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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Emissão #52 - 17 Novembro 2007

A 52ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 17 de Novembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 21 de Novembro, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (8 e 12 de Dezembro) nos horários atrás indicados.

"Ostinato & Romanian Dance", Taraf de Haïdouks (Roménia) - gypsy music
Os Taraf de Haïdouks a abrirem mais uma emissão com a “Ostinato & Romanian Dance”, tema original de Béla Bártok e que inaugura “Maškaradă”, trabalho inventivo e enérgico, lançado este ano. Neste álbum, onde é convidada Virginica Dumitru, os Taraf de Haïdouks apresentam temas próprios e versões de clássicos do início do século XX. Entre os compositores que serviram de base a este disco estão os húngaros Béla Bártok e Joseph Kosma, o arménio Aram Khachaturian, os espanhóis Isaac Albéniz e Manuel de Falla ou o inglês Albert Ketèlbey, eles próprios influenciados pelo folclore balcânico e pela tradição cigana. Os Taraf de Haïdouks ("banda de bandidos") são originários de Clejani, cidade localizada a sudoeste de Bucareste, na Roménia. Esta dezena de instrumentistas e cantores, em que convivem quatro gerações de lăutari (músicos), foi descoberta em 1990 por dois jovens músicos belgas que se apaixonaram pela sua sonoridade e decidiram dá-los a conhecer ao mundo. A música dos Taraf de Haïdouks, que varia entre as baladas e as danças, é uma mistura de estilos locais, representando na perfeição a riqueza da folk romena.

"The Stride Set",
Solas (EUA) - celtic, irish folk
As músicas do mundo prosseguem com os Solas (termo que em gaélico significa “luz”). Eles trazem-nos "The Stride Set", um agrupamento de temas (“The Stride”, “Tom Doherty's”, “The Contradiction” e “Viva Galicia”), extraído do terceiro álbum da banda, “The Words That Remain”, editado em 1998. Uma visão contemporânea da folk irlandesa e dos sons tradicionais celtas, a que o quinteto de Nova Iorque, formado em 1996, adiciona elementos da música country, do blues, do bluegrass, do jazz, bem como outros ritmos globais. Apesar de americanos, o virtuosismo e a versatilidade dos Solas fá-los levar a música tradicional irlandesa para além dos típicos jigs e reels. São arranjos imaginativos de melodias e danças do velho continente, mas também composições próprias do grupo, formado por Seamus Egan, Winifred Horan, Mick McAuley, Deirdre Scanlan e Eamon McElholm. Neste trabalho, onde são convidados o mestre do banjo canadiano Bela Fleck e a vocalista Iris de Ment, os Solas apimentam a folk irlandesa com instrumentação menos convencional. À flauta, gaita, whistle, bodhrán, acordeão, guitarra, banjo, bandolim, violino e concertina juntam-se então a guitarra eléctrica, os teclados e o sintetizador.

"Boy In The Boat ", Lúnasa (Irlanda) - celtic
Os Lúnasa apresentam-nos o medley “Boy In The Boat” (integra “The Ballivanich Reel”, “The Boy in the Boat” e “The Stone of Destiny”), retirado do disco “Sé” (em irlandês lê-se ‘shay’), lançado em 2006. Trabalho onde Trevor Hutchinson, Paul Meehan, Seán Smyth, Kevin Krawford e Cillian Vallely contam com as colaborações dos guitarristas Tim Edey, do teclista Pat Fitzpatrick e do trombonista Karl Ronan. Na Irlanda, ainda hoje o mês de Agosto é conhecido por Lúnasa – o termo original era Lughnasadh –, uma alusão ao antigo festival celta outrora realizado no primeiro dia de Outono em honra do deus irlandês Lugh, patrono das artes. Este quinteto instrumental, criado em 1997, contraria a tendência de fundir a música tradicional com o rock, a pop ou a música electrónica. Para os Lúnasa, a renovação celta passa antes pela tradição, embora eles não fechem portas a novas sonoridad
es. Inspirados pela The Bothy Band, referência dos anos de 1970, os novos deuses da música irlandesa juntam o violino, a flauta e a gaita irlandesa, o whistle, o contra-baixo e a guitarra acústica, explorando também as raízes bretãs e galegas. Graças aos arranjos inventivos e ao seu som enérgico, influenciado pelo jazz, blues, rock e country, os Lúnasa abriram um novo caminho para a música tradicional irlandesa.

"Jidka", Saba (Somália) - afropop
A jornada continua com Saba e o tema "Jidka" (A Linha), extraído do álbum do mesmo nome, editado este ano. Termo que se refere ao lado mestiço da cantora, a qual cruza a cultura africana com a europeia. Nascida em Mogadíscio, capital da Somália, durante o regime repressivo do general Muhammad Siyad Barre, Saba é filha de pai italiano e de mãe etíope. Com os italianos permanentemente sob suspeita e o conflito com a Etiópia na região de Ogaden, a família foi então obrigada a exilar-se em Itália. Neste trabalho de estreia, a jovem mistura guitarras acústicas, koras e djembés com batidas tradicionais africanas e percussão contemporânea, recordando canções de infância e temas compostos com a própria mãe (recorde-se que ela começou por cantar e dançar com a irmã para entreter os vizinhos, em Addis Abeba). Saba, que tem trabalhado com autores somalianos como Cristina Ubax Alì Farah e Igiaba Scego, serve-se do dialecto somali de Xamar Weuyne, onde abundam as palavras em inglês e italiano, herança dos tempos coloniais. Nesta aproximação entre culturas, ela conta com as participações do guitarrista e percussionista camaronês Tatè Nsongan, do griot senegalês Lao Kouyatè e da voz de Felix Moungara, orginária do Gabão.

"Mini Kusuto", Colombiafrica - The Mystic Orchestra (Colômbia, Congo, Nigéria, Bolívia) - champeta, afrobeat, soukous, highlife
A Colombiafrica – The Mystic Orchestra estreia-se no programa com “Mini Kusuto”, tema retirado do álbum “Voodoo Love Inna Champeta Land”, lançado este ano. Depois de séculos de colonização, Colômbia e África juntam-se finalmente através da champeta criolla, o primeiro género afro-colombiano contemporâneo. São versões locais de ritmos africanos como o soukous congolês, o highlife ganês, a afro-beat nigeriana ou o sul-africano mbaqanga, que se misturam com a cumbia, o bullerengue, a chalupa, o lumbalú (canção funerária) e outros estilos caribenhos, num diálogo permanente entre as percussões, as guitarras e as vozes. Neste trabalho, as estrelas da champeta Viviano Torres, Luís Towers e Justo Valdez, originários da cidade de San Basilio de Palenque, juntamente com o produtor Lucas Silva (“Champeta-Man Original”), devolvem a África os ritmos afro-colombianos. Uma jornada em que contam com talentos oriundos do Congo, Guiné, Angola e Camarões, tais como Dally Kimoko, Diblo Dibala, Nyboma, Sékou Diabaté, Rigo Star, Bopol Mansiamina, Caien Madoka, Ocean, 3615 Code Niawu, Hadya Kouyate, Son Palenque, Las Alegres Ambulancias, Batata e Guy Bilong.

