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26.4.17
António Sérgio - Entrevista
ENTREVISTA
ANTÓNIO SÉRGIO
Vinte anos depois, o regresso Às memórias da rádio e da
música de outros tempos numa viagem de regresso ao «Som da Frente» conduzida
por António Sérgio, num CD agora editado.
EURICO NOBRE
A última emissão do «Som da Frente» foi para o ar na
Rádio Comercial em Agosto de 1993, numa sexta dia 13. Mais de uma década depois
da estreia. Mas nem um momento ou outro significam ou início ou fim de
absolutamente nada. «O ‘Som da Frente’ não é o António Sérgio. É uma coisa já
bem enraizada na década de 80 que já não existe e o António Sérgio ainda cá
está para as curvas. É um produto do António Sérgio, como o foi o “Rolls Rock”,
o “Grande Delta ou o “Rotação”, numa altura em que eu não tinha a noção, pelo
menos nesses primeiros programas, de poder fornecer correctamente esse tipo de
produto à rádio mas onde tinha uma vontade enorme de o fazer correctamente»,
contextualiza o autor do programa.
Com uma carreira cuja origem se perdeu no tempo, confessa
que até há uns anos «sentia muita dificuldade em localizar esse tipo de
coisas». Agora lembra África, «quando comecei a ver alguém fazer rádio à minha
frente. Devo ter visto e aprendido coisas que nunca deixaram o bichinho morrer»
e cita a Renascença, já em 67/68, «a altura em que uma pessoa pode dizer que
começou realmente, com trabalhos de continuidade vulgares». Mas foi apenas mais
tarde que o desenrolar de acontecimentos que fizeram de António Sérgio um dos
mais importantes e respeitados nomes da rádio portuguesa das últimas décadas
tiveram a sua génese. Até porque cada uma das suas experiências como que se foi
encadeando nas outras, apenas mudando o nome e, por vezes, o cenário, mantendo
uma atitude e coerência ímpares.
EM ROTAÇÃO
«O meu primeiro programa de autor é a “Rotação” que
muitas vezes foi reduzido ao punk rock, o que não é verdade, embora tenha sido
a emissão e o meio que deu mais exposição ao fenómeno em Portugal. Agora, há um
tapping evidente do punk rock, porque eu estou muito atento e mesmo muito
interessado como indivíduo, porque tudo o que me está a chegar soa-me bem, as
atitudes, as opiniões, as conversas e os sons quando começam a chegar...»,
lembra sobre o programa inovador. Mais ainda dado o perfil da Renascença. «Na
altura não tinha um canal de FM vocacionado, tinha uma Onda Média que emitia em
FM.» A oportunidade demorou mas chegou e as memórias dos primeiros instantes
ainda estão presentes, quando «em branca», sem qualquer fundo, se apresentou
aos ouvintes: «Boa noite, a partir de hoje passa a existir, entre a uma e as
três, um espaço dedicado a outras músicas no qual pretendemos que toquem nomes
perdidos ou praticamente perdidos...». Nesse rol de nomes «no distante 1976»,
continua, «eu nomeava Frank Zappa, Captain Beefheart, os Byrds, Graham Parsons,
e uma série de outra gente. Estávamos ainda muito longe de haver a advento
Patti Smith».
Sobre a «Rotação» diz ter sido «um programa aventureiro
como todos os outros» desde então. O que se seguiu, já na Comercial, foi o
«Rolls Rock», em 1980. «Um nome inventado pelo João David Nunes, porque era
ideia do Rolls Royce do Rock». Depois quando houve a hipótese de saltar para o
horário diurno, deu-se o início do “Som da Frente”.» Anos mais tarde, no início
da década de 90 experimentou algo diferente, um espaço mais aberto aos sons,
com o «O Grande Delta», na XFM. Nos últimos cinco anos, de regresso à
Comercial, é de novo companhia regular entre a uma e as três da manhã, com «A
Hora do Lobo».
DA NOITE PARA O DIA
Apesar de haver um fio condutor uma vez que «há imensa
coisa no anterior que acaba por ficar sempre na mesma», António Sérgio assume
«não gostar de estar a mudar de estações ou de «slot» sem mudar o nome pelo
menos do rótulo. Não quer dizer baralhar e voltar a dar». Mas, no fim de
contas, «há um tratamento meu com a música e há um entendimento da música
comigo.» E a música, diz, «é toda a que acontece», sem desespero na procura.
«Este desespero é quase uma piscadela de olho de gozo à imprensa do “next big
thing”. O que é que nós agora vamos por como arauto ou como cabeça de cartaz ou
de locomotiva da máquina?». Não há necessidade disso, defende. «Hoje há uma
pacificação da produção musical, os estilos esbateram-se muito, deixaram de
haver grandes estrelas e passou a haver uma série de outras mini-estrelas e os
sons estão a ganhar com isso. O “Som da Frente” é outra coisa, é um tempo de
estrelas mesmo.»
Em 1982, intervém Ana Cristina ferrão, íntima e eterna
cúmplice de António Sérgio, «a Comercial já há uma relação muito directa entre
o Sérgio e o John Peel, porque é ele que em Inglaterra divulga o punk, na BBC.
E o John Peel, que estava sempre a trabalhar à noite muda para um slot diurno.
O Jaime Fernandes tem então a ideia peregrina de seguir o exemplo e colocar na
nova grelha da Comercial o “Som da Frente” às quatro da tarde». Além disso,
recorda Sérgio, «o Barros tinha decidido deixar de fazer a tarde para fazer um
programa da manhã e tomar grandes pequenos almoços (risos)». Tal coincide, como
relata, com «uma mudança de marcha da indústria musical portuguesa, em termos
de andamento de comboio, mas há também uma mudança de situação, que é outra vez
conjuntural, que é a nossa relação com os chamados mercados de importação.» Um
sentimento espelhado no disco agora editado, «Som da Frente: 1982-1986».
A IRMANDADE DA LUZ
«É uma época de quase passa a palavra, de uma vontade
urgente de mostrar as cosias novas. Havia pessoas que me iam levar discos que recebiam
de Londres para eu tocar no “Som da Frente” porque eu tinha a possibilidade de
os mostrar a muito mais gente. Há aqui uma Irmandade, e não é nenhuma Irmandade
de Cruz Negra, há luz no meio disto. Luz da divulgação e do espalhar do bom
gosto e do gozo, no fim de contas».
Foi uma época «de uma militância que era necessária, em
que a música é encarada como um bem muito especial. Passar essa música, ouvi-la
e depois comunicarmos uns com os outros», lembra António Sérgio. «É por isso
que eu gosto muito desse disco, apesar de algumas falhas de repertório que eu
sei que cá estão. Mas mesmo assim o CD é duplo e está cheio até ao fim. Tivemos
mesmo de fazer um “fade out” nos Shriekback, porque o tema era muito grande e
dava para roubar aquele bocadinho, caso contrário não ficava o dos Xutos
inteiro, o que era para mim mais importante, porque é uma marca e eles nunca
mais aquilo daquela maneira.»
Trata-se de uma compilação que «sai das paredes, sai dos
armários dos discos» e embora não tenha sido difícil elaborar a lista inicial,
«uma vez que tem mais de 100 temas», o quase insólito aconteceu depois quando
«gabinete competente da editora fez os contactos para licenciamentos, etc.» e
esbarrou nas respostas «que informavam que os produtos tinham sido descontinuados»
aconselhando a fazer a cópia a partir do vinil. «É esse o estado das próprias
majors em relação ao seu produto, que neste caso tem 20 anos e que para eles
não vale absolutamente nada. É uma atitude de tiro no pé típica de pessoas que
não sabe tratar do seu próprio negócio e que nos disseram, nalguns casos, que o
material tinha sido eliminado, logo não existiam “masters”. Há aqui quebras de
profissionalismo, de tudo, óbvias.»
O importante é que «venda ou não, é o tal artefacto que
fica feito e que para mim é uma excelente memória do trabalho que fiz há alguns
anos e de que me lembro fortemente.» Ao longo de 36 canções há aqui algumas
repetições que António Sérgio justifica sem hesitar. «Projectos como o Julian
Cope, Teardrop Explodes, Psychedelic Furs ou a Siouxsie era fundamental para
mim que tivessem duas faixas. Como achei importante tocar nessa altura e
insisti contra muitas marés num ambiente radiofónico e de divulgação musical
diferente, teimaria hoje da mesma maneira. Quem ouvir o “Israel” e o “Mirage”
apreende determinado tipo de coisas que podem ser importantes. Talvez arranje
novos ouvintes para “A Hora Do Lobo”, dá-se sempre jeito e acaba por ser no
mesmo horário... Portanto 20 anos depois, we’Re back». Quanto aos que ficaram
de fora cita dois exemplos, até porque no cenário desta conversa a luz é baixa
e afasta a visão da listagem com todos os eleitos. «A mim faz-me falta o Robert
Wyatt, uma pessoa com uma posição mental e social claras, alguém muito
inteligente que sempre prezei muito e que para mim é o paradigma de um certo
tipo de rochedo que não se move mas que à parte disso é uma doçura...». E os
Jesus & Mary Chain «num cenário completamente diferente, de rebentamento. A
produção é completamente inovada ali e é quando se inaugura o período sónico
que veio dar depois excelentes frutos. Depois é uma memória de baladas dos anos
50 que eles vão buscar não sei bem onde... É quase um caso para bruxas.»
SEM ESPAÇO NEM TEMPO
Mas apesar de enquadrado num espaço de tempo, este é um
disco que não se poderia reduzir a tal dimensão. «Aliás isto começou antes e
nunca mais acaba.» Uma perspectiva que tem muito a ver com aquilo que Sérgio
refere como sendo «uma curiosa ligação minha, automática e intuitiva em relação
à própria música, por ter crescido também quase com a idade do rock. Tenho a
sorte de ter acesso a música do rock and roll norte-americano em África, via
estar metido no meio de rádio, coisa que se me tem escapado me teria retirado
imensa cultura musical, ou pelo menos informação musical, aquela mais
automática.» Além disso, «sem querer, quem ouve rock and roll desse tempo ouve
blues ou pelo menos alguma coisa de blues, o meu pai ainda tinha a mania de
ouvir música clássica portanto...»
