen. Capazes de transpor para o palco todo o ambiente impetuoso e lírico dos seus trabalhos em disco, eles foram justamente os primeiros heróis do festival e, como a seguir veremos, talvez os únicos da noite.



Vital e expressiva, caudalosa e explosiva, a música dos Bunnymen em Vilar de Mouros foi capaz de criar toda uma ambiência sonora, cardíaca e impetuosa, arrebatadora e empolgante, conducente directamente ao coração da festa, ao centro da paixão, à sístole e à diástole do corpo em estreita comunhão com a terra e o céu. Concentrado e conciso, tímido e neurótico, Ian McCullogh foi o mestre de cerimónias. Por vezes, o charme demasiado vivo, embora fugaz - quase sempre a melancolia. Belo e sedutor. Não faço ideia que tragédias perseguem McCullogh para este se embrenhar daquela maneira nos seus indecifráveis tormentos interiores, mas é o espectáculo que aqui importa e, como espectáculo, é indubitável que a coisa resulta. Com uma fluidez onírica feroz, caóticos e introvertidos, quase todos os temas de «Crocodiles» e «Heaven Up Here» desfilaram perante um público dividido e impaciente, já com um olho posto nos Stranglers, tidos a priori como as grandes estrelas da noite. Puro engano. E, sobretudo, uma atitude injusta para com a banda de McCullogh, que, em Vilar de Mouros, demonstrou ser, na verdade, uma das mais interessantes do rock actual.

Recebidos com pompa e circunstância de superstars, os Stranglers acabaram por ser a grande desilusão da noite. Para eles, de facto, a hora da retirada estratégica parece ter soado. Os lançadores de anátemas, sem dúvida arrefecidos pelos incidentes numerosos com a Polícia ao longo da sua carreira, acalmaram-se. Pelo menos na aparência. Terminada parece estar a época dos concertos/happening, da algazarra tempestuosa. Agora, as palavras-chaves são o rigor, a frieza, a distância. Estranguladores estrangulados pela perfeição formal. Nada de notas deslocadas, uma presença minimal, relâmpagos sóbrios e fugazes de quatro personagens que se apagam humildemente (?) por detrás da sua música. Uma sensação de ausência. Demasiado aplicados na recriação perfeita do som dos sues últimos discos, os Stranglers tornaram-se glaciais, límpidos e indiferentes como a virtude. Negligenciando todo o sentido de dinâmica, em Vilar de Mouros os temas seguiram-se uns atrás dos outros todos semelhantes, sem qualquer subida ou descida de tensão, como que apontados a um alvo (qual?) como a flecha de um arqueiro zen. Autores festejados de uma música feia, o belo-horrível por excelência, em Vilar de Mouros eles não passaram de uma desilusão. No fim, a sensação amarga de nada se ter passado. Nada. A não ser que se trate de uma nova maneira de provocar. Mais subtil...



A Importância de Ser Zé Pereira

Por mais herética que passa ser esta afirmação, não me parece ter sido Vilar de Mouros o lugar ideal para um concerto clássico - pelo menos para aquele concerto clássico. No fundo, sob a capa de uma convivência entre tradições musicais e públicos diferentes reunidos num espaço comum, o que se passou, em parte, foi a simples transposição da ambiência geral de uma sala de concertos tradicional para o campo, para o ar livre.
Neste sentido, se não deixou de ser interessante apreciar o contraste cómico entre a casaca de Vitorino de Almeida e as fatiotas sem dúvida peculiares dos Claudius Qualquerius do rock, forçados ali, um pouco contra-natura, a curtir uma de clássica; se não foi menos interessante notar como essa mesma casaca contrastava com a poeirada que se erguia no ar e nos impestava a todos de alto a baixo, o certo é que, se não fossem os Zés Pereiras, os seus tambores, o seu ritmo, a sua exuberância contagiante, tão próxima do rock, afinal, talvez nos tivéssemos todos limitado a caricaturar o S. Carlos, o S. Luís ou a Gulbenkian, numa paródia burlesca a uma verdadeira convivência entre géneros e tradições musicais diversas, obviamente desejável. E depois, aquela sinfonia (des)concertante!...