"Mesechina", Dragan Dautovski Quartet (Macedónia) - macedonian folk
Segue-se o Dragan Dautovski Quartet com “Mesechina”, tema retirado do álbum “Patot Na Sonceto” (O Caminho do Sol), lançado em 2001. Para além de Dragan Dautovski, fazem parte desta formação Aleksandra Popovska, Ratko Dautovski e Bajsa Arifovska. Ao longo das últimas três décadas, o artista tem trabalhado com mais de vinte instrumentos tradicionais da Macedónia e composto para diversos vocalistas e orquestras. Neste quarteto, destacam-se a gajda (gaita-de-foles dos Balcãs), a kaval (pequena flauta diatónica), a zurla (espécie de oboé, comum na Macedónia e nos países dos Balcãs), o tapan (tambor duplo comum nos Balcãs e originário da Turquia, onde é conhecido por davul) e a tambura (versão balcânica do alaúde indiano, com cordas dedilhadas e braço sem trastos). Professor de música tradicional em Skopje, a capital daquele território, Dautovski é o único flautista neolítico do planeta. Tudo porque foi o primeiro a estudar uma ocarina com cerca de seis mil anos, encontrada perto da cidade de Veles. Um instrumento de sopro de forma oval, feito de porcelana, terracota ou pedra, e que é um dos mais antigos do mundo. Em 1992, o compositor formou o ensemble tradicional Mile Kolarovski, com que tem tocado e feito várias gravações para a radiotelevisão macedónia, e três anos depois o DD Synthesis, projecto cujo objectivo é o de explorar em profundidade a folk daquele país.

"Min Perimenis Pia", Glykeria (Grécia) - greek music, rock, pop
Segue-se Glykeria, que nos traz “Min Perimenis Pia”, tema extraído do álbum “15 Greek Classics”, editado em 1998. Nascida em Agio Pnevma, na Macedónia grega, Glykeria Kotsoula é conhecida pela interpretação de canções da música rebética. Ela apresenta-nos uma amostra da dança do ventre, género popular na Grécia, onde é conhecido por tsifteteli, e que ali recebeu a influência da herança cigana e dos gregos regressados da Turquia aquando a independência daquele território. Glykeria começou por trabalhar em clubes de noite tradicionais de Plaka, no centro de Atenas, até que em 1978 o compositor Apóstolos Kaldaras a convidou a interpretar uma selecção de temas. Hoje são quase três dezenas de discos, cantados em 14 línguas, entre elas o sérvio, o hebreu, o turco, o inglês, o francês, o italiano, o espanhol e o japonês. O estilo profundo e melancólico de Glykeria cativou também os corações dos israelitas. Em 1998, ela foi a única artista estrangeira a marcar presença em Tel Aviv numa homenagem a Yitzhak Rabin, cantando diante de 200 mil pessoas. Ao longo dos anos têm vindo a somar-se as colaborações com outros artistas, entre eles Natacha Atlas, Omar Faruk Tekbilek, Loukianos Kilaidonis, Mary Linda, Sotiria Bellou, George Dalaras, Ofra Haza, Ricky Gal, Chava Alberstein, Amal Markus, Paschalis Terzis, Ilias Aslanoglou, Antino Vardis e Sarit Hadad.

"Desde Cuba Hasta Afghanistan", Bakú (Porto Rico) - salsa, flamenco, pop, rock
A emissão chega ao fim com os Bakú e o tema “Desde Cuba Hasta Afganistán”, extraído do álbum “Somos”, editado em 2006. Uma faixa que fala de alguém de tal forma obcecado, que seria capaz de se converter ao Islão para conquistar o coração de uma moura. Depois de terem trabalhado juntos durante cerca de cinco anos noutro projecto, em 2006 Farrel, Dabí Marrero, Martín Cerame, "Joey" González e Davo Ayala decidiram formar um novo grupo. Este quinteto porto-riquenho, que foi buscar o nome a uma árvore de madeira extremamente dura, mistura a música afro-caribenha, a salsa clássica, o cubano son montuno, o flamenco e a música do Médio Oriente com o funk, a pop e o rock latinos. Para criarem um repertório único e dinâmico, os Bakú servem-se de uma secção de metais (trompete, saxofone e trombone) e de uma secção rítmica que inclui a bateria, os timbales, as congas, os tambores e o cajón. A instrumentação fica completa com as guitarras acústica e eléctrica, o baixo e os teclados, havendo lugar ainda para a sitar e as gaitas de foles.

Jorge Costa

quinta-feira, 1 de março de 2007

Emissão #38 - 3 Março 2007

A 38ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 3 de Março, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 7 de Março, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (24 e 28 de Março) nos horários atrás indicados.

"Homecoming", Taraf de Haïdouks (Roménia) e Tunng (Reino Unido)
- gypsy music, folktronica
Os Taraf de Haïdouks com “Homecoming”, uma remistura dos Tunng extraída da colectânea “Electric Gypsyland 2”, editada em Novembro do ano passado. Uma série de reinterpretações e de reinvenções poéticas de músicos europeus, turcos e africanos, em que o ponto de partida é a música cigana. Os Taraf de Haïdouks ("banda de bandidos") são originários de Clejani, cidade localizada a sudoeste de Bucareste, na Roménia. Esta dezena de instrumentistas e cantores, em que convivem quatro gerações de lăutari (músicos), foi descoberta em 1990 por dois jovens músicos belgas que se apaixonaram pela sua sonoridade e decidiram dá-los a conhecer ao mundo. A música dos Taraf de Haïdouks, que varia entre as baladas e as danças, é uma mistura de estilos locais, representando na perfeição a riqueza da folk romena. O que chamou a atenção, entre outros, dos Tunng, banda inglesa que mistura a folk experimental com elementos da música electrónica, género habitualmente conhecido por folktronica ou electrofolk. Este duo de guitarras, formado por Sam Genders e Mike Lindsay, destaca-se quase sempre pelo uso de instrumentos pouco comuns, como por exemplo as conchas do mar. Os Tunng criam então uma atmosfera melódica e rural, a qual dá um
ar estranhamente britânico aos Taraf de Haïdouks.