E quem o foi ouvindo ao longo de todos estes anos sabe do
que fala. «A vida e os anos em rádio ensinam-nos muito, principalmente para
quem paciência para fazer aquela tarimba que eu fiz, e não esperar estrelatos
demasiados porque a rádio não é um meio que o proporcione. Gosto mais a ideia
do sacerdócio e da dedicação. Também há mais carinho nisso e mais paixão.»
Para a Ana Cristina Ferrão «este foi o verdadeiro “Globo
de Ouro” de António Sérgio. «Não é aquela cena emperuada e encasacada mas sim a
hipótese de fazer um objecto rock, algo que vai permanecer, o que o motivou
imenso. É um reconhecimento diferente.» No entanto, acrescenta Sérgio, «o
verdadeiro artista aqui é a música, as bandas que cá estão dentro e os disparos
de energia que têm.» Isto sem esconder o prazer que lhe deu ter um pretexto
para remexer nestas suas memórias e no vinil todo, «coisa que já não faço
porque não utilizo, uma vez que a cabina da Comercial não dá para o fazer.»
Para andar «a carpir mágoas do passado» também não valia a pena. Desta forma
foi diferente, até pela satisfação adicional em «lidar com criadores que são
eles próprios a razão de ser da criatividade da música. Não são correios de
transmissão de nada, não conseguem ser.»
Ciente de que a pior parte já passou, «que foi este
material mais enterrado no tempo», já se perspectiva uma segunda edição,
referente ao período 1987-1993, ainda sem data definida e sem a certeza de
conhecer vida, tal como este, no ano em que se assinalam os 20 anos do «Som da
Frente». «Nesse disco vou tentar evitar as repetições, não vai haver banda
nenhuma com direito a mais que um tema, talvez tema e meio. Além disso terá a
particularidade de saltar a década em si, e a década musical não é de maneira
nenhuma a mesma dos calendários. Mas há coisas curiosas uma vez que entre 1988
e o princípio de 90 forja-se uma boa parte daquilo que se passou a seguir.
Portanto vou tentar documentar isso o melhor possível.»
Para já fica o testemunho anterior num disco que
«continua a ter uma certa rebeldia que está ligada ao nome do programa e a uma
atitude intrínseca da pessoa que fazia o programa e das pessoas que o ouviam
que em certos casos se manterá.» Um documento que «tentou cobrir um período
muito rico da criação musical pop e rock, já com algumas inserções na world
music, embora não se chamasse assim nessa altura...» E com um público bem
definido. «A maior parte das pessoas que eu queria que fossem buscar este disco
eram pessoas aventureiras, que quisessem outra vez entrar na aventura da
descoberta dos sons e dos novos nomes. Como aqui há nomes tão velhos que podem
parecer novos nomes... Há quem possa nunca ter ouvido falar, sei lá... da
Durutti Column?»
Sem certezas sobre as motivações de uma geração que
privou com o «Som da Frente» e que «pode estar ou não demitida dessa atitude
perante a música», o desafio desta proposta é também o de fazer despertar a
curiosidade a outras pessoas «que tinham oito ou nove anos na altura». Como?
«Só se for por valer a pena de alguma maneira», responde de pronto António
Sérgio. «Ou o repertório tem aqui manchas de talento que valem a pena, e aí
temos de chamar a atenção porque eles não sabem, ou então não valerá a pena.
Fica apenas a memória de um programa que existiu, foi muito funcional na altura
e depois deixou de o ser.»
AS HORAS DO LOBO
Mais que uma escola, o «Som da Frente» era quase um
momento de procissão de fé num tempo em que as janelas a outros mundos eram
poucas, e difíceis de abrir. Hábito diário, a audição do «Som da Frente» era um
complemento fundamental a um processo de descoberta de novos sons, novas
sensações... O panorama musical de inícios e meados de 80 não mostrava os
sinais da imbecilidade reinante do «mainstream» do presente mas, já então, o
«Som da Frente» assumia a ousadia de, em alto e bom som, ir mais além. Ser fiel
ouvinte do programa era condição necessária para a adesão a uma tribo que não
se satisfazia com a máxima globalizante «todos diferentes todos iguais». O
núcleo de ouvintes «hardcore» fazia questão de levar, depois, as sugestões
ainda mais longe, encantando figuras e trapos condizentes com músicas e
músicos, com o negro quase sempre presente, o «Blitz» debaixo do braço e as
inevitáveis passagens pela Catedral da Rua da Beneficência ao Rego (o Rock
Rendez Vous).
O «Som da Frente» estimulava a busca de um gosto pessoal,
alargava horizontes. Apresentava-nos
nomes como os Bauhaus, Joy Division, Cocteau Twins, Teardrop Explodes, This
Mortal Coil, Danse Society, The Sound, Echo & The Bunnymen, The Cure, Clan
Of Xymox, New Order, Durutti Column, REM, Siouxsie & The Banshees, Julian
Cope...
O disco duplo que agora é editado consegue evocar, apesar
da infeliz não cedência, pelos actuais detentores dos direitos, da
importantíssima fatia de referências 4AD, o que era o tutano das emissões do
«Som da Frente». A abrir o histórico instrumental dos Xutos & Pontapés, que
serviu de indicativo. E, depois, memórias soltas como «Winning» dos The Sound,
«Sunspots» de Julian Cope, «Taking The Veil» de David Sylvian, «Regiment» de
Brian Eno e David Byrne, «Five Miles Of You» de Tom Verlaine, «Sunglasses After
Dark» dos Cramps, «Atmosphere» dos Joy Division ou o sublime «This Big Hush»
dos Shriekback, a dada altura um tema de rodagem diária obrigatória no
programa. Como complementos, excelentes textos de acompanhamento sobre a memória
do programa e a voz por trás do microfone, por Ana Cristina Ferrão. Memórias
dos melhores momentos de um disco que evoca um programa chave da história da
rádio portuguesa. Personalizando, aquele que me ensinou a ouvir música.
Obrigado, Sérgio!
N.G.
VÁRIOS
«Som da Frente 1982-1986»
EMI-VC
++++18.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (15)
DN - Diário de Notícias
08 Junho 2002
Discos Pe(r)didos
Da revolução de 1980/81, quando na sequência dos êxitos
de Rui Veloso, dos UHF, GNR, Trabalhadores do Comércio e Salada de Frutas se
instituiu uma espécie de nova ordem de gostos e prioridades, colocando o novo
pop/rock cantado em português na primeira linha dos objectivos, nasceu um
verdadeiro cenário de explosão demográfica no panorama musical lusitano.
Grande parte das carreiras emergentes usavam o single
como veículo de exposição ideal para as suas canções, raros sendo os casos de
grupos e artistas que apostaram em primeiro lugar no formato de álbum. Rui
Veloso, Táxi e Opinião Pública são raros casos de apostas no LP, dele nascendo,
depois, os inevitáveis singles.
O clima de euforia colectiva que o meio pop/rock então
vivia levou a que muitas pequenas editoras se aventurassem na edição de rock
português. Afinal, nada mais que a aplicação (à nossa escala) de princípios que
a revolução punk e a continuidade via new wave tinham impresso recentemente À
bem nutrida indústria discográfica inglesa. Entre as pequenas editoras que
então entram em cena destaca-se a Rotação, na qual o homem do leme era António
Sérgio (já então um conhecido divulgador na rádio e com provas já prestadas na
edição discográfica, nomeadamente como co-produtor, em 1979, de «Música
Moderna», o álbum dos Corpo Diplomático, isto sem esquecer a «famosa»
compilação «Punk Rock 77»).
A «bandeira» da Rotação era, naturalmente, a estreia
discográfica dos Xutos & Pontapés, que ali editaram os dois primeiros
singles «Sémen» (1981) e «Toca e Foge» (1982), bem como o álbum de estreia
«78/81» (também em 1982). Perante o cenário de investimento que caracterizava
todos os pólos de edição na altura, a Rotação avança pelo ano de 1982 com uma
série de novos nomes: Mau Mau, com o single «Xangai», Tânger, com o single «Zé,
Zé Ninguém», Manifesto com o single «Nuclear (À Beira Mar)». A estes juntam-se
ainda os Malaposta e os Sub-Verso... Todavia, nenhum dos grupos da Rotação, à
excepção dos Xutos & Pontapés, conhecem tamanha expectativa interna e
alguns resultados concretos como os Opinião Pública, uma banda, de certa forma,
«apadrinhada» pelos UHF.
No quarteto, constituído por Carlos Estreia (voz,
guitarra), Pedro Lima (guitarra), Luís Fialho (baixo, teclas) e Carlos Baltasar
(bateria), António Sérgio identificara um caso de possível complementaridade
pop aos Xutos & Pontapés. A estreia faz-se com «Puto da Rua», canção que imediatamente
chega à rádio e tira os Opinião Pública do anonimato e apresenta o álbum «No
Sul da Europa», com o qual o grupo faz a sua estreia (encetando uma discografia
que receberia depois, apenas, o single «Puto da Rua»).
Se nos Xutos & Pontapés António Sérgio «ousara» um
lugar na produção, com os Opinião Pública cede a cadeira a António Manuel
Ribeiro (dos UHF) e à própria banda. De som seguro e muito característico. Das estéticas
da altura, «No Sul Da Europa» é um interessante (e quase esquecido) documento
do rock português de inícios de 80, dividindo as canções entre momentos de puro
prazer de uma pop lúdica (como «Ritmo de Vida» ou «Walkman», e alguns retratos
de cenas do quotidiano urbano de então (de que são bons exemplos «Puto da Rua»
e «Subúrbio»).