A terminar, uma referência muito especial a uma curiosa intervenção de Jorge Lima Barreto (incansável no seu linguajar típico, ao longo de todo o festival...) ao microfone: «Isto que está a acontecer é importante, porque prova que o público não está aqui só para o rock, tem sensibilidade...» Querendo apesar de tudo acreditar não ser isto, exactamente, que ele queria dizer, não deixou de ter piada o dichote. Pela parte que lhe cabe, o rock agradece. Mais que não seja, por uma questão de sensibilidade...

Os Anti-Heróis

Suponho que com o objectivo - muito válido, certamente - de divulgar a cultura do Minho e a sua música, se incluiu no programa a desfolhada à minhota. Só que, efectivamente, aquilo não resultou. Não resultou, porque não podia resultar num palco daqueles, com aquelas luzes, naquele ambiente muito mais virado para outro tipo de acontecimentos. Não quero com isto dizer, atenção, que não fossem de incluir no programa diversas actividades directamente relacionadas com a cultura da região. Pelo contrário, seria até desejável que esse aspecto fosse incrementado já no próximo festival (se houver...), em 84. Mas, definitivamente, não àquela hora, com o público muito mais motivado para outro tipo de música! E, sobretudo, nunca durante duas horas! Desfolhadas à minhota, grupos folclóricos? Por que não durante o dia, como forma de preencher o tempo que, desta vez, as pessoas passaram sem qualquer tipo de ocupação? O mesmo, aliás, se poderá dizer acerca da música clássica. Mas não sinfónica, por favor! Amplificada, medonha - naquele lugar impróprio...

Uma vez desfolhada a espiga, vieram os The Gist - uma banda originada a partir dos defuntos Young Marble Giants. Os anti-heróis, por excelência. A fusão inteligente, ingénua e original do músico com a electrónica, aqui claramente posta ao serviço do homem e não o contrário. Uma experiência curiosa, uma música estranha e bela na sua ornamentação frágil e em metamorfose constante, The Gist foram em Vilar de Mouros a recusa do supérfluo, a provocação atrevida. Sublimes no seu delicioso «crew cut», rapazitos malandros fascinados pela electrónica e procurando tirar dela o melhor partido, eles foram, sobretudo, o escândalo de Vilar de Mouros, diante de um público que nunca conseguiu digerir muito bem aquele gravador «pespegado» mesmo à sua frente, bem no centro do palco. A sua música: um complexo rendilhado elaborado a partir de esquemas rítmicos muito simples, melodias banais a fazer lembrar os bailes de sábado À noite num qualquer clube de bairro, apontamentos melódicos breves, subtis e entrecruzados, acumulados em redor de um tema base. Nada daquilo tem o aparato megalítico do rock, de um certo rock. Ausentes de espectacularidade. The Gist terão sido a primeira grande surpresa de Vilar de Mouros. Apesar da discordância do público...

Você Também?

Pondo de lado a inútil e despropositada tirada antifascista de Vitorino de Almeida (outro incansável do linguajar fácil em Vilar de Mouros), a noite de terça-feira começou com a actuação banal da Orquestra (!?) Mikis Theodorakis. Entoando umas melopeias ditas de intervenção, melodias de sempre para antifascistas, a referida Orquestra (!?) sumiu-se da mesma forma como apareceu - ninguém deu por isso.
Após a actuação relâmpago de Carlos do Carmo, que afirmou estar em Vilar de Mouros com propósitos inteiramente pacíficos (numa brilhante tirada que comoveu toda a assistência), os Jafu'mega foram a primeira banda portuguesa a subir ao palco, dada a ausência dos Heróis do Mar no primeiro dia. Baseando a sua actuação essencialmente em temas do seu segundo álbum, os Jafu'mega revelaram-se aquilo que realmente são: uma banda dotada de músicos de boa craveira (com especial realce para o guitarrista Mário Barreiros - estupendo! - e para Zé Nogueira, no sax), fazendo uma música cuidada, uns quantos furos acima do que é comum nas chamadas bandas de «rock português». Criando um som aqui e ali a fazer lembrar os Police (talvez devido ao timbre vocal de Luís Portugal), no final a banda foi fortemente aplaudida, culminando-se assim uma actuação de mérito, um espectáculo dignificante.
Finalmente, a coqueluche da noite, o primeiro momento verdadeiramente alto do festival. No palco, U-2, uma banda cujo primeiro trabalho - «Boy» - se encontra editado em Portugal, embora esgotado.
Pretendem as más línguas que os irlandeses dos U-2, não são os novos Boomtown Rats, mas antes os novos Taste (lembram-se de Rory Gallagher?). Bono (o cantor) não será, talvez, o monstro do palco que ele sempre sonhou ser. The Edge (guitarrista) não é ainda Tom Verlaine, mas, não obstante, os U-2 trazem consigo o expressionismo, a potência inquieta e o lirismo negro capazes de dar um nome decente ao heavy-metal. Isso mesmo, ao heavy-metal.