"Gizonak Eztan Bear", Alboka
(Espanha) - basque folk
As músicas do mundo prosseguem com os Alboka, que nos trazem o tema “Gizonak Eztan Bear”, extraído
do álbum “Lau Anaiak” (Os Quatro Irmãos), lançado em 2004. Quarto trabalho do grupo que, para além das danças e melodias populares, retiradas dos cancioneiros bascos, integra temas instrumentais – então uma novidade na folk basca, mais habituada a trabalhos vocais – e novas canções, compostas por Allan Grifing e traduzidas para euskera pelo escritor basco Juan Garcia. O agora duo, formado pelo acordeonista Joxan Goikoetxea e pelo multi-instrumentista irlandês Alan Griffin (que há mais de vinte anos vive no País Basco), foi criado em 1994 juntamente com mais dois músicos daquela região autónoma espanhola: Txomin Artola e Josean Martín Zarko. Da sua história fazem também parte as vozes de Benito Lertxundi e Xabi San Sebastián, o violinista Juan Arriola e a cantora húngara Marta Sebestyén, que colaborou num dos álbuns do grupo. Um ensemble cujo objectivo é o de interpretar música tradicional exclusivamente de forma acústica, sua imagem de marca, e que foi buscar o nome à alboka, um aerofone pastoril basco, construído com dois chifres de vaca, e cuja sonoridade, parecida com a da gaita, se situa entre a sanfona e a bombarda francesa. Juntam-se-lhe o acordeão, o bouzuki, o bandolim, o ttun-ttun (tamboril basco, da família do saltério), a guitarra acústica, o violino, a harpa, a gaita, a flauta e as percussões. Uma ponte entre a música tradicional e a folk contemporânea, em que a energia basca se une à pureza irlandesa.

"Napoli", Kepa Junkera
(Espanha) - basque folk
Kepa Junkera de regresso ao programa com “Napoli”, tema retirado do seu último álbum “Hiri” (cidade), editado no ano passado. No seu disco mais intimista e elaborado, o músico leva-nos numa viagem por algumas das cidades e lugares de todo o mundo por onde passou. O exímio executante da trikitixa (fole do inferno), acordeão diatónico basco que em Portugal é conhecido por concertina, dá então destaque à txalaparta (instrumento de percussão, tocado com peças de madeira), à alboka (aerofone tradicional basco, constituído por dois chifres de vaca) e à sanfona. Kepa Junkera tornou-se o mais internacional dos músicos bascos ao fundir a folk da sua terra e a música triki com os ritmos do mundo. Uma palete sonora que começou com uma abertura ao jazz, à música clássica e à folk-rock, e que mais tarde anexou os ritmos do Quebeque, do Mediterrâneo, das Canárias, da Europa Central, de África e da Irlanda. Em “Hiri”, o músico de Bilbao conta com a participação de músicos como o albokari Ibon Koteron, Patrick Vaillant, Glen Velez, Marcus Suzano, Alain Bonnin, os Etxak, o Alos Quartet, Gilles Chabenat, Jean Wellers, Carlos Malta, Lori Cotler, Andy Narell, os catalães Tactequete, Xosé Manuel Budiño, os italianos Enzo Avitabile & I Bottari Di Pórtico e as vozes das Bulgarka, da cantora azeri Aygun, de José António Ramos, Benito Cabrera, Mercedes Peón e Eliseo Parra. Mas se tivermos em conta toda a discografia de Kepa Junkera, há que acrescentar ainda as colaborações de nomes como os Oskorri, o duo de txalapartaris Oreka TX, John Krikpatrick, Riccardo Tessi, Maria del Mar Bonet, Justin Vali, Hedningarna, La Bottine Souriante, Phil Cunningham, Liam O’Flynn, Béla Fleck, Andreas Wollenwaider, Pat Metheny e Caetano Veloso, bem como os portugueses Júlio Pereira e Dulce Pontes.

"Dirt And Blood", Antibalas Afrobeat Orchestra (EUA) - afrobeat
Seguem-se os Antibalas Afrobeat Orchestra com “Dirt And Blood”, tema extraído do seu trabalho de estreia “Liberation Afrobeat Volume I”, lançado em 2001. Este colectivo multiracial (eles são latinos, afro-americanos, africanos e americanos asiáticos que vivem em Nova Iorque nos bairros de Brooklyn, Manhattan e Bronx, e em Bayonne, na Nova Jérsia), formado em 1998 pelo saxofonista Martin Perna, inspirou-se no saxofonista e activista nigeriano Fela Anikulapo Kuti, fazendo renascer a herança musical do fundador da afrobeat. Um género em que os Antibalas Afrobeat Orchestra puderam enquadrar os diferentes interesses musicais e preocupações políticas de cada um dos seus membros. O som desta banda nova-iorquina, cuja formação varia entre os 14 e os 20 elementos, combina highlife, jazz, soul, funk, dub, ritmos e percussões africanas e cubanas. Eles têm tocado não só com outros criadores do legado da afrobeat, entre eles o percussionista Tony Allen ou o trompetista Babatunde Williams, mas também aberto as fronteiras a James Brown, No Doubt, Wyclef Jean ou Trey Anastasio. O cariz político das letras e as posições provocadoras dos Antibalas são outro dos aspectos da herança de Kuti. Estas incitam à insurreição e à “desfranchização” do mundo, atacando o sistema capitalista em inglês, castelhano e yoruba. Consciência social e mensagens políticas à mistura com muito ritmo e percussão...

"Marena-Wotetea", Gigi (Etiópia) - world fusion, afrofunk
Avançamos agora até à Etiópia com o tema “Marena-Wotetea”, extraído do álbum “Gold and Wax”, editado em 2006. Conhecida como Gigi, Ejigayehu Shibawba é uma das mais célebres cantoras etíopes, apresentando-se quer a solo, quer com as formações Tabla Beat Science e Abyssinia Infinite. Acompanhada por instrumentos acústicos como a harpa kirar ou a flauta washint, ela combina melodias tradicionais do seu país com uma grande variedade de estilos como o jazz, a soul, a dub e o afrofunk. A viver actualmente nos Estados Unidos da América, Gigi é casada com o baixista e produtor Bill Laswell, que há seis anos produziu o seu álbum de estreia, disco em que foram introduzidos instrumentos electrónicos e que entre os convidados incluía o célebre David Gilmore. Neste seu último trabalho, Gigi cruza harmonias africanas com elementos jamaicanos e indianos e batidas do Ocidente. Um arranjo complexo e moderno de canções de dança e melodias, com muito ritmo e percussão à mistura. São sons menos tradicionais que seguem o caminho de outros fusionistas etíopes. Um álbum que contou com a participação de músicos como o virtuoso do sarangi Ustad Sultan Khan, o mestre da tabla Karsh Kale, o teclista Bernie Worrell, Nils Petter Molvaer, ou dos músicos africanos Abesgasu Shiota, Hoges Habte Aiyb Dieng e Assaye Zegeye.