Apesar de coerente e significativamente mais interessante
que grande parte dos demais estreantes seus contemporâneos, os Opinião Pública,
tal como todo o restante catálogo da Rotação (à excepção dos Xutos &
Pontapés), desapareceram entre as primeiras vítimas da crise de 1982/84, uma
das mais «mortais» da história pop/rock cantada em português.
N.G.
OPINIÃO PÚBLICA
«No Sul da Europa»
LP Rotação
Lado A: «Ritmo de Vida», «Sem Destino», «Sul da Europa»,
«Puto da Rua», «Na Terra»;
Lado B: ««Walkman», «Cumprindo As Regras», «Duplo
Controle», «Subúrbio»
Produção: António Manuel Ribeiro e Opinião Pública9.4.17
DN - Série: Discos Pe(r)didos (9)
DN - Diário de Notícias
02 Março 2002
Sinais dos tempos, o Portugal de finais de 70 vivia ainda
os reflexos próximos da revolução. Na música era ainda notória a presença
protagonista dos espaços de intervenção e afins, notando-se sinais de reacção
apenas nas esferas de propostas mais ligeiras, que então começam a emergir. O
rock vivia uma existência meio adormecida, sem Norte, com pontuais focos de
agitação em aventuras próximas do som progressivo. Aventuras alheias às
dinâmicas dos espaços de divulgação radiofónicos e televisivos, quase votando o
tímido silêncio toda a força que eventualmente brotasse de um amplificador em
ensaios de garagem.
Enquanto por aqui se ensaiavam as primeiras eleições
livres da «era moderna», Londres e Nova Iorque acolhiam uma importante
revolução musical que reflectia as angústias e limitações de uma nova geração
de filhos de uma economia global desfavorável. Com um semelhante sentido de
urgência, apesar das francas diferenças entre as manifestações em Nova Iorque
(mais letradas e abraçadas pelos círculos intelectuais alternativos) ou em
Londres (com origens num proletariado urbano culturalmente desfavorecido) o
punk rompia os cenários da música feita teatro e negócio de meados de 70, e
apresentava ao mundo uma nova forma de estar na música. Rude, rápida, viva,
ansiosa, de concretização imediata, independentemente dos meios.
Apesar de pontuais faróis (um deles o fulcral programa
«Rotação», de António Sérgio, na Rádio Renascença), o fenómeno ameaçava passar
a Oeste do Cabo da Roca, já que nem a Phonogram (hoje universal) e Valentim de
Carvalho (hohe EMI-VC) mostravam vontade de editar Sex Pistols, The Clash,
X-Ray Spex...
Nos escaparates de algumas discotecas da baixa lisboeta
surge, de um dia para o outro, uma compilação de capa a preto e branco, de
«design» rude (onde não faltam alfinetes e lâminas de barbear). «Punk Rock /
New Wave ‘77» era o título, editado pela desconhecida Pirate Dream Records...
Com Zhe Guerra e Joaquim Lopes, António Sérgio havia formado a primeira
etiqueta independente da indústria discográfica, destinada assim a divulgar os
nomes do punk e new wave aos quais pareciam estar alheias as multinacionais do
ramo. O trio regista a editora e licencia temas dos Sex Pistols, Skrewdriver,
Motorhead, Eater, The Jam, London, The Rings, Generation X, The Radiators From
Space, Warm Gun e Hideous Strenght, que logo reúne para esta compilação que cai
no panorama nacional como uma pedrada no charco, decidida a representar e
divulgar sons que ameaçavam escapar à atenção dos portugueses.
A pax lusitana é, entretanto, interrompida por uma acção
judicial contra o disco, lançada pela Phonogram que acusa a editora de
pirataria e afirma serem seus os direitos dos Sex Pistols. A Valentim de
Carvalho despede, então, António Sérgio, que ali trabalhava emtão como
promotor. A acção do director de programas da Rensacença, Albérico Fernandes,
impede que semelhante cenário se repita no éter, que diariamente continua a
receber as emissões de «Rotação». O julgamento prolonga-se até 1981, sendo os
réus absolvidos sem que as acusações fossem provadas.
O disco, que teve uma tiragem de 500 exemplares, é hoje
peça cobiçada nos circuitos de coleccionismo. Quanto Às multinacionais
incomodadas com o «caso», apressaram-se a editar compilações e singles punk e
new wave! A palavra tinha passado.
N.G.
VÁRIOS
«Punk Rock – New Wave ‘77»
Pirate Dream Records
Etiquetas:
Anos 70,
António Sérgio,
Diário de Notícias,
Discos Pe(r)didos,
DN,
dnmais,
Nuno Galopim,
Pirate Dream Records,
Punk
30.1.17
Ian Curtis / Joy Division - Dossier
Ian Curtis / Joy Division
Dossier de 5 páginas, no
DN:música de 13 de Maio de 2005
Autor: Nuno Galopim
Figura aparentemente distante, autor expressivo, músico visionário, Ian Curtis viu-se transformado em mito pop pela morte precoce, que o levou, por suicídio, meses antes de completar os 24 anos de idade. Era, contudo, um jovem comum, cidadão suburbano com vida feita na periferia de Manchester, melómano profundo, funcionário público por obrigação, músico por sonho concretizado. Desde cedo mostrou uma admiração pelos ícones pop cedo ceifados pela morte. Morte também presente nas suas canções, as últimas das quais embebidas numa pulsão suicida quase denunciadora da tragédia que se concretizou a 18 de Maio de 1980, quando se enforcou na cozinha de sua casa, com a corda de estender a roupa. A sua mulher, Deborah Curtis, afirmaria mais tarde que, caso tivesse acompanhado em estúdio a gravação do segundo álbum, Closer, registado poucas semanas antes do seu suicídio, ouvido as canções e escutado as letras, teria descodificado o estado de depressão e angústia profunda que expressavam, e eventualmente evitado o desfecho que a história registou. Apesar da carta que deixou à mulher, a morte de Ian Curtis não tem motivo conhecido. Terá sido o degradar terminal de um casamento então já à beira do desmembramento? O reforçado impulso suicida vincado pela epilepsia que lhe foi diagnosticada em 1978? A rejeição por parte da amante Annik Honoré nos momentos de ataques? O avolumar da agenda de espectáculos (que amplificou a regularidade e intensidade dos ataques)? A iminência de uma digressão americana e de todo um potencial futuro mais exigente? Um acumular destas e de outras razões?
Intrinsecamente ligada à figura, voz e escrita de Ian Curtis, a Joy Division foi uma das bandas que abriu a porta à década de 80 e uma das mais marcantes forças criativas da sua geração. Formada na ressaca da revolução punk, avessa à luminosidade festiva da new wave que se lhe seguiu, a Joy Division foi a primeira banda que conseguiu captar, não a raiva e energia, mas antes a ambiência e sentido de identidade do punk e projectá-los num espaço diferente que abriu alas ao desenho de uma atitude melancólica que dominaria a cena pop/rock alternativa na primeira metade de 80. Apesar das manifestações primeiras de uma certa desordem formal característica do punk, a depuração de ideias e linhas, o aflorar de um ideário urbano, tortuoso e solitário em tempestades interiores, e a posterior entrada em cena de sintetizadores fizeram da Joy Division um dos mais entusiasmeantes laboratórios de reinvenção pop que a Inglaterra conheceu na passagem de 70 para 80. Em vida de Ian Curtis, tinham decidido que a saída de qualquer membro da banda decretaria o seu fim. A sua morte, em 1980, fechou antes do previsto o tempo da Joy Division. Das suas cinzas nasceriam os New Order. Mas essa é outra história...
25 anos depois da sua morte, Ian Curtis e o legado da Joy Division são presenças vivas na música e cultura popular. Interpol ou Mount Sims herdam claramente os seus ensinamentos. Anton Corbijn, que os fotografou e realizou o belíssimo teledisco de Atmosphere, vai rodar a adaptação ao cinema do livro da viúva, Deborah, Touching From A Distance (traduzido por Ana Cristina Ferrão como Carícias Distantes, editado pela Assírio e Alvim em 1996).
OS PRIMEIROS DIAS
Ian Curtis nasce em Macclesfield, arrabalde de Manchester, a 15 de Julho de 1956. A música é desde cedo a sua grande paixão, e o desejo de fazer parte de uma banda teve a primeira materialização ainda nos dias de escola, entre amigos. Descobre Bowie (tinha um autógrafo seu e outro de Mick Ronson) e os Velvet Underground, Iggy Pop e os MC5. A sua primeira canção de referência é a versão de Bowie para um clássico de Brel, My Death (prenunciador? Não... puro exagero de mitologia pop). Descobre James Dean quando vê Fúria de Viver. Atraíu-o o seu sentido de rebelião. E a sua morte precoce. Venera o romantismo obsessivo e mágico de Riock’n’Roll Suicide de Bowie, admira Jim Morrison, morto no auge da criatividade.
Ian não tem dinheiro para comprar os álbuns que quer ouvir, e por vezes rouba-os, escondendo-os debaixo do casaco. Ainda adolescente começa a materializar um sentido de rebeldia através de incursões em bares de bebidas alcoólicas sem licença e em primeiras ingestões de químicos, na forma de comprimidos, cheirando cola, fumando. Alguns dos comprimidos ingeridos são roubados a pensionistas que ele e amigos visitam em serviços sociais. Numa ocasião a aventura termina num hospital, com ordem de lavagem ao estômago. É nestes dias de vadiagem e conduta rebelde que se aproxima de Deborah, jovem suburbana que o idolatra e com ele se casa em 1975.Ian tem o seu primeiro emprego a sério numa loja de discos, a Rare Records, no centro de Manchester. Nunca tinha estado tão próximo do mundo da música, e para ganhar o lugar na loja estuda com entusiasmo velhas edições de jornais e revistas.
É aceite e colocado na secção pop, na cave.