Porque os U-2 são um caso único. O que é que eles tocam afinal? Qual o género em que se enquadram? Nenhum. Em todo o caso, não é nem novo nem moderno. Vestem-se como se estivessem em casa e tocam os seus instrumentos como se o mundo deixasse de existir à volta deles. Um grupo sem imagem, «Gloria», «Rejoice», «Fire» - três avalanches sonoras condensadas e envolvidas num lirismo elementar. Rod Stewart cantava assim, quando não era ainda o borregão ridículo que hoje é. Obcecada pelo público, a banda rapidamente se torna imbatível no palco: uma voz que fere e emociona, guitarras que inundam, um ritmo diabólico que vibra até à saturação. Optimistas e emocionantes, os temas vão-se sucedendo, entrecruzados de intenções por vezes ingénuas de delicadeza e meiguice. Guiando-se exclusivamente pelo instinto, é como que a um público virgem de toda a cultura rock que a banda se dirige em primeiro lugar. Um público autêntico, capaz de reagir também por instinto, por intuição. Lá, onde outros grupos se apoiam nos truques mais corriqueiros para impressionar e cativar o público, os U-2 surgem-nos armados apenas de uma honestidade humilde, desmunida, ingénua, mas cem por cento eficaz. O som: maciço, épico, cheio de souplesse e energia. Há nesta banda o mesmo deslumbramento do circo. Pequenos grandes truques como «ladies and gentlemen and now, the great!... Bono». E Bono, levado pela densidade empolgante de todo aquele ritmo explosivo, erguido no ar pela guitarra dilacerante e enorme de The Edge, vai aos poucos, através do seu lirismo instintivo, subjugando a multidão - sem se dar por isso, com uma dignidade natural, diluindo-se progressivamente no fluxo sonoro, por vezes para o exaltar, outras, em contraponto, para o «apaziguar», através de uma inflexão violentamente interior. Em suma, foi este vaivém instável, este desequilíbrio eléctrico e pungente que fez da música dos U-2 em Vilar de Mouros uma das mais combativas, persuasivas e atraentes apresentadas ao longo do festival. Uma música unidimensional, sem dúvida, mas, sobretudo, visceral.
Johnny Copeland veio a seguir. O blues do Texas. Apesar do êxito retumbante dos U-2 pouco tempo antes, não foi difícil a este bluesman soberbo agarrar o público, chamá-lo a si. O blues. Sempre o bom velho som cadenciado, aqui e ali a resvalar para o rythm'n'blues, um piano discreto mas tão rigoroso como eficaz nas suas intervenções breves e incisivas, uma guitarra tocada com a alma, uma voz quente, audível até ao pormenor. O blues de Johnny Copeland pode ser escutado como um longo apelo arrancado à alegria e à tristeza, à dor e à melancolia, qualquer coisa langorosamente sensual apontada directamente ao centro da paixão. O homem tem estilo, uma dignidade negra muito especial, cheia de humor e savoir-faire. Enfim, Johnny Copeland: a continuação desejada para o caminho anteriormente aberto pelos U-2. Musicalmente, Vilar de Mouros vibrava verdadeiramente pela primeira vez. Felizmente não seria a última...