"Tauti", Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
Para já, a mais conhecida banda da folk contemporânea finlandesa traz-nos o tema “Tauti” (Doença), uma apelativa mistura de pop e rock ocidental com folk europeia e nórdica, extraída do álbum “Iki” (termo que a banda define como sendo “o sopro principal e eterno”). Trabalho editado no vigésimo aniversário do grupo, em 2003, e que marcou o seu regresso às grandes melodias. As Värttinä são conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da Carélia – uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia – reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. O grupo nasceu em Raakkylaa, uma pequena cidade na Carélia filandesa. Entusiasmados pelas mães, alguns miúdos juntaram-se para cantar músicas folk e tocar kantele (uma versão filandesa do zither, instrumento da família da cítara). À medida que foram crescendo, muitos deixaram o grupo, mas quatro raparigas criaram uma nova formação, que continuou a fazer arranjos tradicionais mas passou também a compor temas próprios. Actualmente fazem parte das Värttinä Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, vozes enérgicas e harmónicas que são suportadas por seis músicos acústicos que aliam a instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos. Uma base rítmica sólida em que se mantém o vigor e o calor vocal de sempre.

"Pjesna Ljesorubov", Mari Boine (Noruega), Inna Zhelannaya e Sergey Starostin
(Rússia) - progressive folk music
A tripla Mari Boine, Inna Zhelannaya e Sergey Starostin traz-nos “Pjena Ljesorubov” (Canção do Lenhador), tema extraído do álbum “Winter In Moscow”, lançado em 2001. No início dos anos 90, uma jornalista norueguesa apresentou a conterrânea Mari Boine àqueles dois elementos dos Farlanders, formação moscovita que misturava a folk russa com o jazz e o rock. No Inverno de 1992 todos eles juntaram-se primeira vez em estúdio em Moscovo com outros músicos noruegueses e russos para gravar este disco, trabalho onde exploram a música ocidental sem no entanto esquecerem as suas tradições. Dotada de uma voz mística, a embaixadora dos sami tem vindo a lutar pela preservação das tradições e pelo reconhecimento dos direitos do povo da Lapónia, no norte da Escandinávia. Mari Boine, que canta também em inglês, mistura o joik com os blues, o jazz, o rock e a música electrónica. Já o interesse do vocalista russo Sergey Starostin pela etnomusicologia do seu país levou-o a viajar pela então União Soviética, acabando por reunir histórias, músicas e instrumentos tradicionais. Um trabalho que deu os seus primeiros frutos no Moscow Art Trio, grupo com que combinaria elementos da folk, do jazz e da música clássica. Finalmente, a cantautora Inna Zhelannaya, que começou a sua carreira na banda Allians, destaca-se pela mistura de folclore russo e bielorusso com o rock, a música do mundo e os sons electrónicos.

"La Procesión", Kevin Johansen (Argentina) - rumba, cumbia, world fusion
A fechar o programa, despedimo-nos c
om Kevin Johansen e o tema “La Procesión”, retirado do seu segundo disco a solo “Sur o no Sur”, editado em 2002. Álbum onde o músico argentino, nascido no Alaska, envereda por canções que predominam sobre géneros tipicamente americanos mas, como ele próprio diz, “desclassificados”: o tango, o bolero, a ranchera mexicana, a rumba catalã, o samba celta, a bossanova, a cumbia flamenca, o tex-mex, o zydeco ou a milonga, habilmente cruzados com a pop, o hip-hop ou o funk. Kevin Johansen passou a sua adolescência em Buenos Aires, mas desde muito cedo que começou a percorrer o mundo de guitarra debaixo do braço. Depois de ter vivido alguns anos em São Francisco, Manhattan e Nova Iorque, no final dos anos 90 o compositor decidiu então regressar à Argentina e explorar as suas referências folclóricas, deixando para trás uma breve experiência pop-rock no grupo Instrucción Cívica. Hoje, juntamente com a sua banda The Nada, Kevin Johansen interpreta temas em castelhano, inglês ou mesmo “espanglês”, mistura de estilos e linguagens onde o humor, o sarcasmo e a ironia estão sempre presentes. Um desenraizamento sonoro, imagem de marca da Argentina actual, onde se prova que o futuro da música passa mesmo pela mistura.

Jorge Costa

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Emissão #36 - 3 Fevereiro 2007

A 36ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 3 de Fevereiro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 7 de Fevereiro, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (24 e 28 de Fevereiro) nos horários atrás indicados.

"Carolina (remix)", Taraf de Haïdouks (Roménia) e DJ Shantel (Alemanha)
- gypsy brass band, gypsy oriental music
Os Taraf de Haïdouks a abrirem a emissão com “Carolina”, uma remistura de Stephan Hantel extraída da colectânea “Electric Gypsyland”, editada em 2005. Uma série de reinterpretações e de reinvenções poéticas de músicos europeus e americanos, em que o ponto de partida é a música cigana. Os Taraf de Haïdouks ("banda de bandidos") são originários de Clejani, cidade localizada a sudoeste de Bucareste, na Roménia. Esta dezena de instrumentistas e cantores, em que convivem quatro gerações de lăutari (músicos), foi descoberta em 1990 por dois jovens músicos belgas que se apaixonaram pela sua sonoridade e decidiram dá-los a conhecer ao mundo. A música dos Taraf de Haïdouks, que varia entre as baladas e as danças, é uma mistura de estilos locais, representando na perfeição a riqueza das folk romena. O género chamou a atenção de Stephan Hantel (mais conhecido por DJ Shantel), que nos últimos anos atacou as pistas de dança com uma mistura única de downtempo e technopop. Ele cria uma mistura explosiva entre a música dos Balcãs e a electrónica, dando destaque a alguns dos maiores representantes da música cigana como Mahala Rai Banda, Fanfare Ciocărlia, Balkan Beat Box, Slonovski Bal ou Goran Bregovic. As suas famosas raves em Frankfurt, chamadas de Bucovina Club, misturam sonoridades que vêm do Brasil e do Norte de África com baladas romanas, música tradicional da Moldávia ou da Sérvia e danças dos Balcãs. O resultado é uma amálgama sonora onde existe ainda lugar para a dub, o house, a breakbeat, a bossa nova, a batucada e a música oriental.