Em Abril de 1974 Ian e Deborah estão noivos. Ian abandona o salário seguro na Rare Records, e monta uma banca no mercado de antiguidades de Butter Lane. Ia vender discos em segunda mão. O primeiro stock custa-lhe a própria colecção. E não poupa sequer a sua muito querida cópia de The Man Who Sold The World, de Bowie. Mas não faz nunca dinheiro suficiente para pagar a renda da desejada nova casa e acaba à procura de novo emprego. Encontra-o num departamento do Ministério da Defesa. O homem que sonhava em ser músico é agora um funcionário público, em horário das nove às cinco.
Depois de casados, Ian e Deborah mudam-se para uma casa própria em Oldham. No novo bairro são como alienígenas, não têm amigos nas redondezas. Afável, conversador, Ian abre a porta a toda a gente. Um dia, o candidato liberal à autarquia local bate à porta. Vende o seu discurso... Reaparece no dia da eleição para transportar, de carro, Ian e Deborah à mesa de voto. Mas, como sempre, Ian vota nos conservadores. E convence Deborah a fazer o mesmo, não fosse um voto em contrário anular o seu!
OS WARSAW. A rotina do casamento aguça o sentido de frustração em Ian Curtis por não ter nenhuma ligação e envolvimento na cena musical. Reza a mitologia que os primeiros passos para a aventura que meses depois se veio a chamar Joy Division são dados depois do marcante concerto dos Sex Pistols no Lesser Free Trade Hall de Manchester. Bernard Sumner e Peter Hook, respectivamente guitarrista e baixista, estão presentes. Deborah, no seu livro, conta que também ela e Ian lá estiveram... Mas em mais nenhum relato se fala da presença do futuro vocalista da Joy Division na sala (enfim, mitologias). O certo é que, semanas antes, Ian Curtis havia publicado um anúncio na imprensa musical no qual, assinando como Rusty, propunha a formação de uma banda. Obtém uma resposta, a de um guitarrista chamado Ian Gray. Juntos começaram a trabalhar e a circular na noite de Manchester, até que encontraram Sumner e Hook. A intensidade da relação musical com os novos amigos condu-los inevitavelmente no sentido da concretização do sonho de Ian: ter uma banda. Nesses dias, o casal Curtis muda-se para nova casa, em Macclesfield, na qual uma sala é guardada para uma nova função: a escrita e composição.
Ian Curtis, Bernard Sumner, Peter Hook e um primeiro baterista, Tony Tabak, apresentaram-se pela primeira vez em público a 29 de Maio de 1977 no Electric Circus como Warsaw, nome directamente inspirado no instrumental Warsawa, do álbum Low de David Bowie. A crítica no Sounds é desmotivadora. Mas Paul Morley, no NME, afirma que “existe uma faísca elusiva da dissemelhança nas bandas mais recentes que indica que têm ainda muito para mostrar. Gosto deles e irei gostar ainda mais daqui a seis meses”. Paul Morley, descoberto numa fanzine e contratado pelo NME para retratar o que parecia uma invulgar agitação na cena musical de Manchester seria o “padrinho” da futura Joy Division na primeira liga da imprensa musical inglesa, um dos muitos parceiros de uma aventura colectiva que iria marcar a história da música. Desses primeiros tempos data ainda o contacto com Martin Hanett, que antes mesmo de surgir em estúdio como produtor, surge em cena como promotor de eventos, alguns dos quais com os iniciados Warsaw.
As canções dos Warsaw (que tinham encontrado novo baterista temporário em Steve Bothersdale) são ainda meros esboços de intenções, e as letras de Ian Curtis primeiras manifestações de uma demanda pessoal. A energia da banda e a sua entrega compensam contudo as evidentes imperfeições. Um anúncio numa loja de música leva-os ao encontro com Steve Morris e este assume de vez o lugar de baterista. Ian trabalha, agora, como assistente social num centro de reintegração de deficientes perto de casa; Sumner trabalha em publicidade... Tentam uma primeira aparição televisiva na local Granada Television. E vêem-se brindados pelo entusiasmo da Virgin, que os grava ao vivo para uma compilação de talentos locais. Uma outra primeira gravação de quatro temas em nome próprio (com capa de Bernard com referências à imagética nazi e impressão a cargo de Steve) ocupa-os logo depois. O EP, de título An Ideal For Living assinala, em Janeiro de 1978. O nome, inspirado na ala dos campos de concentração nazis nos quais eram mantidas as prostitutas de serviço aos oficiais alemães, causa inevitável polémica. A mudança de nome, curiosamente, conduz também a mudanças formais na composição da banda. O punk era agora apenas um eco aceite como herança, as melodias mais cuidadas, as letras mais expressivas. A banda ainda toca mal, problema secundário. A crescente popularidade local dos Warsaw transferiu-se para a nova Joy Division, em concertos já com evidente legião de fãs. Por esta altura, através do investimento de alguns amigos e entusiastas locais (entre os quais profissionais do escritório local da RCA que Ian visitava regularmente), o grupo junta-se nos Greenwood Studios para gravar aquele que poderia ser o seu primeiro álbum (mas não foi). Mas as gravações desapontam o grupo. E acabam na gaveta (editadas dez anos mais tarde numa famosa bootleg).
Uma noite, pouco depois, no Rafters (em Manchester), escreve-se história a tinta permanente. Tony Wilson, jornalista da Granada TV e apresentador do programa musical So It Goes (fundamental montra da revolução punk), ao descer as escadas do clube, é confrontado com um vómito irado de palavrões e insultos do habitualmente pacato Ian Curtis, que o critica por nunca ter levado a banda ao seu programa. Diplomata, Wilson responde que a Joy Division era a sua própria escolha. Satisfaz Ian, tranquilizado pelo efeito de missão cumprida. E a verdade é que, dias depois, tocam Shadowplay frente às câmaras.
Apesar de possuído por esse sonho chamado Joy Division, e por dedicar cada vez mais tempo a grandes conversas sobre livros, filosofias e ideias bizarras com Bernard Sumner, Ian ainda vive com entusiasmo a vida familiar. Deborah engravida e nove meses depois entra em cena a pequena Nathalie.
Mas aquele 1978 é sobretudo um tempo de agitação criativa para Ian Curtis e banda. Assinam um acordo de management com Rob Gretton. Gravam um tema para o sampler de estreia da editora Factory de Tony Wilson, e acabam por descobrir casa editorial para sempre. No fim do ano, contudo, Ian tem o seu primeiro ataque epiléptico registado. Teimoso, só comparece a uma consulta de especialidade em finais de Janeiro de 1979, duas semanas depois de surgir pela primeira vez na capa do NME fumando um cigarro e depois de gravada uma primeira sessão para John Peel na BBC.
A personalidade maníaca de Ian não é mais uma novidade para os amigos e colegas, que já lhe conhecem a volatilidade temperamental e tendência depressiva. A epilepsia contudo é um factor novo, e começa a atormentar os concertos. Ian era já conhecido por assumir em palco uma dança frenética, espasmódica, como que estilizando as convulsões características da doença. Porém, ao longo dos largos meses seguintes, os ataques deixam de ocorrer apenas depois de terminados os concertos, para se manifestarem ainda em palco. Mas, por enquanto, sem consequências trágicas. Medicado, Ian continua.
A música da Joy Division evolui sombria, já evidentemente caracterizada pela presença possante do baixo de Petr Hook. As letras, quadros de desespero emocional e ansiedade urbana pós-industrial, vincam essa negritude depressiva. Era já a expressão superficial da melancolia natural em Ian Curtis, mas colegas e muitos admiradores só descodificaram os sentidos mais profundos das palavras depois da sua morte.
O PRIMEIRO ÁLBUM. Em Abril de 1979 a Joy Division grava finalmente o que seria, de facto, o seu primeiro álbum. Fundamental na construção definitiva de uma identidade sonora para as canções do grupo, a presença em estúdio do produtor Martin Hanett revela-se fulcral. As canções, mesmo que ocasionalmente imperfeitas na arte final, são gritos de identidade dotadas de um invulgar sentido de urgência. A música, quase minimalista, capta o desespero patente na escrita de Ian Curtis e a sua voz parece buscar catárse na partilha com o ouvinte. Hannett encontra-lhes a cenografia ideal, um espantoso sentido de espaço, sugere malabarismos técnicos e formais e define em Unknown Pleasures um dos álbuns mais influentes do seu tempo. A capa, a cargo de PeterSaville, sublinha a imortalidade potencial do disco.
A gravação e mistura do disco quase coincide com o nascimento da filha de Ian Curtis. Contudo, apesar das expressões de amor paternal, a vida doméstica não é mais a prioridade de Ian. Quando está em casa ouve música ou entrega-se à leitura de autores como Dostoiévski, J. G. Ballard, Nietzsche, Sartre ou Hermann Hesse. Os concertos que se seguem ao disco, a recepção nos media, o entusiasmo de uma legião de admiradores em crescimento tomam a sua atenção. Editado em Junho, o álbum colhe críticas diversas. No Sounds, o texto aponta-o como um potencial catalisador de suicídios!
A banda actua intensamente depois da gravação de Unknown Pleasures e da edição do single Transmission, e os ataques de epilepsia multiplicam-se. A banda é agora quase um emprego full time, mas ainda incapaz de gerar salários expressivos. Ian faz de tudo para ganhar dinheiro extra. Limpa a sala de ensaios, cola folhas de lixa na capa do álbum de estreia dos Durutti Column. Os concertos, mesmo assim, surgem com agenda cada vez mais intensa. Os ataques crescem proporcionalmente, assim como aumentam as dificuldades de comunicação entre Ian e quem o rodeia.
Em Agosto, ao assumir o lugar de banda de suporte numa digressão dos Buzzcocks, a Joy Division torna-se em pleno uma banda profissional, e todos abandonam os seus empregos não musicais. Em grupo, fora do palco, Ian começa a desenvolver uma atitude de alheamento aos fardos do dia-a-dia. Não carrega instrumentos, furta-se às obrigações não performativas. Bernard acompanha-o. Hook e Morris toleram...