Jazz, Jazz, Jazz...

Finalmente, o jazz. Após a ausência forçada e um tanto inesperada dos Old & New Dreams, que, dois dias antes, deixara muita gente desiludida, chegara o momento de destemperar as orelhaças com outras sonoridades, outras estéticas.
O quarteto de Saheb Sarbib foi o primeiro. Com Paul Motian (bateria), Joe Ford (sax soprano) e Booker T (sax tenor), além do próprio Saheb Sarbib no contrabaixo, estes quatro músicos encheram o recinto com uma música rigorosa, um trabalho interessante e homogéneo, com alguns momentos de rara beleza e emoção. Sarbib e Motian: o diálogo perfeito, a malha complexa e subtil sobre a qual os dois saxofones iam construindo quer em dueto, quer a solo, pequenas e (por vezes) maravilhosas viagens melódicas, gemidos orgásmicos gritados cá de dentro (Booker T, principalmente, com apontamentos notáveis nos agudos), ou, pelo contrário, doces melodias coloridas e rendilhadas, tristes e melancólicas, desenhadas com a mestria ímpar de 4 músicos acima de qualquer suspeita. No todo, um jazz muito certinho, sim, mas mais pela qualidade de cada um dos músicos individualmente considerados, do que, propriamente, pelo rasgo inovador, o tom de ruptura, o toque impetuoso da música interpretada pelo grupo. Em suma, quatro músicos de craveira técnica muito acima da média e uma música escorreita, rigorosa, feita sem grandes alardes, mas, ainda assim, recheada de pequenas pe´rolas, momento privilegiados, instantes compensadores. Uma abertura boa quanto baste, enfim, para a noite de quarta-feira...



Rão Kyao foi, sobretudo, uma vítima das circunstâncias. Abstraindo-nos agora de quaisquer problemas havidos com a organização, sucedeu ter sido no momento da sua actuação que ocorreram os incidentes junto da paliçada, com o consequente desvio da atenção de grande parte do público para outro tipo de acontecimentos protagonizados pela GNR e por algumas dezenas de indivíduos que tentavam - e conseguiram - entrar sem pagar, derrubando a paliçada. Talvez por essa razão e também pelo tipo de música tocada, a actuação de Rão Kyao's Goa foi, no seu todo, bastante apagada. Faltou atenção e disponibilidade por parte do público; faltou a Rão Kyao capacidade para (re)conquistar esse mesmo público. Talvez o tipo de música escolhida para o concerto não fosse o mais indicado para aquela ocasião - em que se pediria, talvez, qualquer coisa mais «Swingante», mais festiva. É uma hipótese...
A actuação da Anar Band acabou por não ser mais feliz do que a de Rão Kyao, embora por motivos diferentes. Pomposamente fantasiada com o epíteto de «música de vanguarda», espalhafatosa na sua apresentação, aparatosa na sua redundância, no final, apenas a sensação vaga de nada ter sucedido. Tal como com os Stranglers, a sensação de vazio, de inutilidade, de uma vanguarda vã e fútil submersa e perdida nos meandros da sua auto-indulgência. Como contrapartida positiva, dois aspectos: os diaporamas projectados pelo grupo Neon - sensacionais, sem dúvida! - e a soberba actuação de Vítor Rua, no baixo, fazendo-nos amiúde esquecer o papel essencialmente rítmico normalmente desempenhado por este instrumento. Um acabou por ser só por si o motivo porque a Anar Band não teve um débito de fracasso ainda maior em Vilar de Mouros.
Por fim, e a culminar uma noite apesar de tudo positiva em termos musicais, um dos momentos mais ansiosamente esperados de todo o festival: a actuação da Sun Ra Arkestra.