"Lau Anaiak", Alboka
(Espanha) - basque folk
As músicas do mundo prosseguem com os Alboka e o tema “Lau Anaiak” (Os Quatro Irmãos), extraído do álbum do mesmo nome, lançado em 2004. Quarto trabalho do grupo que, para além das danças e melodias populares, retiradas dos cancioneiros bascos, integra temas instrumentais – então uma novidade na folk basca, mais habituada a trabalhos vocais – e novas canções, compostas por Allan Grifing e traduzidas para euskera pelo escritor basco Juan Garcia. O agora duo, formado pelo acordeonista Joxan Goikoetxea e pelo multi-instrumentista irlandês Alan Griffin (que há mais de vinte anos vive no País Basco), foi criado em 1994 juntamente com mais dois músicos daquela região autónoma espanhola: Txomin Artola e Josean Martín Zarko. Da sua história fazem também parte as vozes de Benito Lertxundi e Xabi San Sebastián, o violinista Juan Arriola e a cantora húngara Marta Sebestyén, que colaborou num dos álbuns do grupo. Um ensemble cujo objectivo é o de interpretar música tradicional exclusivamente de forma acústica, sua imagem de marca, e que foi buscar o nome à alboka, um aerofone pastoril basco, construído com dois chifres de vaca, e cuja sonoridade, parecida com a da gaita, se situa entre a sanfona e a bombarda francesa. Juntam-se-lhe o acordeão, o bouzuki, o bandolim, o ttun-ttun (tamboril basco, da família do saltério), a guitarra acústica, o violino, a harpa, a gaita, a flauta e as percussões. Uma ponte entre a música tradicional e a folk contemporânea, em que a energia basca se une à pureza irlandesa.

"Ritus Selenita",
Joglars e Senglars (Espanha) - celtic folk
Os catalães Joglars e Senglars estreiam-se no programa com “Ritus Selenita”, tema retirado do álbum do mesmo nome, editado em 1998. Eles são um dos mais conhecidos grupos espanhóis da música celta contemporânea. A sua criatividade vai para além dos contornos do folclore, já que combinam melodias tradicionais com composições próprias e arranjos modernos. Algo patente no segundo disco dos Joglars e Senglars, onde temas galegos, catalães, bascos, irlandeses ou macedónios se fundem com sonoridades medievais, ritmos mediterrânicos e harmonias jazzísticas, elementos pouco habituais na folk. O grupo nasceu em 1992 em Santa Coloma de Gramenet (Barcelona). Quatro jovens músicos influenciados por géneros como o jazz, o rock ou a música clássica, começam então um trabalho pioneiro de investigação musical. Um projecto de mestiçagem e de reabilitação da folk, que no entanto não perde de vista as tradições. Para além das gaitas galegas e irlandesas, a banda, hoje formada por David Lafuente, Víctor Fernández e Miguel Ángel Vera e a que se juntam Tato Latorre, Rafa Martín e Michel Solves, recorre a elementos de percussão originais, bem como a instrumentos eléctricos como a guitarra ou o sintetizador.

"Poulo", Amadou & Mariam (Mali) - afropop blues
Segue-se a dupla Amadou & Mariam, que nos traz o tema “Poulo”, extraído do álbum “Wati” (Os Tempos, em bambara), editado em 2002. Um afropop blues, recheado de ritmos africanos, batidas funky e riffs de guitarras, onde se podem encontrar influências tão inesperadas como o cavaquinho português ou o violino de Bengala. Naquela que é a mais roqueira pop africana, não faltam as habituais alusões ao quotidiano do seu país e as letras que apelam à paz, ao amor e à justiça. Neste trabalho, Amadou & Mariam prestam homenagem à música tradicional maliana, ainda que embrulhada em sons ocidentais, tendo por convidados os franceses Mathieu Chedid, Jean-Philippe Rykiel, Sergent Garcia, o marroquino Hamid el Kasri e os malianos Cheick Tidiane Seck, Moriba Koïta e Boubacar Dambalé. Mariam Doumbia começou por cantar em casamentos e festivais tradicionais, enquanto que Amadou Bagayoko era guitarrista nos Les Ambassadeurs, banda lendária a que mais tarde se juntou Salif Keita. Os dois são invisuais e conheceram-se em 1977 no instituto de cegos de Bamako, a capital do Mali. A partir de então tornaram-se inseparáveis na vida e na carreira. Cantando em francês, castelhano e no seu dialecto original, estes bambara (etnia maioritária no Mali) vão buscar referências musicais à sua adolescência: a pop, o rock psicadélico e a salsa dos anos 60, e o funk e a soul da década seguinte. Uma forma através da qual recordam não só as suas raízes mandingo, mas também as teias invisíveis que ligam o Mali ao gnawa, à música cubana e ao jazz, tornando universal a música daquele país.

"Ambasale", Gigi (Etiópia) - world fusion, afrofunk
Avançamos agora até à Etiópia com o tema “Ambasale”, extraído do álbum “Gold and Wax”, editado em 2006. Conhecida como Gigi, Ejigayehu Shibawba é uma das mais célebres cantoras etíopes, apresentando-se quer a solo, quer com as formações Tabla Beat Science e Abyssinia Infinite. Acompanhada por instrumentos acústicos como a harpa kirar ou a flauta washint, ela combina melodias tradicionais do seu país com uma grande variedade de estilos como o jazz, a soul, a dub e o afrofunk. A viver actualmente nos Estados Unidos da América, Gigi é casada com o baixista e produtor Bill Laswell, que há seis anos produziu o seu álbum de estreia, disco em que foram introduzidos instrumentos electrónicos e que entre os convidados incluía o célebre David Gilmore. Neste seu último trabalho, Gigi cruza harmonias africanas com elementos jamaicanos e indianos e batidas do Ocidente. Um arranjo complexo e moderno de canções de dança e melodias, com muito ritmo e percussão à mistura. São sons menos tradicionais que seguem o caminho de outros fusionistas etíopes. Um álbum que contou com a participação de músicos como o virtuoso do sarangi Ustad Sultan Khan, o mestre da tabla Karsh Kale, o teclista Bernie Worrell, Nils Petter Molvaer, ou dos músicos africanos Abesgasu Shiota, Hoges Habte Aiyb Dieng e Assaye Zegeye.