A 16 de Outubro de 1979, numa pausa na digressão dos Buzzcocks, a Joy Division toca em Bruxelas, no Plan K: É aí que se pensa que Ian terá conhecido a fã Annick Honoré que rapidamente se torna sua amante e sombra omnipresente (para descontentamento dos restantes membros da banda). Quando de regresso a casa Ian está cada vez mais distante, ausente.
Em Janeiro de 1980 o grupo parte para uma exigente digressão europeia. Apesar da política de Greton que pede o afastamento de mulheres e namoradas, Ian leva Annick consigo. Ataques ocasionais ensombram a digressão. Nesses momentos, Annick afasta-se, Ian sente a rejeição e experimenta o frio da solidão. Publicamente, contudo, a banda vive momentos de glória. As canções são cada vez melhores, a voz de Ian mais encorpada e expressiva. A letras mais intensas.
UMA PREMONIÇÃO. Em Março de 1980 o grupo regressa a estúdio para gravar um segundo álbum. Hannett está novamente na dadeira de produção, e volta a interferir na condução da atmosfera dominante. Ian está inspirado, entregue à criação. Mas a sua escrita revela-se mais gélida que nunca, implacável contra si, contra o futuro. Uma premonição? Se o álbum anterior havia definido um rumo, este novo explode em todas as direcções, numa erupção espantosa de criatividade bem estruturada. Os teclados afloram com maior evidência, acrescentando ferramentas dramáticas ao arranjo das melhores canções da obra da banda. O vazio explorado na lírica é aqui oposto evidente da massa sonora e grandiosidade formal.
Um mês depois de gravado Closer, Ian Curtis toma uma overdose de medicação contra a epilepsia. É levado para o hospital, onde lhe é lavado o estômago. Ian é visto por um psiquiatra nessa noite, que conclui contudo que o paciente não é potencial suicida! Mas Ian chegou mesmo a deixar uma nota de suicídio à mulher, que Deborah não divulga aos amigos e familiares. No seu livro conta que se sentiu marginalizada pelo marido e banda, e que desde Unknown Pleasures não conhecia as canções nem lia as letras. Não conhecia a nova realidade da natureza profunda da alma de Ian...
Aconselham-no a uma pausa, e por dias deveria ficar numa casa de Tony Wilson em pleno campo. Mas no dia seguinte levam-no para o Deby Hall, em Bury, onde chegam a discutir se dão ou não o concerto, tal é a debilidade do vocalista. Ian canta dois temas. E os fãs, desencantados, revoltam-se e quase destroem a sala. Ian segue para casa de Tony. Este e mulher desconhecem, todavia, a verdadeira dimensão da sua depressão, agravada certamente pela progressiva degradação da vida familiar (claramente retratada no single Love Will Tear Us Apart que então acabara de gravar), a precariedade da relação extra-marital, consequência clínica potenciada pela epilepsia, e um descontentamento para com a indústria musical. Este último, confessa-o a Deborah quando consigo vai a uma consulta de psiquiatria, a caminho da qual lhe terá dito que se havia realizado com as edições de Transmission e Unknown Pleasures e que tanto Closer como Love Will Tear Us Apart não faziam já parte das suas aspirações. Segundo Deborah, Ian desejava abandonar a banda. Terá dito mesmo a Stephen Morris, mas este julgou que o vocalista se queria mudar para outro lugar. Decades (de Closer) já havia levantado um debate interior sobre a futilidade da vida numa banda (e da vida em geral)...
O EPÍLOGO. Com o divórcio entre as preocupações imediatas, Deborah vê a agenda de concertos da banda conhecer nova erupção entre Abril e Maio, mês no qual o grupo deveria partir em digressão para a América. Ian vive então na casa de Tony Wilson, depois está algum tempo com Bernard e mais tarde regressa a casa dos pais.
A 2 de Maio, em Birmingham, a Joy Division dá o seu último concerto. O passo seguinte era americano, numa viagem preparada para assegurar conforto e cuidados ao vocalista. O velho amigo Terry Mason seria o responsável pelo seu bem-estar, pela medicação, pela tranquilidade. Loucuras e prazeres típicos de bandas em digressão estão vetados.
Uma visita ao especialista de epilepsia coloca-o, a 6 de Maio, frente a um médico novo. Ian dá-lhe a ideia de um homem que quer recuperar e começar vida nova... Depois da consulta oferece a Terry alguns dos seus discos, entre os quais algumas raridades. Indícios para um fim em vista?
A 13 de Maio regressa a casa para ver mulher e filha. Tira uma fotografia com Natalie, a sua última fotografia. Nos dias seguintes está com amigos e colegas, discutindo com aparente entusiasmo a viagem à América. No dia 17 tem uma longa conversa com a mulher. Esta, no seu relato, recorda que nas primeiras horas da manhã ele tinha visto um filme de Herzog, bebido café e estava animado. Falaram da degradação da relação, de Annik, do seu receio em que ela conhecesse um homem enquanto ele estivesse fora. Deborah acaba por ir dormir a casa dos pais. Ian pedira-lhe para não regressar antes das dez da manhã, hora a que deveria apanhar um comboio para Manchester.
Bebe mais café, acaba a garrafa de whisky que tinham na despensa. Tira a fotografia da filha da parede, ouve The Idiot de Iggy Pop e escreve uma longa carta à mulher. Pedia-lhe para não entrar em contacto com ele durante algum tempo porque lhe era difícil falar com ela, revelou Deborah mais tarde. Esta regressa de manhã a casa. Sente a falta do cheiro a tabaco na sala. Vê a carta sobre a lareira, e, olhando para o lado, constata que Ian ainda ali está, ajoelhado, na cozinha. Fala com ele. Só então repara na cabeça tombada, as mãos sobre a máquina de lavar, a corda em volta do pescoço.
O corpo de Ian é velado na Chapell of Rest, onde Tony agenda cautelosamente a visita de Annick, para evitar mais dramas. Tony Wilson também convida Paul Morley a comparecer, mas este fica à porta e recua. Wilson convidara-o para escrever “o” livro, mas Morley recusa.
Ian Curtis é cremado a 23 de Maio de 1980. Na lápide Deborah inscreve: “Love Will Tear Us Apart”. Ian era a primeira vítima rock’n’roll dos anos 80 que mal tinham começado.
Love Will Tear Us apart foi editado em Junho, e deu à Joy Division a sua primeira entrada no Top 20. Closer, o álbum, também teve edição póstuma e subiu ao número seis da tabela de vendas, colhendo igualmente críticas de entusiasmo geral. Seis meses depois da morte de Ian, a banda reunia-se em estúdio para gravar um novo single. Bernard Sumner apresentava-se agora como vocalista. Gillian Gilbert, mulher de Stephen, entrava como teclista. Juntos gravaram Ceremony e o fúnebre (premonitótio?) In A Lonely Place cujas maquetes haviam sido registadas com Ian Curtis, duas semanas antes do seu suicídio. As faixas eram parte de um novo single, apresentado como... New Order. É particularmente arrepiante a gravação de In A Lonely Place, canção na qual um morto, enforcado, é carpido por alguém que observa a sua lápide. Terá Ian Curtis escrito sobre a sua própria morte numa bizarra passagem de testemunho? Coincidência? Ou pura mitologia rock’n’roll?
DISCOGRAFIA
Unknown Pleasures
O histórico álbum de estreia da Joy Division, Unknown Pleasures foi editado em Junho de 1979. Gravado em três dias, misturado em dois, reflecte esse mesmo sentido de urgência, capta a intensidade criativa da banda e espelha as marcas de arquitectura espacial definidas pelo produtor Martin Hannett. As canções são marcos na história da cultura pop, cristalização de um sentido de melancolia pop que conheceu paradigma neste e no segundo disco da banda. Um clássico fundamental.
Closer
Editado já depois da morte de Ian Curtis, em Julho de 1980, Closer foi a obra-prima da Joy Division. As permissas partem dos dados lançados em Unknown Pleasures, mas desta feita a criatividade brota em todas as direcções. A escrita é mais pessoal e inspirada, as palavras mais sombrias que nunca. Banda e produtor assumiram o desafio do risco, alargaram horizontes, intensificando o sentido de vitalidade que corre na sua música. Um requiem pop/rock, hoje com dimensão mítica.
Still
Lançado em Outubro de 1981, Still representa uma primeira reunião de notas soltas e gravações inéditas da Joy Division. Pensado como um epitáfio para a banda (os New Order já seguiam então o seu caminho entre os vivos), o disco, duplo, reúne temas do catálogo do grupo não editado em álbum e junta-lhes a gravação do seu último concerto ao vivo, a 2 de Maio de 1980 no High Hall de Birmingham. Neste a banda tocava, a abrir, Ceremony, aquele que seria o primeiro single dos New Order.
Substance
Lançado em Julho de 1988, um ano depois de editado um best of dos New Order com o mesmo título, Substance reuniu os singles e temas de maior destaque da obra da Joy Division, e permitiu constar que a obra da banda estava a passar de mãos para uma nova geração de admiradores. O alinhamento é representativo, do velho Warsaw ao derradeiro Love Will Tear Us Apart. Atmosphere foi reeditado como single antes da compilação. Em simultâneo foi também editado um vídeo com o mesmo título.
Permanent
Em 1995 uma segunda antologia devolveu a Joy Division aos escaparates das novas edições. Desta feita sob o título Permanent, a antologia revela um alinhamento ligeiramente diferente do de Substance, e acrescenta ao lote de memórias uma escusada remistura de Love Will Tear Us Apart, por Don Gehman. A edição justificou-se pelo facto de novas bandas, dos Smashing Pumpkins aos Nine Inch Nails ou Low apontarem a Joy Division como referência fundamental nas suas obras.
Heart And Soul
Depois de duas antologias em formato de best of, a caixa Heart And Soul, de 1996, apresentou ao mercado uma colecção praticamente integral das gravações da Joy Division. Aqui estão os dois álbuns de originais, as faixas editadas em single, sessões para rádio, demos de estúdio (entre as quais as derradeiras gravações de Ian Curtis, duas semanas antes da sua morte, nas quais registou Ceremony e In A Lonely Place que só seriam editados pelos New Order), e muitas gravações ao vivo.