A primeira conclusão a tirar é: não é possível rotular esta música, porque ela, simplesmente, foge a qualquer tipo de etiqueta. De Ellington a Count Basie, passando, sobretudo, pelo free: tambores africanos e o sax epiléptico de John Gillmore; bailado de influências ocidentais (um pouco desenquadrado de toda aquela euforia negra) e um dançarino capaz de recriar em cada movimento todo o mistério do sentir africano; por fim, a culminar, uma maestro fabulosamente negro (Sun Ra), um Gungunhana do palco, um músico que, não obstante a obesidade, acaba por ser ainda mais escorregadio que uma enguia. Eis a Sun Ra Arkestra: um espectáculo musical e uma cerimónia litúrgica. Uma forma fabulosa de entretenimento e um jazz que, englobando os mais diversos estilos, acaba por ser em si mesmo um estilo. Único. Cíclico. Fechado em si e, simultaneamente, aberto a todas as influências, não simplesmente para as reproduzir, mas, muito pelo contrário, para as recriar e incorporar no todo único e autónomo que é a Sun Ra Arkestra - um ritual pagão transposto para o palco (o altar), em que o público, mais do que nunca, é assumido como um instrumento activo do que se está a passar em palco. Uma música panteísta, uma maestro tirânico, uma enxurrada deliciosamente caótica de música tribal, de simples, primordial e excitante música tribal, o concerto da Arkestra foi a chave de ouro com que se encerrou Vilar de Mouros em termos de jazz.




A Beleza Do Silêncio

Após os episódios pitorescos de quinta-feira (invasão pacífica do palco por alguns elementos do público), que puseram mais uma vez em destaque a fragilidade da segurança (chamar àquilo segurança é já um eufemismo), sexta-feira chegou e com ela a promessa de mais rock, afinal o prato forte deste Festival de Vilar de Mouros 82.



Contratados à última hora por razões obscuras, os Renaissance vieram a Vilar de Mouros demonstrar que, apesar de fora de moda, o chamado rock sinfónico ainda reúne muitos adeptos em Portugal. Fazendo uma música que integra elementos clássicos com algumas influências folk, possuidores de um som personalizado e forte todo ele construído em volta de Jon Camp (baixo) e da voz magnífica de Annie Haslam, os Renaissance podem, na verdade, não ter deslumbrado, mas certo é que também não desiludiram. Com uma actuação bastante fria a princípio, é verdade que só no encore cedido a banda mostrou mais algum entusiasmo, alguma entrega. No baixo, Jon Camp demonstrou o seu virtuosismo espectacular, assumindo-se como o elemento impulsionador de todo o som da banda. Em suma, uma actuação apesar de tudo discreta, uma música hesitante entre a espectacularidade sumptuosa e fácil e um ou outro momento mais interessante, no fundo, fica apenas a questão: para quê trazer esta banda a Vilar de Mouros? Desnecessário e incoerente, se se tiver em conta a importância e, sobretudo, a actualidade das restantes bandas de rock trazidas ao festival.
Com o Durutti Column atingiu-se mais um momento privilegiado em Vilar de Mouros. Uma bateria e uma guitarra. De vez em quando um piano eléctrico. O uso e abuso consciente do eco, como forma de definir um estilo, uma música. O eco. Luminoso e ondulante, marítimo e interior, a utilização exacerbada do eco assume nos Durutti Column um papel fundamental. A música do tempo interior. Apaziguante e bela. Comovente e frágil - a fragilidade dos titãs. Sendo, como se disse, uma música interior, um som que, pura e simplesmente, prescinde rigorosamente de qualquer ideia de espaço, a música dos Durutti Column serve-se do eco como forma de reforçar a permanência do tempo. Neste sentido, elogio da memória por excelência, subtil e bela como só o silêncio, um longo riacho límpido e cristalino correndo serenamente em direcção ao fundo de nós, sente-se (fisicamente) esta música como uma ferida que nunca deixou, afinal, de sangrar, embora por vezes possa parecer o contrário... Memória e silêncio, jardins, flores e infância, com os Durutti Column a viagem faz-se, sim, mas para dentro. Em direcção ao tempo perdido.