"Hatul Vehatula", Boom Pam (Israel) - world fusion, surf rock

Para já, acompanha-nos um dos melhores grupos israelitas e uma banda de culto naquele país. Os Boom Pam
, que começaram por tocar em clubes e casamentos, trazem-nos o tema “Hatul Vehatula”, extraído do álbum do mesmo nome da banda, lançado no ano passado. Formados em 2003, os Boom Pam foram buscar a identidade ao cover da canção grega que tocaram com a estrela de rock Berry Sakharof, um êxito que ocupou as tabelas israelitas em 2004, à semelhança do que acontecera em 1969 com o cantor grego Aris San, emigrado em Tel Aviv. Os guitarristas Uzi Feinerman e Uri Brauner Kinrot começaram por experimentar sons orientais, até que se lhes juntaram a tuba de Yuval “Tubi” Zolotov e as percussões de Dudu Kohav. Depois do sucesso alcançado no Médio Oriente, eles chegaram ao público europeu, graças sobretudo ao DJ Shantel, que co-produziu o seu primeiro lançamento internacional e os descobriu numa das suas visitas a Tel Aviv, convidando-os então a participarem em vários espectáculos no seu Bucovina Club em Berlim, Frankfurt, Colónia e Zurique. Onde quer que actuassem, os Boom Pam deixavam o público em brasa com a sua mistura enérgica de rock do Médio Oriente com uma amostra de Balcãs, alguma irreverência e muito groove. Fugindo ao cliché do klezmer, geralmente associado à música judaica, eles criam um cocktail dos diferentes estilos que habitualmente se cruzam em Tel Aviv. Uma fusão única de estilos mediterrânicos, balcânicos e gregos, combinados com melodias judaicas, surf rock e música circense.

"Naar Oostland", Jams (Alemanha) - german folk
Os JAMS trazem-nos o tema “Naar Oostland”, retirado do álbum “Fisch” (Peixe), editado em 1997. Disco onde o grupo deixa para trás os temas instrumentais e a céilidh (dança tradicional gaélica), e descobre as suas raízes, apresentando várias canções em plattdeutsch (dialecto falado nas planícies setentrionais daquele país, mas que a maioria dos alemães simplesmente não compreende). São arranjos engenhosos e uma instrumentação especial, onde há lugar para a melódica (aerofone de palhetas, semelhante ao acordeão e à harmónica de boca), o bandolim, o saxofone, o clarinete, o contrabaixo e os tambores. Por vezes divertidos, mas sempre próximos das tradições musicais alemãs, os JAMS fundem tradições klezmer, balcânicas, alemãs e da Europa de Leste. Formados nos anos 80 na parte leste de Berlim, os JAMS marcaram o florescimento da folk alemã numa altura em que as bandas pareciam surgir como cogumelos. Num festival, o quarteto apresentou-se então com os primeiros nomes dos seus elementos: Jo-Andy-Micha-Session. Isto porque alguém juntou os nomes dos três no cartaz de apresentação do grupo. A organização é que não achou grande piada à longa palavra, que acabou por ser abreviada para JAMS (o que em plattdeutsch significa “sessão”). Apesar de a maior parte dos elementos originais já se terem afastado, manteve-se o nome da banda, hoje uma das mais conhecidas da folk germânica.

"Fábula Bêbada",
JP Simões (Portugal) - luso-samba
A fechar o programa, despedimo-nos com “Fábula Bêbada”, tema retirado do disco de estreia a solo de João Paulo Simões, editado no mês passado. Depois de projectos como os Pop Dell’Arte, Belle Chase Hotel, A Ópera do Falhado e Quinteto Tati, o compositor e intérprete conimbricense envereda agora por um trabalho eminentemente pessoal e conceptual. No álbum de nome “1970”, seu ano de nascimento, JP Simões estabelece uma viragem na carreira. Um recomeço artístico em tempos de crise, onde o cantautor tentou criar uma canção portuguesa que se encaixasse na vitalidade da música brasileira. O resultado é uma espécie de pátria ficcional, situada entre Lisboa e o Rio de Janeiro, território onde nasce este luso-samba. Um álbum catársico e recheado de inquietações, onde é retratada uma geração que desapareceu sem ter cumprido os seus ideiais. Nesta colecção de sentimentos, memórias e pessoas, destacam-se a luminosidade dos arranjos de Tom Jobim, a toada da guitarra de João Gilberto e a arquitectura da canção de Chico Buarque. Eis uma realidade musical brasileira, sonhada em português…

Jorge Costa

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Emissão #32 - 9 Dezembro 2006

A 32ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 9 de Dezembro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 11 de Dezembro, entre as 19 e as 20 horas, sendo reposta três semanas depois (30 de Dezembro e 1 de Janeiro) nos horários atrás indicados.

"Are You Gyspifiled? (megamix)", Olaf Hund (França) & Koçani Orkestar (Macedónia), Taraf de Haïdouks (Roménia) e Ursari de Clejani (Roménia)
- gypsy brass band, gypsy oriental music
A abrir a emissão, o compositor francês e produtor de música electrónica Olaf Hund com a remistura “Are You Gypsified?”, extraída da colectânea “Electric Gypsyland”, editada no ano passado. Uma série de reinterpretações e de reinvenções poéticas de músicos europeus e americanos, em que o ponto de partida é a música cigana. Neste megamix, Olaf Hund mistura temas de três das mais conhecidas bandas dos Balcãs: os Koçani Orkestar, os Taraf de Haïdouks e os Ursari de Clejani. Originários da cidade macedónia do mesmo nome e liderados pelo trompetista Naat Veliov, os Koçani Orkestar combinam o som das fanfarras com ritmos de dança turcos e búlgaros e melodias ciganas dos Balcãs. O resultado é uma frenética festa sonora, localmente apelidada de Romska Orientalna Musika (música cigana oriental). Já os Taraf de Haïdouks ("banda de bandidos") são originários da cidade romena de Clejani, situada a sudoeste de Bucareste. Uma dezena de instrumentistas e cantores, com idades entre os 20 e os 78 anos, descobertos em 1990 por dois jovens músicos belgas que se apaixonaram pela sua sonoridade e decidiram levá-los até à Bélgica para os darem a conhecer ao mundo. A sua música, que varia entre as baladas e as danças, é uma mistura de estilos locais, representando na perfeição a riqueza das folk romena. Finalmente, e ainda na mesma cidade, encontramos os Ursari de Clejani, representantes do estilo vocal ursari e descendentes de uma família de domadores de ursos, e que no passado colaboraram num dos álbuns dos Taraf de Haïdouks.