Preston 28 February 1980
Em 1999 iniciou-se a edição de uma série de gravações ao vivo da Joy Division. O primeiro disco, Preston 28 February 1980. Registo imediatamente anterior à gravação do álbum Closer (do qual tocam já as canções The Eternal, Twenty Four Hours, Heart And Soul e Colony), o disco exibe contudo um concerto no mínimo bizarro, no qual uma série de coisas correram mal. A dada altura o próprio Ian Curtis chega-se mesmo ao microfone para pedir desculpa pelos problemas...
Complete BBC Recordings
Em 2000 foram reeditadas em CD, num disco só, as sessões que a Joy Division gravou para a BBC. Em Complete BBC Recordings é reeditado todo o conteúdo do disco Peel Sessions (lançado em 1996), ao qual se acrescenta uma actuação no programa Something Else (em 1979), e ainda uma entrevista no programa Rock On, de Richard Skinner. A primeira e histórica sessão, em Janeiro de 1979, incluía Exercice One, Insight, Transmission e She’s Lost Control. John Peel foi um grande divulgador da banda.
Les Bains Douches 18 December 1979
O segundo disco de memórias de palco da Joy Division foi editado em 2001. Les Bains Douches 18 December 1979 regista uma actuação parisiense da banda na recta final do ano da sua definitiva afirmação. A gravação já havia sido editada num bootleg lançado em 1984 de título Live In Paris. O alinhamento é característico dos concertos da época, reflectindo já a presença de temas a registar em estúdio no futuro próximo, entre os quais Love Will Tear Us Apart. A gravação não é de primeira água...
ALMAS DORIDAS
ENTRE A GERAÇÃO DE 80 E OS DIAS DO PRESENTE, A HERANÇA DA JOY DIVISION MARCOU POR DIVERSAS VEZES A MÚSICA POP/ROCK PORTUGUESA
Nascidos em 1982, mas revelados em disco apenas em 1983 no single Glória, a Sétima Legião representou a mais importante materialização nacional da herança Joy Division, patente não só nesse single como também no álbum A Um Deus Desconhecido (1984). “Ouvi-o [Ian Curtis] cantar e aquilo mudou a minha vida”, confessa emocionado, mais de 20 anos depois, Pedro Oliveira, fundador e vocalista da Sétima Legião. Descobriu a Joy Division no programa Rotação, de António Sérgio. “Misturava uma coisa subliminar com uma religiosidade espantosa. Era muito forte. Música, estética, temas, estava lá tudo o que eu queria... Eu tinha 16 ou 17 anos e quis, depois, fazer uma coisa semelhante”, lembra. Este entusiasmo, partilhado com o seu amigo Rodrigo Leão conduziria à formação da Sétima Legião, na qual lembra que “filtrávamos o mesmo espírito, naturalmente adaptado ao que nós éramos”.
Como sucede além-portas (ver caixa), a música da Joy Division ainda hoje estimula novas bandas. Os The Gift, em colaboração com Rodrigo Leão e Pedro Oliveira, criaram o concerto “paralelo” Madchester Mad Remixes, no qual tocam versões de Atmosphere, Decades e Love Will Tear Us Apart. Nuno Gonçalves teve um primeiro contacto muito cedo com a Joy Division quando o irmão lhe mostrou Love Will Tear Us Apart. Não gostou. Anos depois reencontrou uma cassete com Closer, e a reacção foi diferente: “Fiquei fascinado pelo Decades, a música que mais vezes ouvi na minha vida”. Encantou-o a convivência de uma lírica “difícil de entender” com uma música acessível. “Comprei depois o livro dos poemas, que saiu pela Assírio e Alvim”.
David Benasulim, dos Ultimate Architects também assume a herança de Curtis. Descobriu a Joy Division, num dia em que foi a casa de um amigo ver a guitarra e bateria do irmão dele (o Sapo então nos Pop Dell’Arte e hoje nos Mão Morta). Olhou para a parede e viu “posters”, e artigos de revistas fotocopiados com fotos de bandas esquisitas, a preto e branco, com gente estranha e olhares alucinados... eram os Joy Division”. Transmission foi, logo depois, o primeiro tema que ouviu: “A voz entrou em mim, a bateria e as guitarras formavam uma atmosfera diferente das músicas que estava habituado a ouvir na rádio. O ambiente em casa do Sapo, os instrumentos, os Joy Division, a voz de Ian Curtis, fizeram com que despertasse o desejo de fazer música e formar uma banda.” Curiosamente, anos depois, os Ultimate Architects incluíam uma versão de Transmission no seu set ao vivo: “O desespero, claustrofobia, força contida, poesia negra e desesperada desta letra arrebataram-me”, remata.
25 ANOS DEPOIS
OS REENCONTROS
ONDAS DE TRANSMISSÃO
ANTÓNIO SÉRGIO, NA RÁDIO. PITA, COMO DISC-JOCKEY DO ROCK RENDEZ VOUS. E ANA CRISTINA FERRÃO, TRADUTORA DA BIOGRAFIA ‘CARÍCIAS DISTANTES’. TRÊS DOS DIVULGADORES NACIONAIS FALAM DO CULTO.
Comprou o primeiro disco em Londres, como tantos outros, pela sugestão do nome da banda. Ou, talvez, porque já tivesse lido alguma crítica no New Musical Express ou Melody Maker, as “bíblias” que então se encomendavam na Distri, em Lisboa. As letras, afirma hoje, eram depressivas, como o ambiente frio e operário de Manchester, e em português até soariam a algo piroso. “Não te vás embora em silêncio!”. “São grandes canções de amor”, atalha a companheira Ana Cristina Ferrão, que em meados de ... traduziria para a Assírio e Alvim Touching from a Distance / Carícias Distantes, a biografia de Ian Curtis escrita pela sua mulher, Deborah Curtis.
Seja como for, o som era “brutal”. De bom. E em boa parte, como descobriu mais tarde com Ricardo Camacho, tudo se deveu a Martin Hannett. “O 5º Joy Division”, o homem da produção que encontrou “aquele som de estilhaço constante” ao fechar a bateria numa cápsula de vidro; que “abriu o baixo”; que “captou a voz de Curtis com o microfone demasiado alto, obrigando-o a esticar o pescoço e abrir o peito – e isso reflectiu-se nos espectáculos pois começou a gesticular de maneira diferente”.
Sem menosprezar a inovação e qualidade das canções e poesia, António Sérgio aponta vários factores que contribuíram para o sucesso da Joy Division: a Inglaterra vivia uma época criativamente rica; as editoras independentes tinham personalidade e tratavam de todo o conceito associado às bandas, do reportório às capas ou modo como se apresentavam em público; e o jornalismo de autor, com Paul Morley à proa da escrita na primeira pessoa, ajudava a divulgar o fenómeno. Por cá, a transmissão vivia do boca-a-boca e Miguel Esteves Cardoso, então a viver no Reino Unido, trouxe os ecos de além-Mancha à imprensa portuguesa [o DN:música não obteve resposta aos pedidos de entrevista].
“Sociologicamente, foi muito importante o papel que acabou por ter a Factory em todo este movimento”, lembra Ana Cristina Ferrão, “Tony Wilson, o dono, era um artista que se exprimia através da edição”. Um Andy Warhol à sua escala. E a Joy Division surgiu no momento certo. “Como os Sex Pistols. Foram aqueles, podiam ser outros”. Eram “ratinhos de experiências” nas mãos da editora e do produtor, diz António Sérgio, que, já no Rolls Rock da Rádio Comercial, tantas vezes levaria ao éter temas como Transmission. Era mais “uplifted”.
“Havia um gap cultural muito grande entre Tony Wilson e a trupe da Factory, nomeadamente, as pessoas da Joy Division, que viviam da assistência social e eram, de alguma forma, exploradas naquele contexto”, considera Ana Cristina.
Deborah Curtis, que muito mais tarde conheceria numa festa em Londres, “era o protótipo da menina bimbinha que está metida num filma do qual não quer ser actriz. Aí percebemos que aquilo que há da sala de ensaio para dentro não corresponde ao que aparece para fora, e tudo isso acaba por funcionar num imaginário que na Joy Division parece demasiado asséptico. Imaginamos sempre Ian Curtis como o eterno namorado que gostaríamos de ter, elevadíssimo, tentando apanhar o ar, e depois, coitadinho, tinha pés de barro como toda a gente”.
A sofrer de epilepsia, medicado e com acompanhamento psicológico, Curtis estava dividido entre “um affair da Bélgica e uma família que não se encaixava nesse novo estilo de vida”. Para não falar na pressão de uma digressão aos EUA e de ser o homem da voz, instrumento que mais facilmente se degrada. Teve a “sorte” de morrer cedo, deixando uma imagem “deificada”.
Entretanto, “mercê talvez de uma característica demasiado suburbana, a Joy Division transformou-se em culto. A pose fazia parte de uma atitude”, argumentam Ana Cristina e António Sérgio, recordando um concerto da Sétima Legião e dos Croix Sainte nas Belas-Artes de Lisboa. Corpos imóveis, enfiados em roupas escuras.
João Santos, ainda hoje conhecido por Pita, chamava-lhes “a fauna”: “pintavam a cara de branco e os olhos de preto, vestiam-se de preto, usavam Doc Martens, calças muito justas e casacos de cabedal”. Malta “do subúrbio – notava-se imenso”. Gente “calma” de Almada, Amadora, Odivelas, Vila Franca, também fã de Echo & The Bunnymen, The Jesus & Mary Chain, Siouxsie & The Banshees e Bauhaus, conta o disc-jockey que, de 1981 a 1991, fez o som, cortou bilhetes, contratou bandas e foi gerente do Rock Rendez Vous (RRV).