O Rodopio Saboroso Do Caos

No sábado, penúltimo dia do Festival, e antecedendo o último grande momento deste Vilar de Mouros 82, tivemos em versão reduzida uma actuação (a última?) dos GNR. No fundo, uma Anar Band revisitada e (felizmente) melhorada - talvez pela presença e pela força cénica e interpretativa de Rui Reininho; talvez pela ausência (no palco) de Jorge Lima Barreto. Enfim, tocando apenas três temas, um realce muito especial para a interpretação (corajosa) de «Avarias», com um final (improvisado pelo Rui) verdadeiramente empolgante pelo seu apropósito.
Por fim, os Rip Rip and Panic...
Um baterista epiléptico, um baixo black funky com visual rasta, eis a base de sustentação rítmica sobre a qual se iria fundar cada um dos temas. Um ritmo completamente infernal, cataratas do Niagara a domicílio, servindo de ponto de partida para o delírio de cada um. Cada um: uma cantora negra, que dança como deve dançar alguém que foi educado nos altos cumes do Quénia, passando depois 5 anos numa art-school de New York - numa palavra, um truque autêntico, coreográfico, improvisado e sensual simplesmente fabuloso. Por vezes, ela canta e então é fantástica, uma voz que grita, improvisa e se transcende, a meio caminho entre o encantatório e o sublime. A seu lado, um companheiro branco em calções, tão caótico ou ainda mais que ela. Tudo isto se passa na parte da frente do palco. Atrás, há um pianista a resvalar para o free de vez em quando; um tipo a tocar trompete e outro a tocar sax e ainda o maluco branco que canta e dança, por vezes toca piano, outras clarinete, após o que vem para diante do público fazer caretas, deitar a língua de fora, incitá-lo. E tudo isto na coisa mais louca e impensável jamais vista. Servindo de pano de fundo, uma música por vezes funky, apelando irresistivelmente à dança, outras vezes free - a improvisação total, o gosto saboroso do caos. Enfim, Rip Rig and Panic: tudo aquilo que os Talking Heads da fase «Remain in Light» nunca conseguiram fazer e que, afinal, aparece aqui incrivelmente simples e louco e sedutor. Uma banda digna do seu nome...
E com os Rip Rig and Panic estava, praticamente, o Festival terminado. De facto, nem a Tom Robinson Band (chamada à última hora para substituir os Hawkwind, impedidos de vir por um dos seus elementos se ter ferido numa mão), nem A Certain Ratio, conseguiram conduzir o concerto em crescendo até ao seu final.
Tom Robinson pode ser simpático, pode ser um mestre em fazer músicas catitas para pôr toda a gente a cantar, mas está longe, muito longe, de ser qualquer coisa mais do que isso (o que já não é pouco, podem dizer-me...);



quanto aos A Certain Ratio, após tê-los visto, parece-me fazerem uma música demasiado pretensiosa, tendo em conta os resultados obtidos - que, convenhamos, foram bastante exíguos. Ideia final: um excelente baterista e um bando de rapazinhos à sua volta, todos muito senhores do seu nariz, experimentando tudo quanto é instrumento diante de um público estranhamente receptivo. Como conclusão, pelo que me foi dado a ver, sobre esta banda terminarei dizendo o seguinte: faz coisas curiosas em disco (algumas delas interessantes mesmo); ao vivo, dificilmente me tornarão a ver num concerto seu. Em Vilar de Mouros não me pareceu valer a pena...


Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
. "Conversa" com Gareth Sager (Rip Rig & Panic), entrevista por Ana Rocha
. Pop Musik - artigo de fundo por Célia Pedroso
. Discos em Análise:
.. Roxy Music - «Avalon» [Polydor 2311 154] por Carlos Marinho Falcão
.. Jethro Tull - «Broadsword and the Beast» [Crysalis, 6399343], por Carlos Marinho Falcão
.. Opinião Pública - «No Sul da Europa» [Rossil Doze/998], por Carlos Marinho Falcão
.. Pigbag - «Dr. Heckle and Mr. Jive» [Y Records - CM LP-003], por Trindade Santos
.. Gang of Four - «Songs of the Free» [EMI 11C 078 64792], por Ana Rocha
.. Né Ladeiras - «Alhur» [EMI 11C 052 40594], por Carlos Marinho Falcão
. Marc Bolan «...Como Um Meteoro», artigo de José Ângelo Guerreiro






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