"Urrutiko Polkak", Alboka
(Espanha) - basque folk
As músicas do mundo prosseguem com os Alboka e o tema “Urrutiko Polkak”, extraído do álbum “Lau Anaiak” (Os Quatro Irmãos), lançado em 2004. Quarto trabalho do grupo que, para além das danças e melodias populares, retiradas dos cancioneiros bascos, integra temas instrumentais – então uma novidade na folk basca, mais habituada a trabalhos vocais – e novas canções, compostas por Allan Grifing e traduzidas para euskera pelo escritor basco Juan Garcia. O agora duo, formado pelo acordeonista Joxan Goikoetxea e pelo multi-instrumentista irlandês Alan Griffin (que há mais de vinte anos vive no País Basco), foi criado em 1994 juntamente com mais dois músicos daquela região autónoma espanhola: Txomin Artola e Josean Martín Zarko. Da sua história fazem também parte as vozes de Benito Lertxundi e Xabi San Sebastián, o violinista Juan Arriola e a cantora húngara Marta Sebestyén, que colaborou num dos álbuns do grupo. Um ensemble cujo objectivo é o de interpretar música tradicional exclusivamente de forma acústica, sua imagem de marca, e que foi buscar o nome à alboka, um aerofone pastoril basco, construído com dois chifres de vaca, e cuja sonoridade, parecida com a da gaita, se situa entre a sanfona e a bombarda francesa. Juntam-se-lhe o acordeão, o bouzuki, o bandolim, o ttun-ttun (tamboril basco, da família do saltério), a guitarra acústica, o violino, a harpa, a gaita, a flauta e as percussões. Uma ponte entre a música tradicional e a folk contemporânea, em que a energia basca se une à pureza irlandesa.

"Sort of Slides: Choice Language/Bring Out the Wilf/Come Ahead Charlie", Capercaillie
(Reino Unido) - celtic folk
Os escoceses Capercaillie regressam ao programa, desta feita com o medley “Sort of Slides: Choice Language/Bring Out the Wilf/Come Ahead Charlie”, extraído do álbum “Choice Language”. Neste trabalho, editado em 2003, a mais popular banda da folk escocesa funde amostras de som e secções de ritmo com instrumentos tradicionais como o bouzouki, o whistle, o violino e a gaita irlandesa. Formados em 1984 na Oban High School, os Capercaillie remodelaram a paisagem sonora celta e construíram uma sólida reputação graças à forma como abordam a música tradicional das West Highlands. Um octeto que em todo o mundo já vendeu mais de um milhão de álbuns e que mistura a folk gaélica com ritmos contemporâneos, adicionando-lhes poderosas vozes e instrumentos electrónicos. Karen Matheson dá voz às composições da banda e a antigas canções gaélicas com mais de 400 anos, grande parte delas aprendidas na infância com a avó. O grupo fica completo com Donald Shaw, fundador dos Capercaillie, Che Beresford, Ewen Vernal, David Robertson, Charlie McKerron, Manus Lunny, Ewan Vernol, James Mackintosh e Michael McGoldrick.

"Yehlisan'Umoya Ma-Afrika", Busi Mhlongo
(África do Sul) - afro pop, maskanda, mbaqanda
Avançamos agora até à África do Sul com Busi Mhlongo, que nos traz o tema "Yehlisan'Umoya Ma-Afrika", extraído do álbum "Urbanzulu", lançado em 2000. Disco em que colaboraram vários músicos, entre eles, dois da banda Phuzekhemisi, que com ela compuseram este álbum simultaneamente africano e ocidental. A diva da afropop foi a primeira mulher a internacionalizar a maskanda, género tradicional zulu que expressa a alegria e o lamento presentes na moderna vida da urbana África do Sul, e outrora característico dos trabalhadores e migrantes rurais. No entanto, Busi Mhlongo percorre outros estilos sul-africanos, fundindo-os com o jazz, o funk, o rock, o gospel, o rap e o reggae, e usando coros e instrumentos não tradicionais. Ao longo da sua carreira, actuou com alguns dos melhores nomes do jazz e estrelas da mbaqanga (género vocal, desenvolvido a partir de um estilo negro urbano, em que se destacam as vozes graves masculinas, e que se transformou no mqashiyo, um popular género de dança). Impedida de regressar à África do Sul, o que só aconteceria nos anos 90, Busi Mhlongo passou vários anos em Portugal, cantando temas populares e canções africanas em casinos. Durante o exílio, ela viveu ainda em Londres, no Canadá e em Amesterdão, cidade onde trabalhou com músicos africanos e desenvolveu o seu estilo único. Não é por acaso que, nas suas letras, Busi Mhlongo fala da necessária reconciliação entre sul-africanos com diferentes aspirações políticas.

"Les Temps On Changé", Amadou & Mariam
(Mali) - afropop blues
A dupla Amadou & Mariam de volta ao programa, desta feita com o tema “Les Temps Ont Changé”, extraído do álbum “Wati” (Os Tempos, em bambara), editado em 2002. Uma música onde o casal critica o individualismo das novas gerações, utilizando a mais roqueira pop africana. Um afropop blues, recheado de ritmos africanos, batidas funky e riffs de guitarras, onde se podem encontrar influências tão inesperadas como o cavaquinho português ou o violino de Bengala. E como é habitual, não faltam as alusões ao quotidiano do seu país e as letras que apelam à paz, ao amor e à justiça. Neste trabalho, Amadou & Mariam prestam homenagem à música tradicional maliana, ainda que embrulhada em sons ocidentais, tendo por convidados os franceses Mathieu Chedid, Jean-Philippe Rykiel, Sergent Garcia, o marroquino Hamid el Kasri e os malianos Cheick Tidiane Seck, Moriba Koïta e Boubacar Dambalé. Mariam Doumbia começou por cantar em casamentos e festivais tradicionais, enquanto que Amadou Bagayoko era guitarrista nos Les Ambassadeurs, banda lendária a que mais tarde se juntou Salif Keita. Os dois são invisuais e conheceram-se em 1977 no instituto de cegos de Bamako, a capital do Mali. A partir de então tornaram-se inseparáveis na vida e na carreira. Cantando em francês, castelhano e no seu dialecto original, estes bambara (etnia maioritária no Mali) vão buscar referências musicais à sua adolescência: a pop, o rock psicadélico e a salsa dos anos 60, e o funk e a soul da década seguinte. Uma forma através da qual recordam não só as suas raízes mandingo, mas também as teias invisíveis que ligam o Mali ao gnawa, à música cubana e ao jazz, tornando universal a música daquele país.