Pita, que em 1993 conheceria Tony Wilson durante o concerto dos New Order no Pavilhão do Restelo, ainda trabalhava no Browns Club quando o dono, piloto da TAP, lhe trouxe Unknown Pleasures. “Achava aquilo tétrico”. Mas, “das 11 à meia-noite, quando não estava ninguém”, passava. No Browns e nos fins-de-semana do 2001, “clubes de rock puro onde não dava para inventar”. Transmission era “para os mandar embora”.
Na época do RRV e de Closer (trazido de Londres pelo dono, Mário Guia), “usava Joy Division para fazer a introdução das bandas” que iam actuar. Como adoravam aquilo, comecei a passar dois ou três temas mais acelerados”. E, por ocasião da data da morte, Ian Curtis chegou mesmo a ser homenageado: “Durante uma hora, só se ouviu Joy Division. No ecrã gigante passavam slides do meu amigo fotógrafo Rui Vasco, que tirou fotos no Marquee em 1977”.
New Order, esses sim, “tinham batida mais do que suficiente para manter as pessoas animadas”, afiança, dado que nos 80 os êxitos nas pistas nacionais pertenciam aos INXS, Nina Hagen, Cheap Trick, Tubes, Elvis Costello, Sex Pistols, Devo, Adam & The Ants ou Cars. Outros tempos, esses da tesoura e cola para conseguir um scratch, diz o agora produtor executivo da Pavilhão Atlântico – que entretanto já foi DJ no Kremlin, Alcântara-Mar, Frágil ou Rock’s (Gaia), manager, produtor de concertos dos Rolling Stones e U2, e gestor da Praça Sony. Só lamenta, desde então, o efeito nefasto das playlist, a dificuldade na distribuição das edições de autor e o facto de as gerações mais jovens, que com um computador podem fazer tudo, reduzirem as referências na guitarra ao som dos U2.
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12.6.16
Recordações (1)
K7
com:
data: 15.11.1986
programa: Luso Clube
autor: Pita
estação: Rádio Comercial
horário: 20h/21h
1 - Tó Neto - Anne(?)
2 - Urb - Pecados
3 - Essa Entente - La Féria
4 - Essa Entente - Festa Final
5 - GNR - Efectivamente
data: 16.11.1986
programa: Ultrasom
autor: Amílcar Fidélis
estação: Rádio Renascença
horário: 20h/21h
6 - Felt - Sptember Lady
7 - XTC - The Midding Palace
data: 21.11.1986
programa: Som da Frente
autor: António Sérgio
estação: Rádio Comercial
horário: 16h/17h
8 - Killing Joke - Sanity
9 - Killing Joke - ?
10 - Cocteau Twins - Loves Easy Tears (?)
11 - Jesus & Mary Chain - Psicocandy
4.8.15
Memorabilia: Revistas / Magazines / Fanzines (119) - Música & Som #9
Ano I - Nº 9 / 2 Junho 1977
Música & Som publica-se à 5ª feira, de quinze em quinze dias.
Director: António L. de Mendonça
Propriedade de: Diagrama - Centro de Estatística e Análise de Mercado, Lsª
Este número de Música & Som foi escrito por: A. Duarte Ramos, António Amaral Pais, António Mega Ferreira, António Pinho, António Sérgio, Bernardo Brito e Cunha, Carlos Jorge, Filipe Costa, H. Duarte-Ramos,
Ivan Hancock, J. Jorge, Jaime Fernandes, James Anhanguera, João David Nunes, João de Menezes Ferreira, M. A. Araújo, Manuel Bravo, Manuel Cadafaz de Matos, Paulo Norberto e Rui Neves.
Correspondente na Alemanha: Jorge Dias
Correspondente na Espanha: Mateo Fortuny
Correspondentes em Londres: Manuel Menezes e Pedro Albergaria
Fotografias de: J. Lobo Pimentel
Tiragem 20 000 exemplares
52 páginas A4
capa de papel brilhante grosso a cores
interior com algumas páginas a cores e outras a p/b mas sempre com papel não brilhante de peso médio.
Começa aqui uma série de postagens sobre a revista Música & Som, que foi das primeiras publicações musicais que comprei. Acho que este é o número mais antigo que tenho, embora não tenha a certeza pois ainda há aqui muito "papel" para arrumar/arquivar. O que me surpreendeu ao reler este número: A colaboração (técnica) de Manuel Bravo, que mais tarde vim a conhecer pessoalmente como director do Museu da Rádio, nas minhas deambulações de visitas de estudo com os meus alunos que faziam parte do Clube de Rádio lá da escola, os artigos do António Sérgio, a participação do António Mega Ferreira, a qualidade da música e dos artigos apresentados, alguns nomes de escribas.
Para já transcrevo dois artigos: uma entrevista com o Quarteto 1111 e um artigo sobre a presença dos CAN em Portugal.
No final do post listo mais alguns artigos que, eventualmente, no futuro merecerão transcrição (se tiverem urgência/vontade de ver algum deles transcrito, é só solicitar por email).
Quarteto 1111 - Para Onde?
Entrevista
Registado e Coligido por J. Jorge e M. A. AraújoÀ correspondência nacional do folclore urbano não são estranhas as tonalidades anglo-americanas (Quem o duvida?) nem a adopção despudorada de modelos importados.
De um sabor, se não popularizado, pelo menos característico no seu tentame da vulgarização, a ideia da verdadeira música popular portuguesa subsiste na mira das intenções mais sinceras dos melhores grupos
nacionais - e referimos, em particular, aqueles que lograram arrostar sistematicamente o vazio de uma identificação etnico-cultural inexistente. Sonho quimérico ou apenas de concretização adiada? O problema vai-se arrastando e o público não se mostra sensível às propostas casuais que se lhe apresentam no quotidiano da sua escuta.
O Quarteto 1111, fiel à tradição do seu nome, vem encetando um confessado esforço neste sentido. Na véspera da sua partida para os Estados Unidos onde irá efectuar uma «tournée» pelos núcleos de emigrantes aí radicados, falou a Música & Som de si próprio e da sua interpretação dos problemas gerais da música portuguesa.
M&S - Que vai acontecendo com o Quarteto 1111 que mais uma vez parece ter-se renovado?
Vítor Mamede - O que se passou é que desde Setembro do ano passado, nós ou mais propriamente eu tentei encontrar uma nova formação para o Quarteto - Uma formação que fosse mais ou menos ideal, dentro da minha ideologia musical. O Rui Reis já então estava comigo, e juntos havíamos feito durante seis meses o «Godspell» (portanto desde o começo de 76 até meados de Junho). Foi nessa altura em que o Mike e o Tozé decidiram abandonar o grupo, que eu me decidi que era aquela a altura precisa, para de dentro do 1111 ir buscar para ele, músicos um pouco mais versáteis, já que (a nível musical) o Mike e o Tozé são um tanto restritos. É então que surgem no Quarteto o Luís Duarte (baixo) e o Armindo Neves (violas + guitarra).
M&S - Dos membros que presentemente integram o vosso grupo nenhum é, pois, membro fundador?
VM - Não. Apenas eu já havia tocado no 1111, aí acerca de dez anos, fazendo as chamadas «folgas» de um baterista que nem sempre podia tocar. Mais tarde (há cinco anos aproximadamente) estive então como
baterista efectivo do Quarteto, saindo depois do grupo, para voltar a fazer parte dele, com carácter definitivo, desde há um ano e meio para cá.
M&S - Em relação à própria música, onde é que se pode ressentir mais esta mudança de elementos do grupo, e consequentemente, de caminhos musicais?
VM - Parece-me que isso se poderá reflectir nos trabalhos que iremos fazer no futuro. Acho que o Quarteto 1111 constitui por si só um nome com uma série de responsabilidades ao nível da música ligeira em
Portugal. (Basta para isso recordar trabalhos como «El-Rei D. Sebastião»).
Daí que tenhamos, a todo o custo, conservar o nome do Quarteto num determinado nível, para que não desça. Se isso algum dia suceder, acho que mais valerá acabar definitivamente com o grupo, e deixar que o seu nome morra sossegado.
M&S - Poder-se-á, de facto, encontrar qualquer correspondência entre o que o Quarteto 1111 realizou ao tempo de «El-Rei D. Sebastião» e aquilo que pratica neste momento?
Rui Reis - Parece-me que a responsabilidade que esse trabalho trouxe ao nome do Quarteto continua presente, embora a linha musical do grupo, neste momento, não surja no prolongamento da primitiva.
VM - A nossa ligação com o passado do grupo é, digamos, espiritual. No fundo, hoje em dia somos uma pequena empresa na qual estão envolvidos alguns elementos que integram a formação primitiva do 1111, e
para além disso, continuamos aquela pesquisa da música portuguesa, a que se dedicou o 1111 original.
M&S - Em que momento sentem vocês que a música que fazem tem algo a ver com a música portuguesa, e em particular, com a música popular?
RR - Nascemos cá em Portugal, e tal como as pessoas que fizeram «A Canção do Mar» ou «Lisboa à Noite» e outras tantas, possuímos um mesmo espírito, uma mesma forma de cultura-base; talvez possamos,
pois, a partir daqui estar um pouco mais à vontade para tratar deste assunto. Por outro lado temos uma certa forma de educação musical provavelmente um pouco «requintada», isto é, toda a gente seguiu
determinadas linhas - eu por exemplo no Conservatório, outros através de linhas sugeridas por esquemas que vieram de fora e os influenciaram. É precisamente a partir dessa base e dessa forma de conhecimento, de certo modo importado e adaptado à nossa maneira, que vamos tentar não quebrar a continuidade naquilo que existe e que foi feito até agora, a fim de o levar a um determinado tipo de público, que por princípio tem
relutância em aceitar um certo tipo de música portuguesa.
Mas ainda que estejam nos nossos planos, as raízes folclóricas não constituem para nós um objectivo imediato a realizar.