"Kadife", Richard Hagopian
(EUA) & Omar Faruk Tekbilek (Turquia) - bellydance
A viagem prossegue com Richard Hagopian e Omar Faruk Tekbilek, que nos trazem "Kadife", tema extraído do álbum "Gypsy Fire", lançado em 1995. Uma recriação do ambiente underground multiétnico da Oitava Avenida em Nova Iorque na década de 1950, onde ciganos, arménios, turcos, judeus, gregos e árabes tocavam juntos. Álbum que reúne alguns dos melhores músicos do Médio Oriente, Europa de Leste e Estados Unidos da América, e em que participam ainda o lendário saxofonista turco Yuri Yunakov; Hasan Iskut, tocador de kanun, o "piano" da música turca; o violinista Harold Hagopian, filho de Richard Hagopian; o percussionista Arto Tunçboyaciyan; o guitarrista Ara Dinkjian e o baixista Chris Marashlian. Considerado um dos melhores tocadores de alaúde do planeta, Richard Hagopian é também um dos mais reconhecidos músicos e etnomusicologistas de ascendência arménia. Ele nasceu na Califórnia, nos Estados Unidos, e aprendeu a tocar violino e clarinete aos oito anos. Mais tarde, estudou com o famoso artista arménio Garbis Bakirgian. Hoje diz tocar mais de cinquenta instrumentos. Omar Faruk Tekbilek é também um virtuoso multinstrumentista. Ele iniciou a sua carreira musical aos oito anos com a kaval (uma pequena flauta diatónica), tendo aprendido a tocar instrumentos como a ney (flauta de bambú), a zurna (tipo de oboé), a baglama (alaúde de braço comprido) ou o oud (alaúde árabe). A sua música, enraizada na tradição turca, foi influenciada por múltiplos estilos e instrumentações árabes e orientais, emanando misticismo, romance e imaginação. Radicado em Nova Iorque, ele colabora sobretudo com o produtor e guitarrista norte-americano Brian Keane, a cujas bases electrónicas acrescenta os sons da flauta e da percussão.

"Sidi H’Bidi", Les Boukakes (França) - raï n'rock, afrobeat, reggae
Os Les Boukakes apresentam-se com o tema "Sidi H’Bidi", extraído do seu último álbum "Bledi", editado em 2004. Um trabalho onde o raï argelino e o gnawa marroquino surgem à mistura com o rock e a música electrónica, provando ser possível e agradável a combinação entre ocidente e oriente. Esta banda masculina de sete elementos, formada em 1998, é liderada pelo cantor argelino Bachir Mokhtare e inclui músicos tunisinos e franceses. Os Boukakes, que no passado mês de Novembro foram nomeados para os BBC Radio 3 Music Awards, foram buscar o seu nome à mistura fonética de dois típicos insultos racistas. Uma reacção - pouco chocante, no entender deles - às referências menos abonatórias que costumavam receber quando se estrearam nas ruas. Sem fazerem comentários políticos ostensivos nas suas canções, os Boukakes apelam deliberadamente à resistência ao status quo e à ignorância generalizada. Letras que são combinadas com melodias orientais e instrumentos diversos, como o karkabou/qarqabou (grandes castanholas metálicas marroquinas), a derbouka (instrumento de percussão magrebino), o bendir (outro instrumento de percussão), o tar (alaúde iraniano), o duf (espécie de pandeireta), a tabla, o banjo, a guitarra ou o baixo. Anos depois, eles passaram das ruas para os bares e dos pequenos concertos para os festivais, encontrando finalmente o seu público. Desde então, têm partilhado o palco com músicos e bandas famosas como os Zebda, The Wailers, Manu Chao, Natacha Atlas, Taraf De Haïdouks, Cheikha Rimitti e Rachi Taha. Em 2004, o seu raï n'rock conquistou finalmente grande projecção, ao ganharem diversos prémios profissionais.

"Le Mec Aux Tics", Opa Tsupa (França) - jazz manouche
Os sons deste planeta musical continuam com os Opa Tsupa, que nos trazem o tema "Le Mec Aux Tics", extraído do álbum "Bastringue", editado este ano. Os Opa Tsupa são uma formação de jazz manouche, nascida em 2000. Este quinteto acústico mistura o som de Django Reinhardt, um dos mais importantes guitarristas de jazz de todos os tempos, com o gypsy swing, a musette, o rock, o funk, a bossa nova e a chanson française. O seu repertório é composto por criações originais, inspiradas em géneros como o swing dos anos 30, a música judaica e as músicas tradicionais ciganas, e em artistas tão diversos como Jacques Higelin, Paris Combo ou Latcho Drom. Para isso, os Opa Tsupa utilizam diversos instrumentos acústicos de corda - bandolim, contrabaixo, violino, guitarra, banjo, oukoulélé - aliando o swing e o humor a uma sonoridade que se aproxima à da dos Bratsch, dos Primitifs du Futur ou dos Sansévérino.

"Rumelàj", Djamo (França) - gypsy music
Seguem-se os Djamo, que mais uma vez regressam ao programa, trazendo-nos agora o tema "Rumelàj", extraído do álbum "Chants Tziganes Métissés". Um ensemble françês que tem como repertório principal os cantos e a música cigana mestiça. Este jovem grupo originário da região de Poitou-Charentes, localizada no centro-oeste de França, leva-nos à descoberta das músicas ciganas e magrebinas. Neste álbum, eles são acompanhados por outros embaixadores dos sons mestiços, entre eles os Dikès e, precisamente, os Opa Tsupa.

"1000 Mirrors", Badi Assad
(Brasil) - brazilian music
A fechar o programa, despedimo-nos com Badi Assad e o tema "1000 Mirrors", extraído do seu último trabalho "Wonderland", editado este ano. Este foi produzido por Jacques Morenlenbaum, e conta com a participação especial de Seu Jorge, entre outros músicos. Um álbum onde Badi Assad desmonta uma série de espelhos humanos, falando com a voz e com a percussão do próprio corpo sobre a violência doméstica, o alcoolismo ou a prostituição. Badi, cujo verdadeiro nome é Mariângela, foi baptizada em pequena pela mãe com parte do apelido
libanês do pai, o qual em árabe significa Leão Milagroso. A cantora e compositora brasileira, nascida em São João da Boa Vista, no estado de São Paulo, começou como violinista clássica e aperfeiçoou a sua técnica instrumental, deixando para trás a formação académica e o universo da música erudita, que trocou pelo ritmo das canções da música popular. Tal como os irmãos violinistas Sérgio e Odair, que hoje formam o duo Assad, Badi começou a carreira como instrumentista, primeiro ao piano e depois à guitarra (conhecida no Brasil por violão). Em 1998, um problema na mão obrigou-a a ficar dois anos sem tocar, até que acabou pode descobrir outra forma sublime de expressão: o canto.

Jorge Costa