Luís Duarte - Existe um descrédito relativamente a tudo o que se faz a nível de música cá em Portugal, e isto deve-se fundamentalmente à relativa falta de cuidado de tratamento, quer musical, quer técnico dos
trabalhos que têm sido feitos; e, por outro lado, as firmas de gravação empenhadas nos tais trabalhos, têm descurado uma determinada camada do público (entre os quinze e vinte anos) que é importantíssima,
porque são eles que compram dezenas de discos, na generalidade importados, pois são sensíveis fundamentalmente ao factor qualidade.
Armindo Neves - Creio que isso se deve também à intensa divulgação, através dos meios de informação da música inglesa e americana (muito boa e muito má) - esses são os dois impérios da música. Ora as
editoras sabem que fica muito mais caro editar um disco de música portuguesa (há que pagar o aluguer do estúdio, os músicos, etc.) do que importar gravações.
VM - Acho que a única maneira de levar as pessoas a comprarem música portuguesa será conseguir criar nela uma certa qualidade, contando, é claro, com o incondicional apoio de todas as editoras e de todos os
órgãos de informação na divulgação dessa mesma música e através de uma protecção eficaz do governo.
M&S - O facto é que as pessoas procuram aquilo com que se identificam - a música portuguesa está em crise há muitos anos em consequência, parece-nos, desta realidade ineludível.
VM - ... Estou em desacordo com isso. Realmente acho que as pessoas acabam por se identificar com a música portuguesa, pelo simples facto de que quando há qualquer festividade elas continuam a cantar as
mesmas musiquinhas ditas de raízes folclóricas. Acho que toda a gente conhece o «Manuel Malhão» e canta a «Marcha de St.º António», e aqueles que não sabem as letras, sabem pelo menos trauteá-las e lá-lá-lá.
M&S - Será essa a música popular do nosso tempo? Haverá qualquer possibilidade de escolha nas evocações?
AN - Parece-me que é realmente por não existirem outras. Acerca disso tenho algo a dizer: - em primeiro lugar não existem em Portugal escolas ou sítios onde se possa ouvir aquilo que a música portuguesa tem de
si própria. Na Rádio não se ouve, ou talvez se comece a ouvir agora, mas são os tais trabalhos já um pouco afastados das suas bases, às quais não se tem acesso. Se alguém decide viver só da música em
Portugal, isto é, ser profissional, para além de não ter acesso à cultura musical do seu país (tal como um amador, mas este, pelo menos, pode desenvolver um trabalho de «carolice», e um profissional não se pode
dar a esse luxo), não se tem qualquer espécie de protecção.
VM - Eu já me dei até ao trabalho de consultar as tabelas do Governo, onde os instrumentos musicais são considerados artigos supérfluos... Será sumptuário não ter outro modo de vida além de fazer música?
M&S - Os músicos portugueses têm mostrado uma «capacidade» de adaptação na sua abordagem dos vários géneros musicais, de tal modo precipitada (que se deve, julgamos, à necessidade de satisfazer o
máximo de contratos possíveis), que, ao invés de enriquecer a sua música e beneficiar uma disciplina de aproximação musical só vem agravar a confusão já instalada no público e, o que é mais grave, no seio dos
próprios músicos. O Quarteto 1111 estará decidido a efectuar um salto qualitativo de especificidade? Para onde?
LD - Acho que neste momento é ainda prematuro fazer previsões, visto a nossa formação do Quarteto existir há poucos meses e o trabalho que realizámos no single (editado há pouco tempo) ter o objectivo de
auscultar opiniões. É um trabalho experimental, que contém duas canções populares portuguesas, às quais pretendemos dar uma feição «internacionalista», através de um arranjo nosso, muito particular (o som das
cordas, por exemplo, está dentro da linguagem clássica, enquanto que a guitarra eléctrica segue o estilo Wes Montgomery, e o som do órgão é temperado por um balanço «funkie»), respeitando, no entanto, a
melodia portuguesa original. Pessoalmente, penso que a respeitei bastante, tocando-a até com guitarra portuguesa (que é um instrumento de que gosto e ao qual penso dedicar-me um pouco mais, de futuro -,
autodidacticamente, é claro!).
M&S - Qual é o futuro imediato da vossa actividade musical?
RR - O grupo encontra-se, neste momento, perante uma encruzilhada da qual não é possível ainda decidir as linhas de acção futura. Evidentemente, que a partir da «tournée» aos EUA poderão advir duas situações
totalmente opostas: - a aceitação ou não do trabalho que agora estamos a desenvolver determinará a nossa orientação. Gostaria de não acrescentar mais porque, de qualquer maneira não é prudente falar em grandes
voos, que depois não se venham a concretizar...
CAN em Portugal
Pouco conhecidos do público português, como a maioria dos músicos de rock alemães, os CAN estiveram presentes em Lisboa e Porto, nos dias 27 e 28. A sua tournée europeia de 1977 teve paragens na Suiça, na
França, na Espanha e na Alemanha Federal, naturalmente. A sua presença em Portugal marca portanto o términus de uma volta pela Europa e é simultaneamente a sua estreia ao vivo para os espectadores
portugueses.
Os CAN existem há nove anos. Em 1968, Irmin Schmidt, verificou que a sua prática de dirigente de orquestra em diferentes teatros de ópera não o realizava totalmente e por outro lado sentia-se muito afastado da assistência. Desistiu da sua carreira e procurou novos horizontes. Um velho amigo, Holger Czukay apoiou-o, incutindo-lhe a ideia de experimentar o seu talento com nova música. Holger, professor num Conservatório de música em Zurique, apareceu no dia seguinte em Colónia e fazia-se acomanhar do seu amigo e aluno Michael Karoli. Michael tocava banjo, violino e viola desde os onze anos. Faltava um baterista qualificado para completar o quadro do conjunto que surgiria poucos dias depois, através de um amigo de Irmin Schmidt. Assim se constituiu em 19 de Julho de 1968 o grupo CAN.
Neste momento os CAN vêem o seu número aumentado para cinco com a entrada de Rosko Gee, um negro da Jamaica que já foi contrabaixo de grupos como os «Gonzalez» e os «Traffic». Tal como Rosko Gee, também Reebop Kwaaku Bah, amigo de Steve Winwood e ex-Traffic, pensa juntar-se aos «soudspezialisten» do Reno.
Quanto às actuações do grupo em Portugal, será curioso assinalar que a primeira parte destas serão preenchidas com a actuação do grupo portuense «Arte e Ofício». Trata-se de uma oportunidade aliciante para este agrupamento, autor de algumas interessantes composições de rock português.
Além dos dois elementos que recentemente se juntaram aos CAN, vale a pena referenciar algumas notas sobre os quatro componentes originais.
Holger Czukay, baixo e vocalista, nasceu em Danzig em 24 de Março de 1938. As influências musicais que admite ter recebido vão desde Stockhausen (de quem foi aluno durante cinco anos) até músicas de culturas
nativas de diversos países. Toca vários instrumentos como uma jazz bass da Fender que ele próprio adaptou. Usa também uma Framus Triumph, um baixo duplo acústico e uma Farfisa especial.
Irmin Schmidt, nascido em Berlim no dia 29 de Maio de 1937, toca as teclas do grupo e o sintetizador. As suas influências musicais são demasiado vastas para serem aqui mencionadas. Tal como Czukay, foi aluno
de Stockhausen e de Berio. Os seus variados instrumentos musicais vão desde um órgão profissional Farfisa Duo, um piano eléctrico Farfisa e um sintetizador Alpha 77 desenhado e feito segundo as suas próprias
indicações, pela casa Hermi Hogg Electronics de Zurique (Suiça).
Michael Karoli, nasceu em 29 de Abril de 1948 em Straubing, na Baixa Baviera. Toca guitarra, violino, steel guitar, etc. Admite e reconhece ter influências musicais de velhos pianistas de ragtime, de músicos
indianos, húngaros e romenos, e de guitarristas e banjoistas de jazz, próximos do ragtime. Entre os muitos instrumentos musicais que toca, destacamos: uma Fender Stratocaster modificada por Bob Hickmott, um
violino eléctrico Vitar, uma steel guitar da Framus, um violino acústico da Boémia com 200 anos, duas guitarras bávaras feitas artesanalmente por Hanika e um instrumento turco chamado Baglama. Possui também um pré-amp transformado por Bob Hickmott e um amp. Fender Vibrao Champ. Estes instrumentos estão conectados com um sistema combinado Farfisa / JBLancing que liga directamente com o PA das bandas.
Jaki Liebezeit, nasceu a 26 de Maio de 1938 em Dresden e é o percussionista do grupo. As suas influências musicais vão desde a ópera até ao jazz. Os seus instrumentos de percussão vão desde um kit de bateria
sonoro até alguns címalos de Avedis Zildjian e algum material especial para concertos ao vivo.
Discografia
1 - Monster Movie (1969 - United Artists)
2 - Soundtracks (1970 - United Artists)
3 - Tago Mago (1971 - United Artists)
4 - Ege Bamyasi (1972 UA)
5 - Future Days (1973 UA)
6 - Limited Edition (1974 UA)
7 - Soon Over Babaluma (1974 UA)
8 - Landed (Set 75 EMI)
Alguns artigos interessantes, para futura transcrição:
Dossier Supertramp (João David Nunes e Jaime Fernandes)O Rock e o Resto - "1ª evocação das origens: Ginsberg" (coluna/artigo de António Mega Ferreira)
Luis Villas Boas fala dos SOFT MACHINE...
Críticas de discos:
Message - «Message» [DECCA SLPDX - 622213] por J.M.F.
Caravan - «Canterbury Tales» (Volume 1) [DECCA PSKLR-5273], por AAP
Pequenos artigos/colunas de António Sérgio:
. Oh, Qualidade!
. ISPY
. PUNK 3
. BAZAR - OUT
...&Som - secção a cargo de Manuel Bravo:
. Batimentos
.. Batimento de duas ondas sinusoidais
.. Batimento de sons
..Batimentos na técnica
.. Ilustração do Batimento
. A Rádio... O Mundo Ao Seu Alcance
.. Como receber estações longínquas?
.. Sensibilidade do receptor
.. Selectividade do receptor
.. Estabilidade do receptor
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